Quem garante?

Apesar da correria insana, ontem arranjei um tempo para ouvir música. Porque proporcionar alguns momentos (ainda que mínimos) de prazer era fundamental para mim num dia f*dido como foi essa última segunda-feira.

cachorro música

Ownn… *-*

Entre um álbum e outro (dos trocentos mp3 guardados no celular) e uma estação e outra de metrô, me deparo com Tiê (é, nem só de rock são feitos os ouvidos da biscate que vos escreve). Mais precisamente, a canção Perto e Distante. E comecei a prestar uma atenção especial na letra:

 

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que seguindo adiante eu possa enfim viver?

Sem me comparar
Sem entristecer
Sem tentar mudar
Sem poder entender.

Não dá
Eu vou ter que sair pra poder voltar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro enxerga?

 

idealização

Idealizando…

Acho que todo mundo já teve a mesma sensação que eu: “puxa, a música certa no momento certo”. Momento este em que eu estava pensando justamente em como a gente idealiza tanto os sentimentos e as pessoas a ponto de achar que elas são “perfeitas”. A ponto de achar que elas devem fazer exatamente aquilo que a gente gostaria que elas fizessem. A ponto de julgarmos que as atitudes do outro deveriam acontecer de acordo com o que acreditamos ser correto ( eu já disse que odeio demais essa palavra???).

Eu estou tentando “aceitar” (juro) que somxs feitxs de carne, ossos, erros, acertos, escolhas e anseios. Mas é difícil!!! Idealizar é tão reconfortante. Tão cômodo. Tão menos amargo do que armar-se da mais pura racionalidade. Tão mais rápido do que procurar em algum lugar dentro de nós o “tal” do bom senso…

Você garante que o que você é, é o que o outro enxerga ou espera de você???

Olhar(es)

Esse último mês num foi lá muito fácil para mim.

Foi tenso. Do nada ( ou nem tão do nada assim), minha auto-estima foi parar na lama. Olhar no espelho estava bastante desconfortável, porque tudo que via em mim mesma era defeito. Ora uma espinha, ora uma olheira. Ou o cabelo que estava pesado e sem brilho. Ou então eram as duas ou três dobrinhas a mais na barriga que me deixavam triste.

espelho-infiel1

Olhar

Parece frescura, né? Coisa de gente fútil e superficial, e tals. Só que não. Percebo que muitos de nós estamos bem insatisfeitos com a nossa imagem e por isso, acabamos sendo bem cruéis conosco e com os outros. Julgamos, medimos, comparamos. Gastamos uma puta grana com produtos “milagrosos” que nos prometem a aparência photoshopada das revistas.

Se você for mulher então, é bem pior. Não que isso não atinja aos homens, atinge sim. É que mulher tem a “obrigação” histórica de estar sempre bela. De ser perfeita. De caber perfeitamente nas roupas, nos adornos e nas caixinhas que alguém com bastante poder, determinou que eram as ideais para ela.

Acontece que a natureza não tem o menor compromisso com essa estética absurda e inatingível para a maioria de nós. O natural é a variedade. O que é natural, bonito e saudável não engloba apenas o magro, o loiro, o liso ou o jovem. Nela há espaço para muitas nuances, texturas e tamanhos.  E o nosso olhar, tão bombardeado por imagens  que fogem absolutamente dessa variedade,  não tá acostumado com isso.

Bora treinar esse nosso olhar viciado para uma beleza plural? Porque não são os nossos corpos que devem ser repudiados…

Casulos

Riso fácil, vivacidade, liberdade. Ser/estar/descobrir-se bisca é bem legal, né povo?

Maria_Sibylla_Merian-728x993É, eu também acho. Fantástica essa ruptura das amarras que uma galera chatona aí insiste em nos colocar. Ser o que se é, sem pudores, desconfortos ou medos. Sentimentos normais, mas que podem nos fazer sofrer  -  na maioria dos casos – mais pelos outros do que por nós mesmxs.  E a gente deixa.

