Semana, opa, Santa

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Quinta ou Lava-Pés

Ela revisita lembranças. Sabe todos os amores. Inclina-se, saudade e bacia nas mãos, em uma disciplinada procissão. Dedica-se a expurgar o sofrer. Cantarola, mas podia ser uma prece: afasta de mim esse cale-se. Não pode negar o que já disse, não pode repetir. Aprisiona-se em cada grande amor. Resgata os momentos como se os pudesse sentir. Não sabe que autopsiar o amor é reconhecer sua finitude.  A saudade é corpo de delito. Cada um, ela lembra, seria pra sempre. Deixa os olhos perderem-se nos olhos dos fantasmas. Mergulha, prestimosa, as mãos entre as vísceras dos relacionamentos findos. Nem repara o rubro que tinge a água. Seu coração gangrenado.

 Sexta da Paixão

Eu nunca acreditei no amor eterno, na alma gêmea, na metade da laranja. Não esperei sinos, votos de felicidade, flores de laranjeiras. Os homens, ah, os homens em minha cama sempre foram riso. Prazer. Eu nunca quis mais do que o que tinha pra dar. E, ainda assim, em silente resignação, sei que você me tornou imprestável, senão para o amor, para os relacionamentos. Não sirvo ou eles não me servem. Foi você. Escavou abismos ao meu redor. E eu já não sei voar. Eles, os outros, nunca farão o sexo que você não fez e é sempre à luz deste vazio – onde tudo cabe – que eu os julgo sempre. Eles, os outros, nunca farão as letras que você fez e é sempre à luz desta presença que eu os condeno. Não me deixaste oca, esclareço, se assim fosse eu poderia acolher alguém em meus espaços. Ao partir, foi plena que me deixaste. Repleta de tudo que não pôde ser, com sua imagem enorme em todas as minhas esquinas. Compreendo, enfim, que é preciso que saias. Em sangue. Com a ponta mais afiada escrevo saudade na pele e abro veias. Em vermelho me deixas. Envolvo-me com branco lençol em arremedos de abraço e deixo inscritos os dias de solidão. Só é possível seguir se fico a morrer.

 Sábado de Aleluia

Todos os dias como uma prece: não querer. Destemida, percorro os dias tão cheios de você. Como uma pontada: você nunca esteve aqui. Nunca esteve no café cedo da manhã, eu encolhida no sofá, todo os riso do dia já no acordar. Nunca esteve no percurso do trabalho, as impressões do trânsito, do sol, do tempo. Nunca esteve no almoço corrido, nas tardes lentas, nos domingos chuvosos. Você nunca esteve na cerveja na varanda, nas intrigas amorosas, no chafurdar nos livros. Nunca esteve no ocre de Canoa, no azul do mar tão dentro de mim. Nunca, nunca, na estrada, nas perguntas, nas fronteiras, nas conversas noturnas que se tornam sol. Nunca esteve no sertão que construí pra você, letra a letra, terra e calor. Todos os dias, como uma prece: não pensar. Escrevo uma bula com meu método secreto para voltar a sorrir: o luto. Pra esquecer, procurar lembrar-se. Porque há um dia em que você não se lembra de lembrar. Só aí você esqueceu.

 Enfim, Domingo

Domingo eu não quero acordar cedo. Não quero acordar sozinha. Não quero calçar sandálias nem vestir roupa que aperte. Quero deitar no chão frio e pela janela espiar o azul. Quero café preto adoçado com felicidade. Domingo eu não quero ler jornal nem fazer compras no supermercado. Não quero névoa nos olhos nem vazios no peito. Quero cheiro de mar. Quero ignorar os relógios e contar o tempo em abraços. Quero seguir o corpo, comer quando sentir fome, dormir quando sentir sono e o resto do tempo deixar meu corpo saber outro corpo. Domingo eu quero ouvir sambas e ver futebol na televisão. Não quero falar baixo, andar rápido nem fazer a coisa certa. Domingo eu quero ler quadrinhos, tomar banho de mangueira e andar nua pela casa. Não quero cortar cebolas nem descascar abacaxis. Não quero usar talheres nem pôr a mesa, quero desenhar gaivotas em guardanapos. Domingo eu não quero segundas.

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

Ralo

Sabe quando seu moço (ou moça) transa com outra pessoa, resolve aceitar um emprego em outra cidade ou vai passar o fim de semana acampando com os amigos? Uma notícia que não deveria surpreender: geralmente não tem nada a ver com você. Não é porque você está gorda. Nem porque você é magra demais. Não é porque você está trabalhando muito.  Não é porque seus filhos são malcriados.  Ou porque seus pais foram meio ranzinzas no jantar passado. Não é porque você deu pouca atenção.  Ou atenção demais.  Não é porque você está ficando velha. Ou porque você é jovem demais pra entender.  Não é porque você não é boa de cama. Não é porque você gosta tanto de sexo que “ai-meu-deus-essa-mulher-é-uma-vadia”. Não é porque você não gosta de futebol. Não é porque você não entendeu a piada com Jon Snow. Não é porque seu cabelo está curto, branco ou longo demais. Não é porque você não se depilou pro fim de semana na praia. Não é porque você chegou cedo, tarde, não é porque você esqueceu, não é porque você reclamou que elx esqueceu. Não é porque você não é boa o bastante para fazê-lx completamente feliz. Muito provavelmente quando seu moço (ou moça) transa com outra pessoa, resolve aceitar um emprego em outra cidade ou fica contente de passar o fim de semana acampando com amigos é apenas porque elx é uma pessoa. Uma pessoa que sentiu desejo. Ou ponderou a carreira. Ou gosta de natureza, privação do conforto e papear com esses amigos aí. Uma pessoa que demanda além do que qualquer outra pessoa seria capaz de oferecer. Incluindo você.

