Sobre Lis Lemos

Pra seguir viagem, quando a noite vem.

Violência psicológica, essa sutil

A violência psicológica é das formas mais sutis de violência. Geralmente, não se percebe, e ela vem travestida de cuidado, carinho, zelo. Para as mulheres isso é ainda mais perverso, pois somos criadas sob a ideia de que só nos realizamos em função da relação amorosa em que estamos. E que um homem ao seu lado (sim, pois além de tudo a heterossexualidade é a única possibilidade de vivência da sexualidade) é melhor do que ficar sozinha. Ainda que esse homem seja violento.

If he tries to go  too fast, too soon,  this spells DANGER

“Você é o sol, a lua e as estrelas para mim…”

(If he tries to go too fast, too soon,this spells DANGER/ Se ele tenta ir muito rápido, muito cedo, isso se chama PERIGO)

Esposa: – Eu também! Eu quero fazer tanta coisa durante minha vida…
Eu quero escrever um livro, expandir minhas companhias… aprender a voar…
Marido: – Espere um momento… Você não quer ficar comigo?
Esposa: – Sim, mas…
Marido: – Sem mais – agora você precisa pensar em NÓS no plural! Esqueça as outras merdas!

(If he demands that you give  up your dreams,  this spells DANGER/ Se ele demanda que você abandone seus sonhos, isso se chama PERIGO)

Uma das coisas que dificultam perceber a violência psicológica é a sua sutileza. Ao contrário da física que deixa hematomas e sequelas que podem ser vistas por outras pessoas, a psicológica demora para ser entendida como tal. O namorado ciumento é visto como amoroso. O marido possessivo é visto como zeloso. A ideia geral é que não há violência ali, apenas amor. Um amor exacerbado e controlador.

If he insists that his plans  are more important than yours,  this spells DANGER

Marido: – Faça suas malas, estamos indo pra Grécia no sábado.
Esposa: – Espera, eu tenho prazo na semana que vem para entregar um trabalho no escritório.
Marido: – Esqueça os prazos, aonde esta o seu senso de aventura? Além disso, eu venho planejando essa viagem há semanas!

(If he insists that his plans are more important than yours, this spells DANGER/Se ele insiste que os planos dele são melhores que os seus, isso se chama PERIGO)

WHO-WILL-LOOK-AFTER

Esposa: Quem vai cuidar das crianças?
Marido: Não me interessa. Pergunte a sua mãe, ela deve servir para alguma coisa!

(If he uses derogatory language towards your family & friends, this spells DANGER/Se ele fala de modo depreciativo da sua família e amigos, isso se chama PERIGO)

E aí que frases ofensivas são tidas como brincadeiras. “Ah, o seu colega dá em cima de você. Ele deve bater uma punheta pensando em você hein?”. Poderia ser uma brincadeira (de péssimo gosto) ou a ideia de que você é uma pessoa irresistível e que todos os homens do mundo te desejam. Mas uma frase dita nesse viés revela o controle que o parceiro tenta exercer sobre a mulher, estendendo seu domínio até sobre o efeito que a mulher tem sobre outras pessoas. E, muitas vezes, as insinuações se aprofundam, dando a entender que a mulher provoca intencionalmente os sonhos eróticos com ela e, claro, que um dia vai realmente ter um relacionamento com ele.

If he is inconsiderate, disrespect- ful, or puts you down in public,  this spells DANGER

Marido para a esposa do amigo: – Então Lee, como você consegue estar sempre tão bonita?! Você deveria dar umas aulas pra minha Roz!

(If he is inconsiderate, disrespectful, or puts you down in public, this spells DANGER/Se ele não te considera ou te desrespeita em publico, isso se chama PERIGO)

I-DONT-WANT

Marido: Eu não quero saber de você falando com os vizinhos.

(If he tries to isolate you  from friends and family, this spells DANGER/Se ele tenta te isolar dos seus amigos e família, isso se chama PERIGO)

Com toda essa paranoia em cima, a pessoa passa, gradativamente, a ter medo de ser vista na companhia de qualquer outro homem (e, a princípio, claro, ela não chama de medo, é cuidado, respeito ao namorado, etc). Seja amigo, colega, ex-namorado. Ops, ex-namorado é entidade proibida para pessoas que se comportam dessa forma. O desejo dele é que você não tenha história, que sua vida comece a partir do momento em que se conheceram, e que você tenha nenhum afeto por aqueles com quem já dividiu a cama e outras coisas.

SLAM

Marido ao telefone: Eu te amo!
(após alguns segundos, ele bate o telefone com violência no gancho).

