Mordi a língua [2]

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

Há coisa de um ano, escrevi o texto-declaração “Mordi a Língua” aqui nesse Biscate. Falava desses pontos de virada no roteiro das nossas vidas que pegam a gente de surpresa, fazem uma confusão na cabeça, dão um medão de sentir, mas que são uma delícia de viver.

Há coisa de um ano, eu mordo a língua quase todos os dias.

É um sem fim de bom dias <3 e boas noites <3, um mundo de corações e um monte de descobertas. Que delícia, eu não lembrava, ocupar o mundo do outro e deixar-se ocupar por ele. Embaralhar as manias… Fazer planos juntos. Contar e trocar o dia a dia.

É de uma intensidade esse tal de bem-querer. Essa vontade que dá e não passa. Um tantão de sentimento que não cabia aqui dentro naquele momento, e que continua não cabendo agora. Às vezes transborda.

E é difícil também.

Primeiro eu achei que não ia dar conta (às vezes ainda acho). Eu dizia sem disfarçar que: olha, não sei namorar. Como quem pergunta: tem certeza? Uma frase estranha pra um começo né? Mas queria dizer também (e talvez eu não tenha dito) que eu quero descobrir junto. Me ensina? Vamos nessa? Eu topo o desafio!

E quando digo que “não sei” já é também um pedido de desculpas pelas tantas besteiras que direi ou farei nesse nosso caminhar de mãos dadas.

Caminhando se faz caminho. E achei por bem pedir também: chegue de mansinho, devagarinho, como diria Martinho. Mas quem disse que eu sei mergulhar de pouquinho? Foi só pedir e morder a língua de novo.

Coisas que aprendi juntinho avec toi e que, sei, ainda pode mudar.

Eu sou samba, ele é bossa.

Ele canta, eu danço até na fossa.

Ele é fogo, eu sou ar

Ele é ninja, eu sou devagar

Eu sou texto, ele é melodia

Eu sou Pernambuco, ele Bahia

Ele é par, eu sou impar.

Ele é piscina, eu sou mar.

E a gente é tanta coisa a dois….

A gente é festa, manif, carnaval

A gente é amigos, filhos e tal.

A gente é sempre muito.

A gente é um sem fim agora junto.

Um dia ele pediu: escreve a letra de uma música? Eu não sei fazer isso. Sabe sim. Daí que aquele texto virou melodia. Um samba bossanoveado que é também nossa cria.

P.S. Trilha original do post: “Como Diria Martinho”, de JL e FM

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

aborto principal

Envolvimento não se mede com fita métrica… e outras pautas

Por Mayara Melo*, Biscate Convidada

Mesa de bar em noites aleatórias. Sorrisos. Cerveja. Corações expostos. Amigas. Ocasionalmente, pode até rolar uma lágrima. Depois – quem sabe – gargalhadas. Coisa que esta bisca curte é o aconchego de uma mesa de bar rodeada de ouvidos atentos e braços abertos. A noite avança e os causos também. Desce mais uma cerveja e conta mais uma história. E a gente vai se reconhecendo. Vamos juntando pedaços, a história de uma termina na história da outra. A gente concorda. Depois a gente discorda. E a noite avança. Quem nunca rabiscou projetos num guardanapo? Sonhos, desejos, medos e planos são compartilhados. Conquistas merecem brindes. Perdas são acolhidas. Carinho muito. E cerveja também. Sempre chega a hora da música, caso o bar não tenha música ao vivo, ou os músicos já tenham largado o posto. Procura no youtube aquela do Chico! Mesa de biscas tem milhões de assuntos e eles se sucedem numa velocidade vertiginosa. Estávamos falando de sexo, como foi mesmo que chegamos à pauta da falência da democracia representativa? A gente ri. Entre os vários temas, aparecem aqueles do coração (bisca tem coração, aliás…tem é muito). Alguém dá uma googleada pra encontrar um trechinho do Manoel de Barros que cabe: “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.

E continua…

– Que tristeza não se expor!
– Eu gosto do movimento de abertura para a vida, para o inesperado, e até para os abismos.
– Tá, a gente se joga e depois se lasca todinha.
– Talvez. E daí? Podemos ganhar arranhões, mas podemos ganhar também riso frouxo, cafuné, café amargo numa manhã chuvosa, cumplicidade, reciprocidade. Quem sabe?
– Ah, mas vai que eu me apaixono!
– O pior é que tem gente que já chega pra dizer que não vem, não quer se envolver -_-
– Pois é, mas eu pergunto logo: você está aqui, amigo? Está aqui agora? Sinto informar: já era!
– Bem, e se ficamos juntos apenas por um fim de semana?
– Foi bom? Foi divertido? Ótimo!
– “A alegria é a prova dos nove”, acho que estava escrito no manifesto antropofágico!

