Sobre Lis Lemos

Pra seguir viagem, quando a noite vem.

Da impotência ou para quê se luta mesmo?

A sensação é de pés e mãos amarrados com grossas correntes de ferro. Uma sensação de impotência do tamanho do mundo. Como convencer uma mulher de que é necessário denunciar a violência doméstica que está sofrendo? Antes disso. Como fazê-la enxergar que aquela situação é de violência? Como fazê-la ver e, as pessoas a seu redor, que não é normal ter que trocar todos os número de telefone pra evitar as ligações do ex-companheiro, que não é normal as ameaças de morte que ele faz?

Em se tratando de uma pessoa com quem você tem uma relação de afeto, como tratar disso? Como manter a calma e não ser possuída por um espírito de onipotência, achando que pode resolver tudo? Como estabelecer um canal de diálogo se a pessoa te evita e diz que não quer “te dar trabalho”? Como acolhê-la e convencê-la de que a lei a protege, de que existem vários mecanismos para obriga-lo a ficar longe e que fugir de cidade em cidade não vai acabar com a situação que ela vivencia?

Woman-crying1

Como conversar com ela que, apesar dela ter te visto crescer, você sabe do que está falando? Mas como fazer isso sem cair numa auto promoção gratuita? Sem cair em autoritarismo? Como não perder a calma e a vontade de sacudi-la dizendo: “fia, ele vai te matar”? Qual o equilíbrio entre ser invasiva demais e ser omissa? Como lidar com a frustração se ao cabo de todos esses dias, essas conversas e telefonemas ela optar por não denunciar?

Como acionar a rede de atendimento para mulheres em situação de violência se ela sequer se reconhece como tal? De que adianta tanto conhecimento, tanta militância, tantas estatísticas, casos tenebrosos e também finais felizes se você não consegue convencer alguém que está ali, do seu lado, de que é preciso envolver a polícia? De que não precisa ter vergonha ou medo? E como propor às pessoas que ao invés de falarem que “ela é fraca” por não denunciar, dissessem por aí que “ele é criminoso” por bater?

De que forma posso convencê-la de que, ao contrário do que ela diz, ele pode ter a coragem de matá-la? Como dizer a ela que isso que está acontecendo com ela, atinge milhares de mulheres no país todo?

Update:

Não consegui falar nada daquilo que eu esperava para ela. Ela simplesmente me pediu para não importuná-la mais. Se por um lado me dói a vulnerabilidade dela, por outro me dói a impotência e a sensação de não ter feito nada. Mas ainda cabe a reflexão dos nossos limites e dos limites da lei ante a casos como esses. E o entendimento que o enfrentamento à violência começa bem antes da chegada a delegacia ou qualquer outro equipamento.

A violência de todo dia

Camara_deputados

O que aconteceu na noite de quarta-feira (06/05) no Plenário da Câmara Federal é de uma violência atroz. A deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ) foi agredida fisicamente pelo deputado Roberto Freire (PPS/SP). Isso por si só já é uma demonstração bastante realista da violência cotidiana a que nós, mulheres, estamos sujeitas. O ato de Roberto Freire é equivalente ao do homem que agride a companheira numa discussão. O pensamento embutido nesse ato de violência é: “ora, se essa mulher não se cala, não se coloca no seu lugar, com um murro, um empurrão, uma facada, ela para”.

Pois bem, não bastasse esse tipo de violência dentro da mais importante casa legislativa desse país, o deputado Alberto Fraga (DEM/DF) ainda incitou e concordou com esse tipo de postura ao falar que “quem bate como homem deve apanhar como homem”.

Jandira Feghali, reconhecida pela sua luta em favor dos direitos das mulheres – com projetos pela legalização do aborto, como relatora da Lei Maria da Penha – foi vítima de uma violência extrema dentro do Congresso Nacional. Violência que de mais velada atinge todas as mulheres políticas desse país. A sub-representação feminina na política é só uma das faces do machismo institucionalizado, mas podemos pensar ainda nas piadas misóginas nos meios de comunicação, no descrédito das ações e projetos de lei protagonizadas por elas ou que incidem sobre a vida das mulheres, como a regulamentação da PEC das Trabalhadoras Domésticas.

