Sala de aula, maternidade e tanta vida pra viver

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

Uma das notícias mais compartilhadas nas redes sociais durante a primeira semana de março foi a do professor da UFRN que censurou a aluna por levar sua filha pequena para a sala de aula. Não vou escrever sobre o que eu acho da sala de aula, se é ou não lugar pra criança: esse não é o tema aqui. Como professora de universidade, já recebi algumas vezes alunas com seus filhos em minhas aulas e nunca tive problemas com isso. Não me recordo nem de ter ficado inquieta com o assunto, embora ache que a creche pública é das coisas mais fundamentais que qualquer sociedade deve prover aos seus cidadãos. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Fiquei foi pensando nessa vida que temos: parir e criar filhos, trabalhar, estudar, e todo o resto. Fiz meu doutorado grávida. Juca nasceu no primeiro ano do curso. Engravidei por escolha própria e sabia que estava topando a tarefa árdua de criar um menino, fazer uma tese e trabalhar (só tive licença parcial do meu trabalho). Tinha condições de financeiras de bancar uma creche, tinha uma trabalhadora doméstica que fazia todo o serviço da casa, minha mãe vinha algumas vezes me dar um help; a boa e velha rede feminina. Eu e o pai do Juca nos separamos quando ele ainda era pequeno, mas o período de guarda compartilhada também contribuiu para desafogar a agenda da semana. Enfim, dadas as condições objetivas, deu pra fazer tese, trabalhar e me dedicar ao filho. Fiquei cansada? Fiquei. Me arrependo? Não. Bem, mas essa sou eu, e eu não sou parâmetro pra nada. Aliás, ninguém é, embora nesse mundo das redes sociais as pessoas tendam a achar que suas vidas privadas são a régua universal.

Nem todo mundo engravida de forma planejada, como advoga a cartilha da maternidade competente. E não é porque as mulheres são desmioladas, há uma série de motivos que podem levar a uma gravidez em um momento da vida que não é considerado ideal. Não pretendo me estender sobre isso aqui. Uma vez mãe, com seu bebê no colo, a vida segue: tem trabalho, tem vida social, tem estudo, tem a pessoa além da mãe. Esse talvez seja o nó da questão. Tem uma pessoa que é mais do que “a mãe de”, está para além da “mãe de”, e vivemos em um mundo onde essa ideia da individualidade da mulher é um obstáculo tremendo. A negação da condição de sujeito da mulher é, no fundo, a raiz do incômodo com as crianças circulando no espaço público. Para ter seu filho consigo em sala de aula, a aluna tem que fazer referência à sua falta de condições para pagar creche ou à ausência de vagas em creche pública, tem que dizer que está sozinha ou que o pai da criança também tem suas obrigações (e ele é, obviamente, considerado um indivíduo pleno, enquanto ela não é), tem que afirmar todas as suas faltas e carências para poder viver para além da maternidade. É um paradoxo, como já dizia Joan Scott, ao lembrar que o feminismo assenta sua história na exigência de afirmação da diferença pra poder conquistar a igualdade.

Nós, mulheres, vamos assim: vivendo nossas vidas paradoxais, testando os limites do que é ser indivíduo no mundo. Precisando marcar a diferença, na luta para sermos vistas como iguais.

  AndreaMoraesNova*Andrea Moraes é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Um bombom no 8 de Março

Por Mary W, Biscate Convidada

Sempre há uma confusão no Dia Internacional da Mulher. Porque, nós, feministas, reclamamos das rosas, bombons, parabéns. E isso parece antipático. E as pessoas não entendem mesmo (ou fingem nao entender).

Não queremos mimos porque não é o caso. Mais do que isso, reforça que nós, mulheres, temos que ser mimadas e cuidadas. E essa visão é machista e hipócrita.

O mundo não “cuida” da gente. Antes, nos exclui de tomada de decisões importantes. A luta pela autonomia econômica e psicológica da mulher é fundamental para que ela não se sinta dependente e inútil quando o casamento acaba, por exemplo.

São inúmeros os casos de mulheres que ficam completamente perdidas na meia-idade com o fim do casamento.

Não gosto também das mensagens publicitárias. Que nos chamam de “guerreiras”. Não quero ser guerreira. Quero viver minha vida com igualdade de direitos. A “guerreira” é aquela que tem dois empregos porque cria os filhos sozinha. Cadê o pai? Tá devendo pensão alimentícia, muito provavelmente. Maternidade como sacrifício é algo a ser combatido. A “guerreira” só existe porque o mundo é desigual.

