A Esquiva ou Somos Sempre Culpadas

Essa semana assisti “A Esquiva” um filme do qual nunca tinha ouvido falar (mas isso nem é novidade, sou mesmo desinformada, desligada e vários outros “de” como devassa, mas acho esse não vem ao caso dessa vez). O certo é que vi. “A Esquiva” (L’Esquive, 2003) é um daqueles filmes com cara de baratinho que agiganta sua forma via conteúdo. Dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, tem um enredo aparentemente simples e lança um olhar sobre jovens de um bairro na periferia parisiense.

O filme me conquistou pela interpretação cativante dos atores e pelo movimento pendular entre dureza e delicadeza no tratamento dos dramas dos personagens, especialmente das meninas/mulheres. O filme está cheio de personagens femininos. São elas que conversam, que agem, que gritam. Qual não foi minha surpresa ao começar a me preparar pra escrever este post lendo (as poucas) resenhas que encontrei e vendo-as, todas, centradas no personagem masculino, Krimo, e sem nenhuma palavra sobre o que recai sobre as meninas: os julgamentos, as obrigações, os papéis sociais, as queixas, as responsabilidades pelo seu próprio desejo e pelo desejo do outro.

Elas falam, agem, gritam...e sofrem.

Elas falam, agem, gritam…e sofrem.

Mas vamos por partes, o cenário: a periferia de Paris, uma escola, os ensaios pra apresentação de uma peça.  Os personagens: adolescentes. Os pesos: as paixões em ciranda, o fato de serem minoria étnica, os padrões e reputações que “precisam” ser mantidos. Krimo é um adolescente retraído que, ao terminar um namoro, apaixona-se por uma colega de sala. Esta mesma colega é a atriz principal da peça ( ”O Jogo do Amor e do Acaso”, de Marivaux) que é ensaiada na escola. Para estar perto dela, entre outras coisas, Krimo suborna um colega para atuar como par romântico na peça.

Uma das coisas mais interessantes do filme, na minha opinião, é o confronto entre a linguagem da peça ensaiada (rebuscada, elaborada) e a linguagem dos adolescentes (direta, corrente, simples). Outra coisa interessante é a forma como se relacionam “arte” e “vida”, como a trama da peça (pessoas que se fazem passar por outras pra seduzir) se enreda com os amores e dramas juvenis. Há ainda o mote da peça que se coloca como pergunta que atravessa o filme: somos determinados pela nossa classe social, geografia e cultura? Somos presos ao de onde viemos? A linguagem é mais um personagem na trama, ela não leva ao entendimento, ela é expressiva mas não faz convergir, antes isola, separa, cinde. É o que não se pode ou não se deve dizer que aflige os jovens.

Há muito a se falar sobre o filme, especialmente como ele foge dos lugares comuns sem, no entanto, subtrair-se das questões difíceis, sem calar-se sobre o cenário político e social que opera sobre os protagonistas. O filme não vai tratar de integração dos imigrantes, de roubos e marginalização, de diferenças culturais ou religiosas, mas está tudo lá, sutilmente implicado, os pais na prisão, a impaciência da professora, a brutalidade dos policiais. O pulo do gato está em imbricar estes elementos aos mais universais – o romance, as dificuldades de passar da infância à idade adulta, as relações de amizade – e, assim, criar uma dinâmica em que se ultrapassam os estereótipos comumente usados para tratar deste cenário.

Lydia (Sara Forestier) em "A Esquiva"

Lydia (Sara Forestier)

Mas eu não escolhi falar deste filme pra tratar de nada disso. Eu escolhi falar desse filme por causa da Lydia. A primeira vez que vemos Lydia ela está negociando o vestido com que interpretará a personagem principal da peça. É tocante o seu entusiasmo, a sua persistência, a sua entrega. É a Lydia que ocupará o centro da ação dramática embora ela tenha pouco interesse em qualquer outra coisa que não seja a peça. Mas, mesmo assim, independente do seu interesse ou desejo, ela é convocada. Eu explico. Krimo se apaixona por Lydia e, a partir daí, ela é cobrada por todos os lados como se tivesse uma obrigação por ter “despertado” esse sentimento. Ela é xingada de puta e oferecida pela ex-namorada do Krimo (como se o “bom moço” só pudesse ter sido envolvido de forma passiva, como se ele tivesse que ser seduzido pra desejar) quando ainda desconhecia que o amigo agora fosse um apaixonado. Quando Krimo enfim se declara e ela pede um tempo pra decidir se quer namorar ou não é julgada pelas amigas como se uma mulher não pudesse pensar pra decidir sobre si mesma, tem que saber “na lata”, se não agir assim é porque está jogando, “fazendo doce”, etc. A sua dificuldade de saber se quer ou não ou mesmo a sua dificuldade de ceder ou negar ao seu desejo é ignorada por todos e tratada com violência e segregação.

Lydia é como uma qualquer de nós na boca de tantos: biscate se enuncia seu desejo, biscate dissimulada se não é capaz de fazê-lo. Assisti com aquele desconforto de reconhecer tanta gente e tantas situações parecidas: a mulher é culpabilizada pelo que “provoca” no outro e qualquer violência contra ela é justificada com “alguma coisa ela deve ter feito pra merecer isso”, a mulher é responsabilizada por coisas diversas que passam por usar uma minissaia e assim está “pedindo” a cantada, a passada de mão, o estupro até a justificativa por ter sido espancada ou morta por não “avisar” ao parceiro que é uma mulher trans. O filme não foge a essa cobrança em relação à mulher (fico pensando se foi intencional, torço que sim), a todo momento parece que se pergunta: porque ela não se decide logo, ora? Como se fosse um grande favor do moço tão legal se interessar por ela.

À Lydia (e às meninas, moças, mulheres, de maneira geral) não é concedido o benefício da dúvida. Não é aceitável que ela pense, que ela pare, que ela não tenha certezas. Ela é um corpo de mulher a ser dado ou negado sem reflexão, automaticamente, porque o corpo feminino é público até ser requisitado por alguém. Aí passa a ter “dono” – que não é a pessoa a quem o corpo originalmente pertence, atente-se.

“A Esquiva” é um belo filme, daqueles tão ricos e complexos que, certamente, atinge os diversos expectadores de diversas formas. Eu acho que nunca vou esquecer o tapa que uma das personagens recebe apenas porque é mulher e amiga. Vai doer aqui nessa biscate aqui um tempão.

Todo Dia

Essa semana um rapaz hackeou o computador da namorada, apoderou-se da sua (dela) conta do facebook e publicou uma conversa entre ela e um outro moço (que era professor dela) onde eles combinavam um encontro. E o que me dói é que ainda tem gente que não se assusta já no começo deste parágrafo. Para mim, a LÓGICA que me permite que o moço se sinta a vontade para vigiar a namorada e publicar as conversas dela é a mesma de quem se sente no direito de dar um tiro na ex-namorada porque ela terminou o relacionamento: “eu vou acabar com sua vida, sua vadia!” (por favor, né, eu disse LÓGICA, não estou nivelando nem as ações, nem seus efeitos) (e sim, tem toda uma discussão outra sobre relações de poder, transferências e relacionamentos, além de: pô, vinho tinto suave ninguém merece, mas o post vai se abster desses percursos).

