Sobre Quodores

Anacrônico militante. Alguém que gosta de ler... e escrever. Que é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo Futebol Clube. Que gosta de papo, chope, torresmo, listas, Casablanca, Raí, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Golpe de Estado, Charlie Parker, Piazola, Blade Runner, jiló, pizza, 007 e...

Talvez um sorvete…

Queria nada, não. Outro dia mesmo, numa dessas megas torres blaster última geração que rasgam os céus da cidadona, mal consegui usar um elevador. Sim, um mero equipamento moderno. Sem botões, não sabia como subir, indicar andar, descer, parar. Bastava entrar e a máquina lá: prum. Minha cara de idiota e espanto.

Nem o celular sei usar. As “mileduas” pastas de arquivo, página de downloads, reconhecimento de voz,  aquele escarcéu todo de possibilidades. Queria era só fazer uma ligação, talvez: “cheguei.” “tudo bem.””como vai.”. Talvez usar a internete. Talvez um sorvete.

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A televisão? Ela grava, assovia, filma. Tem mais recursos que meu cérebro inútil, parado no tempo, perguntando a hora do jogo e preocupado porque vai perder o horário do filme. Queria nada, não. Ou talvez queira, porque nesse mundo tem sido assim o querer sem saber porquê. Nem a maldita regra do “por que porque porquê”…

Queria era um sorriso, talvez. Daqueles repletos, mesmo quando repete piada. Queria era um pau calibroso, durão, bonito, sempre a postos, sem que a porcaria do cartão de crédito ou a flacidez de ânimo estivessem ali, na espreita, na companhia, querendo algo que não sabe o quê. Queria era só um sorvete, de suco com água ou leite, congelado – sem gourmet, mesmo que feito daquela groselha antiquada.  Queria ler livro de papel, jornal de papel, mimeógrafo e colar cartaz de campanha política em poste, com soda cáustica e um cadinho daquela farinha de milho da embalagem amarela na calada do noite. Queria beber sem pressa mas no bar de sempre, sem deixar as calças numa cerveja super gostosa com preço de champanhe e retrogosto de alguma obra do romero brito.

Enfim, ando desconfiado que não caibo mais, não visto mais, não sonho mais, não quero mais…

Nessas horas, confesso, o único remédio possível é recordar, mastigar, saborear memórias, afetos, dengos e de sexos – molhado, amplo, geral, irrestrito, com sabor de quem chupa e se lambuza numa manga amarela doce, veludo, fiapo. No fundo, a tabacaria deveria ter o cigarro, a cerveja e uns libretos de foda.

A caretice é a última carta da tal mão invisível do mercado. Uma mão que não te masturba, mas só nos fode trazendo o prospecto das últimas novidades super lindas das torres de elevador inteligente internetes de oito mil gês e cacetes infláveis com pílulinhas azuis de um matrix sem fim….

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Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

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Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

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Vem com a gente, vem.

Para tudo e um jeito

Estou aqui a matutar trepadas…

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Jeitos e jeitos de encontrar um jeito de te pegar de jeito. Na verdade, nos pegarmos. Pegarmos, de jeito, no jeito, leito, sem pudores, com suores, gozos, labaredas e dedos. E línguas. E falo e vulva, e pau e buceta, e caralho e xoxota e qualquer canção que trate de dois – ou mais, por que não? – corpos se fodendo. Estou aqui a imaginar que quando abres estas páginas de blogue não pensas o mesmo e já tira minha roupa, já chupa meu talo, já pensa barbaridades que só quem trepa é capaz de pensar. De cu, de lambida, de salto alto, de chicote, serpentina, de quatro, de papai e de mamãe, de sabão, de vaselina, de sessenta e noves vezes dez e que mais de cálculo e meto, enfio, tiro, ponho, retiro, recebo, levo, passo o cheque e bota e camisola de oncinha e sei lá mais qual linha… que eu tô mesmo é tarado e pensando num jeito. Num jeito… que jeito?

