As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Mergulho*

“Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. (…) E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo”. (Clarice Lispector)

mergulho

É esse o convite, acho. Pra um mergulho. Pra se permitir. O que? Qualquer coisa que apeteça. Sentir, talvez. Esquecer o destino, aproveitar a estrada. Estar. Aceitar a dança. O risco. O riso. Apostar no bom. Em movimento: dos barcos, dos quadris. Como andar: desequilíbrio e coragem. Matéria. Ser o corpo. Ouvir a carne.

Dar a mão. Oferecer o ombro. Ser abrigo. Acolher abraços. Olhares. Expor-se. Deixar o querer chegar manso. Distrair-se. Rir alto. Sussurrar. Tocar. Tocar-se. Acreditar que é possível isso de gostar. Apenas por. Assim: um, outro, um espanto.

Desfrutar. Vento no rosto, ponta da língua, tatear. Encantar-se. Rasgar as listas. As exigências. Esquecer o branco, o preto. Viver a cores. Pintar o sete. Como se fosse brincadeira de roda, rodopio, entontecer. Farejar.

Ouvir, ir além, perguntar. Querer saber. Querer percorrer. Querer. Dilatar-se em aceitações. Venha. Toque. Saiba. Diga. Deixar o dia ser noite e a noite se fazer dia em conversas de pouco dizer. Intervalos. Olhos. Contato. Desprezar amanhãs, o futuro é o agora do depois.

Ser encontrada. Vista. Desejada. Encontrar, ver, desejar. Deslizar. Roçar. Encostar. Perto. Abrir portas e janelas. Ainda mais: prescindir das paredes. Desistir da hora certa, do lugar certo, da pessoa certa. Abandonar a régua e o singular.

Umedecer-se. Aceitar-se molinha, flexível, aberta. Mergulhar. Brincar. Bater na água. Fazer borbulhas. Tomar caldo. Deixar o sal se fazer gosto na pele. Salgar-se. Resgatar-se. Querer apenas o querer. Um dia. Outro dia. Lembrar: é divertido. Um avaro pelo avesso: viver os dias como quem desenterra tesouros. Sem certezas. Deixar as âncoras no barco, deixar a bússola na gaveta, experimentar. Vai doer? Vai doer. Isso sentido, seguir.

 Como disse Clarice, saber que fez um perigo: viver.

 

*Post síntese de sensações/conversas biscates com a querida Renata Lins.

Umbigo Biscate

578844_336247899803647_751295272_nAbrir a janela, inclinar o corpo, espiar o azul até o olho doer. Deixar a noite ficar mais um pouco, como memória, no pijama, nos pés encolhidos em cima da cadeira enquanto assopro o café, no pensamento vadio. Fazer o cotidiano: banho, dente, arrumar a cama, a pia, temperar a carne da futura fome. Espiar como os amigos viveram a noite nas redes, pitaquear um pouco, começar novas conversas com os ausentes. Blusa, casaquinho, casacão, saia, meia, bota, espelho, riso, que cabelo esquisito, pensar em arrumar, desistir, rua. Ir pelo caminho mais longo só pra beber sol. O dia quase amorna. Quase. Aqui e ali, placas. leio todas. Gosto do correio, de fantasiar pequenas narrativas para as correspondências alheias. Azulejos nas fachadas. Lilás nas árvores. Vento na pele. Sentar no banco do Jardim espiando toda gente, bonita e distraída, que o atravessa. Rir de si mesma e da biscatagem tão a flor da pele. Mais esquinas, sacolas de supermercado, o tomate em rubro, o cheiro do manjericão, os cogumelos. Quase Alice. Tirar: bota, meia, calça, casacão, casaquinho, blusa. Deixar os pelinhos do braço gritarem o frio, colocar um vestido leve. Dizer afetos. Trabalhar. Folhear livros, separar artigos. Fazer perguntas. Tatear. Ler e ler e ler. Ouvir: é a chuva. Vez em quando: moldura azul do FB. Cozinhar. Acender o fogo. O forno. A lua, como diria o moço das crônicas. Amassar a batata, lenta, lenta, como quem molda um sonho. Usar as mãos no ofício, cozinhar é íntimo. Refogar, o azeite amorenando grãos e cogumelos. Montar o prato, comer com os olhos. Fotografar pros amigos. Rir de mim mesma. Reconhecer a solidão que faz desejar partilhar o momento. Mastigar: o tempo, a carne, triturar saudades. Engolir o dia. Ainda: chuva. Enroscar no sofá com o livro tão conhecido como um amigo de tanto tempo que a gente nem lembra como era sem ele. Deixar a Bethania cantar o meu sentir. Abrir a janela, aceitar o escuro, também de fora pra dentro. Ser a minha noite. Agasalhar o sentir. E esperar, toda noite, o milagre antes de dormir.

