“ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

Há alguns breves dias, vi em vários espaços na internet o meme “Já acabou Jéssica?” e não entendia de onde havia saído a frase, muito menos, o contexto dela. Também não dei muita importância, e, particularmente, não tenho muito apreço por memes, uma vez que muitos são produzidos com o intuito de rir da dor do outro.

E com esse, o da Jéssica, não foi diferente.

Eis que uma aluna minha me mostrou o afamado vídeo. Em pouco mais que dez segundos, uma briga de duas adolescentes é filmada, na saída de uma escola. Uma delas está no chão e é socada e chutada fortemente. Jovens fazem um círculo pra apreciar melhor o “espetáculo” que ali se desenrola na frente deles. Elas, as meninas, brigam em público, se machucam, se expõem; a cena é de uma tristeza e violência só. As pessoas à volta gritam animadamente e se mostram excitadas diante da ocorrência da agressão. Ninguém separa. Ninguém ampara. Ninguém as acolhe. Apenas filmam, observam de um jeito mórbido e, mais à frente, compartilham o vídeo de quinze segundos com o que consideram uma briga “engraçada e cotidiana” de duas adolescentes.

Daí em diante já conhecemos bem o script: o vídeo viraliza em poucos dias, se torna o assunto mais comentado da internet e a fala de uma das garotas se torna um bordão, executado a torto e a direito com o único objetivo: ridicularizar e rir da dor de outra pessoa.

jessica
Não, pra mim não dá. Não consigo achar que se possa fazer humor diante da desgraça alheia, da violência, de algo que deveríamos firmemente repudiar e combater. Fiquei consternada quando vi o vídeo. Por tantos motivos, porque sou mulher, porque já fui supervisora escolar e já apartei brigas (de meninos e meninas), porque sei o quanto é triste estar no meio do escracho público, porque sei o quanto isso violenta a dignidade de um ser humano.

A adolescente que apanha, tentando ainda mostrar que não foi vencida, querendo não se sentir tão humilhada e violentada por uma plateia sedenta, diz pra se defender: “já acabou?”. Puro mecanismo de defesa da adolescente pra tentar se proteger e resguardar ainda alguma dignidade. E é justamente esse dolorido ato final do qual milhares de pessoas riem. Ninguém se solidariza. Mais importante do que se preocupar com a menina que apanhou, é promover o riso cúmplice.

E isso diz muito sobre nós. De como nossas formas de convívio são pautadas pela violência já banalizada e introjetada como um patrimônio imaterial no DNA brasileiro. De como nos portamos (mal) diante da dor dos outros. De como na iminência de ajudar, socorrer, dar apoio, preferimos com frieza lançar o aparelho de celular e filmar. De como optamos compartilhar e espalhar às expensas o riso obtido do infortúnio alheio.

Impressiona também que a cobertura sobre o caso não tenha desencadeado nenhum tipo de reflexão sobre a cultura violenta a qual vivemos. Ao procurar saber mais da briga das duas adolescentes, li que houve a atuação do Conselho Tutelar e que ambas já “fizeram as pazes”. De acordo com a matéria, a briga foi motivada por ciúmes de um rapaz, namorado de uma das meninas (e sabemos muito bem que somos culturalmente educadas pra odiarmos umas às outras, pra nos vermos como rivais que disputam homens, beleza e juventude). Ao que consta na reportagem, a mãe da adolescente que apanhou não está nada bem devido a forma como a filha foi superexposta e ridicularizada perante, apenas de… todo o mundo cibernético.

Eu entendo a dor dessa mãe, sabe? O que não compreendo e não aceito, é essa falta de alteridade e empatia que se apossa de espectadores sedentos por grandes e pequenas tragédias da vida real. Uma sociedade que se ouriça e que se excita em consumir e compartilhar violência em seu estado puro, é uma sociedade que me deixa desesperançosa por dias melhores.

Daí que ninguém reflete sobre a responsabilidade da pessoa que espalhou o vídeo. Ou das pessoas que compartilharam e estão ainda, bovinamente compartilhando o dito cujo. Ninguém pensa que poderá ter contribuído pra arruinar uma vida com essa atitude, prenhe de violência simbólica.