Mas aí a gente se encontra no mundo, de roupa, de tecidos, de teias emaranhadas, de vizinhos, de opiniões alheias, de o que vão pensar de mim, e tem que fingir que não estamos pensando num jeito – e é assim que eu percebo: Gabo tinha razão e cada um vem ao mundo com suas trepadas contadas e a gente perde um montão delas pelas simples razão que insistimos nesse negócio de sexo sagrado, é amor, é sei lá namoro, casamento, teto, afeto. É jeito, desconfio. E volto aqui a matutar trepadas, inventar argumentos para um filme de foda, sonhando com um enredo que ao cabo acabe com uma transa, um nexo, um amplexo, um ósculo sem fim de boca a boca, de lábio a lábios, de fio a pavio terra e tudo.

Então, imagino é um jeito de um jeito que quando acabares este texto tu esteja – no mínimo – molhada e dê…

Um jeito… um jeitinho… um tesão.

Sedução

Essa história de química é batata. Saliva, cheiro, pele, o jeito de olhar e até de tirar remela do olho tem alguns encaixes do outro lado que pouca cousa pode explicar. Não é ciência, não é amor, não é gratidão, nem afago, nem nada, absolutamente nada. Aquele jeito dela responder aquela última pergunta e pronto. Sobe um sangue pela alma do corpo e alea jacta est. Estamos perdidos e obcecados e apaixonados e entregues. A fome passa a ser e estar naquele desejo fluído, de gozo. De sexos eretos. A ponta do grelo quando pulsa, sabemos, revela quânticos elementos elétricos. Assim como o cacete que refastela pra cima procurando ar. Parece um girassol buscando o sol, de tanto que remexe.

Há uma linha tênue nesse bonde chamado desejo que reside na reciprocidade. Reconhece-la é a chave para a cama, o chão, o joelho ralado, a bunda na parede fria, o cotovelo rasgado, o pentelho que engasga na hora agá, para a alegria dos fluídos e da risada larga depois do flacidez. O problema dos amantes, entretanto, muitas e muitas vezes, é esse reconhecimento. Porque reciprocidade pressupõe a tão sonhada empatia, se colocar no lugar do outro. A empatia é o sentimento biscate por excelência.

Nesses jogos de sedução devíamos experimentar sempre e sempre a nudez dos corpos e a nudez de poses e posses. Quando se deixa a empatia – e, portanto, a reciprocidade – como uma preocupação diversa ou diletante, a sedução passa a ser somente um jogo de vencer. Vencer, infelizmente, pressupõe derrotar. Nesse xadrez todo, sabe-se lá, pensar que a metida, a trepada, a abocanhada é mera questão de xeque mate é, sinceramente, uma bosta.

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O fato é que ele sabia do quão ridículo eram aqueles conselhos de revista cosmopolita, guias lacrados de sexo e que tais, que tanto fazem rir quando são levados a sério. Mas não resistiu e numa última tentativa desesperada mandou um envelope para a moça, com a cueca dentro, no meio do expediente. E a chave de um quarto de motel barato, desses que as portas abrem com cartão. Não disse mais nada.

Ela vestiu a cueca. Tinho ido trabalhar com uma calcinha tão confortável, mas tão bege, tão puída, tão descolorida, que achou melhor manter o clima.

Reticências, cachecol e morte

Está lá, na marca dos dentes. Uma marca funda, um roxo. Um chupão. Meu pescoço. Tive que usar cachecol. Não devia. Não só pelo calor. A gente não devia esconder essas marcas… Lá naquela mordida fomos, estivemos, nascemos. E morremos. A gente anda com receio deste ser, estar, nascer… morrer.

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Sempre tem um texto que compara o orgasmo a uma “pequena morte”. Naqueles doze segundos, ou treze, catorze ou onze, que antecedem tua morte eu gosto de notar aquele ar rarefeito, aquele instante onde pelos improváveis se eriçam. Aliás, gosto dos sinônimos de eriçar… arrepiar, hirto. Ereto, como as pontas hirtas dos sexos, meu e teu. Gosto de notar teu bigode suado, buço. Me lembram hormônios, calores, sabores. Não deviam deixar que os amantes tivessem que correr, nunca. Aquele abraço com cheiro de sexo e a eternidade combinam tão bem, como engate, encaixe, língua, toque, dedo, falo, vulva, cu e heresias múltiplas.

