O que eu quero quando quero você?

Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Arcano VI do Tarô - Os Amantes. “É preciso saber escolher”

Arcano VI do Tarô – Os Amantes.
“É preciso saber escolher”

Faz alguns anos que um processo se dá em mim quando me apaixono. Não importa mais tanto o que sinto, mas o que eu quero a partir do momento que tomo conhecimento de que sinto por alguém. Pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas para mim é recente. Sempre fui da turma dos passionais. Se me apaixonava não estava nem aí, queria viver loucamente o que estava sentindo e dane-se o resto. Não que isso tenho se alterado, estruturalmente ainda sou assim, mas depois dos desencontros, dos tropeços, de reflexões e de aprendizados mudanças ocorreram. A paixão tem se mostrado cada vez mais como um espelho que reflete sempre uma questão: “O que você quer? ”. E essa questão é sempre o que deixa aquela pulga atrás da orelha, que tira o sono algumas noites. “O que eu quero” talvez seja umas das perguntas mais difíceis de ser respondida porque o desejo ele não é uma verdade já posta, ele também leva tempo.

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Hoje eu estou apaixonado e estava pensando no rapaz que gosto enquanto ia ao mercado. Estamos em cidades separadas por conta das férias e ás vezes falamos pelo whatsapp, mas  já estava pensando em quando voltar fazer um jantar para esse moço, para nós dois: macarrão, queijo, vinho (duas garrafas), uma barra de chocolate. E daí lembrei, lembrei dele, um ex , um ex com o qual eu aprendi muito das artes do amor. Ele é descendente de italiano, cozinha super bem, tem uma boca gostosa, um olhar safado e um sorriso descarado. Lembrei dele, justamente, porque queria perguntar “como é mesmo que você faz aquele macarrão? ” “Qual o queijo que você usava? ” “ Que hora que é para pôr a salsinha? ” Ou será que era cebolinha? Lembrei disso e ri. Ri e agradeci. Agradeci porque fui amado, desejado, cuidado, seduzido e, claro, machucado, porém pude viver tudo isso. Aprendi sobre as delicadezas do amor, os detalhes do amor, os cheiros, os alimentos, os prazeres e desprazeres. Aprendi que “Maycon, quando você fica bravo parece uma mulher brava”. Aprendi que quando estava tão deprimido, sem saber para onde ir e o que fazer tive alguém que deitou do meu lado e me abraçou, me acolheu, foi meu chão sem hesitar quando tinha perdido completamente as coordenadas de quem eu era ou o que queria. O amor é uma aprendizagem e se conseguimos elaborar os ressentimentos, as dores, as frustrações ficam em nós os gestos de amor que partilhamos. Como uma espécie de receita especial que alguém mais velho da família faz e ensina a alguém mais novo e partir daí vai passando de geração em geração mantendo-se viva. Eu sei amar hoje porque fui amado ontem e quem eu amo hoje amará amanhã. E seguimos amando, machucando, ensinando, aprendendo.

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Lembro de uma professora de psicologia que tive que dizia “quando vocês não souberem algo, perguntem a vocês mesmos, em voz alta: o que eu quero? ”. Achava ela ótima, meio louca, mas ótima. Anos depois me pego usando esse conselho porque muitas vezes eu não sei o que quero: Não sei o que eu quero quando quero você. Mas ainda que seja angustiante não saber o que se quer tem um ponto crucial aí nesse não saber e o nome é liberdade. Quando você não sabe, quando o seu desejo não é automaticamente capturado pelas normas, pelo que deve ser, pelos caminhos que deve seguir, pelo modelo que você deve corresponder o único caminho possível é a liberdade. É experimentar, é testar, é tatear. A mesma professora que citei dizia “vão vendo por onde vocês estão caminhando, não botem logo de cara os dois pés. Coloquem primeiro os dedos, sente se dá pé, se está firme, se não der volte, dê um tempo, depois vá de novo ou mude a direção”. Não há a melhor escolha, a mais correta, o que há é a escolha que você tem condições de fazer naquele momento. Tem uma frase bem conhecida entre o pessoal que estuda tarô que é “ A tendência da vida é dar certo”. Se jogue e diga para a pessoa amada: me chame pelo seu nome.

 

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Esperando o avião

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Enquanto espero o avião que me conduzirá à tempestuosa São Paulo, ouço Air Supply cantando breguices maravilhosas e testemunho, mesmerizado, a paquera entre duas moças.

Uma delas tem tranças de índia cherokee e olhar de fingida inocência. Ela não percebe, mas lambe os lábios quando olha na direção da outra moça.

A outra é tão branca que reluz. Como alguém consegue vir a Salvador e retornar tão profundamente branco? Uma prova de que os filtros solares são, de fato, eficientes. Nota mental: pesquisar os lançamentos do mercado. A branquelinha parece não crer que está sendo paquerada. Já olhou pra trás duas vezes, tentando verificar se porventura está entre Pocahontas e seu verdadeiro alvo.