As mesmas amarras que tentam nos impedir de mostrar a nossa verdadeira essência, são as que tentam nos obrigar a acreditar que a felicidade (desde que seja comedida e sem escândalos. Bem coxinha mesmo, tipo comercial de margarina) é  estado normal  e intrínseco a todas as pessoas e pelos mesmos motivos. Parece até que ficar triste ou precisar muito de uns momentos de reflexão quanto à própria vida é crime…

Sei lá. Acho que nós, humanxs, precisamos tanto de casulos (no nosso caso, “casulos sentimentais”) quanto as lagartas. Um tempinho para nos fecharmos e ficarmos quietinhxs até que a metamorfose aconteça. Até que melhoremos. Até que surjam novas cores e que possamos criar asas para voarmos, biscatemente livres. Como as borboletas.

sybillaClaudinha está lagarta. Meio feinha, perdidinha e esfomeada. Preparando um casulo quentinho, bom para aquecer meu coração e renovar meus pensamentos. Quando eu finalmente for uma borboleta, só espero uma coisa: que minhas asas sejam grandes. Para que eu voe mais longe. Para que eu possa ver e mostrar como sou leve e bonita.  Para que eu repense meus caminhos. Para que eu sinta que mudar é bom. Mudar… Mudemos.

* As imagens que ornamentam este post são de autoria de Maria Sibylla Merian, naturalista e ilustradora científica alemã. Pioneira, num tempo em que as Ciências Naturais eram “coisa de homem”. Conheci os trabalhos dela no ano passado e coincidentemente, hoje seria seu 366º aniversário e o Google fez um doodle lindo em sua homenagem. Veio a calhar com o texto de hoje: Sibylla dedicou sua vida a registrar por meio de sua arte as metamorfoses dos insetos, principalmente das borboletas. Que danada, né? Em pleno século XVII, justo uma mulher se destacar por fazer essas coisas!  

;)

Tempero ou Veneno?

Que atire a primeira bomba de chocolate quem nunca sentiu ciúme. Nem um tiquinho de nada. Muita pretensão da minha parte afirmar que todo mundo, de alguma forma, já passou por isso?

É bem difícil não ter ciúme quando a maioria de nós “aprende” que não existe amor de verdade sem esse danado. Procurando num dicionário uma definição para ciúme, eis o que encontrei:

ci.ú.me
sm (lat vulg *zelumen) 1 Inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração. 2 Vigilância ansiosa ou suspeitosa nascida dessa inquietação. 3 Ressentimento invejoso contra um rival ou suposto rival mais eficiente ou mais bem-sucedido, ou contra o possessor de uma vantagem material ou intelectual cobiçada. 4 Bot Arbusto asclepiadáceo, denominado também capulo-de-seda, flor-de-seda, bombardeira (Calotropis procera). 5 Bot Arbusto asclepiadáceo (Calotropis gigantea).

Forca-coraçãoLegal hein? Inquietação mental e vigilância ansiosa ou suspeitosa. Vigiar, suspeitar, controlar… Chama a atenção também a palavra possessor. Será que temos esse sentimento porque, talvez, já tenhamos acreditado que o outro é nossa propriedade?

Não sei explicar direito se isso faz bem para o ego. Na verdade, todas as situações que envolviam ciúme presenciadas ou sofridas por mim foram absolutamente patéticas. Eu não lembro de momento algum em que estive feliz com a ilusão de que “fulano é meu e ninguém tasca”. Muito pelo contrário, me senti uma idiota depois. Mas essa sou eu. Há quem alimente e defenda esse sentimento como algo fundamental em uma relação, caso contrário é, invariavelmente, falta de interesse. Muitas vezes, se esquecendo que há infinitas possibilidades mais gostosas de se demonstrar que ama alguém.

De uns tempos pra cá, comecei a pensar que na minha vida, o verdadeiro “tempero” para o amor é a confiança. Nada como deixar o outro estar contigo por sua própria vontade, sabe? É muito bom vivenciar um relacionamento que permita que eu continue sendo livre e que o outro seja assim também. Sem achar que quem está ao meu lado me pertence.

 

 

A amnésia dos outros

Oi, um minuto do seu tempo? Serei breve. Não por preguiça ou desleixo. Mas é que estou num dos meus raríssimos momentos de objetividade.