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Nessa vibe, desenvolvi um dos meus aforismos basilares (ficou chic, hein): o amor é um grande ralo. Um ralo enorme, sem tela, daqueles que suga tudo. Pode deixar a torneira aberta que a vazão está garantida. O amor tudo absorve. E quer mais. Nunca é o bastante, por mais que o outro dê, faça ou diga. Passaram o dia juntos e só se separaram a noite? Não custava ele ter mandado uma mensagem de boa noite. Ela viajou a trabalho e todos os dias, antes de dormir, manda fotos do quarto e mensagens erótico-carinhosas? O que será que ela faz na hora do almoço que ocupa o tempo todo. Se ela mostra que ama, porque ela não diz? Se ele diz, porque não escreve? Se escreve porque não contrata um avião pra escrever a declaração no céu com fumaça? Nunca é o suficiente porque o que desejamos é uma completude impossível. Ansiamos pelo que nem sabemos nomear, pelo que está sempre além, dobrando a próxima esquina. Não, não essa a próxima. A seguinte. Sempre além. E demandamos, demandamos, demandamos.

Como é preciso dois para dançar o tango, muitas vezes o outro tenta oferecer o que supõe que desejamos: tempo, atenção, coisas, sentimentos. O outro tenta suprir o vazio que aquele ralo com sua boca escura e insaciável aponta. Enquanto tenta cumprir a promessa, falhada por vocação e princípio, de nos saciar, o outro vai derramando no ralo ditos e ações que, em algum momento, podem entupir (-nos). E, aí, engasgamos. Regurgitamos (eca). Devolvemos, meio indignados, tudo isso que não pedimos. Eu não queria seus ciúmes. Não queria conhecer seus pais. Não queria as entradas para o show raro desse cantor que eu só fingia conhecer. Não queria as panelas de cobre ou aquelas figurinhas raras dos jogadores da seleção de 74. Não queria tudo isso que entupiu os canos, porque o que eu queria eu não sei, não se pode saber, não se pode delimitar. E, principalmente, nunca está onde supomos. O que eu queria o outro não sabe, ele oferece o que ele supõe querer. O que serviria, acha ele, para o seu próprio ralo.

Já cantava a Fafá de Belém, “viver não é fácil não, pergunte ao eu coração”. Vou falar de mim, então. O que eu fiz e faço. Também fui submetida a essa socialização que demanda de nós, especialmente das mulheres, uma postura de espera do grande-e-perfeito-amor. Mas descobri que não é nisso que acredito e não é isso que quero pra mim. Resolvi que não adiantava esperar “mudar a minha forma de sentir” pra agir diferente. Era preciso agir diferente pra ir mudando minha forma de sentir. Então eu procuro agir de acordo com a pessoa que eu quero ser e, pouco a pouco eu vou me aproximando dessa pessoa (ótimas dicas, aqui, nesse post da Renata). Para além disso, também sou humana e tenho esse ralo enorme no peito.

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Nem sempre é fácil ser quem queremos ser. Nem sempre é fácil agir como escolhemos, fazer concretos os valores que soubemos construir em discurso. O que fazemos com o que sentimos é, penso eu, tão ou mais relevante do que o que sentimos em si. Não se trata de renegar sentimentos ou ser mais racional que emocional. Trata-se, no meu caso, no meu caso, repito, de fazer o que me aproxima do que acredito.

A outra coisa que faço, que me leva mais perto do que me quero, é tentar separar ou inverter algumas coisas que nos ensinam que devem vir juntinhas como sexo e amor, precisar de alguém e esse alguém precisar da gente na mesma medida e hora e forma, completar e ser completa por alguém… Por exemplo: eu acho que a gente precisa de alguéns mesmo e que não funciona bem pensar: eu não preciso de ninguém, porque dá aquela hora que queremos sexo, que queremos dormir de conchinha, que queremos passar a tarde bebendo cerveja e conversando (e aí, pra mim, pode ser – ou não – com a mesma pessoa, por isso eu coloco no plural). Por outro lado eu estou convicta que somos seres de incompletude e nem vários alguéns nem um alguém especial vai alterar essa que é uma condição da minha humanidade então isso faz com que eu tenha mais paciência com meus relacionamentos, que eu não espere que ele (relacionamento) e/ou ele (moço) me completem, me satisfaçam inteiramente, acabem com qualquer dúvida ou vazio. E tento resistir à tentação de tentar preencher alguém, claro. E tento me lembrar do começo desse post: quando ele(s) deseja (m) algo além de mim não é por alguma falha minha, mas porque, nós, humanos, somos seres de desejo.

E daí? Não é fácil, mas é até simples: reconhecer que não há o que baste pra alguém nos completar ou para que nós completemos o outro. E, claro, de vez em quando, faxinar o ralo, como disse uma amiga. Pode ser cantarolando com a Gal:

Nunca Te Direi

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Porque não quero ou não posso ou não sei. Porque não há palavras para elas. Porque são tão pequenas e a vida tão rápida. Porque os meus dois pés no teu peito me derrubam. Porque doem. Porque são de uma outra eu que já se foi, ficou na memória e no abraço de alguém. Porque ainda não chegaram. 

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Farei silêncio espiando os olhos que não procuram os meus. Ensaio conversas que nunca serão. Faço listas. Crio códigos e finjo acreditar que você me decifra. Meu corpo pra você aprender braile. Rio baixinho, um desejo também pode ser companhia, será que isso eu posso te dizer?

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Não vou te contar das sombras em mim. Não vou perguntar do outro tanto de sombras que adivinho em você. Em silêncio, corredores cinzentos, pátios semidestruídos, cômodos abandonados. Câmaras escuras onde o risco é a gente se encontrar.

Há uma porção de coisas que nunca te direi, você tem demasiado a perder. E eu só queria te ganhar. Infame, eu sei. Por isso não falo da vontade de andar, firme, pelos espaços seus, como se o anseio legitimasse a invasão. Sinto uma ternura doce e imagino como seria deitar sua cabeça em meu colo e deixar os dedos espalharem-se na sua pele.

Há uma porção de coisas que nunca te direi. Como eu flerto com os abismos. Como faço de conta que podia dar certo. Faço uma prece, ou quase, eu não sei rezar. Não sei dançar tão devagar, canta marina e eu com ela. Não sei dizer. Só queria que você soubesse: há uma porção de coisas que nunca te direi.

E a Propaganda da Riachuelo no Dia da Mulher?

Vocês viram a propaganda da Riachuelo? Eu vi. Você se indignou? Eu também. E depois fiquei matutando. E terminei achando que foi muito consistente com as representações de mulher presentes na nossa publicidade e na cultura em geral. Nós não existimos. Não temos rosto. Não somos sujeitos. Não temos vontades, desejos, gerência. Nós servimos. Nós suportamos. Nós somos braços, pernas, corpo que se molda ao desejo alheio, por “vontade” (cof, cof) ou à força bruta.