Amar é Dar

Tem a Tulipa. E aquela música que todo mundo gosta, inclusive eu. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Tão tentador, não é, poder acreditar que o amor é esse moldador de peças de quebra-cabeça que nos faz achar um encaixe perfeito, que o amor garante exclusividade, que o amor é sintonia. Só que. Pelo menos não do lado de cá do abismo. Daqui, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Tem o amante, ouiés. O amante é aquele que sente que algo lhe falta. Não sabemos o que é, mas é claro, olha só, deve estar nessx moçx faceirx de olhos cor de âmbar (ou complete aqui conforme seu desejo). E amamos. Amamos isso que supomos estar no outro e que preencheria o que nos falta. A tampa da panela. A metade da laranja. O parceiro perfeito da dança. Daí, tem o amado. Opa, me escolheram, essx daí deve saber o que eu tenho pra dar. Eu não sei o que é, mas que importa, se elx me quer, elx viu em mim isso. Belezinha, né? Só que o amado também é ser de falta. Também ele espera a tal completude. O que ele tem a dar ao amante é: nada. Ou ainda: sua própria falta. Seu buraco. Seu oco. O amor preserva, justamente, o lugar da falta. O amante precisa que o amado seja também amante. Amar é querer ser amado. É além: é querer ser amado do jeito que queremos que o amor seja.

"o sono compartilhado é o corpo de delito do amor"

“o sono compartilhado é o corpo de delito do amor”

E aí eu lembrei uma outra dança. Da Teresa com o amigo do Tomas (n’ A Insustentável Leveza do Ser). Tomas a quem ela ama com essa fome que a devasta (e não há metáfora melhor para o amor, acho eu, porque a fome só finda definitivamente quando finda o sujeito. No por enquanto, a saciamos transitoriamente. Amar é bem assim, de vez em quando parece que. Mas, a seguir, queremos mais). Dizia eu, Teresa dança com o amigo de Tomas. Porque, repare bem, ele, Tomas, não gostava de dançar. E aí Tomas fica ali, mastigando ciúme, observando como eles – Teresa e seu amigo inominado (e não ter um nome não deve ser por acaso, né, Kundera, seu lindo) – dançam bem juntos. “Ele estava estupefato de ver com que precisão e docilidade ela se adiantava uma fração de segundo à vontade de seu parceiro. Essa dança parecia proclamar que sua dedicação, esse ardente desejo de satisfazer o que lia nos olhos de Tomas, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas, mas que estava pronta a responder ao apelo de qualquer que fosse o homem que encontrasse em seu lugar”. É claro que o ciúme de Tomas inibe que ele reconheça que não é qualquer homem em seu lugar, mas ele ou qualquer homem que ocupassem esse lugar: de alguém que tem algo que ela supõe que a complete. Que a faria feliz. Plena. Futuro do pretérito. Ou ainda. Pretérito mais que perfeito, se não ligarmos à gramática.  Tomas desconhece que o amar não é acaso, é repetição. Tem aquele traço único que buscamos e que supomos em quem amamos. É esse traço, que desconhecemos mas reconhecemos, que faz a amarração. Ponto de estofo. Teresa ama Tomas, um tanto, porque supõe que ele sabe alguma coisa sobre ela que ela mesma desconhece. O amor é uma pergunta. Um desassossego. Amando, buscamos o apaziguamento da hiância*, mas, rá, só podemos fazê-lo reconhecendo que ela existe: a distância. O vazio. O desamparo. Quando enunciamos eu te amo como se fosse eu preciso. Eu preciso que você precise. É aí, na vulnerabilidade – e na aceitação da vulnerabilidade do outro – que o desencontro – marca das relações humanas – nos permite ser – na falta de palavra melhor – felizes (e o pra sempre, sempre acaba).

 * Hiância é tipo um não-lugar. É como o vazio que tem entre os parênteses ou aquele símbolo do vazio na matemática. É um nada margeado, relativizado, definido por ser bordeado, porque é um nada que só (in)existe a partir de um alguma coisa que existe. Porque como somos seres de linguagem o vazio absoluto é impossível de dizer (como, ademais, qualquer coisa do real), quando nomeamos: nada, aí existe algo, a nomeação pelo menos, né. Ou resumindo: o que é fendido, lacuna.

Ou leiam esse texto sensacional que a Renata Lins já tinha sugerido, Verbete: Amor

Aborto Legal essa Luta Biscate

O aborto no Brasil ainda é criminalizado e ilegal, causando morte e sofrimento para as mulheres. Poucos são os casos em que ele é permitido: risco de vida da mãe, fetos anencéfalos e quando a mulher foi vítima de estupro. Nesses casos o aborto já é permitido por lei. Entretanto as políticas públicas existentes não garantem, satisfatoriamente, que o procedimento ocorra (leia aqui: dor em dobro)

Dia 22 de maio de 2014 o aborto entrou na lista de procedimentos realizados pelo SUS. Enfim. A portaria 415/2014, complementar à Lei 12.845/2013 (que versa sobre o atendimento obrigatório de vítimas de violência sexual) demorou mas foi comemorada como um passo facilitador para o processo já doloroso e demorado que as mulheres se submetem (pra entender melhor a portaria leia aqui: Aborto legal: qual a situação atual? e Aborto não é palavrão: Entenda a portaria 415/2014)

De forma reduzida, a portaria 415 regulamenta o procedimento junto ao SUS, permite que o atendimento seja realizado em todas as unidades de saúde com competência pra realizá-lo, padroniza normas de autorização, define custos, indica as fontes pra cobrir os custos. A portaria 415 viabiliza o procedimento do aborto legal e garante que os hospitais não se neguem a realizar um procedimento previsto em Lei.

Entretanto, hoje, a portaria foi revogada pelo Ministério da Saúde. Isso mesmo. Uma portaria que faz o mínimo, que apenas facilita a realização de direitos garantidos em lei, foi revogada por causa da pressão da bancada parlamentar evangélica. É uma vergonha. Uma tristeza. Uma indignidade.

 A revogação dessa portaria demonstra o desprezo com que os direitos da mulher tem sido tratados. A revogação dessa portaria aponta para o enorme retrocesso que vivemos no que tange às questões de gênero e políticas públicas. A revogação dessa portaria revela descompromisso com as conquistas feministas e desrespeito com as demandas das mulheres. A revogação dessa portaria indica que a luta feminista pelo reconhecimento da mulher como um ser de direito está, ainda, longe de ser desnecessária como alguns apontam.

A revogação dessa portaria me inquietou, me enraiveceu, me indignou, me entristeceu. Mas não me abateu nem desanimou. A luta pelo aborto legal e seguro é uma luta biscate. Vamos a ela. Com sangue nos olhos.

(pesquei da Niara)

(pesquei da Niara)

Lidando com Nevascas

Angústia não pede licença. Não manda aviso. Não precisa de batedores. A angústia mora no sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando lhe dá agonia de ser ela mesma, ela, a angústia, desce a escada e põe-se a percorrer a casa. Percorre-me, em corredores que se tornam sombrios, lâmpadas que amarelam os cantos e aquele vento frio que assovia como a manter acordado o desespero. Ela, a Angústia, em seu desbotado estar, se abanca na varanda e fica a espiar, pelos meus olhos, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança. A angústia ocupa os espaços. Ela empurra tudo pra fora e tudo me arde em lágrimas. Corto cebolas pra nos alimentar e não confessar minha entrega. Ela revira os armários e desordena o tempo que eu pensava meu. É sempre frio por dentro quando a angústia faz a ronda.

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Pra sentir-me melhor e reconduzir a angústia pra seu embolorado sótão – porque embora ela só vai quando vamos todos: sonhos, esperanças, amores, alegrias, suspiros, até o último – tem que ter comida que conforta. E, como todo mundo sabe, há 3 coisas que fazem a vida ter sentido: açúcar, gordura e fritura (rá, vocês pensaram que eu ia dizer sexo, né?). Então, comida que conforta deve ter pelo menos um desses ingredientes. Se eu fosse de doces, abria logo uma lata de goiabada, uma caixa de chocolates ou fazia essa receita da Niara. Como não sou…

…quando é frio em mim, faço coisinhas. Tipo bruschetta (já disse como faço as minhas aqui mesmo nesse blog). Ou corto cubinhos de queijo coalho, tempero com azeite e ervas finas e coloco um minutinho no microondas. Linguiça no forno com mel pra comer com pãozinho de leite. Torrada com patê, farinha de castanha com queijo gorgonzola e uma taça de vinho branco seco. Ou os quitutes que outras biscas já fritaram e garantem.

