Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

Por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

Ativistas e participantes de protestos foram presos por meio de medidas absurdamente arbitrárias que ferem direitos fundamentais da democracia. Essa semana, foram revogados os pedidos de prisão temporária e começaram a surgir mais informações sobre o inquérito.

Uma das principais testemunhas é um ex-integrante do grupo Frente Independente Popular que tem um histórico de violência contra a mulher.

Então, a denuncia de uma pessoa que se desentendeu com o grupo do qual fazia parte foi a peça fundamental para estabelecer o inquérito. Parece programa de fofoca, mas o melhor ainda estava por vir. A manchete em letras garrafais diz: Traição amorosa de ativistas ajudou na investigação do Rio.

Uma traição amorosa na cúpula da organização rotulada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de quadrilha armada ajudou os investigadores a apurar como agia o grupo responsabilizado pelo comando dos protestos violentos que ocorreram no Rio a partir de junho de 2013.

Líder dos manifestantes, Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, é acusada em depoimento de ter roubado o companheiro da ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Veja bem, Sininho não é apenas a maior terrorista que esse país já teve. Ela também ROUBA namorados de outras militantes. Nesse momento, alguém levanta a plaquinha: cadê a sororidade, Sininho? E eu respondo que a verdadeira sororidade é a siririca.

 Então, não basta acusar Sininho de ser uma terrorista por meio de ligações gravadas em que ela pergunta o preço de um rojão, que é vendido em qualquer loja que comercialize fogos de artifício. Também é preciso pintá-la como uma “destruidora de lares”. Porque mulher que rouba namorado de outra, com certeza não é alguém de confiança. Porque o machismo tem que ser inserido na questão para mostrar o quanto essa mulher faz “coisas erradas”.

 Em pleno 2014, nós ainda vemos afirmações como essas: mulher rouba o namorado da outra. Como se alguém pudesse ser usurpado de um relacionamento, como se as poções mágicas de amor fossem reais. Porque quem foi roubado é o homem comprometido, que estava indefeso e, segundo uma das testemunhas, era tratado como capacho por Sininho.

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 Não há defesa social para a mulher que rouba namorado na sociedade machista. Não há direito constitucional para a mulher que se atreve a ter relacionamento com um homem comprometido. Parece que não há desejo nos relacionamentos. Que as pessoas não fazem escolhas e não tem autonomia. Então, minha dúvida é: quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Preciso acumulá-los? Posso repassá-los numa boca de suruba? Posso traficá-los se pagar uma cerveja para a polícia? Porque a única acusação que há contra essas pessoas, segundo o próprio desembargador Siro Darlan, é essa.

 Sininho é uma mulher. E não sou eu quem vai dizer se é inocente ou culpada, não sou eu quem vai julgá-la. Porém, o veredito social de ser uma biscate, uma vadia, ela já tem. E me reconheço nesse veredito, porque perante os olhos da sociedade eu roubo namorados de outras mulheres, quando na verdade, estou apenas vivendo minha sexualidade sem me preocupar com os compromissos que essa pessoa tem ou não. Parece nonsense dizer isso, mas sinto que precisamos explicar: as pessoas não são um objeto para serem roubadas. Elas deveriam ser livres para serem o que quiserem. Ao menos, agora, Sininho responderá o processo em liberdade. Mas, a liberdade das mulheres fica onde quando o fato de roubar o namorado de alguém é um dos itens constantes num inquérito policial sobre formação de quadrilha?

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Discurso

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada 

Puta. Biscate. Vadia. Periguete. Vagabunda. As palavras variam um pouco, o sentido e direcionamento, nunca. Uma mulher não costuma ser julgada pelo seu posicionamento político, pela sua inteligência, pela sua habilidade empresarial. Ela é julgada pela sua vida sexual. Mesmo que nem a tenha. Mesmo que você nem saiba se ela tem alguma.

E quando queremos ofender um homem?

Viado. Bichinha. Ou filho da Puta. São os mais comuns.

Veja bem, o energúmeno fez um desfalque na empresa e o máximo que você consegue é tentar compará-lo a uma mulher ou a um homossexual, ou seja, um homem que, de alguma forma e em algum grau, se comporta como uma mulher.