Na propaganda do Miojo Light, somos, novamente, invisíveis, só existimos pela narrativa dos homens que estão lá, pedindo “desculpa” numa montanha de clichês. Desculpas por coisas que não tem relação direta com nossa existência individual (baixar a tampa da privada, oi? ficar jogando videogame ou deixar roupas espalhadas), mas por quem nós, mulheres, somos supostas, em relação a eles (sem falar da aberração transfóbica, cissexista e biologizante que é relacionar “comportamentos masculinos” machistas com “ser homem” com “cromossomo y”).

No Bem Estar, programa matinal da Globo, na véspera do dia da mulher e em referência a esse dia, para falar da saúde da mulher, nós tivemos, tchanrã: dois homens. E no decorrer do programa ouvimos a pérola: “com todo respeito ao marido da Fulana, a Fulana está um chuchuzinho”. Ou seja, ela, Fulana de tal, não merece o respeito por si mesma, não pode decidir quem e como falam do seu corpo… esse privilégio é do marido (e no programa seguinte, a discussão sobre o dia da mulher se refere a “ser uma boa mãe”. Pausa pra gente refletir o quão errada é essa abordagem… aí seguem depoimentos de mães dizendo o tanto se sentem culpadas por trabalharem e não poderem ficar levando o filho pra escola pessoalmente todo dia – mais uma pausa pra desengasgar da raiva).

Na mesma semana um blog de um comentarista político publica nota sobre a presidenta…sobre as políticas públicas para mulheres? Não. Sobre a posição do Brasil na situação da Ucrânia? Não. Sobre a omissão do Brasil em relação ao massacre diário das minorias no Brasil? Não. Sobre a repressão policial violenta de qualquer manifestação pública? Não. Sobre qualquer tema político de relevância? Na-na-na-não (e eu me sentindo na música do Plunct-Plact-Zum). A nota super importante era sobre a presidenta repetir uma blusa. Atenção: a nota política relevante sobre a atuação da presidenta de um país enorme e contraditório é sobre uma peça de roupa repetida. Certamente não uma gravata ou paletó. Uma blusa. Um blusa de mulher. Porque, claro, antes das preocupações relativas ao cargo a gente tem que saber se a mulher está cumprindo direitinho sua principal tarefa social: servir de enfeite.

Uma das músicas que anda fazendo sucesso atualmente tem uma lista de reclamações do “moço-super-legal-trabalhador-que-não-faz-farra-e-paga-as-contas”: banheiro bagunçado, pia cheia de pratos sujos, roupas amarrotadas… porque, óbvio, a existência da mulher é definida pela sua precisão em deixar mais confortável a vida do homem, dos filhos, do chefe, da mulher mais rica, whatever, a vida de alguém que é sujeito e tem voz e imagem (e rosto, né, Riachuelo). E, a seguir, vem a ameaça: “se eu largar o freio vão dizer que eu sou ruim”. Olha, a gente não quer nem pensar no que é esse freio aí. Mas boa coisa já se sabe que não é. E, claro, ele está com a razão, no imaginário da sociedade que não se cansa de arrumar boas justificativas pra legitimar a violência contra a mulher: justificativas que vão desde a roupa curta ao não cumprimento de suas tarefas domésticas, com um amplo espectro entre um e outro pra você inserir todos os preconceitos possíveis.

A gente podia passar um tempão aqui elencando exemplos da cultura onde as mulheres, sua diversidade, sua voz e seus desejos são silenciados e invisibilizados. Li o excelente texto das Blogueiras Negras sobre a propaganda da Riachuelo e fui fazer um teste simples no google, coloquei na busca de imagens e escrevi “propaganda Dia da Mulher” e as primeiras imagens que vieram são as que se seguem. Não é preciso ser especialista em análise de conteúdo pra entender a representação cristalizada, cisnormatizada, elitista, heteronormativa reproduzida em todas elas.

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Aí pensei que o termo propaganda pudesse ter desvirtuado a busca e coloquei apenas “dia da mulher” e o festival de horrores se acentuou:

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A mulher é, nessas narrativas, em função de. E não espera recompensa (pra que, né? sua satisfação deve ser se submeter e agradar ao Outro ou a Outra que se coloca, eventualmente, no lugar de poder que oprime). O segundo cartaz/mensagem é ainda mais explícito: somos passíveis de adjetivação, não se substantivação. Não há materialidade, história, classe, geografia pra nós, mulheres. E daí pra biologização dos comportamentos e a naturalização dos papéis sociais…

Repetimos: Nós não existimos. Não temos rosto. Não somos sujeitos. Não temos vontades, desejos, gerência. Nós servimos. Nós suportamos. Nós somos braços, pernas, corpo que se molda ao desejo alheio, por “vontade” (cof, cof) ou à força bruta. E esse nós é assim mesmo, escalonado. Na ordem patriarcal, não existe um jeito certo de ser mulher. Não existe uma forma fácil. “É como o pecado original, você nasceu e isso já te condena. Variam as punições, não o veredito.”* Sofrimento não tem trena nem balança. Não é pesável, medível ou comparável. Ainda assim, para além das vivências individuais, sabemos que há grupos que, estruturalmente, arcam com ônus maiores por vivermos em uma sociedade machista, sexista, classista, racista, homofóbica e transfóbica. Sem fazer Olimpíada de opressão é preciso reconhecer que, mesmo sendo impossível o papel da mulher perfeita, as mais imperfeitas estão aí pra serem repudiadas e execradas todo tempo: se for gorda, se for negra, se for índia, se tiver pênis, se não puder ou quiser ter filhos (ou, mesmo, parir), se for lésbica, bissexual…

Nesse Dia da Mulher, nós, biscates, queremos não só lembrar que esse é um dia de luta. Queremos nos juntar à pergunta que a Thayz Athayde fez no Blogueiras Feministas: Dia das mulheres? De quais mulheres?.