Afinal de contas, não sou eu que estou no meio daquela briga, não é mesmo? Pra que ter empatia e alteridade? O que significa isso? Não se sabe.

E com a pontinha de otimismo que ainda me resta, espero que um dia nós tenhamos mais pessoas que apartam brigas, pacificam conflitos, resolvam pendências na base do diálogo do que pessoas que saiam por aí dando porradas a esmo e outras filmando, debochando e compartilhando agressões com a insensibilidade e a banalidade de quem ao mesmo tempo come pipoca e consome a dor alheia.

Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

mutarelli

Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Tempos amargos

Quando penso no nosso tempo presente, me recordo dos amargos versos de Cálice: tanta mentira, tanta força bruta. E dói, sabe? Presenciar o avanço desse conservadorismo, já tão reverberado e amplificado nas redes sociais, junto com a crescente onda de intolerância e da violência contra grupos minoritários, é coisa que faz dobrar até o mais otimista dos sonhadorxs.

E aí a gente cansa, quer jogar a toalha, dar um tempo.

Um beijo de duas mulheres idosas “choca” o país e faz com que toda uma trama promissora seja repensada. Uma travesti é brutalizada na cadeia (caso Verônica Bolina) e tratada como um animal em exposição pública. Uma mulher, Amanda Bueno, 29 anos, dançarina de funk, é morta de forma hedionda pelo companheiro e câmeras registraram tudo. Um menino de 10 anos, Eduardo de Jesus, é assassinado com uma bala na cabeça, disparada por um policial no Complexo do Alemão. Na política, os projetos mais conservadores e regressivos, como a lei da terceirização, que visa precarizar ainda mais as relações trabalhistas, corre grande risco de ser aprovado. A pavorosa redução da maioridade penal. A bancada política que atende aos interesses da bala, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e da negação dos direitos humanos está mais do que articulada e infiltrando seus tentáculos em tempos de crise e caos.

E uma das coisas que mais me doem, do macro ao micro, é ver essa perversidade expressada no campo do cotidiano. Gente que nunca soube na vida o que é viver sem seus privilégios de classe, cor, sexo, gênero e etnia, e, na atualidade vêm placidamente a público defender os seus interesses. Sim, as marchas dos dias 15 de março e 12 de abril foram protestos burgueses marcados pelo discurso de ódio e pela manutenção (e aumento) dos privilégios de quem já os têm e parece nunca se dar conta disso. Não é de embrulhar o estômago?

E o conteúdo político dessas marchas, afff… Desperta em mim a síndrome de Regina Duarte: elas me dão medo. Porque são movidas por racismo, por beligerância, pela aniquilação do outro, pela anulação da diferença. Na minha humilde cosmovisão, elas demarcam mais do que uma oposição política; elas são sintoma de puro mau-caratismo de uma elite rançosa, decadente e tacanha.

E, pra piorar o estado de coisas, a sociedade brasileira não se assume como violenta. Mas ela é, até o tálamo. Um prato cheio pra gente aplicar a tese da banalidade do mal, da Hannah Arendt. E uma cultura como a nossa, que permite a naturalização da violência, o mal, esse que desconsidera o outro e implode com a prática da alteridade e da justiça, tem se instalado com tamanha força que o que sobra pra gente é o peso do pessimismo e a falta de esperanças em dias melhores.
Mas amanhã, vai ser outro dia…
Tomara, viu?

Não dou conta

Confesso. Tá cada vez mais difícil tomar parte no que está acontecendo. E nesse instante exato, o que está acontecendo agora? Qual a treta mais cabeluda do momento? Qual o mais novo velho escândalo do cenário político? Qual a questão mais urgente e emergente está sendo encampada? Por quê? Para quem? Quando? Onde? Oi?

Sim, realmente não dou conta nem de conseguir sossegar nas minhas férias. Nessa aceleração carnívora e ansiosa da vida e nestes tempos não-humanos quem consegue viver alienado de todo e dizer-se feliz?

Confesso que às vezes tenho a precisa sensação de ver de camarote vip a banda passar e eu estática, sem poder me mexer, enxergo esse desfile de precisões e necessidades artificiais ficando desgostosa de prosseguir, de continuar girando essa roda que nem sei onde vai parar, mas se parar, meu nome vai pro SPC e pro Serasa. No mínimo.