Da maternidade vêm também as mensagens que contribuem para demonizar nosso direito ao próprio corpo. A gravidez da mulher é assunto coletivo. E o direito ao aborto nosso maior tabu. Essas mensagens visam manter a gente nesse sacrossanto lugar. Da mãe que abre mão de si mesma.

A gente não precisa mesmo de rosa e bombom. Eu compro meus bombons (ou ganho da minha namorada). Não preciso de mimo num dia que é de luta.

Eu quero que chefes parem de me assediar ou de alisar meu ombro em eventos profissionais. Quero poder andar na rua sozinha sem medo de homem. Quero que minha orientação sexual seja respeitada. Quero interromper uma gravidez indesejada. Quero ganhar um salário equivalente aos homens. Quero que as profissões femininas sejam respeitadas. Quero deixar de confundir abuso e ciume com amor.

Quero tudo isso. O bombom pode comer você. Já almocei.

28870551_10156096082799259_6061432163104980992_nMary W é feminista e se isso não é tudo, é tanto. Um jeito de ver, dizer e sentir o mundo. E mudá-lo. Dá pra ler o que ela pensa, no seu blog: link aqui. E pode-se ansiar por uma conversa no bar – é sucesso.

O dia 8 de março e uma certa conivência

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

No dia 8 de março eu gostaria de falar sobre uma palavrinha sobre a qual eu tenho refletido muito: conivência.

O machismo que destrói mulheres e impacta nas vidas delas não é apenas o machismo ativo, do homem que bate, silencia, interrompe, viola, assedia. É também o machismo da conivência.

Os homens tem um privilégio que é muito sutil, que é o privilégio de não se importar com essas violências que impactam as mulheres.

Eles não mandam a piadinha grosseira no whatsapp, mas não reclamam.

Eles vêem o amigo no trabalho roubando ideias, ganhando mais, e não falam nada.

Eles vêem o projeto massa da mulher e não divulgam, porque afinal, aquilo ali não tem a ver com eles.

Eles não entram no grupo de whatsapp da escola do filho para participar da vida escolar, e tudo bem só as mulheres estarem por ali, com toda a carga mental.

Eles sabem do vizinho que agride a companheira, mas “isso é coisa de marido e mulher” e não têm cu de ligar no 190.

Na rodinha do pós-futebol ouvem em silêncio todos os relatos de assédio que os colegas fazem, mas como eles próprios não fazem… pra que se estressar?

Não se posicionam quando rola um debate sobre estupro, assédio e aborto, afinal não é no seu corpo que isso rola.

Tudo que um machista precisa é de um ambiente seguro para se manifestar e que suas crenças sejam reforçadas.

Tá com medinho de perder os amigos? Medinho de ser tachado de mala? A vida das mulheres tem muito de ajustar seus círculos de convívio e afeto para não passar mais por violências.

Nós mulheres não temos a opção de ficar caladinhas. A opção de passar incólumes. Quando a gente silencia é por medo de agressão e sanção social e engole esse sapo emocional que nos corrói. Ou então a gente fala, correndo o risco de ser agredidas, violadas, demitidas, rebaixadas, ridicularizadas, tachadas de chatas, intolerantes, inconvenientes.

Se você, homem, puder fazer alguma coisa para contribuir para a igualdade de gênero, a coisa é essa: não seja conivente com o machismo que você percebe ao seu redor. Mude o clima do ambiente. Divida essa tarefa e essa carga mental, física, espiritual, emocional com as mulheres. Se posicione também. Quem cala consente, sabe? É cúmplice também. Não seja esse cara, para que nós possamos ser as mulheres que podemos e queremos ser.

 renata-corrc3aaa1Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

I, Tonya e o círculo de violência

 Gilson Rosa*, Biscate Convidado

Eu sou uma pessoa dura. Gente mole e sentimental me levam à loucura. Acho que não existe nada que me irrite mais do que pessoas choronas e chorosas. REAGE, CARALHO. Eu nem sempre fui assim. Eu me tornei assim pra sobreviver. Não existia outro caminho. Só esse: trincar os dentes e seguir. A qualquer custo.

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Lavona Harding, assim como eu, é uma pessoa dura. Implacável. Ela é o que foi feito dela: Uma sobrevivente. Que sequer apaga o cigarro ao ver o marido e pai de sua filha entrar no carro e dar no pé,  deixando-a sozinha. Lavona nem se lembra mais como chorar ou se lamentar. Ela só trinca os dentes e segue. Lavona é o monstro que vai moldar, formar e ao mesmo tempo destruir e arruinar a grande patinadora Tonya Harding. Lavona tempera a pequena Tonya no fogo e no aço da pobreza, da privação e dos sonhos frustrados onde ela própria foi criada: Não existe lugar pra fracos. Lavona enxerga em Tonya um talento que a pode levar onde ela mesma nunca foi. E tenta por todas as maneiras possíveis torná-la vencedora. Sem se dar conta que essas maneiras implacáveis vão aprisionar a pequena Tonya no mesmo perpétuo círculo de violência e relações abusivas do qual nunca conseguiu se livrar.