A Renata Lins já postou sobre a importância de mudar os xingamentos. Eu falei recentemente em um seminário de oratória e a direção era a mesma do texto dela: discursos não são neutros, palavras não são neutras. Elas estruturam e são estruturadas pelo sistema de poder dominante. E não é preciso ser um gênio para entender que vivemos sob um sistema patriarcal, homofóbico, machista, racista, classista e capitalista, que hierarquiza pessoas por classe, gênero, orientação sexual, raça, idade e etnia.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar” (Michel Foucault)

Foi na internet que encontrei os exemplos para minha palestra, afinal, quem não conhece “o monstro dos comentários”? Ou as “piadas” das subcelebridades da rede?

Uma dessas figuras, um dia, soltou que estuprador de mulher feia merecia um abraço. Um amigo dele disse em outra ocasião que o cara que espera uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela é um gênio. Um outro meliante escreveu um texto tão absurdo, que só colando um pedacinho pra acreditar:

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Nem vou entrar no mérito do que é ou não uma mulher bonita e gostosa, da comparação da mulher com um objeto como um carro ou um relógio. Me aterei aos fatos:

— Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Elas representam 50,7% do total. Os adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e os adultos (18 anos ou mais), 29,9%.

— Segundo a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e 46% não possuíam o ensino fundamental completo (considerando as vítimas de escolaridade conhecida, o índice sobe para 67%).

— estimativas da Policia apontam que apenas duas entre cada 10 vítimas denuncia o abuso. Um dos motivos é a proximidade do agressor.

— A maioria esmagadora dos agressores é do sexo masculino, independentemente da faixa etária da vítima.

— No geral, 70 % dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Então alguém explica para os subs da internet que estupro nada tem a ver com sexo e sim com PODER sobre o outro? Que a roupa que uma mulher/menina veste, seu comportamento sexual e/ou social não é motivo e não pode NUNCA ser utilizado como desculpa para uma agressão?

Essa culpabilização da vítima é um velho golpe político, daqueles mais manjados, mas que parece nunca cair em desuso. Pobres são acusados de serem pobres por que querem, porque não se esforçaram o bastante. Negrxs são acusados de preguiça, de má índole, desde a escravidão. Enquanto isso, o poder dominante se sente seguro para perpetuar o racismo, o machismo, a homofobia e os trágicos números que o Mapa da Violência traz sobre homicídios dessas minorias historicamente perseguidas.

Voltemos a palavra puta. A Luciana Nepomuceno já escreveu sobre o quanto é preocupante alguém achar que chamar uma mulher de puta seja algo ruim, pejorativo, ofensivo.

“Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?”

A querida Gabriela Leite declarou, em 2007, que a violência contra as prostitutas vem crescendo no país, partindo principalmente de jovens de classe média e reforçada pelos órgãos de segurança, que tendem a ver a prostituição como crime. “A sociedade sempre dividiu as mulheres em duas categorias: a santa mãe de seus filhos e as prostitutas.”

E se uma prostituta se torna mãe? E se uma mulher da classe média resolve se autointitular prostituta, no auge da sua gravidez? Como a sociedade reage a isso?

Mês passado, soube que a foto de uma amiga querida durante a Marcha das Vadias 2013 estava sendo compartilhada por uma página antifeminista no facebook com um texto bem manipulador a respeito. Ela, que estava grávida de nove meses, tinha escrito na barriga “filha da puta”, desafiando assim esse paradigma que teima em se manter vivo em pleno século XXI.

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Faz parte. Poderia ter sido a minha foto grávida de 2012 na Marcha, poderia ter sido a minha foto com o filhote no ano passado ou neste ano, já que fui uma das organizadoras do protesto nos últimos três anos. Mas foi a dela e claro, quando ela marchou, assim como nós, já sabia que enfrentaria a boçalidade de muitos.

Mas realmente é chocante o nível dos comentários nas diversas páginas e fakes que começaram a compartilhar a mesma. E eu me pego pensando se realmente conseguiremos revolucionar esse sistema como gostaríamos, já que A MAIORIA dos piores comentários são de mulheres.

Discurso – prática – prática – discurso. A violência contra as mulheres está aí, sendo discutida pelas principais Instituições de Direitos Humanos do mundo, pois não é algo exclusivo do Brasil. E muito menos dos homens. É do sistema. E quem sou eu para julgar quem o reproduz ou mesmo quem acredita que está defendendo a fofa da filhota dela ao soltar comentários como esses?

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Falta de informação, excesso de ingenuidade, medo da mudança… os motivos podem ser vários, mas o principal é que a maioria não consegue enxergar o quanto estão envolvidos por essa ideologia assassina que é premissa do nosso sistema social.