É uma lógica sustentada na ideia de posse e exclusividade. Não importa quantas vezes você e x namoradx se sentaram de mãozinhas dadas sussurrando apelidos esquisitos e declarações de eterno amor, o corpo dx outrx não é propriedade sua. A vida dx outrx não existe para fazer você feliz. A existência da outra pessoa não deixa de ter sentido quando ela para de ter a “utilidade” que você lhe imputou.

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Pra todo dia espiar o Armandinho, aperte aqui

A ideia dx outrx como algo que existe para fazer você completx se agrava quando qualificada (quando aqui é figura de linguagem) pelas nuances machistas disseminadas na cultura. A mulher, nesse contexto, é vista “em relação a”. Em relação à família, em relação ao companheiro, em relação aos filhos. Ou, como disse a Ana Rita: Um meio para a geração da vida, um meio para a manutenção da família, um meio para o prazer do outro e JAMAIS um FIM em si própria. Nesse contexto, mulher e autonomia numa mesma frase é provocação e é um “abuso” quando qualquer uma de nós se sente senhora dos nossos desejos e nos dispomos a agir conforme os mesmos.

Essa lógica da mulher como menos gente (que chega ao ponto de ser possível tratar um estupro como presente de aniversário), como coisa, objeto, acessório, não é uma eventualidade, um desvio, um acaso. Não é porque o moço que invadiu a privacidade da namorada não é um homem de verdade…é porque há uma naturalização das relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Esta desigualdade imputa às mulheres um lugar de vulnerabilidade e cria obstáculos ao pleno exercício do direito à vida, à integridade pessoal e à liberdade.

E é com isso que lidamos, todo dia, em graus, nuances, materializações distintas. E é por isso que o post da Niara faz tanto sentido. E é por isso que é preciso estar atenta e forte. Mas acontece que tem hora que me dá uma moleza. Porque dá a dor de pensar: todo dia, todo dia, que nem cantiga de galo. Todo dia é sempre?

Eu nem gosto tanto assim do Oswaldo Montenegro mas do que gosto, gosto muito. É dele uma das minhas hemorragias: e se puder, sem medo. Foi por causa dele uma das melhores conversas que tive. E é ele canta: eu acho que será pra sempre/ mas sempre não é todo dia. É isso aí. Não é todo dia. Não é todo dia que sai um post legal. Não é todo dia que é útil. Não é todo dia que é riso. Não é todo dia que é sim. Não é todo dia que é santo. Não é todo dia que as coisas acabam. Não é todo dia que as coisas avançam. Não é todo dia que as mãos se abraçam. Não é todo dia que as pessoas acertam. Não é todo dia que tenho coragens. Não é todo dia que as certezas aguentam um ponto de interrogação. Não é todo dia.

E não será pra sempre, eu tenho este tipo de fé da Eugênia:

“Agora que penso nisto, veri­fico que há uma gran­des­sís­sima seme­lhança entre a fé e a nave­ga­ção. A nave­ga­ção por cabo­ta­gem, entre dois por­tos, mas sem­pre com os olhos na linha da costa, oferece-nos um sen­ti­mento de segu­rança na vida. Sei por onde vou, sei para onde vou. Não se pode pre­ver tudo, porém consegue-se cal­cu­lar os riscos.

No entanto, há luga­res onde só se chega atra­ves­sando o mar em noi­tes onde nem as estre­las nas­cem e todos os indí­cios se afo­ga­ram. Quero dizer: ter fé é saber que a luz se faz na maior escu­ri­dão. Que já che­gá­mos a terra firme mesmo quando à nossa volta só há mar, mar, mar.”

 

Data de Validade

Filmes, livros e as vizinhas mais xeretas vivem nos dizendo: pra sempre. Os relacionamentos são – devem ser! – permanentes. Duradouros. Sem data de validade.  Eternidade. Se não era eterno não era amor. Pra sempre. E aprendemos assim, homens e mulheres, mas para nós, mulheres, a ênfase é mais acentuada e há a mensagem, nem sempre explícita, de que somos as responsáveis pelo sucesso da relação. O mundo privado é nossa esfera de competência (seja pelo argumento da rainha do lar, seja pela falácia da essência feminina mais suave, compreensiva, etc). O que você está fazendo aí parada que não está em busca do seu “final feliz”? Leia todas as revistas, faça todas as poses, aprenda todas as posições e estratégias de sedução pra manter seu relacionamento. Porque se não foi pra sempre, olha, deu errado e lá começam os “onde foi que eu errei” e todo mundo vira meio Paula Toller procurando a fórmula do amor. Cada relacionamento que acaba parece assinar um atestado de incompetência. E a gente passa um tempão pra descobrir que relacionamentos não são para dar certo

Eu nem lembro direito quando me chegou a descoberta oswaldiana: sempre não é todo dia. O primeiro dia que a gente acorda e vai dormir sem ter um pensamento sobre o moço (ou moça) por quem estamos apaixonados e com quem estamos envolvidos pode ser um rebuliço na alma. Porque vamos sendo educadas a pensar que quando a gente quer, a gente quer com constância e mais que qualquer outra coisa. Passar um dia inteiro desejando além da pessoa passa a ser motivo de culpa, arrependimento e questões sobre o relacionamento: será que cansei delx? será que elx é mesmo o amor da minha vida? E se de lá pra cá ocorre o mesmo (esquece de ligar, chega atrasadx e coisas assim) é um deusnosacuda de sentimentos de abandono e, às vezes, despudadoradas acusações: você-não-me-ama-mais-se-pensa-mais-no-seu-(complete aqui: time, trabalho, amigo, chulé)-que-em-mim. Porque aprendemos a andar com fita métrica e balança pro bem querer. E nessa tentativa de escalonar o desejo, o afeto, as relações, a gente vai perdendo e se perdendo. E aí, quando chega uma hora em que não se consegue e/ou quer e/ou pode mais se estar junto, o que resta é o sentimento de fracasso, de vazio, a ausência de nós mesmas porque, afinal, perdemos o que nós mesmas hierarquizamos como o “mais importante”.

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Aí vem a segunda faceta do “pra sempre”, aquela que a gente cantarolou mas não acreditou na Cássia Eller: o pra sempre, sempre acaba. Não são as relações que acabam ou os vínculos (necessariamente), mas a percepção da continuidade, da repetição, do mesmo. Acaba porque um dos envolvidos morre, pra ficar no exemplo mais simples e definitivo. Acaba porque mudamos de emprego, de cidade, porque se adota um filho, porque se leu um livro que mexeu com a cabeça, porque se viu um filme que fez repensar escolhas, acaba o pra sempre porque somos outros e o outro se torna um outro além da alteridade que era. Tudo que está além do “e foram felizes para a sempre” é a materialização do final do pra sempre e é, também, o que a gente pode chamar de vida adulta.

