Vou Cortar Sua Pica

Por Iara Paiva*, Bisca Convidada

Sou capaz de compreender que, por conta do estresse pós-traumático, um pênis seja algo ameaçador pra uma vítima de estupro. Mas daí a transformar isso em discurso político, de “bora castrar estuprador” etc e tal me parece não só temerário do ponto de vista dos Direitos Humanos, como burro mesmo. O pênis sozinho não estupra ninguém. O pênis sozinho pode até ser bem bacana, se a pessoa que tem o pênis for legalzinha e usá-lo com sabedoria (depoimento baseado em experiências reais). E o cara que quer estuprar (lembrando que mulheres estupram, mas reconhecendo que em sua maioria os estupradores são homens) não precisa nem ter ereção.

Estupro é violação do corpo de outrem, sem necessariamente haver penetração. Pra ter estupro não precisa ter pênis, só precisa ter desprezo pela autonomia da pessoa que é dona do outro corpo. Focando só no revanchismo, a gente castra o estuprador hoje e amanhã ele volta enfiando cabo de vassoura na vítima. Resolve nada (e me parece uma obviedade tão grande que até me constrange compartilhar essa ideia, mas aparentemente tem gente na militância que não pensa assim).

Gente dizendo que é isso aí, cortar a pica ou castrar quimicamente, e geral achando ok. Pra mim nenhuma delas colabora pra construir o mundo em que eu acredito. E de novo, as pessoas podem se expressar como quiserem, e isso pode ser empoderador. Não estou dizendo que não possam. O que eu posso fazer é o que eu fiz – lamentar. Lamentar muito que a gente precise construir as coisas nestes termos, porque a gente continua na verdade reforçando o lugar simbólico aí do pênis. E ok, vou reagir, corto sua pica. E o cara vai e, porque é mais forte, me mata. Eu acho tudo muito equivocado, porque é disputar aí no campo da violência. De novo, acha construtivo, empoderador? Vai, lá, ué. Eu acho é contraproducente.

Sobre estupro: Cultura do Estupro e Slut ShamingEstupro Não é SexoComo você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém*

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*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

Quem tem medo de Valesca Popozuda?

Por Daiany Dantas*, Biscate Convidada

É possível que hoje ninguém na música popular brasileira seja mais impactante que Valesca Popozuda. Deixando de lado juízos de gosto e valor, quais artistas encontramos por aí com tanta capacidade de provocar reações tão intensas, de revirar olhos e estômagos, desencadear balanços – físicos e mentais – sobre a nossa história cultural? Por trás de suas letras pulsam questões de classe e gênero que escancaram muitas das nossas desigualdades, de nossa pouca aceitação ao gosto das classes populares e ao protagonismo sexual das mulheres destas classes.

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Valesca, com seu corpo biônico, sua mestiçagem loira e lentes de contato azuis é um corpo que propõe muitos trânsitos – da dança de fundo ao microfone e frente do palco, da periferia ao palco midiático, de uma realidade colonizada à colonização dos espaços públicos – é um retrato vivo de nossas ambiguidades e contradições, da nossa NÃO democracia racial, da NÃO igualdade de gênero. É tiro, porrada e bomba na calmaria da burguesia “de bem”, pois para falar ela não usa artifícios. Sua palavra é firme e seu desafinar é autêntico.

Décadas depois de Marta Suplicy ter sido perseguida pelas “Senhoras de Santana”, ela também reclama o direito das mulheres a serem donas do próprio clitóris e terem os orgasmos que quiserem, mas abre mão dos nomes científicos. Prefere os apelidos cotidianos de alcova, pois assim resignifica não só o corpo que ela reclama para si, mas a liberdade desses espaços tão cobiçados a partir do desejo – por isso buceta, cu, grelo, em suas letras, são todos piscantes e desejantes – e isto é, claro, inesperado. Um acinte, uma vergonha!

Sua maior vergonha exposta, no entanto, não é a bunda siliconada (uma entre tantas nessa pátria de paniquetes estáticas, tratadas como samambaias mudas ou marionetes em jogos de humilhação), é um corpo punido por pretender o direito ao prazer, é esse exercício performativo e político que faz de Valesca uma artista tão odiada por uns – e amada por outrxs. Ela é um corpo com voz, não é só mais uma bunda assujeitada? O que ela é, então?  - toda uma mentalidade Casa Grande e Senzala entrando em combustão.

Valesca evidencia os não-me-toques de uma classe média que ama ser retratada como branca e hidratada em seus apartamentos bem decorados e com vista pro mar do Leblon, mas não quer sentar à mesa e banquetear com quem desce do morro para beber vinho da mesma taça. Ela mostra a persistência e atualidade de nossa cultura política que rechaça tudo aquilo que propõe um deboche desde as classes subalternas – estas podem, sim, ser escrachadas, desde que sob o controle vigilante de mídias conservadores, onde funkeira é favelada, nordestina é empregada doméstica e negro é bandido. Valesca não é uma personagem de Zorra Total, sua zorra é outra, seu discurso é transparente, de quem escolhe os próprios termos e não precisa de consentimentos. É um discurso de sobrevivência cujo escudo é justamente não ter escudo algum. Ela quer o poder da buceta porque a buceta é dela. Quer gozar, quer dar, quer te dar. Não porque alguém pede, mas porque ELA quer.

E aí vem o maior pecado de Valeska. Colocar o desejo feminino na baila, claro, é pedir para ser linchada. Geni não sai de moda. Ainda mais uma Geni gritando de autoestima, que pede para xs inimigxs “latirem mais alto” que dali, do camarote, ela não xs escuta. Como ousa? Quer subir no palco? Quer gozar e ainda quer divar? Quem ela pensa que é?