E, após os comentários non sense (teve até gente perguntando como ela engravidou se odeia homem, num sinal claro que a criatura não faz ideia do que é o feminismo) vieram os comentários preocupantes, violentos, agressivos:

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Você pode achar que são só comentários. Assim como a turminha que tacha o “politicamente correto” de chatice e defende “as piadas” incorretas. Mas não é assim que acontece e a realidade está aí, pra dar tapa na cara de quem insiste em olhar para o outro lado.

Por mais que me horrorize os julgamentos femininos, bem mais do que os masculinos, já que estes mais não fazem que lutar para manter seus privilégios, eu fico é penalizada, pois sei que o vento sempre vira, como disse a Renata Lins em um post meu recente no facebook. Ver mulheres tripudiando de outras, julgando, por essas lutarem contra a violência que TODAS NÓS estamos sujeitas é algo bem perverso. Porque amanhã a vítima poderá ser qualquer uma delas. E nem assim elas acordarão para a realidade…

Vadias somos todas. Eu fui chamada de vadia quando fui estuprada. Quando recebi uma promoção no trabalho. Quando ganhei a láurea acadêmica. Quando namorei um homem 10 anos mais velho, quando namorei um homem 10 anos mais novo. Puta. Vadia. Piriguete. Biscate.
Mas a verdade é que não somos todas putas. Porque não sofremos o que esse grupo sofre diariamente com o preconceito que parece crescer assustadoramente em nossa sociedade conservadora, julgadora e hipócrita. E dói muito pensar que este pensamento é o mesmo de 2000 anos atrás, quando um baderneiro de cabelos compridos afirmou que só poderiam atirar pedras quem não tivesse pecado, pedras essas destinadas a uma mulher pela sua conduta sexual.

Vou encerrando esse texto lembrando das palavras do fofo do Bernardo Toro ao falar da ética do cuidado. Toro é uma daquelas pessoas que a gente conhece, senta pra tomar um café e tem vontade de nunca mais sair de perto. Integrante do Bogotá Como Vamos e da Red Latino-americana por cidades justas, democráticas e sustentáveis do qual eu tenho muito orgulho de fazer parte, ele traz nesse texto a seguinte afirmação:

“A linguagem é a chave para saber quem somos como indivíduos. Nós somos nossas conversas: quando mudamos nossa forma de ser, mudamos nossas conversas e quando mudamos a forma de conversar, mudamos a forma de ser. A linguagem nos constrói.”

E é por isso, por essa reconstrução da linguagem, da nossa forma de ser, que mais uma vez me chamarei de vadia, de puta, de periguete. Não importa realmente se minha conduta sexual condiz ou não com essas palavras. Eu quero ter o poder e a alegria de ressignificá-las. Para que, um dia, nenhuma mulher mais seja julgada, humilhada, assassinada por ser quem é: uma mulher.

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH - 2012

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH – 2012

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Não me Arrependo

amor de índio

Amor, eu não me arrependo de você. Não me arrependo do tempo que esteve na minha vida, não me arrependo de ter dado oi naquele aplicativo de pegação, não me arrependo do seu seu cheiro, não me arrependo do seu beijo, do seu corpo suado junto do meu. Não me arrependo da sua mão que subia pela minha perna, entrava na minha bermuda e pegava no meu pau no fundo do ônibus. Não me arrependo do sorriso safado. Não me arrependo da pouca grana, de ter me doado. Não me arrependo de te convidar pra morar comigo sem te conhecer direito. Não me arrependo das brigas, das mancadas dos desentendimentos.

Sim, eu não me arrependo. É, claro, ás vezes me pego pensando “e se eu tivesse agido daquele jeito e não daquele”? Se eu tivesse ligado? Seu tivesse mandado mensagem?  Será que ainda estaríamos juntos? Eu sei, amor, é apenas um exercício de imaginação. Não dá pra saber o que teria sido, sabemos apenas o que fizemos. E, sim, ás vezes acho que foi culpa sua, ás vezes acho que foi minha, mas daí lembro que não há culpa, nem desculpa, fizemos da nossa vida juntos  o que foi possível.

