Basta um fio de luz para um quarto escuro não ser mais o mesmo

Por Fred Caju*, Biscate Convidado

quarto escuro

Três noites foram o suficiente para Ângela perceber como era a respiração do companheiro dormindo ou acordado. Por isso não hesitou ao disparar no escuro.

Cícero, por que você demorou tanto?

O homem tentou fingir o sono, não por maldade, mas por achar que a mulher falava enquanto dormia.

Por que, Cícero?

A insistência, porém, dissipou as nuvens da dúvida.

Tirou o acúmulo de ar dos pulmões e aproximou o nariz dos cabelos da companheira. O mesmo cheiro aprisionado de trinta anos atrás.

Não te entendo, querida.

Sempre gostamos um do outro. Mas continuamos por muito tempo deixando o não-dito dar a linha entre nós. Uma palavra e poderíamos ter ficado juntos antes, Cícero.

Estamos agora, querida. Estamos agora.

Olha nossos corpos, Cícero. Falou olhando para o teto como se ali tivesse um espelho e as luzes estivessem acesas. Éramos tão lindos. Tão jovens. Poderíamos ter incendiado o mundo.

Ainda somos, querida. Ainda podemos.

Na juventude você me disse não quando eu cansei de ter que amar sem tocar. Por que só agora?

Não te entendo. O tempo não nos degenerou. Você teve muitos homens, eu também tive algumas mulheres. Ganhamos experiência enfrentando barras e mais barras, assim como já sabemos o que é a felicidade. Hoje podemos ter toda a serenidade para o amor.

E os nossos corpos, Cícero? Eu sei, você nunca ligou pra isso. Mas você sempre soube que eu me importava. E ainda assim não o quis enquanto ele era jovem. Isso não é amor: é um requinte de crueldade da sua parte.

Suas mãos deslizaram no peito de penugem grisalha do homem. Sentiu que dali não sairiam mais palavras. Era o seu carinho de misericórdia.

Você não sente? A espera da morte é mais longa que a juventude. Essa é subversão do tempo contra a pretensão dos homens em marca-lo através do calendário. Eu não posso mais esperar, meu amor.

Os olhos do homem travaram no espelho imaginário do teto. Via-se pela primeira vez velho. Um fiapo de luz iluminou o quarto seguido da batida suave da porta. Estava só.

caju*Fred Caju é nordestino. Poeta. Editor do Castanha Mecânica. Curador do Cronisias. Com letras sumarentas que nos escorrem pelo canto da boca e, vez ou outra, deixam um travo, como a fruta que evoca. Pra gente não esquecer que letra é vida. Querendo mais, tem disponível na net o audiolivro do Arremedos de um dado viciado e os livros pro kindle: Arremedos de um dado viciado e Sumo de ranço.

Não me Arrependo

amor de índio

Amor, eu não me arrependo de você. Não me arrependo do tempo que esteve na minha vida, não me arrependo de ter dado oi naquele aplicativo de pegação, não me arrependo do seu seu cheiro, não me arrependo do seu beijo, do seu corpo suado junto do meu. Não me arrependo da sua mão que subia pela minha perna, entrava na minha bermuda e pegava no meu pau no fundo do ônibus. Não me arrependo do sorriso safado. Não me arrependo da pouca grana, de ter me doado. Não me arrependo de te convidar pra morar comigo sem te conhecer direito. Não me arrependo das brigas, das mancadas dos desentendimentos.

Sim, eu não me arrependo. É, claro, ás vezes me pego pensando “e se eu tivesse agido daquele jeito e não daquele”? Se eu tivesse ligado? Seu tivesse mandado mensagem?  Será que ainda estaríamos juntos? Eu sei, amor, é apenas um exercício de imaginação. Não dá pra saber o que teria sido, sabemos apenas o que fizemos. E, sim, ás vezes acho que foi culpa sua, ás vezes acho que foi minha, mas daí lembro que não há culpa, nem desculpa, fizemos da nossa vida juntos  o que foi possível.

Outro dia aqui em casa entrei no quarto que era nosso e foi como se uma onda de memória me tomasse. Lembrei de quando chegava em casa cansado , entrava no quarto e te via dormindo. Era como no clichê  dos apaixonados porque parecia que o mundo parava naqueles segundos em que eu te olhava. E eu só saía desse estado de apaixonamento pra te beijar. Você nem se mexia. Foi assim durante meses.

