Sobre Iara Ávila

Teu recalque bate na minha pomba e gira.

Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

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O test drive do coelhinho do prazer

Já que tão fudendo a gente todo dia, já que a cada dia a gente acorda e tem um 7 x1 diferente pela frente, que tal fuder da forma gostosa de verdade? Que tal fazer um 5 x 1? (desculpem, piada horrível, num resisti) .

Mas como fazer isso se: tô cansada, solteira, o bofe ou a gata mora longe, estou com a mão engessada, a cara metade tá fazendo doutorado? (sei lá, mil questões)  Seus problemas se acabaram-se! (ao fundo toca a musiquinha das organizações da tabajara)

Amiga-companheira-feminista que curte um sexozinho ilícito, se jogue no maravilhoso mundo dos sex toys. Ah, mas eu tenho vergonha, ah mas se eu comprar pela internet o porteiro vai ver, ah mas o marido/parceiro/boy/gata/peguete/etc não vai gostar, vai achar que estou substituindo ele/ela, mais outros trocentos argumentos baseados no desconhecimento, medo, vergonha e temperados no preconceito.

Amadas amigas-amantes-biscates, em primeiro lugar a gente tem menos orgasmos e menos prazer quanto menos se conhece. Para isso a gente deve explorar nossos pontos, nosso ritmo e nossas imaginação. Dedos, mãos e sim, por que não, brinquedinhos. Claro, dedos e mãos são imprescindíveis. Acho incrível como se fala pouco de masturbação feminina quando é sabido que nosso orgasmo é muito mais clitoriano que vaginal (sobre isso indico esse post ótimo) . E para isso além, óbvio dos dedos, a gente pode usar os deliciosos vibradores clitorianos.

Em segundo lugar as sex shops podem parecer lugares amedrontadores com umas parafernálias esquisitas. Então chame uma amiga ou um grupo ou vá ou ainda compre on line. Eu já comprei, mais de uma vez, juro que o porteiro não vai saber o que está chegando, a embalagem é comum, de entrega e não há logomarca de identificação etc. Ademais, se o problema é vergonha, sozinha em casa na internet a gente pode fuçar mais, né?

Em terceiro lugar: sex toy não é substituto pra nada, é só um outro tipo de sexo. Tem tantos… Ah e não, não vicia, não faz mal, não dá doenças e tal. É delícia. Mas, e então?

Antes, parêntesis: vou esclarecer que esse blog não é um blog patrocinado e eu não sou a Pugliesi do sexo. Mas, sim, vou indicar algumas coisas. E, bom, pra indicar a gente faz test drive, né? Se o pessoal faz test drive de carro por que não fazer de sex toy?

O fantástico mundo dos sex toys vai bem além dos dildos (ou pênis, prefiro dildos, já que pênis é só o de verdade e só conheço alguém que tinha um na caixa:  Perpétua da novela Tieta  e óleos. Atualmente os materiais são bem mais duráveis, mais fáceis de limpar, alguns têm bateria recarregável (adeus pilhas, o bolso agradece, a natureza também #sexosustentável #marinasilvaaprova) e tem design e cores que são um charme.

Sua mãe, a faxineira (a minha perguntou se era brinquedinho dos gatos <3), a vizinha frutriqueira, a cunhada até vão ver na sua mesinha de cabeceira e pensar que, sei lá, é um despertador, um timer e você aderiu à técnica pomodoro. Tudo bem diferente de quando comecei a frequentar sex shops (uns 18 anos atrás), quando os dildos eram de um plástico horroroso.

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Daí que como o orgasmo mais delícia é o clitoriano e adoro um design resolvi fazer um test drive com o produto queridinho do https://fluidlab.com.br/ – o laboratório do prazer – e assim chegou aqui em casa o  coelhinho estimulador (olha que coisa fofa, gente!).

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O fluidlab é uma loja on line com um blog com uma proposta muito diferente dos demais sex shops, a gente percebe de cara no visual mais clean, bonito. É de uma amiga também feminista. O site tem informações sobre sexo, saúde da mulher e uso e conservação do seu brinquedinho. Vale a pena ler os posts, muita informação bacana. Inclusive um ótimo post sobre masturbação .

Vamos ao que interessa né?  Para que comprar vibradores se eu posso fazer isso com a minha mão? Olha, você pode e deve fazer isso com suas mãos e dedos, você tem que conhecer seu ritmo, seu tempo e gozar é uma delícia, mas garanto que, assim como as sensações com cada pessoa que transamos são diferentes, o gozo com um estimulador também é diferente. É outro tipo de delícia, bem como de um estimulador para outro também há diferenças ( como na vida as pirocas são diferentes né, gente,  pode mudar por causa da velocidade do aparelho a maciez do material etc.