Se envolver ou não vira a pauta da rodada… e vamos pensando…

Se envolver não é planejar futuros, não necessariamente. Há envolvimento numa conversa gostosa, em filmes assistidos nas tardes preguiçosas, em pernas que se enroscam, no sono compartilhado, na troca de suor e de saliva, nas respirações descompassadas, no riso comum. E pode ser tudo assim de graça, sem plano algum. Ah, mas existem intensidades distintas de envolvimento, certo? Claro, mas intensidade não se mensura pela continuidade, nem pelo tempo, nem mesmo pelo rótulo da relação. E aí chamamos Manoel novamente pra nos lembrar “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Mas parece que às vezes queremos nos proteger até dos encantamentos. Quem sabe por isso compartilhamos tantas histórias que começam com “estamos ficando, mas fulanx disse que não quer se envolver”. Não gosto de avisos prévios, e torço o nariz para o sentido de envolvimento que vem embutido nesse tipo de “aviso”. Não estou dizendo que as pessoas não devem ser sinceras sobre a disponibilidade sentimental delas, nada disso. Só não entendo a necessidade de negar o que ali já está estabelecido. Essas posturas me irritam ainda mais quando vem de um homem para uma mulher. E, na maioria das vezes, é bem isso que acontece (nem todo homem! Alguém gritou?). Parece que muitos partem do princípio de que a gente não tem nada melhor pra fazer na vida do que procurar construir relacionamentos que vão terminar no altar. Não seria mais simples acreditar que às vezes a gente só quer compartilhar algumas coisas como a cama, o sofá ou mesmo o chão da cozinha? Não seria mais simples aceitar que a gente pode querer “só” sexo, mas que isso não invalida que possamos querer saber da outra pessoa na semana seguinte? Parece que não e, de repente, a pessoa te encontra na rua e você percebe que ela não sabe se fala contigo ou se muda de calçada. De repente, ela te deixa no vácuo. Não sei exatamente onde está escrito que relações livres ou casuais não podem ser sucedidas de qualquer manifestação de afeto. É claro que não estou falando de encontros que foram desastrosos, eu sei que eles existem e que depois, talvez, nenhum dos envolvidos queira topar com o outro por aí. Estou falando de encontros bons que podem amargar, simplesmente, porque “a gente não tem uma relação, lembra?”. Esbarra aí. Acho meio triste quando alguém tem que fazer de conta que não está pensando na outra pessoa e se furta de mandar aquela mensagem no meio da tarde, afinal, o outro pode pensar que “nossa, ela quer um relacionamento”. Imagina! A pessoa não pode demonstrar afeto pra não correr o risco de ver o outro fugindo. Eu acho que isso empobrece as experiências da gente. Não é todo dia que queremos a companhia do outro, o carinho, os beijos – e tudo bem. Sem crise! Eu posso acolher o seu desejo hoje, ou não. Eu falo, eu digo. Você responde: vamos ou não vamos. De boa! A gente se encontra quando os desejos baterem. E só. Ninguém deveria precisar sair correndo da expressão do desejo do outro, ou precisar esconder o seu próprio, só pra evitar a tal da relação. Até porque…insisto…relação, num sentido amplo, já existe. Não precisa considerar relação só aquelas tipicamente caracterizadas na cartilha do amor romântico. Se relacionar, eu penso, é se permitir tocar e se deixar tocar pelo outro. Não importa se será só por hoje. Não importa! Se permita, sinta. A relação pode ser indeterminada. Qual o problema? A indeterminação faz parte da vida. A negação dessa relação – e com isso a negação do outro que se envolveu com você – é apenas desnecessária.

P.S. (in)conclusões biscas, depois de papos etílicos, mas tudo está em aberto nas mesas dos bares e na vida. Que bom! Que bom também que o Biscate voltou! Esse espaço não deixa de ser também uma grande mesa de bar onde podemos contar e ouvir história, inventar e se reinventar. Vida longa ao BSC!

mayaraMayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol, atualmente morando em outro lugar ensolarado. Feminista, de esquerda, ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

Eu vou fazer uma canção pra ela…

Por Patrícia Melo, Biscate Convidada

Se fosse pra escolher, nem tinha ido. Sério! Sabe aquele momento em que tudo que você quer na vida é sossego? Sossego de tudo, mas, principalmente, um tempo de sossego nos afetos, na turbulência do sangue, uma afastada – delicada – daquelas borboletas na barriga?  Então, você me entende, né? Todo mundo tem um tempo assim, desses em que você está ali, em situação de ponto final em uma história e não quer saber de reticências…

ligia guerra olhos

Pois é, foi em tempo assim que eu me vi diante de olhos solares. Já viram isso? São olhos que cintilam! Em qualquer lugar, até no escuro. Nem queria chegar perto porque eu nem queria nada. Com ninguém. Estava bem contente com meu cuidado comigo. Gostava das tardes de cinema vagabundo onde o filme não tinha tanta importância e a pipoca era só minha. Adorava as garrafas de vinho esvaziadas ouvindo música na sala. Achava uma riqueza incomparável um livro inteiro com um dia todinho só prá ele. E quando chovia, era só andar na cidade sem rumo… Eu estava gostando da vida sem olhar o telefone a cada 5 segundos, sem pensar em programas de fim de semana, sem organizar agenda pra poder dar conta de tudo. Gostava da minha companhia. Adorava, pra ser bem sincera. Não queria nada.

Aí, bem… Teve um dia em que fui atropelada por aqueles olhos solares. Já falei deles? Já. Desculpa. Eu acho que nem consigo me explicar direito. Já falei do riso? Eu havia me apaixonado pela Capitu quando li sobre sua gargalhada “argentina”. Só entendi como soava na mesma hora que escutei a dela. Tilintava como prata. Lembrei na hora! Havia um quê de perigo no ar. Eu deveria ter percebido. Tinha energia demais ali. Tinha jogo de cena, muito medo junto e, ao mesmo tempo, muita curiosidade (ou seria coragem?). O mais engraçado é que ninguém queria nada. Mas, havia tanto que saber, tocar, ouvir, compartilhar, sincronizar.  Havia tanto que rir, tanto pra experimentar! (“Chegastes? Cheguei!”) Havia tanto tanto que a gente nem sabia o que fazer. Nada de pânico. Que viesse um dia de cada vez.  E eu, que não queria nada, quis tudo. Porque era ela. Porque era eu.

patricia-sampaio

* Patrícia Melo é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

 

Bisca em Crise

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

“Ainda bem que a gente detém o direito autoral das nossas próprias vidas e pode sair por aí contando o que quiser, do jeito que quiser, como quiser, pra quem quiser”. Ela havia escrito isso recentemente a propósito de um texto antigo do Biscate que compartilhou nas redes. O texto específico era sobre finais e recomeços. E, como todos os que tinha escrito até hoje para este cantinho de libertinagem, tinha um tom absolutamente pessoal.

Ela trabalhava com palavras, criava histórias, personagens e enredos fictícios. E achava que a graça de vez por outra escrever neste espaço biscate era mudar a tecla e desnudar-se um pouco. Falar sem cerimônia de coisas pessoais _ algumas sobre as quais tinha até dificuldade de falar no “ao vivo”, mesmo com amigos próximos. Era uma biscate autorreferente. E, até então, esbarrara apenas no limite entre o quanto queria abrir sobre sua vida e o que queria guardar. Assim, escreveu sobre a dor da separação, sobre a solteirice, declarou-se pra um crush, falou sobre morder a língua e entregar-se de corpo, alma e adoráveis cafonices para uma nova paixão.

No começo do namoro pensou em escrever sobre esse momento de “início de algo que a gente ainda não sabe o que será”. Um tempo de página em branco a ser preenchida, de se apresentar pro outro no meio de tantos sentimentos. Acontece que essa fase, em que a pessoa fica em carne viva, meio que trocando a pele, entendendo como dividir a vida com o outro e esbarrando também nas questões práticas mais diversas, calhou de coincidir com o tempão em que o Biscate ficou fora do ar. Enquanto os dois namorados levavam as novas escovas de dente para a casa um do outro, não teve que pensar em temas “Biscate”.

