Carta para Alice

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Alice,

Você não lerá esta carta, mas os outros a lerão por você. Faz sentido, veja só: a partir de hoje, seu pequeno corpo se espalha pelo mundo, e viaja mais do que eu jamais viajei. Deste modo, apesar de a carta ser dirigida ao seu nome, os outros a lerão. No momento em que a escrevo, o processo de devolução de seu corpo ao mundo já começou, e a matéria que lhe compõe gradualmente volta a ser parte de todas as coisas, então faz sentido que os outros leiam o que é seu. Tem gente que não gosta disso, a gente cresce e é treinado a não gostar, mas é um lance muito mágico: a devolução começa pela terra, espalha-se pelo ar, até que um pouco de você estará nas coisas mais insólitas. De um jeito que a gente olha e pensa: será que tem uma molécula sua naquela planta? Átomos espalhados por um monte de pássaros?

Ninguém jamais saberá onde, e isso não tem a menor importância.

A vida é um sequestro temporário, Alice. A gente sequestra o carbono, o nitrogênio, o hidrogênio, o oxigênio, o fósforo, o enxofre e traços de outras coisas. Nossa constituição não é muito diferente da de um cometa, inclusive mais ou menos na mesma proporção, sabia? A diferença é que nós somos mais ricos: temos o fósforo. Será que é isso que acende a chama da vida? Eu não faço ideia, na verdade ninguém faz, mas a gente gosta de fantasiar que sabe tudo.

[…e escrevemos enciclopédias, criamos religiões, fazemos até guerras por causa disso. A gente é muito criativo – para o bem e para o mal.]

Daí que, um dia, todo mundo tem que se espalhar por aí de novo. E o que a gente era vira um sendo, o presente do indicativo se converte em gerúndio, e – olha só a mágica – a vida se refaz em novas formas. Só sofre quem não consegue enxergar a beleza da mutação. Mas, com o tempo, a maioria de nós aprende a ver.

Veja que coisa, menina: meses atrás, eu entrei em uma loja em Salvador, e comprei o vestido mais bonito que eu vi [eu tenho um gosto meio clássico para vestidos, não repare], pensando que você o usaria em seu aniversário de um ano. Você nunca vai fazer um ano, mas hoje seu pai me disse que você o usará no dia do seu espalhamento. Gostei disso. Nunca que sobrinha minha vai entrar desarrumada no grande salão de festas da Terra, que é o coração de todas as coisas.

E eu imagino você linda 🙂

Um beijo. Espalhe-se. Arrase.

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Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

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