Mas se é nevasca no peito, apelo. E convoco Ele. Isso mesmo. Bacon. Com carboidrato, então, é batata (#trocadilhoinfame). Deixa ele chegar como for. Em quadradinhos que se juntam ao gorgonzola e envolvem o penne (quase, quase #12anos), em fatias finas torradas com ovo pra acompanhar as torradas, com cogumelos dando novo status ao arroz cremoso, pode ser com requeijão e cebola no recheio de uma torta rápida com massa de pizza… pode ser envolvendo, amorosamente, nosso rocambole de carne. Pode, pode, pode, desde que seja ele, a frigideira e aquela crocância que faz, de quase todo mundo, um devoto fiel.

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Um dos jeitos mais legais: pega aquelas batatas miudinhas e coloca pra cozinhar por uns dez minutos em água temperada com aqueles tabletes de caldo de bacon. Depois faz uma pasta com manteiga, azeite, alho amassado, pimenta-do-reino e mais as ervas que você curtir. Passa nas batatinhas com vontade. Luxúria. Deixa a batatinha lambuzada. Aí embrulha com aquelas fatias finas de bacon, prende com palito e coloca no forno por mais ou menos meia hora (até o bacon ficar crocante). Se não tiver a batatinha miúda? Ué, biscate improvisa. Cozinha a batata maior conforme indicado, amassa como se fosse fazer um purê, faz as bolinhas, espalha a pasta e cobre com os bacons da mesma forma.

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Se não resolver com bacon, bom, aí só com sexo mesmo ;-)

Sete de Mãe, digo, de Maio

“Filhos, há que se ter essa coragem:
ir e deixá-los, deixá-los ir.” (Renata Lins)

Domingo é o dia das mães. Eu sou mãe. Uma mãe biscate. Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até boas.

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Minha mãe é exatamente assim, como na tirinha. Dava jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou parece ótimo. Ah, os pontos de vista!

O certo, certo mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que signifique, por causa do Almir, o pai. O Almir fez possível uma maternidade mais tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui. O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou, com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto pra tocar o barco. E, mais, só sou a mãe que sou pela incrível e amorosa rede de familiares e amigos. Suas dicas, sua disponibilidade, seus exemplos, suas perguntas, suas aporrinhações. Tudo que me fez tentar, pensar, mudar.

Ser mãe não é a coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras coisas que sou. Não sou a “Mãe”. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um omelete de frango, acho.

O certo é que tem memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. Às vezes que ele fica doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 16 anos e quase 2 metros, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre, sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador. Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria.

mafalda - mae

Comecei dizendo: domingo é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: “domingo é dia das mães e eu sou mãe do Samuel”. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso, impertinente. Ele. Eu. Nós.

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E hoje, pra terminar a conversa, hoje é sete de mim, digo, de maio. Já faz dezessete anos que você, Samuel, está por aí, por aqui, em mim. Já faz dezessete anos que você me surpreende, alegra, tira o ar, preocupa, enerva, confunde, enternece, dezessete anos que me comove. Dezessete anos e eu ainda sei tão pouco sobre você, sobre nós, sobre ser quem eu deveria ser com você ou pra você. Não sei estar, talvez, onde você quer. Mas estou onde você precisa, espero. Estou aqui pra você. Te amo. E tenho um orgulho danado de fazer parte dessa história que é sua, que é você. Parabéns, eu digo, por ser assim como é: em construção.

Quando o Amor Acabar

Eu ainda sinto a sua falta e aqui, onde dói em perguntas, eu reviso letra a letra imaginando como construí o abismo. Sei, claro que sei, que não foi nada que fiz ou disse, apenas a vida que afasta barcas que navegam entre portos distintos. Mas saber que a vida é maior que eu não conforta. E eu demoro no nunca mais. Nunca mais não saber o que te responder. Nunca mais a conversa instigante. Nunca mais me saber no seu olho. Nunca mais querer acertar. Nunca mais rir tão fácil. Nunca mais comparar expressões. Nunca mais um novo velho filme. Um velho novo livro. Nunca mais Minnie. Nunca mais cangaceira. Nunca mais ir longe demais e voltar, assim, segurando firme outra mão. Nunca mais aquele abraço em que sabia tudo tão certo. Nunca mais querer. Sinto falta disso, daquele vazio que era vontade de te saber em mim. Ninguém puxava meu tapete como você… Eu sei que você tem essa dor. Esse medo. Sei que o seu corpo se curva e sua testa se enruga nessa angústia tão mais material que a minha. E entender isso me dói tão mais. Porque já não sou eu que aliso essa ruga. Mais, porque já não quero ser. Porque não queremos. Porque sentimos falta, eu sinto falta, de quem éramos, de quem eu era com você. Mas já não quero ser aquela.  Apenas sinto saudades: de nós, de você, dela.