Air Supply canta bem alto, mas só eu consigo ouvir, porque sou educado e uso fones de ouvido:

You know you can’t fool me
I’ve been loving you too long
It started so easy
You want to carry on
CARRY OOON…

O alto falante diz algo que eu não sei o que é, mesmerizado que estou com a cafonice maravilhosa que define meu gosto musical. Pocahontas corre na direção da porta 5, onde se lê

CONGONHAS

Então ela para, parece pensar um pouco, corre de volta para a cafeteria, morde o labio enquanto escreve algo em um papel, corre na direção de uma pasma Branca de Neve, entrega um papel para ela e desaparece na fila de anônimos que vão para

CONGONHAS

Branca de Neve tem a boca aberta, como a de quem acabou de testemunhar um fenômeno. Deve estar se subestimando. Só de olhar pra ela, eu acho perfeitamente compreensivel que alguém queira paquera-la. Ela tem uma cara de pasma constante, e isso é muitíssimo charmoso.

Ela retira o celular da bolsa e ri, enquanto digita algo. Quase certo que está contando o ocorrido para alguém.

Air Supply muda a cantoria, e agora grita

I’m all out of love, I’m so lost without you
I know you were right believing for so long
I’m all out of love, what am I without you
I can’t be too late to say that I was so wrong

Há quem ache feia essa minha mania de ficar prestando atenção em desconhecidos, mas sou desses. Não consigo controlar. Branca de Neve mora em Brasília, vejam só. Voo 3268, PROCEED TO GATE 6. Lá vai ela.

Eu gosto de pensar que elas vão se ver de novo, e por isso fiz um vodu cyberxamanico usando o Google Maps.

Eu de fato acho que há mais amor do que ódio no mundo.

Eu sempre vejo isso em aeroportos. Talvez porque o amor seja uma viagem? Gosto de pensar que sim.

I want you to come back and carry me home
Away from this long lonely nights
I’m reaching for you, are you feeling it too
Does the feeling seem oh so right
And what would you say if I called on you now
And said that I can’t hold on
There’s no easy way, it gets harder each day
Please love me or I’ll be gone, I’ll be gone

 

10429277_10153033445359913_2025333463143611136_nAlexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

Padrão Vadia

Por Helen Taner, Biscate Convidada

Resolvi escrever sobre uma coisa que vem me incomodando e sei que muitas pessoas a minha volta também. Então, como eu já disse aqui, eu tenho 105 quilos e eu sou vadia. MAS NINGUÉM ACREDITA. Eu sei, eu sei, “ninguém tem nada com isso” e também “não precisa provar nada para ninguém”. O negócio é de que o fato delas não acreditarem também está relacionado aqueles números ali em cima. Portanto, esse texto aqui é sobre como existe um certo padrão para tudo, até para ser uma vadia.

Eu sei que as pessoas que vão ler são, em sua maioria, desconstruídas e também sabem que o ideal vadio não corresponde a realidade, mas vamos fingir que não e pensar um pouco como aquelas pessoas que acreditam fielmente nele para responder a algumas questões. Quando você pensa no termo “vadia” qual é a imagem formada na sua cabeça?

Boa parte da população citaria exemplos de alguma personagem de telenovela que provoca homens (exatamente, no sentido heterossexual) com as suas roupas curtas e perfeitamente ajustadas a um corpo escultural (magro ou estilo “panicat”), com cabelos compridos até a altura da bunda (e que bunda né?), super maquiada e incapazes de ter um relacionamento de verdade ou de deixar “em paz” os relacionamentos a sua volta. Quais dessas seriam consideradas vadias, a princípio (porque, né, toda mulher sempre pode ser “xingada” de puta por não se adequar a alguma expectativa social)? A moça da propaganda de absorvente ou amaciante (estereotipada), que tem roupas ‘comportadas’, sem decotes e no comprimento “adequado”, ou a moça da propaganda de cerveja, que está num bar cheio de homens com um shortinho mostrando parte da bunda e com um decote que é maior que o tamanho da blusa (mesmo se elas estiverem dentro da geladeira)? Os exemplos são muitos, sei que quem está lendo consegue entender esta divisão santa X vadia, que a sociedade repete.

Enfim, eu não estou dentro dessa imagem construída de o que é uma vadia. Eu sou gorda, atualmente careca, me visto com roupas largas da sessão masculina (tipo um mano), não tenho belos peitos (ainda) nem o tal corpo escultural – e não me relaciono só com homens.

Eu sou pansexual, na realidade. Essa última característica – que não é evidente na aparência – é a única me “enquadra” neste estereótipo, pois há um grande preconceito com pessoas pans. Na minha observação, a maior parte das pessoas acha que ser pansexual é um código para promiscuidade e para não se controlar diante de qualquer um que esteja próximo. Deixa eu esclarecer: ser pansexual significa apenas que eu sinto atração por pessoas independente do gênero e somente isso.