Que a violência contra as mulheres está em todos os lugares, nós já sabemos. Que o machismo velado está presente nas instituições brasileiras, nós também já sabemos. Agora, uma violência física, seguida de uma incitação a mais violência, dentro do plenário da Câmara Federal é inadmissível. O discurso de Jandira Feghali, após a violência sofrida e aplaudida por muitos colegas, é muito contundente nesse sentido. A deputada relembra, inclusive, o que aconteceu com a também deputada Maria do Rosário, no ano passado, e que também não teve grande repercussão.

Essa legislatura, que é considerada a mais retrógrada desde 1964, tem feito por onde honrar esse título. O discurso de Jandira foi também um discurso pedagógico nesse sentido. Suas palavras soam como uma tentativa de “ensinar” a esses senhores o que é um Congresso Nacional, o que significa ser eleito e estar numa casa em que a vida das pessoas é decidida.

No entanto, é muito simbólico que a relatora da Lei Maria da Penha seja agredida dessa forma. Isso nos leva a crer que, bom, não estaremos nunca a salvo em uma sociedade estruturalmente misógina, racista, homo-transfóbica e elitista.

 

Venda nos olhos

Entrou no quarto de hotel conforme haviam combinado por telefone. Tomou duas taças de vinho, um banho e mais duas taças. Era pra ver se a coragem restaria ali com ela. Colocou o roupão e se deitou na cama. Seguiu as instruções. Amarrou a venda nos olhos e esperou. Não demorou tanto. Sentiu uma mão quente tocando suas pernas e abrindo-as. Sentiu um corpo pesado em cima do seu e ouviu a voz do homem que só conhecia pelo telefone. Ele chupou seus peitos, beijou sua barriga enquanto enfiava dois dedos na sua buceta já molhada. Gozou na mão do desconhecido cujo rosto só imaginava.

Sentiu outra pessoa entrando no quarto e ficando parada atrás de sua cabeça. Uma mãos suaves tocaram seus peitos e uma boca macia beijou a sua. Sentiu dois seios roçando sua cara e pôs-se a chupá-los. De repente os dois corpos desapareceram e só reapareceu chupando sua buceta. Dessa vez, foi lhe dada permissão para tocar alguém e botou as mãos em um pau duro perto da sua boca. Uma boca estranha devorava sua buceta enquanto ela chupava um pau desconhecido. Depois trocaram de lugar e aquele pau, que já não era tão desconhecido assim, lhe comia com força e com jeito. A boca macia da moça sugava seus peitos e massageava seu clítoris ao mesmo tempo. Gozava de forma tão intensa que achava que tinha mais mãos e mais bocas ali trabalhando para o seu prazer.

Screenshot_2015-01-05-09-56-29

Adormeceu. Quando acordou já estava sozinha no quarto e na cama. Não tinha mais as vendas nos olhos. Exausta, tomou o último banho e a última taça de vinho. Vestiu-se e saiu para abraçar o mundo com as pernas. No caminho, comeria um sanduíche enorme.

Um corpo novo, um sexo novo

Chegou de mansinho no bar e ficou de pé ao meu lado. Tinha uma cadeira ali perto, mandei sentar. Sentou. Gosto assim: obediente. Conversamos. Horas, eu acho. Te beijei. Ansiava aquela boca, boca nova, gosto novo, sexo diferente, inusitado, nada familiar. Estava repudiando tudo que eu já soubesse na memória.

