A (in)visibilidade trans* é problema meu também

trans*Nesses poucos anos de militância, aprendi muita coisa. E talvez, a maior e mais importante lição que tive em meio a todo este processo foi reconhecer meus privilégios.

Explico.

Ninguém nunca questionou a minha identidade de gênero. Eu nasci com uma vagina e me identifico como mulher ( no caso, sou uma mulher cis). Mas, e se eu tivesse nascido com um pênis e me identificasse como mulher, será que esses questionamentos continuariam inexistentes em meu cotidiano?

Seria fácil arranjar emprego ou tirar meus documentos?

As pessoas me aceitariam facilmente como sou?

Como eu lidaria com o fato de que muita gente considera transexualidade como uma patologia e pessoas trans* serem marginalizadas?

Pois é. Pessoas cis jamais saberão como é ter que enfrentar algo assim.

Pessoas trans* convivem com situações como as que descrevi acima durante boa parte de suas vidas, quase sempre sem ter a quem recorrer. Hostilizadas, muitas vezes, até mesmo por colegas de militância (que, na minha modesta opinião, deveriam ouvir o que elxs têm a dizer, não contribuir para difundir ódio e preconceito). Como se esta causa fosse menos urgente ou importante.

Honestamente, acredito ser perfeitamente possível abraçarmos várias bandeiras. Uma luta não anula ( ou pelo menos não deveria anular ) a outra. Eu, como feminista interseccional, sigo a seguinte premissa: enquanto todxs não forem livres, eu também não serei. Não me parece minimamente razoável eu ficar aqui, brandando aos quatro ventos que luto por igualdade, enquanto existirem pessoas que sofrem a mais alta gama de dificuldades por não expressarem identidade ou papel de gênero condizente com seu sexo biológico.

Toda forma de opressão deve ser combatida. Que o direito de ir e vir, a ter dignidade humana e a livre expressão não seja uma exclusividade das pessoas cis.

Eu, uma idiota(?)

Coincidências à parte, nessa última semana conversei bastante com alguns amigos sobre relacionamentos amorosos. Cada um com sua “receita”, dizendo o que tolera ou não em alguém, se sente ciúme, coisas assim.

Até que um deles disse invejar a forma como levo meu atual namoro e que gostaria muito de ser assim, mais “de boa”. Mas que tem medo de fazer papel de idiota…

amorÉ. Esse tal “papel de idiota”, segundo ele,  é ser enganado, gostar mais do outro do que este outro gosta dele, sofrer por amor, confiar demais, etc. E a maneira mais eficiente que ele encontrou para não padecer dessas barbaridades, foi sentir o controle (sobre o outro). Ficar de olho, a par de cada respiro da vida do companheiro. Colocar foto do casal como a do perfil das redes sociais, bem como ter a senha dx namoradx e pedir para elx fazer o mesmo. Pedir para x parceirx eliminar todas as fotos dx ex do computador. A vida social de ambos vai para o saco. Tudo isso por “amor”.

Honestamente, não sei ao certo quando parei de relacionar a intensidade de ciúme com a intensidade do amor que eu sinto por alguém. É que amar uma pessoa é algo muito grandioso, gostoso se ser vivido. E não tem porque insistir em escolher o caminho da dor, do sofrimento e da prisão. Amar, ao meu ver, está lado a lado com a liberdade. Não consigo me sentir amada ou acreditar que amo alguém de verdade se nenhum de nós nos sentirmos livres.

Quando a gente passa a pensar assim, rolam muitas transformações no modo como liberdadesentimos as coisas. Tudo se ressignifica em nosso coração e passamos a valorizar mais o hoje. Cada dia ao lado do nosso amor começa a ser vivido de cada vez. O hoje, o agora, o momento passa a ser muito mais importante e aproveitado. E a gente entende que decepções podem fazer parte do processo ( é, não aprendi a não criar expectativas ainda).