Aí quando a pessoa que está por perto não sabe da minha pansexualidade e eu falo algo do tipo “fazer o que? Eu sou vadia mesmo!” a reação é de estranhamento (às vezes inconsciente, mas igualmente problemática) ao fato de eu não estar de acordo com o esperado. Isso me incomoda. E não só a mim. Muitas amigas gordas reclamam sobre isso, como se ser biscate dependesse de um determinado corpo e não de como você se sente ou do quanto gosta de ser livre. Como se fosse impossível você “conseguir” ser vadia tendo determinado tamanho/peso. Está implícita a idéia de que nenhum homem (a heteronormatividade impera) ou mais, nenhuma pessoa (no meu caso) vai querer trepar com uma pessoa gorda. Como se não pudéssemos ser desejáveis.

E eu sinto que isso talvez não devesse me incomodar tanto, já que sofremos preconceito em muitos outros setores (como ir a médicos, entrar em academias, conseguir empregos), mas incomoda. E eu vejo muitas manas que lutam contra a opressão e contra os padrões incorporados na nossa sociedade reproduzindo isso. Machismo e gordofobia costumam trabalhar juntos com muita eficiência.

Não devíamos ter que provar que podemos ser amadas ou o quanto nos amamos – até porque nem sempre nós temos certeza disso, neste contexto é sempre uma conquista manter a autoestima. Ser gorda é um processo interno gigantesco de aceitação ao próprio corpo, de negação de valores sociais pré-estabelecidos e mesmo a mais autoconfiante pode acordar com vontade de quebrar o espelho. E sabe o porquê? Porque em todos esses pequenos gestos mostram-nos o contrário do que estamos construindo em nós.

Com tudo isso expulso do meu peito, eu queria deixar dois recados. Você que nunca sentiu essa sensação que eu descrevi pense se você não é a outra pessoa, a que encara, a que quase ri e, se for, eu espero que trabalhe para desconstruir isso em você mesma. Se você é a pessoa que sentiu, a que sabe exatamente do que eu estou falando, CALMA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA, existem outras pessoas que passam por isso (algumas nem estão tão fora do padrão assim e sofrem também) e acima de tudo, continue trabalhando isso dentro de você para que ninguém consiga tirar seu amor próprio nem sua vontade de continuar lutando e sendo a pessoa MARAVILHOSA e VADIA que você é.

Helen Taner de Lima é uma vadia Trans Não Binárie – Agênero, que responde pelos dois pronomes, e Pansexual, graduanda em Filosofia na PUCPR, que estuda gênero e Teoria Queer, escorpiana que não acredita em astrologia e professora quando o governo deixa. Blog pessoal: http://harmonuim.blogspot.com.br/?m=1

Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do teu prazer!

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Quem me fez soube me fazer eu sou feita do fogo e do azeite de dendê
ponto de pomba-gira

Escrevo esse texto para dizer apenas uma coisa: adoro ser desejado. É isso. A mensagem é essa. Todo o restante do que irei escrever é um retorno a essa afirmação primeira. Gosto quando demonstram tesão por mim, quando querem me pegar, quando me olham com cara de safado, quando ando sem camisa na rua e me olham com aquele cara de quem quer me ver sem a bermuda.

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Lembro da primeira vez que eu fiquei com um cara que eu estava de olho fazia já um tempo, quando fiquei pelado ele me olhou e disse “nossa” e adorei.  Outro dia no aplicativo um cara escreveu “Perola negra. Nossa! Que rei!” e ri e fiquei todo aceso. Adoro quando sentem desejo por mim. Gosto quando chupo um cara e ele se contorce inteiro, quando geme puxando os lençóis louco de tesão. Quando pede mais: mais beijo, mais chupada, mais pau.  Me achar um gostoso, um negão de tirar o chapéu não me ofende, não me diminui. Sabe aquela frase do Paul Valéry “o mais profundo é a pele”? Então, para mim é bem isso. O que vem primeiro é a pele, o olhar, o cheiro, o corpo. Se vai ser só uma noite ou se vai dar  em namoro descubro mais tarde, depois. Primeiro vem o tesão, o prazer, o desejo. Vivo dizendo paras pessoas que sexo é diversão, é prazer, é encontro, é vida. Se não for, pode ser qualquer coisa, menos sexo.