(If you experience illogical incidents of abuse in the middle of bliss, this spells DANGER/Se você percebe incidentes irracionais de violência em meio a um momento de calmaria, isso se chama PERIGO)

DID_I

Marido: Eu realmente fiz isso? Eu não me lembro do que aconteceu na noite passada.

(If he acts like nothing has happened after an abusive episode, this spells DANGER/Se ele finge que nada aconteceu depois de um episódio de abuso, isso se chama PERIGO)

A violência psicológica machuca. Cada palavra aparece como punhal. Corta. Dilacera. Detona com a auto-estima. E, se um dia você consegue perceber isso e reagir, ele virá pedindo desculpas. Porque é assim que o agressor se comporta. “Foi só dessa vez”. “Você sabe que eu te amo”. “Não quero te perder”. “Não fiz por mal”. “É a minha opinião”. “Você não me ama mais?”, “Me desculpa, não queria te magoar”. E depois do tempo regulamentar das pazes, ele age novamente, vociferando acusações, injúrias e dizendo que te ama.

SLUT

Esposa: Você me chamou de puta…
Marido diz rindo: Chamei? Deve ter sido por causa do seu biquini vermelho – vamos dar um mergulho!

(If he blames you for what has happened and minimizes his abuse, this spells DANGER/Se ele te culpa pelo que aconteceu e tenta minimizar a violência, isso se chama PERIGO)

DUMB

Namorado para outro homem: – Não se faça de bobo… Eu vi você olhando a minha namorada!

(If he shows intense, unwarranted jealousy, this spells DANGER/Se ele demonstra ciúme injustificável, isso se chama PERIGO)

Num relacionamento violento, só existe gentileza, amor, carinho quando há concordância. Em tudo. Se a mulher faz algo que desagrade, pronto. Tudo vira um inferno. “Seu vestido é muito decotado, mas você é quem sabe se quer usá-lo”, “Tá vendo? Sua saia é tão curta que mostra tua calcinha”, “Você vai viajar sozinha?”, “Por que você não atendeu o telefone?”, “Como assim você não quer sair hoje? Eu já comprei os ingressos, você trabalha amanhã”. “Por quê não quer que eu durma na sua casa?”

RING

Telefone toca e a namorada está dormindo.
Namorada: Alô?
Namorado: Onde você estava? Com quem você saiu?
Namorada: O que?? Onde?

(If he checks up on your every move this spells DANGER/Se ele segue todos os seus passos, isso se chama PERIGO)

E por aí vai uma série de questionamentos que colocam a companheira como um móvel a disposição do homem. Ela deve fazer tudo o que ele deseja para que assim o relacionamento possa caminhar em paz. Como ela ousa questionar suas atitudes se ele já lhe dá todo o amor do mundo? “Não entendo essa coisa de se sentir sufocada. Eu sinto ciúmes porque te amo”.

PAWS

Esposa: Brian, está 40 graus abaixo de zero lá fora – as patinhas dela (provavelmente uma cadela) estão congelando!
Marido: Olha só! Eu não preciso dessa merda… Eu já disse que não vou deixar ela entrar!

(If he mistreats pets this spells DANGER/Se ele maltrata animais, isso se chama PERIGO)

E aí que esse homem não é nada melhor do que aquele outro – sim, porque homem agressivo é sempre o outro – que bate na mulher num acesso de raiva.  Que se descontrola e quando vê já deu um soco no rosto da namorada. Que no meio do calor da emoção, puxou o braço da companheira e lhe xingou de vagabunda. Não, eles não são diferentes. Ele não é um cara legal que, de vez em quando, tem atitudes terríveis. As atitudes terríveis fazem parte de quem ele é.

DREAM

Dançando após um episódio de violência física:
Esposa pensa: Será que eu sonhei com aquela agressão?

DANGER: The first sign of dissociation is when  you start to wonder if it really happened at all. (To confirm your reality, find a witness, or write down what happened and date it)/O primeiro sinal de dissociação ocorre quando você começa a imaginar se o episódio de violência realmente aconteceu. (Para confirmar a sua verdade, procure uma testemunha ou escreva em um papel o que aconteceu e quando aconteceu.)

Então, eu convido as pessoas que chegaram até o fim desse texto a olharem para seus relacionamentos e perceber como ele está sendo construído. Dentro dessa relação que você vivencia, ou que já experienciou, você se sentia sujeito? Você se sentia livre? Você sentia medo do outro?

WHAT

Esposa ou namorada pensa: – O que foi que eu fiz de errado?

(Your better question is, “What is he doing wrong?”/Um questionamento melhor é “o que ele está fazendo de errado?”)