Talvez eu seja mesmo uma idiota. Mas prefiro continuar assim, estou feliz por não tratar o outro como minha propriedade. Acho mais legal planejar o que fazer no próximo fim de semana com ele do que ficar imaginando para quantas ele olha na rua. Que estar ao meu lado seja uma escolha, não obrigação.

Tomara que mais gente se torne idiota e pare de confundir as bielas. :)

O que mais quero é mais bem querer

#UmaBiscateQuer #2anosBiscateSC

(Abre parenteses)

imageEscrevo esse post diretamente do hospital onde minha avó está internada desde outubro, com Alzheimer e Parkinson em estágio avançado. E juro que tinha planejado outra coisa e a minha ideia de post para a nossa festa de 2 anos era totalmente diferente. Infelizmente, não estou em ritmo de festa tanto quanto gostaria…

Verdade seja dita: nunca gostei de fazer planos pois, como diz a canção, “tudo muda o tempo todo no mundo” e a gente pode ir da mais perfeita ordem ao caos completo em questão de segundos. E 2013 tem sido exatamente assim para mim, em quase todos os sentidos. Muitas, MUITAS lutas. Cansaço. Momentos de desânimo desesperadores. Raiva contida. Decepções com a falta de amor e daquela fatídica “sororidade” que assola a nossa existência. E no que tange a mim, essa falta surgiu de quem se dizia próximo e é isso que f*de (no pior sentido possível) com tudo.

Ninguém disse que a vida seria uma coisa muito fácil, evidentemente. E perrengues fazem parte do que minha prima de 9 anos chama de “vida chata de adulto” (acho que ela é a primeira criança que conheci  que nunca quis ser adulta antes da hora. Ela é das minhas!!!). Mas talvez, tudo seria menos doloroso se cada um se colocasse, genuínamente, no lugar do outro.

(Fecha parenteses)

Ademais, 2013 foi o ano do segundo aniversário do nosso amado blog e através dele, exprimi muito do que eu sempre quis. Quereres esses que nem sempre consigo dividir com alguém no tête-a-tête, aí com palavras escritas eles fluem mais. E é com muita honra que encerro as postagens de 2013 com uma das categorias mais subjetivas e especiais do BSC. Afinal, não é uma delícia falar/fazer/gostar/sonhar com o que quiser?

gatos_coracao_01Essa bisca aqui quer – para ela e para todos – um  2014 com mais leveza. Mais momentos gostosos. Mais breja ( ou insira sua bebida favorita aqui) gelada numa tarde quente. Mais amizades, mais carinho, mais afeto, mais sonhos e mais meios de realizá-los. Quero desejar e ser desejada, e desejo a vocês o mesmo. Quero beijos intermináveis, mais abraços apertados e mais banhos com corpos colados. Como disse a Jeane, “a vida se esvai e não há tempo para ingratidão”.

Sejamos gratxs à ela, vivendo. E ter passado quase todo o final de 2013 num hospital vendo tanta gente lutar para continuar a viver me fez conhecer de verdade a importância disso.

Que em 2014, possamos nos querer melhor. Que o calor e a esperança de um novo ano faça com que esse sentimento permaneça firme em nossos corações. E que venha mais um, dois, três, dez anos de BSC!

 

Histórias de horror: pergunte a uma mulher

violence-against-women-facebookDomingo, mais ou menos umas 17h. Estava voltando do mercado quando um vizinho e grande amigo me chama para alertar a respeito de uma cena que ele viu, ao ir para o trabalho, na madrugada daquele mesmo dia: uma moça semi-nua, em desespero, cercada por policiais e moradores do entorno. Ela tinha acabado de sofrer um assalto, seguido de estupro.

Moro na periferia da zona norte de São Paulo e este é o terceiro caso que soubemos, num período de 10 dias. Sim, DEZ dias. Três garotas foram violentadas praticamente no “quintal” da minha casa. Poderia ter sido eu. Ou minha mãe. Ou uma amiga querida. E mesmo que não tenha sido com uma conhecida, foi como se eu tivesse sentido a dor dela em mim.  E sou capaz de apostar com vocês que toda mulher já pensou duas vezes antes de sair sozinha ou de confiar em alguém, temendo pela própria integridade.