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Tem isso, também, que acho próprio. Estas heresias nos deixam humanos, com fome, sede e saudades. E não é que são os hereges que são mortais, queimam em fogueiras e em desejos, que tem começo, meio e fim? Os deuses e os perfeitos é que são eternos, missas, notícias no caderno fúnebre com epopeias para narrar em condolências. Outros serão lembrados por mais um trago, por mais um gosto, por mais uma foda. Morrer é deixar de foder…

Não devia ter usado o cachecol, definitivamente. Ou devia ter ficado nu o dia todo. O vizinho ia estranhar, o porteiro ia ouvir reclamação e esculhambação, o chefe ia estranhar e o  fiscal da vida, lá no coletivo, ia cochichar que impurezas assim degastam o mundo. Até porque, hoje de manhã, você foi embora. Deixou só um perfume diferente no sabonete. Morreu, também.

Talvez haja outro recomeço, outro nascimento, outro chupão, outra pequena morte. Mas hoje, hoje, eu não devia ter disfarçado nada. Esse maldito cachecol……..

E uns infinitos de reticências.

E de perto…?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Outra vez, a estatística. De longe, é um número. O número de mortes no Brasil por causa de procedimentos clandestinos em razão do aborto. A quinta causa de morte materna no país. Morte. Mas… e de perto?

Quem é aquela moça? O risco dela morrer numa agulha de crochê é mesmo uma vingança por uma trepada descuidada? Até quando a gente vai considerar que o sexo é, basicamente, para procriação, um ato solene, um bater carimbo? Por que transformar o sexo nalgo sacro ou numa roleta russa, onde o pecado está ali ao lado e por isso você pode, inclusive, morrer?

Toda a questão filosófica sobre a existência, a vida, a perenidade, deus, deuses, deusas, mãe, mães. Toda a vida de debates, reflexões, camisinhas, pílulas, “responsabilidades” podem e devem estar nos cardápios, nas camas, nos dilemas, nas escolhas. Mas… e se?

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A pergunta não é – como querem muitos – a de ser a favor ou não. Esta pergunta mascara intenção, esconde o verbo, oculta. A questão é manter na clandestinidade, no obscuro, na vala suja, um procedimento que feito de forma segura pode impedir mortes, prisões, dores e pontos finais. O comércio clandestino de quem pode pagar.

Vamos continuar fingindo que ali na esquina não existe uma gravidez indesejada? E agora, nesta maluquice pós moderna, vamos mandar para a inquisição, para a chama das bruxas, aqueles e aquelas que “contribuem” para a realização do aborto? Vamos mandar mais gente para lotar e lotar prisões por causa de nossa incapacidade em entender desejos e não desejos, possibilidades e não possibilidades, maturidades e imaturidades, diferenças, sexos?

O pecado original, a salvação, a danação eterna. Mas ali, ali na esquina, tem uma gravidez indesejada. E se a gente não mudar a lei, não descriminalizar, não oferecer amparo e proteção, vai continuar a significar morte, dor, ponto final. E estatística, lá longe.

Até ser aqui perto… Então, perguntamos: “E de perto…?”.

***********

Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Pequenos Prazeres: Delicatessens

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates

#PequenosPrazeres

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Então….

Poucas, mas poucas, poucas mesmo, cousas na via são tão boas como o cheiro dum refogar. A panela quente, o azeite. Aquele barulho. O barulho… Nem sei qual onomatopeia usar: zizzzzuuuuszizzzzz. A cebola, picada. Mais barulho. O alho…. E aquele cheiro que toma conta da cozinha, da casa, da alma. O que vai ser depois? Pouca importa, se tomate, se espinafre, se outro cozido qualquer. Aquele cheiro pela casa perfuma toda a vida….

