O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

Texto do coletivo Biscate Social Club
com a leitura querida – que agradecemos -
de Patrícia Guedes e Liliane Gusmão

Circularam esses dias uns links sobre a aparência de Renée Zellweger, no estilo antes e depois e a pergunta, em diversos tons, dos mais maliciosos aos bem preocupados: o que aconteceu com ela? Engordou? Emagreceu? Anorexia? Botox? Bronzeamento artificial? Cirurgia? Doença terminal? Drogas? Os comentários nos links não foram menos diretos e não pouparam agressividade e virulência: ridículo, aterrorizante, doente, repulsivo foram termos usados para descrever seus rosto e devastada, mentalmente desequilibrada, enlouquecida, embarangada, plastificada, algumas das palavras usadas – das que tivemos estômago pra ler – que se referiam a ela integralmente.

Então agora, vamos dizer tudo que nós achamos que tem que se discutir sobre a aparência dela: (                                ). Pois é, um imenso, enorme, absoluto: NADA.

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Mas, como somos muito legais e para efeitos pedagógicos, vamos até responder a inquietação dos mais bem-intencionados: o que aconteceu com ela tem nome. Vida. Em muitos sentidos.

Vida, porque é uma mulher de 40 e tantos anos que tem uma doença de pele (rosácea), que usou bastante maquiagem dados seus compromissos profissionais, que se expõe a forte iluminação artificial por causa das filmagens, uma mulher que engordou e emagreceu várias vezes por motivos vários – inclusive de trabalho. Vida porque é razoável supor que ela riu, chorou, teve dor de cotovelo, passou alguma noite em claro, divertiu-se, pegou sol, pegou brisa. Então, vida, ou como costuma ser apelidada: tempo.

Mas vida, também e principalmente, porque o que lhe aconteceu é o que tem nos acontecido, a nós, mulheres, por todo o tempo que passamos nessa bagaça: somos observadas, julgadas, avaliadas e rotuladas. O corpo, o rosto, a “moral” sob uma enorme lupa. Uma série de “tem que” dos quais é difícil escapar (e nunca sem alguma marca), inscritos na estrutura e que, no máximo, nos é apresentado como uma luta individual. Autoestima, amor próprio, ser mais independente… uma dose especial de crueldade tomar como responsabilidade pessoal um problema social que se espalha na cultura.

Essa lupa enorme e constante não deixa escapar nada. A mulher está sempre errada. Caso se submeta ao padrão (olha aí, não sabe envelhecer, tá usando botox; tá magra demais,deve ser anorexia) e caso o ignore (devia ter vergonha de ir a praia mostrando as pelancas; olha já dá pra ver cabelo branco, é muito desleixo). Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem. Tem que ficar jovem sem esforço e aí, se envelhecer (risível usar o “se” pois viver é sempre “quando”) desaparecer. Sabe coméqueé, velhice é feio, não é pra expôr assim.

Lemos um bocado de comentários dizendo que ela não soube envelhecer com dignidade, como se houvesse um jeito correto de viver, como se a uma mulher – especialmente famosa – não houvesse pressão sobre a aparência, como se não vivêssemos em uma cultura que glamouriza a juventude, como se não houvesse menos papéis nos filmes para mulheres maduras, como se não fôssemos bombardeados diariamente com a relação entre aparência jovem e saúde. Como se “envelhecer com dignidade” fosse um caminho reto individual sem relação alguma com contexto sócio-histórico. Como se, especialmente, pudéssemos julgar como alguém deve viver sua própria vida. Alguém, claro, uma mulher. Esse animal público.

O fato é que nos sentimos no direito de avaliar e emitir impressões sobre a aparência das mulheres. Isso está tão naturalizado que nem nos questionamos sobre. Como se o corpo e o rosto da mulher existissem para o olhar dos terceiros e devessem a ele corresponder, agradar, submeter-se. Mesmo as pessoas que solene ou alegremente entoam: “meu corpo, minhas regras” às vezes escorregamos e estamos lá, dando nota mental pro corpo da coleguinha.

Então não, não devia interessar a aparência da Renée. Renée não existe pra enfeitar a vida de ninguém. Nenhuma de nós, aliás. Mesmo que você esteja falando com a melhor das intenções e super preocupadx com a saúde dela, é bom prestar atenção no pronome possessivo. O corpo, a saúde, a aparência, tudo DELA. No lugar de apontar dedos pras coleguinhas, talvez seja melhor a gente desconstruir esses padrões que oprimem, machucam e demandam de todas nós um dolorido impossível. E, no “por enquanto” dessa demorada mudança de paradigma, todas as vezes que pensarmos em comentar a aparência de alguém – especialmente uma mulher, mais ainda uma mulher envelhecendo – vamos contar até 10. De preferência, em biscatês (um rala e rola, dois rala e rola, três rala e rôlas, OPS…). Distrai e faz sorrir.

PS. Não que cada uma de nós não tenhamos autonomia ou discernimento, não que sejamos conduzidas, moldadas e forjadas apenas pelo ambiente. Não. Mas ignorar esses fatores é cruel e deturpa o olhar. Não custa lembrar do Graciliano Ramos: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”

PS2. Não por acaso a pergunta “o que aconteceu com Renée” leva-nos ao filme “O que aconteceu a Baby Jane” e à discussão sobre fama e aparência.

Cis e trans e o grupo LGBT: As diferenças entre sexualidade e identidade de gênero

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

O que é cis ou cisgênero? Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com pênis e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero).