Agora tinha recebido um inbox: o Biscate voltou, tem texto? Tinha. Alguns. Foi lá na caixinha “primeira pessoa” ver o que podia usar e foi então que se deu conta da crise. A crise mais anti-biscate que alguém poderia ter. Uma crise quase inconfessável neste lugar de mulheres tão fodonas e tão donas de seus narizes, de seus corpos, de suas histórias. Pois bem, a crise era bem banal: será que nesse contexto de ter um “avec” teria coragem de continuar assim tão desabrida para o mundo? E dessa dúvida pintaram outras…

Dá pra continuar falando de suas crises e questões sem explanar a intimidade do outro? Seria incômodo pra ele que ela falasse da relação? Será que ele próprio se sentiria exposto nos escritos dela? Será que o direito autoral do que vivemos com os outros é nosso mesmo ou também é do outro?

A cada pergunta, carregava um pouco mais nas tintas e aumentava um pouquinho essa angústia. Começou a se questionar inclusive se era biscate de verdade. Achou que finalmente seria desmascarada e as editoras do BSC iriam perceber que ela era uma farsa. Uma não-biscate fingindo ser bisca-madura-e-bem-resolvida. Aventou a possibilidade de ter confiscada a sua carteirinha de bisca convidada. Temeu nunca mais pedirem um texto. Ou pior, nunca mais ter uma ideia pra um texto-bisca. Logo ela, cuja vida sempre fora um fêicebuki aberto. Olhou a página em branco e se viu afogada em palavras cortadas, ideias abortadas, temas delicados… Ficou sem ar.

Aí abriu os olhos e acordou. O namorado dormia ali do lado. Sentiu um sossego na alma por aquela parceria que estavam construindo. E um desassossego de ideia nova surgindo. Deu um beijo nele e começou a escrever o texto mentalmente. Foi até o computador e enquanto escrevia teve ideia para outro e outro ainda. Todos pessoais, desabridos, escancarando algum lado da vida dela. Não fosse assim, não seria ela: uma bisca não tão bem resolvida, mas que adorava vez por outra escrever neste espaço e desnudar-se um pouco.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Tirando o Atraso

São tempos difíceis, Brasil. Verás que uma filha biscate não foge à luta. Combatemos com risos, riscos, tesão, lascívia, luxúria. Levamos para a rua nossa coragem de tentar ser quem queremos ser. De abrir estradas com mais perguntas que certezas. De não saber exatamente aonde chegaremos, mas seguindo em boa companhia.

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Estivemos longe. Fizemos poesia, bebemos cerveja, marchamos em passeatas, dormimos (ocasionalmente sozinhas), vadiamos, gestamos, amamos, lamentamos, bradamos. Fizemos e acontecemos.

Sentimos falta. Falta de sermos biscates aqui, juntas, com vocês. Estivemos longe, voltamos. Aqui, escrevemos. Partilhamos sonhos, desejos, planos, memórias, constatações, anseios, esperanças. Convites.

Sintam-se em casa, cheguem mais e fiquem à vontade! Vai aqui um aceno para retornar ao nosso clube, (re)conhecer a gente. Pois somos e não somos as mesmas biscas de antes, somos em mudança, belas biscates, únicas no hoje, no ontem e no amanhã (nosso clube tem homens também e, também eles, belas, únicas e poderosas biscates).

Permanecemos biscates em linhas, entrelinhas, intervalos, recomeços. Nosso blog é de pouca vergonha. Na verdade, de vergonha nenhuma. Gostamos de palavras que deslizam na língua: esbórnia. Que rodopiam no salão: gandaia. Que colorem manhãs: encontros. Que alegram o corpo: gozo. Que inquietam, que perturbam, que fazem pensar: madrugadas.

Apetecem-nos sabores ácidos, frissons, arrepios. Reviravoltas, piruetas, rodopios. O caminho reto nem sempre é o mais prazeroso. Nas curvas encontram-se anseios, suspiros, tentações.

Então, é isso, estamos aqui com água na boca, com coceirinha nos dedos, com frivião no corpo, na vontade de tirar o atraso. Voltamos. Estamos. Somos: Biscate Social Club.

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PS. Somos espalhadas, audaciosas e espaçosas, temos página no FB e um tumblr delicioso, com as mais irreverentes e gostosas postagens. Você também pode nos seguir no twitter: @BiscateSC. Aproveite.

Seja coronel, seja herói

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Seja coronel, seja herói.

As lutas das minorias todas continuam deixando capturar-se pelos seus senhores. Ainda estamos a repetir as velhas histórias do patriarca de Gilberto Freyre, ainda estamos a acreditar em coronéis. Os coronéis de toda uma literatura dos rincões do Brasil. Uma literatura Amadiana.

Tornamo-os heróis.

Temos dificuldade de produzir políticas outras que não passem por estes heroísmos. Precisamos deles, dos grandes revolucionários da elite-branca-cis-hetero-normativa a nos dizer que caminhos seguir. A nos dizer que rumos serão os melhores para a nossa consciência.

Para a nossa inclusão.

Não é só o lugar fascista do atropelamento vil dos direitos. São também esses que oprimem sorrateiramente, a delícia (com dor) que ativa o fascismo em cada uma e em cada um de nós.

seja-coronel-seja-heroi-2

Sem tempo: Como Hélio Oiticica, gostaria que fossem mais margens e menos centros. Como Grada Kilomba (e seus projetos para os desejos) quero, mais que me zangar e me ressentir, re-sentir as heranças coloniais. É tarefa minha (nossa) dar conta desta herança maldita/gostosa (copiando Cleber Braga e seu cabaré decolonialista).

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

 

Sinal Fechado – Encontros E Despedidas

Por Rafael Fabro*, Biscate Convidado

“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe…
Quanto tempo… pois é…
Quanto tempo…”

O tempo parou, o avião caiu, a garganta fechou. Saindo de casa às 7 pra levar filha na escola como no cotidiano do pão-com-manteiga de sempre, o porteiro chama de sopetão e esbaforido: “caiu… o avião da Chapecoense caiu!”. Vou ver um pouco da tv com ele, recebo as primeiras notícias gravíssimas e fico num misto de perplexidade e tristeza relembrando a fábula da pequena equipe que alça voo rapidamente em busca de títulos impossíveis.