Aconteceu que alguém, depois de alguns meses sem manifestar qualquer sinal de vida, me mandou um e-mail…

“Esqueceu de mim?”

tempoLogo eu, que por várias vezes, tentei manter contato. Tentei, juro. Tentei de todas as formas permanecer com essa amizade. Mas sabe como é, né? A tal da “correria diária”, essa danada, não deixou. Muito mais por parte dx outrx do que da minha, mesmo estando eu trabalhando quase 10h/dia e estudando…

Não duvido da falta de tempo das pessoas. A vida num anda lá uma coisa muito fácil para todo mundo. Eu mesma enfio os pés pelas mãos de tanto que corro às vezes. Contudo… “Perder” uns cinco minutinhos do seu dia, de vez em quando –  ou de vez em sempre – mandando uma mensagem de carinho para uma pessoa querida que, por ventura, não esteja por perto f*de tanto assim com a sua rotina?

Não quero fazer deste texto meu muro de lamentações particular. Talvez, eu esteja sendo  muito severa. Ou tenha criado expectativas demais com um laço afetivo que eu achava que era mais intenso. Mimimi biscate, pode ser. É que quando eu gosto de alguém, eu faço o possível para estar presente, mesmo com uma distância física que me impeça de dar as caras ao vivo e em cores. Entretanto, quem sou eu para querer e esperar que o outro sinta do mesmo jeito?

Só acho chata essa maneira de puxar assunto, sabe? Me acusar de amnésia e me culpar pela falta de contato. Cobrar de mim mais atenção do que eu já dei. Quem é que aguenta dar murro em ponta de faca a vida toda? Se você sabe onde eu moro, se você me tem nas redes sociais, tem meu telefone e sabe de boa parte da minha rotina, por que espera que só eu te procure? Qual a lógica disso?

tempo

eu nunca lembro de esquecer

Se fosse há um tempo atrás, eu acharia que o que estou dizendo é um orgulhozinho básico. Num é. É tristeza mesmo. Dói saber que quem um dia você tanto considerou parou de importar-se contigo (importou-se algum dia?). Faz parte da biscatagi  admitir que em um determinado momento, você sentiu duramente a falta de alguém. Mas também faz parte da biscatagi não sofrer por uma pessoa que pagou com desprezo o seu afeto sincero.

Por mais difícil que pareça: demonstre, ainda que brevemente, o quanto você gosta de um amigo, de um parente, de quem quer que seja se você sente isso de verdade.  Se alguém parar de te procurar, reflita quantas você vezes não deixou essa pessoa esperando. Será que só os outros estão com esses lapsos de esquecimento?

 

Eu, minha boca suja e algumas reflexões sobre discurso, léxico e ideologia

*Aviso axs leitorxs: o texto que virá a seguir contém palavras de baixo calão, as quais não pude evitar mencionar.

 O título desse texto parece meio acadêmico demais né? Mas é que lembrei dia desses de um episódio que ocorreu comigo no Orkut (que descanse em paz), na época em que este ainda era a rede social favorita de quase todo mundo…

PALAVRãoTudo começou numa noite em que postei umas fotos de quando eu, feliz e contente, estive numa emissora de rádio aqui de Sampa para comemorar o Dia Mundial do Rock. Eram fotos com os locutores, fotos do estúdio, fotos minhas papagaiando ao lado dos instrumentos, fotos com os meus amigos e com os músicos… Enfim, foi divertido à beça. O meu “grande problema” começou com a descrição do álbum: “dia foda”.

Esse título rendeu um sonoro:  “que coisa feia, isso não fica bem para uma mocinha de família como você”,  num comentário vindo de uma pessoa  que sempre  disse gostar de mim como filha. A  princípio, pensei que era um daqueles sermões que, de brincadeira, as pessoas fazem umas com as outras. Até que a tal pessoa veio falar comigo seriamente. Isso mesmo, falar seriamente sobre o problema da minha boca suja.

Daí que eu acabei me sentindo mal.  Fiquei com vergonha do que eu postei e essa vergonha foi tanta, que acabei apagando o álbum todo. Deixei de compartilhar os registros de um dia incrível que tive por conta de quatro letrinhas que juntas, seriam impronunciáveis para uma “moça de bem” como eu. E ainda por cima, pedi desculpas para a pessoa. Mesmo sabendo que aquele espaço era meu.

Naquela época eu ainda não sabia que não existem discursos neutros.  Todos eles carregam alguma ideologia, algo subliminar que as vezes não percebemos porque já está introjetado em nossa cultura e em nossos valores. A mensagem por trás do recado que aquela pessoa me deu era, basicamente: “por ser mulher, você deve ter cuidado com o que diz. É feio mulher que fala o que quer. Deixe os palavrões para os homens, que são brutos por natureza e precisam extravasar.”