E tudo é pra ontem.

Atualização de lattes. Juntar documentos. Protocolar. As contas do início, meio e fim do mês. As faturas (altas) do cartão de crédito. Papel, papel e mais papel. Os prazos dos (muitos) eventos. Os inúmeros editais. Os amigos que reclamam atenção e que vão ficando perdidos na estrada. A família que se sente abandonada. O trânsito ruim. O calor e a falta de chuva. A hora do barco. A carga horária. O conserto do celular. A pia cheia de louça suja. O antivírus do computador. As demandas dos outros. Os aniversários esquecidos. Os presentes não comprados. Os encontros desmarcados. Os livros não lidos. Os check-ups preguiçosos. A comida sem glúten. A revisão do carro. A casa bagunçada. Os sapatos espalhados. As ligações não atendidas. O IPVA pra vencer. O medo da multa. Os diários eletrônicos. As correções a serem feitas.

E os resultados agora, agorinha, pra já, nesse instante senão o mundo desaba e a culpa é sua, só sua.

Quem consegue sobreviver? Quero abraçar essas pessoas… Cadê a beleza, cadê o glamour, cadê o movimento sexy? Será que essa vida só tem interditos?

Será?
Final nada otimista.

O amor

O amor que me alcança tem o cheiro dos meus cuidados em ti. Te amo, me preocupo, sou teu escudo, quero que nenhum mal chegue enquanto estiver perto. Te pego, te apanho, te desconstruo. Te costuro, emendo, cuspo e mordo. Te arrebato. Me arrebatas. Nas palavras, na cama, na nossa cama, no nosso encontro. Te sinto todo, inteiro, teso, durmo junto contigo e faço teu café. Te amo por nadinha, por coisa nenhuma. O meu amor é uma velha e boa conversa fiada de porta de esquina. Mas é verdadeiro, viu? Porque não valemos nada juntos, a não ser essa matéria feita à base de ilhas e mares que construímos tortamente. Te dou tudo que tenho, possuo só o coração, esse gerente do mal que me incita a viver beijando o chão que pisas. Pra ti, te trago flores, te acordo com beijos e carícias danadas, daquelas que você gosta e calado, se permite e se entrega as minhas mãos cheias de coragem, finitude e gozo. Pra ti, Exu meu, eu cozinho, rebolo, amasso pães, invento histórias e faço cafunés matadores na tua cabeça. Mesmo que de ti se façam dois, sou eu, pequenininha, que te ponho no teu melhor lugar (dentro de mim). Só queria dizer que habitas por entre a sombra e o destino. Não sei de onde vens. Te observo furtivamente (ou não), pois não sei quem és. Porque secretamente, me enganas e finges (e sim, eu sei da presença invisível dessas coisas doloridas). Mas olha, se te dou amor, é porque em mim tem forças que vem de dentro do rio e do mar. E gente do meu trato, feita de barro pelo amor, sempre sobrevive. Dá o que tem, ama no possível e segue em frente. Acende o cigarro, toma um gole, vira o copo e respira fundo. Porque sabe que o amor, esse território imenso, nasce e morre um sem-número de vezes dentro do peito. E gosta.

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

Sobre idade, mulheres e desejos

Li recentemente um blog de uma brasileira que vive na Austrália. A menina fez uma lista falando das diferenças culturais entre os dois países. Não costumo dar ibope pra esse tipo de comparação que geralmente recai na inferiorização da cultura brasileira frente ao outro. Como se nada aqui prestasse ou se eles, os outros, fizessem tudo certo e nós, bárbaros, as coisas erradas. Não dá. Porém, algo me chamou atenção na lista dessa moça. Ela disse que lá na Austrália, os homens mais velhos preferiam se relacionar com mulheres da idade deles. Que era até difícil ver um casal com uma diferença significativa (?) de idade.

Daí fiquei pensando em um monte de coisas. Até meio contraditórias. Confesso que achei bacana isso de pessoas mais velhas continuarem namorando, se apaixonando, se encantando. Mas também acho que a diferença de idade entre casais não pode ser tabu. Chato mesmo é ter regras rígidas pautando normas em relacionamentos afetivos. Né?