Esposa desce de elevador, seguimos para o carro, rapidez pra chegar ao destino, rádios aos montes (não) dão conta do acidente aéreo. Vou catando os nomes jogados por locutores catatônicos: Caio Júnior, Bruno Rangel, Kempes, Josimar, Thiego, Cleber Santana, Mário Sérgio, Deva, Paulo Julio Clement, Victorino Chermont, vários da imprensa, convidados,… Eis que surge um nome aparentemente vivo no meio da consternação radiofônica: Danilo. Sorrio com a compensação pouca, falo de lado: “baita goleiro, ele que defendeu a bola que os levou pra final”. Penso no meu pai com câncer, operado há poucos dias, criado no Oeste de Santa Catarina. Lembro por alguns segundos num sinal fechado qualquer do trânsito do nosso papo no hospital sobre o timaço do Torino que teve seu drama aéreo na Colina de Superga, em 49. O nome do goleiro deles, Bacigalupo (quando moleque, adorava esse nome das histórias paternas; quando ia pro gol nas peladas, me imaginava o tal italiano do esquadrão). Faço uma ponte entre os dois arqueiros. A mistura clássica inconsciente faz das suas e sigo viagem liquidificando imagens infantis às atuais.

O dia passa com buscas vastas por notícias, papos melancólicos em grupos de Whatsapp, olhadelas no Facebook, indicador subindo e descendo tela do Twitter. O choro é geral e em várias tonalidades. Fala-se do conto de fadas espatifado ao meio, do Davi contra Golias, de como aquele time catarinense era tão simpático aos olhos de todos. Na hora do almoço, as esquinas vão jorrando bocados da tragédia sem lá muita ordenação e temperando as teorias de engenharia sobre como ocorreu a queda. Todos falavam sobre futebol, destroços, pane seca, companhia pequena, Bolívia, Venezuela, a morte ou não de Danilo, da grandeza do Nacional de Medellín em desejar dar o título à Chape. Não havia piada, uma mísera piada. Para um povo tão ligado à zoeira como esporte em quaisquer áreas, era assombrosa a capacidade de lidar com o assunto de um modo novo e cuidadoso. Entre grupos, se pedia para que não se colocassem fotos da tragédia como abutres fizeram tantas outras vezes (em redes diferentes de comunicação): Mamonas, Onze de Setembro, atos terroristas outros e qualquer banalidade diária carioca. Houve um respeito por horas, dias. Nenhum meme deu as caras na era da comunicação cada vez mais onomatopeica e primária em que escrever textos além de três frases é quase um acinte.

“Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe?
Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)”

Os minutos foram céleres na terça melancólica. Danilo foi dado como morto, os sobreviventes e suas lesões foram sendo nomeados com mais precisão, notícias de homenagens dos quatro cantos do mundo nasciam aos borbotões. Minutos de silêncio, “todos somos chape”, “força chape”, escudos brasileiros todos em luto e identificados como um só: Associação Chapecoense de Futebol, em preto e branco. As redes sociais fizeram a vez da praça pública, do encontro entre abraços chorosos de antigamente. Enquanto isso, na Arena Condá, em Chapecó, território marcado pelos feitos da equipe quase toda extinta no voo para Medellín, os torcedores, simpatizantes e familiares das vítimas iam se unindo para o velho rezar de velas na mão em meio a cânticos.

Bailavam na mente vários significantes como “morte”, “futebol”, “fim” e “lenda”. Em poucas horas, percebi que estava diante de algo gigantesco. Passaram terça, quarta, quinta,… Coberturas com especialistas em acidentes aéreos, comentaristas esportivos lamentando a morte de colegas de profissão, âncoras tentando extrair o máximo de entrevistas, boletins médicos de sobreviventes e mortos, postagens nas aceleradas redes sociais de inúmeras celebridades do mundo do futebol, um palavrório sem fim para dar conta do indizível do corte abrupto do sonho. A metáfora mais repetida era de que “iriam conquistar a América e acabaram por conquistar o Mundo”.

Talvez o momento mais generoso e simbólico dessa suspensão do tempo que vivemos foi a incrível celebração confeccionada com um capricho e um cuidado admiráveis pela cidade de Medellín no Estádio Atanasio Girardot que seria palco do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana entre o time da casa, Atletico Nacional de Medellín e a briosa Chapecoense, na quarta-feira. Todos que pagaram por um ingresso para aquilo que seria mais uma partida de futebol acabaram assistindo a uma cerimônia fúnebre de poesia única por unir povos, culturas e dores. Velas e flores entrelaçadas às mãos, camisas brancas, bandeiras verdes tanto do time local quanto do catarinense pintavam o quadro da noite de comunhão de uma humanidade perdida há tempos num baú qualquer empoeirado da civilização.

Foi uma semana inteira daquela angustiazinha dolorida a tomar o ofício diário e as tarefas mais comezinhas. Só pensava no voo da famigerada Lamia, no antes, no durante, no depois que não é mais depois. No tempo que parou. Conversei com toda sorte de gente para compartilhar figurinhas: “troca aqui minha ansiedade carimbada por uma náusea repetida?”. Todos, sem exceção, falavam da Chapecoense. Todos, sem exceção, de repente, sabiam quem era Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, sobreviventes da tragédia, o goleiro Danilo e sua defesa milagrosa na semifinal que virou poema e destino, a paternidade recente do Thiaguinho, dos que não voaram por problemas banais e choravam agora nas tvs. Todos eram torcedores do Verdão do Oeste Catarinense, já sabiam de cor sobre a mística da Arena Condá e o pequeno mascote Indiozinho.

No sábado pela manhã, chuva torrencial em Chapecó a receber dezenas de caixões vindos da Colômbia. O momento nevrálgico da devastação iniciava: o velório com os corpos de cinquenta pessoas no campo da Arena Condá lotada. Tvs, rádios, sites mostravam cada quilômetro percorrido pelas carretas e os esquifes. Narrações, comentários e ofício profissional do jornalismo à beira das lágrimas frente ao microfone de trabalho. Não foram poucos os exemplos de repórteres que embargaram a voz, gaguejaram, choraram, se humanizaram. Estávamos diante de algo inédito: um episódio que chocava até os mais veteranos no papel de contar uma história, qualquer que fosse. Antes do sábado, a cena mais emblemática da cobertura da mídia e do caso em si foi o abraço maternal de Dona Ilaíde, mãe do goleiro Danilo, no repórter da SporTv, Guido Nunes. Num amparo que destruía qualquer lógica, a mãe sem filho consolava um representante da imprensa por seus vinte mortos. Rodou o mundo o abraço generoso, símbolo de uma semana única, triste, plena de ruínas, mas demasiadamente humana.