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Tonya, como boa discípula de Lavona, abre o seu caminho a cotoveladas e pontapés. Na interpretação superlativa e visceral de Margot Robbie, Tonya é um dínamo movido a fúria, raiva, frustração e competitividade prestes a explodir a qualquer momento. Chega a ser irônico que um filme movido a esse tipo de combustão chegue a uma temporada de prêmios marcada pelo protesto das atrizes de Hollywood contra o assédio masculino. Pra Tonya e Lavona o mundo é esse onde elas duelam, se agridem e se machucam tentando fugir do circulo de pobreza, privações, pancadas e abandono dos homens as cercam. Nesse mundo, as roupas pretas do Globo de Ouro não significam nada.

14906864_10205828692916235_6183778969703579956_n* Choro de puta, deus não escuta

O que eu quero quando quero você?

Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Arcano VI do Tarô - Os Amantes. “É preciso saber escolher”

Arcano VI do Tarô – Os Amantes.
“É preciso saber escolher”

Faz alguns anos que um processo se dá em mim quando me apaixono. Não importa mais tanto o que sinto, mas o que eu quero a partir do momento que tomo conhecimento de que sinto por alguém. Pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas para mim é recente. Sempre fui da turma dos passionais. Se me apaixonava não estava nem aí, queria viver loucamente o que estava sentindo e dane-se o resto. Não que isso tenho se alterado, estruturalmente ainda sou assim, mas depois dos desencontros, dos tropeços, de reflexões e de aprendizados mudanças ocorreram. A paixão tem se mostrado cada vez mais como um espelho que reflete sempre uma questão: “O que você quer? ”. E essa questão é sempre o que deixa aquela pulga atrás da orelha, que tira o sono algumas noites. “O que eu quero” talvez seja umas das perguntas mais difíceis de ser respondida porque o desejo ele não é uma verdade já posta, ele também leva tempo.

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Hoje eu estou apaixonado e estava pensando no rapaz que gosto enquanto ia ao mercado. Estamos em cidades separadas por conta das férias e ás vezes falamos pelo whatsapp, mas  já estava pensando em quando voltar fazer um jantar para esse moço, para nós dois: macarrão, queijo, vinho (duas garrafas), uma barra de chocolate. E daí lembrei, lembrei dele, um ex , um ex com o qual eu aprendi muito das artes do amor. Ele é descendente de italiano, cozinha super bem, tem uma boca gostosa, um olhar safado e um sorriso descarado. Lembrei dele, justamente, porque queria perguntar “como é mesmo que você faz aquele macarrão? ” “Qual o queijo que você usava? ” “ Que hora que é para pôr a salsinha? ” Ou será que era cebolinha? Lembrei disso e ri. Ri e agradeci. Agradeci porque fui amado, desejado, cuidado, seduzido e, claro, machucado, porém pude viver tudo isso. Aprendi sobre as delicadezas do amor, os detalhes do amor, os cheiros, os alimentos, os prazeres e desprazeres. Aprendi que “Maycon, quando você fica bravo parece uma mulher brava”. Aprendi que quando estava tão deprimido, sem saber para onde ir e o que fazer tive alguém que deitou do meu lado e me abraçou, me acolheu, foi meu chão sem hesitar quando tinha perdido completamente as coordenadas de quem eu era ou o que queria. O amor é uma aprendizagem e se conseguimos elaborar os ressentimentos, as dores, as frustrações ficam em nós os gestos de amor que partilhamos. Como uma espécie de receita especial que alguém mais velho da família faz e ensina a alguém mais novo e partir daí vai passando de geração em geração mantendo-se viva. Eu sei amar hoje porque fui amado ontem e quem eu amo hoje amará amanhã. E seguimos amando, machucando, ensinando, aprendendo.

