Filho pré-adolescente e a hora “daquela” conversa

Semana passada a série Grey’s Anatomy tratou de vários temas relevantes como violência contra a mulher e racismo. Um dos momentos que mais chamou a atenção foi o diálogo de Miranda Bailey e seu marido (médicos, de classe média alta) com seu filho, sobre como se comportar durante uma abordagem policial.

Esta cena motivou a conversa abaixo, entre nossa bisca Vanessa e o biscate-sempre-convidado Maycon:

Vanessa: Uma das características mais marcantes do Mateus, meu filho de 16 anos, além da beleza (hohoho), é a altivez. Ele tem uma desenvoltura pro mundo, uma segurança do seu lugar no mundo, que me emociona de ver. Ele resolve coisas, fala com as pessoas, é seguro, é afetuoso. E anda sempre olhando pra frente. Daí eu vejo o vídeo de Grey’s  (temporada 14, episódio 10)  e fico pensando na contradição que vivemos diariamente, de estimular a auto estima de nossos filhos negros, criando pessoas que não se vergam, com o medo diuturno de que essa altivez os coloque em situações de risco. Porque quanto mais um negro é potente, mais forte é a necessidade de quebrá-lo ao meio, né? É um temor constante que essa mesma segurança que ele demonstra seja não só o que o fortalece, mas também um fator de risco.

Maycon: Oi, eu sou como seu filho. Eu sou essa pessoa segura e afetuosa aí e graças as orixás fui poucas vezes abordado pela polícia e quando fui foi tranquilo até porque eu mantive e calma, falei devagar, não questionei , etc, mas eu tenho sorte, muita sorte e sei disso. Até hoje sinto o incômodo alheio quando chego numa loja ou numa banca pra comprar alguma coisa. Daí eu respiro, fico calmo, falo normalmente. Sou um homem negro, de 1, 85 de altura e como minha mãe diz com ar meio “maloqueiro” , puxei meu pai segundo minha irmã, ando sem camisa na rua, de chinelo, camisa no ombro, etc… Eu sinto um olhar, aquele olhar que não tem como explicar,uma mistura de “será que ele vai me assaltar” com “o que esse cara quer?” e um pouco de “ele é perigoso”. E, de novo, eu respiro, fico calmo, e faço o que tenho que fazer. Em outros espaços, como na universidade, na escola, a minha inteligência me “protegeu” até certo ponto porque sempre fui estudioso, sempre tirei notas, era um dos melhores alunos, mas isso não impede aquela sensação de que você não pertence aquele lugar, algo que só entendi melhor agora – e claro não te protege do bullying que eu sofri durante um bom tempo e que escondi da minha família porque não queria que eles soubessem, porque tinha vergonha e na escola ninguém fez nada. E essas coisas meio que fui descobrindo sozinho, na intuição, dando murro em ponto de faca, porque quando entrei na universidade pela primeira vez foi 12 anos atrás, fui o primeiro da família, não se discutia racismo como se discute hoje e minha família não tinha repertório pra me ajudar a passar pelo o que passei – nunca um racismo implícito, sempre mais sutil – , mas o amor da minha família, o carinho deles é o que me manteve e me mantém firme e forte. É daí que tiro minha segurança. O que quero dizer é ame teu menino, fale mesmo “eu te amo, você é lindo, inteligente” e faça ele se sentir amado e querido porque isso vai ficar nele pelo resto da vida e é daí que ele vai tirar força pra ficar firme e forte porque ele vai encarar um mundo bem cruel e pergunte se está tudo bem na escola ou onde ele for. Deixe claro que ele pode sempre pedir ajuda e que não tem nada errado com ele. Espero que ele, assim como eu, consiga escapar de uma situação mais perigosa com a polícia, que ele não tenha que lidar com os olhares que deixam claro que não é bem-vindo ali e que seja feliz, muito feliz e livre pra ser quem ele queira ser.

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