16dias20081Situações como a que descrevi acima estão longe de serem restritas às periferias das grandes cidades. Acontecem todos os dias, no país inteiro. Basta ser mulher para ser uma vítima em potencial e para ter medo. Isso quando o estuprador não é alguém da própria família ou do convívio da mulher, característica da maior parte das ocorrências.

Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.

Estupro não é sexo. É uma das mais cruéis formas de violência contra a mulher, que pode vir a destruir a sua vida e auto estima de um jeito muito difícil de ser superado. Estupro é tentar destruir alguém para mostrar poder. Todo ativismo contra ele é absolutamente necessário e nunca é demais. E se você ouvir falar de alguém que sofreu esse abuso, não pergunte que roupa ela estava vestindo, se ela “provocou” ou o porquê dela andar sozinha à noite. A culpa não foi dela.

Queria muito viver para ver o dia em que nenhuma mulher precise sentir medo.

Para saber mais: Número de estupros supera o de homicícios dolosos no país, diz estudo. (G1)

Espontânea

Guardo em mim com mais carinho
Os quereres sem hora marcada
Os beijos dados de graça
Os amassos-surpresa que me coraram a face

E me ferveram por dentro.

espontânea

 

 

 

 

 

Ah, Querido…
Das minhas lembranças mais gostosas
As mais e mais e mais gostosas
São as do amor não polido
Sem cenário
Sem receitas prontas
Sem melindres
Apenas nossos corpos colados
E nosso prazer

Tens contigo um pedaço de mim
Eu, espontânea
Palavra biscate, em sua própria essência
Sinta-se feliz
Pois este é o meu melhor pedaço.

Algumas linhas sobre mudanças

Que saudade daqui! Foram dois meses longe que mais pareceram dois anos…

E é muito bom estar de volta. :)

Apesar do pouco tempo distante, voltei bem diferente. Pode parecer meio idiota, mas apenas alguns dias podem fazer a diferença na vida da gente pelo simples fato de fazer escolhas diferentes das de sempre. E as mudanças, pelo menos para mim, foram e tem sido um grito de libertação.

Já notaram como muitos de nós abominamos, mesmo as menores, alterações em nossa rotina? Ou como ficamos ligeiramente “chocados” quando aquele “casal perfeito” da nossa convivência termina uma relação de anos? Ou quando alguém larga casa, emprego, família para conhecer o mundo com uma mochila nas costas?

mudançasÉ pessoal. Sei lá quem colocou na nossa cabeça que estabilidade é essencial para todos. Aprendi a questionar isso aos poucos e faço isso todos os dias atualmente. Talvez tenha sido porque percebi quão interessante pode ser mudar. Mudar hábitos, opiniões, gostos… Dá para crescer um monte assim.

Mudei de visual
Vou mudar de profissão
Mudei meu “ideal de vida”
Mudei a forma de enxergar a mim mesma
E estou fadada a continuar mudando. (Que bom!)

Não se deixe estagnar por medo do novo. Acho preferível arriscar-se, ainda que com a possibilidade de fracasso, do que passar toda uma vida pensando  ”e se…?”. Clichê ou não, ainda acredito que é muito mais válido tentar do que arrepender-se do que não fez.

 

Isso também é assunto meu

É. Eu tenho essa mania chatinha de trazer muita coisa do meu cotidiano pra cá. Mas é que vivencio tantas situações que ilustram o que penso e observo em nossa sociedade, que acabo não conseguindo evitar. Me julguem!!!

Dia desses, um conhecido me questionou sobre o porquê de uma das causas pelas quais milito ser a das bandeiras LGBT.

“Você tem certeza que não é lésbica? Porque não tem sentido defender tanto algo que não se pratica.”