Mas acabou. Assim como esse texto.

 

maycon

 

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Fica a Dica

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Há alguns dias descobri que um amigo da família está com mal de Parkinson. Ele não deve ter 50 anos, tem filhos dos quais só se tem notícia de que são seu orgulho, vive um casamento aparentemente feliz de muito tempo. Uma pancada dessas levanta questões sobre a justiça da vida. Bom, minha conclusão, já de há muitos anos, é que não existe justiça ou injustiça nos acontecimentos que nos atropelam. Não dá para viver esperando que nossas ações nos trarão alguma recompensa neste ou em algum outro mundo. O máximo que dá para fazer é: viver, amigos e amigas. #ficadica

dica

Tenham orgasmos, sozinhos ou acompanhados, por uma ou mais pessoas, do mesmo sexo e/ou do oposto. Gozem por onde vocês quiserem. Mas estendam a gentileza de ter suas vidas sexuais fora do controle público aos outros. Não odeie nem ensine a odiar. O que você ganha com isso? Não odeie nem mesmo o Felipão, que convocou o Henrique no lugar do Miranda. Já que falamos de Copa: torça se quiser, grite se quiser, festeje se quiser. Mas não dirija ressentimento a quem quer se fazer ouvir e ter seus direitos assegurados mesmo nesta hora. Não me venha com o papinho de “odeio o pecado e amo o pecador”. Esse não cola. Não se importem com a opinião dos outros. #ficadica, again

dica

Dêem o braço a torcer, caramba. Apesar do que a expressão possa dar a entender, não dói. Deixa eu contar um segredinho: aquele chefe daquela empresa na qual você se mata de trabalhar está cagando e andando para você. Dêem um jeito de serem felizes. Se preocupem menos com regras gramaticais e mais com fazer do mundo um lugar do qual quem vier depois de nós não sinta vergonha. Estejam prontos para redescobrir o amor aos 30, 40, 50. Diabos, estejam prontos para redescobrir o amor aos 60, como minha mãe acaba de fazer. Não sejam tão duros com o funk. Mordam mais bochechas. Vejam mais filmes de artes marciais da Tailândia. E saibam que, quando a hora chegar, a única coisa que a gente vai querer por perto é um montão de gente querida pra dizer: “mas já vai? fica, vai ter bolo”.

PS: quando chegar a minha hora, eu quero que o meu caminho para o crematório seja feito desse jeito aí. Se virem ;-)

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prado*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

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* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

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Imagem pescada do Blogueiras Negras

É bem legal dizer que a gente é feminista desde criancinha, que a pataquada do patriarcado nunca nos convenceu, que a rebeldia esteve sempre presente em nossas veias, que nunca atendemos às ordens de fechar as pernas, sentar eretas ou deixar os meninos falarem primeiro. Sério, é BEM legal. Mas, na maior parte das vezes, isso é só uma parte da verdade. Não tem nada a ver conosco, ou com as nossas memórias, nem são mentiras para parecermos mais cool in the feminist world. Tem a ver com o fato de que nascemos imersos numa cultura patriarcal. Com o fato de que ela nos forma, informa e enforma. Se alguém levanta do dedo e diz: “não, comigo foi diferente”, deve lembrar que é um, que isso não é o coletivo, e que as exceções, quase sempre, estão aí para confirmar a regra.

Tornar-se feminista é um caminho longo, cheio de curvas, cheio de auto percepção. Não raro com brigas violentas, com os outros, consigo mesmx. Todas as nossas informações sobre o mundo estão construídas e alicerçadas em séculos dessa cultura centrada no masculino. Estes séculos viajam desde a teoria do sexo único (há o macho e um macho deformado chamado mulher) dos gregos e que até hoje está presente em nossa linguagem quando usamos o homem como sinônimo de humanidade. Passam pela origem do pecado: teu nome é mulher. Chegam ao mundo do sexo binário, em que o feminino (fé menor) é visto como mais frágil, mais fraco, mais indolente (claro, porque ter 19 filhos em sequência é moleza). Todos esses discursos reduzem à biologia elementos que são culturais. Todos esses discursos trabalham no sentido de crescermos acreditando que todas as diferenças com que o mundo trata os homens e as mulheres são óbvias e naturais.