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Lembro de uma professora de psicologia que tive que dizia “quando vocês não souberem algo, perguntem a vocês mesmos, em voz alta: o que eu quero? ”. Achava ela ótima, meio louca, mas ótima. Anos depois me pego usando esse conselho porque muitas vezes eu não sei o que quero: Não sei o que eu quero quando quero você. Mas ainda que seja angustiante não saber o que se quer tem um ponto crucial aí nesse não saber e o nome é liberdade. Quando você não sabe, quando o seu desejo não é automaticamente capturado pelas normas, pelo que deve ser, pelos caminhos que deve seguir, pelo modelo que você deve corresponder o único caminho possível é a liberdade. É experimentar, é testar, é tatear. A mesma professora que citei dizia “vão vendo por onde vocês estão caminhando, não botem logo de cara os dois pés. Coloquem primeiro os dedos, sente se dá pé, se está firme, se não der volte, dê um tempo, depois vá de novo ou mude a direção”. Não há a melhor escolha, a mais correta, o que há é a escolha que você tem condições de fazer naquele momento. Tem uma frase bem conhecida entre o pessoal que estuda tarô que é “ A tendência da vida é dar certo”. Se jogue e diga para a pessoa amada: me chame pelo seu nome.

 

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Esperando o avião

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Enquanto espero o avião que me conduzirá à tempestuosa São Paulo, ouço Air Supply cantando breguices maravilhosas e testemunho, mesmerizado, a paquera entre duas moças.

Uma delas tem tranças de índia cherokee e olhar de fingida inocência. Ela não percebe, mas lambe os lábios quando olha na direção da outra moça.

A outra é tão branca que reluz. Como alguém consegue vir a Salvador e retornar tão profundamente branco? Uma prova de que os filtros solares são, de fato, eficientes. Nota mental: pesquisar os lançamentos do mercado. A branquelinha parece não crer que está sendo paquerada. Já olhou pra trás duas vezes, tentando verificar se porventura está entre Pocahontas e seu verdadeiro alvo.

Air Supply canta bem alto, mas só eu consigo ouvir, porque sou educado e uso fones de ouvido:

You know you can’t fool me
I’ve been loving you too long
It started so easy
You want to carry on
CARRY OOON…

O alto falante diz algo que eu não sei o que é, mesmerizado que estou com a cafonice maravilhosa que define meu gosto musical. Pocahontas corre na direção da porta 5, onde se lê

CONGONHAS

Então ela para, parece pensar um pouco, corre de volta para a cafeteria, morde o labio enquanto escreve algo em um papel, corre na direção de uma pasma Branca de Neve, entrega um papel para ela e desaparece na fila de anônimos que vão para

CONGONHAS

Branca de Neve tem a boca aberta, como a de quem acabou de testemunhar um fenômeno. Deve estar se subestimando. Só de olhar pra ela, eu acho perfeitamente compreensivel que alguém queira paquera-la. Ela tem uma cara de pasma constante, e isso é muitíssimo charmoso.

Ela retira o celular da bolsa e ri, enquanto digita algo. Quase certo que está contando o ocorrido para alguém.

Air Supply muda a cantoria, e agora grita

I’m all out of love, I’m so lost without you
I know you were right believing for so long
I’m all out of love, what am I without you
I can’t be too late to say that I was so wrong

Há quem ache feia essa minha mania de ficar prestando atenção em desconhecidos, mas sou desses. Não consigo controlar. Branca de Neve mora em Brasília, vejam só. Voo 3268, PROCEED TO GATE 6. Lá vai ela.

Eu gosto de pensar que elas vão se ver de novo, e por isso fiz um vodu cyberxamanico usando o Google Maps.

Eu de fato acho que há mais amor do que ódio no mundo.

Eu sempre vejo isso em aeroportos. Talvez porque o amor seja uma viagem? Gosto de pensar que sim.

I want you to come back and carry me home
Away from this long lonely nights
I’m reaching for you, are you feeling it too
Does the feeling seem oh so right
And what would you say if I called on you now
And said that I can’t hold on
There’s no easy way, it gets harder each day
Please love me or I’ll be gone, I’ll be gone

 

10429277_10153033445359913_2025333463143611136_nAlexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

Padrão Vadia

Por Helen Taner, Biscate Convidada

Resolvi escrever sobre uma coisa que vem me incomodando e sei que muitas pessoas a minha volta também. Então, como eu já disse aqui, eu tenho 105 quilos e eu sou vadia. MAS NINGUÉM ACREDITA. Eu sei, eu sei, “ninguém tem nada com isso” e também “não precisa provar nada para ninguém”. O negócio é de que o fato delas não acreditarem também está relacionado aqueles números ali em cima. Portanto, esse texto aqui é sobre como existe um certo padrão para tudo, até para ser uma vadia.

Eu sei que as pessoas que vão ler são, em sua maioria, desconstruídas e também sabem que o ideal vadio não corresponde a realidade, mas vamos fingir que não e pensar um pouco como aquelas pessoas que acreditam fielmente nele para responder a algumas questões. Quando você pensa no termo “vadia” qual é a imagem formada na sua cabeça?