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E nem mesmo nas entrelinhas do “pra sempre” as doutrinas da felicidade amorosa mencionam aquele relacionamento que, tal como os outros, traz em si o seu fim, mas não apenas de uma forma potencial, e sim como uma certeza. Como ter um relacionamento com data de validade se o que valida os vínculos é a ideia subjacente de permanência, de que “é esse” e que “agora sim” posso me aquietar? Como escolher sem ter certeza? Ninguém nos diz que se pode (e como) amar sem um depois de amanhã. Não tem ninguém pra contar pra gente como viver sem planos. Não digo nem a ideia da aposentadoria conjunta, cadeira de balanço e netos no colo, mas o simples e trivial: o que vamos fazer na próxima semana. Porque não há a certeza de que a semana que está próxima está próxima o bastante pra que se chegue, juntos, nela. Amar sem calendário é um desafio. É abrir mão do “pra sempre”.

Já não me importa que o você não seja o enfim. Eu não quero escrever histórias, quero fazer viagens. Quero pegar estrada tendo o desejo como roteiro. Perder-me. Quero quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero cama, pele e música. Quero seu gosto de agora. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero acordar com aquela perna pesando na minha, a barba reescrevendo vontades no meu ombro, uma voz fazendo lembrar a saudade que ainda nem comecei a sentir. E descobrir que saudade pode não ser solidão e sim encontro, o meu encontro com essa eu que ama você.

 

Insólita Sereia

Você me pergunta:
 porque passo minha vida 
escrevendo?
[...]
Escrevo só porque
Há uma voz dentro de mim
Que não cala nunca.” (S. Plath)

Não há outra opção, ele sabe. Ela tudo lhe tirou: mulher, sossego, filhos, amigos. Tudo. Ela lhe sugou a alma e fez promessas de encontro. Ele acreditou porque queria tanto saber. Respira um momento, antes. O antes. Será que ele ainda consegue lembrar-se? Porque é tão frio agora, o nada lhe fazendo companhia, que é difícil afastar a nuvem de solidão e lembrar-se dos risos na sala. Era quente o viver. Às vezes abafado, parece que ela ainda lhe sussurra, mas ele ignora. Só quer recuperar a lembrança do antes, quando havia filhos em abraços de boa noite, amigos em uísque e conversas noite adentro e, claro, a mulher. A mulher em abismos de gozo e a mulher em partilha de preocupações diárias. Havia isso: a rotina. Todos os dias, essa felicidade morna, quase um incômodo.

Até que, ela. A primeira vez que a viu, nem levou a sério o convite que parecia ser feito. Ele? Claro que não, tinha obrigações. Mas havia a rotina e a rotina fazia com que se encontrassem diariamente. Ela estava ali, exposta, propondo futuros. Um dia, ele parou pra escutar. Em nada ela lembrava uma sereia e, além disso, há muito ele esquecera a mitologia. Não podia, não queria saber que havia abismos para as almas como havia para o corpo. Desejou-a. De maneira inocente pensou apenas em registros rápidos, talvez uma lista de afazeres. Só queria tê-la, ele dizia a todos: aos filhos em abraços, os amigos em uísques, a mulher em gozos. Todos concordaram: é bom. Que pode haver de mal, ele que sempre se soube em suas obrigações? Um luxo, um mimo, um capricho que seja, deixaram-na entrar.

Ela veio exigindo espaço. E tempo. Trouxe com ela os sonhos. Promessas. E o frio. Ele lhe dava tudo, mas nada parecia o bastante. Eram as madrugadas, primeiro. Nem todas, umas poucas que se tornaram sempre. Olhos mais fundos, mais irritação, menos tempo perdido nos abismos da mulher. Mas não bastava e logo ela exigiu-lhe as noites, roubadas dos amigos e dos abraços filiais. Deu-lhe, porque sempre haveria de recuperar depois, em júbilo e reconhecimento. Ela quis mais e logo o trabalho tornou-se obstáculo. Ela era um vórtice da sua rotina. Nada permanecia. Não mais gozos, preocupações, conversas, abraços. Apenas ela e sua inesgotável fome. Fome das letras que ele batucava em repetição de histórias que se faziam lixo. Lixo, ela lhe gritava em desprezo, ignorando todas as tentativas dele de fazer sentido. Ela lhe gritava lixo e pedia tempo que ele roubava de todos, que ele roubava de si. Foi fazendo o deserto ao seu redor, entregando tudo que havia perto ao desejo de. De quê? perguntavam em angústia filhos, amigos, mulher, mas ele só imprimia seu dedo em cada letra. Fazer sentido, se ele pudesse responder, ele diria, mas ele já não podia mais nada. Foram-se os abraços, os uísques, foi-se o gozo e as miudezas cotidianas.  A rotina e seu morno seguir despediu-se, silenciosa, abanando um lenço como em um mal filme.

Ele registrou mas a máquina lhe cuspiu os dizeres. Deserto nele, deserto frio ao seu redor. O nada. Mas ele insistia na solidão do ritmo: datilografava de forma sincopada, como se o som pudesse ser o dito. Se pudesse, ele aprendeu a escrever em subjuntivos. Emagreceu. Sua solidão se fez gelo. Eram apenas: ela, ele e os ditos que nunca bastavam. Já não havia noite, nem dia, nem amigos ou abraços ou mulher ou a mais vaga lembrança de rotina. Já não havia o que ser dito, porque não havia pra quem e ele já não podia ser interlocutor do seu vazio. O desejo não o deixava, mas chegou o travo da decepção. E a amargura foi tomando materialidade feito ódio. A  culpa era dela, por fazê-lo desejá-la. A culpa era dela por ele lhe dar tanto tirando-o dos outros. Ela era culpada da insônia, da magreza, do frio. Armou-se de coragem. Respira pra recuperar em breve lampejo o antes. E atira na própria cabeça. A máquina de datilografia, intacta, ironiza: podia ter escrito um bilhete de despedida.

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Emudece, sereia!

A dor, a culpa, o samba, os relacionamentos

Sabe aquela musiquinha  gostosa: “a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o samba é meu? Faz uns dias que ando cantarolando. É minha forma de organizar o querer, eu acho.

Nem sempre é fácil ser quem queremos ser. Nem sempre é fácil agir como escolhemos, fazer concretos os valores que soubemos construir em discurso. Nem sempre é fácil olhar pro que sempre se defendeu e pensar se é aquilo mesmo e, ainda mais difícil, reconhecer que sim, é, e tentar ser coerente com o isso. Bom, pelo menos pra mim, nem sempre é fácil (e nem pra Kátia, não é? ema, ema, ema, cada um com seu pobrema).

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Ser quem se quer ser dá uma canseira.
Não foi fácil pra nenhum deles. Você sabe porquê?