Se eu fosse homem seria bem difícil ouvir algo do tipo. É que proferir sonoros palavrões não combina com mocinhas como eu. Gente como eu não sente raiva, não se empolga com nada, não mete o dedão do pé com tudo numa quina de mesa. Gente como eu só deveria  sorrir e falar sobre coelhos, maquiagem, namorado, cores de cortina…   Não que eu defenda o uso das chamadas palavras de baixo calão em todas as situações de comunicação, mas me parece um tanto quanto obtuso censurar a todo custo o seu uso. Principalmente se quem usar for mulher.

Outra coisa: já repararam como nosso léxico é machista também? Tomemos como exemplo o caralho. Caralho remete ao pênis e é um palavrão bem “popular”. Podemos usá-lo em momentos de raiva ( caralho, perdi minha chave!); de alegria ( passei no vestibular, caralho!); para enaltecer alguma coisa (aquele filme é do caralho!)… Vocês  já imaginaram trocar esse  caralho por buceta?  Estranhariam? Por que será que embucetar ( de modo chulo)  quer dizer que algo complicou?  Se a gente parasse para analisar vários termos chulos, certamente perceberíamos muitos outros exemplos.

Ah, a quem possa interessar… Hoje, a tal pessoa que me considerava filha  e dizia se preocupar tanto comigo provavelmente não lembra mais que eu existo. Não guardo ressentimento algum, espero que elx esteja bem e feliz. Mesmo sem nunca (duvido) ter falado um palavrão.

Prefácio

#Alma Biscate
Prefácio, Cláudia

curtirTudo começou com um curtir, lá no Facebook. Lembro perfeitamente do dia em que a Luciana postou o primeiro texto por aqui. Daí, ela me disse algo como “Cláudia, para de curtir só e si joga”. Me joguei mesmo e aqui estou, feliz como nunca. Mas não foi tão fácil assim assumir (compreender se encaixa melhor, acho) essa biscatagi toda.

Tive um medinho. Aliás, um medão. Porque a palavra biscate assusta(va). Porque eu, em outros tempos, quando ainda era aquela garota que se fechava quase que totalmente para o novo, jamais aceitaria ser comparada com uma… biscate. Biscate para mim era algo ruim, algo que não poderia me trazer qualquer aprendizado. Algo do qual eu deveria manter distância. Que bom que não mantive distância daqui. E que bom que eu aprendi o que realmente tudo isso significa.

liberdade2Se eu fosse enumerar todas as experiências pelas quais passei depois que percebi a mim e aos outros como livres, não teria espaço neste texto em que tentarei ser sucinta. Mas foi muito transformador. Foi transgressor. Fez de mim uma garota muito mais forte para lutar e acreditar não apenas em minha liberdade: proporcionou a oportunidade de ver a vida com a leveza que preciso para seguir em frente. E me fez aceitar melhor e de forma mais verdadeira as inúmeras diferenças de pensamento e de escolhas que podem existir entre as pessoas.

Alma biscate hoje significa para mim o poder de se reinventar. Libertar-se das próprias convicções todos os dias. De se renovar. De transformar a si próprio e contribuir para que o mundo mude, ao menos um pouquinho. De fazer a cada dia um novo prefácio.

E que assim seja até que a minha breve vida termine, com boas lembranças e com a sensação de que tudo valeu a pena.

Dar-se ao respeito

Cresci ouvindo de quase todas as pessoas ao meu redor que a mulher deve dar-se ao respeito. Eu não entendia muito bem porque tanta gente me falava aquilo, e de alguma forma, internalizei tal discurso como o correto, o ideal, algo que eu deveria seguir. Afinal de contas, mesmo eu tendo sido uma criança questionadora, não imaginava que aquelas pessoas que tanto me amavam poderiam me ensinar algo ruim.

corujinhaEsse respeito do qual falavam (e falam) significava, basicamente, que a mulher não poderia fazer nada que “manchasse” sua reputação. Sabe como é, né? Mulher tem que ser discreta, comedida, pura. Seus gestos “naturalmente” (sic) delicados não podem dar brechas para palavrões ou conversas animadas e regadas à cerveja em mesas de bar. Mulher de respeito não sai de casa à noite, muito menos desacompanhada de um “macho protetor”. Mulher de decote? Vixe… O demônio em pessoa. Essa só quer chamar a atenção dos homens, ela certamente não tem nada além disso para se preocupar. Tem muitos amigos homens? Provavelmente não presta, não é de confiança. E já deve ter “dado” para todos eles…

