O que eu quero quando quero você?

Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Arcano VI do Tarô - Os Amantes. “É preciso saber escolher”

Arcano VI do Tarô – Os Amantes.
“É preciso saber escolher”

Faz alguns anos que um processo se dá em mim quando me apaixono. Não importa mais tanto o que sinto, mas o que eu quero a partir do momento que tomo conhecimento de que sinto por alguém. Pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas para mim é recente. Sempre fui da turma dos passionais. Se me apaixonava não estava nem aí, queria viver loucamente o que estava sentindo e dane-se o resto. Não que isso tenho se alterado, estruturalmente ainda sou assim, mas depois dos desencontros, dos tropeços, de reflexões e de aprendizados mudanças ocorreram. A paixão tem se mostrado cada vez mais como um espelho que reflete sempre uma questão: “O que você quer? ”. E essa questão é sempre o que deixa aquela pulga atrás da orelha, que tira o sono algumas noites. “O que eu quero” talvez seja umas das perguntas mais difíceis de ser respondida porque o desejo ele não é uma verdade já posta, ele também leva tempo.

—————————————————————————————————-

Hoje eu estou apaixonado e estava pensando no rapaz que gosto enquanto ia ao mercado. Estamos em cidades separadas por conta das férias e ás vezes falamos pelo whatsapp, mas  já estava pensando em quando voltar fazer um jantar para esse moço, para nós dois: macarrão, queijo, vinho (duas garrafas), uma barra de chocolate. E daí lembrei, lembrei dele, um ex , um ex com o qual eu aprendi muito das artes do amor. Ele é descendente de italiano, cozinha super bem, tem uma boca gostosa, um olhar safado e um sorriso descarado. Lembrei dele, justamente, porque queria perguntar “como é mesmo que você faz aquele macarrão? ” “Qual o queijo que você usava? ” “ Que hora que é para pôr a salsinha? ” Ou será que era cebolinha? Lembrei disso e ri. Ri e agradeci. Agradeci porque fui amado, desejado, cuidado, seduzido e, claro, machucado, porém pude viver tudo isso. Aprendi sobre as delicadezas do amor, os detalhes do amor, os cheiros, os alimentos, os prazeres e desprazeres. Aprendi que “Maycon, quando você fica bravo parece uma mulher brava”. Aprendi que quando estava tão deprimido, sem saber para onde ir e o que fazer tive alguém que deitou do meu lado e me abraçou, me acolheu, foi meu chão sem hesitar quando tinha perdido completamente as coordenadas de quem eu era ou o que queria. O amor é uma aprendizagem e se conseguimos elaborar os ressentimentos, as dores, as frustrações ficam em nós os gestos de amor que partilhamos. Como uma espécie de receita especial que alguém mais velho da família faz e ensina a alguém mais novo e partir daí vai passando de geração em geração mantendo-se viva. Eu sei amar hoje porque fui amado ontem e quem eu amo hoje amará amanhã. E seguimos amando, machucando, ensinando, aprendendo.

27157542_10215386645726336_1081854125_n

Lembro de uma professora de psicologia que tive que dizia “quando vocês não souberem algo, perguntem a vocês mesmos, em voz alta: o que eu quero? ”. Achava ela ótima, meio louca, mas ótima. Anos depois me pego usando esse conselho porque muitas vezes eu não sei o que quero: Não sei o que eu quero quando quero você. Mas ainda que seja angustiante não saber o que se quer tem um ponto crucial aí nesse não saber e o nome é liberdade. Quando você não sabe, quando o seu desejo não é automaticamente capturado pelas normas, pelo que deve ser, pelos caminhos que deve seguir, pelo modelo que você deve corresponder o único caminho possível é a liberdade. É experimentar, é testar, é tatear. A mesma professora que citei dizia “vão vendo por onde vocês estão caminhando, não botem logo de cara os dois pés. Coloquem primeiro os dedos, sente se dá pé, se está firme, se não der volte, dê um tempo, depois vá de novo ou mude a direção”. Não há a melhor escolha, a mais correta, o que há é a escolha que você tem condições de fazer naquele momento. Tem uma frase bem conhecida entre o pessoal que estuda tarô que é “ A tendência da vida é dar certo”. Se jogue e diga para a pessoa amada: me chame pelo seu nome.

 

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *