Quanto ao desafio da maquiagem

Por Daniela Andrade*

Apoio todas as mulheres que podem, que querem, que decidiram fazê-lo. Apoio a luta contra a manutenção de padrões de gênero que punem as mulheres, as diferentes mulheres, em diferentes aspectos.

Apoio a luta contra a camisa de força de gênero que decide, que dita de que forma se faz uma mulher. E uma mulher precisa estar sempre adequada aos padrões da indústria da beleza – decidiu a sociedade patriarcal.

Posto isso, digo que nada disso deve significar impor que quem não pode, não quer, não se sente à vontade sem maquiagem deve ter sua identidade invalidada, deve ser apontada e ridicularizada, deve ser instada como se aqui estivéssemos falando de alguém inferior.

A mulher que usa maquiagem, seja por qual motivo for, deve ser tão respeitada quanto a que não usa, seja por qual motivo for.

É triste ver uma guerra instalada em situações em que se as partes estivessem dispostas ao diálogo, sem ver a outra como inimiga, as coisas se ajustariam. É triste ver como há pessoas que precisam inferir que a violência que sofre é muito maior para invalidar a violência que a outra sofre, como se houvesse realmente esse termômetro que diz qual sofrimento deve ser considerado mais sofrimento que os outros.

Eu posso fazer a minha manifestação contra opressões sem agredir nenhum grupo historicamente discriminado e sequestrado em seus direitos primários.

PS. Sobre esse desafio já publicamos aqui no Biscate “A Loucura da Beleza” de Karen Polaz e tem post no Blogueiras Feministas: Desafio sem make: desafio para quem? e no Lugar de Mulher:  Por que eu não participei do Desafio Sem Make

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

A Loucura Pela Beleza

Por Karen Polaz*, Biscate Convidada

Nos últimos dias, está rolando a campanha Stop The Beauty Madness (“Parem Com A Loucura Pela Beleza”) nas redes sociais. Criada pela escritora Robin Rice, a campanha surgiu com o intuito de questionar os padrões de beleza valorizados hoje em dia. Aderindo ou não ao objetivo original da proposta, muitas mulheres cisgêneras estão postando suas fotos sem maquiagem e sem filtro e desafiando outras mulheres a também fazerem o mesmo.

Não participei do desafio, até porque estou sem maquiagem na maioria de minhas fotos no Facebook, inclusive em algumas do perfil. Mas não penso que o desafio seja besteira, não. Afinal, crescer sendo menina é saber que seu papel no mundo, pelo menos um dos principais, é estar bonita para poder agradar e ser mais aceita. Mas aí você não nasce como as modelos das revistas (aliás, nem elas mesmas nascem assim!), então parece quase que uma necessidade esconder e camuflar qualquer “desvio” no rosto e no corpo. A maquiagem está aí para isso, mesmo que também possa assumir funções mais artísticas e lúdicas – e quem já se reuniu com as amigas para se maquiar antes de algum evento sabe bem do que estou falando.

Não somos, portanto, contra a maquiagem em si. Mas estamos questionando a noção – bastante difundida pela mídia e pelas gigantes redes de cosméticos, interessadas em consumidoras fiéis -, de que se sentir bem e bonita deva passar, necessariamente, pelo uso da maquiagem. Em outras palavras, somos contra a ideia extremamente extenuante de que não seja possível ser feliz sem camuflar irregularidades na pele, de que a maquiagem tenha se tornado a poção milagrosa que vai trazer imediatamente nossa autoestima de volta.

Apesar de estarmos nos opondo a tal modo de pensar, admito que seja uma ideia que deu muito certo, porque não é nada fácil se livrar da cultura da beleza. Tanto que, nas redes sociais, postar uma foto sem maquiagem se torna, realmente, um “desafio”, no sentido que envolve riscos para a nossa já frágil autoestima. Vemos várias mulheres, e até garotas, se adiantando a possíveis críticas à sua aparência, justificando as tão comuns olheiras, por exemplo, com a noite anterior mal dormida, como que se desculpando pela cara limpa. É triste, mas a gente se sente pressionada, de verdade, a pedir desculpas pelos poros abertos, pelos cravos, pelos cílios não curvados. É como se nosso rosto ofendesse.

E aí que vemos alguns homens dizendo que estão levando “sustos” com mulheres sem make, tirando um sarro daquelas que “pareciam tão lindas até participarem do desafio”, implorando que, “para o bem da imaginação masculina”, voltem a usar maquiagem e filtro e o que quer que seja para parecer diferentes do que são. Demonstram, sobretudo, uma leviandade típica dos que acordam e saem para o mundo sem sentir que precisam “esconder rugas e imperfeições”, dos que nem fazem ideia da violência que é tentar se ajustar, muitas vezes a altos custos, a padrões de beleza irreais e nocivos.

O cenário não parece animador, mas a campanha é válida e poderia contar com desdobramentos ainda mais corajosos, como ir a uma festa de casamento sem maquiagem – ou a quaisquer outros eventos considerados importantes e, por isso, não dignos da nossa cara lavada. Enfim, muita força e união, mulherada, porque mudanças na sociedade não são fáceis e não vêm de graça.

Mais sobre o tema: Por que eu não participei do Desafio Sem Make

Desafio sem make: desafio para quem?

Karen Polaz

* Karen Polaz, ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas prefere dizer que é artista para resumir a vida e não confundir os interlocutores.

Metida Com Mel

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada.

Aí vem minha amiga e diz que estava conhecendo um mocinho pela intenetz. Aquelas coisas de mensagens de sacanagem durante o dia, fotos eróticas, vídeos pornôs por whats, enfim, o trivial. Belo dia, ele mandou pra ela um vídeo de uma mulher se masturbando com um aparato que minha amiga, mesmo por dentro dos paranuê de vibradores, nunca tinha visto antes. Era uma espécie de bomba de vácuo, com um consolo bate-estaca no meio que a moça, sabe-se lá como (porque isso minha amiga realmente não entendeu), tentava controlar.