Márcia Tiburi, na Edição 188 da Revista Cult diz que Valesca é uma “Robin Hood estética”. Mas ela vai além. É carnavalesca, antropofágica, deglute os castelos inacessíveis do luxo e os transforma em cenário kitsch – haja peles, mármore, coroas, tigres e dentes de sabre, e, assim, seu batidão funk desautoriza a herança aristocrática. Traz a riqueza à sua comunidade e a subverte naquilo que ela tem de mais caricata e reconhecível. Valesca irrita porque é ela quem está parodiando, escolhendo como ser “rycka”, pois os ricos são os engraçados. É ela quem está rindo. E daí a riqueza deixa de ser dos outros e se torna de qualquer, farta e comum. E isto, claro, desagrada. Quem disse que funkeira e “favelada” pode ostentar?

E Valesca é filosofia pura. É o hedonismo bacante e dionisíaco de Nietzsche, deixando os apolíneos ofuscados com sua capacidade de se envaidecer das próprias regras. É o corpo sem órgãos deleuziano, escorrendo das mãos de um projeto coletivo que o segrega, e problematizando o lugar que ocupa ao negar as jurisdições que o controlam, é a reinscrição performativa butleriana, em seus palavrões que clamam para si o desejo (tão negado) das mulheres… é grelo pulsante, é riqueza, é empoderamento, e, claro, sendo tudo isso, só podia ser muito PAVOR, né?

Mas ninguém precisa temer Valesca. Mesmo. Basta ficar calmx, “deixar de recalque” e se dispor a abrir mão de convicções sequer fundamentadas. Em vez de rechaçá-la sem sequer ouvir o que ela tem a dizer, apostando nessas tintas fortes que a emolduram toda vez que ela surge num flash da mídia de massas, podemos aprender com ela sobre quem somos – e quem podemos ser. Em vez de xingá-la, confirmando todos os padrões que ela faz tremer, podemos nos gratificar por viver num mundo onde Valesca existe para confundir público e privado e ser visível e notória em ambos.

E sobre os juízos de gosto… ocorre que minimizamos artistas em função de barreiras que dizem muito mais respeito aos nossos preconceitos políticos e culturais que a valor artístico (as pessoas se vangloriam de que não ouvem e não gostam, mas é Valesca quem é chamada de ignorante… Será?). Costuma-se nivelar os gostos como selo de qualidade e mérito humanístico a partir do lugar social de onde esses gostos emergem… Achamos que não gostamos, mas somos, na verdade, dominados pelas fronteiras que segregam centros e periferias. Se nos deixarmos ilhar, perderemos uma parte importante de nossa história e nossa realidade… E viveremos interditados em nosso conteúdo “autorizado” – geralmente porque produzido por gente branca, vestida, “limpinha” e, claro, a maioria homem. Então, vamos encarar ou ralar?

IMG_20140409_232626Daiany Dantas foi uma jornalista que amava o nariz de cera e é uma professora de Comunicação Social que adora o barulho das teclas. Feminista sem carteirinha. Iconoclasta apaixonada pelas imagens. Filósofa de sala de cinema. Poeta de guardanapo e humana do Pingo, Kiki, Hoshi e Tapioca.

 

Mais Uma Segunda

Por Patrícia Sampaio*, Biscate Convidada

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Acordar mais uma segunda-feira e “cuidar da vida”, como dizia a mãe que repetia a avó. A rotina está lá, impávida, à sua espera na cozinha: o lanche da escola, o café da manhã, o almoço dos que ficam em casa, a marmita de quem não dá conta de comer a comida da rua. A roupa na máquina, as plantas na varanda, a comida dos pássaros. Depois, os e-mails intermináveis, os trabalhos sempre atrasados, como se fossem programados pelo próprio Sísifo! Nem acaba, nem fica pouco!! Outra fala da mãe que também era da avó.  Nesses tempos, já nem sabe mais o que ainda é seu ou é herança de tantas mulheres que vieram antes.

Esta herança que nunca quis compartilhar com uma filha. Rezava a cada gravidez por um menino. Tinha verdadeiro pavor de ter uma menina e, por absoluta incompetência, transformá-la em uma igual, pronta para carregar o planeta nas costas, assumir todas as culpas, andar enlouquecida atrás da perfeição em cada passo e em todo ato mínimo da existência: a casa sempre organizada, a família mais-que-perfeita, os filhos impecáveis, a melhor profissional. Chegou a fazer o almoço antes de ir para o hospital parir o filho. Em pleno trabalho de parto, à beira do fogão, não disse nada para ninguém até que tudo estivesse arrumado na casa… Inacreditável, dizem! Sente orgulho quando vê os olhos admirados de tamanha eficiência. Mas, não se engana. Sabe que o orgulho é pelo personagem bem sucedido porque, na verdade, não há vaidade alguma nisso. É uma armadilha. Não queria mesmo isso para sua filha que, afinal, nunca veio. É um alívio.

De repente, a casa fica em silêncio. Todos se vão e as tarefas dão uma trégua. Silêncio na casa e a voz vai ganhando nitidez. De onde vem? Faz tanto tempo que não a escuta que nem lembrava mais que era sua. Tanto a fazer, tanto barulho do lado de fora que a pessoa esquece o que tem para dizer a si mesma.  E ainda tem algo a dizer? Parece que perdeu a prática de pensar sobre si. Desconcertada soa a voz. Titubeante. O que ainda sabe sobre sonho e desejo? Diz que devia ir, para poder lembrar do que era e do como era antes de se tornar essa outra. Que só pensa e age para fora, por impulso. Cuida, provê, organiza, acalenta e, principalmente, antecipa desejos. Os alheios, claro. Aprendeu, como outras, que a maior expressão do amor é a antecipação da necessidade. Qualquer que seja ela. O melhor amor do mundo. Sem lugar para falhas. Nenhuma.

A voz reclama. Já está sendo calada para falar de outrem. Ri e concorda. É a falta de prática de ouvi-la. Carece de tempo para o exercício. Os restos infinitesimais de pão na mesa são capazes de fazê-la calar a voz. Treinada para prestar atenção no que acontece do lado de fora.