É comum ouvirmos em resposta: “as mulheres têm filhos. Ponto.” Como se isso fosse explicação suficiente. Não é. As fêmeas terem filhos é um dado biológico, no caso dos humanos, porém, todas as construções feitas a partir daí terão traços culturais. No que se releva, no que se hierarquiza, nas formas social e culturalmente endossadas e valorizadas de comportamento. As comparações com fêmeas animais (muitas vezes até “melhores” que as humanas), nesses discursos, têm igualmente o mesmo objetivo, acomodar à biologia – usada como argumento inquestionável (?) – toda a história humana, com sua evolução, diversidade, recriação, reorganização, mutação. Pior, em muitos desses discursos, toda a diversidade da natureza é apagada para se recolher apenas aquilo que pode ser usado para referendar um padrão feminino e ocidental, cuja criação tem cerca de 2 milênios de história e uma “rigidez” de menos de 200 anos.

Criadxs sob esta lógica, tornar-se feminista é contracultura. Nesse sentido, infelizmente, não basta vivência ou experiência. O feminismo como uma meta nos exige reflexão, reconstrução e, quando possível, formação. Já ouvi muitxs jovens dizerem: eu acho legal o feminismo, mas não me sinto capaz de dizer que sou feminista porque não conheço o suficiente. Numa palestra que ministrei, comecei com: “vocês devem ter algumas dúvidas…” O pessoal balançou tão enfaticamente a cabeça que reconsiderei meu algumas.

Nessa mesma ocasião, recebi a seguinte reclamação: “a gente tenta perguntar, mas muitas feministas debocham da gente, das nossas dúvidas”. Identifiquei-me imediatamente nos dois lados da questão. De um lado, essa escalada difícil contra a cultura hegemônica, essas dúvidas que envolvem questionar (muitas vezes) a mulher que mais admiramos e nos espelhamos: nossa mãe e a vida que ela levou. Essa dificuldade de se colocar contra pais, patrões, namoradxs, contra o “mundo todo”. É difícil sim, não se pode fingir que não é. Perceber isso não é afirmar uma guerra ou buscar culpados, é entender as regras do jogo como estão postas. A contracultura das diversas correntes do feminismo quer mudar o jogo todo, mas antes é preciso modificar as peças e aí está a outra dificuldade. A auto modificação leva tempo e causa dores, secreta raivas, afunda tristezas. Num dado momento, olhar para quem ainda não andou esse caminho é como se nos víssemos mais uma vez, aceitando o que nem de longe aceitamos mais.

Como elxs não notam tudo o que está errado? Simples, da mesma maneira que um peixe que nasce na água salgada (mesmo que metaforicamente possa viver na doce) não sabe a diferença entre uma e outra. Não acha que a água salgada lhe pesa, pois ela sempre esteve ali, sempre foi daquele jeito e há uma grande quantidade de peixes dizendo que a natureza é assim e que querer a água doce é loucura de peixas mal amadas que odeiam o mar inteiro.

Não, nem de longe eu imagino ter todas as respostas sobre o feminismo. Acho que nem quero ter. Por isso mesmo, sempre que ouço qualquer pergunta, lá vou eu tentar me pensar, me perguntar; ver se, onde e como essa dúvida me corrói e, claro, buscar informações para responder. Isso porque, dada a minha experiência bem limitada de humana, nem todas as questões da cultura se puseram para mim. Não posso, de onde estou, olhar tudo e dizer que sei como se deve agir nessa ou naquela situação. Assim, creio, ainda estou no processo de tornar-me feminista, como todxs estamos, pelo simples fato de que continuamos a pensar e a responder as questões que o mundo e cultura nos propõem. E essas questões podem ser antigas ou mudar todos os dias.

Quando Simone de Beauvoir falou em tornar-se mulher, ela falava dessa imersão que nos informa e forma. Como não estamos imersos no feminismo, é natural que esse tornar-se seja mais longo, mais difícil e caudaloso. Provavelmente, sequer possa ser terminado por qualquer pessoa nessa nossa estreita passagem nesse mundo. Até lá é perguntar muito. Questionar(-se) o tempo todo. E, quando possível, responder as tantas dúvidas de quem está começando a mesma escalada que a gente.

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Bissexuais

Por J. Oliveira, Biscate Convidada

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Entre beijos, abraços, apertos, carinhos e gozos nunca fui boa em escolher. Paixões se fizeram assim sem pedir licença, quando me dei por conta já tinha acontecido. Desejava e amava mulheres… também. E sem esperar vieram também os rótulos e os preconceitos embutidos.