Queremos dizer que existimos e somos diversas (e a pesquisa sobre a Mulher na Propaganda, feita pela Agência patrícia Galvão, ecoa). Biscates. Nós temos rostos que não são representados na publicidade mas marcados pelo riso, pelo gozo, pelas perdas, pelo engolir em seco, pelo engolir o sapo, pelo grito de protesto… Nós somos sujeitos, fazemos escolhas, pensamos e decidimos, mesmo limitadas pela conjuntura, cultura e história. Nós temos vontades… seja de consumir, de amar, de trepar, de pertencer. Temos desejos… de ser feliz, amadas, livres, o que for. temos gerência, mesmo quando reconhecemos os obstáculos estruturais. Queremos dizer que somos diversas e nossa luta é pra poder dizer. Poder sermos vistas além do que fazemos e somos para o outro. Podemos cuidar, mas não nos reduzimos a isso. Podemos servir, mas não nos reduzimos a isso. Podemos suportar, mas não sempre.

Não aceitamos ser reduzidas. Silenciadas. Apagadas. Reconhecemos que é contra a propaganda da Riachuelo a nossa luta. Pelo que ela é e pelo que representa.

(como sugestão, espiem os textos da nossa tag #LuzNasMulheres que, no ano passado, recebeu com alegria o discurso de várias mulheres em suas especificidades. Não falamos por elas e isso nos faz muito feliz).

Virtual

Esse post é por causa desse.
Esse texto é por causa dela. 
E por causa de um ele. Sem link.

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Já estive em tantas esquinas que me esqueço nas ruas: asfalto, calçamento, barro. Agora piso no nada. Ou ainda: transitamos em letras. Uma nova geografia dos encontros. Deseje-me sorte, eu digo, mas queria mesmo era escrever: deseje-me. Queira. Isso e aquilo. Forte. Agora. Enquanto. Me queira. Mas não escrevo. Não isso. Mas continuo fazendo estradas, desenhando mapas virtuais. Escrevo a dificuldade de dizer. E espero que você adivinhe. Porque eu preciso tanto. Preciso: acreditar que é possível. O quê? Um encontro. Com um pouco de sorte: o encontro. Ou apenas: que você me saiba. Que você me leia. Que você me diga. Que você esteja. Na volta. Envolto.

Volto a suas letras: uma sinuca. Verde. Ver-te. As palavras deslizam. Soo inconstante? Eu sou. Vai e vem. Vou e venho. Chego. Acho graça no que não sei. E no que faço de conta. Desaprendo pra te deixar chegar. Porque é tudo miragem, contamos com as letras e nos inventamos. Um-dois, feijão com arroz. E o sonho: baião.  Você se irrita, não acompanha o meu passo. Eu insisto: dois pra lá, dois pra cá. O bem querer é de verdade. E o abismo. É muita estrada, eu sei, você sabe, o Edu Lobo sabia e avisou. Mas eu sou teimosa, eu alerto como um desafio. Porque é isso que te peço com os meus silêncios: insista.

O que eu sei é que às vezes já não vou pra rua, já não espio a janela, já não anseio concretos. Em borrões o que não é letra. Suspiro. Escrevo no guardanapo: me aproveita enquanto estou querendo ficar. Rasgo em tirinhas. E coloco izmália a cantar tão alto pra que eu não escute a vontade. Rodopio com a lua. Entorno o vinho. Faço uma fotografia em preto e branco da alça da minha camisola vermelha e envio com um email desaforado dizendo que se você quiser mais cores, pinte por aqui. Acordo com vergonha da legenda óbvia e torço pra ter escrito o endereço errado. Não escrevi. Até quando acerto eu me saboto.

Você pergunta, eu desconverso. Falo de outros homens, outras camas e exagero na risada. Rimo embaraço com exagero e invento histórias como elas foram mesmo. Você chama de fantasia minha memória e eu me surpreendo porque nunca pensei nisso. Antes. Dá vontade de chorar escondido, mas eu não consigo esperar e digito alegrias com os dedos manchados do rímel que escorre.

Eu me dissolvo. Porque há horas em que é preciso fechar os olhos, fazer compras, ir pra rua. Porque há horas em que sou risada, esquecimento, corpo em outros abraços, ditos em outras conversas. E a distância que a gente faz de conta que não, grita que sim. Eu repito teu nome como um mantra, pra você permanecer existindo mesmo quando não é. Vejo os trilhos e deslizo no óbvio, siga a trilha e me encontre na próxima estação: será primavera. Eu acredito em fadas e bato palmas, eu acredito em você e rio alto e as pessoas me olham na rua. Eu percebo o incongruente: fadas, coelhos com ovos, bruxas em vassouras, você. Volto correndo, deixo as sacolas no balcão e procuro o sinal. Verde. Ver-te. Pra você existir. Em mim.

E isso seria lindo, apesar de. Ou talvez por causa.
Mas é que tenho precisado te tocar.
Além de mim.

Sabe a Miss Bumbum e o Cadeirante? Não é da sua conta

Texto escrito com a consultoria/parceria de Patrícia Guedes*, Biscate Convidada

Vou contar um segredo pra vocês: desejo, tesão, amor, sexo, afeto… nada disso é exclusividade de pessoas jovens, magras, sem deficiências, brancas, heterossexuais e cisgêneras. Afeto, sexo, amor, tesão, desejo, tudo isso é humano e tá presente em todos nós de fio a pavio.

Ontem de manhã uma amiga me perguntou se eu estava acompanhando a polêmica sobre o namoro da Miss Bumbum. Eu disse que não e fiquei preparada pra ouvir o relato mais usual sobre as pessoas com preconceito sobre mulheres que “usam o corpo pra subir na vida”, “mulheres que não se dão ao respeito” e outras bobices assim. Mas os preconceitos relatados não eram (apenas) o machismo e conservadorismo nosso de cada dia.

O preconceito da vez é contra as pessoas com deficiência. Nem é novidade, o preconceito em relação a pessoas com deficiência é aquele mesmo de todo dia, mas no todo dia vem meio disfarçado de benevolência e paternalismo.

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Só não pode tratar de sexo. Aí, cumpade, o buraco é mais em baixo (ou, no caso, melhor seria dizer que o buraco é mais em cima ou que nem se admite a existência do buraco). Magina que pessoas com deficiência (seja física, motora, psíquica, cognitiva, whatever) vai ter desejo. Tesão? Não, não, não (quase que a gente escuta o “eca”). O corpo com deficiência é visto como assexuado, defeituoso, impróprio. Aliás, não só o corpo, à pessoa com deficiência é vedado, implicitamente, o desejo. Não só não pode fazer sexo como não pode desejar fazê-lo. Sobre esse assunto, ninguém fala, ninguém sabe, ninguém viu. Talvez nem exista.