Mas, em nossa cultura, só um lembrete: homens, de qualquer idade, estão autorizados a ter vida sexual e afetiva. O mesmo não vale para as mulheres.

É sem sombra de dúvida, um hábito cruel e canalha desautorizar socialmente que uma mulher mais velha namore. Com alguém da idade dela, mais velho ou mais novo (aí o escândalo é total). Parece válido indagar: por que mulheres consideradas “maduras” ainda causam bastante estranhamento por exercerem seus desejos e suas sexualidades? Parece que a sua avó, a sua tia, a sua mãe ou aquela sua ex-professora devem estar condenadas a viver sempre no lugar da não-libido; como se fossem seres destituídos de desejos e que devem ser engolidas por essas identidades, quase sempre ligadas a maternidade com uma conotação conservadora e aprisionante.

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Vejo com dó o escarcéu que a mídia faz em torno da vida amorosa de Susana Vieira. Quase sempre na perspectiva de ridicularizá-la e de torná-la uma figura folclórica porque a mesma simplesmente comete a ousadia de namorar. E de namorar homens mais novos. Mas e daí? Susana poderia se relacionar com toda a torcida do Flamengo mais a do Corinthians que não seria da nossa conta.

Mas a mídia que alimenta as fofocas das celebridades, esperta como ela só, sabe que criar esses personagens como esse, da “senhorinha sem-vergonha”, ajuda e muito a vender revistas e a aumentar o número de acesso aos sites de espetacularização da vida privada. E sinceramente, a gente só perde com isso. Porque não devíamos reforçar essa cultura que tanto deprecia as mulheres mais velhas no exercício das suas liberdades de corpos e afetos. Ora, todxs nós chegaremos lá (assim espero, risos). E que vida linda, farta e generosa podemos ter sem esses rótulos babacas e moralistas! Realmente precisamos alimentar esse julgamento que acaba pesando muito mais pra nós, mulheres?

Não concordo e não darei o braço a torcer. Jamais esboçaria qualquer sinal de reprovação se minha mãe, aos 56, viúva, quiser namorar. Aplaudo e sempre aplaudirei pessoas que optam por serem felizes, sozinhas ou acompanhadas, por viverem seus desejos à revelia do olhar alheio, da patrulha alheia. Gosto dos que têm fome, como diz o verso de uma música de Adriana Calcanhotto. E vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.

Por que o aborto deve ser um direito?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Porque não engravidamos sozinhas e não merecemos o apedrejamento alheio por uma gravidez indesejada.

Porque não deveríamos ouvir coisas horrendas do tipo: “na hora de abrir as pernas, não pensou em usar camisinha, né?”

Porque não queremos ficar à mercê de açougues humanos que são grande parte das clínicas clandestinas de abortos deste país.

Porque tortura é obrigar uma mulher a levar adiante uma gravidez que ela não queira.

Porque não desejamos ser assassinadas caso o procedimento abortivo dê errado. Porque também não somos assassinas e nem criminosas.

O aborto seguro é um direito das mulheres e dever do Estado.

O aborto seguro é um direito das mulheres e dever do Estado.

Porque vivemos em uma cultura masculinista que favorece a omissão do homem que nos engravidou.

Porque quase sempre estamos sozinhas e desamparadas nisso. No antes, durante e depois. E isso é doloroso pra caramba.

Porque o aborto é uma questão de classe sim. Pergunte isso a uma mulher pobre que quis abortar.

Porque não suportamos mais depender de redes clandestinas de venda de medicamentos abortivos, quase sempre falsificados.

Porque o nosso ventre não é um espaço para o seu moralismo religioso e seus discursos autoritários.

Porque os corpos são nossos e nossas vidas devem ter prioridade acima de qualquer coisa.

Porque não somos incubadoras ambulantes e nem depósitos sem valor que só servem para despejar crianças.

Porque não precisamos justificar para ninguém as nossas escolhas, a não ser para nós mesmas.

Porque, basicamente, filhos têm que ser frutos do desejo e não de uma imposição. Apenas isso.

Porque, mesmo que você não queira, sim, NÓS ABORTAMOS! Aborto legal assegurado pelo Estado já!

É assim tão difícil de entender? Ou precisamos desenhar?