Entravam no estádio, então, os mortos de Chapecó e do mundo. Não eram só os heróis da Chape. Eram mais, muito mais. Cinquenta idas e vindas de oficiais carregando féretros às famílias e o mundo assistindo boquiaberto uma sucessão de angústias, berros, aflições, choros desbragados, cânticos entoados pelas arquibancadas, discursos aos microfones, quadros com fotos de jogadores levantados como troféus a dar volta olímpica e um sentimento inenarrável de empatia, compaixão. Conquistaram a América e o mundo. Por uma semana, nos compadecemos, nos entregamos a tentar entender o outro, o mínimo que fosse.

“Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal …
Eu procuro você
Vai abrir…
Por favor, não esqueça,
Adeus…”

Passou o sábado, a noite escureceu sobre os caixões que restaram ali na Arena Condá. Alguns já tinham voado para serem velados e passar por rituais fúnebres em suas cidades. Passou domingo, segunda e uma semana inteira desde o choque. Todos sepultados, chorados, arranhados, tocados com mãos crispadas a desejar que não fossem para sempre. Enquanto isso, aqui e ali, jornais impressos, mesas-redondas já entoavam a mesma ladainha num misto de tristeza com faxina de serpentinas de fim de carnaval. O “Vida que segue” de João Saldanha virou vírgula pro bem e pro mal. Para se falar de vida, morte, na crença religiosa de cada um ou para desabotoar as falas guardadas por dias sobre Brasileirão, rebaixamento, quem vai para a Libertadores, novos técnicos, como fica 2017 e os ingredientes batidos de sempre. Os encontros com a humanidade, essa vizinha desaparecida, foram escoando pelo ralo pouco a pouco. Enquanto escrevo essas letras, começa um Grêmio x Atlético-MG valendo a Copa do Brasil de 2016. Dizem que o show deve continuar, mas as despedidas solenes, lindas, inesquecíveis da semana que passou não mereciam ser tão fugazes.

Escutando “Sinal Fechado” e seu desconforto desde os primeiros acordes, silêncios cirúrgicos, seu encontro à beira do desencontro, achei a trilha sonora pra angústia que sobrou dos destroços. Enquanto muitos parecem seguir a vida e deixar as vestes do luto ao chão, pois é preciso “seguir a vida”, penso na tensão da música, no desencontro inevitável, nessa relação contemporânea cada vez mais ensimesmada e que de vez em quando tem seus soluços, seus sinais fechados, para abraçar, velar, escrever obituários e chorar. Lágrimas com prazo de validade. Afinal, já se passaram oito dias e as buzinas já estão bufando ali atrás. Não há “timing” para se escrever sobre isso. Porém, a pena aqui se deita no papel de teimosa, o tempo dela nada tem de cronológico. Sou um atrasado crônico, meu tempo é outro.

Diante de tantos aprendizados na última semana, desse eterno vai-e-vem e a plataforma da Estação como metáfora da vida, como na genial música do Milton, só nos cabe ter tempo de calar, chorar, vivenciar as perdas, acalentar feridas abertas, abraçar quem (se) perdeu, sorrir pela generosidade de tantos. Sabermos de que há sim, por mais que o mundo contradiga diariamente, um tempo de espera, de suspiro, de bálsamo, da escuta curiosa e detalhada, do cuidar do outro. Há o outro.

Não tampemos como máquinas ditadas por um relógio tirânico a tampa dos caixões, não devolvamos aos lenços as lágrimas choradas por viúvas, não pensemos em campeonatos, escalações, em rebaixamentos, em tapetões e vilezas. Isso haverá, é da humanidade seguir ao tropeções. Uns seguem sem parar um segundo para olhar para trás, outros demoram um bocadinho mais à beira do jazigo confortando-se com uma prece ou uma conversa amena. Contudo, que tudo que se fizer por dias, meses, anos a fio sejam crivados por saudade e solidariedade no mundo do futebol e fora dele. Que o luto e a memória do que ocorreu nos últimos oito dias não sejam enterrados na cova rasa dos indigentes.

“Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai
Pra nunca mais… A hora do encontro
É também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida…”

26915_411153295819_692120819_5101492_2156148_n* Rafael Fabro é moço gentil, de gostos acurados: Chet Baker na vitrola, não perde um Fellinni  na tela e, caso seja hora de ler, Paul Auster vai bem. Com esse estilo, claro que frequenta e curte nosso clube. Sabe ser amigo de biscate, ah, sabe! Carioca, psicólogo, vascaíno (tem que ter um defeitinho, né) vai aprendendo a ser: pai, marido, amigo, escrevinhador de belezuras.

Contos de Fadas

Por Jeanne Callegari, Biscate Convidada

Uma vez conversei com um contador de histórias. Ele contou muitas histórias, inclusive as suas próprias. Como de quando ele ia toda semana em uma escola e um menino pedia pra ele contar, de novo, sempre o mesmo conto. E chorava, chorava. Toda semana o menino queria ouvir o conto. E toda semana ele chorava. Até que um dia ele não chorou mais. E nunca mais pediu.

Tem algo de aterrador nos contos de fada. O medo que os personagens enfrentam, as crianças enfrentam junto. E de modo físico. Isso quem me contou foi um neurocientista. Para o cérebro, tem pouca diferença entre realidade e ficção: as reações físicas são as mesmas. Se sentimos medo, ele se manifesta fisicamente. Descarga de adrenalina, suor frio, coração acelera. A criança não simplesmente ouve uma história. Ela a sente, no corpo, com todas as suas células. E no final, quando tudo dá certo, ela sente isso também: o alívio, a tranquilidade. E ela aprende a lidar com o medo assim, fisicamente. É uma simulação que a prepara para as suas próprias angústias.