Eu tenho 2 vibradores/ dildos que tem estimulador clitorianos acoplados e já os usei sem penetração também. Qual a diferença que achei pro coelhinho? Bom, em primeiro lugar: design. É lindo! Muito fofo e discreto, guardo na gaveta da cômoda. Ademais ele não precisa de pilhas, é recarregável, a bateria dura 2 horas (testei e durou pra eu gozar umas 3 vezes  e não acabou ulalá). O material é de altíssima qualidade. Ele tem 3 velocidades que a gente controla apertando o controle que são os olhinhos do coelho. Mas, olha, de todos os que tenho, achei a velocidade, digamos, mais potente e gostosa. Tenho usado muito para relaxar e dormir. Indico muito, principalmente se a sua cota diária e 10 homens pra sexo ilícito não estiver chegando ao destino (aka sua cama).

Mas vibrador clitoriano é pra usar somente sozinha? Então… resolvi fazer mais um test drive, dessa vez acompanhada ( ui), aproveitando uma viagem curtinha no feriado e… pois bem, o coelhinho foi bem útil. A gente não tem medo dele ser visto no raio-x da bagagem de mão do aeroporto, né? Parece um brinquedinho qualquer. Mas olha, como foi útil o bixim… De bruços e ele embaixo encaixadinho no clitóris foi ótimo! E depois descobrimos novas funções pras orelhas do coelho, pode entrar em alguns lugares e tal, até porque o material dele é fácil de limpar e bastante higiênico.  Ah, enquanto isso… a bateria lá, firme e forte. Duas horas sem sair de cima, ou de baixo, ou de dentro….enfim…  Sim, claro, sex toy não tem limite de uso, cada um faz com o seu o que quiser, a imaginação não tem limites.

Espero ter em breve grana para comprar mais uns sex toys novos. Por enquanto, de olho em bolinhas porque pompoar é tudo de bom ( fica a dica).

 

Que Horas ela Volta? pelo olhar da classe média nas redes sociais

Segunda-feira, o programa Tela Quente que tradicionalmente exibe algum blockbuster do cinema norteamericano com muito tempo de atraso ou no máximo uma comédia brasileira, passou o recém lançado e premiado “Que Horas Ela Volta?”, filme brasileiro de Anna Muylaert, com Regina Casé e Camila Márdila nos papeis principais. Não vou me demorar explicando do que se trata, porque a essa altura vocês já devem saber. Por via das dúvidas, pros desavisados, vejam mais aqui .

Quando o filme chegou aos cinemas provocou uma enxurrada de textões, textinhos e bastante dissenso, aqui no blog também teve texto. ( aqui e aqui)  A luta de classes estava passando também nas nossa redes sociais. Cada um fazia sua leitura. É inegável que o filme toca num pilar não muito analisado e bem pouco admitido da nossa sociedade: a exploração do trabalho doméstico, quase sempre exercido por mulheres, em geral de baixa escolaridade, quase todas negras, muitas delas nordestina. Uma herança escravagista.

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Na exibição da Globo, na segunda-feira, dia 11,  o ibope foi excelente e o filme bombou nas redes sociais, como se fosse estreia, e mexeu com estruturas, de novo. Para mim, foi um experimento e tanto assistir o filme (no meu caso pela quarta vez), dessa vez com os comentários do twitter. Por óbvio que minha TL é minha bolha particular.  Ali estava gente de classe média como eu: ou éramos Fabinhos ou Bárbaras ou José Carlos ou todos eles ou no mínimo os convidados da festa de aniversário da Bárbara, que nem se dignaram a olhar para Val enquanto ela lhes servia.

Sim, estou colocando eu e vocês no mesmo patamar daquela família por vezes odienta, por vezes desprezível, mas tão como nós, porque a gente explora nossa empregadas, pede pra pegar uma água ao invés de levantar e ir lá buscar,  elas deixam de cuidar de seus filhos pra cuidar dos nossos, e no final o máximo que a gente faz é olhar pra elas e a vida delas com uma certa condescendência, porque a gente diz que é da família mas elas nunca partilharão da herança.

Enfim, são pequenas coisas que a gente já fez sem querer ou perceber ou já viu fazerem e se acostumou, simplesmente porque é assim. E em parte é isso que o filme é: um grande tapa na cara. Porque a gente precisa se reconhecer nas nossa falhas, nos nossos privilégios para poder melhorar. Ficar varrendo isso para debaixo do tapete e se achando muito legal só porque é de esquerda não resolve nada, não muda nada. A mudança começa dentro da sua casa mesmo. Tratando as pessoas com dignidade, respeito e profissionalismo.

E aí tem a Jéssica. Nossa, como amo a Jéssica! não é a toa que a frase que mais adoro no filme é da Jéssica: “Eu não me acho melhor do que ninguém. Eu só não me acho pior.” A Jéssica é essa nova geração que está aí no Movimento Passe Livre, na Ocupação das Escolas ou que passou na UNB – Universidade de Brasília-  sendo aluna de colégio público. E a classe média não perdoa isso. Olha com preconceito, desdém e .. raiva.

Óbvio que também teve muita gente que refletiu com o filme, analisou as relações de mães e filhos estabelecidas nele, mas a enxurrada de reclamações , principalmente sobre a Jéssica, não pude deixar de notar. Quantos tuítes eu vi reclamando da folga da Jéssica porque abriu a geladeira, porque tomou sorvete, afinal era visita?! Ué, mas não disseram pra ela se sentir em casa? Ao menos aqui em casa quando vem visita eu deixo à vontade. Mas é que Jéssica não era visita, né? Era a filha da empregada, e aí não merece ser tratada como “visita de verdade”. Não merece o quarto de visitas, merece um colchão novo, olha que bondade, no chão. Já tá até demais, né?

