Sobre Lis Lemos

Pra seguir viagem, quando a noite vem.

Ósculos desencontrados

Recebera o convite, mas não estava certo se iria comparecer àquele baile. Vagava perdido por aí, sem saber bem o que fazer da vida e foi gostoso descobrir que havia outros como ele. Pensou que podia ser meio looser ir a um encontro desses. Afinal, já haviam sido perdidos, de que adiantava o encontro dos desencontrados? Por outro lado, podia ser divertido ver aqueles beijos todos que ficaram no ar e nunca foram beijados.

Depois de muito balançar, decidiu: ia ao I Encontro dos Beijos Perdidos. No convite não dizia nada de traje nem se podia levar alguém. Rá. Como que um beijo perdido ia chegar lá de parzinho? Se o beijo já tinha companhia, não era mais perdido.

Ficou imaginando o salão cheio dos beijos que nunca aconteceram. Só pedia pelamordedeus que não fosse uma convenção a la “Qualquer coisa Anônimos”. Afinal, era um encontro de beijos. De beijos que nunca aconteceram, mas que estavam por aí cheios de vontade de beijar. Esperava que fosse uma festa com álcool e cigarros, como o gosto que levava na boca desde que beijou o ar enquanto esperava beijar o que estava à sua frente. Suspirou ao lembrar.

Chegou ao I Encontro dos Beijos Perdidos e viu tudo o que imaginara: música boa, risadas, fumaça de cigarro, bebidas de todos os tipos, aquele cheiro de inferninho no ar. Foi até o balcão, pediu uma dose dupla de whisky. Cowboy. Olhava aquela balbúrdia, feliz e ao mesmo tempo consternado por descobrir que havia tantos beijos que nunca existiram. Não queria fazer uma sessão de “Beijos perdidos anônimos”, mas estava curioso pra saber o que levara cada um deles até ali.

Ao seu lado, um grupo de três beijos conversavam. Contavam suas histórias e ele ali ouvindo e querendo também interagir, dividir o que lhe acontecera. Um beijo de voz grave contava que esperara anos para beijar a vizinha, passava em frente ao portão dela todos os dias, na esperança de encontrá-la e puxar assunto. Mas sempre que ela falava com ele, sua voz engasgava, a língua grudava no palato e não saía voz nenhuma, só grunhidos. Ensaiou o beijo no espelho por anos, até que um dia chegando em casa, viu o caminhão de mudança na porta dela. Correu, mas a vizinha já tinha ido embora antes. Nunca mais soube notícias.

Uma boca vermelha, de lábios bem volumosos e – muito, muito sexy – contava que passara a noite toda rindo, conversando, até dividiu um cigarro, conversavam pertinho, mas na hora de despedir o sujeito lhe deu um abraço e foi embora. Nem menção de beijinho no rosto fez. Um sacana. Agora ela estava ali, vagando, sem ter pra onde ir.

Ele foi se aproximando aos poucos do grupo, rindo, ansioso, tentando se enturmar. Até que alguém perguntou sua história. Contou então, que era um beijo que se perdera há muitos anos. Conheceu uma moça em um festival, assistiram dois dias de filmes sentados um ao lado do outro, e ele o tempo todo querendo acontecer, sentia o cheiro de verbena dos cabelos dela e só pensava em beijá-los, e quando viu a voltinha do seu pescoço, quase escapou por um triz. Um dia tomaram umas cervejas, riram, trocaram uns olhares longos, espetaram a mesma batatinha, riram de novo. Quando ele ia pular na boca dela, louco de vontade, apareceu um beijo barbudo que atravessou seu caminho. Foi tudo muito rápido e em dois minutos o beijo da moça se entregou ao beijo barbudo. Desde então, ele estava fadado a ser o beijo que não aconteceu.

Ao redor, as conversas aumentavam, a música estava muito alta e quase não se ouviam. Até que um par de beijos se beijando dançando na pista chamou a atenção. Rodopiavam, desciam e subiam, riam, estavam mesmo felizes com aquele encontro tão esperado. Eureka! Era pra isso que tinham ido até ali, óbvio! Como não pensou nisso antes? Estava tão acostumado a ser perdido que tinha esquecido como era bom ser beijo de novo? Se aproximou dos lábios vermelhos, falou alguma coisa baixinho e tascou-lhe um beijo demorado, profundo, cheio de querer. Então, uma profusão de beijos tomou conta da festa, que agora podia ser chamada de Encontro Anual dos Beijos Ávidos por Beijar.