Mais do que um narcisismo descarado o que quero dizer é que gosto de sexo, que ele não me ofende, que se aproximar de mim querendo só sexo – como se fosse necessariamente ruim – não me diminui, não me agride. Essa fala poderia cair facilmente na armadilha racista do negro hipersexualizado, mas não se trata disso. Essa questão não está comigo, está com o outro. Se o outro acha que eu sirvo apenas para sexo, ou pior, se o entendimento do outro é de que sexo é só “isso”, se me vê apenas como um fetiche vazio, se ele olha para o mundo e vê negros como seres que servem unicamente para esse sexo tão limitado, como algo descartável, é um problema sexual dele, não meu. É uma pena que por conta do racismo alguém encare as coisas dessa forma. É ele que reduz as possibilidades da vida. A moral sexual racista define que negros e negras servem apenas para sexo. Apenas para isso. E aí é que está o pulo do gato: essa moral reduz o sexo. Tira dele toda a potência, toda a força, toda a alegria, toda a proximidade, toda a abertura para a vida que o encontro sexual pode possibilitar. E aí sim, quando achatamos a vida, quando fechamos qualquer contato com a diferença, quando limitamos o que as pessoas podem criar, inventar, viver, aí é que elas são objetificadas, limitadas, separadas do que elas nem sabem que podem. E isso eu não quero, não aceito. Eu quero mais. Eu quero é mel.

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

 

Um Final Tranquilo

Por Mariana Varella, Biscate Convidada

Uma amiga terminou um relacionamento afetivo meio casual que já durava um tempo. Perguntei: “O que houve?”

Com a maior calma do mundo, ela me respondeu: “Eu me apaixonei por ele e ele queria outra coisa, então decidi que era melhor me afastar. Tô triste, mas tô bem”.

Uau! Nenhuma frase questionando seu valor, nenhuma tentativa de justificar a falta de envolvimento dele, zero manifestação de vontade de mudar o cara ou a situação.

Fiquei pensando no motivo da minha supresa. Não precisei ir longe: mulheres aprendem a avaliar seu valor com base na atenção e nos olhares masculinos que despertam ou deixam de despertar.

Somos criadas para sermos maternais, bondosas e compreensivas com homens que presumidamente não sabem externar sentimentos e precisam de acolhimento, a insistir e não desistir dos relacionamentos (não apenas amorosos, diga-se), por mais capengas que estejam.

Assim, uma suposta rejeição não é apenas dolorida, é sinal de que fizemos algo errado, de que não fomos ou somos boas o suficiente (não à toa, há quem saiba explorar isso com maestria).

Ver uma mulher incrível viver um término de relacionamento com tristeza, mas sem duvidar de si, colocando limites e compreendendo que tem relação que não rola e que não há motivos para romantizar desamor nem para valorizar a persistência que só serve para abalar a autoestima é maravilhoso. E, acreditem, era coisa rara até bem pouco tempo atrás.Fico muito contente em notar que cada vez mais mulheres estão compreendendo que tem hora que é preciso bancar a Elsa de “Frozen” e mandar um “Let it go”.

Assim, sem grandes implicações.

FotoMarianaMariana é formada em Ciências Sociais. Trabalha como jornalista da área de saúde, com foco em saúde da mulher. Editora do site Drauzio Varella e escritora do blog Chorumelas, é ativista feminista.

Carta para Alice

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Alice,

Você não lerá esta carta, mas os outros a lerão por você. Faz sentido, veja só: a partir de hoje, seu pequeno corpo se espalha pelo mundo, e viaja mais do que eu jamais viajei. Deste modo, apesar de a carta ser dirigida ao seu nome, os outros a lerão. No momento em que a escrevo, o processo de devolução de seu corpo ao mundo já começou, e a matéria que lhe compõe gradualmente volta a ser parte de todas as coisas, então faz sentido que os outros leiam o que é seu. Tem gente que não gosta disso, a gente cresce e é treinado a não gostar, mas é um lance muito mágico: a devolução começa pela terra, espalha-se pelo ar, até que um pouco de você estará nas coisas mais insólitas. De um jeito que a gente olha e pensa: será que tem uma molécula sua naquela planta? Átomos espalhados por um monte de pássaros?

Ninguém jamais saberá onde, e isso não tem a menor importância.

A vida é um sequestro temporário, Alice. A gente sequestra o carbono, o nitrogênio, o hidrogênio, o oxigênio, o fósforo, o enxofre e traços de outras coisas. Nossa constituição não é muito diferente da de um cometa, inclusive mais ou menos na mesma proporção, sabia? A diferença é que nós somos mais ricos: temos o fósforo. Será que é isso que acende a chama da vida? Eu não faço ideia, na verdade ninguém faz, mas a gente gosta de fantasiar que sabe tudo.

[…e escrevemos enciclopédias, criamos religiões, fazemos até guerras por causa disso. A gente é muito criativo – para o bem e para o mal.]

Daí que, um dia, todo mundo tem que se espalhar por aí de novo. E o que a gente era vira um sendo, o presente do indicativo se converte em gerúndio, e – olha só a mágica – a vida se refaz em novas formas. Só sofre quem não consegue enxergar a beleza da mutação. Mas, com o tempo, a maioria de nós aprende a ver.

