O último Rembrandt #1

Hoje, o Biscate tem o prazer de apresentar o primeiro capítulo de um folhetim que será publicado aos domingos. Deleitem-se!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

  1. Meninas boas vão para o céu.
    Meninas más vão a leilões.

 Nova Iorque, 22 de abril de 2017

17h33

O pau dele era delicioso. Certo, ele beijava bem e tinha uma voz rouca, e olhos feitos de tons e sobretons de mais e mais azul, e era gentil e nem tão gentil assim. Ele era careca e um tantinho mais baixo do que ela, muito forte – seu peito era uma vastidão coberta de pelos grisalhos, seus braços e mãos cobertos de veias aparentes e cada centímetro da pele dele pareceu queimar a dela. Mas nada se comparava ao pau dele. Nas mãos dela. E em sua boca. E dentro dela. O rosto dele aninhado em sua nuca e o pau dele dentro dela. E se isso não era feminista o suficiente, que se foda, pensou sorrindo e se ajeitando no banco de trás do táxi.

O que ela estava sentindo era tesão. De novo. Como se não tivesse acabado de sair da cama daquele homem. Como se ele não tivesse acabado de sair de dentro dela. Como se ela tivesse tempo para isso. Suspirou. Com o leilão mais importante do ano começando em vinte minutos, quem tinha tempo para tesão, meu Deus?

Não era o primeiro estranho com quem ia para a cama, mas não conseguia se lembrar de uma trepada tão… O quê? Perfeita? Maravilhosa? Qual dos clichês estúpidos da pior literatura descreveriam o que tinha acabado de experimentar? Bom, foda-se de novo. Tinha sido uma tarde incrível. Uma tarde impossível de esquecer.

No mesmo instante em que fecharam a porta do quarto do hotel e ele a puxara contra seu peito, ela soube. O cheiro dele era fresco, tinha alguma coisa de limão, e ele beijou seus cabelos e ficou ali, alguns segundos com ela nos braços, imóvel, à espera de que suas respirações se sincronizassem.

Quando ela ergueu o rosto, o estranho agarrou seu rosto e mergulhou a língua dentro de sua boca. Nenhuma hesitação. Sem perguntas, sem explicações inúteis. Nada de sou casado, nunca fiz isso, meu Deus, que loucura, espere como é seu nome? Nenhum nome. Tudo bem, dois nomes, em algum momento daquela loucura, dois nomes. Andrew. Carla.

Eles se beijaram até que ela se ficasse zonza, as mãos dele em suas costas, em sua bunda, as mãos dele em todas as partes, arrancando sua saia e sua blusa, as mãos dele desesperadas no fecho do sutiã.

Ela riu e se afastou. Às vezes lhe parecia que os homens faziam aquilo de propósito, fingir que se atrapalhavam com o sutiã numa espécie de alívio cômico, de pausa, vamos respirar um bocadinho antes de seguirmos com esse desvario, mas se fosse um teatro, era bem bonitinho. Colocando as mãos nas costas, ela abriu o sutiã e ele a olhou, maravilhado. Aquilo não era fingimento. Eram os seios de uma mulher de quase cinquenta anos, mas o estranho pareceu mesmo gostar do que via. E quando ele os tocou e mordiscou e sugou cada um de seus mamilos, ela soube que sim, ele realmente gostara deles.

Quando ele ergueu a cabeça para beijá-la de novo, ela tentou, desajeitada, desabotoar a camisa dele. Gemeu frustrada, botões demais, botões demais, mas quando ele afastou as mãos dela para arrancar a camisa, ela choramingou alto e ele riu.

Alguém buzinou e xingou em idioma não identificado quando finalmente estacionaram em frente à casa de leilões e isso a fez pular de susto.

Jesus, mulher, trate de se recompor.

Por melhor que tivesse sido a trepada, não era para ficar com a calcinha molhada dentro de um táxi que ela estava em Nova Iorque.

 Estava lá para o leilão do ano, da década, do século, o mais importante leilão da história da arte, do espaço sideral. O leilão dos leilões.

Carla Nucci tinha cruzado um oceano só para estar ali. Só para estar mesma sala do que aquela tela, ainda que por poucas horas.

O último Rembrandt.

(continua no próximo domingo)

 

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