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Sonhos sonhos são

Desde o 11 de maio eu não durmo. Perco o sono. Viro, me reviro pensando no caos do meu país. E em você. Você é água mansa por onde meu pensamento desliza quando se esquece do que nos fizeram: a mim, a você e a toda as pessoas. As pessoas que lutam, trabalham, constroem esse país de que tanto me orgulhava de ir me tornando adulta nele. Com todos os problemas, sem reforma agrária, política ou fim do monopólio dos meios de comunicação. Ainda assim era possível ver um horizonte, havia brechas, lutávamos e acreditávamos mais na vitória do que na derrota.

Penso nas mulheres desempregadas com que conversei durante aquela semana. Uma me disse: “vi um trabalho que parecia muito esquisito. Não queriam pagar nem o salário mínimo. Eu tô precisando, mas não tô passando fome, né?”. Fiquei tão feliz de ouvi-la dizer isso, que não precisava se submeter a um trabalho degradante e mostrei a elas porque muitas não precisavam mais. Aí penso que esse pouco que conquistamos pode se acabar. Meu peito se enche de raiva. Balanço a cabeça pra sumir essa angústia e vir só você à mente.

Em meio a esse temor que se abateu sobre nós, pensar em você é o que me aquece o peito. O que me conforta nessas noites insones. Mas penso que o MinC acabou, golpearam também o presidente da EBC, acham que temos direitos demais. Lembro quem é Mendoncinha e o seu DEM-Elite que odeia pobre, negro, trabalhador sem-terra. E lembro que você, assim como eu e o restante estamos em perigo.

Penso nos adolescentes de São Paulo agredidos pelo Estado por quererem saber onde foi parar a comida a que eles têm direito. COMIDA. Aquele item básico da sobrevivência. O que nos bota de pé, firmes pra luta, que nos sustenta, que nos faz fortes. COMIDA. E esse pensamento puxa outro da tramitação do projeto de redução da maioridade penal e tudo se encaixa. Criminalizar nossos jovens cada vez mais cedo. Enjaulá-los, contê-los, lucrar com o fim de suas vidas. E me lembro da Bolsa-Estupro, da Cura Gay, da CPI da UNE. Claro. Foi pra isso – também – que eles nos golpearam.

O dia já está quase amanhecendo e continuo pensando nisso tudo. É hora de me acalmar e tentar dormir. Mudo a lógica das coisas e me lembro de que em breve você estará aqui. Que talvez eu siga em noites insones, mas porque faremos samba e amor até mais tarde. Ou finalmente poderei dormir aninhada no seu corpo que me traz uma paz do tamanho do mundo. O mundo precisa de mais encontros como os nossos, ele não sabe o quanto perde quando não estamos juntos.

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Durmo e sonho agonias. Uma praça escura, muita lama e você que está para chegar, mas não chega nunca. A plenária vai começar, querem sentar no lugar que reservei pra ti. Você não chega. Um homem engravatado dá entrevista ao meu lado e quando tento xingá-lo perco a voz. Consigo falar, mas na hora de gritar a voz desaparece. Você não veio. Tento gritar pra outro engravatado, mas a voz falha de novo. Acordo ofegante, é dia, e falta pouco pra você passar o inverno comigo.

A Praia

Voltei à nossa praia esses dias. Refiz o mesmo caminho, passei pelo posto onde compramos cigarro, mas dessa vez não parei. Segui pela mesma estradinha estreita, vi as casas dispostas em círculo, lembrei das histórias que me contou da sua infância. Sorri ao me lembrar de você. Dessa vez não tinha sua mão na minha perna, nem a cerveja entre as minhas coxas.

Refiz todo o caminho, mas cheguei à praia por outro lado. Engraçado isso. Ver que existem outras saídas, outras formas de se chegar àquele lugar tão bonito e tão esquecido. Olhei o mar e lembrei de você. Na verdade, falei de você por um bom tempo enquanto chegava lá. Olhei o mar e me joguei. Pela primeira vez. Sozinha.