Acordar. E encontrar lá aquele pó de café. Sim, nem máquina, nem mesquinharia em sachê, nem solúvel. O pó. Com cuidado no coador. A água quente, mas nem tanto borbulhar, esparramando-se pelo pó. Ouçam o cheiro… pergunto se pode existir cousa tão ébria quanto este primeiro cheiro de café. Não há, certamente. Não há.

Teus pés, descalços. Tua sola do pé brincando com as minhas. Teus pés me tocando. Tocam e retocam, panturilha, joelho, coxa, pau. Brincando. Teus pés, sem roupa. Aquele formato de pé, da parte alta. Sem salto, sobressalto. Sei lá, teria mil dias para me perder por ali.

Puxa, aquele filme comédia romance final feliz bobinho. Delícia, Demi Moore, Rob Lowe, ela não me aparece de madrugada para dar uma trepada com ele, benzadeusas! Filme bom… Como bolo de fubá com café. Como refogado de bife acebolado. Como pé com pé. Deita aqui, deita. Me faz um cafuné. Tem cheiro melhor que este do teu pescoço? Me faz um dengo, beijo. Aumenta o som. Abaixa o som. Ajusta a imagem, vai….

“Neguinho, tem um texto tão gostosinho no blogue de vocês… me deu um tesão, sabia….”.

Na vitrola, tocava Marvin Gaye, antes da ciumeira dos cabides….

Desavergonhas em girassol

De manhã, manhãzinha, a gente trocou beijos. Beijos mais longos que os habituais matinais, que a gente corre sempre e desespera sempre com a correria deste mundo todo. E foi que a gente se tocou ali, aqui, e aquela cousa toda e molha, acorda, geme e vai e foi. Acaba que atrasou um pouco o dia e animou a vida, como tem que ser.

Mas devia ter dito mais… Devia, naquele trajeto de casa para o ônibus, ter mandado mensagem, flor, dito cousas de ouvido, feito milongas. No trajeto. Devia ter mandado mensagem dizendo que ali naquela esquina tem um desses motéis de rua, sem estacionamento, desses que a gente vê as desenvergonhas todas caminhando  e fica sempre invejoso das coragens e molhações alheias. Que o período é de tantos reais e que ninguém ia sentir falta da gente se a gente ficasse lá durante uma horinha inha que fosse. Se melecando. E que viesse sem roupa debaixo, que é para modo de ver poesia mesmo, toda a poesia.

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição "Câmaras de Descompressão", http://vitreoformas.tumblr.com/post/83468983639/eduardo-marin-camara-de-descompressao-2013

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição “Câmaras de Descompressão”,

Não disse. A gente quase nunca diz. E a vida segue no extrato bancário, no almoço em pé, naquele contrato que a gente tem que fechar para poder pagar aluguel, prestação, saúde, escola, escola de língua, mestrado, doutorado, pós. Pra poder viajar sei lá para onde naquela semaninha que deu para tirar. Mais prestação, mais caminhão, mais cartão, o de crédito, não o das flores.

Aliás, faz um tempo também que não levo flores. Laranjas, pretas, rosas, azuis. Lantejoulas. Porque o problema da gente não é o falta de gostar, de abraçar, de enamorar. O nosso maior problema é esquecer da gente para ser outra cousa, que a rotina esta mágoa vai desencantando. E nem falo de amores fiéis, que esses podem ser os mais chatos ou os mais lindos também. Falo de gente, flor, girassol, amor. De texto biscate, essas manias que a gente tem de querer o molhado. De regar, sempre.

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Eu queria ser florista. Diria no bilhete. A cada girassol, e sabedor do sorriso que nasce quando a gente ganha um girassol, ia ser um cadinho voyer daquele remexo todo, daqueles enlaces, encaixes, madeixas, deixa que eu te mordo morde também.

É preciso um pouco de girassol na vida de toda a gente, desconfio.

Cinema: Contos de fada e foda

Aquela boa e velha história da melhor foda da vida e foram felizes para sempre. E daí nasce todo o amor de tudo, de que vai dar certo e pronto: fim, the end, blockbuster, explodiu na bilheteria. O sonho é este: o de uma boa foda, memorável, com que se ama – ou vai amar.