Boa parte da população citaria exemplos de alguma personagem de telenovela que provoca homens (exatamente, no sentido heterossexual) com as suas roupas curtas e perfeitamente ajustadas a um corpo escultural (magro ou estilo “panicat”), com cabelos compridos até a altura da bunda (e que bunda né?), super maquiada e incapazes de ter um relacionamento de verdade ou de deixar “em paz” os relacionamentos a sua volta. Quais dessas seriam consideradas vadias, a princípio (porque, né, toda mulher sempre pode ser “xingada” de puta por não se adequar a alguma expectativa social)? A moça da propaganda de absorvente ou amaciante (estereotipada), que tem roupas ‘comportadas’, sem decotes e no comprimento “adequado”, ou a moça da propaganda de cerveja, que está num bar cheio de homens com um shortinho mostrando parte da bunda e com um decote que é maior que o tamanho da blusa (mesmo se elas estiverem dentro da geladeira)? Os exemplos são muitos, sei que quem está lendo consegue entender esta divisão santa X vadia, que a sociedade repete.

Enfim, eu não estou dentro dessa imagem construída de o que é uma vadia. Eu sou gorda, atualmente careca, me visto com roupas largas da sessão masculina (tipo um mano), não tenho belos peitos (ainda) nem o tal corpo escultural – e não me relaciono só com homens.

Eu sou pansexual, na realidade. Essa última característica – que não é evidente na aparência – é a única me “enquadra” neste estereótipo, pois há um grande preconceito com pessoas pans. Na minha observação, a maior parte das pessoas acha que ser pansexual é um código para promiscuidade e para não se controlar diante de qualquer um que esteja próximo. Deixa eu esclarecer: ser pansexual significa apenas que eu sinto atração por pessoas independente do gênero e somente isso.

Aí quando a pessoa que está por perto não sabe da minha pansexualidade e eu falo algo do tipo “fazer o que? Eu sou vadia mesmo!” a reação é de estranhamento (às vezes inconsciente, mas igualmente problemática) ao fato de eu não estar de acordo com o esperado. Isso me incomoda. E não só a mim. Muitas amigas gordas reclamam sobre isso, como se ser biscate dependesse de um determinado corpo e não de como você se sente ou do quanto gosta de ser livre. Como se fosse impossível você “conseguir” ser vadia tendo determinado tamanho/peso. Está implícita a idéia de que nenhum homem (a heteronormatividade impera) ou mais, nenhuma pessoa (no meu caso) vai querer trepar com uma pessoa gorda. Como se não pudéssemos ser desejáveis.

E eu sinto que isso talvez não devesse me incomodar tanto, já que sofremos preconceito em muitos outros setores (como ir a médicos, entrar em academias, conseguir empregos), mas incomoda. E eu vejo muitas manas que lutam contra a opressão e contra os padrões incorporados na nossa sociedade reproduzindo isso. Machismo e gordofobia costumam trabalhar juntos com muita eficiência.

Não devíamos ter que provar que podemos ser amadas ou o quanto nos amamos – até porque nem sempre nós temos certeza disso, neste contexto é sempre uma conquista manter a autoestima. Ser gorda é um processo interno gigantesco de aceitação ao próprio corpo, de negação de valores sociais pré-estabelecidos e mesmo a mais autoconfiante pode acordar com vontade de quebrar o espelho. E sabe o porquê? Porque em todos esses pequenos gestos mostram-nos o contrário do que estamos construindo em nós.

Com tudo isso expulso do meu peito, eu queria deixar dois recados. Você que nunca sentiu essa sensação que eu descrevi pense se você não é a outra pessoa, a que encara, a que quase ri e, se for, eu espero que trabalhe para desconstruir isso em você mesma. Se você é a pessoa que sentiu, a que sabe exatamente do que eu estou falando, CALMA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA, existem outras pessoas que passam por isso (algumas nem estão tão fora do padrão assim e sofrem também) e acima de tudo, continue trabalhando isso dentro de você para que ninguém consiga tirar seu amor próprio nem sua vontade de continuar lutando e sendo a pessoa MARAVILHOSA e VADIA que você é.

Helen Taner de Lima é uma vadia Trans Não Binárie – Agênero, que responde pelos dois pronomes, e Pansexual, graduanda em Filosofia na PUCPR, que estuda gênero e Teoria Queer, escorpiana que não acredita em astrologia e professora quando o governo deixa. Blog pessoal: http://harmonuim.blogspot.com.br/?m=1

Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do teu prazer!