Mergulhei naquelas águas calmas em consonância com meu peito agora tranquilo. Deu saudade de você. Deu saudade daquele dia ali com você. Vi o mirante de longe. Sorri aquele canto de boca das lembranças de volúpia da noite que passamos ali.

Aquele mar me lembra você. Entrei nele sabendo que era preciso ressignificá-lo. Ir “à nossa praia” foi a minha maneira de ressignificar os lugares por onde passamos juntos, ressignificar você na minha vida. Entrei no mar e mais uma vez me deu saudade de você. Imaginei teu corpo bronzeado mergulhando ali. Uma pintura bonita. Mergulhei e tive a certeza de que fiz a coisa mais certa que eu podia fazer, a decisão mais sensata que eu podia tomar. Voltei à superfície feliz com que eu sou.

Saí do mar e me esperavam na areia com uma cerveja. As coisas agora eram diferentes. O mesmo cenário, outras histórias. Começo de temporada. Fiz questão de almoçar naquele mesmo restaurante, disse a todo mundo que era o melhor peixe da região. Acho que é o único por ali, né?

Voltei pra casa por outro caminho. Aquela praia não é mais a minha praia com você. É mais uma praia por onde já andei, que está no meu roteiro, que posso dizer que já a conheço. Vivenciei outras alegrias, estive com outras gentes. Você ainda é a pessoa que me apresentou aquele lugar até então desconhecido, mas não é mais minha única referência. Você agora é lembrança doce que me visita vez ou outra.

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Morrer é Foda

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro. Repetia para si as palavras da amiga. Era isso. Havia matado a relação e se matado também. Sentia falta dele, mas percebia que sentia, sobretudo, falta de quem era naquela relação com ele. Sua amiga condensou sua dor em duas frases banais trocadas por whatsapp: “morrer é foda. Morrer é difícil pra burro”.

Morria lentamente de saudade do homem com quem trepava divinamente. Morria de saudade das conversas, da voz, do cheiro. Do olhar. Aquele olhar derramado sobre ela, morno, mas que incendiava tudo por dentro. Um olhar terno, acolhedor e revelador. Ria de como ele não conseguia ler a embalagem do requeijão e achava seus óculos horrorosos. “Vou comprar óculos redondos, ter cavanhaque e camisa xadrez só porque você gosta”, ele prometia irônico.

Ele morreu para ela. Nunca mais a facilidade de gozar naquelas mãos, nem a cerveja comprada no mercado da esquina. Quando foi que ele deixou de ser mais um e se transformou naquele em que pensava com constância, de quem sentia falta? Lembrou-se do dia – o mesmo do requeijão, será? – ele na sua cozinha, abrindo seu armário, pegando a faca e cortando o pão. Naquele dia de intimidade besta, ele fez morada. Ela soube, então, que a partir daí não tinha mais como continuar. Era preciso morrer.

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Doía não só a ausência dele. Quinze dias sem notícias se arrastaram como uma quarentena no deserto. Justo ela tão comedida nas palavras e no sentir. Faltava o ar. O peito esmagado e a certeza de que o único lugar em que cabia era o abraço dele. Doía a ausência dele dentro dela. Doía a falta do corpo dele entre as suas pernas, da boca dele nos seus seios e daqueles dedos longos que a preenchiam por completo.

Morrer é foda. Quando leu a mensagem da sua amiga, riu. Pensou: “bem, não morri. Quem morreu foi ele”. Morrer é difícil pra burro. Aquilo lhe marcou. Pensava sempre nessas duas frases. Sua amiga sabia do que falava. Ela ainda não tinha visto as coisas daquele jeito. Passou dias remoendo o quanto era foda a morte e o quanto era difícil morrer. Até que percebeu que ela também morrera. Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro

Morrera aquela que passava as tardes transando com ele. Aquela mulher corajosa de quem ele tanto falava. Morrera a mulher cheia de doçura. Morrera aquela que era vista por aquele olhar carinhoso. Morrera a que ia passar o dia na praia com ele, mas nunca sentiram o mar juntos. Morreu aquela mulher que contava histórias da sua vida e se sentia livre para contar seus devaneios mais íntimos. Morreu aquela que não teve pudor de declarar sua paixão.

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro.