Se essa cena te incomoda, é simples: olhe para outro lado. Ou comece a enxergar as coisas de outro jeito...

Se essa cena te incomoda, é simples: olhe para outro lado. Ou comece a enxergar as coisas de outro jeito…

Essas foram as palavras dele. Esse rapaz acredita que ser lésbica é praticar alguma coisa. Ou então, que para defendermos um grupo historicamente oprimido temos que, necessariamente, “ser parte” dele. E isso é recorrente no pensamento de muita gente, ainda. Não o culpo por reproduzir essas ideias, só queria mudar isso de alguma forma.

Reconhecer os próprios privilégios não é fácil. Nem acontece do dia para a noite. Faz parte de um processo contínuo, não linear e de constante aprendizado. Não pensem vocês que nós, militantes, nascemos sabendo fazer tudo isso. Tudo sempre tem um começo…

E aí, será que vocês topam começar também???

Eu, Cláudia, sou heterossexual, cis, branca, cursando minha segunda graduação e de classe média. Apesar de sofrer com machismos diversos pelo simples fato de ser mulher, eu nem de longe, sofro em intensidade equiparável a de uma garota lésbica ou bissexual que tenha essas mesmas “características”. Quando ando com meu namorado na rua, por exemplo, não percebo ninguém nos olhando torto por isso. Quando nos beijamos em público, ninguém acha isso exótico/estranho/disgusting. Se eu fosse fã de algumas religiões, provavelmente não teria problemas para assumir com tranquilidade a minha orientação sexual, já que esta condiz com o padrão heteronormativo supramencionado. Será que se ao invés de namorado, fosse uma namorada, seria assim? Evidentemente, sabemos a resposta.

Gosto de imaginar que algum dia, as pessoas poderão expressar seu amor e seu desejo de forma verdadeiramente livre. É por isso que falar sobre a visibilidade lésbica e bissexual é assunto meu sim. Poderia ser nosso, né? Porque reivindicar direitos não assegurados, respeito e tolerância é uma luta legítima que deveria ser abraçada com todas as forças pelo maior número possível de indivíduos. Aí, quem sabe essa ideia de privilégio se torne realmente uma bobagem?

Les-Bi-Biscatismos

Les-Bi-Biscatismos

A postagem faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

 

Um (não) poema sobre “fé”

féQuando menina
Ouvi que algum dia
Viria o Homem Bom, de fala mansa
Para que todos fôssemos salvos
E para que o mundo se enchesse de amor
E de luz…

Então por que o que hoje vejo, está mais para treva?

Aqueles que ontem disseram sim
Às palavras que com tanto afinco
Eram pregadas
Hoje dizem não uns aos outros
E cultivam um tipo de ódio
Que de tão maquiado
parece fervor…

Como será o amanhã???
Tenho medo.

Esse ódio maquiado quer se expandir
Para as nossas mentes
Para outras fés
Para os nossas escolhas
Para os nossos olhares
para as nossas leis
E para os nossos ventres…

Quem poderá nos libertar?

Agora eu, mulher
Não espero a chegada do Homem Bom
De fala mansa…
Mas se eu estiver errada e algum dia
Ele chegar
Tomara que ele responda
Se as cruzes pesadas que tanta gente
hoje carrega
Não são nada mais, nada menos
Do que a manutenção de um “paraíso na Terra”
Para que alguns poucos jamais percam
Poder.

Ogra. Desde criancinha

Ontem, vi muitos amigos publicando em suas timelines do Facebook sobre a chamada  Escola de Princesas  em Uberlândia – MG. Eu lembro que já fiquei muito incomodada com a ideia no começo deste ano, quando a notícia foi veiculada pela primeira vez. Mas como curiosidade é algo que ainda vai me matar um dia, decidi abrir a página. E uma das primeiras coisas que vi, foi isso:

“Sua filha é preciosa para você e precisa ser preparada desde já para que seu coração seja capaz de discernir entre o certo e o errado, entre a ação que produz algo bom e o gesto que traz constrangimentos. Desta forma ministramos ao coração das meninas valores e princípios éticos, morais e sociais, que a ajudarão a conduzir sua vida com sabedoria e discernimento.”