Sapatão. Hétero. Indecisa. Vive em cima do muro. Mentirosa. Promíscua. Tá no armário. Mas você tem mais opções. Você precisa avisar antes. Nojo. Eu devo ter medo de você? São os bi que transmitiram a aids para os héteros. Quer pegar todo mundo né? Mas ninguém como você quer um relacionamento sério, certo? Mas qual você prefere? Como posso confiar em você? Sua vida á mais fácil, você pode ser hétero. É só uma fase. Vocês são mais evoluídos. Só vou se o lugar for 100% gay. Claro que você é não-monogamica, todas vocês são. Que tal você me apresentar um amiga sua pra transar com a gente? Mas já estamos falando de lésbicas, não é o suficiente?

não. Não. NÃO. E NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Podia dizer apenas que gosto de pessoas e cair no clichê. Mas é mais do que isso. Ninguém controla por quem se apaixona, ou sente desejo, ou ama, sabe? Ninguém controla a própria felicidade e satisfação em um relacionamento. Esses limites se fazem sozinhos. E por um acaso não é o gênero que delimita isso tudo pra mim. E isso vale para todes nós bissexuais e pansexuais.

E não é nenhuma escala kinsey que vai determinar isso. Até porque essa tabela é binária e eu preciso dizer: os gêneros não são.

Desejos também não são, amor também não é. E dai que cada um de nós encara essa afetividade e sexualidade de uma forma. A gente se sente diferente, se atrai diferente, se relaciona diferente. Não me encaixo na sua caixinha? Te decepciono? É a vida. Não queria ter também que lidar com essa discriminação toda, mas não espero aceitação de ninguém pra eu ser eu mesma.

É triste ter de viver pedindo desculpas por algo que a gente não tem controle, por algo que faz parte da nossa essência. E que define a forma que a gente se relaciona com o mundo.

Não escutem essas merdas todas. Não aceitem nada menos do que respeito. Se juntem. Se fortaleçam. Resistam. E continuem amando, trepando, beijando e abraçando sem culpa. Sem deixar que os outros rotulem o que é válido pra vocês ou não.

Vocês não estão sozinhes.

jussaraJ. Oliveira se sabe, se diz: contradição em pessoa. Aventureira inconstante e amante suicida. Pequena. Mas faço estrago.

Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Entre Braga e Nova York: Variações de um queer português

Por Mayra Resende*, Biscate Convidada

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A primeira vez que ouvi António Variações me veio careta e risada. Perguntei: isso é sério? Ele fez sucesso? E aí, como tudo o que me vem causando estranheza ultimamente, resolvi deixar a curiosidade conduzir uma descoberta incrível. Variações talvez pudesse ser definido como uma mistura de Amália, a fadista-diva (para ele, diva-fadista), com a performatividade autêntica de quem não se abate pelo olhar moralista, e uma boa pitada de espírito Faça Você Mesmo porque, se for pra esperar, morro sem mostrar pra esse país o que preciso expressar. A melhor definição, entretanto, é a de si mesmo: dizia que era qualquer coisa entre Braga, cidade de origem, e Nova York, metrópole cosmopolita de espírito variante, tal como o nome artístico que levava.

Um oceano inteiro de distância entre a aldeia que nasceu no norte de Portugal o a metrópole-selva-de-pedra estadunidense dá uma ideia das rupturas que teve ao longo dos seus 39 anos vividos. Cresceu em meio ao trabalho da terra, ouvindo o pai tocar cavaquinho e acordeon, atiçando os ouvidos de menino que se encantava pelas romarias e expressões folclóricas. Mudou para Lisboa aos doze anos, seguiu como militar para Angola e de lá soltou-se pelo outro velho mundo de Londres e Amsterdã, retornando para Lisboa  onde trabalhou como cabeleireiro no primeiro salão unissex de Portugal. Foi ali que escolheu o Variações incorporado como pseudônimo daquela persona cujo nome “sugere elasticidade, liberdade”. Se definia como uma pessoa que não se limitaria em um estilo nem para o que cantava, muito menos para o que seria (mais informações biográficas aqui)

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Nessa profusão de experiências, imagina só: Portugal, mais de 40 anos de Ditadura chega ao fim em meio a cravos e esperança, espectro conservador ainda pairando no ar. E aí surge um cabeleireiro, munido de tesoura e uma K7 caseira, apaixonado pelo fado e cantando amores queer. O tempo de dois discos, a primeira morte de um lusitano famoso em decorrência de complicações pelo HIV.