O aparato parecia uma bazuca transparente. Ela me explicava e eu só visualizava “A geração de Proteu”. Entendendores entenderão.

Ela ficou meio assim com aquele vídeo – tinha uma vibe violenta que, mesmo numa masturbação, lhe bateu meio creepy – e nem respondeu na hora, só no dia seguinte quando mandou um “medo”, acompanhado de “rysos”, pra quebrar o clima. Porque, né, tampouco queria parecer moralista ou bedel do tesão alheio. Ela não se excitou, mas se a mocinha do filme estava feliz, amém! E ele respondeu com um “rsrs” junto com “imagina num anal”.

Minha amiga pensou um pouco e, aproveitando a deixa, disse que adorava anal, mas, especialmente no anal, não transava muito aquele fuc-fuc incessante. Preferia mais carinho e menos performance.

E aí, senhoras e senhores, o bofe começou a mostrar a que veio e mandou essa cintilante pérola sexista: “A maioria das  mulheres geralmente é assim mesmo. Gosta mais de carinho que da metida. Homens, não. Preferem mandar ver logo e sentir prazer. Se não tiver carinho, mas a metida completa, é o que vale.”

Ai, a conversa sobre mulheres gostam disso, homens daquilZZZzzzzz. Minha amiga, brochadérrima e prontinha pra correr pras montanhas, até tentou dar uma aulinha de feminismo 101: “nossa, acho muito sexista e ultrapassado isso que você está falando porque…:

Obviamente, foi interrompida pela mãozinha nervosa do sujeito que continuou, enviando uma classicona passivo-agressiva: “você não é boa de leitura? Não é toda inteligente? Leia de novo o que escrevi: eu disse a maioria, não disse todas”. Como vocês podem imaginar, sangue subiu muito na hora, já que o sexismo e a babaquice ganharam contornos mais nojentos com aquele mimimi reiterativo, recalcado e defensivo típico de quem medra na conversa.

Mas, você se engana se pensa que ele parou por aí: “gata, gata, você está perdendo tempo. Acabei de chegar de uma transa. E ontem também transei. E na 6a tive uma super transa. Tudo isso porque não tô preocupado com carinho. Não perca tempo com isso.  Curta a vida. Quem gosta de amor é motel. Pensa nisso.”

Que. Preguiça.

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Não precisamos de fiscal do fiofó (imagem da performance Macaquinhos)

Primeiro, pelo ~ provérbio ~ sem charme. Depois, claro, porque  além de se deparar com um homem adulto se vangloriando das supostas trepadas do fim de semana, ainda ser brindada com a culminância do sexismo, do machismo e da ignorância quando ele pressupõe que, por ser mulher e falar que, pra ela, é importante delicadeza num anal, minha amiga buscava mesmo era “um amorzinho gostoso”.  E nem vou dizer da arrogância e da estupidez de sequer sacar o #ficaadica.

Sabiamente, ela acabou nem respondendo à última mensagem. Aliás, minto, devolveu uma curta: “tempo eu tô perdendo agora, falando com uma britadeira. Fui.”

E foi mesmo.

Disclaimer: não deveria ter que repetir, mas vamos lá. Mulher gosta de sexo, (oral, anal etc e tal), e pode adorar pornografia, chats de putaria, filme pornô no whatsapp e até de foto de pau (sobretudo se consentidos e/ou solicitados), de vibradores, de meteção, de sexo baunilha, de BDSM, de linguada e beijo no cu e de dar o cu num bate-estaca ou devagarzinho… E homens podem perfeitamente gostar dessas coisas todas aê e também de dormir de conchinha.

Ah, e não umedecer com determinada proposta não é régua pra medir libido.

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*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada no Facebook e e Twitter (@vanerodrigues).

 

Tutorial

Por Cíntia Moraes, Biscate Convidada

Tutorial sobre o que fazer quando publicam foto ou vídeo de uma mulher (nua ou nem) sem a autorização dela:

Passo 1 – NÃO BUSQUE AS FOTOS! (Se já recebeu: NÃO ABRA AS FOTOS!)

Viu como é simples não compactuar com invasão de privacidade e machismo?

Fim do tutorial!

nao quero ver

MAS CINTCHA ELA É GOSTOSA! MAS CINTCHA ELA É FAMOSA! MAS CINTCHA EU SÓ QUERO COMPARAR O PEITO DELA COM O MEU! MAS CINTCHA… GENTE: NÃO! NÃO!! E NÃO!!!

Sites de fofoca divulgando esse crime como notícia aguçando a curiosidade de geral? Você abrindo as fotos escondidinho no seu computador ou disponibilizando elas pro seu grupinho de amigos? Lidem com o fato de serem tão criminosos quanto quem divulgou as fotos sem a permissão da mulher em questão.

Para fazer sua parte no combate a esse tipo de crime basta não dar audiência pros arquivos vazados. Esse crime só arrasa a vida das mulheres que são vítimas dele porque gente como você compartilha as fotos e vídeos por aí!

E se tu diz por aí que respeita as mina, mas tá aí de olho nas fotos, TCHANAM!, você não respeita as mina, aproveite e faça o favor de sumir da minha vida também. Das coisas que eu não quero é correr o risco de dividir uma timeline de Facebook que seja com gente que sabendo da gravidade de um crime, compactua com ele.

Empatia e bom senso a gente exercita em público ou sozinho, o resto é hipocrisia.

cintcha*Cíntia Moraes é ex-jornalista, feminista e caipira.

Para voltar a ter medo

Por Andrea Moraes*, Biscate Convidada

Ninguém quer sentir medo. O medo é desses sentimentos desprezados, desqualificados. Ser medroso é um xingamento. O medo, já dizia um daqueles moços que inventou o “Contrato Social”, ou uma de suas versões, é o que faz o Homem depositar tudo o que tem na esperança de ser vigiado por Outro. Ele pode paralisar, destrói silenciosamente qualquer aposta de futuro. Definitivamente, o medo não é boa companhia. O medo vem em muitas embalagens, grandes e pequenas, de formas e pesos diferentes. Mas, não importa muito como venha, é sempre ele, onipresente, avassalador.