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E assim é. Sempre que se debate sobre o filme, ele toma essa proporção imensa, desse fosso social gigantesco que temos, dessa exploração e divisão de classes no Brasil que nunca é falada com clareza e, assim como o racismo, varrida para debaixo do tapete. O brasileiro é avesso a determinados conflitos, aos que mexem com as estruturas que lhe favorecem.  Mas é preciso, sim, falar disso, cada vez mais e esse é o maior mérito do filme. 

Uma sociedade mais igualitária passa pelo reconhecimento de privilégios e pelo abandono desses para uma diminuição do fosso social, sem isso não há como ter um país melhor em futuro algum. 

Fim de temporada. Repensando questões.

Foi um ano difícil, e esse final de temporada, no Brasil e no mundo, está mais agitado que os 3 seriados da Shonda juntos. E não há nenhum spoiler do final, infelizmente. Adoro a segurança dos spoilers, cresci lendo no jornal da tv o resumo da semana da novela. E apesar dos pesares, dos retrocessos e tudo, foi um grande ano pro feminismo. As campanhas #primeiroassédio, #meuamigosecreto e #AgoraÉQueSãoElas trouxeram o feminismo e a luta das mulheres para a pauta do dia a dia, o feminismo está pop. As meninas liderando o #OcupaEscola (beijo, Marcela, musa) e a Marcha das Mulheres Negras também. O balanço é positivo, mas estou aqui a repensar alguns pontos que a gente anda a debater aí pelas internetz.

A sororidade. Já me posicionei contra ela, não acho que deva ocorrer de forma irrestrita, com passar a mão na cabeça quando se fala ou se comete bobagens. Mas ando pensando que sim, a gente precisa se unir mais pra buscarmos nossas conquistas, focarmos no que concordamos e temos de semelhante do que debatermos infinitamente as divergências. Isso não quer dizer varrer divergências pra debaixo do tapete e não falar sobre elas, mas sim mantermos o foco no que buscamos, nos direitos essenciais que ainda nos faltam. Não acho possível um feminismo interseccional sem …sororidade, ou na verdade, proteção e companhia de umas para com as outras.

Não acredito em vitimização de mulheres, mas como mulher bem sei que somos bem pouco ouvidas, sei que a vida todo dia esfrega o sistema patriarcal nas nossas caras, umas ainda mais que outras pois cor da pele, status social e orientação sexual pesam ainda mais. Mas acredito que a gente precisa de acolhimento e precisa acreditar que nenhuma escolha é feita no vácuo, que há aquele troço chamado caldo de cultura  dentro e misturado. Que nenhuma agência, nem masculina, nem feminina,  por mais madura que pareça é feita no vácuo, há o mundo em que crescemos e vivemos ao redor. A gente precisa uma das outras. Precisa ouvir o que a outra diz, precisa abraçar, botar no colo se precisar, mas também precisa dizer a verdade. Dizer: sai daí, amiga, você não precisa desse homem nem de homem nenhum, nem de ninguém. Não, não dê mais uma chance  a esse cretino. Não, esse ciúme, possessividade, controle, etc. não quer dizer que ele te ama etc e tal.

Não, sua mãe/pai/madrasta/vó/o escambau não estava certo, você é fera. É que a gente foi ensinada a ver o mundo com olhos de contos de fada onde precisamos de um homem do lado, do contrário não seremos ninguém, e eles nos salvarão do sono/tédio eterno e solteiras são pessoas não desejáveis. A gente tem que dizer pras amigas sempre e todo dia pra seguirem seus instintos primitivos, porque se tem algo que te faz sentir desconfortável, tenha certeza, vai piorar, não é para dar uma chance (cada vez mais acho isso mais provável que o oposto), que o cara só é bacana se te faz feliz , se não te diminuiu, se te faz ser melhor, assim como você faz a ele. E , principalmente, que se você está sozinha isso legal, há montes de amigos bacanas por aí, há livros, trabalhos, filmes, tanta coisa pra fazer. Sexo é ótimo mas não é tudo. Amor também, mas também não é tudo.

Sobre os feministos ou esquerdomachos ou uzómi ou, enfim, os homens. Olha, to pensando. Muito. A gente curte falar com eles, debater, curte tomar um suco ou uma cerveja, curte. Mas diante de uma maioria que prima pela falta de bons modos e de compreensão … realmente, caras, o protagonismo é nosso. Beijos.

Por fim, fico sempre pensando nessa cultura, que é do patriarcado, que fica constantemente acirrando os ânimos entre as mulheres, divindindo, opondo solteiras x casadas, gordas x magras, bonitas x feias, libertinas x pudicas e por aí vai, sempre numa dicotomia de santa ou puta. Todas somos santas e putas. Todas somos um monte de coisas várias vezes por dia, amiga, vó, tia, mãe, estudante, namorada, esposa, amante, funcionária… mas o mais importante é que somos mulheres, estamos cansadas e devíamos estar unidas. A união nos fortalece, a divisão dissipa nossa força como conjunto.