Cisgênera é uma mulher que nasceu com vagina/vulva e se expressa socialmente como mulher (expressão de gênero), é decodificada socialmente como mulher (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para uma mulher, e reconhece-se como mulher (identidade de gênero), logo, é uma mulher (gênero).

Ao passo que transgênero é o contrário disso. Ou seja, são pessoas que apesar de terem nascido com pênis podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com um pênis e, logo, foi compulsoriamente designado como homem. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter um pênis, foge ao conceito de homem.

Assim como transgêneros são pessoas que apesar de terem nascido com vagina/vulva podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com uma vagina/vuvla e, logo, foi compulsoriamente designada como mulher. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter uma vagina/vulva, foge ao conceito de mulher.

Dentro do grupo das pessoas transgêneras há as pessoas travestis, transexuais, crossdressers, agêneras, bigêneras, genderfuck, e tantas outras classificações.

As definições não devem ser engessadas e nem limitar identidades, de forma que, a melhor definição para uma pessoa é aquela que ela própria lhe dá. De toda forma, é importante pensar nessas definições para que não se corra o risco de se achar que a palavra GAY dá conta de todas as identidades dentro do arco da diversidade identitária. Como uma palavra que diz respeito a uma pessoa que possui ORIENTAÇÃO SEXUAL diversa daquela legitimada socialmente vai refletir na identificação de pessoas que podem inclusive serem héteros? Ou seja, identidade de gênero (o gênero com o qual me identifico) NADA TEM A VER com orientação sexual (o gênero pelo qual me atraio). Uma pessoa pode ser travesti ou transexual e ser hétero, homo, bi, assexual (…), assim como acontece com todo o restante das pessoas que estão dentro do grupo dos transgêneros. De forma que não, a palavra GAY não reflete todo o grupo, outrossim, inclusive há mulheres lésbicas que ressaltam que o termo lésbica é a palavra que denomina politicamente o grupo das mulheres homossexuais, não a palavra gay.

Veja, não se trata apenas de meras diferenças conceituais ou meras palavras diferentes pelo que se está lutando.
Estamos lutando pela visibilidade das reivindicações das pessoas transgêneras que é bastante diversa das pessoas gays cis, ainda que estejam unidas por conta da discriminação que sofrem socialmente, em maior ou menos grau pra esse ou aquele grupo.

Quando se diz que a luta LGBT é a luta gay, que o movimento LGBT é o movimento gay, é importante ressaltar que pautas especificamente gays não atingem diretamente as pessoas transgêneras, uma vez que nem todas as pessoas transgêneras são gays. Vejamos, pelo que, de forma geral, escuta-se quando se ouve falar nas reivindicações do grupo LGBT:

- parada GAY
- movimento GAY
- orgulho GAY
- HOMOfobia
- casamento GAY
- adoção por GAYS
- família HOMOparental
- direitos HOMOafetivos

Pois bem, poderíamos perguntar, as pessoas gays passam pelas seguintes agressões?:

- ter o nome desrespeitado cotidianamente

- ter o gênero deslegitimado o tempo todo

- precisar evadir-se da escola dado o grau de agressões verbais e desrespeito INCLUSIVE vindas de professores e gestores escolares que insistem em não respeitar o nome social e o gênero da pessoa

- possuem o acesso ao banheiro barrado

- seus documentos não correspondem com aquilo que você é (nome e gênero)

- possuem sua identidade questionada frequentemente por todos aqueles que necessitam identificá-lo por meio dos seus documentos

- sua identidade é vista como patologia pelo consenso científico e faz parte do DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais) e do CID (Catálogo Internacional de Doenças), bem como pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

- possuem os genitais questionados frequentemente por estranhos? (você operou? você tem pênis ou vagina?)

- acham que você é mais ou menos homem de acordo com o número de cirurgias que você fez

- você necessita de laudos e ofícios de médicos de diversas especialidades para que acreditem que você é o que você diz ser

- possuem enorme dificuldade de encontrar profissional habilitado para receitar hormônios próprios para o seu organismo (lembrando que os hormônios não foram feitos pensando nas pessoas trans* e a bula dos mesmos não corresponde àquilo que acontece dentro do corpo trans*)

- possuem o corpo identificado como “corpo errado” por toda a população (fulano nasceu no “corpo errado”, como se só o corpo cis fosse o corpo certo)

- sua identidade é vista como fetiche pela maioria esmagadora das demais pessoas

- esperam durante décadas para conseguirem fazer uma cirurgia de transgenitalização, algo que lhe custa enorme sofrimento psíquico e muitas vezes suicídio

- sua identidade está dentro das mais altas taxas de suicídio e assassinatos mundiais

- contratos de empréstimo ou locação de imóveis são negados com muita frequência por conta da sua expressão/papel/identidade de gênero

- o mercado de trabalho associa sua identidade à marginalidade, ao crime e portanto, é extraordinariamente difícil encontrar um emprego

- sua identidade é vista como habilitada para ocupar apenas trabalhos dentro da prostituição ou em salões de beleza

- a necessidade que você tem de fazer cirurgias (como transgenitalização, mamoplastia masculinizadora, mamoplastia de aumento, remoção de útero e ovários, feminilização facial…) é vista como capricho, sem sentido, e há um total descaso com isso por parte do governo

- você precisa viajar quilômetros ou pagar do próprio bolso para obter atendimento médico especializado para o seu caso

E tantas outras agressões, bem, parece que os gays cis não passam por esse tipo de coisa, de forma que não dá pra dizer que todo mundo dentro do grupo LGBT é gay e que a pauta desse grupo é a pauta gay, pois não, não é.