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Os contos de fada são histórias que sobreviveram no tempo, passando por várias culturas e épocas. Algo de quase universal se passa ali, algo muito humano e íntimo e que não conseguimos compreender completamente, porque cheio de possibilidades e significados. Polissemia é a palavra. Se as histórias tivessem uma única leitura possível, não sobreviveriam às diferenças entre épocas e povos. Outra palavra: simbólico. Se o medo que sentimos no corpo é real, as ameaças são simbólicas. Não há uma Fera, um Lobo Mau, vindo nos pegar. As crianças sabem disso. Se não soubessem, seria intolerável dormir com um monstro debaixo da cama. Mas elas dormem.

Fera, Lobo Mau, Bruxa Má nada mais são que os medos e angústias de cada um personificados, transformados em arquétipos. Os pais dos protagonistas morrem no início das narrativas porque as histórias estão lá pra nos ajudar a crescer, a ficar independentes. A enfrentar os desafios de um mundo que, sem as referências parentais, se torna assustador. É preciso aceitar o chamado e ir viver a própria jornada.

É preciso largar o pai e ir ao encontro da Fera. É preciso ir ao encontro do desejo, um desejo novo, que assusta, que parece monstruoso à primeira vista. Ao nos familiarizarmos com esse elemento, ele se humaniza, se reduz, volta a uma proporção menos aterradora.

Mas também não é só isso. Polissemia, como disse. Ouvir histórias é também vestir a máscara de cada um dos personagens e ver como é estar no seu mundo. A criança de qualquer gênero pode se identificar com a Fera, com sua inadequação, sua percebida monstruosidade, sua necessidade de ser amada e seu medo de nunca conseguir ser, por ser como é. E ver que mesmo ali existe humanidade e amor. É aceitar-se.

E assim a história vai, e segue, com múltiplas leituras. Simplifico bastante alguns significados, psicanalistas podem dizer melhor. Mas é isso. O que os contos trazem, mesmo nas versões higienizadas da Disney, é uma possibilidade de lidar com coisas que nem sabemos quais são. Daí meu receio com a leitura das histórias de forma literal como tem rolado, reduzindo e tratorando tudo a papéis sociais criticáveis – o relacionamento abusivo, o cárcere privado. Estaríamos perdendo a capacidade de fazer leituras simbólicas das coisas? Talvez seja sinal dos tempos, afinal, os contos já foram muito mais assustadores do que hoje, e nada garante que não sejam ainda mais higienizados. Acho que seria uma pena, mas quem sou eu na fila do pão.

Jeanne CallegariJeanne Callegari é poeta e jornalista, autora de Miolos Frescos (Patuá, 2015). Adora um ismo – desde que esteja do lado certo da força, como ciclismo e feminismo. Você pode encontrá-la em jeannecallegari.com.br/blog.

Parênteses

Por Maíra A., Biscate Convidada

2015 foi o meu ano dos homens. E do respiro. E de desejar e ser desejada. Escrevi textos pra todos os meus homens de 2015, que fizeram de mim Fênix, mas não escrevi pra você. Talvez porque você sempre estivesse ali e sempre esteja aqui pra mim. Estar com você é sempre um estar-em-suspensão. Apesar de o-que-ou-quem-quer-que-seja. Homens chegam, ficam ou param por uns minutos, se vão. Mas você é o que sempre volta. E o lindo é isso: você não ser jamais o que fica, mas ser o que sempre retorna. Na forma de uma mensagem de whatsapp, de um café, de um abraço ou do melhor sexo, o mais sem censura, o com mais conexão. Fixação circulante. Solidez evanescente. Profundidade leve. E é mágico esse colocar-entre-parênteses das roupas arrancadas, do desejo realizado, da conversa que passeia da piada cotidiana ao teatro elisabetano. Da lembrança das aulas de grego ao orgasmo homérico do aqui-e-agora.  Com você flutuo na corrente do desejo e juntos boiamos à deriva, sem expectativa alguma de onde chegar, só aproveitando abraçadinhos enquanto a correnteza favorece. E é na suspensão das expectativas, no flutuar do corpo, que a nossa beleza explode, que a nossa alquimia acontece. Completamente despidos de roupas, expectativas ou demandas, juntos somos, apenas e assim mesmo: intransitivamente. Apenas somos. Apesar de. Aliás, exatamente porque. Não sei se cinza da morte ou se apenas poeira cotidiana dos dias. Mas contigo do pó renasço. E ao pó retorno. Poeira de estrelas. Amor-enigma com destinatário, mas sem endereço. Latência que pulsa. Tesão que move. Pulsão que se movimenta. Movência que late. Bocas que se mordem. Braços que se abraçam. Se demoram. Se despedem. E que me suspendem. Enfim, me sinto viva. Parênteses fora do tempo.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Vale o Escrito, com Fal Azevedo

Fal Vitiello Azevedo é escritora, tradutora, preparadora de originais, blogueira, autora dos livros “Crônicas de Quase Amor”, “O Nome da Cousa” e “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite”. Fal também é professora e está promovendo uma nova edição da oficina de escrita criativa “Vale o Escrito”, em que tratará de técnicas de escrita, literatura, blogs, sangue, suor e lágrimas na organização de textos.  A gente já fez e recomenda demais.

Fal escreve desde 2002 o Drops da Fal e, atualmente, tem uma coluna no Oba Gastronomia. De escrita cativante, sem reserva, dada, danada e, esperamos, das que se agrada de andar seminua, convidamos para um papo com o Biscate.

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Luciana e Renata, tirando uma casquinha da Fal

1. Como o “escrever” aconteceu na sua vida? E como se tornou sua atividade profissional? Atualmente você separa escrita amadora e profissional na sua produção?

Venho de uma família que lida muito bem com a palavra e muito mal com emoção. Somos assim, todos nós. E, de forma geral, sempre foi também uma forma de ordenar meus pensamentos. Além disso, e acima de tudo isso, aprendi a escrever para ser amada. Aprendi bem cedo que muito pouco ou quase nada do que eu fazia rendia elogios e abraços. Lá em casa, digo. E minhas redações geravam abraços e tapinhas na cabeça. Escrevo, basicamente, para você gostar de mim. Acho que nunca nos livramos da casa do pai.

Em 1998, reuni meia dúzia de crônicas num livro cuja publicação meu pai bancou. Como não poderia deixar de ser, foi um encalhe monumental. Algum tempo depois, descobri os blogs. Fiz um. E descobri que tem leitor para todo mundo, é só procurar, trabalhar bastante e não ser chato. A parte do “não ser chato” ainda estou tentando. Achei meus leitores, continuei a escrever. Parei. Voltei. Parei. Voltei.