 “Canção do Engate”, lançada dez anos depois do 25 de abril que oficialmente coloca fim na Ditadura de Salazar, fala de amor como há muito não lia. Expressa, pela canção, a tensão do amor entre dois homens, em meio à aventura dos sentidos:

 Canção do Engate (1984) -

Tu estas livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

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Dois anos antes do lançamento de Canção do Engate, a homossexualidade em Portugal ainda era considerada crime. Variações não rompe somente com a estética moralista por meio das roupas e cores que se apresentava para seu mundo, mas também com o espectro opressor do passado em que cresceu. Expressa seu desejo sexual em meio a uma democracia ainda nascente, tematizando as tensões entre amor e sexo, ao falar dos encontros descompromissados, mas intensos em duração:

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te das

“Eu nasci no tempo errado”, dizia. Com a urgência que pulsa de dentro, talvez o tempo errado de Variações tenha sido o tempo certo para mostrar o quão atrasado aquele tempo estava. A canção rock e pop portuguesa não foi mais a mesma. E nem sou eu quem digo. O legado de três anos de carreira e dois discos ainda gera lindas releituras e inspirações. Um português, como lá dizem, com canções a não perder!

Uma versão de Tiago Bettencourt para Canção de Engate:

 

De pijaminha e ursinho na TV:

Texto inspirador (agradecimento pela indicação à amiga conterrânea de Variações, Catia Ferreira): Queer Interventions in Amália Rodrigues and António Variações.

523512_740147959334223_1070089815_nDiz, sobre si, Mayra Resende: Se onde nasci ajuda a me definir: sou do planalto central, Brasília céu no horizonte, pôr-do-sol toca o chão. Se o que estudo ajuda a me definir: sou socióloga de formação, mas a paixão mesmo é por cultura – oral, escrita, desenhada, cantada, tradicional, quente, fria, seca, crua. E um certo encanto pelo que não entendo e não uso, mas acho lindo, tipo, mapas.

Carta resposta para um amor biscate

Por Luiz Welber*, Biscate Convidado

Qualquer lugar do mundo, hoje ou qualquer outro dia.

Querida amada biscate,

Uma carta feita de saudades. Sinto saudades. Saudades de você. De andar contigo. De procurar caminhos, metrôs, endereços, praças, esquinas, pontos de ônibus, bares, bistrôs, botecos, terreiros, praias, encontros. Comer acarajé na feira, pedir Heineken (porque a Brahma custava o mesmo naquele bar). Saudades de procurar tua mão para segurar no meio daquela muvuca de todos os lugares em que estivemos, daquelas multidões de tanta gente sem rosto, sem voz, sem graça, sem meu interesse, sem meu querer, sem minhas saudades.

Saudade das minhas mãos em tua cintura, das caminhadas em passos trocados e fora de ritmo, de você com a mão no bolso sobre a minha bunda ao andar pela calçada larga de grandes avenidas tão movimentadas. De ligar para seus amigos em cada cidade pelas quais passamos e, melhor ainda, encontrá-los e me sentir parte.

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Before Sunrise (Antes do Amanhecer)

De contar a saudade no pé do teu ouvido, nos vendo loucos para, logo, encontrarmos um lugar para ficarmos apenas você e eu.

Saudades de tê-la a escolher as músicas do karaokê daqueles botecos “copo sujo” na tentativa de evitar que outros estragassem o momento de nosso beijo com trilhas sonoras que não queríamos nestas memórias de nossos encontros. De compartilhar, ao vivo (ou não), das músicas que agora são parte de nossas conversas. Muitas delas.

E o tempo, esse que passa, transforma, refaz, permite novos encontros, epifanias e…

De manhã, pó de café, água fervente. Passa a água pelo filtro de papel, aquele que guardo após o uso, para que você dê um fim mais digno do que a lixeira. Café, com açúcar, café, com adoçante, mais café.

Música, mais música, ao vento, aquele vento com repelente, num espaço sem mosquitos, com abraços e coisas mais.

Água, muita água, brisa litorânea, lá fora um coqueiro generoso, cheio de cachos. Cai um coco, caem dois, escada, sobe, mais coco, água… doçura líquida.