Bebemos. Muito. Eu sei, moça de família não faz isso, mas nunca fui santa né? Rimos dos nossos sotaques. Ah, como é bom descobrir, ler o outro. Reparei no seu braço. Uns pelos espessos sobre uma pele tão branca. Uma barba ainda por fazer. Seus lábios grossos, me sugando, passando pelo meu pescoço suado, sua mão já entre as minhas pernas…

Dei um ultimato: vamos embora! Pra sua casa! Entrei me sentindo dona daquele lugar em que nunca pisei, que meus olhos viam pela primeira – e última – vez. Quando cheguei ao quarto, já estava com a calcinha dentro da bolsa. Já cheguei de pernas e vida aberta pra você. Escolhi você para estar nessa página das minhas histórias sexuais. Você me lembrava alguém que eu tanto quis esquecer. E era ao mesmo tempo tão parecido e tão diferente . Não sei se meu coração palpitava por ti ou por ele. Acho que por ambos.

Seu pau enorme. Nunca imaginei que portasse um assim. Não me entenda mal, mas é que com aquela carinha de menino meio tímido não dava pra saber o que eu ia encontrar entre suas pernas. Grata surpresa que chupei com vontade. Em retribuição, você me fez gozar na sua boca.

olhos_vendados

Fiquei de quatro. Do jeito que gosto, mas que você ainda não sabia e nem poderia. Pedi: me bate. E você deu um tapa tão leve que comecei a rir. Você se desculpou: “não sei fazer isso”. Ah, as semelhanças. Mas eu estava afim de te ensinar como gosto de ser comida. E você estava ávido por aprender.

Trepamos. Muito. Não sabia se o gozo era per se ou se era pela delícia de um sexo novo, um corpo novo, dos caminhos desconhecidos. Os descaminhos. Gozei pela delícia do sexo que fizemos e pela alegria de trepar com um completo desconhecido. Fui embora no outro dia de fininho. Não peguei seu telefone, e-mail, nada. Nem o sobrenome perguntei.

Aborto: substantivo feminino

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Nessa semana entramos na campanha dos “16 dias pelo fim da violência contra as mulheres” e aqui no Biscate seguimos falando sobre aborto. E aí que as pessoas podem pensar que aborto e violência não têm nada a ver. Pois pra mim, a criminalização do aborto é uma forma de violência contra as mulheres, perpetrada pelo Estado e com consentimento de toda a sociedade. E das mais brutais, pois é totalmente institucionalizada e amparada por uma legislação bastante punitiva.

Quando a Constituição brasileira de 1988 lá no inciso I do art. 5º diz que, “homens e mulheres são iguais, nos termos desta Constituição”, ela está sendo desrespeitada. Está sendo desrespeitada pois ainda temos uma lei que pune apenas e somente as mulheres, esses seres que engravidam. Negar o direito ao aborto seguro e legal é uma forma de afirmação do Estado brasileiro de que a vida das mulheres tem menos valor do que a dos homens e que seu corpo pode ser instrumentalizado por outros agentes – como a Igreja.

Ao criminalizar o aborto e penalizar aquelas que o praticam, o Estado brasileiro descumpre seu artigo 5º, que, teoricamente, prima pelo tratamento igualitário de todos os brasileiros e brasileiras. Se, o aborto acontece nos corpos das mulheres, e se caso elas decidam não levar essa gravidez adiante, quem responderá pelo crime de aborto, com pena de 1 a 3 anos de prisão, são exatamente as mulheres. Ou seja, os homens, que são tão parte do processo reprodutivo quanto as mulheres, estão “isentos” pelo Código Penal brasileiro.

O Estado brasileiro, e aí entra também os meios de comunicação, ao tratar o aborto apenas como crime contra a vida, retira dessa prática milenar o que ela realmente é: parte da vida sexual e reprodutiva das mulheres. É isso. Aborto não é tema tabu ou assunto polêmico. Aborto é aquilo que sua avó fazia quando bebia chá pra “menstruação descer”. Aborto é aquilo que é feito por milhões de mulheres ao longo de suas vidas. Engravidar quando não se quer ter um filho é algo corriqueiro na vida daquelas que têm uma vida sexual e que possuem útero.

