Vale o Escrito, com Fal Azevedo

Fal Vitiello Azevedo é escritora, tradutora, preparadora de originais, blogueira, autora dos livros “Crônicas de Quase Amor”, “O Nome da Cousa” e “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite”. Fal também é professora e está promovendo uma nova edição da oficina de escrita criativa “Vale o Escrito”, em que tratará de técnicas de escrita, literatura, blogs, sangue, suor e lágrimas na organização de textos.  A gente já fez e recomenda demais.

Fal escreve desde 2002 o Drops da Fal e, atualmente, tem uma coluna no Oba Gastronomia. De escrita cativante, sem reserva, dada, danada e, esperamos, das que se agrada de andar seminua, convidamos para um papo com o Biscate.

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Luciana e Renata, tirando uma casquinha da Fal

1. Como o “escrever” aconteceu na sua vida? E como se tornou sua atividade profissional? Atualmente você separa escrita amadora e profissional na sua produção?

Venho de uma família que lida muito bem com a palavra e muito mal com emoção. Somos assim, todos nós. E, de forma geral, sempre foi também uma forma de ordenar meus pensamentos. Além disso, e acima de tudo isso, aprendi a escrever para ser amada. Aprendi bem cedo que muito pouco ou quase nada do que eu fazia rendia elogios e abraços. Lá em casa, digo. E minhas redações geravam abraços e tapinhas na cabeça. Escrevo, basicamente, para você gostar de mim. Acho que nunca nos livramos da casa do pai.

Em 1998, reuni meia dúzia de crônicas num livro cuja publicação meu pai bancou. Como não poderia deixar de ser, foi um encalhe monumental. Algum tempo depois, descobri os blogs. Fiz um. E descobri que tem leitor para todo mundo, é só procurar, trabalhar bastante e não ser chato. A parte do “não ser chato” ainda estou tentando. Achei meus leitores, continuei a escrever. Parei. Voltei. Parei. Voltei.

Não tenho escrita profissional e amadora, não, só tenho a minha escrita e toda ela é uma coisa só.

O que aprendi é que texto é vaca. Escrita é boi. Tudo, mas tudo mesmo, se aproveita.

Aquela lista que você escreveu em 1983, vira uma coluna, vinte anos depois. E-mails viram contos. Aquela historieta que você começou a bolar sem saber para onde ia, vira livro. Outra coisiquita, post no blog. Tudo se recicla, tudo se aproveita.

Quando você tem paixonite antiga por algum escritor, como eu tenho pelo [Luis Fernando] Verissimo e pela [Erma] Bombeck, esse processo fica mais claro: é só xeretar na obra deles que você vê. O velho reescreve a mesma crônica um monte de vezes. Rouba de si mesmo o mote, o tema, as expressões, uma ou outra situação. A Bombeck a mesma coisa. Então, tudo se aproveita.

Não separo nada, escrevo muito, escrevo tudo, escrevo, escrevo, reescrevo, digito só para imprimir e rabiscar de novo, e sigo nesse processo, garimpando aqui e ali, refazendo, cortando, explicando, refazendo, refazendo.

2. Quais as fronteiras entre ficção e não-ficção na literatura, pra você?

Não existem. Caiu no papel é ficção. O Verissimo diz “não existe a verdade, existe a versão que colou”. Tudo é versão, todo o contar é subjetivo. Suas influencias, seus gostares, seus preconceitos, sua leitura do mundo, permeiam tudo o que você diz, conta, vê, come, escreve, entende, deseja. Você mesmo é todinho uma versão, uma invenção, uma montagem completa e irreversivelmente subjetiva.

Precisamos lidar com essa falta de limite da ficção com a realidade da melhor maneira possível, porque ela sempre vai existir.

3. O que você acha importante dizer pra alguém que está começando a escrever?

Que escrever é trabalho pesado. Diário. Duro. Não existe texto pronto, não existe “eu estava ali e pá, o texto saiu pronto” e mesmo inspiração, se é que existe, é coisa rara e difícil. Uma obra não se constrói na base da inspiração. Você precisa de horas de voo, muitas, muitas mesmo.

Depois: há que se estabelecer um método. Tem quem ria de mim e das minhas listas, mas vou dizer: se organização não for tudo, é quase.

Método, rotina, uma ordem a ser seguida, trabalho, trabalho. Fechar rede social, e-mail, parar com essa palhaçada de ficar no Facebook falando coisas imbecis do tipo “enquanto me preparo para começar o capítulo 1 da minha obra, observo e o luar e…”. Mano, vai se catar. Para com isso. Vai trabalhar. A Palestina, os índios, o Congresso, a eleição, todas causas meritórias e tal, parabéns, mas nada, nada, nada disso vai botar seu livro em pé, desculpe. Vai trabalhar. O Freixo não vai escrever seu livro por você.