Veja que coisa, menina: meses atrás, eu entrei em uma loja em Salvador, e comprei o vestido mais bonito que eu vi [eu tenho um gosto meio clássico para vestidos, não repare], pensando que você o usaria em seu aniversário de um ano. Você nunca vai fazer um ano, mas hoje seu pai me disse que você o usará no dia do seu espalhamento. Gostei disso. Nunca que sobrinha minha vai entrar desarrumada no grande salão de festas da Terra, que é o coração de todas as coisas.

E eu imagino você linda 🙂

Um beijo. Espalhe-se. Arrase.

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Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

E os namoradinhos?

Por Henrique Marques Samyn, Biscate Convidado

Havendo uma reunião familiar, e havendo nela uma mulher solteira, é provável que surja a pergunta: e os namorados? O motivo da reunião é o menos importante, festejos natalinos, aniversários, bodas de qualquer coisa; fato é que, estando presente alguma mulher que possa ser submetida ao inquérito, em algum momento emergirá a indagação – “e os namorados?” (ou alguma de suas variantes) –, seguida de uma série de outras perguntas, com o propósito de perscrutar a vida íntima da interrogada.  De tão comum, parece normalizado. Questionemos, todavia, o que subjaz à perquirição: por que insistimos em submeter as mulheres solteiras a esse constrangimento?

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Porque a gente insiste que a mulher só pode estar realmente bem se tem um homem ao seu lado. Que mulher poderia ser feliz errando pelo mundo, solitária, sem um homem pra chamar de seu? Mulher – apenas por ser mulher – precisaria de um “dono”: aquele que cuidará dela, a figura protetora responsável por dar um sentido à sua vida (mulher respeitável é a “mulher de”). Na infância e na adolescência, incentiva-se a busca pelo “príncipe encantado”; se esse não aparecer, que haja um plebeu qualquer que possa ocupar o posto – o fundamental é que o homem exista para que a mulher possa ao menos exibir para a sociedade sua vitória na luta para evitar o risco do “encalhe”: nesta lógica, é impossível ser feliz sozinha(ou em algum outro arranjo afetivo-sexual).

Porque a gente insiste que a mulher precisa dar satisfação de sua vida pessoal pra todo mundo: todos parece ter o direito de saber (e o direito de opinar) sobre sua afetividade. É bom que a mulher esteja com alguém – e, se ela está com alguém (alvíssaras!), quem é esse? Como se chama, como a trata, que idade tem, em que trabalha? Fique desde logo estabelecido que, para qualquer dessas questões, não há uma resposta certa: tudo o que disser a mulher poderá ensejar julgamentos e críticas da parte daqueles que, afinal, só querem o seu bem (ainda que suas crenças e princípios possam nada ter a ver com os valores daquela que está sendo interrogada). De todo modo, a vida afetiva da mulher está sempre assim, aberta a escrutínio. Se não há esse alguém, surge outro problema: como se pressupõe que toda mulher está sempre em busca do “príncipe encantado” (ou do plebeu que possa chamar de seu), isso pode sugerir que ela está empenhada nessa busca – e, se de fato o faz, o que está fazendo de seu corpo?

Porque a gente insiste que a vida sexual da mulher não é um assunto que diz respeito somente a ela: ela precisa saber que está sendo vigiada o tempo todo (e que, portanto, qualquer desvio terá consequências). Mulher que é mulher, por esse padrão, tem que se dar ao respeito: nada de “galinhar”, nada de “piranhar”, nada de “biscatear”; seu corpo e sua sexualidade são assuntos coletivos, como sabemos, e portanto todos – especialmente aqueles que, lembremos, querem apenas o seu bem – devem ter pleno conhecimento sobre sua rotina sexual: importa saber com quem ela transa, quanto ela transa e quando ela transa, a fim de que se possa aferir a quantas anda sua respeitabilidade. Que pode esperar da vida uma mulher “rodada”, que ousa desfrutar de sua sexualidade com aquela liberdade que está reservada exclusivamente aos homens? Com certeza vai perdendo pontos na corrida pelo “parceiro da vida inteira”.

Porque a gente insiste que a mulher não pode ter autonomia, nem pleno direito sobre si mesma. O julgamento e a vigilância constante sobre as mulheres são mantidos conforme parâmetros patriarcais perpetuados geração após geração e eventualmente punindo aquelas que têm a audácia de desafiá-los. Não podemos negar: há, sim, as que têm essa coragem. E ainda bem que as há.

henriqueHenrique Marques Samyn: Preto, professor, pró-feminista. Empenhado em fazer do mundo um lugar cada vez pior para o “cidadão de bem”

Mordi a língua [2]

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

Há coisa de um ano, escrevi o texto-declaração “Mordi a Língua” aqui nesse Biscate. Falava desses pontos de virada no roteiro das nossas vidas que pegam a gente de surpresa, fazem uma confusão na cabeça, dão um medão de sentir, mas que são uma delícia de viver.

Há coisa de um ano, eu mordo a língua quase todos os dias.