Quem não se lembra das historinhas infantis onde o medo é ingrediente fundamental? Tem até a versão do Chico Buarque para o tema: Chapeuzinho Amarelo, amarela de medo! Além das historietas mais moderninhas que querem fazer as crianças “aprenderem a refletir sobre… blá-blá-blá”. Na adolescência tinha Stephen King, o máximo dos máximos, tudo de bom. E aquelas tardes no cinema gritando de horror, beijando loucamente e deixando a mão dele deslizar e apertar enquanto se vivia o susto e o êxtase. Ai, o medo, como era bom!

Em algum momento da minha vida eu parei de sentir medo. Ele simplesmente me abandonou por um longo período. Não senti falta. Na verdade, eu não me dei conta de que a previsibilidade, as certezas, aquele gosto de rotina só existiam porque ele tinha ido embora. Nada contra esse mundo de relojoaria suíça, eu gosto dele assim. Pés no chão, coração tranqüilo. Uma pessoa pode viver assim por um longo tempo. Para alguns, poder viver assim é tudo o que se pede. Mas, eu confesso que sinto falta de ter medo. Sinto falta da potência que ele despertava em mim.

O bom do medo é que ele se instala sem aviso. O medo vem pra bagunçar o coreto. Aguça os sentidos, traz vertigens, a fantasia. O absurdo vira seu vizinho e estão abertas as portas pra tudo e qualquer coisa. O medo, se vivido em todo seu esplendor, é uma força criativa, faz o impossível. Sentir medo, meus amigos, pode ser libertador. Mas, para isso, há que abraçá-lo sem peias, sem pudor. Entregar-se ao medo sem resistência é o que faz dele o melhor sentimento do mundo. O medo não se combate, se acolhe. Apontar para o medo, mostrar que ele está ali respirando ofegante ao seu lado, animal colado na sua pele. O medo que é, antes de tudo, cria da sua costela e não algo que vem de fora, do outro. Não! O medo está todo ali em você, é sua obra mais espetacular, o testemunho da sua vida. O medo é o seu filho torto, e não aceitá-lo é a receita para alimentar o que ele tem de menos encantador: a atrofia. Acolher o medo é o que ainda nos falta pra viver melhor.

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*Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

 

Nós Resistimos! Negra Soy!

Por Lia Siqueira*, Biscate Convidada

“Sim, dá trabalho. O preconceito bate na gente, mas nós resistimos.” Foi o que respondi quando uma senhora no ônibus perguntou: “dá trabalho deixar o cabelo assim?” Compreendi o que ela queria saber. Mas o que me sufocava naquele momento precisava ser dito. Não queria trocar segredos para dar viço e volume ao cabelo. Não queria mais falar de babosa, bepantol ou do potencial de um bom cronograma de hidratação. Até então, vinha dando as respostas estéticas àquele tipo de indagação. Essas respostas eram as esperadas por quem tinha a curiosidade despertada pelos meus cabelos “petulantes”. Contudo, chega um momento que todas nós precisamos transcender a questão estética da resistência – comunicar a subversão da nossa negritude e assumir, responsavelmente, nosso lugar – mostrar o que de mais valioso nasce das raízes, sobre nossas cabeças. A intimidade de olhar nossas raízes sem relaxantes que infestam e festejam nossas cabeças, nossas ideias.

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Cultivar a relação de amor com nossos cabelos negros e retirar de nós mesmas os mais poderosos nós. Não me refiro a alguns emaradinhos naturais, provocados pela textura dos cachos. Falo dos nós difíceis, dos amarrados dos olhares, do escárnio, dos julgamentos,do racismo. Isso precisava ser comunicado! Quantas vezes eu transcendi em frente ao espelho… Minhas mãos e olhares perseguiam as espirais sobre a minha cabeça – o encantamento, o prazer, o amor e a autoconsciência que daquele ato nascia fazia valer qualquer dor e desaprovação. A descoberta agridoce das minhas raízes era simplesmente o melhor sabor que passara pelos meus sentidos. Isso precisava ser comunicado! No breve momento, entre a pergunta e minha resposta, levei minha mente dos meus momentos da negação/frustração até à luta quotidiana pelo empoderamento em negritude.

Sou filha de uma branca e um negro. Nasci da mistura tão hipocritamente festejada para os gringos nessa nossa pseudo-democracia racial. Vim ao mundo assim: embaralhada nesse ser-não-ser negra. De pele “morena”, nesse Brasil em que todas as gatas são “pardas”, “moreninhas”, “torradinhas”, “mulatas”, “marrons”, mas não “negras”. No meu lar, não aprendi a rechaçar a negritude ou me embranquecer. Era amada nos meus cabelos crespos, pela minha mãe branca – ali, era eu e estava segura. Mas a socialização chega, ela é inevitável. Com ela, somos atropeladas pelos filtros dos preconceitos. A incompreensão dxs coleguinhas na escola rapidamente transformou-se em racismo. Como no início do poema de Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra, “Me gritaron negra”, eu recuei perante as risadas por causa do meu cabelo crespo. Antes dos treze anos já usava alisantes e relaxantes.