O cara que escreve precisa, quer e deve ser lido. Sim, sim. Quem escreve “para expressar seu rico mundo exterior e não para ser lido pelo outros” é favor fazer isso no caderninho de capa florida que fica escondido debaixo do colchão.

O escritor dá a cara a tapa, precisa estar preparado para o tapa. Que virá. Ele vai ser avaliado, vai ser julgado. Nesse país que ninguém lê porra nenhuma, todo mundo é crítico literário, é impressionante.

O olhar dos outros é importante, é para recebê-lo que você escreve. Então, há que se buscar o equilíbrio entre valorizar o olhar alheio e não deixar que ele domine a sua vida. O dia que você diz “não posso escrever isso porque a minha cunhada vai achar que é pra ela”, “porque a minha mãe vai ficar sentida”, amigo, larga tudo.

Escrever é aprender a se dividir entre se importar com a aprovação alheia e andar todo mundo pro diabo. Você tem de querer o olhar do outro e, ao mesmo tempo, não permitir que ele determine seus passos.

4. Você acha que ser tradutora ajuda ou atrapalha seu ofício de escritora?

Ajuda, sempre. Traduzir constantemente cria uma intimidade com as palavras que só aumenta, e isso é maravilhoso. Libertador. Eu adoro ser tradutora.

5. O que é que você acha mais difícil na hora de escrever?

Estabelecer o tema, encontrar o narrador. Encontrar o narrador ocupa meus dias. Narrador, esse cara fugidio, difícil, malvado, inconstante.

6. Como surgiu a ideia da oficina? Quem é o público-alvo? Qual a contribuição que você supõe para quem não tem a escrita como profissão?

Faço isso há muitos anos. Botar o cara escrevendo, digo. Comecei na década de 1990, ajudando os alunos de um curso de pós em Sexualidade Humana a montarem seus textos, a organizarem os pensares.

O público alvo da oficina é quem quer escrever. Quem deseja pensar melhor e de forma mais organizada. Expressar-se melhor.

Todo mundo precisa escrever melhor. Trabalhando com advogados e engenheiros, afirmo: todo mundo. Organizar o discurso, passar o recado, fazer um registro decente não são habilidades necessárias só para quem tem a escrita como profissão.

É humano registrar e anotar e analisar e entender. O que chamamos de História só começou quando inventamos a escrita. Todo mundo precisa escrever bem.

Ao contrário do que reza o senso comum, acho um baita elitismo relegar a boa escrita aos “profissionais”. A técnica tem de alcançar todo mundo. As pessoas têm o direito de saber que existe uma técnica, de se apropriarem dela. É isso que tento trabalhar nas oficinas.

7. “Madame Bovary sou eu”, disse Flaubert. O que você comentaria sobre estilo? Você acha que tem um? De onde vem o estilo, em sua opinião?

Estilo é prática. Estilo não se inventa: aparece quando você, todo santo dia, senta na frente do computador, do caderno, do bloquinho e escreve. E reescreve. E tenta outro narrador. E faz exercícios escrevendo o mesmo trecho com sem adjetivos, com e sem verbos no infinitivo, com diversos narradores. Estilo é o que se sobressai, depois de muita, muita prática.

Faço isso há muito tempo. Ler e escrever. Tenho um estilo. Que vai mudando, sendo alterado, perdendo e ganhando características, mas que está lá. E isso acontece com todo mundo que se dedica.

E importante, o estilo vem, também, da leitura. Acho que nunca vou falar isso o suficiente, você precisa ler. Todo dia. Sempre. Ler, ler.

Leitura e prática diária, atenta, dedicada: o estilo virá daí. Não cai do céu.

8. O imaginário do senso comum geralmente relaciona escrever com inspiração. As pessoas da área geralmente ressaltam a transpiração envolvida. Como acontece na sua produção? Escrever é um trabalho com que especificidades, na sua vivência?

Geralmente frustro quem me procura para obter dicas sobre escrita, porque acho o seguinte: não existe inspiração. Se existe, é uma centelha. É um tico-tico de um segundo, é um brilho no olho. O resto é só trabalho, frustração, leitura em voz alta, chiliques variados, livro de consulta pra todo lado, dicionários. Escrever é eito. Não é bonito. Não é um processo suave, você ali, de cabelo assentado, bebendo coquetéis e fazendo charme.

Esse negócio de “eu tive uma ideia” é lindo, mas uma história não se constrói assim.