Elevador

15650991_sZsI2Reparou no moço sentado esperando o elevador. Olhou para baixo e viu suas havaianas indignas de propaganda de tv e cada um dos seis grampos usados para segurar o cabelo beliscavam o couro cabeludo. Ele parecia não morar ali, ou teria reparado nele há muito mais tempo. Há muito mais tempo. Além do mais ele dizia ao telefone que estava no bairro. Se morasse ali diria: “Tô em casa”. Né? E seis meses de moradia já dá pra saber os vizinhos. Ou não?

Chegou o elevador. Malditas construtoras que constroem prédios de 22 andares. Além de enfearem a cidade, ainda te obrigam àquele silêncio constrangedor típico dos elevadores. E pra quê morar no último andar? Ela entrou com suas havaianas e o short rasgado na barra. Porra, por quê foi usar justo a bermuda mais velha que tem? Caralho. Entrou de cabeça baixo, ficou olhando pro teto – um dia essas lâmpadas caem – e viu o moço de soslaio. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Bonito.

Apertou o 22. Ele entrou e seu dedo tocou o 21. Puta que pariu! Custava visitar alguém no 3? Primeiro. Segundo. – Silêncio

Terceiro. Boa tarde, ele disse. Ela respondeu de maneira inaudível, que nem conseguiu entender as próprias palavras. Quarto.

Quinto. “Você é gringa?”. Com um riso débil respondeu “não”. Ele riu também. Abaixou a cabeça. Não conseguia olhar para o rosto dele. Que resposta imbecil, ele só queria puxar assunto, claro que sabe que você não é gringa. Você respondeu o boa tarde e não tem cara de gringa. Sexto. Brinco na orelha. Mãos grandes. Quando chegasse em casa ia se desfazer daquele short rasgado. Sétimo.

Oitavo. Nono. Décimo. “Já deve ter ouvido isso muito né?”. Com um terço de sorriso e muito rubor, mentiu que sim. Odiava interações espontâneas assim, nunca sabia o que dizer. Décimo primeiro.

Décimo Segundo. Décimo Terceiro. Décimo Quarto. Por que não se encontraram em algum aplicativo desses de paquera? Perdeu o tato para paqueras ao vivo. Continuava vermelha. Décimo Quinto. Construtoras dos infernos. Destroem as cidades, arrasam a política e ainda te botam numa situação constrangedora dessas. Décimo Sexto. Décimo Sétimo.

Décimo Sétimo. Décimo Oitavo. E como foi sair sem celular? Não tem nem como fingir que está fazendo alguma coisa. Décimo Nono.

Vigésimo. “E seu nome é brasileiro?”, insistiu o moço. Soltou uma gargalhada nervosa. Ficou ainda mais vermelha, sentia o rosto e o colo em chamas. Balbuciou, gaguejou e no fim só respondeu um idiota de um “não”.

Vigésimo Primeiro. A porta se abriu. Ele desceu, deu um tchau e um até mais. Ainda espreitou pra ver o apartamento onde ele entraria. A porta quase bate no seu nariz. Gargalhou com o inusitado da paquera no elevador do prédio.

Vigésimo Segundo. Saiu com a certeza de que sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

A decisão mais sensata

Tinha tomado a decisão mais sensata e sentia um certo orgulho disso. Não sabia bem o que isso queria dizer nem no que consistia ser sensata, mas tinha decidido. Pensou, refletiu, pesou. Botou na balança, fumou maconha, foi pro mar. Riu, chorou, pensou em outros caminhos, mas decidiu por aquele. Não tinha como voltar atrás.

Tomou coragem e colocou o coração numa bandeja. Mostrou para o moço das mãos grandes o corte que abrira no peito. Nunca havia se rasgado tanto, não tinha muita ideia de como se fazia isso, foi pela intuição. Cada incisão trazia um paradoxo: era dor e alívio ao mesmo tempo. Deixou que ele visse o peito aberto, as lacerações, o coração palpitando em cima da mesa. Doeu abrir aquele buraco, mas sentiu-se leve depois.

O que o moço pensava sobre o peito aberto, o coração, o sangue nas suas mãos e o sorriso no rosto já não interessava tanto. Estava feliz por ele ter apenas visto, conhecido a matéria da qual era feita. A exposição das suas entranhas não era para convencê-lo a ficar, a acolher e nem mesmo gostar, até porque nem era espetáculo tão bonito assim de se ver. Decidiu mostrar-se porque era uma forma de também se olhar, enxergar o que passou muito tempo escondido, camuflado.