Por exemplo, saber que a dor é minha. Só minha. Ela pode ser acolhida por quem me ama. Pode ser entendida. Mas continua sendo uma coisa com a qual eu tenho que lidar. No meu caso isso consiste em aceitá-la, nomeá-la, senti-la, enternecer-me com ela e, por fim, quando der, guardá-la no álbum de retratos que teimo em colecionar.

 Nesse ritmo, sabendo que a dor é minha, aceitar que o samba sou eu que faço. Ou calo. O que eu faço com a minha dor é responsabilidade minha. Saber que posso fazer belezas é confortador. O que fazemos com o que sentimos é, penso eu, tão ou mais relevante do que o que sentimos em si. Não se trata de renegar sentimentos ou ser mais racional que emocional. Trata-se, no meu caso, no meu caso, repito, de fazer o que me aproxima do que acredito. E eu acredito no bom. Eu acredito no gostoso. Eu acredito em viver o que há pra ser vivido e gozar do que há pra ser gozado. Eu acredito em escolher o riso. Porque no fim do dia, no fim das contas, no fim dos tempos, o que vale, pra mim, é a memória do alegre.

 E é aqui que desafino, que saio do tom da canção. Porque não acho que haja culpa do outro, a não ser, claro, nos casos de violência física ou psicológica. Mas praqueles impasses cotidianos, pros ciúmes, pras solidões, pros abandonos, pros términos, pros esquecimentos, pros atrasos… eu não credito ao outro nenhuma responsabilidade sobre o meu sentir, a não ser, talvez, existir. Ele existe na minha vida. Existe pra mim e me provoca o sentir (o que quer que seja o sentir: desejo, raiva, afeto…). Mas o que ele faz ou deixa de fazer não é o que (me) dói. É como eu sinto, vivencio o que ele fez ou deixou de fazer que importa. É isso que dói: o sentido que eu dou pro que acontece. E essa parte é minha responsabilidade. Vem da minha história, da cultura em que estou inserida, dos meus sonhos, dos meus desejos, das minhas vontades. Como eu sinto, porque eu sinto, o que eu faço com o que sinto, tudo isso é a parte que me cabe nesse latifúndio. É a partir daí que decido, faço escolhas, ajo. Sou, assim, nesse processo, responsável pelo meu desejo.

Nem sempre é fácil. Dá mesmo vontade de sacudir um monte no colo do outro. Dá mesmo vontade de cobrar. Ou de pedir. Nem sempre é fácil ser quem eu quero ser. Nem sempre é fácil confirmar, em atos, o dito. Nem sempre é fácil segurar as pontas. Mas é preciso. E no fim do dia, no fim das contas, no fim dos tempos, eu olho e sinto: alegria.

Direitos

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Meio bisca, essa com os peitos à mostra, né

Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Primeiro artigo dos direitos humanos universais. Direitos que são, repetida e constantemente, negados às mulheres, especialmente àquelas, vocês sabem quais: vadias, piranhas, periguetes, biscates.

Negam-nos o corpo livre. Não podemos vestir esse corpo como queremos, “também, andando seminua por aí, só podia mesmo era ser estuprada. Não somos livres para levar este corpo por onde queremos, na hora que queremos, “tá vendo que mulher direita não anda sozinha em bar, não fica na rua de madrugada. Não somos livres para gozar do que o corpo nos permite sentir “eu vi logo que não era mulher pra casar, deu no primeiro encontro e, olha, mó comportamento de piranha, goza fácil”. Não somos livres para conhecer o nosso corpo, tocar, cuidar, “menina, fecha essas pernas, quem senta de perna aberta não se dá valor. Não somos livres para dizer, “não liga não, sabe como são essas mulheres, essa aí deve estar de TPM”. Não somos livres pra criticar, “essas mulheres, é só colocar uma idéia feminista na cabeça que ficam vendo pelo em ovo, não entendem que é só uma piada. Não somos livres e ainda tem sempre um engraçadinho pra perguntar se tem alguém apontando alguma arma pra gente e nos impedindo de fazer o que quer que seja. E nem pensa que a resposta está evidente: a arma é ele e seu preconceito.

Não somos iguais, também. Há uma hierarquia entre homens e mulheres. E outra entre mulheres direitas e mulheres tortas(?) erradas(?). As outras. Sem falar na hierarquia entre mulheres cis (sejam direitas ou não) e mulheres trans. Não somos tratadas de maneira igualitária. Se uma mulher cis reclama de qualquer coisa em relação a uma mulher trans, como esta última usar o banheiro feminino ou querer andar no vagão reservado pra mulheres, a mulher cis é ouvida com atenção e a mulher trans, negada. Se uma moça direita tem seu namorado “roubado”, a outra, biscate por suposto, é marginalizada, ofendida, rotulada. Se essa mesma moça direita reclamar que um homem lhe assediou, por exemplo, ela é posta em questão, inquirida, paira dúvida sobre sua denúncia, porque, claro, todo mundo sabe, mulher é tudo histérica e o moço sempre foi tão gente boa.

 E onde a liberdade é negada e o discurso da igualdade é um disfarce para a manutenção de relações assimétricas, a fraternidade se torna simulacro e jogo de interesse. Somos solidárixs aos que nos são semelhantes e usamos e abusamos do narcisismo das pequenas diferenças. Fechamos os olhos pras dores alheias e milhões de mulheres (cis e trans) sofrem abusos, estupros, discriminação nos empregos, sobrecarregam-se em duplas jornadas de trabalho, recriminam-se por não serem boas… mães, esposas, chefes, empregadas. Por não serem o bastante. Por não serem, talvez, homens.

Eu tenho pensado um bocado nesse lance dos direitos porque, acho, tem rolado um deslocamento que me chama a atenção. Vou logo adiantando que falo de um lugar específico, então quando eu disser “as pessoas”, estou falando das pessoas com quem convivo, pessoal ou virtualmente, geralmente brasileirxs, classe média, razoavelmente letrados e tal e tal. Voltando ao deslocamento. Noto que os direitos à liberdade, igualdade e fraternidade (com seu efeito consequente de respeitar a liberdade do outro, trata-los de forma igualitária e fraterna) tem sido menos frequentes nos discursos e demandas e substituídos por uma repetida afirmação do direito à felicidade – e consequentes queixas de não estarem sendo felizes todo tempo.

Claro que cada um tem seu sentido pra felicidade e seu barômetro interno pra indicar: feliz, oba. Mas, de maneira geral, e no dicionário, essa materialidade do que se consensua na língua, felicidade, diz nosso amigo Aurélio, é o estado de perfeita satisfação.

Eu não acho que a gente tem direito a ser feliz. Veja bem, meu bem, não estou dizendo que não é pra gente se sentir feliz. Mas um direito tem, como característica essencial, a permanência. Temos direito a ser livres, fraternos e iguais, independente de raça, credo, gênero, etc. Que isso não seja respeitado, é o ponto a ser combatido. Mas os direitos não tem condicional a priori. A felicidade não goza, acho eu, da mesma natureza. Ser feliz é um estar, não um ser. O estado de perfeita satisfação tem condições que se materializam, geralmente, na figura do Outro. Como possibilidade e limite da felicidade. Então, eu não acho que a gente tem o direito de ser feliz como um dado, como escuto as pessoas (aquelas, as minhas) dizendo – ou escrevendo*.