““¿Soy acaso negra?” – me dije ¡SÍ! “¿Qué cosa es ser negra?” ¡Negra! Y yo no sabía la triste verdad que aquello escondía. Negra! Y me sentí negra, ¡Negra! Como ellos decían ¡Negra! Y retrocedí ¡Negra! Como ellos querían ¡Negra! Y odié mis cabellos y mis labios gruesos y miré apenada mi carne tostada Y retrocedí ¡Negra! Y retrocedí…”

Com o tempo, sufoquei todos os verdadeiros motivos que me levavam a alisar os cabelos. Dizia alisar por uma suposta questão de praticidade. Reproduzia de maneira vazia “cabelo crespo não combina com o meu estilo e assim liso é mais fácil de cuidar”. As doses periódicas de guanidina me faziam postergar o conflito – ficava ali escamoteada. Habitei meu cárcere por 10 anos. O abandonei aos poucos, tive o amor da mãe e da irmã, o apoio das amigas e companheiras e a admiração do namorado por quebrar as correntes, preconceitos que introjetei. Minha raiz crescia e as perguntas também. E eu, que nascera embaralhada na aparência (pele cá, quadril e nariz acolá). Iniciava o caminho da autoconsciência, primeiramente desconstruindo, questionando. “A me perguntar: Eu sou neguinha? Era uma mensagem lia uma mensagem Parece bobagem mas não era não Eu não decifrava, eu não conseguia Mas aquilo ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia e eu ia” “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, disse Lélia González – a consciência de ser negra é uma conquista em um meio que pregoa o branqueamento. Avançando contra uma “normatividade racial”, onde antes eu tinha um pé, firmei os dois e construí minha identidade. “Nasci” mulher negra aos 23 anos, me descobri bela na luta, meu lugar! E hoje penso que, na verdade, é temor isso de evitar chamarem-nos (e nos chamarmos) de NEGRAS. Afinal, uma vez sabendo o lugar de onde falamos, saberemos como e ao que resistir. Compartilho esse lugar – vejo companheiras libertarem-se e empoderarem-se pelos seus fios, pela sua pele, pelo seu nariz, pelos seus quadris, pelo seu sorriso. Sei que a luta de tantas delas é ainda mais árdua por encontrarem resistência, inclusive, entre xs que amam. Mas sorrimos umas para as outras, admirando reciprocamente nossos “black’s” -nossos propósitos iniciam-se sendo cultivados em nosso corpo, nosso cabelo, NOSSOS territórios, mas transbordam-nos e transbordam a estética – resistem em forma de consciência negra. Isso, eu precisava comunicar àquela senhora. Isso, nós precisamos comunicar todos os dias! Como fazemos para nosso cabelo ficar assim? Nós resistimos! Negras somos!

“¡Negra! Sí ¡Negra! Soy ¡Negra! Negra ¡Negra! Negra soy De hoy en adelante no quiero laciar mi cabello No quiero[...] ¡Negra soy!”

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*Lia Manso é advogada, mestranda em direito s humanos e inovação. Faz parte do MNU e é Suplente da Coordenação Nacional de Mulheres no movimento. Milita e estuda pelo direito de minorias. Ama 30 Seconds to Mars e Johnny Depp, o filme Matrix e as séries How I Met Your Mother e Friends

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Ele só está interessado no seu corpo

Por Nkyad Sobakovitch*, Biscate Convidado

Sim, eu só te quero pelo seu corpo. Noites em seu corpo e mais nada. Noites inteiras sem dormir, navegando em seu corpo, naufragando em seu corpo. Noites espaçadas, sim. Intercaladas pelo tempo exausto de dormir, pelo tempo faminto de comer, pelo tempo miserável de trabalhar longe do seu corpo. Que é só pelo que eu te quero.

Sim, só quero seu corpo. Mas nas manhãs também. Para depois das noites do seu corpo, despertar com seu corpo, sob seu corpo, dentro do seu corpo. Manhãs que terão café e torradas e suco e bananas, que alimentem seu corpo para que ele seja meu de novo. Café e torradas e suco e bananas levados na cama, para que você sequer pense em ir e levar seu corpo para longe de mim. Pois o que eu quero é só seu corpo.

Sim, levarei seu corpo ao cinema, para ter seu corpo depois. E ao teatro e a festas e ao shopping e à praia. Levarei seu corpo ao médico, ao dentista, ao hospital se ele precisar. Levarei teu corpo a todos os lugares que ele queira ir, a alguns lugares que ele não queira ir mas precise, levarei seu corpo comigo. Pois é só seu corpo que me interessa.

 Sim, só quero seu corpo, e ficarei em silêncio obsequioso quando você quiser ir trabalhar, ver seus amigos, visitar sua família. Ou irei junto para ter seu corpo perto do meu enquanto você satisfaz essas estranhas vontades de outras gentes. E serei polido, divertido, educado e solícito com essas outras gentes, para que você fique feliz e eu continue tendo o seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, só quero você pelo seu corpo, mas entenderei se você às vezes quiser outro corpo que não é o meu. Esse seu corpo que eu quero, afinal, é seu, e eu esperarei que a cada dia ele volte para mim, tendo feito o que quer que seu corpo faça quando não está comigo. Pois se eu só quero seu corpo, entendo que às vezes você queira outro corpo que não o meu. Claro que vou brigar, emburrar, chorar e me lamentar pelos cantos enquanto seu corpo não estiver aqui, mas entenderei. Porque só quero seu corpo, e quando ele voltar imediatamente esquecerei que ele se foi um dia.

Sim, eu só quero seu corpo e quero ele morando junto ao meu. Para facilitar as noites, favorecer as tardes, aproveitar as manhãs dentro dele. E teremos alguma casa onde seu corpo caiba, com móveis que seu corpo goste, janelas por onde o sol buscará seu corpo e um jardim com flores para enfeitar seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, quero seu corpo e continuarei querendo seu corpo depois dos inevitáveis filhos, que criarei a contragosto para ter seu corpo, das inevitáveis tragédias, que enfrentarei para depois me consolar no seu corpo, dos inevitáveis anos que envelhecerão nossos corpos. Que serão mais velhos, mais gordos, mais fracos. Mas ainda serão nossos corpos e o seu corpo ainda será só o que eu quero.