E era só isso que eu estava pensando pro ano que vem, que a gente se atacasse menos e se ajudasse mais, fosse mais às ruas porque acho mesmo que o caminho está aberto.

Feliz ano novo e feliz nova vida, mulheres, suas lindas.

 

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ps: a foto do post foi escolhida por mim como uma homenagem do coração a  Marcela, mulher, estudante, negra e minha musa absoluta de 2015. que seu 2016 seja foda como você, garota.

 

Ocupem as escolas, ocupem tudo

Final de ano, me sinto mais ainda cansada que o normal e, convenhamos, 2015 não foi fácil. Cada dia uma porrada diferente, cada dia um 7 x 1 diferente na gente. Nem vou tentar começar a desfiar o festival de desgraças e tristezas pra não correr o risco de fazer competição de catástrofe. Não aguento mais nem me atualizar com as notícias. Tenho vontade de me refugiar só no quentinho das boas lembranças de um passado remoto quando ainda estava tudo mais ou menos bem.

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Mas, pra viver a gente precisa de ajuda para respirar esse ar pesado, para botar a cabeça fora d’água e puxar o ar de novo. E o que tem me animado a não desistir de olhar pra frente são os jovens. Pois é, 43 e já me considero velha. É que gente da minha geração já tem ou casa ou carro ou filhos ou um monte de contas a pagar por causa de algumas dessas coisas ou todas elas juntas e, aí, desiste de sonhar, de tentar mudar a si e ao mundo e aceita as coisas como estão e nos tornamos mais que realistas, nos tornamos pragmáticos, desiludidos e amargos.

Mas quem é que ajuda a impulsionar as mudanças de comportamento aqui e mundo a fora? Quem esteve em Paris 68? Quem foram os jovens que resistiram à Ditadura? Tem um chavão por aí que diz “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Trinta talvez não pra todas as pessoas, mas quarenta… com certeza.

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E hoje chego em casa e me deparo com essas meninas e meninos ocupando as escolas no estado de São Paulo. Nem terminaram o que na minha época a gente chamava de colegial e estão lá, lutando bravamente pelo direito de estudar contra uma reorganização sem objetivos claros, empurrada goela abaixo da comunidade escolar.

Sabem se organizar horizontalmente, distribuir tarefas. Estão arrumando as escolas, ao contrário do que a mídia, fazendo o papel de assessoria de imprensa do Estado e do governador, divulgou e… estão apanhando e sendo presos. Apanhando como se adultos fossem. Apanhando como se não existisse a proteção do ECA ou se como o Judiciário paulista não tivesse impedido a PM de forçar a invasão das escolas.

Dá raiva, nojo, quando ouvimos os áudios ( aqui e aqui )  de gente ligada à Secretaria de Educação e ao governo do Estado chamando para ir para a guerra contra essa molecada. É uma guerra desigual e desonesta da PM invadindo com cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral versus estudantes de camiseta de escola armados de palavras de ordem.

A grande justificativa é o tal do impedimento da via pública. Juro que queria entender qual o amor do paulistano ou do brasileiro em geral ao carro e ao trânsito acima das pessoas. Mas é um amor seletivo pois gente do MBL impediu o trânsito ontem na Av. Paulista e a polícia nem deu o ar da graça para tirar um selfies.

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“Tempos difíceis estão por vir…” , diria Dumbledore. E é por isso que tenho tentando manter nesse espaço o otimismo. E apesar do horror que a violência dos vídeos e fotos me causam, a esperança no futuro que outros vídeos, fotos e relatos de uma gente linda, inclusiva, honesta, elegante e sincera me causam com seus cantos e gritos de guerra.

E porque ninguém velho e amargo como nós é que iria vestir com tanta galhardia uma camiseta escrita à mão: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sigam em frente, a luta é de vocês, e é também nossa, estamos juntos por um mundo melhor. Obrigada por não nos deixarem esquecer que tudo ainda é possível. Força.

Para mais informações sobre o #OcupaEscola clique aqui:

https://www.facebook.com/naofechemminhaescola/?fref=photo

https://www.facebook.com/Ocupa-E-E-Diadema-1505790296409080/?fref=ts 

https://www.facebook.com/ocupacaosalvadorallende/?ref=ts&fref=ts

https://www.facebook.com/brasildefato/posts/998486000199364

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/?fref=ts

Alguns dos dias lindos da luta

E num ano que andava tão ruim que eu acordava e vi as notícias e pensava: “Céus, só queria estar morta!”, tivemos dias lindos, da mais louca alegria, dias cor de rosa, púrpura, arco-íris de lindos. As mulheres voltaram às ruas contra aquele PL pavoroso do Cunha. O triste assédio sexual sofrido por uma garota de 12 na TV  mas que resultou numa explosão de 100 mil compartilhamentos de histórias tão ou mais escabrosas sobre assédio na infância e adolescência (não que isso seja bom, mas precisamos mesmo falar sobre isso para que tenha fim, nada que é velado acaba) com a tag #primeiroassédio.