Em seu disco Almanaque, Chico perguntava, meio terno, meio ácido, pra onde vai o meu amor, quando o amor acabar? E ele não é o único, garanto. Tem uns, que nem o Leminski, que acham que nem acaba, se transforma. Uma outra coisa qualquer: alívio, raiva, aprendizado. Vira raiva – ou rima. É difícil saber quando o amor passa a ter outro nome em nós. Quando somos capazes de falar da pessoa amada sem que borboletas façam festa no estômago? Quando aprendemos a usar o passado imperfeito? Quando é outro o nome que pensamos em sobressalto? Saber quando acaba um relacionamento é um pouco mais fácil, mas nem por isso. Alguns acabam o relacionamento em um golpe seco. Outros arrastam alguns ensaios. Algumas vezes, ainda, o relacionamento acaba antes pra um dos parceiros e o outro demora a entender. Quando o relacionamento acaba há sinais externos, quase sempre. Já não fazemos as coisas que fazíamos, já não temos os compromissos que tínhamos, às vezes é preciso mudar de casa, de trajeto, de bar. Mas o amor? Como sinalizar seu fim? Como simbolizar o “nunca mais”? Quando acaba o amor, pra onde vai?

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Hoje já se tem resposta possível.  Quando o amor acaba pode ir pro Museum of Broken Relationships. Isso mesmo, um Museu de Relacionamentos Terminados/Acabados/Finitos/Findados, de Vínculos Rompidos, de Corações Partidos. Legados de um amor que já não é. Você, que teve seu amor e suas manifestações concretas e que, não tendo mais o primeiro não consegue conviver com as segundas, agora é só enviar pra Croácia! Nada mais de tocar fogo nos bilhetes, rasgar fotos, deletar emails, rebolar no lixo os mimos. Vai diretinho pra outra canção do Chico, ora… vai para as vitrines.

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Queria visitar, deve ser um tanto melancólico, é verdade. O vestido do primeiro encontro, o LP do aniversário de casamento, pelúcias, livros, a coleção de sutiãs. Objetos triviais, em si mesmo quase insignificantes, que encarnam o sentir e são, eles mesmos, narrativas condensadas. Tanta coisa por dizer, tanto futuro supostamente perdido, alguns arrependimentos, umas saudades. Alguma alegria recordada, espero. Objetos que dizem de vidas que já não são. Queria visitar, deve ser inspirador. Todos esses objetos que ocuparam tanto espaço, depois de doados, deixam o vazio pra que a vida possa ser.

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Fico pensando nas pessoas que doaram os objetos para o Museu. No que sentiam. Em como reordenaram o sentir com esse gesto. Aquele momento em que a gente deixa pra trás (fica mais bonito em inglês: let it go). Porque mandaram pra lá seus objetos? Uma forma de lidar com a dor? A compreensão de que a coisa já não comporta tudo que existiu? A ideia de que longe dos olhos longe do coração? A vontade de dar um sentido maior à sua perda pessoal?

E eu fiquei pensando nos meus findos amores. Guardo tudo, sabe. Poesia escrita em guardanapo, telegrama, foto, cartão, colagem, cartas, blusas. Eu não me desfaço de mim mesma. Tenho grande carinho por tudo que vivi. E gosto de reencontrar-me nos olhares outros que me disseram tanto. Lembrei de um episódio de How I Meet Your Mother em que a namorada atual do moço exige que ele se desfaça de tudo que ele ganhou ou comprou junto com os relacionamentos passados. Que ele abrisse mão de todos os objetos que contassem alguma história de amor que não fosse a deles. E, quando ela voltou a entrar no apartamento dele, não tinha mais quase nada. Uma certeza: somos quem somos, um tanto pelas pessoas que amamos, pelos relacionamentos que tivemos. Quando amo alguém que é, agora, mesmo desconhecendo o que foi e quem amou, amo também sua história. Há coisas que nem costumo lembrar que foram de um amor passado ai, num repente, a lembrança. O momento. A pessoa. Meu sorriso. Gosto de ter a vida que vivi por perto. Em mim. Como escrevi um dia desses: Estão em mim, os meus amores, no meu jeito de sorrir, nas histórias que repito, na ruga no canto do olho. Estão na pele, na curva do corpo, no balanço das mãos. Estão em mim. Eu sou todos esses amores. Enquanto eu for, eles são. Somos. Todo amor é eterno enquanto eu dure. Também estão nas coisas que apinho nas gavetas #SouDessas.