E eu não encontro essa demanda nas pessoas (as minhas pessoas, again) mais velhas. Encontro a vontade de ser feliz. O desejo. A gana. O esforço, a tentativa para. Mas não como um dado. Não como algo garantido. A ideia de que temos o direito à felicidade parece, pra mim, pressupor que o mundo deve ser como queremos, quando queremos. E ele não é. Porque a diversidade existe. Porque o Outro existe.

Querer ser feliz permite, inclui e implica o tempo de não-ser. Não só o tempo da infelicidade, mas o tempo das miudezas, da rotina. O tempo de viver nem alegre, nem triste, poeta – talvez. Querer ser feliz implica na peleja para ser. Implica o sujeito no processo.

A ideia de que se deve ser feliz, sempre, todo tempo, leva o “não feliz” a um estado de suposta exceção, o “não feliz” como algo a ser abolido, silenciado, extinto. E fico imaginando o tanto de insatisfação que esse tipo de expectativa gera. Porque o não-feliz é a vida. Precisar, sentir falta, ansiar é o que nos torna humanos. Criamos a linguagem para dizer o que não temos. Os intervalos entre infeliz-nãofeliz-feliz é que (parece-me) permitem re-conhecer a felicidade.

Eu sempre quis muito. Eu e o Caetano. Ou o Caetano e eu, já que a música é de 1978 e nesse ano eu só queria dormir muito, correr muito, comer muito e muito abraço. Mas muito não é tudo. E não é sempre. Tem uma velha expressão: cuidado com o que deseja, você pode conseguir. Felicidade é plenitude, não sentir falta de nada. Ser absoluta e constantemente sem nenhuma vontade, nenhum desejo, nenhuma falta só é possível em uma situação. A ausência de toda necessidade só se coloca na morte. Por isso, enquanto estou por aqui, vou cantando com ele: muito é muito pouco.

* Um pequeno PS: a demanda da felicidade instantânea e imediata tem, acho eu, uma relação intrínseca com a lógica atual de consumo, onde a promessa é de que é possível ser completo basta comprar isso, vestir aquilo e/ou usar/comer/beber aquilo outro. E a espiral do consumo se apóia na lógica do desejo (que a próxima coisa vai ser a que me completude e plena satisfação, ou seja, me deixará feliz) ao mesmo tempo que nega o sujeito desejante na sua particularidade (já que qualquer pessoa vai ser feliz comprando aquele objeto anunciado). Mas isso vai ficar pra outra conversa.

Uni Duni Tê

De um jeito…

Eu não costumo. Não mesmo. A não ser. Porque tem vezes. As mesmas. Outra eu. De peruca ruiva, acho. Aceito. Permito. Isso: olhar. Pra trás. Pra frente. Pro nada. Era uma vez. Saber contar as histórias que não foram. Uma, duas, tantas lucianas que não existem, não existirão nunca porque eu não fui, eu não fiz, eu não dei. Ou porque sim: fui, fiz, dei, vi e venci. Não há controle, eu sei, mas esqueci. Prefiro o bem viver a um plano realizado. Prefiro. Prefiro? No só depois, eu lembro. Quando o que não sabia que seria fica com gosto de picolé. Sabor festa. Mas sempre não é todo dia, a canção toca baixinho. Bem que podia dar certo. Cruzo os dedos, sempre é melhor que roer a unha. Eu tinha uma figa. De madeira. Não lembro como veio nem onde perdi. O rumo. O prumo. O equilíbrio. Perdas e Danos, eu recito: as pessoas feridas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver. As frases de efeito preferidas não precisam fazer muito sentido, basta que façam arder. Procuro abismos. Uma meta: preencher os vazios com o corpo. Se eu soubesse voar. Se eu fosse um peixinho. Se essa rua fosse minha. Se meu fusca falasse. Preciso de uma mala menor. De saltos mais altos. E meias de seda. Uma vontade. Um intervalo. Me resta Vinícius, a moldura de uma cama e um mau português. Quem sabe amanhã? Respiração boca a boca. Pelo menos. Eu, uma pessoa melhor. Ou isso: uma. Quando eu nasci não tinha anjo nenhum, só um motorista de buggy e as dunas. Vai ser com emoção, ele disse. Apertem os cintos, o piloto sumiu.

E de outro…

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Escrevi, nesse mesmo clube, que as melhores escolhas não existem. Só existem as escolhas que fizemos. Que estamos fazendo. Essa. Agora. O que eu não disse (acho) é que escolhemos sempre, todo dia, o dia todo. Mesmo as pessoas péssimas em escolher – como eu – estão decidindo na sua aparente incapacidade de decidir. Nesses momentos, estamos escolhendo não escolher.

Escolher é difícil. Significa abdicar não só do que imediatamente se abandona, mas abrir mão de todas as consequências de se ter feito esta opção. Uma escolha é abandonar possibilidades. Mas é, também e principalmente, encantar-se por uma possibilidade e torná-la real. Amar é exacerbar o desafio. O amor é uma escolha, menos de pessoa que de relacionamento, acho eu. É preciso escolher além do ir ou ficar. Escolher o como fazer estas coisas é o (meu) nó da questão.

E o como não tem receita, modelo ou prescrição. O como é a medida da individualidade. Quando somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas damos um passo a mais na direção de sermos capazes de reconhecer e respeitar a alteridade, de reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas e, assim, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias.

Essa é uma escolha e um compromisso meu: tentar não julgar. Não julgar escolhas, modelos, opções, rotas, caminhos. Não julgar as mulheres por serem biscate, esposa, monogâmica, poliamor, fútil, militante, perua, periguete…não julgar, não comparar, não hierarquizar. Viver, gozar, sorrir já tá bom demais pra mim. Ir aprendendo devagarzinho que há tantos tipos de pessoas quantas pessoas existem. E que Biscate é o rótulo provisório pra dizer: somos muitas. Eu sou muitas.

Das Escolhas.

Então, hoje, eu escolho me reinventar. Hoje eu escolho tentar. Hoje eu escolho me permitir. Hoje eu escolho pequenas travessuras: segurar uma mão, usar meias grandes demais, comemorar o Dia de São Valentim. Hoje eu escolho não fechar a porta. Escolho aceitar sua proposta. Depois a gente decide o como.

 

Morreste-me*

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

(Vinícius de Moraes)

Viver é morrer um dia por vez. Nem lembro direito quando comecei a pensar assim, irresponsavelmente diria: sempre. Foi até antes de sentir que envelhecer me era precioso (sobre envelhecer, leia aqui ou aqui ou aqui). Saber a morte, a minha morte, reconhecê-la e aceita-la, deu-me liberdade em tantos e diversos níveis que listar seria perigoso e reducionista. De forma simples, seria um pouco a história dos lírios no campo, mas sem um deus que viesse fazer as vezes da natureza. Só eu e um compromisso com o fazer o melhor de mim.