E ainda tivemos o apelidado “Enem Feminista”, com citação de Simone de Beauvoir, tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, poesia sobre resistência negra e feminista queer mexicana Gloria Evangelina Anzaldúa. Para finalizar, a imprensa escrita tradicional publicando matérias sobre grupos feministas comandados por garotas adolescentes dentro de suas escola, tanto na periferia quanto nas escolas particulares (sobre isso tem um texto fantástico da Vanessa Rodrigues) .

Tá, eu sei que não tá tudo perfeito, sei que a luta é árdua e longa, sei que várias partes do feminismo interseccional a gente ainda mal alcança (feminismo negro, feminismo trans, feminismo na periferia, e tem gente tentando, sério), mas eu chego a chorar escrevendo isso porque me lembro que até uns 5 anos atrás a palavra feminista mal era ouvida por aí, ainda mais na boca de adolescentes ou era ouvida mal mesmo. As pessoas achavam o feminismo um horror, tendo idéias bem absurdas sobre o que ele significa (tal como supremacia da mulher, sendo pois, o exato oposto do machismo, o que sabemos não ser verdade, feminismo é luta por igualdade de direitos).

E, sim, tem o mainstream se apoderando da palavra pra vender, como faz com tudo no mundo. Mas, sabe, isso não é ruim de todo, pois foi pelo mainstream que eu conheci o feminismo nos anos 80, pirralha, com uns 10 anos, vendo TV Mulher e Malu Mulher, principalmente Malu Mulher. E olha que a palavra mal era usada, nem sei mesmo se era, mas ali aprendi a ser livre e independente, aprendi sobre igualdade de direitos. Óbvio que depois busquei mais, achei a Beauvoir e Rose Marie Muraro lá pelos 15 e 18 anos. Mas tudo começou ali, na TV, na Globo, pasmem.

Essas garotas jovens lutando por nós todas, mulheres, com tanta força e tanta consciência, fazendo o feminismo retornar às pautas e às ruas me dá esperança que um dia a gente seja a Finlândia e façamos nossas greve geral. Que gente como o Cunha e asseclas não permaneçam pra sempre na política.

Vamos nos unir e ir à luta com essa juventude linda que tá pintando aí. A gente tem tanto pra aprender com elas  quanto elas conosco, porque se a gente ficar buscando um purismo que não existe, se concentrando nas mil pequenas dissidências ( não estou falando de passar por cima do que é importante), toda iniciativa que seja bacana vai parecer em vão. O mundo não é perfeito. A militância, consequentemente, também não é.  Criticar é preciso, debater também mas precisa mais. Precisa achar um ponto de união e comemorar as vitórias, mesmo as pequenas.

Porque a direita sempre joga fora divergências e se une por dinheiro e poder, facinho, facinho. E em geral leva o caneco para casa, enquanto a gente fica se debatendo anos pra uma vitória sequer e desdenha depois, porque a vitória não tá boa, ideologicamente pura o suficiente. Vamos aproveitar a alegria desses dias, como bem disse a Bia Cardoso nesse texto lindo e vamos permanecer na luta, nas ruas.

Fora Cunha.

Fora Machistas.

Não Passarão.

 

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Como nota triste a toda alegria provocada por tudo que aconteceu e foi relatado nesse texto, infelizmente vem a revanche e o backlash , e a vítima da vez foi a Lola Aronovich, feminista batalhadora e conhecida que muito acrescenta à nossa luta e que vem sofrendo uma série de ataques, inclusive de celebridades. Manifesto meu apoio a Lola. Machistas, seu medo e sua inveja bate na nossa pomba e gira. Tamo junta, Lola.

 

 

PL 5069 e a nova ameaça à saúde das mulheres

E foi aprovado hoje na CCJ- Comissão de Constituição e Justiça – da Câmara dos Deputados o absurdo e acintoso PL 5069 de autoria do capeta, não pera, de Jesus.com, não pera, do probo e ético Presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Na prática, o PL impede que mulheres vítimas de abuso sexual e estupro acessem o atendimento emergencial via SUS, já que para isso seria necessário um exame no IML. O projeto, ainda, torna crime induzir ou auxiliar uma gestante a abortar sob a justificativa de “dotar o sistema jurídico pátrio de mecanismos mais efetivos para refrear a prática do aborto, que vem sendo perpetrada sob os auspícios de artimanhas jurídicas, em desrespeito da vontade amplamente majoritária do povo brasileiro.”

O exame no IML é mais um constrangimento para a mulher que foi abusada. Ademais, em vários estados, a estrutura do IML é lenta e ineficiente para realizar exames de corpo de delito, em virtude da escassez de profissionais e recursos. O que o nobre deputado visa, assim, em sua cabeça oca e maluca, é impedir que as mulheres que procuram o auxílio médico após violência sexual abortem, se sintam constrangidas e deixem de tomar a pílula do dia seguinte. Lembro que o aborto em caso de estupro é permitido em nossa legislação.

O fato de tornar crime o auxílio ao aborto visa impedir que profissionais da saúde auxiliem uma vítima de abuso ou até uma mulher que esteja abortando, impedindo que se preserve a vida e saúde da mulher, o que é uma óbvia violação aos direitos humanos.