Esses quadrinhos fazem parte de um livro – Friends of Rosalind – que  mostra uma mulher que passa por várias situações que podem ajudar você a pensar sobre seu relacionamento também:

http://www.friends-of-rosalind.com/learn.html

A ordem da casa

As ruínas da casa estão aí
Só paredes em pé, não tem telhado
Falta porta, está tudo escancarado

Depois de muito tempo olhei aquela casa. Eu estivera ali, mas parecia que havia pisado há mais de século naquele lugar. Tudo jogado ao chão. Cadeiras quebradas. Poeira. Um sem fim de teias de aranha. O sofá partido ao meio. A pintura descascada. Onde eu estive?

Voltei e vi. Com olhos de ver. Era eu quem tinha estado ali tanto tempo. Vivi sem prestar atenção. Não vi a lâmpada que queimou. Também não reparei na porta emperrada. Ah, e mexer nessa infiltração enorme no meio da sala? Não mesmo. Estava tudo feio, mas dava pra continuar vivendo ali. Sem gosto. Sem sol. Sobrevivendo.

Casa_abandonada

Fui me acostumando a não estar. A passar por ali. A não olhar. E cada vez que pensava no que estava desmoronando mais eu fechava a janela, o cenho, os olhos. Menos eu ouvia o passarinho no quintal. Mais eu tinha vontade de derrubar a goiabeira.

E foi assim até o dia em que abri aquele janelão antigo e a maresia entrou mexendo em tudo. Com ela, um cheiro de vida. Abri os olhos e vi. Vi com olhos de refazer. Percebi, assombrada, que aquela casa não era minha. Nem era meu esse lugar. Não daquele jeito. O que é meu tem cheiro de anis. Tem gosto de manjericão.

Pelo menos por enquanto. Posso enjoar do anis e trocar o manjericão pela salsa. Ou misturar tudo e fazer uma orgia nos aromas e sabores. Eu posso. Eu quero. A casa está sendo arrumada aos poucos. Tem dias que faço mutirão. Com cerveja estupidamente gelada prum batalhão e muita água no feijão. Tem horas que limpo sozinha os rodapés com escova de dente velha. Tem dias de sonho. Tem dias de alegria. Tem dias de dor fina. Mas essa tem sido visita rara. Uma tia que mora muito longe e dorme aqui só para seguir destino na manhã seguinte.

E nessas arrumações todas achei uma caixa no sótão. Tinha uma poeira fininha por cima, daquelas que a gente manda embora só com um sopro. Estava ali há pouco tempo. Era uma caixa de papel tão brilhante que era impossível resisti-la, envolta num laço de fita. Desfiz o laço. Abri. Achei o bilhete do trem que há muito havia comprado e guardei para um dia. Uma oportunidade. Uma próxima vida, talvez. Estava esquecido. Olhei a data da passagem e se eu corresse chegava na estação a tempo. Fui e volto para continuar a enfeitar a casa.

O amor que nunca morre

Você se lembra? Era assim: a gente ria, brincava, bebia, coçava e dormia com a paz dos justos. Não éramos justos, mas também nunca fizemos mal a ninguém. A gente ia reinventar um mundo, um outro no qual caberia aquilo que éramos e que estivesse cheio de amor. Mas nunca fomos egoístas e a gente sabia que tinha mais gente que queria um mundo bom e justo e a gente também queria que essa gente toda coubesse nesse mundo.

 A gente fez tantos planos para viver juntos. Um bar. Um bar de chão de brita pra gente dançar bem muito e sair com as pernas doendo. Um bar em que só se podia entrar de sandália de couro ou tênis surrado. Nada de salto, nada de plumas e paetês, nada que cheirasse a ostentação, nada que lembrasse aquele mundo que a gente nunca gostou. Mas era um bar biscate porque, ainda que não soubéssemos, sempre fomos biscates.

 A gente fez tantos planos para viver separados. Eu ia pro mar. Você ia por aí. Não sabia bem pra onde queria ir, só sabia que queria. Mas, no fim, a gente sempre se encontraria e viveria junto. Para sempre. Porque sempre achamos que somos imortais e o exagero era nosso companheiro. A única coisa que nos matava era o tédio, e aquelas pessoas tão acostumadas ao mundo torto que achavam que ele tinha sido desde o início assim: feio, injusto, violento, com gosto de chuchu. E justo nós que sempre amamos uma pimentinha, uma cachacinha nunca conseguimos acompanhar essas pessoas.