Tem medo. Quando o silêncio da casa se tornar permanente. Sim, há de acontecer um dia porque não há outro jeito para a vida. Então, a voz se tornará única. Do que tem medo? Irá aparecer tão alta, rebelde, insana que será capaz de ensurdecê-la ou, ao contrário, terá cansado, desistido e silenciado para sempre? Ainda não pode ir. Não sabe como reaprender a ouvir-se. Tem que terminar o almoço.

patricia-sampaio* Patrícia Sampaio é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

Você, o Médico ou o Estado?

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Texto 1: Em trabalho de parto, levada por policiais armados e obrigada a fazer uma cesariana que não queria: não é mentira. Aconteceu em Torres, RS

Texto 2: Justiça retira mãe em trabalho de parto de casa para obrigá-la a fazer uma cesariana

Texto 3Um corpo que não é seu – Repúdio contra a violência sofrida por Adelir Carmen Lemos de Góes

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Para quem está achando justificável ou ok dez policiais arrastarem uma gestante pra fora de casa em trabalho de parto: eu não vou entrar em indicações necessárias e desnecessárias de cesárea. Mas eu vou falar de ética profissional. E de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Se a médica ou a juíza tivessem seguido os princípios da bioética, jamais teriam mandado dez policiais armados na casa de uma gestante em trabalho de parto. É ético o mandato só ter sido expedido com tanta rapidez pois a médica era amiga da juíza?

Politicamente o que aconteceu foi um caso de punitivismo. Uma mulher decidiu a respeito do seu proprio corpo e foi punida por isso. É impossível não perceber o paralelo entre as violências sexuais sofridas por mulheres todos os dias. Acabou de sair uma pesquisa do ipea onde dizem que mulher com roupa curta merece ser abusada. O que é isso além de punitivismo?

Juridicamente é um precedente perigosíssimo você tirar uma cidadã da sua casa, uma cidadã que assinou um termo de responsabilidade, uma cidadã que estava acompanhada, que tinha feito pre natal e mais do que isso uma cidadã que DECIDIU não seguir uma orientação que não coadunava com suas crenças e conhecimento. Então agora se uma testemunha de jeová não quiser receber transfusão de sangue um médico pode obrigar? Então se vocês decidirem se tratar com homeopatia (é placebo, não vai curar!), comer doce (dá diabetes!), fumar (câncer!) numa balada, beber (dá cirrose e vai que você resolve pegar o carro?), usar decote (as pessoas acham que roupa provocante te coloca em risco se violência) o Estado vai ter o direito de colocar a polícia na porta de vocês? Afinal são atitudes que podem colocar a vida de vocês em risco. Ué? Mas quem decide o que acontece com o seu corpo? Vocês, o médico ou o Estado?

Aliás o bebê não estava sentado. Isso foi só a justificativa da médica. O bebê estava cefálico. Mas isso não importa. Esse bebê podia estar de lado, podia ser o bebê de rosemary, podia ter feito mecônio 12 cruzes. Não importa. Importa que o que uma mulher decidiu a respeito do seu corpo foi desrespeitado pelo Estado. Sabe que sistema político violava os corpos das pessoas com justificativas institucionais? Dou uma chance.

A ditadura acabou. Mas não para as mulheres. Acabou 50 anos atrás. E ainda vivemos em estado de exceção. Temos direitos humanos. Exceto quando usamos roupas curtas, estamos grávidas, somos biscates, etc etc. Quase humanas.

renata corrêaRenata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Adoro Ser Viado

Por Cristiano Lucas Pereira, Biscate Convidado*

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Tenho 38 anos e “dou o cu” desde 1988.

E nesses 25 anos de proveitosa viadagem já vi de tudo (ou quase tudo). Fui batizado com meu nome de guerra pelas bichas mais velhas no chafariz da praça principal da cidade; aprendi logo cedo o “pajubá” pra poder desaquendar dos “alibãs” e dos “ocós” homofóbicos; já dei todo o tipo possível de pinta em todo o tipo de lugar; já levei curra; já fodi em lugares que deixariam Madame Satã corada; vi muitos amigos gays morrerem assassinados; vi a grande maioria de meus amigos da adolescência perecerem diante da AIDS.

Mas de tudo que já vi, vivi, ouvi e presenciei, tenho a convicção de que algo estranho tem acontecido entre os viados dos dias de hoje que eu ainda não consigo analisar por completo.

O fato é que nunca vi tanto conservadorismo entre nós, tanta repressão ao sexo, às pintosas e às fechativas e tudo aquilo que denuncia a homossexualidade.Não sei se por causa da AIDS, por causa da internet, de novos padrões de beleza e comportamento ou por essa necessidade doentia de “sermos aceitos” pela sociedade que tanto nos despreza, tudo isso junto e misturado tem provocado nas bichas uma verdadeira aversão à liberdade sexual duramente conquistada pelas pioneiras de Stonewall ou, aqui no Brasil, pelos militantes que editaram o jornal “Lampião da Esquina”.

Aliás, as bichas nem gostam de serem chamadas mais de bichas ou viados. Inventaram agora o tal homoafetivo. Homoafetivo de cu é rola!

A impressão que tenho é que entre nós, gays, é preciso ser monogâmico, ter aversão ao sexo livre, às trepadas inesperadas, às bichas que dão pinta (já que pra ser viado não precisa desmunhecar). É preciso parecer ser hétero, a ponto de queimar qualquer “gaydar”!.

Não estou falando que todos nós temos que sair como cadelas no cio, roçando em tudo quanto é homem na rua(se bem que isso não seria ruim…). O que quero dizer é que o desempenho, a performance e a satisfação sexual são experiências individuais. Alguns preferem pau pequeno, outros preferem sexo grupal, outros gostam de levar uns tapas, outros de dar uns tapas.

Cada um procura a sua maneira de sentir prazer sem apontar os dedinhos para aqueles que sentem prazeres de forma diferente. Por isso, acho mesmo que os caras que aparecem no vídeo de Floripa, durante o Carnaval desse ano, estavam eram muito felizes!