Sim, eu ouvirei seus medos, dividirei nossas alegrias e tristezas, verei filmes românticos, assistirei peças experimentais, escutarei música francesa, irei a Paris, ao Cairo e a Roma, me farei amado por seus pais, criarei seus filhos e serei amigo dos seus irmãos ou vice-versa. Serei forte, fraco, gentil, brutal, carinhoso e distante, serei o que você quiser que eu seja, farei o que precisar fazer para ter o seu corpo, todo o seu corpo, o tempo todo.

Porque, você sabe, eu nunca menti, eu só te quero pelo seu corpo.

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Um das críticas mais superestimadas (em geral só) ao moço da outra (e nunca à moça do outro – com essa o mundo é mais cruel), “ele só está interessado no seu corpo”. Porque, né, ele precisa estar interessado no seu intelecto, nas suas emoções profundas, nos seus planos de vida, no seu gato, na sua réplica de Matisse na saleta de chá, na sua coleção de encadernada de Vogue dos anos 50, nos seus livros de filosofia, psicologia, engenharia e culinária.

Senão ele não vale a pena, pois vai apenas te usar para sexo e te abandonar na beira da estrada deserta dos one-night-stands. Ou pior, Deus me perdoe, você vai usá-lo para sexo e depois abandoná-lo na esquina escura dos casos rápidos.

Como se sexo casual não fosse sexo, ainda que casual, se alguém ainda acredita no acaso. E como se a Terceira Lei do Newton Biscate não se aplicasse sempre: “A toda trepada corresponde uma trepada de igual intensidade no corpo contrário”.

E além disso, como ele vai conhecer seu Matisse avec Earl Grey, saber de seu plano de visitar Cimmeria, adivinhar que Wittgenstein seu gato é um rematado canalha, entender do seu medo de cair da cama em trens, ler sua tese de doutorado, se agora é seu corpo que ele quer, e é o corpo dele que você quer, e esses corpos não se encontrarem porque “não tem futuro”?

Deixa eu te dizer, nada tem futuro. Porque tem aquela curiosa propriedade do futuro, sua inexistência. Aliás, existe lá um futuro, mas ele tem só um ou dois tons de cinza: decadência e entropia, entropia e decadência.

Esse futuro do qual a gente fala é só uma construção mental que tem lá umas serventias. Serve para a gente não atravessar a rua quando vem um carro, porque no futuro, daqui uns 7 segundos, ele vai estar justamente onde a gente quer passar. Serve para a gente não gastar todo o nosso dinheiro em livros, porque sabemos que no futuro, semana que vem, temos que pagar as contas de luz, água, telefone. Serve para a gente ir fazer faculdade disso ou daquilo, porque achamos que no futuro, daqui uns anos, seremos felizes fazendo isso ou aquilo. Mas nada garante que o carro não vai nos atropelar na calçada, que aqueles livros não teriam sido essenciais para a gente conseguir entrar naquela faculdade, que daqui a dez anos não seremos os cirurgiões plásticos ou CEOs mais infelizes da face da Terra.

E o futuro dos corpos nunca é assim fácil de ver. O que parece só corpo pode ser só corpo mesmo e se o sexo foi bom, para que reclamar? Pior, porque não ir, gozar e voltar? E quem sabe para onde vão esses corpos, quem pode dizer?

Porque além do Newton Biscate tem também a Mecânica Quântica Biscate: o resultado da colisão de dois corpos é sempre imprevisível. Ou devia ser – se você sabe tudo do outro, entende tudo do outro, prevê tudo do outro, pode acreditar, alguma coisa você não sabe, não entende, não está vendo e não vai prever. Porque os corpos são coisas vivas, quentes, úmidas e muito, muito pouco confiáveis. Dificilmente você sabe para onde vai o corpo do outro. Admita, você mal sabe para onde vai o seu corpo.

E o desejo de um corpo posto no outro, e o desejo do outro posto no um, causam entrelaçamentos complexos, impossíveis de medir à distância. Podem durar dez minutos, dez horas, dez dias ou dez anos, esses enlaces. Mas você só vai saber a duração se for lá medir e aí vai ser tarde demais para saber a velocidade da colisão, e mais tarde demais ainda para evitar o impacto.

E é assim que que as pessoas acabam atropeladas por uma paixão que nem viram da onde vinha, estiradas nuas numa cama estranha, exaustas, perdidas, quebradas, extasiadas, confusas, em pânico. Porque era só um beijo…

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*Nkyad Sobakovitch, poeta russo exilado em São Paulo, amante fiel da vodka com ou sem suco de laranja, amante infiel das mulheres com ou sem vodka. Seu poema épico “São Paulo é a Sibéria da Alma” foi recebido pela crítica paulistana com a mesma indiferença gélida que acolhe toda poesia naquela cidade sem amor.

A Outra Pessoa

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Hoje, por uma triste coincidência do destino, uma amiga me procurou no inbox do facebook para pedir ajuda. Não, ela não queria saber sobre movimentos políticos nem tão pouco entender de direitos humanos. Ela queria ajuda para montar um plano de vingança contra a “vadia” que está com o ex dela. =(

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A primeira coisa que me passou na minha cabeça foi que essa amiga não lê quase nada do que posto. Eu, que fui durante três longos anos uma das articuladoras da Marcha das Vadias BH. Eu, que sou bisca convidada de quando em vez nesse cantinho delícia aqui. Eu, que falo quase que diariamente sobre o não julgamento da mulher e do direito ao próprio corpo. Eu, que sou uma vadia-bisca-militante com muito orgulho, com muito amor!

(pausa para um suspiro de tristeza)

Agora senta aí, pega o café que lá vem história.