Outro dia aqui em casa entrei no quarto que era nosso e foi como se uma onda de memória me tomasse. Lembrei de quando chegava em casa cansado , entrava no quarto e te via dormindo. Era como no clichê  dos apaixonados porque parecia que o mundo parava naqueles segundos em que eu te olhava. E eu só saía desse estado de apaixonamento pra te beijar. Você nem se mexia. Foi assim durante meses.

Mas acabou. Assim como esse texto.

 

maycon

 

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Fica a Dica

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Há alguns dias descobri que um amigo da família está com mal de Parkinson. Ele não deve ter 50 anos, tem filhos dos quais só se tem notícia de que são seu orgulho, vive um casamento aparentemente feliz de muito tempo. Uma pancada dessas levanta questões sobre a justiça da vida. Bom, minha conclusão, já de há muitos anos, é que não existe justiça ou injustiça nos acontecimentos que nos atropelam. Não dá para viver esperando que nossas ações nos trarão alguma recompensa neste ou em algum outro mundo. O máximo que dá para fazer é: viver, amigos e amigas. #ficadica

dica

Tenham orgasmos, sozinhos ou acompanhados, por uma ou mais pessoas, do mesmo sexo e/ou do oposto. Gozem por onde vocês quiserem. Mas estendam a gentileza de ter suas vidas sexuais fora do controle público aos outros. Não odeie nem ensine a odiar. O que você ganha com isso? Não odeie nem mesmo o Felipão, que convocou o Henrique no lugar do Miranda. Já que falamos de Copa: torça se quiser, grite se quiser, festeje se quiser. Mas não dirija ressentimento a quem quer se fazer ouvir e ter seus direitos assegurados mesmo nesta hora. Não me venha com o papinho de “odeio o pecado e amo o pecador”. Esse não cola. Não se importem com a opinião dos outros. #ficadica, again

dica

Dêem o braço a torcer, caramba. Apesar do que a expressão possa dar a entender, não dói. Deixa eu contar um segredinho: aquele chefe daquela empresa na qual você se mata de trabalhar está cagando e andando para você. Dêem um jeito de serem felizes. Se preocupem menos com regras gramaticais e mais com fazer do mundo um lugar do qual quem vier depois de nós não sinta vergonha. Estejam prontos para redescobrir o amor aos 30, 40, 50. Diabos, estejam prontos para redescobrir o amor aos 60, como minha mãe acaba de fazer. Não sejam tão duros com o funk. Mordam mais bochechas. Vejam mais filmes de artes marciais da Tailândia. E saibam que, quando a hora chegar, a única coisa que a gente vai querer por perto é um montão de gente querida pra dizer: “mas já vai? fica, vai ter bolo”.

PS: quando chegar a minha hora, eu quero que o meu caminho para o crematório seja feito desse jeito aí. Se virem ;-)

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prado*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

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* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

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Imagem pescada do Blogueiras Negras

É bem legal dizer que a gente é feminista desde criancinha, que a pataquada do patriarcado nunca nos convenceu, que a rebeldia esteve sempre presente em nossas veias, que nunca atendemos às ordens de fechar as pernas, sentar eretas ou deixar os meninos falarem primeiro. Sério, é BEM legal. Mas, na maior parte das vezes, isso é só uma parte da verdade. Não tem nada a ver conosco, ou com as nossas memórias, nem são mentiras para parecermos mais cool in the feminist world. Tem a ver com o fato de que nascemos imersos numa cultura patriarcal. Com o fato de que ela nos forma, informa e enforma. Se alguém levanta do dedo e diz: “não, comigo foi diferente”, deve lembrar que é um, que isso não é o coletivo, e que as exceções, quase sempre, estão aí para confirmar a regra.

Tornar-se feminista é um caminho longo, cheio de curvas, cheio de auto percepção. Não raro com brigas violentas, com os outros, consigo mesmx. Todas as nossas informações sobre o mundo estão construídas e alicerçadas em séculos dessa cultura centrada no masculino. Estes séculos viajam desde a teoria do sexo único (há o macho e um macho deformado chamado mulher) dos gregos e que até hoje está presente em nossa linguagem quando usamos o homem como sinônimo de humanidade. Passam pela origem do pecado: teu nome é mulher. Chegam ao mundo do sexo binário, em que o feminino (fé menor) é visto como mais frágil, mais fraco, mais indolente (claro, porque ter 19 filhos em sequência é moleza). Todos esses discursos reduzem à biologia elementos que são culturais. Todos esses discursos trabalham no sentido de crescermos acreditando que todas as diferenças com que o mundo trata os homens e as mulheres são óbvias e naturais.