Acontece que, segundo dados do IPEA, em pesquisa sobre o estupro, “no  mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia.” A Nota Técnica é assinada pelo diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia, Daniel Cerqueira, que fez a apresentação, e pelo técnico de Planejamento e Pesquisa Danilo Santa Cruz Coelho.

Os registros do Sinana demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “Ou seja, os dados de estupro já são fortemente subnotificados porque as mulheres têm medo, vergonha e se culpam ( de algo em que a culpa é só do estuprador, nunca delas, não importa onde estejam ou o que vistam). Imagina se for necessário um exame do IML para receber tratamento médico adequado e gratuito ( como manda nossa Constituição).

Esquece o probo Deputado que nesse atendimento médico, além da possibilidade de administração sim, da pílula do dia seguinte, é ministrado o coquetel Anti-AIDS e de outras doenças venéreas. Deixa a descoberto, de novo, a saúde das mulheres, não digo nem a mental que, por óbvio, já está negligenciada ao tratá-la como culpada e não vítima, mas a saúde física mesmo, pondo em risco inclusive sua vida.

E para completar o erro que significa esse PL, a pílula do dia seguinte nem é considerada abortiva pela comunidade médica:

“O Ministério da Saúde, desde 2013, facilita o acesso à pílula do dia seguinte. Os postos de saúde não exigem mais receita médica para distribuir, gratuitamente, o medicamento desde essa data.”

Porém, o medo de que as mulheres façam uso indevido ou excessivo do medicamento, a proibição pela Igreja Católica e protestante, por considerá-la abortiva, e os tabus que envolvem o sexo dificultam o acesso a informações sobre seu uso correto e disponibilidade.

Os médicos são taxativos ao afirmar que a pílula do dia seguinte não é abortiva. Ela evita ou adia a ovulação, caso ainda não tenha ocorrido, e não deixa formar o endométrio gravídico, a camada que recobre o útero para receber o óvulo fecundado. Assim, a gravidez não ocorre.

Deve ser tomada imediatamente após a relação sexual desprotegida ou até 72 horas depois. Quanto mais depressa a mulher tomar a pílula, mais eficaz ela será.

Segunda pesquisadora Bruna Suruagy, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a missão da bancada evangélica no Congresso “é de preservação, não de criação. Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas, eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manutenção de uma ordem do que de transformação. É uma ação mais combativa, defender uma ordem social hegemônica. Os projetos que estão surgindo são pra fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo, com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização da homofobia – criminalização da heterofobia. São projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer tipo de discriminação de gênero, sexual. (…)

(…) Toda moral é um sistema de controle. A sexualidade é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então, você tem um sistema normativo de controle. É genuíno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína de posições morais que eles querem transferir para a realidade social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não é legítimo é trazer esse discurso para a esfera pública de um Estado laico. “

Sendo assim, nada me impede de pensar que mais uma vez o direito das mulheres, a saúde da mulher, foram usada para fazer cortina de fumaça. Num momento em que o Presidente da Câmara está enfraquecido por denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ligado a Lava-Jato, ele acaba se colocando, de novo, no posto de defensor da moral e dos bons costumes, pros que acreditam nisso e votaram nele.

O caminho a seguir por nós, mulheres, agora , é nos unirmos e botar a boca no trombone, posts, atos nas ruas, petições o que for necessário. No campo jurídico o PL é visto como inconstitucional, pois fere direitos individuais e pode ser objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade, mas melhor não esperar esse último recurso e tentar barrar o PL que ainda vai passar pelo plenário da Câmara e pelo Senado.

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Silvia Badim, nossa musa biscate nos representando nessa luta junto com outras mulheres corajosas.

O fogo ‘das paixão’. Cadê?

Daí que ouvi essa música linda do Moska no carro e e desandei a pensar….

Você estava lá, andando distraída pela vida e aí o mocinho faz psiu, manda um beijo, faz vem cá, você tava meio desocupada mesmo e vai. Um encontro. Poxa, muito bacana a química que rolou. Mas sabe-se lá por que o cara parece que se embriagou com seus ferômonios, seu jeito, sua chave de buceta ou tava carente mesmo ( aposto na última), enfim, ele cisma que vai te conquistar. Você ,soltinha da vida, ri da cara dele, coitado…pretensioso…. Mas ele é jeitoso… amigo do capeta, só pode, e fez pacto com Exú par te trazer em 7 dias, ( na verdade uns 3 meses que você num  é assim facinha) e assim acerta seus pontos fracos e também o ponto G.

Lascou, pronto. Você está apaixonada.

Você quer transar todo dia, ele também ( ufa), no carro, na escada do prédio, na fazenda, numa casinha de sapé, no elevador e, obviamente, na cama. Você esquece da tese, ele esquece do trabalho, você se atrasa par tudo quanto é compromisso, ele também, mas tá tudo lindo, cada vez mais lindo. Cada vez mais foda. E bota foda nisso.