Porque amizade é o amor que nunca morre

Porque amizade é o amor que nunca morre

 E nos planos não contamos com a saudade. Ah, sempre ela a nos doer. Às vezes muito, às vezes pouco. Mas sempre ali à espreita. E a gente tenta enganá-la com conversas longas, com cartas longas, com promessas de encontros que nunca aconteceram. A sua estrelinha está guardada na caixinha esperando você chegar. Não mando pelo correio porque tenho medo de que ela se perca. E ela me dá sempre a esperança de te reencontrar, te abraçar, te beijar, e saber novamente que o mundo é nosso. De novo.

A sexualidade das meninas ou a incompreensão dos adultos

O olhar recriminador do adulto sobre a criança. Aquilo que diz mais sobre quem olha do que sobre quem está na mira. O difícil exercício de compreender que crianças têm sexualidade, mas que não a categoriza, como nós, adultos, fazemos. Para uma criança, brincar é brincar. Um brinquedo é um brinquedo e pronto. Quem diz “isso é de menino”, “isso é coisa de sapatão”, são os adultos. Somos nós, que muitas vezes esquecemos que fomos crianças, que marcamos o que é aceitável ou não para nós.

Há alguns dias conversando com um casal de amigas sobre família e essa intensa relação de amor e ódio, elas me contaram algumas histórias sobre esse olhar castrador dos adultos sobre suas vidas. Elas diziam que obviamente nem se sabiam lésbicas durante a infância e a adolescência, mas sabiam que havia “algo errado” pelo modo como suas famílias se comportavam.

Eu tinha apenas sete anos de idade, quando fui apresentada às regras de uma sociedade machista, homofóbica (lesbofóbica, transfóbica), adultocêntrica, e heteronormativa. Brincava de descobrir corpos com uma vizinha de mesma idade, quando fui vista por minha irmã. Meu pai fez questão que a retratação fosse pública, enquanto esperava pelo castigo em casa, ele foi ao encontro dos pais da minha amiguinha. E de casa ouvia os chicotear do cinto e os gritos de dor. Eu despida, levei uma surra na frente de todas as minhas irmãs, irmãos e minha mãe, enquanto ouvia sermão, que tinha como objetivo me guardar de uma futura desonra. Ali havia tanta vergonha e resignação, e se a época tivesse consciência, diria que naquele dia Eva se vestiu. Passei uma semana sentindo dores no corpo e me sentia estranha perante meus colegas de escola e em casa era consultada se já tinha consciência do meu ato. Me proibiram de ser amiga de minha vizinha e nunca saberei como seria essa amizade. Me inscreveram nas turmas do catecismo, ganhei uma bíblia e por muito tempo fui obrigada a ir a igreja todos os sábados”.(M., 30 anos)

E tem duas coisas aí para se pensar: 1) não existe orientação sexual certa e errada. 2) os adultos deveriam ser mais tranquilos com suas próprias vivências para conseguir dialogar com crianças e adolescentes. A sexualidade feminina é reprimida desde a infância, enquanto a dos meninos é muitas vezes encorajada (quando voltada para as meninas, claro!). Quantas vezes adultos dizem “menina não senta de perna aberta”, “menina não anda só de calcinha pela casa”, “menina não dorme no mesmo quarto que menino”? E quando “essa menina” brinca com outra menina? Quando ela beija a amiga na boca? Encosta no corpo da outra movida pela curiosidade e por saber que é bom encostar em outra pele?

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Mas entendo também que a violência dos familiares sobre a criança são muito sutis quando se trata da “desconfiança da homossexualidade” da menina. E não são violências mais ou menos dolorosas que aquelas, porém são igualmente violadoras. Colocam as crianças- e aqui no texto, as meninas – numa posição em que elas não sabem o que fizeram de errado, mas que foi algo que deixou os pais/tios/avós/professores chocados, tristes, bravos. As crianças não têm como elaborar esse medo de abandono e podem querer “evitar” fazer isso de novo, sem nem mesmo saber o que fizeram.

Na adolescência, a sexualidade das meninas é cada vez mais vigiada e punida. O medo muitas vezes irracional que os adultos têm que elas namorem, transem, engravidem alimentam essa ideia de machista de “mulher pra namorar” e “mulher pra transar”. As adolescentes que estão descobrindo seus corpos e seus prazeres com outras meninas são alvo de perseguições na escola e a cobrança dos pais para que não assumam suas vontades e desejos.

