Bisca em Crise

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

“Ainda bem que a gente detém o direito autoral das nossas próprias vidas e pode sair por aí contando o que quiser, do jeito que quiser, como quiser, pra quem quiser”. Ela havia escrito isso recentemente a propósito de um texto antigo do Biscate que compartilhou nas redes. O texto específico era sobre finais e recomeços. E, como todos os que tinha escrito até hoje para este cantinho de libertinagem, tinha um tom absolutamente pessoal.

Ela trabalhava com palavras, criava histórias, personagens e enredos fictícios. E achava que a graça de vez por outra escrever neste espaço biscate era mudar a tecla e desnudar-se um pouco. Falar sem cerimônia de coisas pessoais _ algumas sobre as quais tinha até dificuldade de falar no “ao vivo”, mesmo com amigos próximos. Era uma biscate autorreferente. E, até então, esbarrara apenas no limite entre o quanto queria abrir sobre sua vida e o que queria guardar. Assim, escreveu sobre a dor da separação, sobre a solteirice, declarou-se pra um crush, falou sobre morder a língua e entregar-se de corpo, alma e adoráveis cafonices para uma nova paixão.

No começo do namoro pensou em escrever sobre esse momento de “início de algo que a gente ainda não sabe o que será”. Um tempo de página em branco a ser preenchida, de se apresentar pro outro no meio de tantos sentimentos. Acontece que essa fase, em que a pessoa fica em carne viva, meio que trocando a pele, entendendo como dividir a vida com o outro e esbarrando também nas questões práticas mais diversas, calhou de coincidir com o tempão em que o Biscate ficou fora do ar. Enquanto os dois namorados levavam as novas escovas de dente para a casa um do outro, não teve que pensar em temas “Biscate”.

Agora tinha recebido um inbox: o Biscate voltou, tem texto? Tinha. Alguns. Foi lá na caixinha “primeira pessoa” ver o que podia usar e foi então que se deu conta da crise. A crise mais anti-biscate que alguém poderia ter. Uma crise quase inconfessável neste lugar de mulheres tão fodonas e tão donas de seus narizes, de seus corpos, de suas histórias. Pois bem, a crise era bem banal: será que nesse contexto de ter um “avec” teria coragem de continuar assim tão desabrida para o mundo? E dessa dúvida pintaram outras…

Dá pra continuar falando de suas crises e questões sem explanar a intimidade do outro? Seria incômodo pra ele que ela falasse da relação? Será que ele próprio se sentiria exposto nos escritos dela? Será que o direito autoral do que vivemos com os outros é nosso mesmo ou também é do outro?

A cada pergunta, carregava um pouco mais nas tintas e aumentava um pouquinho essa angústia. Começou a se questionar inclusive se era biscate de verdade. Achou que finalmente seria desmascarada e as editoras do BSC iriam perceber que ela era uma farsa. Uma não-biscate fingindo ser bisca-madura-e-bem-resolvida. Aventou a possibilidade de ter confiscada a sua carteirinha de bisca convidada. Temeu nunca mais pedirem um texto. Ou pior, nunca mais ter uma ideia pra um texto-bisca. Logo ela, cuja vida sempre fora um fêicebuki aberto. Olhou a página em branco e se viu afogada em palavras cortadas, ideias abortadas, temas delicados… Ficou sem ar.

Aí abriu os olhos e acordou. O namorado dormia ali do lado. Sentiu um sossego na alma por aquela parceria que estavam construindo. E um desassossego de ideia nova surgindo. Deu um beijo nele e começou a escrever o texto mentalmente. Foi até o computador e enquanto escrevia teve ideia para outro e outro ainda. Todos pessoais, desabridos, escancarando algum lado da vida dela. Não fosse assim, não seria ela: uma bisca não tão bem resolvida, mas que adorava vez por outra escrever neste espaço e desnudar-se um pouco.

Ju_foto

*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

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6 ideias sobre “Bisca em Crise

  1. Juliana,
    é uma alegria, sempre, tê-la como convidada e tão pertinente este texto no nosso retorno. Questionar os vínculos, olhar para nossos sentimentos, permitimo-nos a dúvida e a inquietação, acho que estas são algumas características de um posicionamento biscate, mais que a pegação ilimitada (que é bem bom também, rs). Olhar a liberdade no olho. Obrigada por estar aqui, conosco.

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