É um sem fim de bom dias <3 e boas noites <3, um mundo de corações e um monte de descobertas. Que delícia, eu não lembrava, ocupar o mundo do outro e deixar-se ocupar por ele. Embaralhar as manias… Fazer planos juntos. Contar e trocar o dia a dia.

É de uma intensidade esse tal de bem-querer. Essa vontade que dá e não passa. Um tantão de sentimento que não cabia aqui dentro naquele momento, e que continua não cabendo agora. Às vezes transborda.

E é difícil também.

Primeiro eu achei que não ia dar conta (às vezes ainda acho). Eu dizia sem disfarçar que: olha, não sei namorar. Como quem pergunta: tem certeza? Uma frase estranha pra um começo né? Mas queria dizer também (e talvez eu não tenha dito) que eu quero descobrir junto. Me ensina? Vamos nessa? Eu topo o desafio!

E quando digo que “não sei” já é também um pedido de desculpas pelas tantas besteiras que direi ou farei nesse nosso caminhar de mãos dadas.

Caminhando se faz caminho. E achei por bem pedir também: chegue de mansinho, devagarinho, como diria Martinho. Mas quem disse que eu sei mergulhar de pouquinho? Foi só pedir e morder a língua de novo.

Coisas que aprendi juntinho avec toi e que, sei, ainda pode mudar.

Eu sou samba, ele é bossa.

Ele canta, eu danço até na fossa.

Ele é fogo, eu sou ar

Ele é ninja, eu sou devagar

Eu sou texto, ele é melodia

Eu sou Pernambuco, ele Bahia

Ele é par, eu sou impar.

Ele é piscina, eu sou mar.

E a gente é tanta coisa a dois….

A gente é festa, manif, carnaval

A gente é amigos, filhos e tal.

A gente é sempre muito.

A gente é um sem fim agora junto.

Um dia ele pediu: escreve a letra de uma música? Eu não sei fazer isso. Sabe sim. Daí que aquele texto virou melodia. Um samba bossanoveado que é também nossa cria.

P.S. Trilha original do post: “Como Diria Martinho”, de JL e FM

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

aborto principal

Envolvimento não se mede com fita métrica… e outras pautas

Por Mayara Melo*, Biscate Convidada

Mesa de bar em noites aleatórias. Sorrisos. Cerveja. Corações expostos. Amigas. Ocasionalmente, pode até rolar uma lágrima. Depois – quem sabe – gargalhadas. Coisa que esta bisca curte é o aconchego de uma mesa de bar rodeada de ouvidos atentos e braços abertos. A noite avança e os causos também. Desce mais uma cerveja e conta mais uma história. E a gente vai se reconhecendo. Vamos juntando pedaços, a história de uma termina na história da outra. A gente concorda. Depois a gente discorda. E a noite avança. Quem nunca rabiscou projetos num guardanapo? Sonhos, desejos, medos e planos são compartilhados. Conquistas merecem brindes. Perdas são acolhidas. Carinho muito. E cerveja também. Sempre chega a hora da música, caso o bar não tenha música ao vivo, ou os músicos já tenham largado o posto. Procura no youtube aquela do Chico! Mesa de biscas tem milhões de assuntos e eles se sucedem numa velocidade vertiginosa. Estávamos falando de sexo, como foi mesmo que chegamos à pauta da falência da democracia representativa? A gente ri. Entre os vários temas, aparecem aqueles do coração (bisca tem coração, aliás…tem é muito). Alguém dá uma googleada pra encontrar um trechinho do Manoel de Barros que cabe: “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.

E continua…

– Que tristeza não se expor!
– Eu gosto do movimento de abertura para a vida, para o inesperado, e até para os abismos.
– Tá, a gente se joga e depois se lasca todinha.
– Talvez. E daí? Podemos ganhar arranhões, mas podemos ganhar também riso frouxo, cafuné, café amargo numa manhã chuvosa, cumplicidade, reciprocidade. Quem sabe?
– Ah, mas vai que eu me apaixono!
– O pior é que tem gente que já chega pra dizer que não vem, não quer se envolver -_-
– Pois é, mas eu pergunto logo: você está aqui, amigo? Está aqui agora? Sinto informar: já era!
– Bem, e se ficamos juntos apenas por um fim de semana?
– Foi bom? Foi divertido? Ótimo!
– “A alegria é a prova dos nove”, acho que estava escrito no manifesto antropofágico!