Findando a adolescência, houve um all star vermelho na minha vida, comprado pela internet, um número a mais, um pouco grande para mim, enfim, um sapatão. Mas era lindo e era vermelho, o suficiente para ser meu tênis favorito. Por algum motivo misterioso (será?) estes tênis viraram alvo de perseguição da minha mãe, que dizia ser horroroso. Toda vez que os calçava, percebia que isto era um problema para ela, que tentava de tudo para que eu os tirasse, para que jogasse fora. E neste exato momento em que relembro, passados uns 10 anos do ocorrido, me dou conta de que: 1) os tênis sumiram (mother wins!) e 2) eles simbolizavam uma (homo)sexualidade até então só vislumbrada por ela.” (A., 30 anos)

Eu já tinha 18 e namorava a minha segunda namorada quando minha mãe descobriu tudo e contou pro meu pai. Foi uma conversa bem pesada, mas ao mesmo tempo aliviante pro meu lado porque eu não teria que mentir mais pra ninguém. O que me irritou e me irrita de lembrar é que nessa conversa e em outras que vieram depois meus pais ficaram pagando de compreensíveis e que ficaram chateados não pelo fato de eu namorar uma garota e sim pela mentira, por eu não ter contado pra eles… Mas minha gente, sempre fui intimidada com perguntas e comentários maldosos sobre a homossexualidade, porque eu contaria uma coisa dessas????” (A.,23 anos)

Mas nem só de histórias tristes deve se fazer a luta pelo reconhecimento das diversas formas de amar e se relacionar. Há sim, pais/mães/avós/educadores que respeitam suas crianças e que tratam a sexualidade de forma livre, sem opiniões inquisitórias.

Acredito que como professora tenho que questionar alguns modelos de comportamentos que nos são impostos. Trabalhei quase 5 anos na educação infantil com alunos de 0 a 4 anos e as vezes me partia o coração ver alguns comentários machistas e homofóbicos vindo das crianças. Sempre bati o pé pra eles entenderem que não existe cor/brinquedo/brincadeira/roupa ou qualquer outra coisa que seja de menina ou menino. Como também já briguei com adultos que reforçam esses modelos machistas/sexistas/homofóbico com as crianças. Uma vez duas meninas (de 3 anos cada, que estudam juntas desde o berçário e são super amigas) falaram que iam se casar porque se gostam muuuuuuuuuuuuuuuuito. Nossa, teve educador que quis morrer com esse comentário, chegando ao ponto de discutir na sala dos professores que esse comportamento era preocupante. Sorte que o resto da equipe não levou isso muito a sério. (A., 23 anos)

Nessa Semana de Visibilidade Lésbica e Bissexual (quinzena para nós que somos amostradas) é preciso pensar numa outra sociedade possível. Uma sociedade que tenha uma mirada menos arbitrária e castradora sobre as vivências infantis (Oi, Lu!), que mostra apenas que o importante é “a gente namorar com quem a gente gosta e que trata bem a gente”. (A.,23 anos). E, quem sabe assim, conseguimos naturalizar as relações que os adultos constroem e sermos mais felizes e em paz com nossos próprios desejos e sentimentos.

Para não mais voltar

Quando eu fui, fui sem fazer alarde, devagarinho, mas com passos firmes de quem sabia que era chegada a hora de ir. Fui para não mais voltar.

Quando eu fui, fui na calma de quem sabe o caminho a seguir. Sem estardalhaço, sem gritos, sem cena. Eu saí de cena.

Quando eu fui, não fui lamentando o que ficou para trás. Nem mesmo pensei que tinha demorado a ir. Quando eu fui, fui na hora certa, no exato instante. Não fui com a impressão de que já ia tarde, embora tenha esquecido a carteira de identidade.

Quando eu fui, não fui pensando na dor, na mágoa, nas feridas. Eu fui pensando na alegria que me aguarda, no conforto que me espera. Na paz que anseio.

'eu bato o portão sem fazer alarde'

‘eu bato o portão sem fazer alarde’

Quando eu fui, não fui para deixar você. Fui para me encontrar comigo mesma, para me abraçar de novo, me acalentar. Fui para não ter vergonha dos meus desejos, da minha vida.

Quando eu fui, eu fui a tempo de ainda poder gostar de você. Eu fui para não te odiar, para não me odiar. Eu fui para relembrar que não é possível ser feliz sem mim. Eu fui para continuar sendo quem sou.

Das lutas inadiáveis

Eu não nasci feminista e nem antirracista. Eu fui me tornando, construindo quem eu sou, reconhecendo privilégios e me somando na luta daquelas e daqueles que sonham com um outro mundo possível.

Embora desde que comecei a ver o mundo de uma outra forma, questionando essas coisas que pareciam estar dadas, eu tenha descoberto que ser negrx e ser brancx no Brasil não é a mesma coisa, talvez nunca tenha me atentado para a perversidade disso. Principalmente, para as mulheres.