Saber a minha morte e tê-la próxima, porém, não me prepara nem protege da morte do outro. O amor nos torna vulneráveis. Não, escreverei em primeira pessoa: o amor me torna vulnerável. Ser vulnerável é estar exposta, sensível, aberta ao que vem do outro. Dá medo, às vezes. E ampliam-se as alegrias, os prazeres, a coragem de experimentar, de sentir.

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Mas nem sempre é sobre mim. Não é apenas a minha morte ou as minhas perdas. É também sobre quem amo e que envelhecem, sentem o morrer mais perto, convivem com pessoas que estão envelhecendo e lidam com a morte de pessoas que amaram. Ficam vulneráveis. E nos deixam, ou melhor, me deixam assim: frágil e impotente. Porque há pouco mais que se possa fazer que tentar amenizar o que lateja.

Por amor aceitaríamos repartir as perdas que são do outro. Mas o outro sofre, apesar do nosso amor, da nossa presença, do nosso querer que ele não sofra.

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Eu acho que se deve sofrer mesmo. Poder enlutar, perder aquele que se amou de todas as formas e em todos os tipos de lamentação até que se fique: memória. Adormecer a dor é fazer de conta que nãos somos em tanto sentir. A exigência de felicidade constante se assemelha e subsidia, assustadoramente, a exigência de juventude eterna.

Entre tantos motivos, sofre-se porque quem morreu levou-nos junto. Levou tudo que se viveu em comum e, ainda, levou consigo a possibilidade de viver um a mais. A morte é tudo que não mais será. A morte é o nunca mais. Nunca mais serei uma menina brincando de cabra-cega, quando a amiga de infância morre. Nunca mais serei a moça ansiosa no primeiro dia de trabalho quando o colega de escritório morre. Nunca mais serei a surpresa mulher que goza pela primeira vez quando aquele namorado querido morre. Nunca mais porque, embora ainda seja todas essas e todas as outras que fui me fazendo ser, é no Outro que me encontro. O olhar do Outro, a lembrança do Outro, aquela pergunta no meio da conversa: “você lembra?” – essas coisas dão materialidade ao passado, dão substância e sabor à memória.

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Nunca mais dói. Isso se acentua quando envelhecemos. Primeiro porque, de maneira geral, há muito mais morte por perto. E todas elas trazem a nossa própria morte mais para o centro do palco. Aquela, que sempre soubemos estar ali, certa e à espera, deixa de ser uma possibilidade remota e se torna uma companhia constante.

Eu escuto a música do Adoniran Barbosa “Já fui uma brasa” (que eu adoro – aqui com Casuarina e Frejat) e fico pensando que se já era dolorido pra ele escrever “eu também um dia fui uma brasa e acendi muita lenha no fogão” como deve ser solitário alguém que o escutava perceber, dia a dia, como vão rareando as pessoas que entendem – porque viveram – a piada implícita na “brasa”.

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 A morte dos outros é um pouco isso: uma perda de referência, de ligação com memórias e situações que foram partilhadas. O olhar do outro, que nos limita e indica, faz falta. Perdemos um pouco a âncora, nos perdemos um tanto quando a morte de alguém nos atravessa. As pessoas são os vínculos com nós mesmos, com quem fomos, com o mundo que construímos. A palavra que me vem é desamparo.

Uma das formas que se encontra pra lidar com o desamparo é se recontando. Falar, elaborar, rememorar é uma forma de reconstruir o laço com esse “nós mesmos” que os que morrem parecem levar com eles. E é pra isso que estou pros que amo: pra escutar. Se não posso sofrer por eles, posso estar presente, próxima, atenta. Posso tentar entender uma outra vida dessa pessoa que não é a vida que eu a vejo viver. Posso aceitar que ela é mais do que quem ela é pra mim.

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E posso aceitar quando a dor é minha e em mim doeu, assim: escrevendo. Letra a letra sabendo mais a dor, o desamparo, a morte. Letra a letra me sabendo. Aceitando. E vivendo que viver é morrer um dia de cada vez. Façamos canções entre soluços. Façamos poesia. Contemos histórias. E, principalmente, biscatemos (biscateemos?).

A biscatagi nos dá coragem. Nos dá força. Mostra belezas insuspeitas. Alegrias inesperadas. A biscatagi sabe o riso no soluço de gozo. Não por acaso o orgasmo é a petit mort. Ser biscate nos permite, todo dia, a cada dia, aceitar a responsabilidade sobre o que fazer da nossa vida, do nosso corpo, do nosso desejo. E o que fazer da nossa dor.

Eu tenho meu arco-íris em uma caixinha. Quando sinto que não conseguirei mais um passo, mais um dia, mais uma perda, vou ali espiar o sorriso, a bicicleta e a promessa do sol (aperte no velhinho sorridente e venha comigo nesse passeio).

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Eu queria um montão de abraços. Um milhão de amigos. Uma passagem aérea. Um intervalo. Um lenço pra alma. Eu queria encontrar as palavras. As pessoas. O rumo. Eu queria apagar o fogo. Acordar no antes. Eu queria acertar as coisas. O passo. Eu queria mudar o tempo verbal. Presente. Eu quero. Outra vez. Mais uma vez. E não. Oco. Tão longe – você disse. Eu pensei: eu te amo. Pra sempre – você não disse. Mas eu sei: ausência. E aquele beijo, que será sempre sabor na lembrança. Dói. Aprender a dizer nunca mais. Aprender a sentir saudade. Aprender a não ser só a sua morte. Eu queria um montão de abraços. Mentira. Queria só mais um. Nunca mais. Morreste-me.

*Morreste-me roubei de um tocante post do Pedro Norton que, por sua vez, roubou do José Luis Peixoto.