Lembro sempre da história de uma amiga que dizia que não sabia que aborto era crime, até se mudar para a capital. Ela, que passou parte da infância numa cidade no sertão pernambucano, via com naturalidade as mulheres de sua família e comunidade beberem chás quando a menstruação atrasava ou quando pressentiam que “vinha menino por aí”. A sua avó, que teve 13 filhos, tomou alguns chás desses e não há qualquer sombra de culpa ou ideia de que tivesse feito algo errado quando fala sobre o assunto. Era muito tranquilo decidir quando ter ou não mais uma boca pra sustentar ali naquela cidade do sertão e naquele tempo em que não havia nenhum método contraceptivo.

E sempre que ouço as falas de Vó e de minha amiga, fico impressionada de como tratamos como ruptura aquilo que, nada mais é, do que parte de um processo. O aborto é encarado pelos pró-vida como a não-concretização da maternidade, ou seja, as mulheres rompem com aquilo que a sociedade misógina acredita ser seu papel fundamental: ser mãe. E por isso, investem tanto para eleger seus representantes mais conservadores, mais contrários ao poder de decisão das mulheres e que cumprem papel importante na manutenção das leis que regulamentam o aborto. Na manutenção e no retrocesso das leis.

O que as mulheres fazem historicamente é controlar o seu próprio corpo, antes mesmo do aporto do feminismo. E para isso lançavam mão do conhecimento das ervas naturais que a auxilavam no exercício da autonomia reprodutiva. Esta prática confronta todo o sistema jurídico e moral erigido pelo machismo, por isso derrubar uma legislação punitiva a este exercício deve ser tarefa urgente para qualquer sociedade pretensamente democrática.​

E, as mulheres, mesmo correndo risco de ser presas ou de morrer, ainda assim, decidem por interromper aquela gravidez indesejada. Por mil motivos. Sendo o principal deles, o seu desejo. Ainda que dentro de um sistema opressor, que as joga para os piores tratamentos clínicos, para as situações mais clandestinas, ainda assim, milhares de mulheres só no Brasil optam pelo aborto. O recado que essas mulheres estão dando para uma sociedade e um estado que se fingem de surdos é que: “vamos continuar abortando. Podem tentar nos prender, nos humilhar, nos subalternizar e até nos matar. Mas estamos, aqui, exercendo nossas autonomias, lutando para decidir, quando, quantos e se queremos ter ou não filhos”. 

 

Pequenos prazeres biscates: faça você mesma

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates…

 #PequenosPrazeres

masturbação

Ouviu seu grito de gozo e viu que era bom. E aí se fez uma paz e uma alegria tão grande dentro dela que adormeceu. Ali ao seu lado, repousavam os objetos companheiros daquele orgasmo todo: seu vibrador e o já quase findo, lubrificante.

Tinha muito tempo que a moça se esquecera desses pequenos prazeres solitários. Há muito tempo que não gozava assim, para a casa toda ouvir. As paredes e seus tijolos e tintas, o sofá, o criado-mudo, as janelas e as cortinas. Havia, novamente, gozo naquela casa. Havia prazer.

Achava que não sabia mais gozar sozinha. Tinha tanto tempo que não se tocava, que não se amava, que não sentia tesão por si mesma. Andava muito ocupada com o mundo lá fora, que se esquecia que era necessário gozar a vida. Em todos os sentidos.

Naquele dia preguiçoso, em que não precisava trabalhar nem lavar louça, nem cuidar do mundo um segundo sequer, podia se dar ao prazer, ao desfrute, às carícias. Lembrou do último moço com quem havia se encontrado e lembrou o quanto foi bom. Levou a mão até a buceta e começou a mexer devagarinho, sentindo os pelos e a pele tão macia. Estava molhada, mas ainda não era suficiente. Lembrou da sua caixinha guardada no baú.

Acordou de um sonho daqueles tão bons que nem dá vontade de sair dele. Sonhara com um moço alto, moreno, de sorriso largo e uma moça de camisola transparente preta. Eles não se falavam, mas se conheciam e transavam os três ali numa espécie de esteira, numa sala aberta com muitas pessoas passando.