Assim, há de se fazer distinção clara entre homofobia (preconceito por conta da orientação sexual) de transfobia (por conta da identidade de gênero), já que inclusive a raiz da palavra HOMOfobia reduz-se ao seu radical HOMO que quer dizer igual, quando as pessoas transgêneras são as diferentes do estipulado adequado no que tange à expressão/papel/identidade de gênero. É uma distinção que deve ser feita inclusive pra se visibilizar as agressões específicas sofridas pelas pessoas transgêneras a fim de se trazer para o debate essa problemática e se encontrar caminhos para resolvê-la.

Quando uma pessoa transgêneras têm nome e gênero desrespeitados, ela está sofrendo de transfobia e não homofobia. Como costuma brincar o ativista e transhomem João W Nery: eu sou um transhomem hétero, eu sofro por conta da transfobia, não homofobia. Ou: vemos o tempo todo as pessoas falando das famílias homoparentais, mas e as transparentais ninguém diz, dos relacionamentos homoafetivos, mas e os transafetivos? As pessoas trans também constroem famílias e se relacionam.

Frequentemente vemos pessoas dizendo que aceitam e não têm nenhum problema com os gays, mas que travesti/trans já é algo demais, ou que ainda que aceitem os gays, travesti/trans não dá para aceitar. O que seria isso senão uma demonstração explícita de transfobia?

E, ainda que se diga que são conceitos muito novos, muito difíceis e que a sociedade não vai entender, todas essas desculpas não passam de mote para continuar a invisibilizar as demandas da população trans*, que são expressivas, urgentes e diversas daquelas da população gay cis, ainda que, novamente, todas essas identidades tenham uma luta em comum que é contra a heteronormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de um comportamento heterossexual, visto socialmente como o correto) e a cisnormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de aspectos cis/cisgêneros, vistos socialmente como o correto).

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Peitos

Eu tenho peito. Dois, inclusive. Grandes. Gosto deles, um bocado. Mas, alerto, eles não são atestado nem condição do meu ser mulher. Tem mulher com dois peitos, mulher com um peito, mulher sem nenhum. Mulher que nunca teve peito. Mulher que nunca teve peito e colocou. Mulher que teve, mas tirou. Tirou tudo, tirou só um pouquinho. Mulher com peito grandão, mulher com peito miudinho. Mulher com silicone nos peitos. Ou mesmo com peito só de silicone. Mulher com peito que tem mamilo saltado. Ou mamilo invertido. Mulher com peito em desenvolvimento. Mulher com peito murchinho. Mulher com peito que aponta a lua, mulher com peito que roça barriga. Mulher com peito no sutiã, com peito soltinho, mulher com peito na memória.

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Sabe o que esses peitos e corpos, todos, tem em comum? Não existem pra o nosso escrutínio. Não existem para terceiros terem prazer, embora, peitos e/ou corpos, generosamente, às vezes o façam. Não existem para ser julgados. Nossos corpos não existem para. Eles são. E é por isso que repudiamos esse vídeo da Campanha da Nestlé contra o Câncer de Mama, que, em palavras livres, diz pra gente: “mantenha seu peito saudável que o mundo tá de olho”. Não cuidamos dos nossos corpos para que eles sejam vistos e examinados pelos outros. Se o fizermos é por nosso prazer e saúde. Sem mencionar a culpabilização da mulher totalmente mastectomizada e o recado implícito que, se ela não tem peito, seu corpo está “fora do jogo”.

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O ser mulher não está no nosso peito. Nem no cabelo, unha, buceta. Ser mulher não está em nenhum lugar do corpo que se possa apontar – e julgar. Relacionar o foco do cuidado e da saúde com avaliação social compromete a campanha e machuca mulheres que já passam ou passaram por processos dolorosos, o temor de perder a vida, a mudança na auto-imagem, os ajustes nos relacionamentos e tantas outras coisas que sequer podemos, de fora da situação, dimensionar.

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Então, sim, apoiamos e divulgamos a ideia de que é preciso atenção com a saúde dos seios, o auto-exame, que as pessoas com peito devem estar atentas ao diagnóstico precoce do câncer de mama. Mas repudiamos qualquer naturalização de gênero relacionada ao processo e toda e qualquer legitimação da objetificação do corpo nessas campanhas.

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Então, pessoas com peito, vamos nessa: meu corpo, minhas regras, meu cuidado. Vamos se tocar ;-)

É o meu corpo. E eu o celebro.

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada

No começo do ano posei pra Evelyn Queiroz/Negahamburguer. Para quem não conhece o trabalho dela, vale uma navegada aqui. Nem foi algo planejado, foi bem no susto, pra falar a verdade. E um posar com plateia e a possibilidade de milhares de pessoas assistindo. Mas, já chego aí.

Antes disso, já tinha posado prum ensaio coletivo de nus, com fotos que acabaram expostas numa instalação no fim do ano passado, com o tema: “Beleza real”.

Nessa segunda vez foi assim: duas equipes de reportagem foram na Casa de Lua, ONG Feminista que estamos consolidando e onde a Nega tem estúdio. A primeira equipe filmou a Evelyn fazendo uma ilustração. A segunda se inspirou e quis fazer igual. Mas, a ideia era não repetir a modelo, que até já tinha ido embora. Aliás, quando falo “modelo” é força de expressão, ne, vocês sabem. Não havia uma modelo. Éramos mulheres comuns posando para uma artista.