Ellen Barkin e Al Pacino em Sea Of Love

Ellen Barkin e Al Pacino em Sea Of Love

Escrito assim a gente até já sente a náusea. Daquela opressãozinha marota das certezas absolutas, da tal ordem. Porque resumem amor e foda, sentimentos que definitivamente não podem ser catalogados numa estante de mercado.

A foda, dizem, é só sexo. Então, não é. A foda é experimentar o outro ou a outra. Sim, tem fricção, felação, brincadeira. Mas não, né. A foda é vivenciar. No sexo, vivenciamos o corpo da companhia, das companhias, também trilhando o nosso. Quantas vezes a gente não descobre um novo e nosso pau quando um invento novo – que pode ser da mesma língua, do mesmo dedo, da mesma buceta, do mesmo cu – surge da foda?

Sei que tem gente que considera o ato sexual um protocolo de operações repetitivas. E não julgo, não. Mas a foda, a foda é outra parada. Envolve mais que saliva. E pode não ter sexo na foda, pode ter aquela provocação de carta, de recreio, de internete. Efe, ó, dê, á.

E o amor, o amor é tanta cousa. Nessas histórias de contos de fada fica o amor condicionando a foda num rame rame que não leva ninguém a lugar nenhum.

Dito tudo isso, quer casar comigo?

Final alternativo: “Vamos pegar um cineminha hoje?”

Aborto. Qual é o crime?

E neste final de semana teremos eleições. E mais uma vez o tema do aborto foi tratado de forma clandestina pela maioria das campanhas. Isso é inadmissível. O aborto continua sendo… crime.

No último dia 28 de setembro foi o dia de luta latino americano e caribenho pela legalização do aborto. Todo dia, entretanto, é dia de lembrar que milhares de mulheres morrem no continente por causa de procedimentos absolutamente precários e inseguros de interrupção da gravidez. Morrem. Acabou, ponto final.

A questão principal não é – nem sei se algum dia foi – ser favorável ou não ao aborto. Para esta decisão o importante são as informações, os valores, a cultura de cada mulher. A questão é se a prática do aborto deve ser um crime, punindo com cadeia quem faz e quem realiza ou ajuda a realizá-lo. E é este o ponto que revela toda nossa hipocrisia. Porque todo mundo conhece uma história. Todo mundo conhece uma mulher que fez. Todo mundo conhece. E a pergunta é: esta mulher deveria ser presa?

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Não estou pedindo para que aceitem o aborto. Estamos pedindo para que este deixe de ser crime. Para que seja o serviço de saúde equipado para realizar procedimentos seguros, diminuindo a mortalidade de mulheres por todo o continente. No Brasil. No mundo. Porque a morte destas mulheres resulta no fim de várias histórias, das mulheres, de suas famílias, de suas crianças, de seus pais e mães, dos amigos e amigas, dos sonhos. Porque quando não resultam em mortes podem existir sequelas graves, muito graves.

O sonho da maternidade é um sonho bonito, sem dúvida. Mas não é para todas. E todos. Mas mais do que isso: quando o aborto é ilegal, todo e qualquer procedimento que não o parto passa a ser clandestino ou feio ou inóspito ou triste. Quantas e quantas grávidas não tem o processo de gestação interrompidos naturalmente, por algum problema no feto ou no organismo da própria mulher, alguma incompatibilidade? Quantas e quantos episódios não conhecemos de gravidez interrompida?

E como no serviço de saúde, o público e o privado,  o aborto é pecado, sabe o que acontece nestes casos onde naturalmente houve a interrupção da gravidez? As mulheres são tratadas como “gestantes”. As mulheres são encaminhadas para exames, que vão detectar que o feto não tem mais pulsação, que a gravidez é tubária ou qualquer outro tipo de problema, junto com mulheres que estão indo bem em seus sonhos, com a gestação seguindo firme. E para se fazer uma curetagem, porque é preciso em determinados casos realizar um procedimento invasivo para se limpar o útero, encaminhamos estas mulheres para maternidades, para onde são realizados partos. A crueldade deste tipo de situação é enorme. É triste demais. Na mesma sala de espera… Por causa de um tabu, de um crime.