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Quem me fez soube me fazer eu sou feita do fogo e do azeite de dendê
ponto de pomba-gira

Escrevo esse texto para dizer apenas uma coisa: adoro ser desejado. É isso. A mensagem é essa. Todo o restante do que irei escrever é um retorno a essa afirmação primeira. Gosto quando demonstram tesão por mim, quando querem me pegar, quando me olham com cara de safado, quando ando sem camisa na rua e me olham com aquele cara de quem quer me ver sem a bermuda.

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Lembro da primeira vez que eu fiquei com um cara que eu estava de olho fazia já um tempo, quando fiquei pelado ele me olhou e disse “nossa” e adorei.  Outro dia no aplicativo um cara escreveu “Perola negra. Nossa! Que rei!” e ri e fiquei todo aceso. Adoro quando sentem desejo por mim. Gosto quando chupo um cara e ele se contorce inteiro, quando geme puxando os lençóis louco de tesão. Quando pede mais: mais beijo, mais chupada, mais pau.  Me achar um gostoso, um negão de tirar o chapéu não me ofende, não me diminui. Sabe aquela frase do Paul Valéry “o mais profundo é a pele”? Então, para mim é bem isso. O que vem primeiro é a pele, o olhar, o cheiro, o corpo. Se vai ser só uma noite ou se vai dar  em namoro descubro mais tarde, depois. Primeiro vem o tesão, o prazer, o desejo. Vivo dizendo paras pessoas que sexo é diversão, é prazer, é encontro, é vida. Se não for, pode ser qualquer coisa, menos sexo.

Mais do que um narcisismo descarado o que quero dizer é que gosto de sexo, que ele não me ofende, que se aproximar de mim querendo só sexo – como se fosse necessariamente ruim – não me diminui, não me agride. Essa fala poderia cair facilmente na armadilha racista do negro hipersexualizado, mas não se trata disso. Essa questão não está comigo, está com o outro. Se o outro acha que eu sirvo apenas para sexo, ou pior, se o entendimento do outro é de que sexo é só “isso”, se me vê apenas como um fetiche vazio, se ele olha para o mundo e vê negros como seres que servem unicamente para esse sexo tão limitado, como algo descartável, é um problema sexual dele, não meu. É uma pena que por conta do racismo alguém encare as coisas dessa forma. É ele que reduz as possibilidades da vida. A moral sexual racista define que negros e negras servem apenas para sexo. Apenas para isso. E aí é que está o pulo do gato: essa moral reduz o sexo. Tira dele toda a potência, toda a força, toda a alegria, toda a proximidade, toda a abertura para a vida que o encontro sexual pode possibilitar. E aí sim, quando achatamos a vida, quando fechamos qualquer contato com a diferença, quando limitamos o que as pessoas podem criar, inventar, viver, aí é que elas são objetificadas, limitadas, separadas do que elas nem sabem que podem. E isso eu não quero, não aceito. Eu quero mais. Eu quero é mel.

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

 

Um Final Tranquilo

Por Mariana Varella, Biscate Convidada

Uma amiga terminou um relacionamento afetivo meio casual que já durava um tempo. Perguntei: “O que houve?”

Com a maior calma do mundo, ela me respondeu: “Eu me apaixonei por ele e ele queria outra coisa, então decidi que era melhor me afastar. Tô triste, mas tô bem”.

Uau! Nenhuma frase questionando seu valor, nenhuma tentativa de justificar a falta de envolvimento dele, zero manifestação de vontade de mudar o cara ou a situação.

Fiquei pensando no motivo da minha supresa. Não precisei ir longe: mulheres aprendem a avaliar seu valor com base na atenção e nos olhares masculinos que despertam ou deixam de despertar.

Somos criadas para sermos maternais, bondosas e compreensivas com homens que presumidamente não sabem externar sentimentos e precisam de acolhimento, a insistir e não desistir dos relacionamentos (não apenas amorosos, diga-se), por mais capengas que estejam.

Assim, uma suposta rejeição não é apenas dolorida, é sinal de que fizemos algo errado, de que não fomos ou somos boas o suficiente (não à toa, há quem saiba explorar isso com maestria).

Ver uma mulher incrível viver um término de relacionamento com tristeza, mas sem duvidar de si, colocando limites e compreendendo que tem relação que não rola e que não há motivos para romantizar desamor nem para valorizar a persistência que só serve para abalar a autoestima é maravilhoso. E, acreditem, era coisa rara até bem pouco tempo atrás.Fico muito contente em notar que cada vez mais mulheres estão compreendendo que tem hora que é preciso bancar a Elsa de “Frozen” e mandar um “Let it go”.

Assim, sem grandes implicações.