Ser Biscate? Aprendi na Igreja

#AlmaBiscate
Por Luciana Nepomuceno

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Ela trepa. Ou não. Só se quiser, com quem quiser, mas não sempre que quer, infelizmente. Essa biscate se debruça na janela, vê a vida passando e faz fiu-fiu pra ela, enxerida e animada. Essa biscate canta alto, lavando a louça, e baixinho, lavando a alma. Porque uma biscate faz essas coisas de quem vive: limpa a casa, cozinha e, vez ou outra, sente o oco no peito e lembra de chorar. Essa biscate troca o dia pela noite, manda mensagem de Natal atrasada e bebe sozinha que os amigos ficaram do outro lado do mar. Essa biscate toma dois banhos por dia e ri de si mesma, tremendo de frio na frente do espelho borrado de vapor. Uma biscate esquece futuros e vive as alegrias que se apresentam. Viaja muito, essa biscate e deixa o olhar se perder na estrada como se fosse em encontros. Dorme de conchinha, vez ou outra, mas não se importa de ficar sozinha. Se sabe ótima companhia e descobre a nova cidade, rindo alto nas esquinas e pedindo cerveja nas pequenas vendinhas escondidas nas ladeiras. Essa biscate paquera no metrô, só pra não esquecer como é. Essa biscate soletra saudade e escreve emails doloridos pro filho. Outros dias não liga pra casa nem pra dar bom dia. Essa biscate passa a noite acordada, consolando a amiga, mas trocou o telefone pelo skype. Essa biscate diz sim. E não. Diz quando, encolhida na cama. Biscate tem cerveja na geladeira e se dedica a aprender outros sabores tão longe dos seus. Tem camisinhas na gaveta ao lado da cama. E livros empilhados no travesseiro. Essa biscate gosta de massagem no pé, banho de mar e mordidinhas ao pé do ouvido. Essa biscate curte palavras de ordem, movimento na rua e de uma série de revoluções por minuto. Essa biscate se preocupa. E se esquece. Dança na rua. Pula de um pé só. Compra guarda-chuva lilás. Essa biscate paga suas contas, paga mico, pede passagem. Samba sozinha, na rua e na lua. Essa biscate é em fragmentos e se faz na beleza de se saber senhora desses pedacinhos todos que, juntos, soletra assim: eu.

Esse texto aí em cima foi inspirado no primeiro post que escrevi aqui pro Biscate. Um e outro dizem da minha alma biscate. Como, aliás, cada um dos que postei por aqui. Entre mulher incrível e biscate, não tive dúvida: biscate. Eu sou biscate. Eu sou o Biscate (e o Biscate é cada um de nós, cada escrevente, cada leitor, cada um que divulga…). Dizer como cheguei a isso é tarefa que não dou conta, se soubesse psicologia e sociologia estavam resolvidas. Sei que me vi em cada post de #AlmaBiscate aqui deslindada. Relutei muito em escrever o restinho que não apareceu ainda. Porque eu sei que é bem esquisito dizer que grande parte da minha biscatagem eu aprendi na Igreja. Aquela mesma, Católica Romana, com um pezinho no ziriguindum cearense.

Uma das coisas que lembro, preparação da 1ª Eucaristia e a Ir. Eneida dizendo: quando Deus quis que Maria ficasse grávida de um filho dele não perguntou pra o pai da Maria nem pro irmão nem pro noivo de Maria. Perguntou pra ela e foi ela quem disse sim… e houve grande regozijo. Aprendi: é a mulher que sabe do seu corpo, da sua vontade e dizer sim é bem gostosinho.

Lembro das aulas de interpretação de texto com as histórias de Rute, Ester e Judite. Foi lá que aprendi: não se deve temer a sexualidade. Nem seu uso nem seu usufruto. Outra coisa, essencial pra minha biscatagem: cada pessoa é única, insubstituível, importante na sua particularidade. Como  diria o Gonzaga: essa égua eu não vendo, não troco, nem dou.

Lembro dos meus pais participando do Encontro de Casais com Cristo, lembro da casa invadida por pessoas em festa, luzes apagadas, todo mundo cantando, o casal valsando e o clima de recordação, promessa e sexo quase palpável no “beija, beija, beija” do final. Aprendi: intimidade é essa beleza.

Lembro do meu padre querido dizendo que depois do primeiro milagre Jesus não podia ver um balde dágua…e se não foi ali que aprendi a rir, foi um dos espaços em que entendi que rir de si mesmo é uma libertação. Foi com a Teologia da Libertação que aprendi o que era uma vaga intuição: o conceito de classe. E que a corda sempre rompe do lado do mais pobre. E, mais ainda, da mulher mais pobre. Foi lá que aprendi que luta rima com prazer. E com corpo que dança.

Lembro das Romarias da Terra, mulheres fortes e sensuais puxando a fila. Lembro dos Encontros de Jovens, todo mundo dormindo nos mesmos quartos, sem diferença de gênero. Lembro de namorar todos os moços do mesmo grupo de jovens e nunca ser apontada, julgada, rotulada.

Nunca fui religiosa, nunca tive aquela centelha, nunca tive fé, a não ser na vida, no homem, no que virá. Hoje, ainda menos, não digo atéia porque nem nisso acredito. Mas lembro. Lembro das palavras que foram ganhando sentido feito desfiar um rosário: liberdade, respeito, diferença, tolerância, gozo. Foi na Igreja que aprendi: o corpo pode, o corpo quer, o corpo é. O meu. O do outro. O da outra. Depois veio Monsieur Freud e outros aprendizados mais, mas isso fica pra uma outra conversa. Bem biscate.

Pode Me Chamar de Gisberta

Instrumento

Aprendi: as pessoas podem me ferir. Por maldade. Por falta de imaginação. Por pensarem demais. Por planejarem pouco. Porque estou aqui, e sinto, uma pessoa pode me ferir. Por acaso. Sem querer. A gente esbarra em uma palavra de ponta mais aguda. E sangra. Eu aprendi. E pensei em me proteger. Camadas de silêncio, quem sabe? Mas preferi as cicatrizes. Escolhi os arranhões. A letra, afiada, desenhando, na pele, os desencontros.

 De Dentro Pra Fora

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Quem é você, ia perguntar, mas me perdi estranhando o familiar: ela me sorria com olhos tristes que eram os meus – se eu tivesse me lembrado de sofrer – e inclinava a cabeça em um ângulo que meu corpo desconhecia, mas era quase possível adivinhar que faria exatamente assim se tivesse caído no despenhadeiro errado. Ela tinha faltas, em lacunas eu a sabia quase toda, menos no que nos encontrávamos. Fazíamos tantas esquinas que um caleidoscópio de múltiplas cores era comparação presente. Nunca vinha quando eu a chamava, menos por birra e mais por desconhecermos a língua uma da outra. Faço-lhe cafuné, afago as mãos e ela perde os olhos no infinito. Desacostumou-se ao carinho ou também esta é uma linguagem que lemos em dicionários distintos. Procuro ensinar-lhe a letra A, como dizer da alegria sem isso? mas ela desenha cavernas e poços sem luz e eu temo o escuro de mim mesma e não a sigo em escavações. Faço meus próprios rabiscos, com crayons cor de cobre e ela os preenche com sangue. Eu fecho os olhos, ela os traz abertos e cegos. Eu sei azuis, pássaros e o doce. Ela cozinha em amargos, espana teias de aranha das velhas notícias e tece mortalhas. Eu coleciono fotografias amareladas e sonho futuros. Ela faz fogueiras e geme o hoje que não consegue parir. Ela espalma a mão no vidro embaçado da janela e não escuta os risos na rua. Eu deito na grama e bebo o sol. Andamos no mesmo passo e é um espelho triste, porque seus braços pendem enquanto rodopio com os meus bem abertos. Percorro suas olheiras com as mãos e sinto a carícia. O vento forte faz lágrima no seu olho e eu, que desaprendi a chorar, bebo sal. Choro uma saudade morna de tê-la sempre presente e ela morre – só pra me agradar.