Mas qual a história mesmo? Uma moça que namora um moço. E o moço é cadeirante. E uma enxurrada de comentários imbecis. De maneira geral as pessoas destilam preconceito ao julgar que paraplégicos e tetraplégicos (pra ficar mais próximo do tema, mas isso se estende a vários outros tipos de deficiências) não podem ter vida sexual. Não precisamos nem pensar muito pra ver como o senso comum é limitado na sua compreensão de sexualidade, julgando-a a partir do paradigma heterossexual-cis-penetração-pênis-vagina-homem-no-controle. Sério mesmo que ainda se pensa que sem pau não tem o que fazer na cama? (Sexo sem… #ficadica e é só uma das inúmeras) Esse caso é agravado por outro preconceito: ela, por ser miss bumbum, é hipersexualizada e supõe-se que é difícil de ser satisfeita sexualmente. Mais de um comentarista enfatiza que é “sacanagem deixar um mulherão desses só na vontade”.

Não devia, mas ainda me impressiona a facilidade com que as pessoas se sentem no direito de invadir a privacidade alheia, questionar, julgar e rotular a vida sexual do outro. Sério mesmo, que é que a galera tem a ver com o jeito que as pessoas trepam? Não interessa se eles usam mão, língua, acessórios, se tem ereção, se tem ejaculação, se convidam mais alguém pra festa. Cada adulto, com seu desejo e seu gozo.

Mas é preciso reconhecer, se um corpo não desejável passa a demonstrar desejo, temos um problema grande com o qual a sociedade não consegue lidar. E a reação a ele costuma ser bem violenta. Não por acaso costuma haver tanto preconceito no que tange a sexualidade de pessoas gordas (leiam o gorda e sapatão, leiam sim), trans (leiam o transfeminismo, leiam sim), negras (leiam o blogueiras negras, leiam sim). E pessoas com deficiências.

Lembro quando assisti o excelente filme “As Sessões” (que narra, basicamente, a relação entre uma sex surrogate – parceira sexual substituta – e seu cliente – Mark O’Brien, que é deficiente físico) e quantos comentários desconfortáveis surgiram pelas redes sociais. Um monte de gente incomodado por uma pessoa tetraplégica sentir, manifestar e procurar satisfazer seu desejo sexual.

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O filme é muito feliz ao mostrar, com leveza, o desejo do seu protagonista e (não menos relevante) tratar com naturalidade o corpo não padronizado de Helen Hunt (grande parte das cenas da atriz são realizadas despida ou semi despida). Uma grande parte do incômodo que encontrei nos comentaristas do filme é em relação às coisas que considero grande mérito: a) a naturalidade com que o filme nos leva a encarar a busca da relação sexual e do conhecimento do próprio corpo, empreendida pelo moço com deficiência, b) a desglamourização dos corpos, tirando o foco da beleza esteticamente aceitável, c) o sexo como um elemento presente e ativo na vida de toda e qualquer pessoa, manifestado de forma específica segundo sua vivência e subjetividade (seja o protagonista, a parceira sexual substituta, o padre, o marido da parceira sexual substituta, etc), sem moralismos ou julgamentos de caráter.

Supor a incapacidade de alguém de desejar ou ser desejado tem nome: capacitismo. Ao negarmos a sexualidade de alguém, lhe negamos, automaticamente, representatividade política e social, entre outros direitos. A inclusão sexual da diversidade de corpos existentes é, talvez, a mais difícil a ser feita, já que com tabu não se discute. Mas precisamos. Precisamos desconstruir a noção disseminada que pessoas com deficiência não são aptas a decidir sobre suas vidas. Precisamos desconstruir a idéia de que sexo é exclusividade de pessoas que se inserem no padrão que a sociedade avaliza. Precisamos debater a noção de que existem corpos que “não servem” pra o prazer. Precisamos incluir, precisamos visibilizar, precisamos ouvir. Precisamos sair do paradigma da sobrevivência digna para o da existência gozada.

E como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, temos a Jane Fonda em Amargo Regresso, com seu amante paraplégico, pra não nos deixar cair no moralismo (pode ver aí)

E o que a gente faz com a moça capa-de-revista e o moço cadeirante? Não faz. Deixa que eles façam. Sexualidade e autonomia caminham de mãos dadas. Que entre eles exista (ou não) desejo, tesão, amor, sexo, afeto, apenas: não é da minha conta, não é da sua conta, não é da nossa conta.

patrícia*Patrícia Guedes é arquiteta, feminista, biscate militante e a favor do piriguetismo consciente.

PS. Nosso obrigada à Jussara, com quem conversamos e de quem pescamos umas boas questões.

PS2. Nosso obrigada à Renata Lins que lembrou da Jane Fonda <3

Eu, Sardanapalo

Foi minha amiga Patrícia que me contou a história: era uma vez (okay, não foi assim que ela começou, mas me apetece) Alexandre. Isso, O Grande (ui). Andava o moço bem disposto conquistando tudo que havia, de lá pra cá, daqui pra lá. O que havia pra ser conquistado, ele o fez. Até que. Por maior que seja o mundo (e o mundo conhecido na época de Alexandre nem era isso tudo) tem uma hora que já não há. Pois foi bem por aí que Alexandre se deparou (dizem, dizem, ou pelo menos minha amiga me disse) com uma estátua de Saradanapalo. Sobre ele, pouco se sabe. Mas havia a inscrição. Essa:

 ”Eu, Sardanapalo, filho de Anacindaraxes, construí Anquial em um dia. Comi, bebi, trepei. Todo o resto não vale isto”

Morte de Sardanapalo, Delacroix

Morte de Sardanapalo, Delacroix

Então Alexandre sentou e chorou. Há uma beleza, acho, no reconhecimento da diferença. E da dor que, eventualmente, nos causa. Acho bonito que Alexandre tenha chorado, faço questão que sim, que seja assim a história que me contaram e que repasso. Porque o desejo é o impossível. O impossível de dizer. O impossível de viver. E, ao mesmo tempo, é o que nos move, alenta, impulsiona. De vez em quando sentar e chorar faz parte.