FotoMarianaMariana é formada em Ciências Sociais. Trabalha como jornalista da área de saúde, com foco em saúde da mulher. Editora do site Drauzio Varella e escritora do blog Chorumelas, é ativista feminista.

Carta para Alice

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Alice,

Você não lerá esta carta, mas os outros a lerão por você. Faz sentido, veja só: a partir de hoje, seu pequeno corpo se espalha pelo mundo, e viaja mais do que eu jamais viajei. Deste modo, apesar de a carta ser dirigida ao seu nome, os outros a lerão. No momento em que a escrevo, o processo de devolução de seu corpo ao mundo já começou, e a matéria que lhe compõe gradualmente volta a ser parte de todas as coisas, então faz sentido que os outros leiam o que é seu. Tem gente que não gosta disso, a gente cresce e é treinado a não gostar, mas é um lance muito mágico: a devolução começa pela terra, espalha-se pelo ar, até que um pouco de você estará nas coisas mais insólitas. De um jeito que a gente olha e pensa: será que tem uma molécula sua naquela planta? Átomos espalhados por um monte de pássaros?

Ninguém jamais saberá onde, e isso não tem a menor importância.

A vida é um sequestro temporário, Alice. A gente sequestra o carbono, o nitrogênio, o hidrogênio, o oxigênio, o fósforo, o enxofre e traços de outras coisas. Nossa constituição não é muito diferente da de um cometa, inclusive mais ou menos na mesma proporção, sabia? A diferença é que nós somos mais ricos: temos o fósforo. Será que é isso que acende a chama da vida? Eu não faço ideia, na verdade ninguém faz, mas a gente gosta de fantasiar que sabe tudo.

[…e escrevemos enciclopédias, criamos religiões, fazemos até guerras por causa disso. A gente é muito criativo – para o bem e para o mal.]

Daí que, um dia, todo mundo tem que se espalhar por aí de novo. E o que a gente era vira um sendo, o presente do indicativo se converte em gerúndio, e – olha só a mágica – a vida se refaz em novas formas. Só sofre quem não consegue enxergar a beleza da mutação. Mas, com o tempo, a maioria de nós aprende a ver.

Veja que coisa, menina: meses atrás, eu entrei em uma loja em Salvador, e comprei o vestido mais bonito que eu vi [eu tenho um gosto meio clássico para vestidos, não repare], pensando que você o usaria em seu aniversário de um ano. Você nunca vai fazer um ano, mas hoje seu pai me disse que você o usará no dia do seu espalhamento. Gostei disso. Nunca que sobrinha minha vai entrar desarrumada no grande salão de festas da Terra, que é o coração de todas as coisas.

E eu imagino você linda 🙂

Um beijo. Espalhe-se. Arrase.

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Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

E os namoradinhos?

Por Henrique Marques Samyn, Biscate Convidado

Havendo uma reunião familiar, e havendo nela uma mulher solteira, é provável que surja a pergunta: e os namorados? O motivo da reunião é o menos importante, festejos natalinos, aniversários, bodas de qualquer coisa; fato é que, estando presente alguma mulher que possa ser submetida ao inquérito, em algum momento emergirá a indagação – “e os namorados?” (ou alguma de suas variantes) –, seguida de uma série de outras perguntas, com o propósito de perscrutar a vida íntima da interrogada.  De tão comum, parece normalizado. Questionemos, todavia, o que subjaz à perquirição: por que insistimos em submeter as mulheres solteiras a esse constrangimento?

namoradinhos

Porque a gente insiste que a mulher só pode estar realmente bem se tem um homem ao seu lado. Que mulher poderia ser feliz errando pelo mundo, solitária, sem um homem pra chamar de seu? Mulher – apenas por ser mulher – precisaria de um “dono”: aquele que cuidará dela, a figura protetora responsável por dar um sentido à sua vida (mulher respeitável é a “mulher de”). Na infância e na adolescência, incentiva-se a busca pelo “príncipe encantado”; se esse não aparecer, que haja um plebeu qualquer que possa ocupar o posto – o fundamental é que o homem exista para que a mulher possa ao menos exibir para a sociedade sua vitória na luta para evitar o risco do “encalhe”: nesta lógica, é impossível ser feliz sozinha(ou em algum outro arranjo afetivo-sexual).

