Sylvia Plath e um batom vermelho demais

Sylvia Plath. Entre seus livros, sonhos cor-de-rosa, suas palavras brancas e o sofrido desejo de ser melhor e melhor, Sylvia se construiu e construiu belas e sofridas formas de dizer a dor, a solidão, o amor, a excelência, as perdas. Ela tentou se matar algumas vezes, mas quem não tenta? Com amores infelizes, trabalhos estressantes, falsas amizades, comida enlatada, prática de esportes, maus livros, todas estas escolhas são formas cotidianas de se aniquilar um pouquinho. Mais adiante, ela conseguiu. É muito mais do que se pode dizer de muitos de nós. Ela e Alfredo abriram o gás (aquele Alfredo que ninguém sabe de quê). Não sei se eles eram tão sós como se sentiam. Talvez todos sejamos e eles apenas reconhecessem mais rápido.

 Uma vez, quando parecia que eu sofria de amor, uma amiga me escreveu: não lembre de Sylvia Plath, não lembre de Sylvia Plath. Bom, eu não a esqueço. Não a esqueci em nenhum momento, nem mesmo quando a vida doeu, de verdade,  porque sempre soube que ela era grande e que morrer – de amor? – não a fez maior, apenas fez mais breve seu tempo de escrita.

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 Ela escrevia. Era isso que ela fazia. Talvez mais, era isso que ela era. Cedo chamou seus diários de Mar de Sargaços. Vai na Wikipédia, está lá a descrição, mais ou menos assim: um lugar quente, cercado por correntes oceânicas, um cemitério dos navios. Também lá está a comparação com a descrição de Rufo Avieno sobre as Colunas de Hércules*: “muitas algas crescem em meio às ondas, as quais retardam o navio como se fossem arbustos (…) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente entre os navios que se arrastam“. Para cortar caminho, apressado para realizar mais um dos seus tantos trabalhos, Hércules abriu espaço com seus fortes ombros, rasgando um estreito marítimo, hoje conhecido como estreito de Gilbratar. E não é isso o amor, ou o viver?, insistindo nas perdas, expandindo cisões, aumentando fraturas, ampliando vazios que, a seguir, se enchem de lágrimas mornas, fértil espaço para memórias-algas, saudades bestiais, contraditoriamente encalhando sonhos e alegrias?

Já adulta, escreveu: “talvez eu nunca seja feliz, mas hoje estou contente”. É de uma sabedoria ofuscante: o odor do café, um lençol macio, uma gargalhada infantil entreouvida pela janela, um beijo displicente, um bom livro pra ler. Miudezas. Uma pena não ser, sempre, suficiente.

 “Morrer é uma arte, como tudo mais”, escreveu ela. E o que mais seria? Viver é trazer a morte como possibilidade. É experenciar a finitude, todo dia, de forma solente, irreverente ou iludida. E disse também, complementando: que eu pratico surpreendentemente bem. E o que mais é escrever senão procrastinar em suicidas bilhetes? Quando não mais praticou bem a arte, foi quando abriu o gás.

Ler os tantos textos publicados sobre ela revelam como é difícil simplesmente aceitar a alteridade. Busca-se uma resposta fácil, um culpado, um motivo evidente para não encontrar o nosso desejo de um dia a mais na clara renúncia alheia de todos os dias outros. Num viés moralizante, a infidelidade se torna alvo fácil e tentamos dar nome ao que ela – e tantos – decidiram deixar no silêncio.

Sylvia era obsessiva em seu trabalho, as minúcias a atormentavam, a busca pela alinhavada precisa entre palavra e sentido – isso a consumia. Uma pálida beleza com um batom demasiado vermelho. Ela era forte, mas parecia saber disso apenas em dias alternados. Ela era bela. E ela era triste. Entre homens fortes e suas abelhas e seus ferrões ela só pôde morrer. Eu posso mais, porque posso lê-la.

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