Mas, dizia eu, era uma vez o moço conquistador, voraz, faminto do novo. E ele encontra a lembrança de um que disse: bom é o mesmo. Daí o moço conquistador sentou e chorou. Moral da história? Ué, não tem moral nenhuma. Nem tem, acho, certo e errado.

Mas acho que um e outro nos convidam a pensar. Eu sempre quis admirar Alexandre, e, em alguns momentos, o fiz: seu desejo por conquistas, sua ânsia de saber, desvelar, dominar. Sua vontade inabalável, sua coragem e certeza, todos atributos admiráveis, mas algo me escapava. Conquistar todo o mundo conhecido é realmente um desafio excitante. Mas. Comi, bebi, trepei. Me comove Sardanapalo e a convicção de que o mais importante da vida é viver. Construir uma cidade é legal, dura um bocado de tempo, com sorte se ganha até uma estátua. Mas quem reconhece que comer, beber e trepar é mais divertido dificilmente chorará ao conquistar tudo que se tem pra conquistar ou se a cidade se perder na memória do mundo.

E o que é que tem com a biscatagem? É que, suspeito, muitas vezes nos dedicamos à construção de impérios amorosos, seja na vibe conquistar todo o mundo conhecido, seja no lance garantir as fortificações do que está conquistado. Em muitos casos temos a ilusão da eternidade, ansiamos pela glória de nunca sermos esquecidos, queremos fazer História. E, nesse momento Alexandre, deixamos escapar a simplicidade do cara da estátua: comer, beber, trepar. Tudo  mais não vale isso.

Labirinto 2

Abre os olhos que não reconhecem onde estão, eles e ela que espanta-se com o tremor de ansiedade que lhe percorre a carne como um choque, estimulante e dolorido. Andar, eis a ordem que o cérebro emite a um corpo relutante. Andar até encontrar uma saída. Qualquer saída. Uma possibilidade qualquer que se desmaterialize em passagem para sair deste labirinto. Pois é aí que estão presas ela e sua angústia. Como vim parar aqui? A pergunta percorre o cérebro num arremedo das passadas que percorrem o labirinto, sem expectativa de encontrar a resposta, mas ainda insistente, na única esperança possível de não morrer sem saber. Eu, que a tudo organizo, classifico, planejo, ando sem rumo e sem ordem, proferindo desatinadas palavras nos corredores da minha solidão. São sons sem nexo que imitam uma religião antiga, esquecida por ela e por todos que se gabam de sua razão, mantras que dirigem-se ao grande mistério: ser uma Iniciada do esquecimento. A razão não a protegeu deste labirinto que se levanta insultuoso à sua volta. As paredes riem ou este é o som do vento submetendo-se às curvas e reentrâncias do labirinto? No instante seguinte, o grande medo: o que há no centro do labirinto? Que monstro indescritível espera por ela numa curva qualquer dos corredores que ela não pode evitar-se percorrer pois podem conduzir não à perdição e ao devoramento, mas à saída? Nenhuma resposta emerge da grande névoa que tomou o que antes eu chamava memória. As paredes me oprimem, mas oprime ainda mais este céu sem telhado para segurá-lo, esta amplidão, este negrume salpicado de estrelas que me empurram ao chão como o advento da liberdade. Olhar tudo isto é temer que este manto de espaço me envolva, é arriscar um feitiço que me estabilize e imobilize, impedindo a única possibilidade que me resta: andar. Andar ao encontro do fim: seja ele o fim do labirinto com o advento abrupto da saída ou o fim no encontro indesejado com o proprietário deste hotel de horrores. O grande horror é esta névoa a toldar suas lembranças. A encobrir o que ela sempre, com disciplina e determinação, nomeou, dominou, rotulou. “Cada parede, uma história”- esta frase dita por ninguém parece um gemido a ecoar em sua cabeça. Ou será um som que vagueia pelos corredores e não lhe diz respeito? Não sei, mas este dito, assim presente, exige um sentido. Como um punhal a rasgar o véu do esquecimento, empunho esta frase nos lábios, repetindo e repetindo como se seu significado pudesse vir não do seu conteúdo, mas de sua forma. É assim é. Minha vida em compartimentos. Família, que lindo nome. Uma gaveta especial, como não. Entre as primeiras, posto que precisa estar acessível. Lá estão a infância, os personagens, os desafios. Uma gaveta para os amigos, outra para os colegas de trabalho. Uma gaveta empoeirada e pouco visitada para os amores do passado. Um compartimento bonito para os filhos. Outro para o marido. Marido, repito e estanco diante de uma enorme e sólida parede que há pouco eu não via. Continuo a andar mais por hábito que na busca da saída. O labirinto agora me enfeitiça. A gaveta dos projetos iniciados e não concluídos. Eu a tudo precisei dar um nome, o medo constante e silencioso de perder-me nas relações. Cada gaveta era um escudo, você está aí, perto demais, mas eu o domino, vê, posso dar-te um nome e assim encaixar-te  na história da vida que me constrói. Sei agora que não mais me dirijo para a saída, o centro do labirinto é um ímã de força letal, as pernas resistem mas conduzem-me com constância aos braços do monstro talvez agora adormecido, mas no exato instante do encontro sei que o encontrarei atento e indomado. Outra lembrança: os monstros do labirinto são meio homem, meio bicho…onde foi que aprendi sobre isto? Onde foi que aprendi sobre os homens, sobre a vida, sobre mim? Há um silêncio tão intenso que é chega a ser sólido, eu o afasto com a mão, é a cortina que protege o desconhecido vértice do desespero. Abre os olhos que reconhecem: ela deitada e morta no centro do labirinto.