Esse “preparada desde já” ecoou por alguns momentos em minha mente. Após essa brilhante introdução, há o que eles chamam de “Características de uma Princesa”: ter boas maneiras, ser sempre bondosa e generosa, estar sempre bonita e bem vestida e saber como deixar o “castelo” organizado e impecável e esperar o “príncipe encantado”. Esses valores são estranhos para vocês? Pois bem…

emily-strange-nightmarepp31311O que antes era um incômodo, se tornou indignação. Porque acho muito leviano que: alguém se proponha a oferecer esse tipo de serviço; que tantos pais achem bonito e benéfico condicionarem suas filhas a esse ponto, acreditando que isso seja “brincadeirinha”. Não sou mãe, mas na minha modesta opinião, crianças não precisam estudar boas maneiras. Devem sim conhecer limites, não serem como bonecos. Meninas não precisam de dicas de beleza, nem se preparar para esperar um “príncipe encantado”.

Criança tem mais é que ser criança e acho fundamental que nós adultxs possamos garantir que elxs não pulem essa etapa tão importante de suas vidas. Será que todas essas meninas foram para a escola de princesas porque realmente era essa a vontade delas, ou foram motivadas por excentricidade (eufemismo para irresponsabilidade) dos pais? É tão mágico assim reproduzir valores tão conservadores? Por que a gente ainda tem essa “mania de monarquia”, sendo que em boa parte do mundo, pessoas abominam cada vez mais isso?

Foi inevitável que eu me lembrasse de quando eu era criança e preferia notavelmente as bruxas às princesas nas histórias que ouvia ( geralmente nas versões da Disney, fui criança nos anos 90) e uma professora me perguntou: “nossa, você é tão boazinha, por que prefere as bruxas más e feias?” Respondi que era porque as princesas eram todas iguais, muito rosas e muito paradas. As bruxas eram mais divertidas.

Talvez, eu tenha sido uma “ogrinha”: adorava me sujar, brincar de massinha, correr, fazer teatrinho, andar de patins, nem ligava para minha aparência. Mas fui criança. E gostaria demais que isso não se torne um privilégio, mas uma realidade possível para as meninas das futuras gerações.

*Não linkei a página aqui, mas ela pode ser facilmente encontrada no google.

 

Essa tal Democracia: o que é e para que(m) serve???

“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga.
Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”

(Aldous Huxley)

democracia

Estou com 24 anos de idade. Três desses anos, dedicados à militância e ao ativismo nas ruas e na internet em defesa de bandeiras que acredito (igualdade entre gêneros, combate à homofobia e ao racismo e democratização da comunicação, por exemplo). E é com perplexidade que afirmo: jamais imaginei que presenciaria, em pleno ano de 2013, eventos como as manifestações que ocorreram em nosso país.

Para elucidar a reflexão que pretendo propor, farei um breve resumo do que vivenciei e senti, particularmente, em 17 de junho, dia do 5º grande ato contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. O desenrolar dos fatos, as mobilizações em nível nacional e a repercussão no mundo, creio eu, muitxs de vocês já sabem.

Assim como boa parte das pessoas do meu convívio, fiquei profundamente indignada com a truculência da Polícia Militar ao reprimir as manifestações. Eu não pude comparecer aos outros quatro atos porque era final de semestre na faculdade e tinha muitas coisas para terminar. No entanto, a causa que o MPL defende me representava ( e representa) demais para que eu deixasse de apoiar. Me organizei e fui para o Largo da Batata, acompanhada do meu namorado e de mais alguns amigos.