Permitir que alguém a visse tão intimamente, fez com que também se tornasse íntima da sua dor, das suas angústias, seus anseios e desejos. Ao se mostrar, revelava para si mesma sentimentos que nunca pôde manusear e, apesar de assustada se deleitava com as novas descobertas sobre o mar que levava dentro do peito.

Apaixonou-se pelo moço da boca macia por muitas razões. A principal delas é que ele lhe mostrava coisas que ela já não vislumbrava mais em si. Coragem, doçura, beleza já não faziam parte do que via no espelho. O homem barbudo – que deixou a barba crescer a pedido dela – despertava umas coisas adormecidas ali dentro e que foram parar tão fundo que já não imaginava ser possível resgatá-las. Queria agradecer o feito de trazê-la à tona para mais perto de quem queria ser.

Foi uma dor aguda anunciar que não podia mais continuar navegando com ele naquelas águas macias. Decidiu sair daquele barco que nunca iria atracar no porto que agora desejava. No início da travessia tinham acordado seguir juntos, sem norte, sem destino, sem futuro. Mas com o tempo foi aparecendo uma vontade de parar num lugar, sentir terra firme, caminhar distâncias, ver o sol nascer do outro lado. E sabia que isso não teria com ele, o moço da tatuagem de âncora.

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A decisão sensata não se referia somente a voltar ao seu barco e seguir seu caminho sozinha, ou na companhia de outros que fossem aparecendo. Sentia estima por si mesma por ter compreendido que não havia escolha sem perdas, sem faltas. Sair do barco do moço bronzeado doeu um tanto que nem imaginava que existia; porém continuar a jornada sem bússola já não lhe fazia tão mais feliz.

Ia voltar ao mar sem o sorriso do moço, com o peito remendado e um coração exposto. Coisas que a aterrorizavam há algum tempo e agora lhe traziam serenidade, uma certeza de que não podia ter feito diferente. E gostava de pensar que essa nova mulher em que se transformava era mais inteira e gostava de se ver assim: cheia de coragem, doçura e beleza.

Volto

Eu volto. Correndo, respiração pesada, mais álcool que o necessário no corpo, o vento na cara. Volto não sei porque. Volto pra encontrar teu peito e ter sua boca na minha. Volto na ânsia de nunca mais sair. Mas saio. No outro dia ando tonta, com a ressaca de quem bebeu litros de vodka e saudade. Saio com o peito dividido. Saio com vontade de chegar de novo, de nunca ter saído e com a jura de nunca mais voltar.

E volto. Volto prometendo que aquela é a última. Não mais. Nunca mais. Tenho pulso firme. Até sentir sua mão na minha. Até ver seu sorriso doce. Até você dizer que continua me amando. Até planejarmos uma fuga pro Japão. Mas eu me seguro, digo que aquela outra foi mesmo a última vez. Não mais. Nunca mais.

Mas aí eu volto. De novo. Volto quando lembro que minha cabeça encaixa direitinho no seu peito. Volto porque ficaram coisas pra se dizer, mesmo depois de duas horas de conversa, 100 mensagens e três e-mails. Volto não sei por quê. Volto porque quero. Volto porque preciso.

E quando saio é porque não dá mais para ficar. Nossas vidas já não nos comporta. Não sabemos mais ser um casal. Ensaiamos, buscamos imitar o que fazíamos antes, mas é preciso que eu saia. Saio de cena, saio e me recolho e me escondo de você e nesse redemoinho que se transforma minha vida quando eu volto e saio.

Já pensei que se eu só voltasse – e nunca mais saísse – ficaria mais fácil. Ou menos difícil. Prolongar aqueles beijos, os carinhos, sua mão nos meus cabelos e sua barba roçando nas minhas costas. Mas penso que quero voltar assim, só de vez em quando, um pouquinho de cada vez. Já fostes tanto em mim que agora é preciso doses homeopáticas.