Se envolver ou não vira a pauta da rodada… e vamos pensando…

Se envolver não é planejar futuros, não necessariamente. Há envolvimento numa conversa gostosa, em filmes assistidos nas tardes preguiçosas, em pernas que se enroscam, no sono compartilhado, na troca de suor e de saliva, nas respirações descompassadas, no riso comum. E pode ser tudo assim de graça, sem plano algum. Ah, mas existem intensidades distintas de envolvimento, certo? Claro, mas intensidade não se mensura pela continuidade, nem pelo tempo, nem mesmo pelo rótulo da relação. E aí chamamos Manoel novamente pra nos lembrar “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Mas parece que às vezes queremos nos proteger até dos encantamentos. Quem sabe por isso compartilhamos tantas histórias que começam com “estamos ficando, mas fulanx disse que não quer se envolver”. Não gosto de avisos prévios, e torço o nariz para o sentido de envolvimento que vem embutido nesse tipo de “aviso”. Não estou dizendo que as pessoas não devem ser sinceras sobre a disponibilidade sentimental delas, nada disso. Só não entendo a necessidade de negar o que ali já está estabelecido. Essas posturas me irritam ainda mais quando vem de um homem para uma mulher. E, na maioria das vezes, é bem isso que acontece (nem todo homem! Alguém gritou?). Parece que muitos partem do princípio de que a gente não tem nada melhor pra fazer na vida do que procurar construir relacionamentos que vão terminar no altar. Não seria mais simples acreditar que às vezes a gente só quer compartilhar algumas coisas como a cama, o sofá ou mesmo o chão da cozinha? Não seria mais simples aceitar que a gente pode querer “só” sexo, mas que isso não invalida que possamos querer saber da outra pessoa na semana seguinte? Parece que não e, de repente, a pessoa te encontra na rua e você percebe que ela não sabe se fala contigo ou se muda de calçada. De repente, ela te deixa no vácuo. Não sei exatamente onde está escrito que relações livres ou casuais não podem ser sucedidas de qualquer manifestação de afeto. É claro que não estou falando de encontros que foram desastrosos, eu sei que eles existem e que depois, talvez, nenhum dos envolvidos queira topar com o outro por aí. Estou falando de encontros bons que podem amargar, simplesmente, porque “a gente não tem uma relação, lembra?”. Esbarra aí. Acho meio triste quando alguém tem que fazer de conta que não está pensando na outra pessoa e se furta de mandar aquela mensagem no meio da tarde, afinal, o outro pode pensar que “nossa, ela quer um relacionamento”. Imagina! A pessoa não pode demonstrar afeto pra não correr o risco de ver o outro fugindo. Eu acho que isso empobrece as experiências da gente. Não é todo dia que queremos a companhia do outro, o carinho, os beijos – e tudo bem. Sem crise! Eu posso acolher o seu desejo hoje, ou não. Eu falo, eu digo. Você responde: vamos ou não vamos. De boa! A gente se encontra quando os desejos baterem. E só. Ninguém deveria precisar sair correndo da expressão do desejo do outro, ou precisar esconder o seu próprio, só pra evitar a tal da relação. Até porque…insisto…relação, num sentido amplo, já existe. Não precisa considerar relação só aquelas tipicamente caracterizadas na cartilha do amor romântico. Se relacionar, eu penso, é se permitir tocar e se deixar tocar pelo outro. Não importa se será só por hoje. Não importa! Se permita, sinta. A relação pode ser indeterminada. Qual o problema? A indeterminação faz parte da vida. A negação dessa relação – e com isso a negação do outro que se envolveu com você – é apenas desnecessária.

P.S. (in)conclusões biscas, depois de papos etílicos, mas tudo está em aberto nas mesas dos bares e na vida. Que bom! Que bom também que o Biscate voltou! Esse espaço não deixa de ser também uma grande mesa de bar onde podemos contar e ouvir história, inventar e se reinventar. Vida longa ao BSC!

mayaraMayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol, atualmente morando em outro lugar ensolarado. Feminista, de esquerda, ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

Eu vou fazer uma canção pra ela…

Por Patrícia Melo, Biscate Convidada

Se fosse pra escolher, nem tinha ido. Sério! Sabe aquele momento em que tudo que você quer na vida é sossego? Sossego de tudo, mas, principalmente, um tempo de sossego nos afetos, na turbulência do sangue, uma afastada – delicada – daquelas borboletas na barriga?  Então, você me entende, né? Todo mundo tem um tempo assim, desses em que você está ali, em situação de ponto final em uma história e não quer saber de reticências…

ligia guerra olhos

Pois é, foi em tempo assim que eu me vi diante de olhos solares. Já viram isso? São olhos que cintilam! Em qualquer lugar, até no escuro. Nem queria chegar perto porque eu nem queria nada. Com ninguém. Estava bem contente com meu cuidado comigo. Gostava das tardes de cinema vagabundo onde o filme não tinha tanta importância e a pipoca era só minha. Adorava as garrafas de vinho esvaziadas ouvindo música na sala. Achava uma riqueza incomparável um livro inteiro com um dia todinho só prá ele. E quando chovia, era só andar na cidade sem rumo… Eu estava gostando da vida sem olhar o telefone a cada 5 segundos, sem pensar em programas de fim de semana, sem organizar agenda pra poder dar conta de tudo. Gostava da minha companhia. Adorava, pra ser bem sincera. Não queria nada.