Acordou molhada. De novo. Sentindo um tesão enorme. Não teve dúvidas de que era chegada a hora de gozar, gozar como se o mundo fosse se acabar todo ali, estupefato com seu sexo molhado, inchado, macio e ávido para botar fim naquela deliciosa agonia, ansiando pela petit-mort.

 

Metamorfoses

Lembra daquele professor de física lá do ensino médio que dizia que alguém muito importante um dia disse que “nada se perde, tudo se transforma?”. Bom, o alguém importante era Lavoisier e o tal professor (ou professora, no meu caso tive uma professora linda, que tinha sido modelo e tal) só queria começar um conteúdo sobre a bendita Lei de Lavoisier.

Bom, claro que o moço francês estava falando sobre a conservação das massas e anyway, mas penso eu que podemos trazer isso para os nossos sentimentos e as relações atravessadas por eles. O Amor, assim com letra maiúscula, quase uma entidade em si mesma, é um tanto estático conforme os contos de fada querem nos fazer acreditar. O amor (esse com letra minúscula, construído todo dia, com seus laços renovados ou, por vezes, esgarçados) muda. O tempo todo. Não amamos as pessoas do mesmo jeito ao longo do tempo. O amor que sentimos pela mãe, os avós, irmãos e irmãs não é o mesmo desde que nascemos e nem poderia ser. O amor muda porque nós mudamos, os outros mudam e o mundo que nos rodeia, idem.

Imagem de Mariana Palova

Imagem de Mariana Palova

Assim também são as relações que construímos ao longo da vida. Gosto sempre de pensar naqueles amigos de infância, da época da escola ou do time de vôlei da rua, ou aqueles primos e primas que te fizeram tão feliz (quando você nem sabia disso), que não encontramos mais. É claro que recordamos com muto carinho deles quando lembramos da nossa infância querida que os anos não trazem mais. (Oi, Casimiro!). E, possivelmente, também temos espaço na memória afetiva dessas pessoas. Mas fico me perguntando se ainda nos amaríamos se convivêssemos hoje. Todos mudamos, e ao longo dos anos, isso é ainda mais perceptível.

Às vezes, penso que prefiro amar essas pessoas com o amor que já está reservado para elas. O amor da saudade, do tempo que faz tudo ficar tão bom, da distância que seleciona as boas lembranças e dá uma mascarada nas partes ruins. Por isso, sempre fujo dos encontros do tipo “turma do pré-alfabetização do Colégio Bosque Encantado”. Muito provavelmente, se nos víssemos com mais frequência, o amor ia mudar e eu prefiro manter as boas memórias.

E aí, me pego pensando nos amores (aqueles mais carnais mesmo) que se transformam em outras tantas coisas. Não acho que quando um relacionamento acaba é porque o amor acabou, necessariamente. Acho que Lavoisier diria assim: “o amor não se perde, se transforma”. Tem amor que vira amizade, tem amor que resta só (?) tesão, tem amor que vira memória. Penso que o amor (ainda o minúsculo) muda o jeito de gostar, mas não perde sua essência quando uma relação se esgota. (Claro que há os que se transformam em ressentimentos, mas isso é assunto pra outro texto)

O amor deixa de ser o amor da paixão, da carne, para ser o do companheirismo, do pega na minha mão e vamos resolver isso. O amor vira bem-querer, muda para aquele sentimento de felicidade pelo outro, de saber que o outro está feliz. O casamento, o namoro, o noivado acaba, mas ainda fica aquela ternura no peito de reconhecer que existe um certo tipo de amor ali pelo que foi, pelo que representou e que, paciência, não é mais.