Surpreendentemente alguns anos se passam, o fogo da paixão não passa, nem com Luan Santana cantando, e aí que você se distrai de novo, bate o dedão na pedra, tropeça, fica doente, desfalece, se distrai, sei lá e 2 anos… e um cientistas dizem que a tal paixão acaba mesmo e ….Caiu um balde de água gelada imaginária do céu na cabeça de vocês, vocês olharam pro lado e pá, outra vez. Aí sim, vocês ouviram o Luan Santana berrando e o fogo da paixão fuéeeen. Apagou.

O problema é que você, amiga-irmã-feminista-zoeira, não acredita em Revista Cláudia e não acha possível ressuscitar fogo da paixão. Não acredita em magia do amor, lingerie mágica, noite de fogo etc e tal. Sobrevivem carinho, amor, mas paixão, neca de pitibiribas, e você sente falta daquele vício mais do que de chocolate, e até ainda pensa nele, é só se distrair. E aí? Se você não lê revista feminina, como faz pra recuperar o fogo da paixão?  Isso existe? É possível? Sugestões para esta editoria. Obrigada.

Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira

Faz tempo que a Globo não via um sucesso tão retumbante como Verdades Secretas, mesmo passando na faixa das 23 horas e afrontando todos os valores da moral e dos bons costumes, muito mais que Babilônia. Revela assim a dupla moral que o brasileiro sempre teve. Aquele retrato da família perfeita que por trás tem outra família ou amantes várias e tudo aceito de bom grado, desde que devidamente discreto.

A novela é bem produzida, bem dirigida, fotografia de comercial, de cinema, linda ( me lembrou muito Adryan Line), trilha sonora excelente. Ótima direção de atores. Tudo muito moderno. Tudo de excelente qualidade como raramente se vê.

Verdades Secretas teve de tudo: prostituição, drogas, menores abusados com professores e matando aula, pais sem saber o que fazer com os filhos, mulher mais velha com michê que a engana e nada, nada disso abalou a família brasileira. Ao contrário. Foi um sucesso. Mas vamos ver o que isso revela.

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As drogas. Grazi Massafera foi por unanimidade o grande destaque da novela, brilhou no papel da modelo viciada em crack que vai parar nas ruas. Não foi só a ajuda da boa maquiagem, mas cresceu como atriz e interpretou todas as dores de estar desiludida, se drogar e ser estuprada. Mas é aí que a coisa pega. Walcyr Carrasco parece ter com suas personagens femininas que saem do estereótipo de mãe dedicada e batalhadora uma vibe sempre corretiva. Em algum momento da história elas são corrigidas pelo “destino” sem dó nem piedade e finalmente se redimem. É o arquétipo da Maria Madelena, do pecado cristão, da surra corretiva (aqui me parece do estupro corretivo) seguido finalmente pela redenção. Fica muito claro isso após uma moça ser estuprada por vários homens e não ser levada a um hospital, tomar um banho que fosse. Vai direto pro culto.

Já para o filho do empresário rico, que usa droga de rico, cocaína, o ambiente da overdose é quase asséptico de tão limpo. O rapaz vai pra uma clínica e toma um banho. Ele não se envolve com a sujeira das ruas. Vai ver por isso o Ministro Barroso sugeriu descriminalizar só o uso da maconha, né? Crack é coisa de gente suja, pobre e quase sempre preta (como mostravam as cenas da novela, exceto pelo belo casal branco) e envolvida com o crime.

A culpabilização do desejo e do sexo. Em nenhum momento na trama foi mostrada alguma relação sexual ou amorosa saudável. Sexo era sempre moeda de troca de algo. Jamais de desejo por si só. Sempre uma forma de ganhar dinheiro e poder. Angel e Gui vivem num vai e vem e ela não parece mesmo gostar dele, parece fuga. Mesmo Giovanna e Antony, que parecem ter um sentimento genuíno um pelo outro, estão mais preocupados com dinheiro e fama do que com o que sentem um pelo outro. Fanny é culpada por desejar um homem mais novo a qualquer custo e assim perde sua noite de glória, mas acha um novo rapaz jovem. Lyris é assassinada pelo namorado, a quem se referem como: “perdeu a cabeça”, vejam bem. Perdeu a cabeça por ciúmes, amor. A culpa é dela, portanto. O de sempre. Pia, como resultado de sua relação com um cara mais jovem, engravida, faz um aborto e é por este condenada, sendo que ele a engravidou só pra casar com uma mulher rica: só que na cena ele sai todo dono da razão. Mas finalmente reata o namoro e se redime.

E nada para mim foi mais emblemático, justo na quinta feira em que o Congresso aprovou o horrendo Estatuto da Família, do que a cena em que a família formada por Alex, Carolina e Angel (homem, mulher e filha) está sentada à mesa, como boa família, mas mal se falam. Destroçada que é. Problemática e falsa que é a família rica e feliz.

Por último, Angel fica na última cena do casamento me parecendo demonizada quando na verdade, para mim, finalmente cresce, rompe o ciclo de abuso e entende o quanto era manipulada por Alex, se vinga e toma as rédeas de sua vida nas suas próprias mãos, o que fica muito claro no olhar de desprezo que dá para Fanny. Mas nas redes sociais era chamada de prostituta e capeta pra baixo ( e aqui nesse blog prostituta não é xingamento; pensando bem, nem capeta) quando o maior vilão da novela, Alex, mal era citado.