É comum ouvirmos em resposta: “as mulheres têm filhos. Ponto.” Como se isso fosse explicação suficiente. Não é. As fêmeas terem filhos é um dado biológico, no caso dos humanos, porém, todas as construções feitas a partir daí terão traços culturais. No que se releva, no que se hierarquiza, nas formas social e culturalmente endossadas e valorizadas de comportamento. As comparações com fêmeas animais (muitas vezes até “melhores” que as humanas), nesses discursos, têm igualmente o mesmo objetivo, acomodar à biologia – usada como argumento inquestionável (?) – toda a história humana, com sua evolução, diversidade, recriação, reorganização, mutação. Pior, em muitos desses discursos, toda a diversidade da natureza é apagada para se recolher apenas aquilo que pode ser usado para referendar um padrão feminino e ocidental, cuja criação tem cerca de 2 milênios de história e uma “rigidez” de menos de 200 anos.

Criadxs sob esta lógica, tornar-se feminista é contracultura. Nesse sentido, infelizmente, não basta vivência ou experiência. O feminismo como uma meta nos exige reflexão, reconstrução e, quando possível, formação. Já ouvi muitxs jovens dizerem: eu acho legal o feminismo, mas não me sinto capaz de dizer que sou feminista porque não conheço o suficiente. Numa palestra que ministrei, comecei com: “vocês devem ter algumas dúvidas…” O pessoal balançou tão enfaticamente a cabeça que reconsiderei meu algumas.

Nessa mesma ocasião, recebi a seguinte reclamação: “a gente tenta perguntar, mas muitas feministas debocham da gente, das nossas dúvidas”. Identifiquei-me imediatamente nos dois lados da questão. De um lado, essa escalada difícil contra a cultura hegemônica, essas dúvidas que envolvem questionar (muitas vezes) a mulher que mais admiramos e nos espelhamos: nossa mãe e a vida que ela levou. Essa dificuldade de se colocar contra pais, patrões, namoradxs, contra o “mundo todo”. É difícil sim, não se pode fingir que não é. Perceber isso não é afirmar uma guerra ou buscar culpados, é entender as regras do jogo como estão postas. A contracultura das diversas correntes do feminismo quer mudar o jogo todo, mas antes é preciso modificar as peças e aí está a outra dificuldade. A auto modificação leva tempo e causa dores, secreta raivas, afunda tristezas. Num dado momento, olhar para quem ainda não andou esse caminho é como se nos víssemos mais uma vez, aceitando o que nem de longe aceitamos mais.

Como elxs não notam tudo o que está errado? Simples, da mesma maneira que um peixe que nasce na água salgada (mesmo que metaforicamente possa viver na doce) não sabe a diferença entre uma e outra. Não acha que a água salgada lhe pesa, pois ela sempre esteve ali, sempre foi daquele jeito e há uma grande quantidade de peixes dizendo que a natureza é assim e que querer a água doce é loucura de peixas mal amadas que odeiam o mar inteiro.

Não, nem de longe eu imagino ter todas as respostas sobre o feminismo. Acho que nem quero ter. Por isso mesmo, sempre que ouço qualquer pergunta, lá vou eu tentar me pensar, me perguntar; ver se, onde e como essa dúvida me corrói e, claro, buscar informações para responder. Isso porque, dada a minha experiência bem limitada de humana, nem todas as questões da cultura se puseram para mim. Não posso, de onde estou, olhar tudo e dizer que sei como se deve agir nessa ou naquela situação. Assim, creio, ainda estou no processo de tornar-me feminista, como todxs estamos, pelo simples fato de que continuamos a pensar e a responder as questões que o mundo e cultura nos propõem. E essas questões podem ser antigas ou mudar todos os dias.

Quando Simone de Beauvoir falou em tornar-se mulher, ela falava dessa imersão que nos informa e forma. Como não estamos imersos no feminismo, é natural que esse tornar-se seja mais longo, mais difícil e caudaloso. Provavelmente, sequer possa ser terminado por qualquer pessoa nessa nossa estreita passagem nesse mundo. Até lá é perguntar muito. Questionar(-se) o tempo todo. E, quando possível, responder as tantas dúvidas de quem está começando a mesma escalada que a gente.