Relacionamentos normais

Casal normal que se vê todo dia. Casal normal que se vê só nas férias. Casal normal que se beija em público. Casal normal que não se beija em público. Nem se abraça. Nem anda de mãos dadas. Casal normal que se casa com uma semana de namoro. Casal normal que é casado, mas mora em casas separadas. Casal normal de mulheres. Casal normal de homens. Casal normal de mulher alta e homem baixo. Casal normal de homem gordo e mulher magra. Casal normal de velhinhos.

Casal normal que muda status de FB. Casal normal que nunca mudou. Casal normal que fica noivo em Paris. Casal normal que se casa no sítio. Casal normal que nunca vai casar. Casal normal que nunca transou. Casal normal que só vai transar depois do casamento. Casal normal que transou pra só depois namorar. Casal normal que está junto há 50 anos. Casal normal que foi casal por um carnaval apenas. Casal normal que faz tudo junto. Casal normal que não vai ao cinema juntos.

relacionamentos

Casal normal que adora reunião de família. Casal normal que odeia. Casal normal que tem filhxs. Casal normal que nunca quis ter. Casal normal anarquista. Casal normal ruralista. Casal normal que frequenta a igreja todo domingo. Casal normal que vai à casa de suingue todo sábado. Casal normal que tem relacionamento aberto. Casal normal monogâmico.

Casal normal que está junto por conveniência. Casal normal que faz juras de amor em público. Casal normal que só transa de luz apagada. Casal normal que não dança junto. Casal normal que bebe junto. Casal normal que discute política e futebol. Casal normal que reza pela mesma cartilha.

 Porque normal é o amor. Não importa a forma de sentir e viver. E estranho é apenas o nosso olhar sobre xs outrxs.

Todo mundo não é qualquer um

Férias, calor, sol e bora lá turistar. Essa biscate que vos escreve está de férias com a família, mas não está imune – infelizmente – às merdas cotidianas. (E dessa vez não estou nem falando daquelas reuniões familiares em que machismo, racismo, homofobia e transfobia são o prato principal)

O que eu ouvi, na Rádio Difusora de Manaus, 96 FM, em algum programa matutino na voz de um “amigo locutor”, na manhã dessa quinta-feira (véspera do meu aniversário: êêê) era mais ou menos assim:

— Vocês sabem que começou o Big Brother né? Lá tem uma moça que é stripper. É, ela tira a roupa, só que na internet. Fiquei sabendo que um amigo dela contou que ela deu um fora no Axl Rose, aquele vocalista dos Gun’s Roses. Pois, é. A moça deu um fora no Axl Rose. Aí, eu fui ver os vídeos dela – por interesse jornalístico né? E pelo que eu vi lá acho muito difícil que ela um dia já tenha dado um fora em alguém.

E isso se repetiu por uns eternos 5 minutos na fala desse locutor. E quando eu e minha mãe comentávamos o absurdo daquelas palavras, não pude deixar de notar um sorrisinho de escárnio do taxista.

bbb

Daí que me lembro sempre dessa (falsa) moral vigente de que “mulher que dá pra todo mundo, dá pra qualquer um”. Não, amigo locutor. As mulheres são livres para dar pra todos que elas escolherem dar. A moça em questão é stripper. Não sei se essa é a atividade profissional dela, ou faz por hobby, ou as duas coisas. E tanto faz. E não me interessa. Aliás, no meu mundo ideal, o que uma mulher faz com seu corpo de livre vontade não deveria ser da conta de ninguém.

Depois disso, amigo locutor, você precisa entender que uma mulher pode ter trepado com um milhão de homens (uou), mas a partir do momento que ela diz não, é não. E que uma mulher — stripper, prostituta, dona de casa, professora, aposentada, biscate ou freira — tem o direito de escolher com quem transar, ou não.

"toda mulher... é meio Leila Diniz"

“toda mulher… é meio Leila Diniz”

A Aids e as mulheres

Ela é promíscua. Não sei bem o que é isso, mas, segundo a ONU, pessoa promíscua é aquela pessoa que tem mais de dois parceiros sexuais em um ano. Creio que 90% da população brasileira se encaixa aí. Ela a quem eu me refiro é a personagem Inaiá, interpretada por Raquel Villar, na novela das 21h da Globo, Amor à Vida.