Caminhar, caminhar, acender os cigarros e conversar, contar de outros carnavais, saber de ti, de si, de mim, de lá, de cá, de quando, de quem nem sempre. Mas é de nós mesmos, sempre. Conhecer, reconhecer, caminhar mais ainda numa trilha que só vê quem conta os contos sobre ela, e o outro imagina, dificilmente vê a mesma que se conta, talvez nunca. Pensar, imaginar, sorrir, rir-se, olhar sério, sentir mundos entre alegrias, humores, graças, ciúmes, acertos, desacertos, acordos.

O gelo e o limão caem, a coca-cola ensopa o tecido que, horas depois, rasga. Rasgam dores, rasgam reações desmedidas e tolas, rasga a crítica e a autocrítica, costuramos de novo, isso que já é novo e, paradoxalmente, velho.

Sono, descanso, pensamentos, acorda, presente de doçura.

Doçura.

Bom dia, amor!

welber *Luiz Welber é mineiro. Se diz historiador e nas horas vagas navega de maria-fumaça. Biscate que viaja por trilhos e trilha narrativas, em contato com o passado sem sair do presente. Viciado em café e em cervejas. Não foge das mesas de bar e aprendeu a fazer macarronada.

A família de Arthur, a exceção que questiona a regra

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada
Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur é um menino transexual de 13 anos de idade, que vive em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Sua história difere das narrativas mais usuais das pessoas transexuais porque Arthur conta com apoio familiar.
(leia aqui)

Achei linda a história de acolhimento e afeto dos pais do Arthur quando descobriram que o filho era transexual. Acho muito importante essa compreensão, sobretudo em uma idade em que estamos em fase de transformação radical externamente.Eu nunca tive isso, como a maioria das pessoas trans* também não tiveram. Não havia pai, mãe, familiares ou amigos para compreender quem eu era, o que eu estava passando: pelo contrário, era violência de todos os lados. Se hoje em dia eu sou quem sou, devo à minha resiliência, à minha vontade absurda de resistir, eu me considero uma sobrevivente diante de tanta violência que sofri, que todas as pessoas trans* sofrem: umas um pouco mais, outras um pouco menos, ninguém deixa de sofrer quando descobre-se não pertencendo ao mesmo grupo que os demais, ainda mais em uma idade tão precoce, sem conhecimentos do mundo fundamentais, de como se hierarquiza e se constrói a transfobia e o cissexismoFelizmente, vejo que os pais com mais acesso à informação e com a cabeça mais aberta, passam a compreender que o filho ou a filha é transexual, e não outra categoria de gay ou lésbica. E descobrir-se tão cedo, ainda mais com o suporte daqueles que deveriam nos amar, nos compreender e aceitar nossa identidade é imperativo para ter mais qualidade de vida – infelizmente não é a realidade da maioria de nós. Que, inclusive, passamos uma vida tentando nos encontrar, com a sociedade inteirinha dizendo e nos impondo que somos gays ou lésbicas; dado que nada sabem e nada se fala em quase nenhum lugar sobre as identidades trans*.

Enfim, quanto ao texto no iGay, parece que vai cair alguma parte do corpo dessas pessoas (incluso ativistas LGBTs) se escreverem transfobia ao se referirem às opressões que as pessoas trans* sofrem. Essa palavra HOMOfobia, em sua própria raiz remete-se à homossexualidade – campo das orientações sexuais, e portanto eu a rejeito para traduzir o que passamos, pois inclusive contribui para o preconceito eterno que enfrentamos, aquele que dá conta que as mulheres trans* são homens gays querendo ser mulher e os homens trans* são mulheres lésbicas querendo ser homens.

Outra coisa, não considero que o Arthur tenha nascido mulher ou menina como diz a reportagem do iGay, ser mulher ou menina não é algo instalado no genital, na anatomia; fosse assim, se perdêssemos o genital, imediatamente passaríamos a ter outro gênero. Mas não, podem transgenitalizar à força um homem cis, ele não passará a se reconhecer como mulher por conta disso. Não nascemos meninas ou meninos, não nascemos nem homens e nem mulheres, nascemos com determinada conformação anatômica que NADA pode dizer sobre nosso gênero, nascemos nus, sem saber que regra vamos ter que seguir, que gênero irão nos impor; o resto é construção.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Vou Cortar Sua Pica

Por Iara Paiva*, Bisca Convidada

Sou capaz de compreender que, por conta do estresse pós-traumático, um pênis seja algo ameaçador pra uma vítima de estupro. Mas daí a transformar isso em discurso político, de “bora castrar estuprador” etc e tal me parece não só temerário do ponto de vista dos Direitos Humanos, como burro mesmo. O pênis sozinho não estupra ninguém. O pênis sozinho pode até ser bem bacana, se a pessoa que tem o pênis for legalzinha e usá-lo com sabedoria (depoimento baseado em experiências reais). E o cara que quer estuprar (lembrando que mulheres estupram, mas reconhecendo que em sua maioria os estupradores são homens) não precisa nem ter ereção.