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Bissexuais

Por J. Oliveira, Biscate Convidada

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Entre beijos, abraços, apertos, carinhos e gozos nunca fui boa em escolher. Paixões se fizeram assim sem pedir licença, quando me dei por conta já tinha acontecido. Desejava e amava mulheres… também. E sem esperar vieram também os rótulos e os preconceitos embutidos.

Sapatão. Hétero. Indecisa. Vive em cima do muro. Mentirosa. Promíscua. Tá no armário. Mas você tem mais opções. Você precisa avisar antes. Nojo. Eu devo ter medo de você? São os bi que transmitiram a aids para os héteros. Quer pegar todo mundo né? Mas ninguém como você quer um relacionamento sério, certo? Mas qual você prefere? Como posso confiar em você? Sua vida á mais fácil, você pode ser hétero. É só uma fase. Vocês são mais evoluídos. Só vou se o lugar for 100% gay. Claro que você é não-monogamica, todas vocês são. Que tal você me apresentar um amiga sua pra transar com a gente? Mas já estamos falando de lésbicas, não é o suficiente?

não. Não. NÃO. E NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Podia dizer apenas que gosto de pessoas e cair no clichê. Mas é mais do que isso. Ninguém controla por quem se apaixona, ou sente desejo, ou ama, sabe? Ninguém controla a própria felicidade e satisfação em um relacionamento. Esses limites se fazem sozinhos. E por um acaso não é o gênero que delimita isso tudo pra mim. E isso vale para todes nós bissexuais e pansexuais.

E não é nenhuma escala kinsey que vai determinar isso. Até porque essa tabela é binária e eu preciso dizer: os gêneros não são.

Desejos também não são, amor também não é. E dai que cada um de nós encara essa afetividade e sexualidade de uma forma. A gente se sente diferente, se atrai diferente, se relaciona diferente. Não me encaixo na sua caixinha? Te decepciono? É a vida. Não queria ter também que lidar com essa discriminação toda, mas não espero aceitação de ninguém pra eu ser eu mesma.

É triste ter de viver pedindo desculpas por algo que a gente não tem controle, por algo que faz parte da nossa essência. E que define a forma que a gente se relaciona com o mundo.

Não escutem essas merdas todas. Não aceitem nada menos do que respeito. Se juntem. Se fortaleçam. Resistam. E continuem amando, trepando, beijando e abraçando sem culpa. Sem deixar que os outros rotulem o que é válido pra vocês ou não.

Vocês não estão sozinhes.

jussaraJ. Oliveira se sabe, se diz: contradição em pessoa. Aventureira inconstante e amante suicida. Pequena. Mas faço estrago.

Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Entre Braga e Nova York: Variações de um queer português

Por Mayra Resende*, Biscate Convidada

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A primeira vez que ouvi António Variações me veio careta e risada. Perguntei: isso é sério? Ele fez sucesso? E aí, como tudo o que me vem causando estranheza ultimamente, resolvi deixar a curiosidade conduzir uma descoberta incrível. Variações talvez pudesse ser definido como uma mistura de Amália, a fadista-diva (para ele, diva-fadista), com a performatividade autêntica de quem não se abate pelo olhar moralista, e uma boa pitada de espírito Faça Você Mesmo porque, se for pra esperar, morro sem mostrar pra esse país o que preciso expressar. A melhor definição, entretanto, é a de si mesmo: dizia que era qualquer coisa entre Braga, cidade de origem, e Nova York, metrópole cosmopolita de espírito variante, tal como o nome artístico que levava.

Um oceano inteiro de distância entre a aldeia que nasceu no norte de Portugal o a metrópole-selva-de-pedra estadunidense dá uma ideia das rupturas que teve ao longo dos seus 39 anos vividos. Cresceu em meio ao trabalho da terra, ouvindo o pai tocar cavaquinho e acordeon, atiçando os ouvidos de menino que se encantava pelas romarias e expressões folclóricas. Mudou para Lisboa aos doze anos, seguiu como militar para Angola e de lá soltou-se pelo outro velho mundo de Londres e Amsterdã, retornando para Lisboa  onde trabalhou como cabeleireiro no primeiro salão unissex de Portugal. Foi ali que escolheu o Variações incorporado como pseudônimo daquela persona cujo nome “sugere elasticidade, liberdade”. Se definia como uma pessoa que não se limitaria em um estilo nem para o que cantava, muito menos para o que seria (mais informações biográficas aqui)

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Nessa profusão de experiências, imagina só: Portugal, mais de 40 anos de Ditadura chega ao fim em meio a cravos e esperança, espectro conservador ainda pairando no ar. E aí surge um cabeleireiro, munido de tesoura e uma K7 caseira, apaixonado pelo fado e cantando amores queer. O tempo de dois discos, a primeira morte de um lusitano famoso em decorrência de complicações pelo HIV.