Daí que meu feminismo foi muito pautado pela lógica de que todas as mulheres sofrem as mesmas opressões. De que somos todas vítimas de uma mesma lógica de relação de poder. O sexismo era a violência que sofríamos e que nos restava sermos solidária e enfrentarmos juntas o machismo. Mas daí que a gente vai vendo que não.

Hoje penso ser impossível, para mim, um feminismo que não seja intrinsecamente antirracista. Construir um feminismo em que a luta das mulheres negras não seja visto como “à parte”, mas como a única maneira de enfrentarmos as opressões. Não consigo vivenciar um feminismo em que as mulheres negras são tratadas como “criadoras de caso”.

Como feminista branca não experiencio, nem nunca vivenciei, o racismo contra mim, contra o meu corpo, a minha pele, o meu cabelo, o cabelo da minha filha, o trabalho doméstico da minha mãe. Eu faço parte das estatísticas de quem tem acesso ao abortamento seguro – ainda que ilegal -; de quem não precisa de oito a onze anos de estudo a mais que os homens brancos para conseguir um emprego no setor formal; de quem não tem a imagem deturpada pelo machismo e pelo racismo nos meios de comunicação. A minha beleza não é chamada de “beleza exótica”.

O privilégio da raça é algo do qual não posso abrir mão. No entanto, o feminismo – e as feministas – deve ter como pauta central a luta contra o racismo. E isso não se faz agindo com condescendência com as companheiras negras que nos apontam os nossos privilégios e os nossos racismos. Não vamos enegrecer o feminismo e a nossa luta excluindo as feministas negras dos debates centrais; colocando-as apenas nas discussões sobre raça/etnia e classe como se a elas coubesse apenas essa migalha com que deixamos nossas consciências tranquilas.

negra

Marcha das Vadias de São Paulo, foto: Antonio Miotto

Um feminismo que realmente deseja um mundo justo, livre de toda e qualquer forma de opressão – sexista, racista, lesbofóbica, classista, transfóbica – deve repensar suas práticas e suas teorias. E reconhecer que isso é urgente, é um primeiro passo.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva 25 de Julho, Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha, convocada pelo Blogueiras Negras.

O gosto dos outros

Eu gosto do gosto dos outros, do cheiro, da saliva. Gosto de língua. Na boca, na nuca, entre as pernas.

Gosto de dentes cravados no ombro dele. Ou na minha bunda. Gosto das unhas nas costas.

Gosto de mãos espalmadas, de suor. Gosto da respiração ofegante. Do gemido na hora da petit-mort.

Gosto da carne entre as minhas mãos. Do corpo entre as minhas pernas. Dele em cima de mim. Dentro de mim.

outros

Cena do filme Um copo de Cólera

Quando dentro de mim, gosto de ver seus olhos e me ver dentro deles. E ver o desejo, a paixão, o tesão.

Tenho pavor do silêncio. Gosto dos palavrões, aqueles que profanam os ouvidos, falados altos ou sussurrados. Gosto de dizer ao mundo (ou só aos vizinhos) que se é feliz nessa casa. Que se come, se bebe e se trepa e só se vicia. Ave Maria.

Tenho pavor de quem tem nojo de si, de mim, de sexo. De quem quer trepar com vidrinho de álcool gel. Detesto até manifestação com gente arrumadinha demais, que dirá de sexo limpinho demais, cheio de regrinha de mais. E com prazer de menos.

Não gosto de quem só faz no escuro, de luz apagada e com a porta trancada. Com medo dos próprios desejos, que não se permite ousar, que não se permite gozar.

Gosto da luz. Do sol ou da lua.

Uma sucessão de não ditos

Milhares de palavras prontas para serem ditas, mas faltou a coragem, o tempo, a loucura, o álcool. Os não ditos estão soltos por aí. Sobram silêncios. Sobram também os silêncios. Porque ainda restam todas as palavras que nunca foram ditas vagando por aí. E o futuro que ‘a deus pertence’, não pertence a essas palavras. Nunca se saberá o que aconteceria se os não ditos tivessem sido, um dia, pronunciados.

Talvez causassem espanto, talvez fossem bem-vindos e em outras palavras encontrariam seus pares. Pode ser também, que passado o susto, caíssem no vazio de um coração que não as correspondia. Mas não se sabe. Nunca se saberá. Só se sabe o que não foi dito. A única certeza é que ficou a incerteza. O não dito existe, mas não tem eco.

silencio

Uma sucessão de não ditos

O não dito fica perturbando a alma, corroendo, imaginando o que poderia ser, mas que não será. O não dito é o fantasma. É aquilo que não cumpriu sua missão. O não dito sobrevoa o futuro, mas é um eterno presente. Aquela pergunta que não ousou escapar pelos lábios. Aquele pedido que revirou o estômago, palpitou o coração, parou na garganta e faltou coragem para ganhar a língua, os dentes, e se fazer vivo no ar.