postbisca

Mas se fosse montar uma exposição temporária lá no Museum of Broken Relationships com as minhas despedidas: uma blusa azul. O LP Drama 3o Ato. Três cigarros. Sorvete de Flocos. Um bilhete de avião. Uma coleção de telegramas. Um ursinho. Um óculos com as lentes embaçadas. Um CD do Fito Paez. Um molinete. Uma foto na praia. Não, uma porção de fotos na praia. O que iria na sua mostra?

Museum of Broken Relationships anda por aí. Agora mesmo está na Cidade do México (link aqui). A exposição ficará lá até dia 08 de junho.

Semana, opa, Santa

Caravaggio_-_La_Deposizione_di_Cristo

Quinta ou Lava-Pés

Ela revisita lembranças. Sabe todos os amores. Inclina-se, saudade e bacia nas mãos, em uma disciplinada procissão. Dedica-se a expurgar o sofrer. Cantarola, mas podia ser uma prece: afasta de mim esse cale-se. Não pode negar o que já disse, não pode repetir. Aprisiona-se em cada grande amor. Resgata os momentos como se os pudesse sentir. Não sabe que autopsiar o amor é reconhecer sua finitude.  A saudade é corpo de delito. Cada um, ela lembra, seria pra sempre. Deixa os olhos perderem-se nos olhos dos fantasmas. Mergulha, prestimosa, as mãos entre as vísceras dos relacionamentos findos. Nem repara o rubro que tinge a água. Seu coração gangrenado.

 Sexta da Paixão

Eu nunca acreditei no amor eterno, na alma gêmea, na metade da laranja. Não esperei sinos, votos de felicidade, flores de laranjeiras. Os homens, ah, os homens em minha cama sempre foram riso. Prazer. Eu nunca quis mais do que o que tinha pra dar. E, ainda assim, em silente resignação, sei que você me tornou imprestável, senão para o amor, para os relacionamentos. Não sirvo ou eles não me servem. Foi você. Escavou abismos ao meu redor. E eu já não sei voar. Eles, os outros, nunca farão o sexo que você não fez e é sempre à luz deste vazio – onde tudo cabe – que eu os julgo sempre. Eles, os outros, nunca farão as letras que você fez e é sempre à luz desta presença que eu os condeno. Não me deixaste oca, esclareço, se assim fosse eu poderia acolher alguém em meus espaços. Ao partir, foi plena que me deixaste. Repleta de tudo que não pôde ser, com sua imagem enorme em todas as minhas esquinas. Compreendo, enfim, que é preciso que saias. Em sangue. Com a ponta mais afiada escrevo saudade na pele e abro veias. Em vermelho me deixas. Envolvo-me com branco lençol em arremedos de abraço e deixo inscritos os dias de solidão. Só é possível seguir se fico a morrer.

 Sábado de Aleluia

Todos os dias como uma prece: não querer. Destemida, percorro os dias tão cheios de você. Como uma pontada: você nunca esteve aqui. Nunca esteve no café cedo da manhã, eu encolhida no sofá, todo os riso do dia já no acordar. Nunca esteve no percurso do trabalho, as impressões do trânsito, do sol, do tempo. Nunca esteve no almoço corrido, nas tardes lentas, nos domingos chuvosos. Você nunca esteve na cerveja na varanda, nas intrigas amorosas, no chafurdar nos livros. Nunca esteve no ocre de Canoa, no azul do mar tão dentro de mim. Nunca, nunca, na estrada, nas perguntas, nas fronteiras, nas conversas noturnas que se tornam sol. Nunca esteve no sertão que construí pra você, letra a letra, terra e calor. Todos os dias, como uma prece: não pensar. Escrevo uma bula com meu método secreto para voltar a sorrir: o luto. Pra esquecer, procurar lembrar-se. Porque há um dia em que você não se lembra de lembrar. Só aí você esqueceu.