Estupro é violação do corpo de outrem, sem necessariamente haver penetração. Pra ter estupro não precisa ter pênis, só precisa ter desprezo pela autonomia da pessoa que é dona do outro corpo. Focando só no revanchismo, a gente castra o estuprador hoje e amanhã ele volta enfiando cabo de vassoura na vítima. Resolve nada (e me parece uma obviedade tão grande que até me constrange compartilhar essa ideia, mas aparentemente tem gente na militância que não pensa assim).

Gente dizendo que é isso aí, cortar a pica ou castrar quimicamente, e geral achando ok. Pra mim nenhuma delas colabora pra construir o mundo em que eu acredito. E de novo, as pessoas podem se expressar como quiserem, e isso pode ser empoderador. Não estou dizendo que não possam. O que eu posso fazer é o que eu fiz – lamentar. Lamentar muito que a gente precise construir as coisas nestes termos, porque a gente continua na verdade reforçando o lugar simbólico aí do pênis. E ok, vou reagir, corto sua pica. E o cara vai e, porque é mais forte, me mata. Eu acho tudo muito equivocado, porque é disputar aí no campo da violência. De novo, acha construtivo, empoderador? Vai, lá, ué. Eu acho é contraproducente.

Sobre estupro: Cultura do Estupro e Slut ShamingEstupro Não é SexoComo você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém*

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*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

Quem tem medo de Valesca Popozuda?

Por Daiany Dantas*, Biscate Convidada

É possível que hoje ninguém na música popular brasileira seja mais impactante que Valesca Popozuda. Deixando de lado juízos de gosto e valor, quais artistas encontramos por aí com tanta capacidade de provocar reações tão intensas, de revirar olhos e estômagos, desencadear balanços – físicos e mentais – sobre a nossa história cultural? Por trás de suas letras pulsam questões de classe e gênero que escancaram muitas das nossas desigualdades, de nossa pouca aceitação ao gosto das classes populares e ao protagonismo sexual das mulheres destas classes.

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Valesca, com seu corpo biônico, sua mestiçagem loira e lentes de contato azuis é um corpo que propõe muitos trânsitos – da dança de fundo ao microfone e frente do palco, da periferia ao palco midiático, de uma realidade colonizada à colonização dos espaços públicos – é um retrato vivo de nossas ambiguidades e contradições, da nossa NÃO democracia racial, da NÃO igualdade de gênero. É tiro, porrada e bomba na calmaria da burguesia “de bem”, pois para falar ela não usa artifícios. Sua palavra é firme e seu desafinar é autêntico.

Décadas depois de Marta Suplicy ter sido perseguida pelas “Senhoras de Santana”, ela também reclama o direito das mulheres a serem donas do próprio clitóris e terem os orgasmos que quiserem, mas abre mão dos nomes científicos. Prefere os apelidos cotidianos de alcova, pois assim resignifica não só o corpo que ela reclama para si, mas a liberdade desses espaços tão cobiçados a partir do desejo – por isso buceta, cu, grelo, em suas letras, são todos piscantes e desejantes – e isto é, claro, inesperado. Um acinte, uma vergonha!

Sua maior vergonha exposta, no entanto, não é a bunda siliconada (uma entre tantas nessa pátria de paniquetes estáticas, tratadas como samambaias mudas ou marionetes em jogos de humilhação), é um corpo punido por pretender o direito ao prazer, é esse exercício performativo e político que faz de Valesca uma artista tão odiada por uns – e amada por outrxs. Ela é um corpo com voz, não é só mais uma bunda assujeitada? O que ela é, então?  - toda uma mentalidade Casa Grande e Senzala entrando em combustão.