Volto sabendo que vai doer depois. Volto sabendo que não somos mais quem já fomos. Volto sabendo que não posso ficar, que só me resta sair. Saio sabendo que não deveria ter voltado. Saio com o peito dolorido. Saio com saudades do que nunca mais seremos.

Conto as Horas

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Eu nunca sei te contar, só as horas. O tempo que falta pra te ver, pra entrar naquele mundo em que só existimos nós dois, além da cerveja e do gozo. Tua barba arranhando meu pescoço, provocando cócegas no meu nariz, enquanto tua mão me descobre e eu me revelo. Coragem. Rosa diz que é o que a vida quer da gente. Eu quero coragem pra perguntar se você entende o que te mostro. Minhas pernas abertas, meu sim, meus gemidos e minha cabeça no teu peito.
Minhas pernas em torno de você, nossas conversas entrecortadas por beijos que me roubam o ar e carinhos que me tomam o juízo. Tua mão e o cafuné. Tua mão e meu rosto. Tua mão entre as minhas pernas brincando de me deixar mole. Tua mão e teus dedos longos que passeiam dentro de mim. O bendito polegar opositor.
 
Penso que revelo menos do que gostaria e mais do que é prudente. E me pergunto se há espaço para cautela frente a esse desejo todo​. Mesmo quando acho que mostro tudo, percebo que escondo um bocado ainda. Tem tanta coisa que eu queria te dizer quando estamos longe, mas nas horas em que ​estou nua ao seu lado, tudo se apaga, perde a importância e fico só te contemplando. Você é bonito.
 
A cada reencontro lembro porque quero só mais essa vez. Só mais uma. Só a próxima. Tua pele, teu cheiro, teu sorriso e o jeito que me olha. Me ver pelos seus olhos. Narciso faz festa em mim. As histórias bobas que te conto e você demonstra um interesse engraçado como se eu estivesse dizendo como foi pisar na lua pela primeira vez. As histórias que me conta e imagino como é sua vida fora daquele mundo que vamos ​ergue​ndo​ ​pelos quartos​ ​onde passamos juntos.
 
Te mostrei um bonsai e você me perguntou de qual romance estávamos falando. Lembrei de uma frase do romance-livro que era “não é porque se sabe de uma coisa que se pode impedi-la”. Começamos já sabendo em que portos não atracaríamos,​ sabe​ndo​​ que nada seguro nos aguarda. E é bem por isso que nossos caminhos se encostam e seguem​ sem cogitar futuro​. 

A gente vai se esquecendo

E​squeci seu cheiro ou como é sua barba no meu pescoço. Já não sei se nos conhecemos numa sexta ou numa quinta. Se chovia ou se só fazia frio. Quando me esforço ​muito, ​lembro q​ue​ era sexta, chovia e que eu estava no café da livraria. Isso. Foi assim. Mas a lembrança vem meio turva. Já não recordo o cheiro dos livros, tampouco o que estava lendo quando ​te​ vi. Tocava jazz​, eu acho.

A gente foi comer pizza e não lembro se foi você quem pegou na minha mão ou eu que toquei seu braço sem querer. Quando saímos, tremia de frio e você me abraçou. Me convidou pra ir pra sua casa com a desculpa de nos esquentar e eu só saí de lá três dias depois.

​Antes eu conseguia repassar na minha cabeça cada um ​dos nossos gozos, dos nossos beijos, dos nossos abraços. Conseguia lembrar quantas vezes gozei na sua mão, no seu pau e na sua boca. Quantas vezes teus lábios precorreram meu corpo enquanto íamos despertando naquela sonolência preguiçosa. Lembro como era bom dormir com você – ah, isso eu lembro.

​Até uns dias atrás, eu lembrava quantas vezes rimos das piadas sem graça, todas as nossas conversas madrugada adentro, e que sempre aquecia meu nariz no seu pescoço e que você me levava pela mão. ​Lembrava todos os nossos programas em ordem cro-no-ló-gi-ca. Todas as vezes que puxou meu cabelo e cravou os dentes na minha bunda. Agora, mal me lembro se tomamos cerveja ou vinho.

​Hoje, quando fecho os olhos e tento me lembrar do seu rosto, ele foge. ​Já não sei que dia foi aquele em que a brincadeira era você me masturbar enquanto eu continuava a contar uma história e não podia parar até gozar. Era assim mesmo, né? Ou tinha que cantar uma música? Não lembro direito. Estou esquecendo o quanto era bom sua boca nos meus peitos e minha mão fazendo cafuné em você.