Era de encher os olhos. Um mar de gente. A Avenida Faria Lima completamente tomada pelos manifestantes. A multidão era tão grande, que quem ali estava ficava entorpecido. Eu mesma, confesso: me deslumbrei. Quase não tinha polícia. Tudo bem pacífico, como as emissoras TV adoram reforçar em seus noticiários. Acompanhamos o grupo que fez o trajeto Berrini-Ponte Estaiada ( previamente “desocupado” para a manifestação) e após a dispersão, voltamos para casa. E soube depois que o pessoal do MPL seguiu para a Avenida Paulista e que um pequeno grupo foi rumo ao Palácio dos Bandeirantes. Achei estranho isso, somado a um nacionalismo vazio que estava começando a dar as caras ali. Mas aquilo ainda não tinha sido o suficiente para tirar meu sono ou confundir a minha cabeça.

Como a revogação do aumento ainda não tinha acontecido, o 6º ato foi convocado para o dia seguinte, 18 de junho. E lá fui eu novamente, com namorado, amiga da facul e duas conhecidas, na Praça da Sé. Mas o clima estava mais pesado do que no dia anterior. Era muito ufanismo, nacionalismo exacerbado, pessoas bradando contra a corrupção ou a PEC 37 ( que já caiu antes mesmo de eu formular minha opinião a respeito), gente pedindo impeachment para a Dilma, galera contra a Coca-Cola Zero ou defendendo a volta do regime militar. Mas nada, absolutamente nada relacionado à tarifa. Tava mais para uma final de Copa do Mundo. E os manifestantes que carregavam bandeiras de partidos já estavam sendo rechaçados. Voltei para casa triste, confusa e com a sensação de ter feito papel de idiota por ter “endossado” pautas que não tinham foco. Ou até tinham, só que divergiam demais do que sempre acreditei.

Após a revogação do aumento em São Paulo, os atos continuaram e eu soube através de amigos, das redes sociais e de alguns blogs que tudo o que eu tinha visto no dia do 6º ato se intensificou de tal modo, que muita gente ( eu inclusa) temia que um golpe de estado pudesse ser articulado (porque o golpe midiático já estava em andamento, tendo em vista a forma “mágica” como a mídia tradicional passou a achar manifestções populares fofas, e a chamada massa de manobra ficando cada vez mais em evidência). E foi aí que confundi minhas bielas e parei de dormir direito à noite.

Hoje estou mais calma, mas não menos confusa. E tal confusão despertou em mim a necessidade de parar um pouco para pensar. Ainda que existam oportunistas de toda espécie tentando se apropriar e cooptar uma luta legítima para promover o caos em nome de interesses que não contemplam o povo, tenho consciência de que a maioria das pessoas que “acordaram” agora nunca tinha ido para a rua antes. Que a educação propositalmente defasada que receberam,  reforçada por (mais uma vez ela) uma mídia poderosa fez com que elas acreditassem que: política não se discute, que político é tudo igual e que nenhum partido deve ser capaz de representá-las.

periferiaPor isso, penso que meu papel, assim como o de quem se considera politizadx, esclarecidx e bem informadx seja, a partir deste momento, o de fazer um trabalho de formiguinha: tentar, aos poucos, conscientizar as pessoas de que vivemos em uma democracia sim, mas que só será plena quando um negro for tratado da mesma forma que um branco em qualquer lugar que vá; quando homens e mulheres tiverem EFETIVAMENTE direitos iguais; quando gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais puderem viver livres de preconceitos; quando aprendermos a diferenciar liberdade de expessão de liberdade de ofensa; quando o pessoal que mora lá na periferia conseguir usufruir da mobilidade urbana e do próprio espaço público da mesma forma que quem tem carro; que reforma política se faz nas urnas, de preferência lembrando bem quem foi que ajudamos a eleger… Etc. (muitas eteceteras aí)

Eu mesma, sou bisca aprendente.

A Babi Lopes tem um excelente texto falando sobre isso. A Maíra Kubik também.

 

Somos muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

Roubei esse título descaradamente da Bisca-Borboleta Luciana, porque condiz lindamente com o que irei escrever hoje.