Um tempo depois, quando eu já era adolescente,  reproduzi tudo isso que supramencionei. Eu julguei muitas meninas que não agiam dentro do que eu entendia como certo. Perdi oportunidades de, talvez, ter feito grandes amizades e de aprender coisas bacanas com quem pensava diferente de mim. E só hoje, alguns aninhos depois dessa fase de descobertas que eu temo não ter vivido plenamente de tanto que me “dei ao respeito”, é que eu compreendo o que significa, na visão de quem me ensinou, ter o direito de ser respeitada.

Se eu quero tal direito, devo me condicionar. Devo negar o que sou, o que sinto. Não posso ter vontades e vivê-las. Ai de mim se eu resolver demonstrar que penso bem fora da caixa que arranjaram há milênios para separar as mulheres “dignas” das outras. Justo isso, né? So que… Não. E sabe o que dói mais? A quantidade de gente jovem, que deveria ser trangressora e lutar para dirimir tantas ideias cruéis e vazias, mas reforça tudo isso, sobretudo nas redes sociais, parece aumentar a cada dia. Não os culpo, mas me preocupo bastante com isso.  Aquela palavrinha que me dá medo, backlash, está bem aqui, à espreita.

Penso eu que muita gente precisa aprender a enxergar as mulheres como GENTE. Isso mesmo. Mulher é gente. Mulher não é um ser humano de segunda classe, que é incapaz de gerenciar as próprias escolhas. Não se mensura respeito a uma mulher tendo como critério o que ela faz com o seu próprio corpo, como ela se veste, o que ela bebe, etc. Você até pode se incomodar ou não aceitar a forma como ela age. Mas quem é você para determinar qual o nível de dignidade dela?

Acho que ninguém tem de “dar-se” ao respeito caso não esteja prejudicando alguém. Trocaria esse “dar-se ao respeito” fácil fácil por um “dar respeito”. Respeitar o outro, genuinamente. Até porque, esse papo de que o respeito tem dois pesos e duas medidas, que uns o merecem mais que outros já não me convence mais. Convence a você?

Viver: nossa maior oportunidade

Rua  Augusta, São Paulo, quase 20h. Um monte de gente aglomerada em volta de um carro parado e, ao lado do carro, uma garota caída. Inerte. Parecia ser bem jovem.

Ver aquela cena mexeu bastante comigo , sabe?  Mesmo sabendo que atropelamentos  acontecem todos os dias, sobretudo em uma cidade imensa como São Paulo. Cidade onde a maioria das pessoas (sobre)vive com pressa e estressada.  Cidade onde dá para perceber de forma bem acentuada quanta gente está insatisfeita. E onde a vida parece ser mais breve do que em qualquer outro lugar…

O cotidiano às vezes nos torna cegos para essa brevidade que envolve a nossa existência.  Já repararam como a gente perde um tempo precioso remoendo as nossas frustrações ou reclamando daquilo que, por um motivo qualquer, não deu certo? Ou então julgando as escolhas dos outros pelo fato delas serem diferentes das nossas?

Pode parecer simplista o que vou dizer, mas acho que a gente poderia aprender a enxergar cada dia como uma chance. Chance para errar, para acertar, para começar ou recomeçar.  Viver é uma grande oportunidade que nem sempre valorizamos.  Há tantos caminhos a serem percorridos, tantas ideias ou experiências enriquecedoras para trocar. Por que não começar a exercitar isso desde já?

Não quero me tornar uma escrava dos meus dissabores. Não quero deixar para o futuro as coisas que eu poderia fazer hoje, só porque eu tenho medo de falhar. Quero aproveitar direitinho todas as minhas chances . O mundo pode estar bem ingrato, mas reclamação sem atitude certamente não ajudará em nada para que ele mude.