A Evelyn ficou me convidando-provocando durante toda a tarde, mas eu estava meio tímida. Apesar de já ter vivido a experiência de posar antes, tinha sido pra fotos. Com TV pelo meio, nunca. Paniquei. Na hora H, no entanto, estava eu sentada no futon da sala quando a Nega chegou, me estendeu a mão e disse: “Vamos?!”

 Olhei pra aquela mulher jovem, tão talentosa, tão linda, tão sensível e amorosa, e fui.

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Ilustração de Negahamburguer

Subi a escada para o estúdio bem saltitante, tomada pela adrenalina. Nem é que eu tenha alguma questão com tirar a roupa. Até que minha relação com a nudez sempre foi tranquila e só melhora. Meu medinho era de me saber na TV. Meu problema era a câmera. Posar, mesmo com roupa, em foto ou vídeo, pode ser um acontecimento pra mim. Porque, a despeito de me olhar no espelho e, hoje em dia, me reconhecer com prazer e alegria, a visão que tenho sobre mim num registro de imagem pode ser bastante distorcida. Ou não corresponder ao que eu presumo ou imagino deveria ser.

Daí que vocês podem imaginar o quão gigantescas essas experiências representaram pra mim.

 De repente, me vi numa sala com a Evelyn, a jornalista, o iluminador e o câmera. Eu ri. E, ainda na adrenalina, fui me despindo pra aquele bando de gente desconhecida, confiando no profissionalismo de geral e no controle da única coisa que de fato me cabia: meu corpo. Admito que apelei prum malabarismo na hora de tirar o sutiã. Além disso, mantive a calcinha e a pose acabou sendo de bruços no puff. Até porque, não dava pra chocar a família brasileira.

Mas, é que entre o tirar a roupa e o posar tem o momento de andar seminua pelo recinto. Algumas vezes. E, principalmente, tinha a câmera, que iria registrar e, eventualmente, exibir parte daquilo na TV! Que situação. Ou não. Porque, no final, foi mesmo isso. Um contundente “ou não.” Tirei a roupa alegremente, careta (nem vinho rolou, vejam bem…), porque eu quis.

Estava eu, com meu corpo sem padrão – mas, com certeza, não no padrão assinalado como o “ideal”-, de mulher com mais de 40, que pariu dois filhos, nada atlética e com as pernas sem depilar! Era isso tudo. Minha história e eu. Juntas. Indissociáveis.

 E estava feliz. Tranquila? Não, necessariamente. Mas, feliz.

E não é que eu tenha tentado esquecer da câmera. Nem tinha como. Ela existia, enorme, invasiva, onipresente, lembrando-me do que viria. Mas, naquele momento, eu.estava.feliz! Na hora não me veio um pensamento racional ou elaborado “uau, como eu sou empoderada!” Foi mais um “que delícia esse negócio!” Era tenso e sexy, ao mesmo tempo. O “dane-se!” retumbou na minha cabeça. Bom, nem preciso dizer que a ilustra da Evelyn foi pura delicadeza, ne?

Conversei com a jornalista sobre padrões de beleza, tirar a roupa como ação libertária, posar… e também contei que passei a vida em dietas insanas até sentir que eu não merecia isso e começar um processo de amor e reencontro com a minha auto estima. Mas, reconhecia que a pressão é draconiana, que nos abate e que é difícil escapar muitas vezes.

E que ainda me sinto enredada, por momentos fugindo das câmeras, escondida atrás de alguém, como um espectro, sem sequer existir nos registros, mesmo estando lá. É um caminho. As vezes, a gente retrocede 3 casinhas das 5 que avançou. Mas, vai indo, ne? Participar dessas três experiências – a exposição, me deixar ilustrar e a matéria – e falar disso tão longamente como o faço agora também são parte da trilha.

Finalmente, claro que a reportagem na TV me deixou aflita e eu fiquei semanas esperando, com medo dos ângulos, dos closes. E quando foi ao ar, acabei nem badalando muito, mas por timidez e falsa modéstia que por um não gostar. Pra falar a verdade, pra quem eu mostrei até disse, na absoluta e livre sem-vergonhice: “Então. Eu, divando. Lide com isso!”

 Disse isso pra mim.

fotoperfilfor*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada noFacebook e e Twitter (@vanerodrigues).

Sexo é uma delícia

Beijaço contra a homofobia on Vimeo.

Ali pelo minuto 01:12, mais ou menos, tem uma senhorinha explicando, bem claramente, porque apoia o beijaço que rolou em frente a casa do candidato Fidelix. Ela fala que foi criada em uma sociedade repressora e que sua sorte foi aprender que sexo é uma delícia. Que sexo é uma coisa boa, que deve ser feita, mostrada e que a gente deve contar isso pra todo mundo. É nóis \o\ \o\ lol lol /o/ /o/

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Estamos aqui no BiscateSC justamente espalhando essa palavra. OH YEAH! O Biscate Social Club é um coletivo. Um coletivo de amor e letras e anseios de um mundo muito mais livre. Um coletivo que escreve em esperanças e denúncias. Que fica, aqui e ali, na putaria de insistir em ser feliz. Um clube que não se dá ao respeito, que escreve sem certezas absolutas e procurando, partindo dos princípios presentes no Editorial, dialogar com a realidade. Erramos algumas vezes, #quemnunca? Enfiar o pé na jaca, pisar na bola, dar o passo maior que a perna, tudo esportes que praticamos. Mas também exercitamos o voltar atrás, o pedir desculpa, o mudar de ideia e o querer mais. Muito mais. Principalmente muito mais sexo, néam?