Aí, bem… Teve um dia em que fui atropelada por aqueles olhos solares. Já falei deles? Já. Desculpa. Eu acho que nem consigo me explicar direito. Já falei do riso? Eu havia me apaixonado pela Capitu quando li sobre sua gargalhada “argentina”. Só entendi como soava na mesma hora que escutei a dela. Tilintava como prata. Lembrei na hora! Havia um quê de perigo no ar. Eu deveria ter percebido. Tinha energia demais ali. Tinha jogo de cena, muito medo junto e, ao mesmo tempo, muita curiosidade (ou seria coragem?). O mais engraçado é que ninguém queria nada. Mas, havia tanto que saber, tocar, ouvir, compartilhar, sincronizar.  Havia tanto que rir, tanto pra experimentar! (“Chegastes? Cheguei!”) Havia tanto tanto que a gente nem sabia o que fazer. Nada de pânico. Que viesse um dia de cada vez.  E eu, que não queria nada, quis tudo. Porque era ela. Porque era eu.

patricia-sampaio

* Patrícia Melo é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

 

Bisca em Crise

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

“Ainda bem que a gente detém o direito autoral das nossas próprias vidas e pode sair por aí contando o que quiser, do jeito que quiser, como quiser, pra quem quiser”. Ela havia escrito isso recentemente a propósito de um texto antigo do Biscate que compartilhou nas redes. O texto específico era sobre finais e recomeços. E, como todos os que tinha escrito até hoje para este cantinho de libertinagem, tinha um tom absolutamente pessoal.

Ela trabalhava com palavras, criava histórias, personagens e enredos fictícios. E achava que a graça de vez por outra escrever neste espaço biscate era mudar a tecla e desnudar-se um pouco. Falar sem cerimônia de coisas pessoais _ algumas sobre as quais tinha até dificuldade de falar no “ao vivo”, mesmo com amigos próximos. Era uma biscate autorreferente. E, até então, esbarrara apenas no limite entre o quanto queria abrir sobre sua vida e o que queria guardar. Assim, escreveu sobre a dor da separação, sobre a solteirice, declarou-se pra um crush, falou sobre morder a língua e entregar-se de corpo, alma e adoráveis cafonices para uma nova paixão.

No começo do namoro pensou em escrever sobre esse momento de “início de algo que a gente ainda não sabe o que será”. Um tempo de página em branco a ser preenchida, de se apresentar pro outro no meio de tantos sentimentos. Acontece que essa fase, em que a pessoa fica em carne viva, meio que trocando a pele, entendendo como dividir a vida com o outro e esbarrando também nas questões práticas mais diversas, calhou de coincidir com o tempão em que o Biscate ficou fora do ar. Enquanto os dois namorados levavam as novas escovas de dente para a casa um do outro, não teve que pensar em temas “Biscate”.

Agora tinha recebido um inbox: o Biscate voltou, tem texto? Tinha. Alguns. Foi lá na caixinha “primeira pessoa” ver o que podia usar e foi então que se deu conta da crise. A crise mais anti-biscate que alguém poderia ter. Uma crise quase inconfessável neste lugar de mulheres tão fodonas e tão donas de seus narizes, de seus corpos, de suas histórias. Pois bem, a crise era bem banal: será que nesse contexto de ter um “avec” teria coragem de continuar assim tão desabrida para o mundo? E dessa dúvida pintaram outras…

Dá pra continuar falando de suas crises e questões sem explanar a intimidade do outro? Seria incômodo pra ele que ela falasse da relação? Será que ele próprio se sentiria exposto nos escritos dela? Será que o direito autoral do que vivemos com os outros é nosso mesmo ou também é do outro?

A cada pergunta, carregava um pouco mais nas tintas e aumentava um pouquinho essa angústia. Começou a se questionar inclusive se era biscate de verdade. Achou que finalmente seria desmascarada e as editoras do BSC iriam perceber que ela era uma farsa. Uma não-biscate fingindo ser bisca-madura-e-bem-resolvida. Aventou a possibilidade de ter confiscada a sua carteirinha de bisca convidada. Temeu nunca mais pedirem um texto. Ou pior, nunca mais ter uma ideia pra um texto-bisca. Logo ela, cuja vida sempre fora um fêicebuki aberto. Olhou a página em branco e se viu afogada em palavras cortadas, ideias abortadas, temas delicados… Ficou sem ar.

Aí abriu os olhos e acordou. O namorado dormia ali do lado. Sentiu um sossego na alma por aquela parceria que estavam construindo. E um desassossego de ideia nova surgindo. Deu um beijo nele e começou a escrever o texto mentalmente. Foi até o computador e enquanto escrevia teve ideia para outro e outro ainda. Todos pessoais, desabridos, escancarando algum lado da vida dela. Não fosse assim, não seria ela: uma bisca não tão bem resolvida, mas que adorava vez por outra escrever neste espaço e desnudar-se um pouco.

Ju_foto

*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

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