Essa questão toda me faz lembrar do personagem Brian do seriado “Queer As Folk” (bichas mais novas, assistam). Para ele, a forma de combater a homofobia era trepando, esfregando na cara da heteronormatividade a nossa existência, a nossa libido, o nosso tesão.

Até mesmo porque, a gente pode até emular parecer hétero, casar, adotar crianças, deixar pra trás a putaria. Mesmo que a gente seja bonitinho, arrumadinho, sem dar pinta, com o cabelo de primeira comunhão ou escola dominical, sem ter voz de pato, “sem usar gola V” e com as mãos controladas, JAMAIS seremos plenamente aceitos por uma questão muito simples: Não somos héteros!.

E eu particularmente ADORO ser viado.

 

562469_10200325776844636_1182282969_nCristiano Lucas Pereira escreveu esse texto no seu perfil de Facebook. Nós, que somos atentxs às pessoas livres e biscas, pedimos permissão e reproduzimos aqui. Como ele disse: idéias precisam circular. Cristiano é professor na rede pública de ensino do DF, atuando no Núcleo de Diversidade e Educação Inclusiva na Escola de Formação de Professores/as do DF, militante na Cia. Revolucionária Triângulo Rosa e orgulhosamente bicha. (quer saber mais? veja esse vídeo)

A relativização do assédio e o corpo público

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada*

Por mais que adeptos da teoria crítica achem que Big Brother Brasil não serve pra nada, há que se admitir os debates que ele possibilita, para o bem e para o mal. Na madrugada de sábado para domingo, uma situação mobilizou os participantes do BBB e as redes sociais desde então. Marcelo e Angela estavam tendo um relacionamento dentro da casa. Angela, após ter dito a Marcelo que ele vacilou, desencanou do lance e não quis mais nada com ele. Marcelo tem tentado há vários dias se reaproximar da moça, que já disse inúmeras vezes que não está mais a fim. Pois bem, durante a festa, ele seguiu insistindo (inclusive com certa agressividade), tentou forçá-la. Todo mundo bebeu, Angela bebeu também e ele seguiu do lado dela, insistindo. Quando Angela já não estava mais consciente de tudo o que rolava, ele, depois de jogar água no rosto dela, a beijou, mesmo com ela escondendo o rosto e os lábios durante muito tempo. Ele além de todo o resto, ainda queria dar banho nela, que estava praticamente desacordada. Outros participantes viram e uma briga bastante agressiva começou. Marcelo primeiro afirmou que não tinha feito nada, mas depois admitiu que a beijou sem consentimento. Estava colocada a questão de sempre: exagero ou agressão?

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Não dá pra relativizar. O que rolou ontem na festa do BBB, o que Marcelo fez com Angela, acontece todos os dias, em festas, bares, restaurantes, no play do nosso prédio, na escola, na confraternização do trabalho, na praia (e no próprio BBB, é só lembrar). E as pessoas preferem não discutir. Preferem fingir que falar nisso é exagero das mulheres, que não é assédio, que acontece desde sempre e por isso é normal. Mas não, não é normal, é agressivo, é machista e é doente. É um sintoma claro de que os homens ainda acham que são donos dos nossos corpos e merecedores de tudo o que desejam, apenas por serem homens. Nosso corpo não é público.

Que esse episódio lamentável (que não acontece pela primeira vez na TV, importante pontuar) sirva pra gente discutir os assédios que sofremos diariamente. O encoxamento no transporte público, as olhadas agressivas na rua, puxada de cabelo na boate, tentativas de beijar a força, como recentemente vimos acontecer na UFF, por exemplo.

Espero que homens que já fizeram isso algum dia reflitam sobre seu lugar de poder e o que permite que eles saiam ilesos da situação, porque, afinal, a culpa é sempre da mina (que estava bêbada, que não soube dizer não, que riu). Esse tipo de mentalidade atravessa todos os comportamentos cotidianos. Fico esperançosa quando vejo homens, como o Cassio (participante do programa), indo até o fim na discussão pra mostrar – não só ao agressor mas a todo mundo – que era, sim, assédio. E na mesma medida fico triste em ver mulheres dizendo ‘não é bem assim’.

Não posso dar números precisos, mas em se tratando do universo em que vivo, posso afirmar sem medo que quase todas as mulheres já sofreram algum tipo de agressão desse nível. Relativizar esse tipo de assédio é porta de entrada pra muitos outros. Que possamos debater isso com objetividade, honestidade e deixando em evidência a voz das mulheres, principalmente as que já sofreram com isso. Afinal, é a vida de mulheres que está em jogo.

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

Silêncio

Por Suzana Siqueira, Biscate Convidada*

Digo a um amigo que preciso silenciar a casa para conseguir escrever sobre o silêncio. Ponho as crianças na cama. Olho as horas: é mais tarde do que o habitual. Para ajudar-me, o telefone não para de tocar desde então. Conversas sérias. Conversas tolas. Conversas. Palavras entrando pelo meu ser de todas as maneiras. Um silêncio inalcançável. É passada a hora de ir deitar-me. Respiro fundo, desligo o computador, e deixo para o dia seguinte: c’est la vie. Acordo cedo sem vontade de sair da cama. A baixa temperatura lá fora é um convite para esticar os sonhos. Preciso levantar-me: o mais velho ainda não sabe ir à escola sozinho. Faço um café pois o chá preto de todo dia não irá dar conta da cafeína que meus olhos precisam para se manterem abertos. Quase durmo nos sinais de trânsito. Durante todo o caminho fico a pensar nesse silêncio que pretendo esmiuçar. De volta à casa percebo-me numa casa vazia, silenciosa, e penso “é agora!”. Ah!, o auto engano. Não é a casa que precisa silenciar-se: é a minha mente.

Espanto-me ao constatar que não estou preparada para os silêncios. Eles me incomodam. Tanto os que vêm de fora quanto os de dentro.