Quando fiquei sabendo que essa personagem descobriria que tem Aids (sim, eu sou noveleira e me interesso pelo que ainda vai acontecer nas tramas que acompanho, ou não), alguns questionamentos me vieram à mente: por que uma mulher? Por que uma mulher negra? Por que uma mulher negra e que teve mais de um parceiro ao longo da trama?

Bom, aí que muita gente, e o próprio autor Walcyr Carrasco, poderia me responder: foi coincidência, uai. Mas não, isso está muito longe de ser coincidência. Inaiá é a ÚNICA mulher negra da novela (outro ator negro da trama é Kayke Gonzaga, que interpreta o menino Jayme) e me pergunto: por quê ela? Ora, ela reúne – de acordo com o pensamento machista, racista e reacionário vigente – todas as prerrogativas para ter Aids. Ela é negra. E as mulheres negras estão no mundo para serem consumidas sexualmente por todos. Ela é “da cor do pecado”, foi feita pra isso. Ela exerce sua sexualidade livremente. Antes do atual parceiro, ela já transou com outro médico da trama – pra ONU e pra muita gente, ela já é promíscua.

Raquel Villar, que interpreta a personagem Inaiá

Raquel Villar, que interpreta a personagem Inaiá

Ora, reunindo essas duas características, Inaiá seria a personagem ideal para Walcyr Carrasco arrotar por aí que está focando num problema social: a feminização da Aids. Só que não está. Ele está apenas reforçando estereótipos machistas e racistas. E afirmando que apenas mulheres “promíscuas” terão Aids, e em nada acrescentando ao debate de uma educação sexual necessária.

Que a feminização da Aids é uma realidade, creio que muita gente sabe. Desde a década de 1990, o índice de infecção do vírus aumentou entre as mulheres, e, hoje 50% das pessoas infectadas no mundo são mulheres.

Para que chegássemos a esse patamar, muita coisa atuou em conjunto. Falta de informação, ação das igrejas para a não utilização de preservativos, confiança na tal da “relação estável”, e o machismo. Sim, sempre ele a nos espreitar. Porque os três motivos que eu apresentei – e aí acredito que existam outros – têm sua gênese no machismo.

As mulheres não são educadas para se posicionarem, para exigirem do parceiro que ele use camisinha, para acreditar que ter um parceiro fixo é sinônimo de prevenção. Não foram educadas para adquirir camisinha. A família acha que uma mulher com camisinha na bolsa é “puta”. O posto de saúde também. O atendente da farmácia, idem. As escolas acham que “falar sobre sexo” estimula adolescentes a fazê-lo. Os parceiros ainda se saem com aquela velha e máxima “você não confia em mim. Por isso que quer usar camisinha”.

Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.

Sou fácil

Pegando o bonde do Maycon, venho declarar que sou fácil. E gosto de gente tão, ou mais, fácil do que eu. Mas calma lá que tem muita coisa envolvida aí.

Sou fácil. Não quer dizer que eu esteja sempre disponível. Sou fácil de acordo com os meus desejos e minhas vontades. Minhas fantasias, minhas paixões e meus dissabores. Sou fácil, mas posso não querer trepar com alguém que seja tão fácil quanto eu. Não rolou tesão, não rola. Sou fácil quando quero. Mas não quero o tempo todo. Todo dia e toda hora. Posso não querer com você, e posso querer com o moço ao seu lado. Na mesma da hora. Acontece.

Abre-te A3

Sou fácil, mas não tenho que querer sempre que você quer. Você quer e eu não quero? Bom, é chato. Mas não jogue a culpa em mim. Não posso dar conta dos seus desejos e anseios. Dou conta dos meus. Apenas. Não quero e não adianta me cobrar: carinho, amor, sexo. Não vai adiantar nada. Juro. Pode ser até que eu fique meio possessa com você. Saiba entender um não.

