Sobre homens “bananas”

Ou sobre machismo arraigado, tão arraigado que é naturalizado. Pelos próprios homens, para os próprios homens. Machismo, veste estreita, óculos de grau através dos quais são identificados homens “bananas”. Curiosamente, o mesmo termo, duas vezes.

Em dois tempos, comentados nos textos linkados abaixo:

“Um último toque sobre os homens do filme: Pedro Bial chamou-os de “bananas”. E, não, não me pareceram bananas. São homens apenas. Tantos desses por aí. Gente fina, queridos por muita gente. Por que será que ele os chamou de bananas? Porque não batem na mesa, não gritam, não impõem sua vontade? Será? Achei significativo o epíteto. A percepção dele. O machismo mora nos detalhes, tantas vezes.”

https://primeirafonte.tumblr.com/…/piscadelas-como-nossos-p…

“Ele [Nilson Xavier] menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? “

http://biscatesocialclub.com.br/…/novela-sete-vidas-lugar-…/

Não à toa, eu reparei e registrei nos dois casos. Depois é que fui ver que usam o mesmo termo desqualificante. Há tempos que isso gira na minha cabeça – essa camisa-de-força do “ser homem” no Brasil. Hétero, no mais das vezes, mas não somente. E, em qualquer caso, nunca, nunca “bananas”. O termo tão vago e abrangente é usado tantas vezes para falar de homens delicados. De homens abertamente sensíveis. Homens cujos olhos enchem de lágrimas ao contar uma história que os toca. Homens que cuidam das crias, que botam no colo, que aconchegam, que acolhem o choro. Que se deixam envolver e levar por certas emoções ditas “femininas”. Homens yin. Que se deixam ver frágeis. Que não entram na carcaça rígida e limitada que lhes é reservada pelo senso comum.

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Talvez porque tenha tido a sorte de conviver desde cedo com esses homens não-convencionais é que esse tema me é tão caro. Talvez também porque eu seja mãe de dois meninos: como protegê-los? Como deixá-los ser o que são e não permitir que o mundo os encerre na armadura que limita e separa os homens-homens dos outros? Desses que, tantas vezes, são chamados de “bananas”? Uma pergunta sempre presente. Uma atenção, um cuidado necessário e permanente. E uma briga com o mundo, claro. Com o que o mundo ao redor espera.

Meus filhos, os filhos dos amigos. Os meninos todos em volta. Os que estão mais longe. Meninos. Todo dia aprendendo como é difícil ser menino. As cores que não pode, as roupas que não pode, os gestos que não pode pra “ser menino”.

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Pausa para reflexão…. porque alguns hão de dizer que estou falando de questões relativas a ser hétero. Mas nem. Isso é prévio. Como já comentei em outro canto,

Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?”

E vice-versa. Os homens fora desse padrão de masculinidade podem perfeitamente ser hétero: muitas vezes, são. E aí…. Fica esse incômodo pairando. Algo no ar, algo leve, mas persistente. E, sem saber o que dizer a esse respeito, sobre esses homens que não são conformes ao que se espera de um homem-homem, e no entanto namoram, casam, ficam com mulheres, alguns vaticinam: bananas.

Pronto. Categorizaram, qualificaram, desqualificaram: podem dormir tranquilos. Eles, os potentes, os másculos, os energéticos. Eles, tão distintos daqueles que desafiam -tantas vezes sem nem mesmo fazer de propósito – as convenções estabelecidas da masculinidade dominante. Dos que são doces, macios, suaves, frágeis, sensíveis… em uma palavra: bananas.

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2 ideias sobre “Sobre homens “bananas”

  1. Um texto tão sabido, tão delicado e tão necessário. Acho que esse é um dos campos que mais demandam ação e que são mais subestimados: a formação dos meninos.

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