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Sexo que liberta, autônomo, escolhido, com um, com vários, na rua, na chuva, na fazenda ou em uma casinha de sapê. Biscatgi que inclui, acolhe, sustenta e luta. Vamos assim, ora biscateando de ladinho, ora sambando ostentoso, beijando, trepando, escrevendo e gozando o prazer e a liberdade de ser biscate.

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Vandalize o discurso de ódio nas eleições!

Texto assinado pelas coordenações
das Blogueiras Feministas e pelo Biscate Social Club.

No último domingo (28/09), foi realizado um debate ao vivo entre os principais candidatos a presidência do Brasil transmitido pela Rede Record.

Ao longo do debate, o candidato Levy Fidelix (PRTB) proferiu diversas ideias preconceituosas. Em relação a usuários de drogas, disse que: “o País tem mais de 1 milhão de drogados apenas nas grandes capitais. Esse pessoal todo não trabalha, não produz nada, além de serem, honestamente, peso para qualquer governo”. Em outro momento, ao elaborar uma pergunta ao candidato Pastor Everaldo (PSC), ofendeu presidentes da América do Sul dizendo que “Evo Morales vai trazer mais cocaína pra cá”, além de chamar Cristina Kirchner de louca. Porém, o pior ainda estava por vir.

Em determinado momento, a candidata Luciana Genro (PSOL) questionou Levy Fidelix: “os homossexuais, travestis, lésbicas sofrem uma violência constante. O Brasil é campeão de mortes da comunidade LGBT. Por que as pessoas que defendem tanto a família, se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo?”.

Na resposta Levy Fidelix derrubou um caminhão de chorume, fazendo relação direta entre o conceito de família com reprodução, além de se referir a homossexualidade como uma doença e relaciona-la a pedofilia. Por fim, ainda bradou que a maioria não deve aceitar essa minoria, que é preciso enfrentá-los. Praticamente conclamando a população para agir com preconceito e violência contra lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans*.

O silêncio dos outros candidatos

Após essas declarações, houve o momento das considerações finais, mas nenhum candidato usou esse tempo para repudiar veementemente as declarações absurdas de Levy Fidelix. É assustador pensar que NENHUM dos candidatos tenha usado seu tempo para repudiar a fala de Fidelix.

E, se nenhum deles o fez, se ninguém quis marcar posição nesse momento tão importante diante de uma manifestação fascista de um candidato a presidência em rede nacional, então fica difícil endossar as falas e programas dos candidatos quanto ao tema dos direitos LGBT.

É fácil estampar tais temas em programas de governo ou discursos de campanha. O uso demagógico das lutas das minorias não é novidade. Porém, responder de modo enfático e imediato é o atestado de quem tem a sensibilidade para perceber a gravidade do discurso homofóbico, lesbofóbico, bifóbico e transfóbico proferido. E isso não aconteceu.

O candidato Eduardo Jorge (PV) reconheceu em declaração no twitter que errou ao não repudiar o discurso de ódio no momento do debate. Após o debate, Luciana Genro publicou em seu twitter uma mensagem de repúdio. Ao que parece os outros candidatos não irão declarar nada quanto ao que foi dito por Levy Fidelix.

Nessa hora em que alguém mostra todo o seu ódio em rede nacional, não responder só mostra o quanto essa pauta é pequena para a nossa política. Que dia triste esse em que um sujeito incita a violência contra homossexuais dizendo: “Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los”; e assistimos os demais silenciarem.

O discurso de ódio será vandalizado

O discurso de Levy Fidelix é homofóbico e também carrega muitos outros discursos de ódio. Porém, é preciso lembrar que não devemos desumanizar Levy Fidelix, como ele faz quando se refere a gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans*. Esse discurso não é coisa de um monstro horroroso que mora em um lugar distante ou de apenas um candidato nanico isolado. Não. Esses discursos estão no cotidiano dos corpos marginalizados.

É o discurso que rasga, violenta e mata diversas pessoas todos os dias. Esse discurso não vem só de Levy Fidelix, vem também de nossos vizinhos, amigos, parentes, etc. O que você faz quando alguém diz: “tenho até amigos gays, mas não quero que nenhum chegue perto”? Ou que “respeita, que tolera”, que “não entende como tem homem que gosta de outro homem”, que diz que “a mulher é lésbica porque nunca achou o homem que a pegou de jeito”?

Esse discurso limpinho de tolerância é o suficiente para você? A piada feita com aquelas pessoas que não se encontram dentro de uma categorização normativa de gênero e orientação sexual é engraçada para você?

Apoiamos as diversas manifestações populares em repúdio a Levy Fidelix. Estão sendo organizados desde beijaços na Avenida Paulista até campanhas de denúncias em massa ao Ministério Público Federal. Exigimos que o candidato não possa mais participar dos debates, porque não aceitamos que discursos de ódio sejam proferidos em canais de televisão que são concessões públicas.