Quando eu tinha 14 anos (óia a foto abaixo pra verem como eu era fofa), me apaixonei platonicamente por um cantor de uma banda de MPB que tocava em um bar perto da minha casa (eu e provavelmente 90% das meninas nessa idade fazem algo parecido). Nunca cheguei perto dele, bastava sentar em frente ao palco e imaginar que a música que ele tocava era pra mim: ”Menina do anel de lua e estrela….” <3

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Um belo dia o vejo abraçado com uma mulher. E, de boca aberta, finalmente noto a aliança no dedo direito. Foi um choque de realidade que, claro, para uma sentimental como eu, me deixou chorando uma semana. Nunca mais quis voltar naquele bar. Mas nunca esqueci seu nome. Seu rosto. E a nova mania de olhar para a mão de todos aqueles prováveis candidatos a serem meu primeiro amor.

Depois disso, sabe-se lá a razão, passei anos na minha vida encontrando apenas homens comprometidos. Namorados, noivos, casados, enrolados. Fugia de todos, afinal, mulher direita não faz isso, né?

Com dezoito anos de idade, ainda sem ter tido um namorado fixo na minha vida que passasse dos dois meses de convivência, conheci meu primeiro amor. Pelo menos o primeiro não platônico! \o/

Cantor também. Dessa vez, música sertaneja e não MPB (me julguem). No dia que nos conhecemos estava na casa de shows com mãe, tia, irmã e todas torcendo pela nova paixonite. Nos conhecemos, dançamos, beijamos… e ele me convidou para voltar na próxima semana.

“É o amooooor!” (Su, aká o brega na vida real!)

Na próxima semana lá estava eu, CLARO. E, quando atrevidamente perguntei se ele queria namorar comigo (já estava impaciente com essa história de que ele que tinha que pedir, coisas de Adriana), ele disse que gostaria muito, mas não poderia, pois era casado.

Mais uma semana chorando. Mais uma semana pensando em como a vida era cruel comigo. Mas, dessa vez, resolvi ligar um foda-se bem dado pra o meu próprio moralismo e seguir em frente com aquela história maluca.

Não vou dar detalhes dessa página da minha vida, mas só dizer que foi com ele que transei pela primeira vez. Foi pra ele que falei eu te amo pela primeira vez, mesmo sem ter a certeza se amava realmente. E foi com ele que me senti pela primeira vez namorando. Como nos contos de fada (bem, um pouco mais apimentado que nos contos de fada, mais para alguma história de Júlia ou Sabrina). E teimava solenemente em ignorar que ele tinha outra história, outra vida, outro caminho.

Terminou um ano depois. Com uma separação, uma ameaça de suicídio por parte da mulher, uma família inteira se metendo no meio e eu – a vadia, a puta, a destruidora de lares, com apenas 19 anos de idade catei meus caquinhos e saí (não tão) de fininho dessa confusão.

eu19anos

Foram anos e anos para esquecer. Mas anos divertidos, onde me envolvi com homens  casados, solteiros, viúvos, enrolados, até com dúvidas sobre seu próprio gênero… muitos casos, muitas gargalhadas, muitas bocas pra beijar e para fugir, algumas decepções. Faz parte.

Quando, com 35 anos, joguei fora a última regra que eu ainda insistia em manter – não me relacionar com homens mais novos (não me pergunte de onde surgiu essa regra, eu era a Adriana cheia de regras e nem saberei dizer a origem de cada uma) e comecei a namorar um rapaz 13 anos mais novo do que eu, me libertei completamente das crenças que permeavam a minha adolescência de como deveria ser uma relação ideal, com o homem ideal.

E foi tão difícil quanto, ao ponto de uma tia, que sempre me dizia que rezava para eu encontrar um “homem cristão” (nunca questionei pra ela o que seria afinal um homem cristão, preguiça) passou a dizer que estava rezando para eu encontrar um com mais de quarenta e mais nada. o.O

Quando comecei a sair com meu atual marido, ele tinha acabado de se separar e isso para mim nada significava. Mas significou para a ex dele, que passou a acusá-lo de tê-la traído comigo e claro, me tornei a vadia mor (como se tivesse deixado de ser em algum momento da minha vida) e o que é pior, isso contaminou a relação dele e minha com as filhas, que até hoje não admitem frequentar nossa casa por me verem como aquela que destruiu a família deles.

Eu não me importo com o que pensam, acredito que larguei isso lá atrás, aos dezenove anos, quando escutei pela primeira vez esse apelido – destruidora de lares. Me importa sim, ver o relacionamento pai e filhas, irmão e irmãs, abalado por uma inverdade,  um machismo ululante que ainda permeia o pensamento de muitas e muitos.

Um relacionamento não acaba porque outra pessoa surgiu no caminho. Um relacionamento acaba por falta de amor. Por falta de tesão. Por falta de cumplicidade e de vontade de continuar junto.

O fim não é o sexo com x outrx. O fim é o não querer mais nada com x atual!

Relacionamentos monogâmicos são um acordo entre as partes envolvidas, não com o mundo ao redor.  Se amanhã meu atual companheiro resolver procurar outra pessoa, em que pese termos acordado que a nossa relação seria monogâmica, jamais julgarei a outra. E, principalmente, não posso e não quero definir o caráter dela por sua vida sexual.

Meu acordo era com ele. E, se ele quebrou o pacto, digamos assim, é porque algo ENTRE NÓS já não está dando tão certo. Ou porque ele fez um acordo que não queria/podia cumprir – e aí teremos a chance de rever se é isso mesmo que queremos, sem falsos moralismos e hipocrisia, repensando essa história da posse incentivada pelo sistema patriarcal, ou então mergulharmos em nós mesmos para vermos se o fim aconteceu e não nos demos conta.

Não vou aqui me adentrar nas diversas pesquisas de “o que levam pessoas a trair”, nos estudos científicos sobre os “genes da traição” ou mesmo na questão das relações abertas.

Também não vim para roubar, para matar, vim aqui só pra dizer que pactos de fidelidade são quebrados diariamente e não existem vítimas ou culpados. Existem responsabilidades. Existe desejo, algumas vezes frustração, algumas vezes só curiosidade, outras vezes um bocado de tédio no dia a dia; mas em todas as vezes existe uma outra pessoa, à procura de sexo, de amor, de um pouco de alegria ou apenas para passar o tempo. E que não tem nada a ver com a sua história.