 Enfim, Domingo

Domingo eu não quero acordar cedo. Não quero acordar sozinha. Não quero calçar sandálias nem vestir roupa que aperte. Quero deitar no chão frio e pela janela espiar o azul. Quero café preto adoçado com felicidade. Domingo eu não quero ler jornal nem fazer compras no supermercado. Não quero névoa nos olhos nem vazios no peito. Quero cheiro de mar. Quero ignorar os relógios e contar o tempo em abraços. Quero seguir o corpo, comer quando sentir fome, dormir quando sentir sono e o resto do tempo deixar meu corpo saber outro corpo. Domingo eu quero ouvir sambas e ver futebol na televisão. Não quero falar baixo, andar rápido nem fazer a coisa certa. Domingo eu quero ler quadrinhos, tomar banho de mangueira e andar nua pela casa. Não quero cortar cebolas nem descascar abacaxis. Não quero usar talheres nem pôr a mesa, quero desenhar gaivotas em guardanapos. Domingo eu não quero segundas.

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

Ralo

Sabe quando seu moço (ou moça) transa com outra pessoa, resolve aceitar um emprego em outra cidade ou vai passar o fim de semana acampando com os amigos? Uma notícia que não deveria surpreender: geralmente não tem nada a ver com você. Não é porque você está gorda. Nem porque você é magra demais. Não é porque você está trabalhando muito.  Não é porque seus filhos são malcriados.  Ou porque seus pais foram meio ranzinzas no jantar passado. Não é porque você deu pouca atenção.  Ou atenção demais.  Não é porque você está ficando velha. Ou porque você é jovem demais pra entender.  Não é porque você não é boa de cama. Não é porque você gosta tanto de sexo que “ai-meu-deus-essa-mulher-é-uma-vadia”. Não é porque você não gosta de futebol. Não é porque você não entendeu a piada com Jon Snow. Não é porque seu cabelo está curto, branco ou longo demais. Não é porque você não se depilou pro fim de semana na praia. Não é porque você chegou cedo, tarde, não é porque você esqueceu, não é porque você reclamou que elx esqueceu. Não é porque você não é boa o bastante para fazê-lx completamente feliz. Muito provavelmente quando seu moço (ou moça) transa com outra pessoa, resolve aceitar um emprego em outra cidade ou fica contente de passar o fim de semana acampando com amigos é apenas porque elx é uma pessoa. Uma pessoa que sentiu desejo. Ou ponderou a carreira. Ou gosta de natureza, privação do conforto e papear com esses amigos aí. Uma pessoa que demanda além do que qualquer outra pessoa seria capaz de oferecer. Incluindo você.

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Nessa vibe, desenvolvi um dos meus aforismos basilares (ficou chic, hein): o amor é um grande ralo. Um ralo enorme, sem tela, daqueles que suga tudo. Pode deixar a torneira aberta que a vazão está garantida. O amor tudo absorve. E quer mais. Nunca é o bastante, por mais que o outro dê, faça ou diga. Passaram o dia juntos e só se separaram a noite? Não custava ele ter mandado uma mensagem de boa noite. Ela viajou a trabalho e todos os dias, antes de dormir, manda fotos do quarto e mensagens erótico-carinhosas? O que será que ela faz na hora do almoço que ocupa o tempo todo. Se ela mostra que ama, porque ela não diz? Se ele diz, porque não escreve? Se escreve porque não contrata um avião pra escrever a declaração no céu com fumaça? Nunca é o suficiente porque o que desejamos é uma completude impossível. Ansiamos pelo que nem sabemos nomear, pelo que está sempre além, dobrando a próxima esquina. Não, não essa a próxima. A seguinte. Sempre além. E demandamos, demandamos, demandamos.

Como é preciso dois para dançar o tango, muitas vezes o outro tenta oferecer o que supõe que desejamos: tempo, atenção, coisas, sentimentos. O outro tenta suprir o vazio que aquele ralo com sua boca escura e insaciável aponta. Enquanto tenta cumprir a promessa, falhada por vocação e princípio, de nos saciar, o outro vai derramando no ralo ditos e ações que, em algum momento, podem entupir (-nos). E, aí, engasgamos. Regurgitamos (eca). Devolvemos, meio indignados, tudo isso que não pedimos. Eu não queria seus ciúmes. Não queria conhecer seus pais. Não queria as entradas para o show raro desse cantor que eu só fingia conhecer. Não queria as panelas de cobre ou aquelas figurinhas raras dos jogadores da seleção de 74. Não queria tudo isso que entupiu os canos, porque o que eu queria eu não sei, não se pode saber, não se pode delimitar. E, principalmente, nunca está onde supomos. O que eu queria o outro não sabe, ele oferece o que ele supõe querer. O que serviria, acha ele, para o seu próprio ralo.