Me dei conta que nem uma foto juntas tiramos, que não existe registro no mundo do nosso encontro.Podia ter gravado cada minuto nosso pra poder ver com detalhes agora, pausando, dando zoom, repetindo as falas, igual dizem que será no juízo final. Estou esquecendo e fico aqui espremendo as lembranças, querendo engarrafá-las e guardar num pote ao lado da cama pra sempre poder olhar pra o que a gente foi.

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Cuidado para não se apaixonar

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“Cuidado para não se apaixonar”. Das frases que se diz por aí com o objetivo de aconselhar uma pessoa que está começando um relacionamento com outra que já tem um compromisso prévio. E pode ser namoro, noivado, casamento, bodas de prata. Enquanto é só o conselho a gente até fica feliz, porque tem gente que manda mesmo é jogar pedra na Geni. Tem gente que diz que não ficar com “homem casado” é questão de feminismo, sororidade e mais um monte de praquêisso. E que se o cara faz “isso” é porque é um sacana a priori e que você não deve se deixar seduzir por esse tipo.

Esse conselho vem seguido de um entendimento de que uma relação que envolve sexo, afeto, troca já não é um apaixonar em si. Estar, no sentido ficando/trepando com uma pessoa em que o sexo é ótimo, a conversa flui, há cuidado entre ambos, já é uma relação e, bom, creio que há paixão ali. Talvez não daquelas hollywoodianas, mas uma paixão sim. Isso não quer dizer que a relação tenha que “ir para algum lugar”. Talvez o lugar dela seja aquele ali mesmo, não precisa caminhar pra canto nenhum. No máximo até o motel mais próximo.

Essa ideia de que as relações devem seguir um rito de evolução – conhecer, transar, ficar, namorar, levar no aniversário de 15 anos da prima, passar Natal juntos e casar – só faz sentido nos filmes água com açúcar, em que o gran finale se dá com o beijo dos pombinhos já no altar. E pode ser que muita gente encare assim, mas também tem outras gentes vivendo e construindo relações de outras maneiras, com interesses outros que não só a tal “estabilidade” e a monogamia.

Fico pensando qual a real preocupação de quem profere esse conselho tão repleto de boas intenções. Porque se apaixonar é da vida, assim como doer na hora que acabar. É preciso saber, claro, que vai acabar quando um dos dois não quiser seguir adiante por qualquer motivo, que não vem ao caso. E vai doer nem que seja um cadinho. Pode ser dor lancinante ou fininha, vai doer.

Não existe garantia de relação duradoura e que nunca termine, nem ficadas de uma semana nem casamentos de 25 anos. Não importa se a outra pessoa é comprometida ou solteira. E se x desimpedidx não estiver disponível emocionalmente? E se elx morar do outro lado do continente? E se a pessoa comprometida for a mais disponível sexual e afetivamente? Insistir em um romance em que x outrx não está afim só porque é solteirx, me parece muito estranho. Porque se fechar para um sexo delícia, uma conversa interessante só porque x outrx é comprometido?

Então, o que nos resta – a nós que não medimos desejo e nem tentamos reprimir o que desejamos – é viver as paixões, conforme elas nos aparecem. Sem querer nos enquadrar com a forminha do outro, sem querer dar conta do que pode vir a ser e que nunca saberemos como será. E compreender que sentir é da vida e também das relações.

Fim de Caso

Meu bem,

Eu sei que passamos muitos momentos juntos. Bons e maus. Sempre flertamos, mas nos últimos meses estreitamos nossos laços. Você me confortou em muitas noites e como foi bom dormir aninhado no seu colo enquanto bebíamos uma boa garrafa de vinho! Andamos de mãos dadas pelas ruas, muitas vezes totalmente absortos em nós mesmos. Dividimos a cama, o café da manhã e o caminho até o trabalho inúmeras vezes.

Devo dizer que foi muito bom dormir e acordar com você nesses dias todos, acalentado nos teus braços. Sem você eu me sentia meio só, meio sem rumo. Deixei de fazer muita coisa para que você estivesse sempre ao meu lado e não me arrependo. Sei o quanto foi importante estarmos juntos nesses dias, nos conhecendo, nos tornando cúmplices e vivendo com ardor nossa relação.