Não sei se a garota que mencionei no começo do texto sobreviveu. Ou se ela se tornou mais um dígito nas estatísticas paulistanas de mortes no trânsito. Mas eu fiquei imaginando que talvez, ela tivesse muitos sonhos. Ou que ela gostaria de fazer muitas coisas ainda. Pode ser que a última chance dela tenha sido até as 20h de ontem, e nem ela nem ninguém tinha como saber disso…

Bonança

Juro que hoje eu queria escrever um daqueles posts cheios de cor, de calor e de alegria. Mas biscate também fica triste. Biscates, apesar de fortes, também podem acabar quase sucumbindo diante de questões sem uma solução possível a curto prazo, dependendo do tempo e de fatores externos para deixar de causar aflição.

Tá aí uma coisa que não desejo a ninguém: a aflição.

Todos temos problemas. Uns mais, outros menos. Mas todos temos. E nem sempre conseguimos lidar com eles com a serenidade necessária. E eu estou assim nos últimos dias, por um conjunto de fatores: uns são minha culpa, admito. Outros foram ocasionados por um sistema que funciona de forma bem precária e independe da minha vontade ou de minha atitude que algo mude nele. E, quando um pequeno avanço acontece, o dobro de retrocessos chega para “compensar”. Isso cansa bastante.

Ainda não tenho meios de provocar uma ruptura radical e definitiva com essa questão que tanto me aflige. Contudo, imaginem como é você ter que fazer todo dia algo sem a menor paixão. Sair da sua casa todos os dias  “se arrastando” para fazer determinadas obrigações que são apenas isso: obrigações. E o pior: você se sentir egoísta por reclamar tanto daquilo que te acontece enquanto tem gente vivendo de um jeito muito mais sofrido do que o seu, com menos amargura.

Vocês já pensaram que esse negócio de ser “bem sucedido” e “estabilidade” podem ser uma imensa furada?

Depois que “me descobri” biscate, aprendi a olhar muito mais para mim mesma e para os outros.  Como nunca tinha feito antes. Tenho quase certeza de que essa fase meio zicada faz parte deste processo. E que de alguma forma, irei crescer com isso. Só que paciência num é muito o meu forte e nas minhas veias, corre pressa ao invés de sangue. E entender aquilo que não serve para você quase sempre dói.

Desculpem se o texto de hoje fugiu da temática do blog. É que este é um dos poucos espaços que me representam ultimamente. Entendam este desabafo como uma forma que encontrei para exteriorizar o que sinto e ao mesmo tempo, compartilhar uma experiência que pode vir a acrescentar algo na vida de alguém.

Dizem que depois da tempestade, vem a bonança. Quando a minha tempestade acabar, espero poder voltar aqui para dizer que foi apenas uma chuva de verão que veio para me refrescar e fazer com que a minha visão fique menos turva para encontrar de verdade o meu caminho.

Receitas Indigestas

Tá, eu sei. Já falei sobre isso aqui antes. Mas é que o tema tem potencial para render tantas discussões construtivas que decidi trazê-lo à tona novamente, assim, sem pretensão…

Mentira.

Quis voltar ao assunto porque ao longo da última semana, esta matéria falando sobre dez coisas que eles não querem saber de uma mulher,  foi compartilhada aos borbotões nas timelines das redes sociais. Como tenho a sorte ( só que não, porque a realidade de boa parte do mundo é muito distinta da minha) de estar em uma “bolha” repleta de de amigos e contatos que têm consciência da força que a perpetuação do status quo exerce sobre o nosso comportamento, a maioria dos comentários e reflexões que vi a respeito foram negativas. No entanto, ainda há muita gente que segue à risca essas “receitas” comportamentais. E depois se pergunta porque é tão infeliz, sobretudo no amor…

Bom, sobre a matéria em si, acho válido destacar alguns tópicos que, ao meu ver, são mais preocupantes:

 7- Que você procura aprender sobre sexoNão há nada de errado se a mulher lê várias revistas e livros sobre sexo; muito pelo contrário, só que a eles não interessa saber de onde elas aprendem sobre o assunto. A eles interessa que elas apliquem o que aprenderam na prática. Não importa de onde você tenha adquirido seu repertório sexual, só deixe que ele se impressione e não queira sair de seu lado”.

Claro. Mulheres não têm porque aprender sobre sexo senão para agradar aos homens. Fora isso, elas não têm porque conhecerem melhor o próprio corpo, ou meios de buscar prazer. Mulher nem gosta de sexo, não é mesmo?! Exatamente isso, só que ao contrário.