Nossa Alma Biscate

#AlmaBiscate #2anosBiscateSC

O primeiro post que escrevi para este blog, praticamente o primeiro post do blog, já falava da minha alma biscate. De lá pra cá, pouco mais fiz do que repetir as ideias primeiras: liberdade, aceitação, entrega, prazer. E pus, no clube e na repetição, minha alma. É até engraçado ver minha insistência para que o clube andasse, dos seis primeiros posts do blog, quatro escrevi sozinha e um em parceria. E são, acho, dos meus preferidos. A água mole em pedra não tão dura, os convites descarados e a pareceria amorosa de outra alma biscate me permitiram encontrar, repetidas e belas, as primeiras ideias em tantos outras letras, em posts outros. O bom do club é, também isso, os encontros, a festa no peito de saber a biscatagi no mundo. Em dezembro de 2012, desnudamos nossas almas biscates. Foram lindos textos, indo de quem reconhece a ousadia como passo primeiro a quem afirma a dor e a delícia da liberdade. Ter a alma biscate, digo eu, é buscar o bom. É reconhecer erros, perdas, dores, mas insistir no que pode ser coração morno. Gostoso. Ter a alma biscate, acho eu, é saber seguir. É abrir as pernas, os poros, o peito pro que vem. É saber chorar. É se permitir gargalhar. É encontrar o amor e saber que ele não cabe nas definições. È maior. E menor, cabe certinho no quase nada de espaço que fica entre eu e o outro em um abraço. Ter a alma biscate é sair das dicotomias, é esquivar-se dos arranjos prontos, das frases feitas, das verdades absolutas. Ter a alma biscate é ficar no entre. Ter a alma biscate é saber-se no outro. Por isso, hoje, em festa e no meu post, chamo pra dizer comigo um biscate querido. Maycon, esse lindo que de vez em quando passeia no clubinho. Pode parecer, à primeira vista, um tema estranho pra quem tem a alma em festa. Mas eu insisto no convite, porque ter a alma biscate, acho eu, é ter coragens.

Por Maycon Benedito, Biscate Convidado

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Meu pai morreu. faz dez anos. pausa. respira. faz dez anos. uma década.2003. último ano do ensino médio. Morreu dia 15 de dezembro, mas é hoje que to pensando nisso. Ele tinha só 46 anos. Cinco dias antes do meu aniversário. Dez antes do Natal. Dezesseis dias antes do ano novo. E por isso não gosto nem do meu aniversário, nem de natal, nem do ano novo. Ainda que eu tenha aprendido a dar conta. Com ajuda, é claro.

Acompanhei meu pai no seu adoecimento, vi a vida diminuindo, ficando mais fraca nele. Ele chegou a ficar tão mal que eu conseguia pegá-lo no colo, levá-lo ao banheiro, seja pra tomar banho, pra mijar, etc. revezei com minha mãe , minha irmã e minha vó (materna) no hospital pra cuidar dele. Quando ele estava já muito mal não podíamos dormir direito porque de tempos em tempo ele vomitava um líquido meio escuro, que tinha um pouco de cheiro de sangue e que podia sufocá-lo. Tínhamos sempre que estar atentos. é claro que o peso maior dos cuidados ficou pra minha mãe que sempre foi muito firme e forte. virginiana. eu era um adolescente e, é claro, ainda que com o pai doente queria fazer outras coisas.

Sinto falta dele todos os dias. ás vezes mais, ás vezes menos. tem dias que andando pela rua começo a chorar. tenho que parar, sentar e chorar. ás vezes acordo chorando, ás vezes durmo chorando. não é sempre, mas acontece.

Lembro dele cantando, tocando cavaquinho, rindo, alegre. Lembro dele chorando quando brigava com a minha mãe e lembro bem de que ele dizia “buiu, não importa o que aconteceu, você tem que ficar do lado da sua mãe”. Adorava quando ele me chamava de buiu, era tão amoroso, tão alegre quando ele me olhava e falava “buiu”. E eu me sentia tão amado. Só mais velho foi descobri que buiu é um jeito carinhoso de chamar os meninos que moram na favela ou no morro. ao menos era assim antigamente.

Meu pai era do morro, criado no morro. preto. lindo. um leonino vaidoso. charmoso. engraçado. Lembro de subir o morro com ele sentado na cacunda dele. Quando a gente tava chegando perto do morro da subida do morro ele dizia “vem, buiu, vem na cacunda do pai”. E a gente subia o morro. Ele cantando, alegre, rindo. dando “oi” pra todos. E olha que ele foi motivo de chacota no morro depois que nasci. Meu pai era preto, minha mãe branco e eu como mestiço nasci mais claro que ele e ainda com os olhos claros. E é claro que o povo comentava que eu não deveria ser filho dele já que, né, um casamento interracial nem incomodava as pessoas no país dos somos racistas. Pelo o que sei meu pai nem ligou. Ele era leonino.

Lembro do meu pai triste em poucos momentos. Em geral quando brigava com a minha mãe ou quando lembrava dos pais que morreram muito cedo. antes de eu nascer. Lembro que ele sentava no sofá, colocava Altemar Dutra e chorava. De saudade. E eu ficava ali, sentado no chão da sala brincando com meus carrinhos de fricção – coisa que nem sei se existe mais hoje – acompanhando aquele momento dele. Aquela dor. Com profundo respeito. Ás vezes chegava perto, fazia um carinho nele, enxugava as lágrimas e voltava a brincar ali do lado dele. Ele nunca me disse nada, nunca me falou que era pelos pais que chorava, mas eu sabia. Foi com ele, nesses momentos,que aprendi que a música é uma grande companhia para as dores da gente e hoje faço o mesmo quando estou mal. Curo minhas dores de cotovelo – e outras dores – ouvindo música. Ele também dançava muito bem, ensinou minha irmã e eu a dançar desde pequenos. Ainda que eu não tenha aprendido a dançar tão bem como ele. Foi dançando que ele ensinou pra mim o que era amor. Lembro dele dançando com minha mãe. E achava aquilo a coisa mais linda do mundo. Ficava parado, quieto, vendo os dois dançar. E me dava uma alegria. E amar pra mim tem um pouco daquilo. Deles rodando. Ele indicando com o corpo pra onde ela deveria ir, ela indicando com o corpo pra onde ia e ambos acompanhando um ao outro e sorrindo de cumplicidade e alegria. olha, se aquilo não é amor nada mais é. Nunca mais vi minha mãe alegre daquele jeito. E entendo. Me dói, mas entendo.

