Sobre Quodores

Anacrônico militante. Alguém que gosta de ler... e escrever. Que é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo Futebol Clube. Que gosta de papo, chope, torresmo, listas, Casablanca, Raí, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Golpe de Estado, Charlie Parker, Piazola, Blade Runner, jiló, pizza, 007 e...

Arruma um lugar para a gente!

É, definitivamente, um tempo de saudades. De pequenas nostalgias. De grandes nostalgias também. Porque o mundo virou – em fração de segundos, milésimos de segundos – um lugar absolutamente inóspito. Brotam como chuchu transgênico, numa cerca de dry-wall, notícias horrorosas e de todos os cantos do mundo: gente que acredita que o planeta é plano, logo ela, a Terra, tão linda e redonda e cheia de curvas, meneios, trópicos, calores equatoriais. Gente que se incomoda com cada coisa de alcova alheia, que benzamãe, benzapai. Gente, que no fundo, não parece gente, parece é um número, uma manivela, uma maçaneta, uma tecla de um tecladão.

Aí, a gente tem saudades. Saudades de tempos mais leves, menos enxofres, menos crucifixos, panelas, menos baba, menos fiscais de rola, cu, buceta, nariz, boca, ouvido. E tudo foi assim, de um dia pro outro. Até presidenta arrancaram para colocar um bando de gente cretina com cheiro de gomalina vencida. Até isso….

Mas a gente tem saudades e isso, muitas e muitas vezes, nubla a vista da gente. Porque nunca foi tão assim diferente, leve. Era que as cousas demoravam mais para nos atacar os fígados. Ou porque a gente estava mais junto, talvez. Porque se tem algo que mudou neste mundo redondo é isso da gente estar junto – maldita telinha de celular… E estamos todos nos falando, nos teclando, nos conectando, mas não estamos mais juntos. Falta, na verdade, o essencial.

Fico imaginando a Terra dançando para gente. Aquele Equador todo, separando quentes de frios, de frios e de quentes, naquele rodopio, dança, ao sol, à lua, ao ventre. Aqueles trópicos mudando horários, meridianos emprestando cores, localizando florestas, convidando a viajar, a flanar, a passear. Os dedos passeiam suas costas… sobem, descem… tua nuca é tão bonita, sabia? Já te disse? Florestas, parques, desertos, aquela cueca puída rasgada e beje, no chão. Beijo teu dorso, tua coxa, tem Vênus, abajur ligado, quero te ver. Esse pelo arrepiado parece mais uma onda. Chove lá fora ou aqui está tão molhado que a gente não sabe mais é de nada?

A Terra nunca poderia ser plana… esse gosto da tua boca.

A gente tem saudades. Mas é algo que a gente tá cuidando. O Biscate tá voltando…

Por uma resistência biscate

Há uma proposta tramitando no Congresso Nacional que quer exigir que todo candidato a cargo público tenha diploma de nível superior.

É exatamente isso que é a revolta do pato, em síntese. Porque quem defende o pato e a ideologia do pato pensa exatamente assim: que sem diploma universitário não há como conferir status de cidadão a alguém.

Não adianta, mesmo, a gente querer dourar a pílula, argumentar que a proposta está desconectada da “voz das ruas” que ecoaram na revolta do pato. Não está.

Assim como não é contraditória nesta lógica a proposta que pretende conferir às igrejas a possibilidade de questionarem diretamente ao poder judiciário a constitucionalidade de alguma lei ou outro dispositivo. Outra questão central na ideologia do pato é a figura de deus como norteador do homem de bem. Sim, um deus que confere caridade ao homem comum, à família, aos ideais. A ideologia do pato não é laica: ela pode não ser católica, evangélica ou judia, mas ela tem deus como elemento central da bondade humana.

Há outras propostas que estão na cesta da ideologia do pato amarelo. Uma, das que destaco com mais louvor, é a de que beneficiários de programas sociais não pudessem votar. Meio que de brincadeira tratamos estas pérolas: não devíamos mais. O voto censitário é uma bandeira, sim, da revolta do pato.

É óbvio ululante, também, que todas estas ideias centrais do pato-logismo não vêm à tona todas de uma só vez. Há, sim, um desconforto dos donatários que às vezes os deixa envergonhados, com pequenos pudores. Mas, Cunha está aí para nos esfregar na bunda, as relativizações no pato-logismo são moeda corrente.