A outra pessoa é apenas a outra pessoa.

Fim.

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

Por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

Ativistas e participantes de protestos foram presos por meio de medidas absurdamente arbitrárias que ferem direitos fundamentais da democracia. Essa semana, foram revogados os pedidos de prisão temporária e começaram a surgir mais informações sobre o inquérito.

Uma das principais testemunhas é um ex-integrante do grupo Frente Independente Popular que tem um histórico de violência contra a mulher.

Então, a denuncia de uma pessoa que se desentendeu com o grupo do qual fazia parte foi a peça fundamental para estabelecer o inquérito. Parece programa de fofoca, mas o melhor ainda estava por vir. A manchete em letras garrafais diz: Traição amorosa de ativistas ajudou na investigação do Rio.

Uma traição amorosa na cúpula da organização rotulada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de quadrilha armada ajudou os investigadores a apurar como agia o grupo responsabilizado pelo comando dos protestos violentos que ocorreram no Rio a partir de junho de 2013.

Líder dos manifestantes, Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, é acusada em depoimento de ter roubado o companheiro da ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Veja bem, Sininho não é apenas a maior terrorista que esse país já teve. Ela também ROUBA namorados de outras militantes. Nesse momento, alguém levanta a plaquinha: cadê a sororidade, Sininho? E eu respondo que a verdadeira sororidade é a siririca.

 Então, não basta acusar Sininho de ser uma terrorista por meio de ligações gravadas em que ela pergunta o preço de um rojão, que é vendido em qualquer loja que comercialize fogos de artifício. Também é preciso pintá-la como uma “destruidora de lares”. Porque mulher que rouba namorado de outra, com certeza não é alguém de confiança. Porque o machismo tem que ser inserido na questão para mostrar o quanto essa mulher faz “coisas erradas”.

 Em pleno 2014, nós ainda vemos afirmações como essas: mulher rouba o namorado da outra. Como se alguém pudesse ser usurpado de um relacionamento, como se as poções mágicas de amor fossem reais. Porque quem foi roubado é o homem comprometido, que estava indefeso e, segundo uma das testemunhas, era tratado como capacho por Sininho.

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 Não há defesa social para a mulher que rouba namorado na sociedade machista. Não há direito constitucional para a mulher que se atreve a ter relacionamento com um homem comprometido. Parece que não há desejo nos relacionamentos. Que as pessoas não fazem escolhas e não tem autonomia. Então, minha dúvida é: quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Preciso acumulá-los? Posso repassá-los numa boca de suruba? Posso traficá-los se pagar uma cerveja para a polícia? Porque a única acusação que há contra essas pessoas, segundo o próprio desembargador Siro Darlan, é essa.

 Sininho é uma mulher. E não sou eu quem vai dizer se é inocente ou culpada, não sou eu quem vai julgá-la. Porém, o veredito social de ser uma biscate, uma vadia, ela já tem. E me reconheço nesse veredito, porque perante os olhos da sociedade eu roubo namorados de outras mulheres, quando na verdade, estou apenas vivendo minha sexualidade sem me preocupar com os compromissos que essa pessoa tem ou não. Parece nonsense dizer isso, mas sinto que precisamos explicar: as pessoas não são um objeto para serem roubadas. Elas deveriam ser livres para serem o que quiserem. Ao menos, agora, Sininho responderá o processo em liberdade. Mas, a liberdade das mulheres fica onde quando o fato de roubar o namorado de alguém é um dos itens constantes num inquérito policial sobre formação de quadrilha?

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Discurso

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada 

Puta. Biscate. Vadia. Periguete. Vagabunda. As palavras variam um pouco, o sentido e direcionamento, nunca. Uma mulher não costuma ser julgada pelo seu posicionamento político, pela sua inteligência, pela sua habilidade empresarial. Ela é julgada pela sua vida sexual. Mesmo que nem a tenha. Mesmo que você nem saiba se ela tem alguma.

E quando queremos ofender um homem?

Viado. Bichinha. Ou filho da Puta. São os mais comuns.

Veja bem, o energúmeno fez um desfalque na empresa e o máximo que você consegue é tentar compará-lo a uma mulher ou a um homossexual, ou seja, um homem que, de alguma forma e em algum grau, se comporta como uma mulher.

A Renata Lins já postou sobre a importância de mudar os xingamentos. Eu falei recentemente em um seminário de oratória e a direção era a mesma do texto dela: discursos não são neutros, palavras não são neutras. Elas estruturam e são estruturadas pelo sistema de poder dominante. E não é preciso ser um gênio para entender que vivemos sob um sistema patriarcal, homofóbico, machista, racista, classista e capitalista, que hierarquiza pessoas por classe, gênero, orientação sexual, raça, idade e etnia.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar” (Michel Foucault)

Foi na internet que encontrei os exemplos para minha palestra, afinal, quem não conhece “o monstro dos comentários”? Ou as “piadas” das subcelebridades da rede?

Uma dessas figuras, um dia, soltou que estuprador de mulher feia merecia um abraço. Um amigo dele disse em outra ocasião que o cara que espera uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela é um gênio. Um outro meliante escreveu um texto tão absurdo, que só colando um pedacinho pra acreditar:

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Nem vou entrar no mérito do que é ou não uma mulher bonita e gostosa, da comparação da mulher com um objeto como um carro ou um relógio. Me aterei aos fatos:

— Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Elas representam 50,7% do total. Os adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e os adultos (18 anos ou mais), 29,9%.

— Segundo a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e 46% não possuíam o ensino fundamental completo (considerando as vítimas de escolaridade conhecida, o índice sobe para 67%).

— estimativas da Policia apontam que apenas duas entre cada 10 vítimas denuncia o abuso. Um dos motivos é a proximidade do agressor.

— A maioria esmagadora dos agressores é do sexo masculino, independentemente da faixa etária da vítima.