Não tenho escrita profissional e amadora, não, só tenho a minha escrita e toda ela é uma coisa só.

O que aprendi é que texto é vaca. Escrita é boi. Tudo, mas tudo mesmo, se aproveita.

Aquela lista que você escreveu em 1983, vira uma coluna, vinte anos depois. E-mails viram contos. Aquela historieta que você começou a bolar sem saber para onde ia, vira livro. Outra coisiquita, post no blog. Tudo se recicla, tudo se aproveita.

Quando você tem paixonite antiga por algum escritor, como eu tenho pelo [Luis Fernando] Verissimo e pela [Erma] Bombeck, esse processo fica mais claro: é só xeretar na obra deles que você vê. O velho reescreve a mesma crônica um monte de vezes. Rouba de si mesmo o mote, o tema, as expressões, uma ou outra situação. A Bombeck a mesma coisa. Então, tudo se aproveita.

Não separo nada, escrevo muito, escrevo tudo, escrevo, escrevo, reescrevo, digito só para imprimir e rabiscar de novo, e sigo nesse processo, garimpando aqui e ali, refazendo, cortando, explicando, refazendo, refazendo.

2. Quais as fronteiras entre ficção e não-ficção na literatura, pra você?

Não existem. Caiu no papel é ficção. O Verissimo diz “não existe a verdade, existe a versão que colou”. Tudo é versão, todo o contar é subjetivo. Suas influencias, seus gostares, seus preconceitos, sua leitura do mundo, permeiam tudo o que você diz, conta, vê, come, escreve, entende, deseja. Você mesmo é todinho uma versão, uma invenção, uma montagem completa e irreversivelmente subjetiva.

Precisamos lidar com essa falta de limite da ficção com a realidade da melhor maneira possível, porque ela sempre vai existir.

3. O que você acha importante dizer pra alguém que está começando a escrever?

Que escrever é trabalho pesado. Diário. Duro. Não existe texto pronto, não existe “eu estava ali e pá, o texto saiu pronto” e mesmo inspiração, se é que existe, é coisa rara e difícil. Uma obra não se constrói na base da inspiração. Você precisa de horas de voo, muitas, muitas mesmo.

Depois: há que se estabelecer um método. Tem quem ria de mim e das minhas listas, mas vou dizer: se organização não for tudo, é quase.

Método, rotina, uma ordem a ser seguida, trabalho, trabalho. Fechar rede social, e-mail, parar com essa palhaçada de ficar no Facebook falando coisas imbecis do tipo “enquanto me preparo para começar o capítulo 1 da minha obra, observo e o luar e…”. Mano, vai se catar. Para com isso. Vai trabalhar. A Palestina, os índios, o Congresso, a eleição, todas causas meritórias e tal, parabéns, mas nada, nada, nada disso vai botar seu livro em pé, desculpe. Vai trabalhar. O Freixo não vai escrever seu livro por você.

O cara que escreve precisa, quer e deve ser lido. Sim, sim. Quem escreve “para expressar seu rico mundo exterior e não para ser lido pelo outros” é favor fazer isso no caderninho de capa florida que fica escondido debaixo do colchão.

O escritor dá a cara a tapa, precisa estar preparado para o tapa. Que virá. Ele vai ser avaliado, vai ser julgado. Nesse país que ninguém lê porra nenhuma, todo mundo é crítico literário, é impressionante.

O olhar dos outros é importante, é para recebê-lo que você escreve. Então, há que se buscar o equilíbrio entre valorizar o olhar alheio e não deixar que ele domine a sua vida. O dia que você diz “não posso escrever isso porque a minha cunhada vai achar que é pra ela”, “porque a minha mãe vai ficar sentida”, amigo, larga tudo.

Escrever é aprender a se dividir entre se importar com a aprovação alheia e andar todo mundo pro diabo. Você tem de querer o olhar do outro e, ao mesmo tempo, não permitir que ele determine seus passos.

4. Você acha que ser tradutora ajuda ou atrapalha seu ofício de escritora?

Ajuda, sempre. Traduzir constantemente cria uma intimidade com as palavras que só aumenta, e isso é maravilhoso. Libertador. Eu adoro ser tradutora.

5. O que é que você acha mais difícil na hora de escrever?

Estabelecer o tema, encontrar o narrador. Encontrar o narrador ocupa meus dias. Narrador, esse cara fugidio, difícil, malvado, inconstante.

6. Como surgiu a ideia da oficina? Quem é o público-alvo? Qual a contribuição que você supõe para quem não tem a escrita como profissão?

Faço isso há muitos anos. Botar o cara escrevendo, digo. Comecei na década de 1990, ajudando os alunos de um curso de pós em Sexualidade Humana a montarem seus textos, a organizarem os pensares.

O público alvo da oficina é quem quer escrever. Quem deseja pensar melhor e de forma mais organizada. Expressar-se melhor.

Todo mundo precisa escrever melhor. Trabalhando com advogados e engenheiros, afirmo: todo mundo. Organizar o discurso, passar o recado, fazer um registro decente não são habilidades necessárias só para quem tem a escrita como profissão.

É humano registrar e anotar e analisar e entender. O que chamamos de História só começou quando inventamos a escrita. Todo mundo precisa escrever bem.

Ao contrário do que reza o senso comum, acho um baita elitismo relegar a boa escrita aos “profissionais”. A técnica tem de alcançar todo mundo. As pessoas têm o direito de saber que existe uma técnica, de se apropriarem dela. É isso que tento trabalhar nas oficinas.

7. “Madame Bovary sou eu”, disse Flaubert. O que você comentaria sobre estilo? Você acha que tem um? De onde vem o estilo, em sua opinião?

Estilo é prática. Estilo não se inventa: aparece quando você, todo santo dia, senta na frente do computador, do caderno, do bloquinho e escreve. E reescreve. E tenta outro narrador. E faz exercícios escrevendo o mesmo trecho com sem adjetivos, com e sem verbos no infinitivo, com diversos narradores. Estilo é o que se sobressai, depois de muita, muita prática.

Faço isso há muito tempo. Ler e escrever. Tenho um estilo. Que vai mudando, sendo alterado, perdendo e ganhando características, mas que está lá. E isso acontece com todo mundo que se dedica.