Minha mãe e eu fomos juntos fazer a exumação do meu pai, mas fui eu quem foi acompanhar a retirada dos ossos do túmulo. Estavámos o coveiro e eu naquele momento. Era um senhor. Ele não me deixou chegar muito perto, daí quando ele abriu o túmulo e puxou o caixão, que estava frágil pela ação do tempo, quebrou e vi o crânio rolando e caindo no chão. Ele juntou tudo, colocou todos os ossos num saco e me deu. Antes ele me disse algo com um olhar de doçura, não lembro direito as palavras, mas era algo como “ele ajudou a trazer você pra esse mundo e agora você carrega os ossos dele. a vida é mesmo algo…”. não lembro as palavras, só o sentido. e agradeci porque foi bonito o que ele disse.

E se vocês acham que to triste, melancólico, querendo morrer , não entenderam nada. voltem ao começo do texto porque to bem vivo.

XXXXXXX

Ter a alma biscate, acho eu, é ter a beleza de saber-se bem vivo. Brindo a esse clube que me permite conhecer e amar pessoas que se sentem, se sabem, se reconhecem assim: bem vivos. Te amo, Maycon.

XXXXXXX

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O que é que vão pensar?

O que é que vão pensar se eu, gorda, for de biquíni à praia? O que é que vão pensar se eu, magra, sair com um decote? O que é que vão pensar se eu, médica, gostar de funk? O que é que vão pensar se eu sair de roupa justa, se trepar no primeiro encontro, se tiver rolos de uma noite? O que é que vão pensar se eu andar de mãos dadas com outra mulher? O que é que vão pensar se eu resolver não fazer cirurgia de redesignação genital e escolher ser uma mulher com pênis? O que é que vão pensar se eu fizer a cirurgia de redesignação genital e viver todos os estereótipos do feminino? O que é que vão pensar se eu abortar? O que é que vão pensar se eu resolver criar meu filho sozinha? O que é que vão pensar se eu resolver levar à frente a gravidez e deixar a criança ser adotada? O que é que vão pensar quando eu contar que namoro mulheres? O que é que vão pensar se eu criar meu filho com minha mulher? O que vão pensar se eu não depilar as pernas? O que é que vão pensar se eu não pintar os cabelos, não fizer as unhas, não seguir a moda? O que é que vão pensar se eu gostar de sexo, se eu tirar uma foto fazendo sexo, se eu aparecer em um vídeo de sexo? O que é que vão pensar se eu preferir me divorciar? O que é que vão pensar se eu resolver seguir carreira em TI? O que é que vão pensar se eu escolher ser modelo, atriz, dançarina no palco de programas de tv? O que é que vão pensar se eu não souber andar de salto? Se eu não usar batom? Se eu sentar de perna aberta? O que é que vão pensar se eu deixar o meu ex-marido com a guarda dos filhos? O que é que vão pensar se eu deixar o namorado da minha filha dormir aqui em casa? O que é que vão pensar se, se , se e se?

 O que é que vão dizer?

violência

-foi – não foi – foi

A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos. E ela, e nós, nos perguntamos: o que é que vão pensar? não porque somos inseguras, histéricas, submissas, whatever, mas porque é o papel que nos é imputado e que, diariamente, lutamos pra nos desvencilhar.

E é por isso que eu, biscate, todos os dias chamo pra festa. Pro riso. Pra o dar de ombros pro preconceito, pras perguntas e olhares alheios. Não porque seja fácil. Não que não cobre seu preço. Às vezes dói. Às vezes pesa. Às vezes é quase caro demais. Ser livre é, também, um ato político. E a gente vai, devagar, um corte aqui, uma gargalhada ali, uma incompreensão na esquina, um encontro prazeroso acolá. Biscateando. Biscatear é nossa forma de lutar.

Resumo Biscate e uma dica imperdível

Todo mundo com saudades do Cláudio? Por isso vamos começar o domingão biscate com ele. O Cláudio encontra uma imagem que é a cara do nosso clube, nos manda de presentinho com legenda e tudo, e a gente publica e se diverte aqui):

dica

Wild

E, no resumo da semana, uma trilogia daquelas de imprimir e distribuir pros amiguinhos. No blog Recordar, Repetir e Elaborar a Camila Pavanelli escreveu três posts pertinentes sobre a questão do ravenge porn:

O Problema Mesmo é o Machismo: ”O problema não é que ela transou. O problema não é que ela tirou foto enquanto transou. O problema não é que o ex-namorado é louco e/ou mau-caráter e ELA deveria ter arrumado homem melhor. Em suma, o problema não é que ela estava usando minissaia, como costumam dizer em caso de estupro”. (leia o post completo aqui)

Precisamos Falar Sobre Sexo: Eu acho, em suma, que um dos caminhos possíveis é falar mais sobre sexo. Com mais gosto e mais vontade. Mais biscatagem e mais zuêra. Sexo, afinal, não é uma coisa para ser levada assim tão a sério. Lembro de uma entrevista em que o baterista T. S. Monk se queixava da seriedade e da sisudez de jovens músicos preocupados em “resgatar a tradição do jazz” e coisas assim. Ele disse algo que nunca esqueci: “olha, eu vou dizer o que é um assunto sério – a guerra é um assunto sério. Quando estou tocando, eu quero é me divertir”. E é isso. É tão isso. Sexo não é para ser “encarado com responsabilidade”. Vamos deixar a responsabilidade para a hora de pagar as contas, gente. Sexo é para desfrutar, gozar, se divertir e se apaixonar. (leia o post inteiro aqui)

Precisamos Ouvir Sobre Sexo: Se nós, os velhos jovens de outrora, quisermos realmente oferecer algum apoio aos jovens de hoje em dia, a primeira atitude a tomar não é sair dizendo o que eles devem ou não devem fazer. (Especialmente em se tratando de um assunto tão delicado quanto sexo! Você gostaria se lhe dissessem “olha, eu sei que você gosta de transar na posição X, mas você está errado: a posição Y é melhor pra você”? Então por que você acha que um adolescente gostaria de ouvir você dizer que a transa dele deve ser assim ou assado?). A primeiríssima coisa a fazer é, simplesmente, ouvir. (leia o post inteiro aqui)

E no Biscate?

Por aqui tivemos, de trás pra frente: o delicioso perfil da Niara, uma descoberta alegre, uma conversinha sobre ser boa de cama, uma manifestação poética e um post arrasador sobre o que fazemos com e da vida.

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