 “Canção do Engate”, lançada dez anos depois do 25 de abril que oficialmente coloca fim na Ditadura de Salazar, fala de amor como há muito não lia. Expressa, pela canção, a tensão do amor entre dois homens, em meio à aventura dos sentidos:

 Canção do Engate (1984) -

Tu estas livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

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Dois anos antes do lançamento de Canção do Engate, a homossexualidade em Portugal ainda era considerada crime. Variações não rompe somente com a estética moralista por meio das roupas e cores que se apresentava para seu mundo, mas também com o espectro opressor do passado em que cresceu. Expressa seu desejo sexual em meio a uma democracia ainda nascente, tematizando as tensões entre amor e sexo, ao falar dos encontros descompromissados, mas intensos em duração:

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te das

“Eu nasci no tempo errado”, dizia. Com a urgência que pulsa de dentro, talvez o tempo errado de Variações tenha sido o tempo certo para mostrar o quão atrasado aquele tempo estava. A canção rock e pop portuguesa não foi mais a mesma. E nem sou eu quem digo. O legado de três anos de carreira e dois discos ainda gera lindas releituras e inspirações. Um português, como lá dizem, com canções a não perder!

Uma versão de Tiago Bettencourt para Canção de Engate:

 

De pijaminha e ursinho na TV:

Texto inspirador (agradecimento pela indicação à amiga conterrânea de Variações, Catia Ferreira): Queer Interventions in Amália Rodrigues and António Variações.

523512_740147959334223_1070089815_nDiz, sobre si, Mayra Resende: Se onde nasci ajuda a me definir: sou do planalto central, Brasília céu no horizonte, pôr-do-sol toca o chão. Se o que estudo ajuda a me definir: sou socióloga de formação, mas a paixão mesmo é por cultura – oral, escrita, desenhada, cantada, tradicional, quente, fria, seca, crua. E um certo encanto pelo que não entendo e não uso, mas acho lindo, tipo, mapas.

Carta resposta para um amor biscate

Por Luiz Welber*, Biscate Convidado

Qualquer lugar do mundo, hoje ou qualquer outro dia.

Querida amada biscate,

Uma carta feita de saudades. Sinto saudades. Saudades de você. De andar contigo. De procurar caminhos, metrôs, endereços, praças, esquinas, pontos de ônibus, bares, bistrôs, botecos, terreiros, praias, encontros. Comer acarajé na feira, pedir Heineken (porque a Brahma custava o mesmo naquele bar). Saudades de procurar tua mão para segurar no meio daquela muvuca de todos os lugares em que estivemos, daquelas multidões de tanta gente sem rosto, sem voz, sem graça, sem meu interesse, sem meu querer, sem minhas saudades.

Saudade das minhas mãos em tua cintura, das caminhadas em passos trocados e fora de ritmo, de você com a mão no bolso sobre a minha bunda ao andar pela calçada larga de grandes avenidas tão movimentadas. De ligar para seus amigos em cada cidade pelas quais passamos e, melhor ainda, encontrá-los e me sentir parte.

artabiscate

Before Sunrise (Antes do Amanhecer)

De contar a saudade no pé do teu ouvido, nos vendo loucos para, logo, encontrarmos um lugar para ficarmos apenas você e eu.

Saudades de tê-la a escolher as músicas do karaokê daqueles botecos “copo sujo” na tentativa de evitar que outros estragassem o momento de nosso beijo com trilhas sonoras que não queríamos nestas memórias de nossos encontros. De compartilhar, ao vivo (ou não), das músicas que agora são parte de nossas conversas. Muitas delas.

E o tempo, esse que passa, transforma, refaz, permite novos encontros, epifanias e…

De manhã, pó de café, água fervente. Passa a água pelo filtro de papel, aquele que guardo após o uso, para que você dê um fim mais digno do que a lixeira. Café, com açúcar, café, com adoçante, mais café.

Música, mais música, ao vento, aquele vento com repelente, num espaço sem mosquitos, com abraços e coisas mais.

