Os bons são maioria, e daí?

Os bons são maioria. De vez em quando passa essa frase pela minha TL, geralmente associada a uma reportagem ou imagem de algum gesto generoso, de cuidado, de solidariedade. Eu mesma já devo ter reproduzido. É tentador em vários aspectos, destaco dois: o primeiro é achar que é uma questão de amplitude da visão, que os bons estão em algum lugar, fazendo coisas boas, a mídia é que não conta, tal como a dor da gente, a bondade não sai no jornal. Nesta perspectiva a bondade da maioria silenciosa redimiria a humanidade. O segundo, e de maior impacto, é dividir de forma binária as pessoas em bons e maus. E, claro, colocarmo-nos alinhados do lado dos bons. Do Bem. Faz bem pra autoestima, né.

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Depois de um tempo, desisti. Os bons não são maioria. Nem minoria. Não divido mais o mundo em bons e maus. As pessoas vivem, interage, fazem coisas. Algumas delas, boas. Consideradas boas. Alguém recolhe animais na rua, cuida deles e é um escroto com os vizinhos. Outro é excelente amigo e bate na mulher. Gente que mantém projetos sociais e não paga a pensão alimentícia dos filhos. Pessoa que, num impulso, diante de um acidente, arrisca sua vida pela dos outros mas no dia a dia é mesquinho e homofóbico.  Mulheres valentes que lutam por creches e dizem que mulheres trans são homens disfarçados e podem morrer que não fazem falta. Somos caleidoscópio. Dependendo de onde o raio de sol bata, refletimos diferenças.

Conecta-se com o que a Renata disse: “a casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.” 

Conecta-se, disse eu, mas queria dizer mais uma coisa: as coisas boas que se faz não são assinatura em folha em branco. Não legitima nem minimiza o resto do que somos e fazemos. Nem o contrário. Não é porque se comete um erro, uma escrotice ou um crime que as bondades outras não valem mais. Quando meu pai fez vestibular era assim: uma questão errada anulava uma certa. Não é assim na vida real. Um erro é um erro. Um acerto é um acerto. Uma bondade é uma bondade que não apaga, compensa ou justifica mais nada além dela mesma. E vice-versa.

A bondade não é a essência de alguém ou alguéns. É relacional. Processual. Circunstancial. Construída e sustentada pelo olhar de outrem. Não são raros os casos em que identificado algum tipo de “monstro” se sucedam os depoimentos de “mas ele era ótimo pai”, “nunca pensei, um vizinho tão bom”, “imagina isso, sempre tão gentil com as crianças”. É do humano a plasticidade, somos múltiplos, capazes de atos de generosidade e mesquinharia. De enormes gentilezas e da mais aguçada crueldade. Avançaremos quando deixarmos a bondade de lado, como forma de dar estrelinha pros que confirmam nossas idéias e aspirações. Avançaremos quando abarcamos nossa complexidade. Avançaremos quando pararmos de nos desligar dos erros alheios, quando pararmos de apontar dedos, de cobrar coerências, de insistir em uma pureza, retidão e bondade absolutas. Avançaremos quando entendermos o que já afirmava o filósofo: nada do que é humano me é estranho.

Então, Luciana, se perdoa tudo? Nopes. Não se perdoa nada. Ou ainda: não é matéria de perdão, mas de reconhecimento. Somos humanos e isso não é um dado natural, mas uma condição, uma possibilidade, somos candidatos à humanidade. O que é transformador não é a bondade, é o compromisso – individual, mas não só, também coletivo – ético, deliberado, insistente e intencional com um projeto de humanidade, de relações, de sociedade. De existência.

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4 ideias sobre “Os bons são maioria, e daí?

  1. Olá! Acho que é a primeira vez que comento aqui. 🙂

    Nossa, esse texto vai me fazer refletir muito sobre o assunto. Nunca tinha pensado por esse lado…

    • Oi, Andrea, adoramos comentários, eles dão aquele empurrãozinho pra continuarmos biscateando por aqui 😉 e que bom que o texto fez refletir, o propósito é também esse, podermos trocar idéias e avançarmos juntos

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