Aviso: o moralismo mata

Aviso: o moralismo mata

Pequenos prazeres: a barba

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates…

#PequenosPrazeres

A barba é um dengo. Gosto dela rala, farta, média, comprida, cerrada, aparada ou não. De todo o jeito. Barba selvagem, meio bagunçada, barba até imberbe, feita sob medida para que as mãos possam se perder em afagos e carinhos.

A barba excita. Dá cartaz. Arranha os lábios quando beija. E é tão gostoso… Tem o poder de invocar cheiros e delícias quando resolve passear lá. Lá embaixo. Naquele lugar. Úmido. E todo o tesão recomeça num beijo que retorna cheio de fluidos, salivas e línguas.

Perdição define esse momento.

Johny Hendricks, lutador do UFC, com essa dobradinha matadora: barba e óculos...

Johny Hendricks, lutador do UFC, com essa dobradinha matadora: barba e óculos…

A barba, mes amis, é muito mais que a simples presença de pêlos no rosto. Ela é capaz de pintar cenários de erotismo, projetar sacanagens e sugerir trepadas inesquecíveis. Gente com barba é gente que promete deleite na pele e arrepios no pescoço.

E acho que ainda não inventaram nada melhor pra conservar o cheiro lascivo do sexo que os pêlos. Faciais ou não.

Ouso dizer que a barba tem até o poder de curar todas as feridas narcísicas da alma.

A barba é quase um sex shop. Propaganda de sexo bom e safado 24 horas por dia. Tara (minha) pura?

A barba é uma posição político-ideológica. De esquerda, que dá mais charme. Denota uma suposta ausência de frescura, coisa muitíssimo bem-vinda nesses tempos assépticos e de corpos infantilizados. Saudade dos tempos mais peludos e menos ditatoriais (para todxs).

Apenas sigam esse conselho

Apenas sigam esse conselho

O que circula por aí é a mais absoluta verdade: faça amor, não faça a barba. Porque ela é  uma preliminar ambulante. Um chamego a mais. Um cheiro que se pede.

E eu só posso assinar embaixo. Lá embaixo, de preferência…

Não tenho filhos. E daí?

Reencontro com as colegas da antiga turma de graduação via um grupo virtual que foi criado. Muito tempo que não as vejo, que só tenho contato com algumas poucas por intermédio do facebook. Das primeiras perguntas: Quem casou? Quem tá solteira? Quem teve filhos? Respirei fundo, porque já pressentia como ia ser a tônica da conversa e falei de mim, como estava a minha vida, no que fui solenemente ignorada. Aqui o papo é outro. Muitas respondem orgulhosamente que casaram. Que já tiveram filhos. O primeiro e o segundo. Que estão grávidas. Como não tenho filhos, não casei e nem penso em engravidar no momento, senti que fui deixada de lado. Já um pouco cansada daquela conversa, tentei mudar o assunto. Muito embora porque entenda que nós somos maiores que esse projeto do casamento e que, vez ou outra, é bom conversar sobre filhos, mas também é prazeroso bater um papo sobre carreira, viagens, projetos profissionais, bofinhos, bofinhas e outras contingências mais. Então ousei perguntar: “Além disso (casamento e filhos), quais são as outras novidades? Que vocês andam fazendo de bom, meninas?”. E escuto, na lata, de uma colega que já tinha dito anteriormente que estava grávida, repetindo em alto e bom som: “eu fiz um FILHO!”. Assim, com letras garrafais mesmo. Entendo que ela esteja feliz e empolgada com a primeira gravidez (e com todo direito), mas o que não gosto é dessa sutil crítica que permeava a conversa, em dividir, as mulheres entre aquelas casadas (supostamente bem-sucedidas) e as solteiras coitadas (“mas não se preocupe, deus vai te mandar o homem certo na hora certa”). Percebendo o rumo da coisa, eu fui irônica de uma forma que até me causou arrependimento depois e falei sem pensar: “E por acaso você quer um troféu por estar grávida?”

familiaNão, não gostei do que eu disse. Achei desnecessário e um pouco arrogante até. Mas tentei ir na defesa de escolher entre um caminho ou outro. Porque sempre acreditei em um feminismo amplo e generoso, que respeita as liberdades e projetos de vida diversos de outras mulheres. Não estou criticando a escolha de ninguém em casar e ter filhos. Apenas não tolero que façam isso comigo porque tenho escolhido justamente o oposto.