Quem fala de transpiração está coberto de razão – e de suor. É isso, e quase que só isso. Zero glamour. Zero gracinha. Zero vibe “poeta maldito”. Zero pose na rede social. Só trabalho. E café.

As particularidades são muitas.

Você precisa de organização, de descobrir como você produz melhor. Precisa descobrir quantas horas por dia ou por semana terá para dedicar ao projeto. Pensar sobre o que você vai escrever, se tem prazo, se tem normas, se você precisa de ajuda com a pesquisa, se seu equipamento é suficiente, se você precisa de ajuda com transcrição ou com tradução.

Desenvolver o trabalho sempre atento ao método, à constância, à qualidade da produção.

E depois do trabalho pronto, especialmente se for um livro: você precisa de uma leitura crítica. Você precisa de preparação de original. E você precisa de revisão. E nenhuma dessas coisas pode ser feita por você. E todas, todas elas precisam de tempo. E de profissionais fazendo, PARA de encher o saco dos seus amigos, cara. Para. Sabe aquele “Dá uma lidinha e me diz…”? Não faz isso com seus amigos. Seus amigos não amam o que você escreve, eles amam você. Seu irmão não dá a mínima pro seu livro e ainda perdeu a cópia com dedicatória amorosa que você deu pra ele. Ninguém da sua família dá a mínima pro que você escreve e seus amigos, juro, têm mais o que fazer. Para de ser chato. Contrata profissionais pra lerem você. Ou faz escambo com seus amigos revisores e preparadores. Nós adoramos escambo.

Revisão, especialmente, é um negócio que precisa de dois, três meses, porque, num mundo ideal, o revisor precisa ler, anotar, refazer, deixar o livro descansar um mês e daí voltar a ele. Na organização que sustenta o mercado editorial brasileiro é impossível, espera-se revisão feita em uma semana. Mas enfim, no seu livro lindo, do seu coração, que não obedece a nenhum prazo arbitrário e sem noção, por favor, reserve meses para que alguma alma dedicada e fofa possa revisar seu trabalho como ele merece. Compensa demais, demais, demais.

Além disso tudo, que é muito importante, tem o seguinte: apesar do trabalho insano e da falta de sono e da frustração e da busca inglória pela palavra exata, escrever precisa ser um movimento no sentido do prazer. Da alegria. Eu me recuso a aceitar esse negócio do “o processo é horrendo, eu gosto é do resultado”. O processo tem que ser delicioso. Cada passo, cada capítulo, cada noite em claro têm de fazer você feliz.

Desejo que você se sinta feliz escrevendo seu livro, sua tese, seu doutorado, sua poesia. Por isso, também, não compro esse papo furado de poeta maldito. Sabe esses caras que dizem que não buscam felicidade, que felicidade não existe, e blablablá? Fuja desses picaretas e vá ser feliz com sua escrita, seu processo, sua narração, suas personagens, com o café frio, as noites em claro, o computador que ferve. Ainda que lá no meio doa e tal, o processo não pode ser baseado em dores d’alma, estilo século XIX. Se não for para ser feliz no meio dessa confusão, melhor jogar paciência. Ou fazer pose na rede social. Dá um ibope danado fazer pose na rede social, aliás. Mas se for pra escrever, mete a cara.

Informações

Vale o Escrito no Rio de Janeiro: Casa Clássica – 26 de novembro de 2016, 13h-18h (inscrições no link)

Vale o Escrito em Sorocaba: Granja Olga – 03 de dezembro de 2016, 14h-18h (inscrições no link)

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2 ideias sobre “Vale o Escrito, com Fal Azevedo

  1. Renata Lins e Luciana Nepomuceno, gostei muitíssimo dessa entrevista com a Fal. Orientando estudantes em suas escritas monográficas, escrevendo artigos… enfim, vivendo o desafio diário de escrever e ajudar a escrever, lido sempre com o quanto é duro, exigente e ao mesmo tempo tão necessário esse desafio da escrita. Porque escrever é pensar. É organizar esse turbilhão de sentidos e diálogos que nos habitam. E ser duro faz parte. Acho até que é a beleza da coisa. Bjo nas duas.

    • Dri, que delícia de comentário. É mesmo um desafio, né. E concordo demais que organizar as letrinhas é organizar o pensamento. Estruturar parágrafos, ver o que vem antes, o que vem depois, como se fazem as conexões, o que ressaltar, o que é enfeite ou apêndice….
      Pra mim foi muito importante ter feito exercícios de expandir e de resumir textos. Ajudou um monte nesse processo de entender a escrita.
      Acho que a Fal vai numa linha de pensamento bem parecida com a sua: não dá pra prescindir da técnica. É suor mesmo. Beijo e obrigada pela visita!

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