Água, muita água, brisa litorânea, lá fora um coqueiro generoso, cheio de cachos. Cai um coco, caem dois, escada, sobe, mais coco, água… doçura líquida.

Caminhar, caminhar, acender os cigarros e conversar, contar de outros carnavais, saber de ti, de si, de mim, de lá, de cá, de quando, de quem nem sempre. Mas é de nós mesmos, sempre. Conhecer, reconhecer, caminhar mais ainda numa trilha que só vê quem conta os contos sobre ela, e o outro imagina, dificilmente vê a mesma que se conta, talvez nunca. Pensar, imaginar, sorrir, rir-se, olhar sério, sentir mundos entre alegrias, humores, graças, ciúmes, acertos, desacertos, acordos.

O gelo e o limão caem, a coca-cola ensopa o tecido que, horas depois, rasga. Rasgam dores, rasgam reações desmedidas e tolas, rasga a crítica e a autocrítica, costuramos de novo, isso que já é novo e, paradoxalmente, velho.

Sono, descanso, pensamentos, acorda, presente de doçura.

Doçura.

Bom dia, amor!

welber *Luiz Welber é mineiro. Se diz historiador e nas horas vagas navega de maria-fumaça. Biscate que viaja por trilhos e trilha narrativas, em contato com o passado sem sair do presente. Viciado em café e em cervejas. Não foge das mesas de bar e aprendeu a fazer macarronada.

A família de Arthur, a exceção que questiona a regra

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada
Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur é um menino transexual de 13 anos de idade, que vive em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Sua história difere das narrativas mais usuais das pessoas transexuais porque Arthur conta com apoio familiar.
(leia aqui)

Achei linda a história de acolhimento e afeto dos pais do Arthur quando descobriram que o filho era transexual. Acho muito importante essa compreensão, sobretudo em uma idade em que estamos em fase de transformação radical externamente.Eu nunca tive isso, como a maioria das pessoas trans* também não tiveram. Não havia pai, mãe, familiares ou amigos para compreender quem eu era, o que eu estava passando: pelo contrário, era violência de todos os lados. Se hoje em dia eu sou quem sou, devo à minha resiliência, à minha vontade absurda de resistir, eu me considero uma sobrevivente diante de tanta violência que sofri, que todas as pessoas trans* sofrem: umas um pouco mais, outras um pouco menos, ninguém deixa de sofrer quando descobre-se não pertencendo ao mesmo grupo que os demais, ainda mais em uma idade tão precoce, sem conhecimentos do mundo fundamentais, de como se hierarquiza e se constrói a transfobia e o cissexismoFelizmente, vejo que os pais com mais acesso à informação e com a cabeça mais aberta, passam a compreender que o filho ou a filha é transexual, e não outra categoria de gay ou lésbica. E descobrir-se tão cedo, ainda mais com o suporte daqueles que deveriam nos amar, nos compreender e aceitar nossa identidade é imperativo para ter mais qualidade de vida – infelizmente não é a realidade da maioria de nós. Que, inclusive, passamos uma vida tentando nos encontrar, com a sociedade inteirinha dizendo e nos impondo que somos gays ou lésbicas; dado que nada sabem e nada se fala em quase nenhum lugar sobre as identidades trans*.

Enfim, quanto ao texto no iGay, parece que vai cair alguma parte do corpo dessas pessoas (incluso ativistas LGBTs) se escreverem transfobia ao se referirem às opressões que as pessoas trans* sofrem. Essa palavra HOMOfobia, em sua própria raiz remete-se à homossexualidade – campo das orientações sexuais, e portanto eu a rejeito para traduzir o que passamos, pois inclusive contribui para o preconceito eterno que enfrentamos, aquele que dá conta que as mulheres trans* são homens gays querendo ser mulher e os homens trans* são mulheres lésbicas querendo ser homens.

Outra coisa, não considero que o Arthur tenha nascido mulher ou menina como diz a reportagem do iGay, ser mulher ou menina não é algo instalado no genital, na anatomia; fosse assim, se perdêssemos o genital, imediatamente passaríamos a ter outro gênero. Mas não, podem transgenitalizar à força um homem cis, ele não passará a se reconhecer como mulher por conta disso. Não nascemos meninas ou meninos, não nascemos nem homens e nem mulheres, nascemos com determinada conformação anatômica que NADA pode dizer sobre nosso gênero, nascemos nus, sem saber que regra vamos ter que seguir, que gênero irão nos impor; o resto é construção.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

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