O não dito persiste no peito daquele que não pronunciou. Fica ali, espreitando, esperando a hora para ser dito. Mas não será mais. Não existe mais endereço para aquelas palavras. Elas já não têm mais serventia. Vão ficar ali pesando no coração.

O amor natural

‘O amor natural’ é uma arte que nem todos dominam. Drummond sabia como ninguém o que era isso. Aquela coisa que transcende a alma e ganha o corpo, os suspiros, o suor, os gemidos, entre outras coisas.

olha a carinha!

olha a carinha!

O que me deixou intrigada mesmo foi descobrir que um moço lá de Itabira gosta muito. Se faz bem, eu não sei. O importante é que adora escrever sobre. Aquele mesmo rapaz que escreveu sobre a pedra no caminho, a vida besta e a flor que nasceu na rua também tinha suas preferências…

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
 
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
 
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

 

É de boca e de buceta que ele  gosta. Quando pode juntar os dois faz coisas assim:

 Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

E aquele moço tão tímido olhando Copacabana eternamente era também doido por uma bunda.

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.

ilustração de 'O amor natural'

ilustração de ‘O amor natural’

E por gostar de bunda, adorava outras coisas também:

Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.

Drummond é também erotismo. Convido todas e todos a ler ‘O amor natural’.

Ciúme é a merda do amor

Há quem não concorde com o título acima e ache que ciúme é perfume, bem como pensa o Poetinha. Pois eu estou com Caetano e não abro – e olhe que sou dessas que gosta de abrir. Os braços, a mente, as pernas…Ciúme é, para mim, uma coisa assim meio que posse misturado com insegurança. O ciúme não está no sorriso largo que a moça oferece ao moço do outro lado da mesa. O ciúme não está no abraço que o moço dá naquela que foi companheira enquanto ela enterra o avô. O ciúme está no olho de quem vê, no coração de quem sente.

Nada me deixa mais feliz do que ouvir aquelas duas belezuras chamadas Chico Buarque e Wilson das Neves e toda sua segurança de malandro. O malandro é tão malandro que sabe que não importa para quem ela bamboleia ou pra quem ela pisca o olho, porque no final – da noite, pelo menos – é com ele que ela fica. Diz aí como não sentir tesão por dois malandros tão seguros de si.

Ciúme também é posse. É querer se apoderar dos sentimentos, desejos, sonhos e pensamentos do outro. E há os que ainda querem controlar o incontrolável: o passado do seu Objeto de amor. Digo objeto porque quem quer ter tanto poder assim sobre o outro, não vê nele um sujeito autônomo, cheio de vontades, virtudes e defeitos, sobre o qual não há que se exercer controle, mas sim um objeto sobre o qual se pode dispor, como um quadro que enfeita a sala.

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Desconfio que quem saber tudo o que se passa com o outro não sabe o que se passa consigo mesmo. Quem ama – ou diz que ama – alguém com esse tipo de sentimento quer ser o centro da vida daquela pessoa, não admite que o outro possa ser feliz, sorrir, amar outros além dele. Gente que sente assim não admite que o outro possa ter outras formas de ser feliz que não o incluam.

Amar assim é fácil porque se elege o objeto de amor, trata-o como tal e coloca nele todas as expectativas de sua vida. Ele, o objeto, passa a ser o responsável pela sua (in) felicidade. Quem ama assim, tira a própria  responsabilidade de sua vida e é incapaz de perceber que cada um nasce e morre só e que o que acontece no meio disso só pode ser creditada a ele (por mais clichê que isso possa parecer).

Quem ama assim não admite que o mundo aconteça além dele; que as relações que seu objeto de amor estabelece com outros não são da sua conta. Não entende que ele ocupa um lugar na vida do outro e que não tem o direito de cobrar aquele amor todo que devota ao objeto amado. Quem ama assim quer ser presença todo o tempo sem saber que o amor também se faz nas ausências.

ciúme vem aliado a uma boa dose de machismo

ciúme vem aliado a uma boa dose de machismo

Não nego, contudo, que quem ama assim, sofre. Mas não sofre porque o outro é mau, canalha o tem um coração leviano. Sofre porque quer segurar, amarrar e guardar na gaveta aquilo que não é seu; e que nunca será. Quer ser dono daquilo que é matéria do outro e só a ele pertence.