Não, não é fácil ouvir Levy Fidelix fazer um discurso extremamente violento em um debate para candidatos a presidência. Não desce. Não tem como dar conta disso. E por isso, esse tipo de discurso não pode mais ser admitido. Nem no debate de candidatos para presidente, nem por aquele seu amigo do trabalho, nem pelo tio no jantar de família. Não aceite ser tolerado. Não aceite ser apenas respeitado. Nós não merecemos migalhas. Nós merecemos existir da forma que queremos e não dentro dessa categoria normativa que engessa. Vandalize essas categorias e vamos à luta! Vandalizar a política!

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Foto de Danilo Verpa/Folhapress.

+ Sobre o assunto:

[+] OAB pede cassação da candidatura de Fidelix por declarações homofóbicas

[+] Luciana Genro e Jean Wyllys apresentam representação contra Levy Fidelix por discurso homofóbico em debate

 

Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Eu Fiz Um Aborto

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Eu fiz um aborto. E, não, não foi porque me deu na telha e eu estava sem nada pra fazer e fui lá e fiz. Fiz um aborto no início do ano quando me deparei com uma gravidez indesejada, depois de fazer um segundo exame de gravidez. O primeiro deu um falso negativo. Coisas da ciência, vai entender. Eu poderia citar uns cem motivos para ter feito, mas o que mais importa é esse: eu não queria um filho agora. Simples assim. Ou nem tanto. Muito provavelmente não terei filhos porque não os desejo. Pelo menos, não biológicos. Não passa pela minha cabeça a ideia de gravidez.

Quando eu fiz o segundo exame e, finalmente, deu positivo, eu já sabia o que fazer. Em nenhum momento a minha criação católica bateu forte e eu balancei. Eu estava bem certa do que queria só não sabia, ainda, que essa seria uma das experiências mais marcantes da minha vida. E até hoje não sei precisar se foi boa ou ruim. Sei apenas que marcou a minha história, o meu corpo, e o meu olhar sobre o mundo.

Claro que por ser uma mulher de classe média pude desembolsar mil reais numa tarde. Simples. Fui lá e saquei no banco. Mas em nenhum momento, deixava de pensar naquelas mulheres que não têm o privilégio que eu tive. Quando entrei na clínica, me sentia uma criminosa. Ficava olhando para todos os lados, vendo se não tinha câmeras me filmando. Enquanto conversava com o médico, vivia num mundo paralelo em que a qualquer momento um grupo de pró-vidas junto com a polícia ia entrar pra me prender. Dei meu endereço errado e meu telefone também, por precaução. Sei lá se isso adiantaria de alguma coisa, mas era o máximo de controle que eu podia ter naquele momento.

O médico colocou quatro comprimidos de misoprostol no fundo da minha vagina. Não me deu nenhuma orientação. Eu, que sou feminista, que pesquiso sobre aborto, que participo de debates, escrevo, discuto sobre isso me sentia a mais ignorante das pessoas na frente daquele homem. Uma amiga, que também fez um aborto com ele, foi quem me disse o que eu sentiria. Os efeitos colaterais: a febre, a dor de barriga, o sangramento. Me lembrou de comprar absorventes noturnos.

Eu tive a sorte de estar com meu então companheiro. Ele segurou a onda, me ajudou a pagar o procedimento, comprou absorvente, segurou minha mão e velou meu sono agitado. Sonhei o tempo todo que a polícia invadia o quarto que eu estava e me levava presa. A noite toda. A noite toda.

Só fui sangrar 12 horas depois. Parecia uma menstruação forte, mas nada que assustasse. O pior só foi ocorrer quatro dias depois, quando estava numa cidade de interior com meu companheiro. Tive uma hemorragia no meio do nada e estávamos a uns 200 km da capital. Bom, não morri de hemorragia como vocês podem perceber, mas o médico queria me cobrar mais R$ 3000,00 pra fazer uma curetagem. Eu não tinha o dinheiro e achei um absurdo ele me cobrar isso. Fui para casa sangrando e assim fiquei por uns dois meses. Bom, eu sobrevivi.

Eu sobrevivi. E quando pensamos numa legislação punitiva como a brasileira, eu sei que isso é muito. Jandira e Elizângela não sobreviveram. Elas também pagaram para fazer um aborto clandestino como o meu. A diferença entre mim e elas, aquela que separa a vida da morte, é que eu fiz um aborto em um hospital particular, que oferecia minimamente condições sanitárias. A diferença entre mim, Jandira e Elizângela é que a hipocrisia da classe média me salvou. Eu fiz um aborto onde todas as mulheres de classe média, brancas e escolarizadas fazem. Todo mundo sabe que ali funciona uma clínica de aborto clandestino, mas seus donos são influentes o suficiente para manter-se a salvo da polícia.

Ainda hoje me pego pensando nas possibilidades. E se eu não tivesse dinheiro, e se eu não tivesse descoberto no início, e se eu não tivesse feito numa clínica, e se eu tivesse ido pra um hospital com hemorragia, e se eu tivesse sido presa. Fazer o aborto foi algo que mudou tanta coisa em mim que ainda não sei precisar. Dessa experiência que ainda está sendo significada dentro de mim, eu tenho duas certezas: eu sou uma privilegiada e eu merecia ter feito um aborto seguro e legal.

Apesar de todo o medo que me acompanhou – o de ser presa e o medo da morte, que parecia muito perto em alguns momentos – me sinto uma privilegiada, pois dentro da criminalidade com que o Estado brasileiro joga as mulheres, eu ainda pude escolher. Eu ainda pude pagar por um serviço em uma clínica particular, eu ainda pude contar com uma rede de acolhimento de amigos e meu companheiro na época. Eu pude ir a uma médica particular para tratar do sangramento que durou meses. À Jandira e Elizângela, que já tinham outros filhos para criar, o Estado brasileiro só reservou a morte.