Gosto de gente fácil. Gente que não faz jogo, que não faz charme, que entrega os pontos. Não gosto de ficar cortejando a pessoa, deixo isso pros pretendentes de Lady Mary Quando quero vou atrás. Ligo, pergunto, convido. Uma cerveja, duas, um cinema ou uma praia? Um bar? Melhor ainda.  Não quer? Ok, uma pena. Se quer, fale, demonstre, olhe no olho, passe a mão no meu cabelo. Só não vale dizer que “queria”. Não vale dizer que quer e deixar esperando duas horas. Não vale dizer que quer no último minuto, na hora que a porta está fechando e o trem seguindo seu rumo. Quer? Queira hoje.

Isso tudo para ajudar a clarear que ser fácil diz respeito a mim. Somente.

Quando gritar é necessário

Ela, que até então estivera muda, cantou. Cantou e ouviu o som doce da própria voz. Viu que cantar era bom. Quanto mais cantava, mais coisa tinha para cantar. Mais seu peito se tornava um lugar de alegrias. Cantava e ouvia outras pessoas cantando. E o canto delas era tão parecido com o seu. E isso lhe acalentava, dava aquela sensação boa de que não estava só no mundo. Se soubesse, tinha cantado há mais tempo.

Teve um dia que só cantar não bastou. Precisou gritar. É que a dor tinha se tornado lancinante. Cantar já não esvaziava o peito. Gritou a plenos pulmões. Gritou a dor que sentia há tanto tempo e que só agora teve peito e garganta pra gritar. Gritou porque achava que outras pessoas iam ouvir seu grito e outros gritos se juntariam aos seus. Gritou porque pensou que havia muitos gritos contidos por aí e que quando a ouvissem gritar iriam entender e um dia teriam a coragem mesma de gritar também.

Gritou na esperança de acabar com a dor. Em vão. Gritou e ouviu “não grite”. “Você está fazendo muito barulho”. “Você exagerou no grito”. “Você expôs muita gente com seu grito”. “Não queremos ouvir o que você tem para gritar”. “Não acreditamos no seu grito. Nem na sua dor”.

E pensou mesmo que talvez fosse exagero. Que, afinal, se ninguém grita por que iria ela gritar? Se ninguém grita, é porque a dor já acabou. E ela não percebeu? E o seu grito tão dolorido, tinha, na verdade, machucado os ouvidos de quem não queria ouvir aquilo. E ela não tinha o direito de atrapalhar o bom sono e a boa consciência daqueles que tapam os ouvidos na ilusão de não sofrer.

a_puberdade_edvard_munch051

E chorou ao pé da cama. Pois às dores só cabia o espaço mesmo do quarto vazio. Chorou alto, mas abafou com o travesseiro porque não queria cometer novamente o erro de incomodar os ouvidos puros. E as consciências tão acostumadas aos silêncios confortáveis. Chorou e adormeceu.

Acordou e pensou no seu grito.Ele ainda estava ali e já não era mais possível abafá-lo. Ele já tinha ganhado o mundo. Ouviu um grito lá longe. Ele lhe dizia que só pôde sair depois de ter ouvido o seu. Que ele também não ficaria mais calado. Que ele também sofria, mas que queria ferir os ouvidos incapazes de entendê-lo. E que esses ouvidos só entenderiam os seus gritos quanto mais os ouvisse. Não era mais possível silenciá-los. Os gritos de dor estavam aí, ecoando, provocando, incomodando.

E foi quando percebeu que aqueles que se incomodavam com seus gritos, eram os mesmos que provocavam aquelas dores. Os gritos doíam neles, porque lhe traziam verdades que não queriam ouvir. Aqueles gritos traziam lembranças que eles queriam ignorar. O grito lhes doía, não porque era estridente. O grito dela incomodava, era demasiado, porque não é fácil reconhecer a legitimidade do grito do outro. Porque o grito dela era direcionado a ele.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...