Outra bandeira do pato amarelo é a que quer o exorcismo nas escolas, afastando cada vez mais as aulas de história, geografia, sociologia, antropologia dos currículos escolares. Primeiro, através de medidas que visem delimitar o que pode ou não pode um professor ou professora dizer numa sala de aula. Depois, questionando as verbas de pesquisa para temas que não tem “finalidade prática”. Por fim, a gente muda mesmo o currículo e que se dane.

A revolta do pato é – ao cabo de tudo – a tentação dos donatários de querer se manter em seu imenso condomínio, seguro e protegido. De preferência, de carro para ir na padaria da esquina.

É hora de nos melecarmos, como resistência, desconfio. De gozos, suores, palavrões, abraços, gente pelada, beijo, macumbas, bicicletas, famílias de papai e mamãe, de papai e papai, de mamãe e mamãe, de papai mamãe e de mamãe papai. Hora de nos lambuzarmos de mel, de cervejas geladas, de piada, poesia e cataclismas. Mas, sobretudo, é hora de deixarmos a redoma que nos protege do desconforto de ficar esfregando na cara dos amigos, colegas e conhecidos o que eles estão a cumprir ao apoiar a ideologia do pato.

E que os deuses, e sobretudo as deusas, salvem a psicanálise, a desobediência civil, os ateus e o amor.

O pato, senhouras e senhoures, não é só um plágio e uma fraude. Ele também é um vexame. Um imenso vexame.

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Entre soslaios e mais

Há sempre um desejo. Ali a espreita, observando. Podem ser pedaços de axila a mostra, com ou sem pelos. Um sorriso maroto, um sorriso farto, ou, ainda, um sorriso farto e maroto. Uma roupa vermelha, uma boca vermelha, uma unha vermelha. Pé descalço, pé sujo, dorso do pé. O desejo está – talvez – nas pequenas cousas que nos saltam às sinapses, aos olhos, ao olfato, ao sexo. Molha, incandesce, ruboresce. Um cheiro, de perfume a suor, quem sabe?

Transavam, sabiam caminhos já. Apesar de tudo, de todas as conquistas deste amor livre, do dar e receber quando as telhas – duas ou mais – resolvem se encaixar em vontades e libido, era bonito e obscenamente interessante aquela insistência. Da segunda vez já descobriram que existia uma pinta, sim, uma pinta, que quando tocada ligava um circuito todo de pele, falo, grelo, grelos, falos, peles. Usaram a língua e foi como se a linguística sempre estivesse a serviço dos corpos, para instinto e fome. Ou de saciar ou de crescer. Cacete, vulva, xoxota, pau, buceta, bigulinho. Já na terceira vez tinham ruelas com esses nomes em plena planície do umbigo. Ah… os umbigos…..

E o desejo, ali. Na espreita. Espreitando. Se esfregando. Se tocando. Se fodendo, todo. Teve um comentário sobre filme do Scola, despretensioso, nus, num intervalo qualquer, que entre a ternura e a delicadeza, deu ao desejo mais tempero, mais esfrega, mais toque, mais foda. Uma mão na bunda, um dedo no cu, uma saudade aqui e alhures, uma louca febre de andar pelados pela sala. Os sexos ali, esfolados, salgados, lúbricos e com gosto de hálito quente umedecido por lábios tenros.

O desejo ali, a espreita. Uma hora ele se levanta e vai embora, sabemos. Mas naqueles átimos universais, fragmentos da história, de civilizações, de escambos necessários: Gozo.

Feliz 2016. Este desejo também.

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Palhaçando de lugares

Tem um filme muito lindo do Tim Burton que fala sobre natal. É um desenho. A personagem principal é o Jack, uma simpática caveira que assusta as pessoas no dia das bruxas mas que resolve sair do script e ocupar o papel do Papai Noel na noite de natal… Obviamente o trem descarrilha solto… A dica é ver o filme e – incrivelmente, a versão dublada é excelente, as músicas funcionam excelentemente em português – depois contar aqui.

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Mas a questão toda não é o filme. Este texto aqui, de véspera de véspera de natal, quer dar a ideia mágica da gente se permitir um pouco ser o Jack. Sair da casinha, despirocar, descabelar o palhaço que mora na nossa alma. E faço este convite com uma única e expressiva vontade – ou desejo, palavrinha lúbrica parente de algum grau da vontade – que é o de possibilitar gozar em outras frentes, reconhecer outros espelhos, calçar sapato na cabeça, calcinha no peru, cueca na prexa. Sair como o Jack numa noite de natal.