Ainda que me sabendo privilegiada numa sociedade sexista que pune mais as mulheres que os homens, que se recusa a discutir o aborto abertamente como política pública, eu me senti lesada ao fim desse processo. No mundo em que eu quero viver e que eu luto para construir, eu e todas as mulheres que fizeram aborto nesse país, não seríamos criminosas. Eu não teria sangrado durante dois meses e nem elas morreriam de hemorragia e teriam seus corpos queimados. Eu não teria tido tanto medo de morrer, não teria chorado tanto, elas não seriam maltratadas por profissionais de saúde, nós não teríamos medo de ser presas anos depois desse episódio, como as mulheres de Campo Grande. No mundo que eu pretendo habitar, aborto será uma escolha das mulheres. O Estado vai garantir e a sociedade vai respeitar.

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Mais sobre o assunto: Jandira, a vítima já condenada

O Caso da Elisângela Barbosa

Tem uma categoria inteira no Blogueiras feministas pra você se informar: Aborto

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Quanto ao desafio da maquiagem

Por Daniela Andrade*

Apoio todas as mulheres que podem, que querem, que decidiram fazê-lo. Apoio a luta contra a manutenção de padrões de gênero que punem as mulheres, as diferentes mulheres, em diferentes aspectos.

Apoio a luta contra a camisa de força de gênero que decide, que dita de que forma se faz uma mulher. E uma mulher precisa estar sempre adequada aos padrões da indústria da beleza – decidiu a sociedade patriarcal.

Posto isso, digo que nada disso deve significar impor que quem não pode, não quer, não se sente à vontade sem maquiagem deve ter sua identidade invalidada, deve ser apontada e ridicularizada, deve ser instada como se aqui estivéssemos falando de alguém inferior.

A mulher que usa maquiagem, seja por qual motivo for, deve ser tão respeitada quanto a que não usa, seja por qual motivo for.

É triste ver uma guerra instalada em situações em que se as partes estivessem dispostas ao diálogo, sem ver a outra como inimiga, as coisas se ajustariam. É triste ver como há pessoas que precisam inferir que a violência que sofre é muito maior para invalidar a violência que a outra sofre, como se houvesse realmente esse termômetro que diz qual sofrimento deve ser considerado mais sofrimento que os outros.

Eu posso fazer a minha manifestação contra opressões sem agredir nenhum grupo historicamente discriminado e sequestrado em seus direitos primários.

PS. Sobre esse desafio já publicamos aqui no Biscate “A Loucura da Beleza” de Karen Polaz e tem post no Blogueiras Feministas: Desafio sem make: desafio para quem? e no Lugar de Mulher:  Por que eu não participei do Desafio Sem Make

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

A Loucura Pela Beleza

Por Karen Polaz*, Biscate Convidada

Nos últimos dias, está rolando a campanha Stop The Beauty Madness (“Parem Com A Loucura Pela Beleza”) nas redes sociais. Criada pela escritora Robin Rice, a campanha surgiu com o intuito de questionar os padrões de beleza valorizados hoje em dia. Aderindo ou não ao objetivo original da proposta, muitas mulheres cisgêneras estão postando suas fotos sem maquiagem e sem filtro e desafiando outras mulheres a também fazerem o mesmo.

Não participei do desafio, até porque estou sem maquiagem na maioria de minhas fotos no Facebook, inclusive em algumas do perfil. Mas não penso que o desafio seja besteira, não. Afinal, crescer sendo menina é saber que seu papel no mundo, pelo menos um dos principais, é estar bonita para poder agradar e ser mais aceita. Mas aí você não nasce como as modelos das revistas (aliás, nem elas mesmas nascem assim!), então parece quase que uma necessidade esconder e camuflar qualquer “desvio” no rosto e no corpo. A maquiagem está aí para isso, mesmo que também possa assumir funções mais artísticas e lúdicas – e quem já se reuniu com as amigas para se maquiar antes de algum evento sabe bem do que estou falando.

Não somos, portanto, contra a maquiagem em si. Mas estamos questionando a noção – bastante difundida pela mídia e pelas gigantes redes de cosméticos, interessadas em consumidoras fiéis -, de que se sentir bem e bonita deva passar, necessariamente, pelo uso da maquiagem. Em outras palavras, somos contra a ideia extremamente extenuante de que não seja possível ser feliz sem camuflar irregularidades na pele, de que a maquiagem tenha se tornado a poção milagrosa que vai trazer imediatamente nossa autoestima de volta.

Apesar de estarmos nos opondo a tal modo de pensar, admito que seja uma ideia que deu muito certo, porque não é nada fácil se livrar da cultura da beleza. Tanto que, nas redes sociais, postar uma foto sem maquiagem se torna, realmente, um “desafio”, no sentido que envolve riscos para a nossa já frágil autoestima. Vemos várias mulheres, e até garotas, se adiantando a possíveis críticas à sua aparência, justificando as tão comuns olheiras, por exemplo, com a noite anterior mal dormida, como que se desculpando pela cara limpa. É triste, mas a gente se sente pressionada, de verdade, a pedir desculpas pelos poros abertos, pelos cravos, pelos cílios não curvados. É como se nosso rosto ofendesse.