— No geral, 70 % dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Então alguém explica para os subs da internet que estupro nada tem a ver com sexo e sim com PODER sobre o outro? Que a roupa que uma mulher/menina veste, seu comportamento sexual e/ou social não é motivo e não pode NUNCA ser utilizado como desculpa para uma agressão?

Essa culpabilização da vítima é um velho golpe político, daqueles mais manjados, mas que parece nunca cair em desuso. Pobres são acusados de serem pobres por que querem, porque não se esforçaram o bastante. Negrxs são acusados de preguiça, de má índole, desde a escravidão. Enquanto isso, o poder dominante se sente seguro para perpetuar o racismo, o machismo, a homofobia e os trágicos números que o Mapa da Violência traz sobre homicídios dessas minorias historicamente perseguidas.

Voltemos a palavra puta. A Luciana Nepomuceno já escreveu sobre o quanto é preocupante alguém achar que chamar uma mulher de puta seja algo ruim, pejorativo, ofensivo.

“Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?”

A querida Gabriela Leite declarou, em 2007, que a violência contra as prostitutas vem crescendo no país, partindo principalmente de jovens de classe média e reforçada pelos órgãos de segurança, que tendem a ver a prostituição como crime. “A sociedade sempre dividiu as mulheres em duas categorias: a santa mãe de seus filhos e as prostitutas.”

E se uma prostituta se torna mãe? E se uma mulher da classe média resolve se autointitular prostituta, no auge da sua gravidez? Como a sociedade reage a isso?

Mês passado, soube que a foto de uma amiga querida durante a Marcha das Vadias 2013 estava sendo compartilhada por uma página antifeminista no facebook com um texto bem manipulador a respeito. Ela, que estava grávida de nove meses, tinha escrito na barriga “filha da puta”, desafiando assim esse paradigma que teima em se manter vivo em pleno século XXI.

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Faz parte. Poderia ter sido a minha foto grávida de 2012 na Marcha, poderia ter sido a minha foto com o filhote no ano passado ou neste ano, já que fui uma das organizadoras do protesto nos últimos três anos. Mas foi a dela e claro, quando ela marchou, assim como nós, já sabia que enfrentaria a boçalidade de muitos.

Mas realmente é chocante o nível dos comentários nas diversas páginas e fakes que começaram a compartilhar a mesma. E eu me pego pensando se realmente conseguiremos revolucionar esse sistema como gostaríamos, já que A MAIORIA dos piores comentários são de mulheres.

Discurso – prática – prática – discurso. A violência contra as mulheres está aí, sendo discutida pelas principais Instituições de Direitos Humanos do mundo, pois não é algo exclusivo do Brasil. E muito menos dos homens. É do sistema. E quem sou eu para julgar quem o reproduz ou mesmo quem acredita que está defendendo a fofa da filhota dela ao soltar comentários como esses?

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Falta de informação, excesso de ingenuidade, medo da mudança… os motivos podem ser vários, mas o principal é que a maioria não consegue enxergar o quanto estão envolvidos por essa ideologia assassina que é premissa do nosso sistema social.

E, após os comentários non sense (teve até gente perguntando como ela engravidou se odeia homem, num sinal claro que a criatura não faz ideia do que é o feminismo) vieram os comentários preocupantes, violentos, agressivos:

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Você pode achar que são só comentários. Assim como a turminha que tacha o “politicamente correto” de chatice e defende “as piadas” incorretas. Mas não é assim que acontece e a realidade está aí, pra dar tapa na cara de quem insiste em olhar para o outro lado.

Por mais que me horrorize os julgamentos femininos, bem mais do que os masculinos, já que estes mais não fazem que lutar para manter seus privilégios, eu fico é penalizada, pois sei que o vento sempre vira, como disse a Renata Lins em um post meu recente no facebook. Ver mulheres tripudiando de outras, julgando, por essas lutarem contra a violência que TODAS NÓS estamos sujeitas é algo bem perverso. Porque amanhã a vítima poderá ser qualquer uma delas. E nem assim elas acordarão para a realidade…

Vadias somos todas. Eu fui chamada de vadia quando fui estuprada. Quando recebi uma promoção no trabalho. Quando ganhei a láurea acadêmica. Quando namorei um homem 10 anos mais velho, quando namorei um homem 10 anos mais novo. Puta. Vadia. Piriguete. Biscate.
Mas a verdade é que não somos todas putas. Porque não sofremos o que esse grupo sofre diariamente com o preconceito que parece crescer assustadoramente em nossa sociedade conservadora, julgadora e hipócrita. E dói muito pensar que este pensamento é o mesmo de 2000 anos atrás, quando um baderneiro de cabelos compridos afirmou que só poderiam atirar pedras quem não tivesse pecado, pedras essas destinadas a uma mulher pela sua conduta sexual.

Vou encerrando esse texto lembrando das palavras do fofo do Bernardo Toro ao falar da ética do cuidado. Toro é uma daquelas pessoas que a gente conhece, senta pra tomar um café e tem vontade de nunca mais sair de perto. Integrante do Bogotá Como Vamos e da Red Latino-americana por cidades justas, democráticas e sustentáveis do qual eu tenho muito orgulho de fazer parte, ele traz nesse texto a seguinte afirmação:

“A linguagem é a chave para saber quem somos como indivíduos. Nós somos nossas conversas: quando mudamos nossa forma de ser, mudamos nossas conversas e quando mudamos a forma de conversar, mudamos a forma de ser. A linguagem nos constrói.”

E é por isso, por essa reconstrução da linguagem, da nossa forma de ser, que mais uma vez me chamarei de vadia, de puta, de periguete. Não importa realmente se minha conduta sexual condiz ou não com essas palavras. Eu quero ter o poder e a alegria de ressignificá-las. Para que, um dia, nenhuma mulher mais seja julgada, humilhada, assassinada por ser quem é: uma mulher.

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH - 2012

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH – 2012

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

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