9 – Intelectualidade em excesso: Não existem muitos homens que gostam de estar frente a uma mulher que procura demonstrar constantemente o quão inteligente ela é. Além de se sentirem diminuídos, se torna tedioso estar frente a uma pessoa que transforma qualquer conversa em um debate existencial. Melhor fazer com que ele conheça sua inteligência através de outras coisas, e deixar estes debates apenas para o trabalho e a universidade”.

Aham. Todo homem sonha em namorar uma mulher que não pensa. Que não tem personalidade e principalmente: que não o questione. E você aí pensando que inteligência era uma qualidade…

10 – Quantos homens passaram por sua cama: Isto sim eles não querem saber. Por mais aberto que seu parceiro seja, saber com quantos homens você transou não leva a nada, já que somente o deixará nervoso e lhe fará mal. A sensação de insegurança que lhe proporciona a compará-lo com outros pode impedi-lo de ser o que ele é”. 

Realmente. Faz muita diferença para quem se gosta saber do passado do outro. E mulheres que tiveram muitos parceiros certamente não servem para namorar…

Sei lá. Não encontro um adjetivo melhor do que petulante para qualificar quem acha que pode dizer ou não como uma mulher deve ou não agir, ou que afirme com certeza que sabe exatamente o que os homens gostam ou não que ela faça. É vazio, simplista e pouco confiável. Cruel também. E mesmo que alguém soubesse exatamente o que TODOS os homens gostam em TODAS as mulheres, porque estariam elas obrigadas a agirem exatamente para atender a tais expectativas? O machismo manda beijos.

Essas “receitas” não me representam. E não deveriam representar a ninguém, porque retratam um modelo de comportamento que já mostra ( ainda bem) sinais de falência há algum tempinho. De um lado, a mulher como ser inferior, sem anseios e incapaz de fazer algo simplesmente por ela mesma. Um ser que deve nortear os seus caminhos em prol da aceitação dos outros. Um ser sem escolhas. Do outro, o homem como aquele que deve ser servido. Que nunca deve ser chateado ou ter o ego ferido. Como aquele que não pode ter sequer um momento de insegurança.

Sinceramente… Penso que é muito melhor estar sozinha do que condicionar-se em nome de outra pessoa. É melhor ter a companhia de si mesma, de bons amigos, da família do que de alguém que, por ventura, não me aceite como sou. Ou estar com um cara tão imaturo a ponto de eu não poder falar sobre qualquer assunto, sem que ele se sinta diminuído. A vida já tem regras demais para que eu tenha que fazer o sacrifício de deixar de ser eu.

 

Verdes

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Verdes, Cláudia

Nada me instiga mais do que um olhar. Daqueles que parecem ler pensamentos, anseios, desejos. Olhar que, ao cruzar com o meu, dispensa o uso de palavras. Olhar que faz o corpo todo ferver, na mais perfeita (des)harmonia.

Foi mágico, desde o primeiro instante. Risadas, bom papo e aquele frescor que nos envolve quando conhecemos alguém interessante. Silêncio gostoso. E ele, o olhar. Olhar que me pegou feito um raio. Verdes olhos, onde eu quis por inteiro mergulhar.

E assim fiz. E faço, sem o menor pudor. Quero que me olhe cada vez mais. Quero me esbaldar nesse brilho de vida e de paixão que emana de seu semblante. Quero sentir cada pedacinho de você enquanto perco-me nestes verdes. Meu tom de verde favorito.

O que explica tanto furor, tanta vontade?

Seu olhar me diz, mesmo que eu saiba disso há muito tempo, que sou livre. Livre para estar em chamas, sem limites. Livre para decifrá-lo. Livre para mostrar-me inteira. Livre para deixar que o meu corpo conheça o seu. Livre para que eu também dispense o uso de qualquer palavra, já que minhas mãos, beijos e suspiros são perfeitamente capazes de traduzir.

E logo eu, que um dia pensei que algo do tipo era exagero de quem afirmava sentir… Hoje não abro mão. Ah… Como é gostoso… Como é sensacional o frio na espinha que dá só de lembrar. Ai, se você estivesse comigo neste instante. Se eu pudesse agora mesmo perder-me contigo…

Como disse lá em cima, nada, nada MESMO me instiga mais do que um olhar. Olhar como o seu. Olhar que é apenas um prenúncio para um irresistível deleite. Deleite banhado em verde. Meu tom de verde favorito…

 

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Sobre Beijos e Línguas, Augusto Mozine

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

 

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