E aí que vemos alguns homens dizendo que estão levando “sustos” com mulheres sem make, tirando um sarro daquelas que “pareciam tão lindas até participarem do desafio”, implorando que, “para o bem da imaginação masculina”, voltem a usar maquiagem e filtro e o que quer que seja para parecer diferentes do que são. Demonstram, sobretudo, uma leviandade típica dos que acordam e saem para o mundo sem sentir que precisam “esconder rugas e imperfeições”, dos que nem fazem ideia da violência que é tentar se ajustar, muitas vezes a altos custos, a padrões de beleza irreais e nocivos.

O cenário não parece animador, mas a campanha é válida e poderia contar com desdobramentos ainda mais corajosos, como ir a uma festa de casamento sem maquiagem – ou a quaisquer outros eventos considerados importantes e, por isso, não dignos da nossa cara lavada. Enfim, muita força e união, mulherada, porque mudanças na sociedade não são fáceis e não vêm de graça.

Mais sobre o tema: Por que eu não participei do Desafio Sem Make

Desafio sem make: desafio para quem?

Karen Polaz

* Karen Polaz, ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas prefere dizer que é artista para resumir a vida e não confundir os interlocutores.

Metida Com Mel

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada.

Aí vem minha amiga e diz que estava conhecendo um mocinho pela intenetz. Aquelas coisas de mensagens de sacanagem durante o dia, fotos eróticas, vídeos pornôs por whats, enfim, o trivial. Belo dia, ele mandou pra ela um vídeo de uma mulher se masturbando com um aparato que minha amiga, mesmo por dentro dos paranuê de vibradores, nunca tinha visto antes. Era uma espécie de bomba de vácuo, com um consolo bate-estaca no meio que a moça, sabe-se lá como (porque isso minha amiga realmente não entendeu), tentava controlar.

O aparato parecia uma bazuca transparente. Ela me explicava e eu só visualizava “A geração de Proteu”. Entendendores entenderão.

Ela ficou meio assim com aquele vídeo – tinha uma vibe violenta que, mesmo numa masturbação, lhe bateu meio creepy – e nem respondeu na hora, só no dia seguinte quando mandou um “medo”, acompanhado de “rysos”, pra quebrar o clima. Porque, né, tampouco queria parecer moralista ou bedel do tesão alheio. Ela não se excitou, mas se a mocinha do filme estava feliz, amém! E ele respondeu com um “rsrs” junto com “imagina num anal”.

Minha amiga pensou um pouco e, aproveitando a deixa, disse que adorava anal, mas, especialmente no anal, não transava muito aquele fuc-fuc incessante. Preferia mais carinho e menos performance.

E aí, senhoras e senhores, o bofe começou a mostrar a que veio e mandou essa cintilante pérola sexista: “A maioria das  mulheres geralmente é assim mesmo. Gosta mais de carinho que da metida. Homens, não. Preferem mandar ver logo e sentir prazer. Se não tiver carinho, mas a metida completa, é o que vale.”

Ai, a conversa sobre mulheres gostam disso, homens daquilZZZzzzzz. Minha amiga, brochadérrima e prontinha pra correr pras montanhas, até tentou dar uma aulinha de feminismo 101: “nossa, acho muito sexista e ultrapassado isso que você está falando porque…:

Obviamente, foi interrompida pela mãozinha nervosa do sujeito que continuou, enviando uma classicona passivo-agressiva: “você não é boa de leitura? Não é toda inteligente? Leia de novo o que escrevi: eu disse a maioria, não disse todas”. Como vocês podem imaginar, sangue subiu muito na hora, já que o sexismo e a babaquice ganharam contornos mais nojentos com aquele mimimi reiterativo, recalcado e defensivo típico de quem medra na conversa.

Mas, você se engana se pensa que ele parou por aí: “gata, gata, você está perdendo tempo. Acabei de chegar de uma transa. E ontem também transei. E na 6a tive uma super transa. Tudo isso porque não tô preocupado com carinho. Não perca tempo com isso.  Curta a vida. Quem gosta de amor é motel. Pensa nisso.”

Que. Preguiça.

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Não precisamos de fiscal do fiofó (imagem da performance Macaquinhos)

Primeiro, pelo ~ provérbio ~ sem charme. Depois, claro, porque  além de se deparar com um homem adulto se vangloriando das supostas trepadas do fim de semana, ainda ser brindada com a culminância do sexismo, do machismo e da ignorância quando ele pressupõe que, por ser mulher e falar que, pra ela, é importante delicadeza num anal, minha amiga buscava mesmo era “um amorzinho gostoso”.  E nem vou dizer da arrogância e da estupidez de sequer sacar o #ficaadica.

Sabiamente, ela acabou nem respondendo à última mensagem. Aliás, minto, devolveu uma curta: “tempo eu tô perdendo agora, falando com uma britadeira. Fui.”

E foi mesmo.

Disclaimer: não deveria ter que repetir, mas vamos lá. Mulher gosta de sexo, (oral, anal etc e tal), e pode adorar pornografia, chats de putaria, filme pornô no whatsapp e até de foto de pau (sobretudo se consentidos e/ou solicitados), de vibradores, de meteção, de sexo baunilha, de BDSM, de linguada e beijo no cu e de dar o cu num bate-estaca ou devagarzinho… E homens podem perfeitamente gostar dessas coisas todas aê e também de dormir de conchinha.

Ah, e não umedecer com determinada proposta não é régua pra medir libido.

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*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada no Facebook e e Twitter (@vanerodrigues).

 

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