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E é essa a novela que afinal temos: moderna, ágil, fotograficamente bela por fora, mas que por dentro reforça uma moral dos anos 50, em que mulheres são forçadas a se prostituírem, tem culpa e morrem para se redimir ou são salvas pela religião ou pelo casamento: ninguém vai ser feliz sendo independente. Onde a escolha pelo aborto é reforçada como culpa, onde a relação abusiva de um homem com uma jovem é romanceada e ganha até torcida. Onde qualquer mulher que saia do estereótipo da Virgem Maria, a mãe devotada do lar (Carolina não era porque não foi vigilante com a filha) será punida ou vista como uma mulher pérfida e fria (olhar de Angel, no final). Nada de novo sob o sol da teledramaturgia. É só mais um Direito de Nascer com nova roupagem. Prendeu a atenção brilhantemente, mas não muda em nada o papel imaginário da mulher na teledramaturgia brasileira.

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Por último, como noveleira que sou, quero deixar meus parabéns , além de pra Grazi que esteve fantástica, pro Mauro Mendonça Filho pela direção,  pra Marieta Severo e Eva Wilma que estiveram maravilhosas e m especial para Drica Moares que merecia um caminhão de Oscar, Emmy, Kikito, APCA, etc etc: foi foda, mulher.

Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

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Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

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E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

Eduardo Cunha, o déspota dono da bola, e a redução da maioridade penal

Nenhum país sai de um processo de 30 anos de ditadura sem sequelas, é certo. Mas acho que a nossa transição suave e a falta de punição aos responsáveis por desmandos, corrupção, torturas e mortes com a Lei da Anistia talvez também estejam deixando sequelas.

O clamor que levou o país a mergulhar no processo ditatorial temendo, injustamente, que pudéssemos sofrer uma revolução socialista, com boatos de um Jango socialista, que hoje se sabe não corresponderem aos fatos, se repete com clamores de Lula e Dilma bolivarianos, cubanos e bobagens por aí. A nossa falta de revisão histórica ao findar a ditadura reitera os mitos que o brasileiro médio tem acerca do que significa direita e esquerda, e vemos as confusões se repetirem. E talvez toda essa polarização baseada em falsas premissas e muito populismo tenham ajudado a configurar o congresso mais conservador que temos desde antes da ditadura.

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E o que isso tem a ver com a votação de ontem e anteontem na Câmara dos Deputados? Para mim, tudo. Os discursos populistas, a falta de embasamento técnico e de pesquisas acerca do assunto dos digníssimos deputados para votar, o discurso   vazio contra o governo – mesmo que a votação nada dissesse a respeito disso, pois a não-redução da maioridade penal não é um política estrutural do atual governo -, ou seja, uma Câmara conservadora e bastante fraca, facilmente manipulável e frágil no que diz respeito a um dos alicerces da democracia: o respeito à Constituição vigente. Um indivíduo, de perfil quase caudilhesco, o deputado Eduardo Cunha, manipula pela segunda vez uma votação, rasgando a Constituição Federal (art. 60) a seu bel prazer. Até o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, criticou a manobra de Cunha. “Matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa”.

A manobra de Eduardo Cunha está sendo chamada de “pedalada regimental” e ocorre após a derrota-surpresa, por apenas 5 votos, na noite de terça para quarta-feira. Aliás, a cara de Cunha quando foi aberto o painel foi impagável, e naquele momento ele já encerrou a sessão dando início à manobra que culminou na sua vitória no tapetão, quando nesta 5a feira, no plenário, foi comparado ao Fluminense pelo deputado Paulo Pimenta. Quero lembrar que Cunha é alvo de inquérito no STF por crimes contra a ordem tributária e também responde a ações por crime de improbidade administrativa. 

É esse o homem que faz cara de probo quando vocifera sobre outros crimes que não os dele.  

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Uma das deputadas que alterou o voto de terça para quarta, após ter publicado texto em sua página contra a redução da maioridade, foi a deputada Mara Gabrilli, do PSDB –SP. Cabe a seus eleitores perguntarem o motivo da drástica mudança de opinião, já que se sabe que houve pressão pessoal do deputado Eduardo Cunha na reversão dos votos. Há de se perguntar também, quanto os demais parlamentares, que poder é esse que o Presidente da Câmara exerce e que medo, como foi falado no plenário por alguns deputados, é esse que impõe, com base no qual consegue ser obedecido. Tem, inclusive, exercido pressão nos funcionários concursados da Casa.

Há possibilidade de reversão da PEC no Senado e até no STF, embora não haja consenso sobre se fere ou não a cláusula pétrea. Mas o que quero deixar como reflexão neste post é a fragilidade da nossas democracia e o clima de pressão numa das casas do Congresso Nacional, onde o dono da bola só deixa jogar se ele vencer o jogo.

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Mais sobre a redução:

A redução da maioridade penal e as mulheres

Veja como cada deputado votou na redução da maioridade penal

 

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