Bem, depois disso, achei que fosse ser expulsa do grupo. Não fui. Mas também não me senti mais confortável de estar lá. Vi-me como uma estranha no ninho. Deslocada, perdida, sem conseguir me comunicar. Mas mais do que isso. Muito mais. A percepção da sociedade ainda é de lançar esse olhar piedoso e de cobrança para a mulher que tem mais de trinta anos e que ainda não casou. Mulher assim é considerada um projeto amputado; falta-lhe alguma coisa. Que pode ser prontamente resolvido com um marido e crianças. E dói saber que sejam as próprias mulheres a cumprir esse papel do carrasco. Nós, vítimas e algozes ao mesmo tempo dessa cultura que insiste em nos dar um script pré-acabado pra todo mundo. Mas eu rejeito, sabe? Não quero esse roteirão. Não vou dar chance para que meçam minha felicidade ou lhes dar poder para que façam o balanço da minha vida baseado em critérios que não são meus. Não acho que uma mulher que tenha casado e tido filhos seja superior a mim. Nem tampouco eu sou a ela. Somos todas mulheres, com trajetórias e escolhas diferentes. Por que eu deveria medir a minha vida pela sua? Não percebem o quão arbitrário e violento é isso? Favor parar com essa coisa de criar um ranking de parâmetro de sucesso individual pra saber quem fez mais ou menos com a sua vida. Coisa mais ultrapassada e démodé…

E o fato de eu não ter casado e não ter tido filhos não faz a minha vida menor ou incompleta. Também não é uma vida perfeita e sem crises. Uma das poucas coisas que tenho certeza, é que a existência não deve ser pautada pelo suposto verde da grama de outrem. Esse verde definitivamente não me cabe, não me representa, não me acolhe. Meu verde é outro, sabe? Sorrindo ou não, a minha grama é uma aquarela com nuances amarelas, azuis, brancas, vermelhas, cinzas e marrons. Aceite isso antes de querer me enquadrar. Apenas.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Cansei…

Cansei…

cansada (1)

… do acolhimento do discurso conservador por uma maioria sem memória da história política mais recente, identificada com os piores delírios da direita ultraconservadora.

… das viúvas e viúvos do regime militar, que salivam em imaginar a ditadura de um moralizador Estado mínimo (mas máximo na arrecadação de impostos).

… da ausência de empatia, alteridade e compaixão pelo outro (Um pouco de tudo isso não cai mal não, sabe?).

… do cinismo de nossa classe média, encampando os ideais das elites, que por sua vez, têm verdadeiro asco da vida de classe média. Ou do pobre que vota nelas, nas elites.

… do eterno mimimi dessa gente que não consegue enxergar um palmo além da sua bolha de privilégios – geralmente sem margem de erro pra mais ou pra menos: homem branco, heterossexual, cristão e de classe média.

… do discurso esquizofrênico da “nova política” (eu vejo um museu de grandes novidades – Cazuza já cantava essa pedra).

… dos meios de comunicação que são empresas a serviço de interesses hegemônicos e que dão uma cobertura política tão parcial e escusa que chega a beirar o criminoso.

… de ouvir que o PT implantará a ditadura comunista e patrocinará, além de Cuba, toda a China e a Coréia do Norte (bem que podia começar patrocinando o comunismo aqui no Maranhão, rs).

… do ódio de classe manifestado na ojeriza aos programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família (porque a culpa da pobreza é do pobre, como ensina o capitalismo e a meritocracia, by the way).

… do racismo esboçado por nossa classe médica contra os médicos (negros) cubanos do programa Mais Médicos (essa gente parece empregada doméstica!).

… das defesas apaixonadas por um Estado cada vez mais militarizado, autoritário e genocida da população negra e pobre, através da redução da maioridade penal (bolsonaristas vão ao delírio!).

… do perigoso discurso moralizador em defesa da família, proferido pelos “homens e mulheres de bem”. Vocês estão falando de qual família mesmo? Famílias higienizadas, sem veado, sem sapatão, sem trans, apenas com mulheres que não abortam e cheia de homens honrados?