E importante, o estilo vem, também, da leitura. Acho que nunca vou falar isso o suficiente, você precisa ler. Todo dia. Sempre. Ler, ler.

Leitura e prática diária, atenta, dedicada: o estilo virá daí. Não cai do céu.

8. O imaginário do senso comum geralmente relaciona escrever com inspiração. As pessoas da área geralmente ressaltam a transpiração envolvida. Como acontece na sua produção? Escrever é um trabalho com que especificidades, na sua vivência?

Geralmente frustro quem me procura para obter dicas sobre escrita, porque acho o seguinte: não existe inspiração. Se existe, é uma centelha. É um tico-tico de um segundo, é um brilho no olho. O resto é só trabalho, frustração, leitura em voz alta, chiliques variados, livro de consulta pra todo lado, dicionários. Escrever é eito. Não é bonito. Não é um processo suave, você ali, de cabelo assentado, bebendo coquetéis e fazendo charme.

Esse negócio de “eu tive uma ideia” é lindo, mas uma história não se constrói assim.

Quem fala de transpiração está coberto de razão – e de suor. É isso, e quase que só isso. Zero glamour. Zero gracinha. Zero vibe “poeta maldito”. Zero pose na rede social. Só trabalho. E café.

As particularidades são muitas.

Você precisa de organização, de descobrir como você produz melhor. Precisa descobrir quantas horas por dia ou por semana terá para dedicar ao projeto. Pensar sobre o que você vai escrever, se tem prazo, se tem normas, se você precisa de ajuda com a pesquisa, se seu equipamento é suficiente, se você precisa de ajuda com transcrição ou com tradução.

Desenvolver o trabalho sempre atento ao método, à constância, à qualidade da produção.

E depois do trabalho pronto, especialmente se for um livro: você precisa de uma leitura crítica. Você precisa de preparação de original. E você precisa de revisão. E nenhuma dessas coisas pode ser feita por você. E todas, todas elas precisam de tempo. E de profissionais fazendo, PARA de encher o saco dos seus amigos, cara. Para. Sabe aquele “Dá uma lidinha e me diz…”? Não faz isso com seus amigos. Seus amigos não amam o que você escreve, eles amam você. Seu irmão não dá a mínima pro seu livro e ainda perdeu a cópia com dedicatória amorosa que você deu pra ele. Ninguém da sua família dá a mínima pro que você escreve e seus amigos, juro, têm mais o que fazer. Para de ser chato. Contrata profissionais pra lerem você. Ou faz escambo com seus amigos revisores e preparadores. Nós adoramos escambo.

Revisão, especialmente, é um negócio que precisa de dois, três meses, porque, num mundo ideal, o revisor precisa ler, anotar, refazer, deixar o livro descansar um mês e daí voltar a ele. Na organização que sustenta o mercado editorial brasileiro é impossível, espera-se revisão feita em uma semana. Mas enfim, no seu livro lindo, do seu coração, que não obedece a nenhum prazo arbitrário e sem noção, por favor, reserve meses para que alguma alma dedicada e fofa possa revisar seu trabalho como ele merece. Compensa demais, demais, demais.

Além disso tudo, que é muito importante, tem o seguinte: apesar do trabalho insano e da falta de sono e da frustração e da busca inglória pela palavra exata, escrever precisa ser um movimento no sentido do prazer. Da alegria. Eu me recuso a aceitar esse negócio do “o processo é horrendo, eu gosto é do resultado”. O processo tem que ser delicioso. Cada passo, cada capítulo, cada noite em claro têm de fazer você feliz.

Desejo que você se sinta feliz escrevendo seu livro, sua tese, seu doutorado, sua poesia. Por isso, também, não compro esse papo furado de poeta maldito. Sabe esses caras que dizem que não buscam felicidade, que felicidade não existe, e blablablá? Fuja desses picaretas e vá ser feliz com sua escrita, seu processo, sua narração, suas personagens, com o café frio, as noites em claro, o computador que ferve. Ainda que lá no meio doa e tal, o processo não pode ser baseado em dores d’alma, estilo século XIX. Se não for para ser feliz no meio dessa confusão, melhor jogar paciência. Ou fazer pose na rede social. Dá um ibope danado fazer pose na rede social, aliás. Mas se for pra escrever, mete a cara.

Informações

Vale o Escrito no Rio de Janeiro: Casa Clássica – 26 de novembro de 2016, 13h-18h (inscrições no link)

Vale o Escrito em Sorocaba: Granja Olga – 03 de dezembro de 2016, 14h-18h (inscrições no link)

Para não deixar de referir um assunto tão atual

Por José Navarro de Andrade, Biscate Convidado

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O amor é um sucedâneo do medo.

Incómodo e bruto, do medo há o hábito de afirmar que enfraquece, tomando-o como um estado de espírito; mas na verdade é mais do que isso, é uma disposição orgânica – cheira mal, procura a sujidade, provoca ruídos torpes. Mas não havendo na natureza nada perfeitamente maligno, também o medo goza de qualidades, como a de ser um tónico para o instinto de sobrevivência.

Eles alongaram o domingo na cama, nús, devorando figos, lendo páginas de livros começados, conversando sem fim ou apenas vagueando a imaginação. Durante um pouco da manhã ouviram música, mas depois preferiram o rumor da cidade a passar lá fora. Entretiveram-se também a fazer amor quando apeteceu. Ao início da noite vieram à sala, depois de correrem as persianas, para ver o jogo na TV enquanto comiam queijo fresco com pimentos vermelhos assados de conserva.

Setembro é um mês ingrato para uma grande população de estudantes, namorados e vinicultores — nele são raros dias assim. Ora isto acicata o medo. O medo de nunca mais regressar a um dia em que nada foi necessário, a um estado de tão ocasional e mínima felicidade. Não é aqui o caso de um medo de perder, mas sim o medo de não voltar a ter. Se aquele é vulgar e contumaz como um desarranjo intestinal, este é lento, um cancro minucioso que vai progredindo célula por célula.

Como de costume, o remédio está na própria doença. Assim é o amor, aparecido na vontade de tornar a ser feliz. Só atinge o amor quem atravessa o medo.

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José Navarro de Andrade é português, sportinguista e a melhor e mais querida pessoa para ter a nos esperar quando se atravessa um oceano.

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