E não é o silêncio do ambiente em que me encontro que gera esse desconforto. Incomoda-me o silêncio vindo do outro, da carta não respondida, da mensagem protelada, do sorriso ignorado: sensação de que assusto as pessoas (e ainda tem aquele que decidiu calar-se, silenciando as palavras escritas que de silenciosas nada tinham).  Os silêncios de fora ainda me são dolorosos demais e, talvez por culpa de meu orgulho, ainda não consigo aceitá-los.

E o silêncio interno, percebo, incomoda-me por não saber onde ele existe. E mais incomodada fico quando não consigo responder à pergunta que tanto me aflige: onde se guarda o silêncio? Faço essa pergunta a alguns amigos queridos e a resposta não me convence: no coração. Não acho que lá esteja o silêncio pelo simples fato de escutar meu coração gritar de dor quando fica dilacerado com tanta injustiça, incompreensão, falta de carinho e excesso de silêncios pelo mundo à fora.

“Ando à procura do silêncio. E tenho medo de nunca saboreá-lo”. Pois é, meu amigo, medo de saboreá-lo não tenho. Tenho medo de não encontrá-lo.

sussuSuzana por ela mesma:…vejo no espelho as rugas exatamente onde deveriam estar: acentuadas quando sorrio. Concluo que tenho sorrido bastante nessa minha vida. E sorrio mais um pouco ao constatar isso… no canto de um quarto escuro, onde as janelas pouco iluminam, vejo diante de mim os amores passados, as lágrimas corridas, as palavras não ditas. Vejo as lutas perdidas, por fraqueza ou desistência, uma denúncia da minha fragilidade. E ali, bem no cantinho, vejo aquela menina que sonhava com um mundo mais justo e que ainda espera, pacientemente, a hora de sair e comemorar o dia em que isso acontecer.…de vez em quando minha alma fica pesada. Costumo lavá-la aqui: www.alma-leve.blogspot.com .

você, que adora paredes.

Por  Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

(e como hoje é o dia nacional da poesia, um conto em verso e eros, para te inspirar a escrever você também um poema no corpo de alguém <3 )

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você vem, toca a campainha.
eu abro a porta e te vejo.
te recebo, desejo.
(mas tenho que te dividir com o cachorro, fazendo festa)

então te abraço finalmente,
de saudade. de vontade.
encosto a cabeça no seu peito, baixinha.
encosto meu peito na sua barriga, abusada.
encosto o meu corpo em você: me desfaço.
sou uma kali mas não sei aonde vão meus braços.
um beijo. longo. ou dois. ou mais.
não sei, não estava contando.

respiramos.
quero te mostrar a casa.
quero te mostrar a vista.
(quero que você me pegue de frente para a paulista).
quero que você me encoste no sofá.
quero que você percorra sua mão em mim.
eu encosto, você vem.
e me abre lentamente as pernas.
ou fui eu que abri, não sei.

meu vestido sobe, eu subo.
você sobe sua mão e me encontra.
(sem calcinha, como sempre).

e você me descobre molhada, pulsando.
e eu descubro como é ter suas mãos em mim
se molhando.

eu gemo baixinho.
você me beija. não para.
e gemo de novo. você respira.  me põe
na parede, me vira.
me abraça por trás e me espreme.
você adora paredes.
e eu adoro você me cercando.
adoro te sentir tentando
ultrapassar essa sua calça.

segura com a mão os meus seios,
outra mão nem sei onde está.
é seu corpo meu corpo a sua mão o meu peito
e a parede lá.

estou na ponta do pé e ainda subo.
dar altura em você, me encaixar.
mas eu viro de novo, meus seios
saltam do vestido, não querem esperar.
você mergulha neles, apnéia.
mas sou eu que fico sem ar.

me recomponho.
mas só pra gemer de novo.
seguro sua cabeça com a mão
e com a outra eu te procuro.
e te encontro. pronto e duro.
subo as mãos debaixo da camisa,
o seu peito, a sua barriga.
me deito de pé no seu corpo.
e vou descendo.
descendo.
(e você rouco)
descendo.
respirando você
e descendo.
beijando sua pele
e chegando.
e descendo
até que chego.

abro o zíper com cuidado.
quero olhar pra cima e te ver
mas não posso, não consigo:
eu tenho um objetivo.
te sentir em minhas mãos.
e beijar. te encostar no meu rosto.
e lamber. sentir o teu gosto,
e você. crescendo.
crescendo, e você gostando.
quero gemer mais um pouco,
mas não posso, não consigo:
minha boca está ocupada contigo.

você me para. me puxa.
me põe de volta na parede.
prende minhas mãos no alto.
segura na minha nuca. me beija.
respira na minha boca.
sua calça desce nas suas pernas.
enquanto eu escorro nas minhas.

quero continuar o conto
quero te encontrar num canto
hoje, agora, quando?

quero gozar com você
quero te fazer gozar
como se o tempo parasse.
e vai parar.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste à um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

 

 

As mulheres direitas

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Trabalhar com direitos humanos não é nada fácil, ainda mais em tempos de bandido bom é bandido amarrado em poste, mimimi cadê direitos humanos pra defender os homens de bem, mimimi se está com dó leva pra casa, blábláblá wiskas sachê.

Mas confesso que as amostras de ignorância da #classebrancadericosecultos nada são, perto da revolução que somos obrigadxs a fazer em nós mesmxs.

Eu comecei a atuar no terceiro setor há sete anos e mais diretamente com direitos (ambientais, humanos e não humanos) há pouco mais de cinco anos, quando aderi voluntariamente ao Movimento Nossa BH.

Até então, me orgulhava profundamente de tudo que tinha “conquistado” na vida. Em que pese eu ter nascido de uma verdadeira TFM (ahhhh, a famosa Tradicional Família Mineira…) e vivido quase trinta anos em um dos bairros mais tradicionais de Belo Horizonte, batalhei um bocado para conquistar minha autonomia financeira. Trabalho desde que me entendo por gente e necessito de dindim para tomar brejas e pagar meu cigarro.