… do racismo geográfico contra os nordestinos (essa gente sem estudos que não trabalha e que é um obstáculo para o desenvolvimento do sul maravilha, não é mesmo?).

… do argumento que a alternância de poder é uma marca da democracia, logo, o PSDB teria supostamente todas as credenciais para melhorar a saúde da coisa pública brasileira (Oi? A racionalidade mandou lembranças…).

… do preconceito de gênero em aceitar uma mulher na presidência. Pior ainda pelo passado de esquerda e militância que essa mulher carrega na sua história de vida (porque sim, isso é um demérito pra muitos).

… da arrogância de um playboy desrespeitoso e corrupto (agressor de mulheres?) que se põe como arauto da exemplaridade e dos bons costumes.

Enfim, cansei dos argumentos que não conseguem enxergar que o buraco é mais embaixo. Muito mais.

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Notinha de Rodapé: No BiscateSC todo mundo é livre pra votar ou não em quem quiser…espia aqui.

Sobre Jared Leto e mulheres trans*

Texto dedicado a Danie Segadilha, Ânderson Galdino e Daniela Andrade

A premiação do Oscar deste ano distribuiu suas estatuetas para Matthew McConaughey, como melhor ator e Jared Leto, para melhor ator coadjuvante. Com isso, deu grande visibilidade ao filme Clube de Compras Dallas (2013) e trouxe à tona uma polêmica delicada: um ator interpretando a personagem da Rayon, uma mulher trans*. Após a premiação de Jared Leto, tive a oportunidade de ler, no mundo cibernético, uma enxurrada de textos, geralmente assinado por mulheres trans* militantxs, que não se sentiam representadxs na atuação de Leto. À primeira vista, fiquei curiosa pra saber mais a respeito da opinião destxs militantxs, porque se tem algo que o cinema costuma fazer é se pensar como uma arte livre de questionamentos e enquadramentos. Como se a arte não fosse essencialmente política e não tivesse que se explicar, que se desembrulhar, como se não fosse comprometida com o momento histórico atual, marcado pela exclusão e pelo silêncio de populações marginalizadas. Ainda mais no caso específico do filme, que traz uma personagem trans*. Falar sobre essa população significa chamar a si inúmeros questionamentos éticos e responsabilidades políticas. Querendo ou não, de modo implícito ou não, existe um conteúdo de transfobia rondando a produção (e repercussão posterior) do filme.

Cena do filme Clube de compras Dallas, na qual o ator Jared Leto interpreta a Rayon, uma mulher trans* .

Cena do filme Clube de compras Dallas, na qual o ator Jared Leto interpreta a Rayon, uma mulher trans*

Sim, eu penso que o diretor de Clube de Compras Dallas, Jean-Marc Vallée perdeu uma bela oportunidade de dar visibilidade à causa trans*, quer dizer, visibilizou a partir da invisibilidade. Porque a polêmica foi posta pra gente, ainda que do avesso, ainda que pelo anti-exemplo. O grito político se deu através do silêncio enunciado pelo filme. Ora, não existem mulheres trans*, também atrizes competentes, que possam dar conta da personagem Rayon? O desconforto da escolha de Leto vem justamente do ator, homem cis, representar a antítese da identificação de uma mulher trans*. E sim, isso é doloroso. É a negação de uma identidade. E por que essa dor não foi levada em consideração? Será que a arte está autorizada a passar por cima dessas questões, será que a arte, ela mesma, às vezes posta como uma categoria que paira sobre nós, não precisa se refletir como uma prática igualmente ideológica, atravessada pelas contendas do seu tempo?

Não quero de forma alguma sugerir que a arte deve ser feita aos moldes de um panfleto. A discussão não é esta. Mas, repito e reitero: ela é uma prática política, situada no mundo, envolta de historicidade, ideologias e ambiguidades. Houve um tempo em que homens tinham que representar mulheres, porque as mesmas não podiam atuar. Houve um tempo que atores brancos escureciam o rosto pra representar negros porque negros não podiam ser atores. E agora, o que vemos? Em nossa época, homens cis representando mulheres trans* porque, por quê mesmo, gente? Será que elas não podem ser atrizes? Ou será que na estreiteza do nosso preconceito, da nossa transfobia, só lhes é permitido o trabalho nas ruas como prostitutas ou em salões de beleza como cabelereiras?