Valesca evidencia os não-me-toques de uma classe média que ama ser retratada como branca e hidratada em seus apartamentos bem decorados e com vista pro mar do Leblon, mas não quer sentar à mesa e banquetear com quem desce do morro para beber vinho da mesma taça. Ela mostra a persistência e atualidade de nossa cultura política que rechaça tudo aquilo que propõe um deboche desde as classes subalternas – estas podem, sim, ser escrachadas, desde que sob o controle vigilante de mídias conservadores, onde funkeira é favelada, nordestina é empregada doméstica e negro é bandido. Valesca não é uma personagem de Zorra Total, sua zorra é outra, seu discurso é transparente, de quem escolhe os próprios termos e não precisa de consentimentos. É um discurso de sobrevivência cujo escudo é justamente não ter escudo algum. Ela quer o poder da buceta porque a buceta é dela. Quer gozar, quer dar, quer te dar. Não porque alguém pede, mas porque ELA quer.

E aí vem o maior pecado de Valeska. Colocar o desejo feminino na baila, claro, é pedir para ser linchada. Geni não sai de moda. Ainda mais uma Geni gritando de autoestima, que pede para xs inimigxs “latirem mais alto” que dali, do camarote, ela não xs escuta. Como ousa? Quer subir no palco? Quer gozar e ainda quer divar? Quem ela pensa que é?

Márcia Tiburi, na Edição 188 da Revista Cult diz que Valesca é uma “Robin Hood estética”. Mas ela vai além. É carnavalesca, antropofágica, deglute os castelos inacessíveis do luxo e os transforma em cenário kitsch – haja peles, mármore, coroas, tigres e dentes de sabre, e, assim, seu batidão funk desautoriza a herança aristocrática. Traz a riqueza à sua comunidade e a subverte naquilo que ela tem de mais caricata e reconhecível. Valesca irrita porque é ela quem está parodiando, escolhendo como ser “rycka”, pois os ricos são os engraçados. É ela quem está rindo. E daí a riqueza deixa de ser dos outros e se torna de qualquer, farta e comum. E isto, claro, desagrada. Quem disse que funkeira e “favelada” pode ostentar?

E Valesca é filosofia pura. É o hedonismo bacante e dionisíaco de Nietzsche, deixando os apolíneos ofuscados com sua capacidade de se envaidecer das próprias regras. É o corpo sem órgãos deleuziano, escorrendo das mãos de um projeto coletivo que o segrega, e problematizando o lugar que ocupa ao negar as jurisdições que o controlam, é a reinscrição performativa butleriana, em seus palavrões que clamam para si o desejo (tão negado) das mulheres… é grelo pulsante, é riqueza, é empoderamento, e, claro, sendo tudo isso, só podia ser muito PAVOR, né?

Mas ninguém precisa temer Valesca. Mesmo. Basta ficar calmx, “deixar de recalque” e se dispor a abrir mão de convicções sequer fundamentadas. Em vez de rechaçá-la sem sequer ouvir o que ela tem a dizer, apostando nessas tintas fortes que a emolduram toda vez que ela surge num flash da mídia de massas, podemos aprender com ela sobre quem somos – e quem podemos ser. Em vez de xingá-la, confirmando todos os padrões que ela faz tremer, podemos nos gratificar por viver num mundo onde Valesca existe para confundir público e privado e ser visível e notória em ambos.

E sobre os juízos de gosto… ocorre que minimizamos artistas em função de barreiras que dizem muito mais respeito aos nossos preconceitos políticos e culturais que a valor artístico (as pessoas se vangloriam de que não ouvem e não gostam, mas é Valesca quem é chamada de ignorante… Será?). Costuma-se nivelar os gostos como selo de qualidade e mérito humanístico a partir do lugar social de onde esses gostos emergem… Achamos que não gostamos, mas somos, na verdade, dominados pelas fronteiras que segregam centros e periferias. Se nos deixarmos ilhar, perderemos uma parte importante de nossa história e nossa realidade… E viveremos interditados em nosso conteúdo “autorizado” – geralmente porque produzido por gente branca, vestida, “limpinha” e, claro, a maioria homem. Então, vamos encarar ou ralar?

IMG_20140409_232626Daiany Dantas foi uma jornalista que amava o nariz de cera e é uma professora de Comunicação Social que adora o barulho das teclas. Feminista sem carteirinha. Iconoclasta apaixonada pelas imagens. Filósofa de sala de cinema. Poeta de guardanapo e humana do Pingo, Kiki, Hoshi e Tapioca.

 

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