O último sábado foi marcado pela realização da Marcha das Vadias em várias cidades do Brasil. Eu, como biscate e vadia paulistana de nascença e por opção, estive na 3ª edição da Marcha, em Sampa. E foi tudo muito lindo, como eu nunca tinha visto (ao vivo) antes.

Manifestantes reunidxs na Nova Praça Roosvelt, no encerramento da Marcha das vadias SP - 2013

Manifestantes reunidxs na Nova Praça Roosvelt, no encerramento da Marcha das vadias SP – 2013

Tinha muita gente. Muita mesmo. A imprensa e a PM contabilizaram cerca de 1500 pessoas, mas acho que tinha muito mais gente. A Rua Augusta ( já consagrada como uma das mais boêmias da cidade) estava forrada de vadias. Vadias sim. Vadias com orgulho, de todas as idades, gêneros, cores e crenças. Vadias que empunhavam mensagens de liberdade e de empoderamento sobre seus próprios corpos.

Namorado e eu, vadiando juntos!

Namorado e eu, vadiando juntos!

Com o tema “Quebre o Silêncio”, a Marcha das Vadias de São Paulo chamou a atenção para a importância de denunciarmos  agressores e estupradores, que agem covardemente porque acreditam na impunidade e porque o machismo arraigado em nossa cultura faz com que eles acreditem que brutalidade, principalmente contra um grupo historicamente oprimido, seja um pré-requisito fundamental para provarem a sua “masculinidade”.

O que eu achei mais legal nesta edição? A pluralidade. Vi muita gente jovem, muitos idosos e crianças e muitos homens, bradando frases como “Cuidado, cuidado, cuidado seu machista. A América Latina vai ser toda feminista!”; “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o machismo!”; “Eu amo homem, amo mulher, tenho o direito de amar quem eu quiser!”. Me enche de orgulho e de esperança saber que tantas pessoas acreditam e defendam a ideia que o mundo seria um lugar muito melhor sem o machismo.

Se ser livre e se lutar por isso é ser vadia, somos TODXS vadias. Muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

Bisca-Vadia, feminista e livre!

Bisca-Vadia, feminista e livre!

 

 

Quem garante?

Apesar da correria insana, ontem arranjei um tempo para ouvir música. Porque proporcionar alguns momentos (ainda que mínimos) de prazer era fundamental para mim num dia f*dido como foi essa última segunda-feira.

cachorro música

Ownn… *-*

Entre um álbum e outro (dos trocentos mp3 guardados no celular) e uma estação e outra de metrô, me deparo com Tiê (é, nem só de rock são feitos os ouvidos da biscate que vos escreve). Mais precisamente, a canção Perto e Distante. E comecei a prestar uma atenção especial na letra:

 

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que seguindo adiante eu possa enfim viver?

Sem me comparar
Sem entristecer
Sem tentar mudar
Sem poder entender.

Não dá
Eu vou ter que sair pra poder voltar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro enxerga?

 

idealização

Idealizando…

Acho que todo mundo já teve a mesma sensação que eu: “puxa, a música certa no momento certo”. Momento este em que eu estava pensando justamente em como a gente idealiza tanto os sentimentos e as pessoas a ponto de achar que elas são “perfeitas”. A ponto de achar que elas devem fazer exatamente aquilo que a gente gostaria que elas fizessem. A ponto de julgarmos que as atitudes do outro deveriam acontecer de acordo com o que acreditamos ser correto ( eu já disse que odeio demais essa palavra???).

Eu estou tentando “aceitar” (juro) que somxs feitxs de carne, ossos, erros, acertos, escolhas e anseios. Mas é difícil!!! Idealizar é tão reconfortante. Tão cômodo. Tão menos amargo do que armar-se da mais pura racionalidade. Tão mais rápido do que procurar em algum lugar dentro de nós o “tal” do bom senso…

Você garante que o que você é, é o que o outro enxerga ou espera de você???

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