Pra traçar um paralelo, deixo aqui uma breve história da modelo e atriz trans* Telma Lipp. Ela explodiu na mídia na década de 1980 e teve uma carreira prolífica na moda e nos palcos. Foi jurada de programa de calouros do Clube do Bolinha e atuou como atriz no teatro e no cinema. Em 2001, fez testes para atuar no filme Carandiru, tendo sido selecionada para interpretar a personagem da travesti Lady Di. De um modo ainda não explicado, perdeu seu papel para Rodrigo Santoro, que interpretou a travesti. Pouco anos depois, sem conseguir nenhum trabalho no meio artístico, Telma Lipp falece em 2004, em virtude de neurotoxoplasmose uma doença degenerativa que paralisa os órgãos.

Telma Lipp, modelo e atriz trans*, sensação na década de 1980

Telma Lipp, modelo e atriz trans* paulistana, sensação na década de 1980

Se nós não dermos visibilidade a esses grupos hoje, se não deixarmos que falem por si mesmxs, como podemos esperar que crianças de grupos minoritários se espelhem em alguém e que em um breve futuro tenhamos mais representantes desses mesmos grupos pra assumirem esses papéis que hoje, salvo algumas exceções, continuam restritos à atores e atrizes cis? Sério mesmo que vamos esperar a Era de Aquário em que tudo será lindo, perfeito e ideal para incluir essas populações marginalizadas? Penso que, infelizmente, até essa época dourada chegar, muita gente vai continuar sofrendo com a ausência de modelos positivos de identificação, com consequências pesadas no que diz respeito à construção de suas autoestimas. E nós, vamos continuar reforçando discursos e práticas de exclusão e transfobia, perdendo uma grande oportunidade de aprender com x outrx, de respeitar o jogo das diferenças, de ampliarmos a compreensão sobre os múltiplos modos de viver, ser e estar no mundo.

Meu lado

Próximo carnaval vamos fazer cosplay da obra do Magritte, Os amantes…

E você nem conhece meu lado mandar mensagens apaixonadas de bom dia. Meu lado te enlouquecer ouvindo a mesma música de Mayra Andrade umas cem vezes. Meu ladinho carente abraçar e grudar como se não houvesse amanhã, presente ou passado. Meu lado chegar entrando sem pedir licença na tua vida, assim, só porque tenho a descarada mania de fazer entradas triunfais em vidas alheias. Ou, por outro lado, ficar chateada porque você fez a barba, afinal, ela é minha, pertence a minha pele que reage imediatamente quando você vem roçar esses seus rebeldes pêlos em mim. Meu lado carcereira querer te acorrentar na minha cama e te fazer meu, eu metrópole e você colônia. Meu lado brigar porque alguém bagunceiro deixou a toalha molhada por aí (pensa que é casa da mãe Joana?) e acha que vai escapar de fininho da bronca (só que não). Então, te tirar do sério com as minhas pressões pra ver se você cresce, menino. Meu lado apoiar tuas transgressões (comigo). Dos meus lados briguenta e manhosa que você alimenta e depois finge não entender. Meu lado apaixonar pelo seu corpo eternamente suado e pelo seu sorriso, eternamente tímido. Meu ladinho sórdido pedir sempre mais até ver que você está cansado e exaurido. Meu lado querer caminhar ao seu lado e te empurrar com meu ombro (segura a pressão!). Dos lados arrogantes, falar como se tivesse muita experiência sobre você e me achar uma boba pretensiosa depois disso. E pegar firme na tua mão em momentos ruins e te olhar com olhos de desespero, de angústia, de tristeza, sem conseguir vislumbrar saídas pra esses persistentes problemas amargos da vida. Meu lado ausentar o destino e não querer olhar pra frente, esse nosso futuro ora opaco, ora promissor. Meu lado desejar ser uma pessoa melhor também por você, rapazinho que me ensina que o amor pode ser também um troço entre a calmaria e liberdade, tudo junto e depurado pelo filtro de um tempo novo (adeus modelos e padrões demodés). Meu lado ouvir você e te dizer, brotando espontaneidade, que ninguém escapa ileso da experiência de apaixonar-se e de se abrir pra esperanças outras. Meu lado, apenas ele.

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