O eu que eu não fui

O eu que eu não fui é uma entidade que me acompanha. Uma sombra fugidia. Quase uma lembrança. Alguma melancolia. Um breve piscar de olhos. Que de repente, pronto, passou.

Mas está ali e segue estando, esse eu que eu não fui. Que teria estudado – claro – letras. Teria pegado o ônibus por quatro anos para o fundão, ou, quem sabe, aprendido a dirigir.

Letras, para fazer pós-graduação em linguística. Lembrar do amigo Saussure, aquele da “lettre de De Saussure à sa femme” em que eu tinha achado tanta graça, vista em um museu perto de casa, quando eu nem sabia quem era De Saussure. Antes de ler o tratado dele como se fosse romance e receber olhares esquisitos dos mais-velhos em volta.

O eu que eu não fui iria morar fora, é certo. Morar fora de novo, reencontrar-se com a forasteira que mora dentro de mim e do eu que eu sou. Fora – na Europa, em Paris, provavelmente. Em um quartinho daqueles lá no alto, com montes de escada até chegar lá em cima. Em Paris, os cafés. A beira do Sena. Os livros usados. As praças e os parques. A rua. O cheiro de castanhas quentes no inverno. As crêpes. O eu que eu não fui teria gostado de morar em Paris, embora a saudade do Brasil não fosse embora nunca.

paris-cafeE, depois da pós, teria se demorado por lá, teria, quem sabe, conseguido dar aulas em uma universidade. O eu que eu não fui seria muito dedicada à carreira.

O eu que eu não fui não teria casado, não teria tido filhos: não exatamente por decisão, mas porque namorar é trabalhoso e difícil, estudar ocupa tempo, ter filhos…. Não teria acontecido, apenas.

Uma ponta de tristeza, talvez, mas rapidamente afastada: afinal, haveria amigos, viagens tantas, um trabalho cansativo mas recompensador. Os alunos, os colegas. Uma vida cheia de cores e de gentes. Uma vida gostosa, essa do eu que eu não fui.

Às vezes, a sensação do eu que eu não fui é tão forte que me pergunto o que estaria acontecendo agora com ela, que imagino que ela deve estar vivendo de verdade essa vida que eu não vivi em alguma realidade paralela.
A garganta aperta um pouco, mas sorrio de leve.

A eu que eu sou é tão diferente desta que eu tinha certeza que ia ser.
E nem fui.

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4 ideias sobre “O eu que eu não fui

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