Aborto seguro. O sistema de saúde, público e privado, preparado para ofertar procedimentos com começo, meio e fim. Com tratamento específico, diferenciado, educado. Com acompanhamento, acolhimento, humanidade. Com informações para se decidir, cada mulher, o mais adequado proceder. A questão do aborto não pode ser vista como um crime.

O crime, sinceramente, é outro. É o da hipocrisia. Lenta e sempre, que mata: vidas e sonhos. Só que este não leva ninguém à cadeia.

 + Sobre o assunto:

[+] O que é aborto

[+] Documentário Clandestinas

[+] 28 dias pela vida das mulheres

[+] 5 Mitos Sobre o Aborto

[+] Aborto é coisa de mulher

Desconexas Considerações sobre a Alma Biscate

Desconfio sempre, em cinco minutos de amasso com você e pronto: ejaculo, gozo, meleco, molho. Esta precocidade tem a ver com várias e várias facetas, orgânicas, psicológicas, mundanas, ansiedade, desejo, pressa, vontade. Uma variável ampla, assim como o jeito que te tiro a roupa, peça por peça, só de te olhar. Ou de te ler… te ouvir. Sempre penso que talvez meu pau seja muito pequenino e por isso o sangue circula mais rápido, denso e pronto, não me seguro e é isso. Ou que tenho medo deste mesmo pau pequeno não te agradar e no medo, encabulo. E gozo. Desconfio sempre.

Mas me lembro sempre que depois não é assim, tão rápido. Até porque hoje eu já sei certas trilhas tuas, caminhos teus, ruelas e vale, em você, teus seios, o jeito que gosta da língua lá, bem lá, no grelo falante que te decifra. Decifra, na ponta da língua. E de dedos. E que, de repente, estamos lá nos tocando, masturbando, chupando, cheirando, fodendo, lambendo, devorando, tanto verbo que já recomeço, meço, manejo, meto. Desconfio então que talvez não seja o tamanho do pau e, sim, o tamanho do desejo.

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Você outro dia, nua, nua de tão linda, me disse cousas. Que era melhor não expressar certos tesões – dizendo em códigos todos eles – que depois a gente pode ficar encabulado. E pronto, novos verbos, todos eles querendo nos foder, aos gritos e murros dalgum beiral qualquer. Ou o joelho no chão. Ou sei lá. Ou o silêncio, de uma trepada que prefere calores a exuberâncias, como que rima de verbo com substantivo, adjetivo com advérbio, verdade com mistura. Te cheiro, sabia? E gosto, gosto quando estás com perfume. Mas gosto quando está sem… Tem cheiro nosso ali, tem cheiro nosso ali…

Vou confessar… Você descalça e eu tenciono. Pés sujos de chão, de parque, da praia, pés de gente descalça. E lembro que descalça você rebola mais, remexe mais, me encanta mais. Tesão em pés sujos? Você ri. E teu riso, caralhos voadores, me excita como uma semana inteira de sítios de fotografias de mulheres nuas, mulheres mulheres, de carne, osso, cheiros e pés sujos. Outro dia já me imaginei dentro de você do avesso. Cousas de pensamentos tórridos, torpes, insanos, malucos, sequiosos, teus dedos todos me comendo.

Enfim, às vezes desconfio que em cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta minutos, horas, dias, anos a gente vai se vir e meter e gozar e conjugar verbos e fazer rimas e errar grafias e espiar corpos e expiar outras cousas.  Às vezes acordo com tanto tesão que passo loucamente a te procurar, com minhas mãos. E fico ali gastando bronha com tuas fotos, teus sorrisos, teus textos, teus bilhetes, teus recados cifrados, tuas conversas clandestinas, tuas roupas molhadas e enfim, tuas coxas.

Sei lá, essa alma biscate encanta serpentes.

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