Já lavei cachorro pra ganhar trocado, fui cuidadora do meu próprio avô durante quatro anos (com direito a meio salário e uma rotina considerada pesada para uma adolescente de 15 anos, que chocou alguns médicos que o examinavam), fui vendedora de bebidas (aeeeeee!)  de peças para equipamentos pesados (ok, antes eu também chamava de trator, pode chamar também), até conseguir cursar a faculdade com vinte oito anos de idade, pagando do meu bolso ao mesmo tempo em que morava sozinha, cuidava de dois dogs, dormia no máximo quatro horas por dia… a partir daí entrei para o mundo da comunicação, depois para o terceiro setor e aqui estou. Sou uma vencedora? Acreditava que sim. Uma guerreira! =p

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Uma pausa para entenderem aonde quero chegar. Como atuo com comunicação, passo boa parte do dia analisando notícias e posts nas plataformas digitais (pausa dentro da pausa pra explicar – sim, twitter, facebook e similares NÃO SÃO REDES SOCIAIS, são plataformas. Rede é aquilo que formamos e fomentamos dentro e/ou fora dessas plataformas e sou virginiana o bastante para detestar que chamem a ferramenta pelo uso que podem – ou não – fazer dela. Ufa).  E analisar o discurso dos internautas é prato cheio para compreender o pensamento vigente e os preconceitos naturalizados pelo sistema que nos cerca e nos estrutura.

Ontem me chamou a atenção o discurso de um amigo sobre sei lá quem (não consegui ler o resto do post, me ative à primeira frase).  Ele afirmava que admirava mulheres bonitas que não se escoravam nisso para fazer sucesso. Consciente ou não, seu objetivo era elogiar as mulheres da sua timeline que batalham e conquistam suas pequenas alegrias materiais do dia a dia com o suor (?) do seu cérebro ou do seu corpo, desde que não seja na posição horizontal, papai-e-mamãe etc.

No mesmo dia, vi o comentário de amiga de amiga (não me xingue, Niara, eu já consegui parar de ler comentários em sites, mas no twitter e no facebook ainda não foi possível) dizendo que admira as poucas mulheres direitas “que ainda prezam pela sua imagem” e não se vendem ao mercado e – ponto alto -  que é culpa dessas aí que se vendem estarmos todas “na vitrine”,  pois os pobres homens acabam acreditando que todas são iguais e querem se vender. (escorreu uma lágrima no canto do olho de dó dos machos alfa, como ela os apelidou).

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Recapitulando, nada é mais dolorido e ao mesmo tempo enriquecedor do que a revolução que fazemos em nós mesmxs quando trabalhamos com direitos. Eu posso não mudar o mundo, mas tenho consciência que a Adriana de hoje é completamente diferente da jovem que limpava a bunda do seu avô sonhando com o dia em que seu príncipe encantado a resgataria e a levaria para morar numa fazenda no meio do mato cheia de cães, cavalos, galinhas, onças e tigres(era meu sonho, dá licença? =p).

Lendo essas pérolas, fiz uma viagem ao passado. Eu sou branca, cis, magra e com carinha de francesa que acabou de chegar de Paris, como dizia minha saudosa mãe.  O quanto isso influenciou as minhas “vitórias”?  Quantas vezes um contratante não se deixou influenciar pela imagem do padrão “certo” que eu refletia? O quanto meus gerentes, professores, colegas não compraram inconscientemente meu corpitcho? Não sei dizer. Não tinha parado para pensar nisso, só me incomodava quando ultrapassavam o sinal e o assédio acontecia.

O sistema patriarcal é muito escroto. Por um lado impõe um culto nefasto ao corpo feminino, negando a quem não se submete as regras oportunidades diversas. Mas se a mulher resolve usar isso como meio para alcançar seus objetivos é repudiada. Não sejamos ingênuxs, né? Todas somos avaliadas constantemente pela nossa aparência física. Hoje eu tenho plena consciência que meu biotipo me proporcionou privilégios negados constantemente às que fogem do padrão. Então que, sinceramente, eu dispenso de bom grado elogios de como venci (?) pela inteligência e não usando a beleza, pois  isso independe de mim.  Merece elogio quem, a despeito do sistema e do preconceito que ele dissemina, conseguiu vencer apesar de não se encaixar no modelo imposto.

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Devemos também parar de jogar pedras em quem usa seus atributos físicos para ganhar dinheiro. Ela só está dançando conforme a música, e, muitas vezes, mudando o tom sem que o autor perceba. Não é responsabilidade da mulher que opta livremente por expor seu corpo – e, consequentemente, ganhar algo com isso (que pode ser dinheiro, poder ou simplesmente um beijinho na autoestima) – a opressão que nos cerca. Não fomos nós que criamos o sistema, ele está aí e questioná-lo é válido, mas reverter a lógica do opressor usando-a ao seu favor também é uma forma de luta. E isso parece incomodar muito mais do que a mulher que “usa a inteligência para vencer” (como se as demais não usassem, neah? hahahaha) Só lembrar da campanha para combater o preconceito com profissionais do sexo, barrada pela gritaria da bancada evangélica que esperneou ao pensar em uma prostituta feliz.

Imagine o pensamento:

(Como? Eu crio e alimento um sistema para humilhar, mostrar o quanto a mulher é inferior, um objeto descartável, você se empodera por meio dele e ainda tem a audácia de gritar que é feliz? Assim não pode, assim não dá! )

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Confesso, eu não tenho respostas para mudar a lógica do sistema, só questionamentos. Mas tenho indícios do que não fazer. Negar a realidade é um deles. Julgar pessoas e não culturas/ processos/modelos/estruturas é outro.  E parar de questionar cada pensamento que nos surge é a pá de cal na revolução que precisamos fazer nesse mundinho machista, homofóbico, racista e classista dos infernos.