Difícil é amar sabendo que a única certeza que se tem é dos próprios sentimentos, ou nem tanto assim, e que a vida do outro não é sua. Amar sabendo que o outro é senhor de si não é fácil, mas acredito que seja o mais honesto.

Depois de Lúcia: os culpados somos nós

Nesta semana fui assistir ao tão esperado Depois de Lúcia e posso dizer que todas as críticas que li sobre a crueldade da violência explicitada no filme não é capaz de traduzir o que eu vi ali na minha frente. O que eu mais li sobre o filme e, de fato, a violência que está mais explícita é a do bullying. E isso é mais do que certo. Mas acho que há outro ponto primordial a ser discutido e levantado: a violência de gênero que sofre a personagem.

Alejandra é uma adolescente que se muda com o pai para a Cidade do México depois que sua mãe, Lúcia, morre. Na nova escola ela faz novos amigos e aceita o convite de passar o fim de semana na casa de um deles com toda a turma. É aí que sua vida se transforma num inferno.

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Cena do filme: Depois de Lúcia

Sempre que penso em bullying – e aqui a ignorância é toda minha –, penso na vítima como a criança gordinha ou o nerd. O adolescente negro ou homossexual. A aluna travesti ou trans*.  Nunca pensei na vítima como uma jovem bonita, de classe média, branca, heterossexual, cis*, magra. E aí que Alejandra é tudo isso e nunca passou pela minha cabeça que seria ela a vítima do bullying.

Mas Alejandra é vítima e eu me esqueci por um segundo que ela tem, sim, potencial pra ser vítima. Ela é mulher e uma mulher que faz sexo. Eis o ponto crucial no filme.

Uma adolescente que faz sexo se torna vítima de bullying. Faz dela um ser anormal, passível de sofrer as maiores atrocidades. A desumanização de Alejandra por parte de seus amigos/algozes é rápida. É pelas mãos daqueles garotos e garotas que ela acreditava ter sido acolhida em uma cidade estranha, que Alejandra vai apanhar, ser estuprada, ser despojada de sua humanidade e tratada como uma coisa qualquer. Por todos.

O que me pareceu mais intrigante no filme é a narrativa que nos mostra que, em atos extremos de violência, todos nós temos nossa parcela de culpa: o grupo de amigos, entre os que tomavam a frente nas “brincadeiras” e os que iam na onda; a escola omissa; o pai envolvido com seus próprios problemas; e você. Você, que foi despretensiosamente ao cinema, é cúmplice da violência contra Alejandra. E de tantas outras meninas e mulheres.

Meu cu não é troféu

Dia desses um escritor pulicou em sua coluna semanal por aí que o sexo anal é uma dádiva, que era um presente, que, salvo com as mocinhas mais perversas (e acho que ele inclui as biscates aqui) era algo que acontecia só de vez em quando. O texto, até cheio de boas intenções tal como o inferno, esqueceu um detalhe: o prazer. As mulheres fazem sexo anal, dão o cu, liberam a porta de trás porque sentem prazer, não porque querem premiar o namorado/amante/marido/rolo/amizade colorida/sexo casual.

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Tati Quebra-barraco já tinha dado (ops) o recado há muito tempo: dar o cu é bom. Simples assim. Sexo anal é uma prática sexual como qualquer outra. Salvo o tabu que existe em torno do tal buraco. Sexo é um assunto dos mais tabus nessa sociedade de tradição judaico-cristã em que viemos parar, imagine só falar por aí que dar o cu é gostoso, prazeroso. Pobre Sandy quando declarou que “é possível ter prazer anal”.

É talvez esse tabu que impeça que as mulheres explorem seus corpos e se permitam sentir prazer. (E nem pretendo entrar na pauta do quanto é tabu para homens heterossexuais falar sobre seus cus). Sexo anal dói? Claro que dói. Dói quando a mulher não quer e o parceiro insiste, pressiona, chantageia, força e ela acaba cedendo. Dói porque ela não queria. Dói porque não havia desejo ali. E quando não há tesão nem 20 litros de KY resolve. Quando se quer, um cuspezinho resolve qualquer problema.

Foto: Spencer Tunick

Foto: Spencer Tunick

Sexo anal não é prêmio porque meu cu não está para ser conquistado. Se já ousamos gritar que “a porra da buceta é minha”, que tenhamos o prazer de gritar que o cu é nosso também. Que damos, ou não, ele a quem bem entendermos, quando e quantas vezes quisermos. Que não somos “mocinhas perversas” porque gostamos de ser penetradas pelo cu vezes seguidas numa daquelas trepadas ocasionais. Por cus mais livres e menos policiados.

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