Porque a gente insiste que a mulher precisa dar satisfação de sua vida pessoal pra todo mundo: todos parece ter o direito de saber (e o direito de opinar) sobre sua afetividade. É bom que a mulher esteja com alguém – e, se ela está com alguém (alvíssaras!), quem é esse? Como se chama, como a trata, que idade tem, em que trabalha? Fique desde logo estabelecido que, para qualquer dessas questões, não há uma resposta certa: tudo o que disser a mulher poderá ensejar julgamentos e críticas da parte daqueles que, afinal, só querem o seu bem (ainda que suas crenças e princípios possam nada ter a ver com os valores daquela que está sendo interrogada). De todo modo, a vida afetiva da mulher está sempre assim, aberta a escrutínio. Se não há esse alguém, surge outro problema: como se pressupõe que toda mulher está sempre em busca do “príncipe encantado” (ou do plebeu que possa chamar de seu), isso pode sugerir que ela está empenhada nessa busca – e, se de fato o faz, o que está fazendo de seu corpo?

Porque a gente insiste que a vida sexual da mulher não é um assunto que diz respeito somente a ela: ela precisa saber que está sendo vigiada o tempo todo (e que, portanto, qualquer desvio terá consequências). Mulher que é mulher, por esse padrão, tem que se dar ao respeito: nada de “galinhar”, nada de “piranhar”, nada de “biscatear”; seu corpo e sua sexualidade são assuntos coletivos, como sabemos, e portanto todos – especialmente aqueles que, lembremos, querem apenas o seu bem – devem ter pleno conhecimento sobre sua rotina sexual: importa saber com quem ela transa, quanto ela transa e quando ela transa, a fim de que se possa aferir a quantas anda sua respeitabilidade. Que pode esperar da vida uma mulher “rodada”, que ousa desfrutar de sua sexualidade com aquela liberdade que está reservada exclusivamente aos homens? Com certeza vai perdendo pontos na corrida pelo “parceiro da vida inteira”.

Porque a gente insiste que a mulher não pode ter autonomia, nem pleno direito sobre si mesma. O julgamento e a vigilância constante sobre as mulheres são mantidos conforme parâmetros patriarcais perpetuados geração após geração e eventualmente punindo aquelas que têm a audácia de desafiá-los. Não podemos negar: há, sim, as que têm essa coragem. E ainda bem que as há.

henriqueHenrique Marques Samyn: Preto, professor, pró-feminista. Empenhado em fazer do mundo um lugar cada vez pior para o “cidadão de bem”

Mordi a língua [2]

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

Há coisa de um ano, escrevi o texto-declaração “Mordi a Língua” aqui nesse Biscate. Falava desses pontos de virada no roteiro das nossas vidas que pegam a gente de surpresa, fazem uma confusão na cabeça, dão um medão de sentir, mas que são uma delícia de viver.

Há coisa de um ano, eu mordo a língua quase todos os dias.

É um sem fim de bom dias <3 e boas noites <3, um mundo de corações e um monte de descobertas. Que delícia, eu não lembrava, ocupar o mundo do outro e deixar-se ocupar por ele. Embaralhar as manias… Fazer planos juntos. Contar e trocar o dia a dia.

É de uma intensidade esse tal de bem-querer. Essa vontade que dá e não passa. Um tantão de sentimento que não cabia aqui dentro naquele momento, e que continua não cabendo agora. Às vezes transborda.

E é difícil também.

Primeiro eu achei que não ia dar conta (às vezes ainda acho). Eu dizia sem disfarçar que: olha, não sei namorar. Como quem pergunta: tem certeza? Uma frase estranha pra um começo né? Mas queria dizer também (e talvez eu não tenha dito) que eu quero descobrir junto. Me ensina? Vamos nessa? Eu topo o desafio!

E quando digo que “não sei” já é também um pedido de desculpas pelas tantas besteiras que direi ou farei nesse nosso caminhar de mãos dadas.

Caminhando se faz caminho. E achei por bem pedir também: chegue de mansinho, devagarinho, como diria Martinho. Mas quem disse que eu sei mergulhar de pouquinho? Foi só pedir e morder a língua de novo.

Coisas que aprendi juntinho avec toi e que, sei, ainda pode mudar.

Eu sou samba, ele é bossa.

Ele canta, eu danço até na fossa.

Ele é fogo, eu sou ar

Ele é ninja, eu sou devagar

Eu sou texto, ele é melodia

Eu sou Pernambuco, ele Bahia

Ele é par, eu sou impar.

Ele é piscina, eu sou mar.

E a gente é tanta coisa a dois….

A gente é festa, manif, carnaval

A gente é amigos, filhos e tal.

A gente é sempre muito.

A gente é um sem fim agora junto.

Um dia ele pediu: escreve a letra de uma música? Eu não sei fazer isso. Sabe sim. Daí que aquele texto virou melodia. Um samba bossanoveado que é também nossa cria.

P.S. Trilha original do post: “Como Diria Martinho”, de JL e FM

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

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