Tá… fica com cara de auto ajuda este palavrório todo. Eu sei, sabemos. Mas juro que não é esta a intenção deste texto pré natalino. Esses dias de dois mil e quinze tem pesado demais. O ar tá carregado de intolerâncias, de panelas com bile, de sabedorias definitivas, de papai noel de vermelho mesmo que faça um calor da porra lá fora. Não importa aqui quais as concepções, posições, preservativos que se use, abuse ou cante.

O desejo é outro, é se permitir estar em outro papel. Buscar nesta transitoriedade fugaz alguma empatia, algum elemento novo para caraminholas, uma nova camisola para as ideias, um samba canção para vestir argumentos.

No filme do Tim Burton, apesar das cousas aparentemente não darem certo, dão: e muito…

Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

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Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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Queima…

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Como me queima a alma….

Alguém desconfia o que é o desejo?
Torpor que invade, cega, denuncia…
Ardor, suor, dor, vontade
Não quero pensar, mas desejo
Quero afastar, mas quero inteiro.
Qual a diferença entre amor e desejo?
Isso que queima, lateja, arrepia… molha
Os olhos são como o sexo, o sexo é como ar

Alguém desconfia o que é o desejo?
Trêmula, trêmulas minhas mãos…
E a hipocrisia de negar é negada pelos meus seios
Sequiosos, arrepiados, arredondados, rasgam vestes
Estimulam olhares, estimulam olhares….

São sentimentos distintos, paixão e desejo?
São complementos vitais? Quero…
Vagas lembranças e sinto o cheiro…
súbito, direto, vício, vital, pulso e me queima
E o gosto. O sabor. Suor.

Alguém sabe a diferença entre desejo e viver?
Gritar. Arranhar. Verbalizar. Desejar. Desejo…
Me toco. Te toco. Toque. Retocar. O fogo.
Como me queima a alma….

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https://contosdealcovatenra.wordpress.com/2010/10/20/das-linguagens-do-corpo/

Os idiotas e as famílias

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Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Dá cá um abraço, amasso!

Abraço.

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E calor. De corpos. De pele. Peles. Já pensou, imaginou, masturbou, tocou, gemeu sobre este instigante tema da humanidade, o abraço? Porque o que é um pau numa buceta senão um abraço. Ele rijo, ela molhada. Ele lá, ela lá, pinto, vulva, cacete, xoxota, molhado, molhada, entumescidos, clitóris, babas, gozos, abraço. Não é um tipão de abraço, este aí?

Sem contar que num tem analogia mais brincante que o cu abraçando o pau, apertando, doendo de amor, tem? Pode ter malabarismo, gel, suores, odores, mas tem lá um quê de abração, gostoso, forte, imantado. A cabeça da gente funciona aos abraços, imagino.

E tem abraço que é capô com  capô. Aquele encontro de formas, exuberares, toques, avessos, esfrega, fricciona, ama, clama, vexama, denguinho, abraço, abraço, abraço.

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Esse mundão todo devia era abraçar mais e falar menos. Porque a gente quando fala esquece de ouvir. E quando abraça, o abraço, o abraço, só tem calor se for entrega, sem protocolo, aperto, saudade, vontade. Desejo do calor do afago, do carinho recíproco, do amor que nasce de corpos que se aquecem. Abraço não tem gênero: no futebol, na cama, no boteco, na rua, na varanda, na esquina, no meio, no fim, no começo, no fim do entrevero, no começo da paz, nas intermináveis dessolidões tão importantes. Me abraça, abraço, abarco. Abarcar. Acalento, acalanto, acalentar, abraçar, canto.

Sem contar que o beijo, a língua na língua, a língua no falo, a língua no grelo, a língua no ânus, a língua no amor, a língua a milanesa num balcão de bar: quem é que não tem, na ponta das línguas, um abraço?

É isso, biscate é abraço.

Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

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Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Roteiros Biscates: “Play it again, Sam!”

Sempre divago, devaneio, sonho. E é naquele boteco da distante Tatooine, quando Luke e Obi-Wan buscam uma nave espacial para seguir viagem e dar origem à saga “Guerra nas Estrelas”. No meu sonho o boteco é do Rick Blaine e ele ajuda Obi-Wan, mesmo fingindo indiferença, a encontrar Hans Solo – que conversava com Ugarte. E que dias depois, longe das telas, alguma cantora de cabaré de três cabeças cantará algo parecido com a “Marseillaise” enquanto o bar é invadido por clones vestidos de branco e senhores representantes do Império. A cena toda já fiz e repeti, gravei, filmei, escrevi.

