Da Força Que Nunca Seca

Por Fran Nepomuceno, Biscate Convidada

No sertão do Ceará, na cidade de Morada Nova, nasceste. Segundo a medicina e a sociedade, eras um menino. Nunca te identificaste como tal, tanto que, quando começaste a se relacionar afetivamente, aos 11 anos, era a meninos que te afeiçoavas sem se sentir vivendo uma relação homoafetiva. Aos 14 anos, abandonaste todos os rótulos que deram a ti. Desabrochou Kyara. E, à época, de tudo que existia dentro da tua caixinha, o ser mulher era o que mais se aproximava do teu desejo.

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Mesmo se sentindo realizada por assumir essa “identidade feminina” e construir tua realidade nessa condição, ainda sentias que te faltava algo. Embora seja uma sensação que nunca ganha sossego, aquilo te incomodava visceralmente.

Tempos depois, já iniciada a transição, sentias que sempre estava no começo de tudo, pois se ser homem não bastava, ser mulher não estava dando conta também em te definir.

Tanta clareza tinhas dessa incerteza que acaso te perguntassem: Quem és tu? Certamente devolveria a mesma infame pergunta: E tu, quem és? Pois já havia percebido que tua identidade não era mais limitada ao binarismo de gênero, e sim, feita de muitas possibilidades.

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Porém continuavas a ser mulher trans que, por questões políticas, reivindicava-se travesti, sabendo que, no fundo, essas questões de gênero são meras construções fadadas a repetições. Sabias que poderias ser livre sem ter um gênero. Sabias ser um ser humano que pensava, respirava e sentia e isso bastava.

Não reivindicavas apenas ser travesti por questões políticas, mas também gorda e baixa. Tu dizias: “minhas medidas não cabem num padrão e é isso que eu acho lindo: não caber em um padrão”.

Em meio a tantas exposições de si, da forma e com a beleza que se expressava, além de tua facilidade de agregar pessoas, construías. Vieram os movimentos construídos em praça pública, ali na tua cidadezinha. Vieram os coletivos auto-gestionários. Veio a escrita (tua tão magnífica escrita), a ideia da biografia. Transformavas a tua (e nossa) dor em luta e arte.

Tu eras linda Kyara!

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Mas somos mistura. Em meio a tudo isso, veio também a depressão.

Tantos foram os remédios. “[…] perdendo a essência, a dignidade e a memória…” brincavas com tua própria tragédia. “Seria os remédios que está limitando a minha escrita?”, reclamavas também. Além de expressar toda tua angústia nos episódios depressivos, nas crises de ansiedade, nas ideações suicidas, no sono precário, no tempo que corria mais do que o teu ritmo permitia…

Ser biscate é uma mistura entre o reivindicar-se livre e lutar, mas também conviver com as dores produzidas num mundo que quer te por em uma forma, em uma gaiola.

Chegou o fatídico mês de dezembro. Crise. Pânico. Incertezas. Insegurança. Sufoco. Sentias que toda aquela instabilidade estava aos poucos acabando contigo e que os remédios produziam uma felicidade sintética. O que desejavas não cabia numa pílula. E já passavas a se sentir incomodada, fracassada e inútil.

Esses mesmos remédios serviram de instrumento para estancar a tua dor. Tiveste coragem querida amiga. Tua decisão não foi fácil. Partiste. E não se esperaria menos de alguém que queria tanto ser livre.

E tua partida doeu, mas tão brevemente aceitei. Não seria justo te acusar, porque tu foste minha força, foste uma força para muita gente e eras um braço forte de luta. Em tuas falas, era o sujeito Kyara que falava e não coletivo X ou Y, ou em nome dele.

Hoje, continuas sendo a nossa força e a gente se nutre das boas lembranças, das tuas palavras, dos teus textos, da tua imagem! E espero que estejas, enfim, no teu tão merecido repouso.

Descanses em paz, amiga. Apenas descanse. Fostes a maior biscate que conheço!

*Fran Nepomuceno: Musa, deusa, cantora, bailarina, modelo e travesti.

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