Saiba que quando estivemos juntos, eu estive só com você. Ok, eu confesso que flertei com outros, alguns amigos seus, outros que você nem conhecia e vez ou outra saía com alguém que você odiava. Nunca foi pra te provocar, mas é que às vezes sua companhia me sufocava tanto e eu queria rodar por aí sem você.

Nos dias cinzentos e de chuva era ainda pior. Porque aí sim a sua presença entrava pelos meus poros e ia me tomando até que eu não pudesse mais respirar sozinho. E eu me cansava de ti e me deitava esperando que você entendesse a deixa e fosse embora me deixando só. Quando acordava e você não estava mais lá, eu te chamava e você voltava e a gente se enroscava num abraço longo e ficava assim um par de dias.

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Mas aconteceu aquilo que acontece com todo mundo que se relaciona tão apaixonadamente assim: o amor arrefeceu. Eu já não sinto mais tanto a sua ausência, os dias e as noites, principalmente, já passam muito melhores sem você. Sua companhia já não me falta e eu sinto que é hora de nos despedirmos. Eu sei que nada do que eu disser vai adiantar e o clichê vai aparecer, mas “o problema sou eu e não você”, “eu gosto de você, mas não quero um relacionamento agora”, “estamos em ritmos diferentes”.

Portanto, Tristeza, apesar de tudo o que vivemos juntos é hora de você seguir seu caminho e eu, o meu. Chegou a hora de nos despedirmos e aproveitar o que a vida tem de melhor e me relacionar com outros sentimentos. Chegou a hora de encerrarmos nosso ciclo tão intenso e cheio de desventuras. Acredito que ainda vamos nos reencontrar, mas espero do fundo do meu coração que demore.

Nem Sempre

Não tenho raiva de você nem nada disso. É claro que eu sinto sua falta. Nem sempre, não todo dia. Às vezes. Lembrei de você dia desses. Lembra da mulher do seriado que a gente via e que não conseguíamos identificar de onde a conhecíamos? Então, a reconheci em outro seriado. Engraçado, né? Tanto tempo depois e lá estava ela. Queria ter te contado isso na época. Achei que você ia gostar de saber. Ah, e lembra aquela nossa série favorita, que vimos tudo de uma vez num fim de semana só? Pois então, achei a segunda temporada. Já viu? Ai, assiste, você vai gostar.

Talvez você ache irrelevante ou até mesmo bobas as lembranças que me trazem você. Mas saiba também que sinto falta do teu peito, de entrelaçar meus dedos nos seus pelos, de coçar tua barba depois do sexo. Sinto falta de gozar na sua mão. Nem sempre, não todo dia.

Te contei que vou viajar? Vou. Decidi, pedi as contas, aluguei o quarto, raspei a poupança e vou. Vou começar por Cuba. É, a gente pensou em ir pra lá um dia, quando nossas férias coincidissem. Você dizia que eu tinha que conhecer, que era a minha cara. Eu também sempre achei isso. Aí agora, resolvi ir. Vou ficar hospedada pertinho do bar em que você diz que tomou um porre de rum com Win Wenders. Você sabe que nunca acreditei nessa história, né? Mas sempre gostava quando você contava e mudava sempre alguma coisa. Mas, vou lá. Quem sabe não dou a sorte de vê-lo, né?

cuba cultural tours

Bom, é claro que vou me lembrar de você quando estiver lá e mais certo ainda que vou ansiar pela sua presença. Mas sei também que estarei feliz por estar viajando pra um lugar que sempre quis conhecer, sozinha, treinando meu tão enferrujado portunhol, descobrindo outros bares, outras paragens e outras pessoas. Sentirei sua falta, mas nem sempre, não todo dia.

E daqui uns meses quando eu voltar, quem sabe terá chegado o dia – o tão aguardado dia – em que sua ausência não será mais sentida. E também chegará o dia em que você vai falar de mim sem saudade, sem tristeza e sem rancor. O dia em que nossas presenças serão indiferentes. E nesse dia, poderemos nos sentar no nosso antigo bar preferido, beber e brindar à vida que seguiu seu rumo lenta e todo dia.

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