Bora biscatear e sambar na cara da sociedade. Com direito a beijinho no ombro das universitárias de plantão! =D

 

adriana torres*Segunda vez que Adriana Torres, essa bisca convidada ingrata, escreve por aqui, devendo muito mais do que dá conta de pagar, mas a gente finge que entende porque tem filhote de um e meio, cinco cachorros, duas gatas, trabalha de frila em frila, tem três trampos voluntários e ainda arruma tempo pra ler comentários no facebook.  Oh dó! =D

Minha Mãe Biscate

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Seis de  março.

Você acordaria cedo, mãe, (como acordava todos os dias de sua vida, nunca entendi o motivo) e faria o café já pensando no lanche que serviria para as “meninas” (suas amigas e irmãs eram meninas para você, não importa com qual idade estivessem) em comemoração aos seus setenta e um anos de vida.

Provavelmente, entre um cigarro e outro, entre um telefonema e uma “paciência”, puxaria da memória alguns dos diversos momentos que marcaram sua caminhada. Tropeços? Vitórias? Perdas? Não importa. A cada lembrança, resgataria uma música que representasse a cena…

Poderia ser sobre seu relacionamento com meu pai, e com certeza sairia um “Solamente una vez, ame en la vida…”, para logo depois levantar a sobrancelha, estreitar os olhos num ar de desafio e berrar para todos os vizinhos ouvirem: “Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar nem mesmo assim as pazes contigo eu farei…”

Com lágrimas nos olhos lembraria da sua filhinha, Patrícia, que morreu tão jovem, com apenas sete anos de idade e transformaria o canto em um lamento de dor com a valsinha que fez para ela: “… era ela linda, uma jóia uma rosinha em botão, quando partiu levou junto pedaço do meu coração…”

Mas logo estaria novamente dançando e sorrindo, cantando até acordar quem se atreveu a ficar mais tempo na cama: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

Você levou a vida cantando, biscateando e sambando na cara da sociedade. E essa lembrança me acompanha a cada dia, mesmo após quase seis anos de sua partida para o mundo de lá.

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Tinha tudo para ser apenas mais uma madame da high society, mas quis o destino pregar-lhe uma peça de horror e você, com seu atrevimento, com seu orgulho e – porque não? teimosia – transformou sua vida em um exemplo para mim.

Quando a Patrícia morreu, seu mundo dourado desabou. Você tinha mais do que o necessário, material e emocionalmente falando. E, mesmo assim, agarrada ao túmulo de sua filha, ainda gemeu dizendo que agradecia a Deus não ter levado seu marido, seu grande amor, a razão de sua existência…

Ah, tolinha. Um pedaço dele se foi com a pequena Kika. E ele não conseguia ter a sua força, a sua incrível capacidade de se reinventar. Entregue à bebida e ao carinho de outras mulheres, a cada dia destruía o amor que construíram com o menosprezo, com agressões, com seu machismo.

Quando você mais precisou de sua presença, do seu amor, ele não deu conta, mãe. E você não deu conta disso também. Não era justo. Não era nem um pouco justo.

O divórcio foi o início de sua vida biscate, não é mesmo, minha mãe? Você, que nunca trabalhou na vida (para que, dizia ele? Eu sou diretor de empresa, temos dinheiro, você não precisa trabalhar, cuide de nossa família…) se viu com alguns trocados por mês e quatro filhos para criar.

Só, profundamente só. Familiares lhe desprezaram. Amigos. A tal high society. Divórcio em uma TFM? Horror, horror, horror! Era preferível manter a aparência, mulher direita não separa!

Você sambou na cara deles e foi em frente, com a cara e a coragem.

Fez o supletivo e por poucos pontos não conseguiu entrar na faculdade de direito, seu sonho. Enquanto isso, fazia bicos como chofer do pai, entregando marmita para os novos amigos, trabalhando aqui e ali, quando os filhos deixavam, quando a vida deixava.

Mas a vida biscate não se resumia aos freelas. Deve ter sido por ter virado uma biscate que o ginecologista, sem sequer examiná-la, ao saber que era uma mulher separada afirmou que você teria uma perigosa doença venérea. Ainda bem que a Tia Olga levou-a a outro médico, para provar que era “apenas” machismo, né?

Também deve ter sido pelo seu lado biscate que o marido da vizinha resolveu começar a tocar a campainha lá de casa nas madrugadas, com a esperança de receber algo mais da “nova desquitada” da cidade.

Foram muitos casos, muita mágoa, mas também muita diversão. Ah, sua biscatagi era a salvação da rotinha massacrante de criar quatro filhos contando cada centavo, arrumando um trabalho aqui e ali, sem deixar de sonhar, de cantar, de sorrir.

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Dos diversos namoros, das desilusões, das cantorias e do dia a dia, você foi construindo pérolas, que transmitia diariamente para suas crias:

“Nunca case virgem. Sexo é 50% do casamento e você deve gostar de fazê-lo com seu marido. Como saber se será bom se você não conhecer antes?”

“Mulher deveria se valorizar mais. Casa com qualquer coisa, nunca vi. Só não casa com carrapato porque não sabe o sexo, senão casava!”

“Filhos, marido, amigos, todos são muito importantes na vida. Mas lembre-se: em primeiro lugar deve estar você; em segundo lugar, você e em terceiro lugar, você. Ninguém pensará nessa ordem ao seu respeito.”

“Acha fulano muito bonito para você? Lembre-se que ele caga, faz xixi, tem dor de barriga igualzinho a você. “

“Faça da vida o que quiser, mas tenha sua carreira e não abra mão dela. NUNCA, NUNCA DEPENDA DE UM HOMEM” (essa eu grifo pois era uma frase recitada diariamente, como um mantra).

“Não seja como eu. Não se deixe levar tanto pelo coração, use a razão. Ela não vai lhe deixar na mão.”

(Essa última eu fracassei redondamente, D. Inês. Desculpa aí. Ou não).