Já cantava a Fafá de Belém, “viver não é fácil não, pergunte ao eu coração”. Vou falar de mim, então. O que eu fiz e faço. Também fui submetida a essa socialização que demanda de nós, especialmente das mulheres, uma postura de espera do grande-e-perfeito-amor. Mas descobri que não é nisso que acredito e não é isso que quero pra mim. Resolvi que não adiantava esperar “mudar a minha forma de sentir” pra agir diferente. Era preciso agir diferente pra ir mudando minha forma de sentir. Então eu procuro agir de acordo com a pessoa que eu quero ser e, pouco a pouco eu vou me aproximando dessa pessoa (ótimas dicas, aqui, nesse post da Renata). Para além disso, também sou humana e tenho esse ralo enorme no peito.

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Nem sempre é fácil ser quem queremos ser. Nem sempre é fácil agir como escolhemos, fazer concretos os valores que soubemos construir em discurso. O que fazemos com o que sentimos é, penso eu, tão ou mais relevante do que o que sentimos em si. Não se trata de renegar sentimentos ou ser mais racional que emocional. Trata-se, no meu caso, no meu caso, repito, de fazer o que me aproxima do que acredito.

A outra coisa que faço, que me leva mais perto do que me quero, é tentar separar ou inverter algumas coisas que nos ensinam que devem vir juntinhas como sexo e amor, precisar de alguém e esse alguém precisar da gente na mesma medida e hora e forma, completar e ser completa por alguém… Por exemplo: eu acho que a gente precisa de alguéns mesmo e que não funciona bem pensar: eu não preciso de ninguém, porque dá aquela hora que queremos sexo, que queremos dormir de conchinha, que queremos passar a tarde bebendo cerveja e conversando (e aí, pra mim, pode ser – ou não – com a mesma pessoa, por isso eu coloco no plural). Por outro lado eu estou convicta que somos seres de incompletude e nem vários alguéns nem um alguém especial vai alterar essa que é uma condição da minha humanidade então isso faz com que eu tenha mais paciência com meus relacionamentos, que eu não espere que ele (relacionamento) e/ou ele (moço) me completem, me satisfaçam inteiramente, acabem com qualquer dúvida ou vazio. E tento resistir à tentação de tentar preencher alguém, claro. E tento me lembrar do começo desse post: quando ele(s) deseja (m) algo além de mim não é por alguma falha minha, mas porque, nós, humanos, somos seres de desejo.

E daí? Não é fácil, mas é até simples: reconhecer que não há o que baste pra alguém nos completar ou para que nós completemos o outro. E, claro, de vez em quando, faxinar o ralo, como disse uma amiga. Pode ser cantarolando com a Gal:

Nunca Te Direi

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a vida tão rápida. Porque os meus dois pés no teu peito me derrubam. Porque doem. Porque são de uma outra eu que já se foi, ficou na memória e no abraço de alguém. Porque ainda não chegaram. 

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Farei silêncio espiando os olhos que não procuram os meus. Ensaio conversas que nunca serão. Faço listas. Crio códigos e finjo acreditar que você me decifra. Meu corpo pra você aprender braile. Rio baixinho, um desejo também pode ser companhia, será que isso eu posso te dizer?

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Não vou te contar das sombras em mim. Não vou perguntar do outro tanto de sombras que adivinho em você. Em silêncio, corredores cinzentos, pátios semidestruídos, cômodos abandonados. Câmaras escuras onde o risco é a gente se encontrar.

Há uma porção de coisas que nunca te direi, você tem demasiado a perder. E eu só queria te ganhar. Infame, eu sei. Por isso não falo da vontade de andar, firme, pelos espaços seus, como se o anseio legitimasse a invasão. Sinto uma ternura doce e imagino como seria deitar sua cabeça em meu colo e deixar os dedos espalharem-se na sua pele.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Como eu flerto com os abismos. Como faço de conta que podia dar certo. Faço uma prece, ou quase, eu não sei rezar. Não sei dançar tão devagar, canta marina e eu com ela. Não sei dizer. Só queria que você soubesse: há uma porção de coisas que nunca te direi.

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