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Mas não só. Quando li – e, depois, assisti – Harry Potter nunca as cousas se esgotam ali no triângulo Harry, Rony, Hermione. Sempre imagino os corredores de Hogwarts e as conversas sobre “você sabe quem” longe do menino eleito, dos olhares de Dumbledore. Das conversas na sala comunal da Sonserina entre aqueles que não seguem Voldemort e por isso são perseguidos, calados, ofendidos. E de como estes ajudam – anônimos – na batalha final. E segue a cabeça girando a imaginar enredos, numa gostosa promiscuidade de ideias, de versões, de desvios dos textos originais. Ah…. aquele duelo final de Três homens e um conflito”….

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Quando me perguntam por que escrevo aqui ou do como me descobri biscate, gosto de imaginar ainda mais assim e assim. Porque aqui estamos buscando construir novas histórias, novos paradigmas, sair das caixinhas, mudar roteiros prontos e desvirtuando o que se considera dogma, regra, padrão. Sim, aqui cabe o Marrocos em Guerra nas Estrelas – até porque as imagens do filme foram filmadas na África Mediterrânea, Cabe, porque temos sonhos de outros mundos, outras possibilidades, outros roteiros. Na neblina, na tabacaria, na “Internacional” que toca na torre. Neste mundo cada vez mais árido é cada vez mais amplamente necessário um afago.

Sim, óbvio solar, nesses nossos roteiros teriam muito mais beijos, sexo, sacanagens. E como seria lindo o filme do dia em que o Batman sai do armário. Ele conta para a Mulher Maravilha e os dois saem para um mambo numa rua de Havana Velha.

E a gente sorri gargalhadas.

A arte da punheta canhota

Outro dia, numa deselegância colossal, quebrei a mão. Sim, o tal metacarpo quinto, da mão direita, a que escrevo. O motivo da deselegância? Futebol. Meu time perdeu uma peleja e eu, incomodado com a forma mais do a derrota, desferi um soco numa mesa. A mesa passa bem, incólume. Eu…

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Essas fraturas nos tiram bem mais do que locomoções, manejos, praticidades. Elas fraturam também os pequenos pedaços da alma que nos moldam. Fiquei deprê, confesso. Fui um idiota e quebrar a mão por causa de uma deselegância dessas não faz menor sentido. Ou faz… sei lá.

Certo, também, que não era só o futebol. Percebi, depois da alucinada reação, que naquela semana estive mais preocupado do que o habitual com contas, mais do que sempre com as frustrações de um trabalho que mais mecânico cada vez e vez mais. Uma semana onde queria chope, mas veio refrigerante sem gás. Uma semana em que – mais uma vez – um desapontamento com a política me tirou mais encantos, me tornou mais cético, mais cínico, menos sonhador. E quando o time perdeu, sem alma, sem brigar, sem fazer furdunço dos indignados – ainda que papelão de derrotado, projetei, me vi no espelho, bovino e pronto: prum trabum crac. Gesso.

Tirei esta semana o gesso. E tá doendo muito, tudo. A mão inchada pelo mês parado. Aquela sensação que sua mão parece um pão. O dedo não dobra. A articulação parece a interlocução do governo Dilma com a sociedade, dura, macilenta. O metacarpo? Tá lá, escondido, desviado um cadinho. Passou medo pela cabeça, de nada voltar a ser como antes. De não conseguir me desvencilhar desta porcaria de dor. E me odiei mais um cadinho, neste exercício de perseguição que a gente comete quando faz uma cagada monstruosa, como esta que relato.

Mas neste mês de gesso, olha lá, finalmente fiz uma planilha excel para uns cálculos de uns processos. Antes, fazia todo o trem de cabeça, anotava, pensava. A tal planilha revolucionou o mundinho do meu trabalho, meu mundinho chato de escritório e saíram mais cálculos, tirando um pouco de peso dos atrasos acumulados. E aprendi a usar a esquerda para muitas e muitas coisas. E percebi também o quanto este mundão é despreparado para quem tem restrições de algum tipo… Do ônibus ao banheiro.

A esquerda…. a mão esquerda…. Era ela uma companhia fina quando era adolescente. A piada era boa: Se masturbar com a esquerda dormente dava a impressão de que era outra pessoa a fazer o ato… Uma arte deliciosamente canhota.

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NU RECLINADO COM O CABELO SOLTO, 1917, ÓLEO SOBRE TELA DE AMEDEO MODIGLIANI/OSAKA CITY MUSEUM OF MODERN ART

Pensando bem, a esquerda… bati de novo a punheta sagrada. Devíamos nos masturbar mais e quem sabe a punhetação do resto das cousas não nos incomodasse tanto. Há punhetas e punhetas, cabendo a nós – desconfio – qual masturbação escolher.

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