Sua biscatagi a fazia sonhar em desfilar algum dia pela Mangueira, com um biquíni bem pequenino, não importando se seu corpo não cabia nas métricas da sociedade. Sua biscatagi nos levava em serenatas, butecos diversos, reuniões festivas sempre acompanhadas pelo seu violão, que hoje me observa do cantinho, meio amuado, já que não tenho seu talento para dedilhá-lo…

Não gosto de lembrar das suas atitudes machistas. Elas faziam parte da sua criação. E ainda faz parte da cultura da maioria das mulheres, afinal, o sistema patriarcal é o que nos estrutura. Você privilegiava nosso único irmão homem dispensando-o de tarefas domésticas e isso me deixava realmente injuriada. E as frases machistas eu preferi apagar da memória, memória essa que sempre se torna seletiva após a morte.

Eu gosto de pensar sempre na sua parte melhor. É o que fazemos quando os que amamos se vão e ficam ao mesmo tempo.

Eu prefiro lembrar da minha mãe biscate.

Cantando, de sobrancelha levantada, sorriso irônico no rosto e a voz melodiosa explodindo por todos os cantos da casa:

“Não me venha falar na malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim. Cale a boca e não cale na boca notícia ruim. Você sabe explicar, você sabe entender tudo bem. Você está, você é, você faz, você quer, você tem. Você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir…”

Feliz aniversário, D. Inês! <3

(mais textos biscates sobre mães: “Para além de mãe e filho“, “Mãe, Feminista, Biscate, Perguntadeira, Operárix em Construção“, “Mãe-objeto“).

adriana torres*Segunda vez que Adriana Torres, essa bisca convidada ingrata, escreve por aqui, devendo muito mais do que dá conta de pagar, mas a gente finge que entende porque tem filhote de um e meio, cinco cachorros, duas gatas, trabalha de frila em frila, tem três trampos voluntários e ainda arruma tempo pra ler comentários no facebook.  Oh dó! =D

O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

Óculos de aro grosso

Por Danielle Castro*, Biscate Convidada

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Era uma vez Juliana. Era a mulher-ombro. Suportava todas as dores do mundo. Suportava todos os choros. Suportava cada grito ao seu redor. Suportava tudo. Calada. E parecia ser um muro bem forte. Um dia conheceu Francisco. Francisco era de manteiga, mas a embalagem era de concreto. E dizia a Juliana que ela queria só ser forte, mas que nem era tanto assim, embora parecesse gigante quando olhava por cima dos seus óculos transparentes de aro grosso (bem grosso, que era pra combinar com sua figura de muro). Daí que Juliana viveu longos dias ao lado de Francisco. Ouviu Francisco. Fez Francisco (homem de coração mudo?) falar. Aí Francisco descobriu que era de fato de manteiga com embalagem de concreto. Mas aí ele já sabia que era só embalagem mesmo. Pro mundo ele poderia ser só embalagem. Pra Juliana, não era mais. Nem precisava, que manteigas com embalagem de concreto se entendem. Até que chegou o dia de Francisco seguir sua vida. Juliana também. Juliana e Francisco não se amavam mais como casal, mas seguiram se amando como pessoas.

Juliana, então, decidiu que era hora de brincar. Passou toda a vida sendo sisuda, suportando, sendo muro das lamentações alheias (mas como ela amava ouvir os outros…! Era de coração mesmo que o fazia.). Bastava: hora de descer pro play! Juliana conheceu Antônio. Antônio não parecia grave. Não fazia questão de parecer. Antônio parecia uma fragilidade ambulante. Antônio era só docilidade, era lindeza de alma, era leveza de passarinho. Antônio poderia passar horas só vendo Juliana através de uma telinha à distância, só mesmo para vê-la. Juliana também. E Juliana gostou disso. E Juliana se sentiu absurdamente cativada por Antônio, essa pessoa que derramava encantos pelos dedos, olhos e ouvidos. Acontece que Antônio achou os buraquinhos do muro das lamentações. Pingou muitas gotas de doce. Pingou tanto doce, que o muro, encharcado, transbordando doçura. Juliana sucumbiu. Juliana não conseguia mais brincar. Porque brincar é festa, mas Antônio só gostava de festejo cheio de gente e Juliana concentrava toda a sua brincadeira em Antônio. Antônio era os braços pra onde Juliana queria ir. Ela saiu correndo, pulou o vento, saiu na chuva, se molhou, abriu os braços pra Antônio. Mas Antônio não. Antônio tinha duas mãos. E achava Juliana legal, mas não o suficiente para um abraço de verdade (tanta gente pra abraçar? Desperdiçar um abraço inteiro com Juliana?!). Só abraço de brincadeira. Abraçou Juliana, mas só de brincadeirinha. Daí que um belo dia Juliana, num desses saltos e corridas na direção de Antônio, olhou bem fundo (não viu os olhos de Antônio), abriu os braços, deu um impulso forte (Antônio não deu. Só um pulinho.) e começou a se desequilibrar. Suas fundações começaram a ruir pouco a pouco. E o muro desmoronou com poucos empurrões. Antônio, doído porque o muro não parecia mais ser tão bonito, resolveu passar em cima do muro. Pisou no muro. Estava irritado com o muro, porque não podia mais brincar com ele.

Daí que Juliana, muro quebrado, começou a perceber que gostava, como diria o poeta, “de pés livres, mãos dadas e olhos bem abertos”. Antônio não dava as mãos. Francisco as dava, mas não tinha os pés livres. E Juliana decidiu que a partir daquele momento, os pés livres seriam os dela. As mãos dadas seriam as das pessoas que gostassem de mãos dadas. Dadas de verdade. Não de brincadeira. E os olhos bem abertos, esses seriam os faróis. Seus próprios olhos. A olhar pra frente. Seus olhos-faróis, por cima dos óculos de aro grosso.

convidadabiscate *Danielle Castro, nordestina do meio-norte, da ilha de São Luís do Maranhão. Mulher, professora, filha, irmã. Mergulhada com os dois pés na arte do mundo. Equilibrista nas horas vagas. E nas outras horas também. Quer seguir no FB?

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