Profana

Sempre ficava de butuca ligada quando ouvia falar sobre o tal sagrado feminino. Eu sei que tem gente que se liga nessa parada, mas sempre me pareceu mais do mesmo. Um convite a louvar e glorificar o que é “naturalmente” da mulher: a reprodução da força de trabalho. Essencialista (e, por tabela, transfóbico e homofóbico) e individualista (o “empoderamento” é pessoal e não relacionado a classes, raça ou outra variável construída sócio-historicamente). Conservador. Bom, né, alguém poderia argumentar que toda ação para “fazer” mulheres mais fortes, conscientes de si e se valorizando seria, nem que seja por isso, positivo. Aí eu digo duas palavrinhas só, só, só: Sagrado Masculino. Rá. A reboque: essência sexual, energias primais, ser primitivo e relação bondosa e consciente com as mulheres sagradas – achei paternalista, mas, né, quem sou eu no jogo do bicho – enfim e resumidamente: o homem potente, a mulher receptáculo-fértil. Achou familiar? (eu sei, eu sei, foram mais de duas palavrinhas).

Entretanto não tô na vibe de ficar aqui discutindo os equívocos de tentar relacionar o Sagrado Feminino com o Feminismo. Eu vim mesmo foi pôr meu carro alegórico na passarela e propor o Profano Feminino, Masculino, Andrógino, whatever. Uma vida e vínculos deliciosamente dessacralizados. Vamos desrespeitar normas e ritos. Vamos secularizar o corpo, o amor, os encontros. Vamos dessacralizar o respeito. Vamos construir valores éticos sustentados não por alguma coisa essencial e natural presente ou ausente no Outro, mas pela compreensão da alteridade, da humanidade do diverso, humanidade resultante de estruturas sócio-históricas e trajetórias individuais.

Do dicionário: o que é Profano? 1. Que não está de acordo com os preceitos religiosos. 2. Que desrespeita a santidade de coisas sagradas. 3. Que foge ao âmbito religioso; secular. 4. Que não tem a religião como propósito; mundano. 5. Que não faz parte de uma religião; fora do considerado sagrado. Sejamos mundanos, sejamos do mundo, das ruas, das esquinas, dos blocos. “Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão”. Sejamos sujeitos. Não porque alguma coisa essencial nos faz gente mas porque nos fazemos mais gente ao nos reconhecermos assim e assim reconhecermos o Outro.

Vamos nos permitir ser além de um modelo. Vamos nos inquirir. Vamos duvidar. “O corpo sou eu. Nem devia esclarecer, mas me antecipo: meu corpo sou eu, mas eu não sou meu corpo. Melhor: não sou só meu corpo. Mas ele me é”. Vamos acolher. Vamos nos acolher. Abrir mão de rótulos, caixas, designações e determinações que são necessárias para a demanda e afirmações de políticas públicas mas que podem ser despidas e esquecidas no riso, no abraço, no rala e rola, na cama, na festa, esquinas e caminhadas.

Viver corajosamente é profano. Viver livre é profano. Não aceitar a essência. Não aceitar o natural. Enfrentar, olho a olho, não a natureza humana, mas a condição humana. Aceitar a responsabilidade por nossas ações, escolhas, demandas. Não abrir mão do desejo, não projetá-lo, não nos submetermos a uma narrativa terceira do que somos e podemos ser.

Viva o feminino profano, sem culto, sem regra, sem norma, sem certo. Sem maiúsculo. Possível.

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