De Fora Pra Dentro

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Porque ela acreditou, bordou camisola, bateu colcha, abriu janelas. Acendeu a lenha no fogão, fez fogueira no terreiro, deixou a pele em brasa. Porque ela acreditou, criou trilhas, espalhou mensagens em garrafas, deixou feijões e sonhos como guias. Porque ela acreditou houve meninice nos olhos e antiguidade nos gestos, ansiosa expectativa, jogos e risos. Porque ela acreditou fez o dia correr pra noite e o sol se vestir de suave negro pra espiar o que ela soletrava como felicidade. Porque ela acreditou a ninguém culpou quando o nada se fez e foi fel que ela bebeu em grandes goles. Aceitou as sombras, aceitou a dor, aceitou a cama fria. Porque ela acreditou arrancou o coração com as mãos nuas, chorou o sal sem soluços e deixou-se morrer sem suspiros.

Gisberta foi assassinada. Em Portugal, dizem os registros. Em 2006, assinalam os documentos. Digo eu que estão errados registros e documentos: Gisberta é assassinada toda hora e por todo o lado. Lá e aqui. Assassinada. Porque era diferente. Por isso: ser. Assassinada por um grupo de adolescentes entre 12 e 16 anos. Assassinada por mim e por você e por toda uma sociedade que vira o rosto e acha feio o que não é espelho. Assassinada para não nos lembrar a diversidade. Para que possamos fazer de conta que não queremos mais, que não podemos mais, que não somos mais. E por incomodar assim, não foi suficiente negar-lhe a vida. Foi preciso a tortura. Uma vida violentada e maltratada por dois dias inteiros antes de ser extinta. Não há palavras pra descrever o horror que é uma sociedade que forma e autoriza jovens, quase crianças, a negarem a alguém a dignidade e o respeito de ser um Outro. Não choramos o bastante. Não protestamos o bastante. Não nos indignamos o bastante. Não lamentamos o bastante. E, especialmente, não estamos, eu, você, agora, fazendo o bastante. Não porque o que é feito seja pouco. Mas porque não tem sido o sufiente. Há Gisbertas morrendo. 

É Divertido, Gente!

A vida é curtição, dizemos lá em casa. Poder dizê-lo é poder viver. Aprendi cedo que o riso me faz bem. Para além, que o riso me faz mais eu, mais próxima da eu que anseio, todo dia, ser um pouco mais. A vida é curtição e posso tomar banho de chuva na frente de casa. A vida é curtição e posso dançar na rua, usar chapéu, gargalhar alto, viver sem fazer poupança, beber cerveja antes das nove da manhã. A vida é curtição, declaro os amores sem medo de ter corações partidos. A vida é curtição, recebo as pessoas na casa, na vida, na alma, entendendo que amizade é festa de encontros. A vida é curtição, cada dia por ele mesmo. A vida é curtição, os pequenos prazeres. A vida é curtição, o ridículo escuta e se esquece de ser. Não ter medo a não ser do que pode me fazer mal (um leão, um prego enferrujado, o Silas Malafaia)… o ridículo não pode me fazer mal. E poder dar risada de mim mesma quando passar do meu próprio limite.

A vida é curtição. O sexo é curtição. É claro que há horas de devastação. Há sexo selvagem. Há sexo sereno. Há aquele sexo onde se mergulha um no olho do outro e mal se respira e o que os corpos fazem é só metáfora do gozo além. Há o sexo solene, quase ritual. Mas, para o dia a dia, para o passe o sal, para a rotina, pouca coisa é tão curtição como uma boa risada na cama. Cumplicidade. Rir de mim mesma, rir do outro, rir com o outro. Aceitar o bom, eu digo. Curtição.

Estou escrevendo isso e lembrando do Rhett Butler na metafórica linguagem cinematográfica dos anos 30: você já pensou em casar só pela diversão? E a minha querida Scarlett (meu alter ego), ainda desconhecendo o bom da festa: diversão é só para homens! Eu queria poder segurar a mão dela e dizer: nopes, baby, a diversão do sexo, no sexo, pelo sexo, é riso pra todos.

A curtição pode estar no que a gente conhece bem. Ou no absurdamente inusitado. Estava eu pensando em sexo, inusitado, diversão, riso, biscatagem e, zás, o inesperado, o riso, a cur-ti-ção. Não podia deixar de partilhar as imagens a seguir no nosso clube:

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Moça, se toque…

Fazendo Uma Boquinha

Quer Uma Mãozinha?

Dá Um Beijinho Que Passa…

Um Dedo de Prosa

E a vida é ainda mais divertida com trilha sonora, não concordam?

PS. As divertidas e instrutivas imagens são do artista Wim Delvoye e você pode conferir mais do provocante e variado trabalho dele aqui.

Do Desejo

De pé, defronta-se com o espelho como se este fosse um enigma. Os olhos vasculham a extensão deste território outrora desconhecido: seu corpo. Procura marcas, sinais. Seu corpo, ela reconhece, é um território em convulsão. É-lhe estranho que nada se note, ainda ontem era, assim, uma pessoa, dentro e fora. Complexa e unicamente: ela. E, agora, embora não se encontre signo desta devastação sentimental, é uma pessoa ainda, mas, em reconhecido prazer, ela sabe, já é uma mulher. Dentro, já sente o veneno do gozar agindo no sangue. Virão mudanças no andar, no sorriso, o corpo todo se fazendo desfrutável, ela antecipa, em tremores, o deleite de não poder esconder: conhece o prazer. Mas, agora, madrugada partindo, nada há que indique o gozo morno que ela prende entre as coxas.

Vasculha na imagem tranquila um indício qualquer do desvario a que sucumbiu. Talvez os olhos estejam mais velados. Talvez. Talvez seja apenas a pouca claridade da manhã que não chegou inteira. O corpo é o mesmo, como são os mesmos seus sinais no mundo, mesmo cheiro, mesmo sorriso, o mesmo corpo no mundo. E, mesma, ela já se conhece outra. Alguém que teve o mundo entre as pernas.

Ela nunca soube que podia ser assim, como o mar e seus segredos, tempestade e calmaria. Fartura e beleza. Ainda ontem ela dançava com um corpo que por tantos anos fora seu. Carregava-o para lá e para cá sem compreender direito seus poderes. O corpo pode. Ele sente. Ele vibra. O corpo agora, já sabe, reconhece, é preciso saber fazer tudo isto com o corpo: senti-lo vibrar. Era noite e a mulher não sabia que perderia o corpo. Ou melhor, era noite e a mulher não sabia que se perderia no corpo. Também o homem não sabia, mas seus corpos sabiam e atraíram mulher e homem e eles se souberam. Se souberam em mãos e saliva, tato e paladar, sentindo o agridoce da vida. Sentir o gosto. Sentir o cheiro. Sentir o som, alto e baixo, um mundo se faz num discurso que é um gemido.

Há luz no quarto porque o olho do outro é a delícia de conhecer-se na revelação do desfalecer alheio. O que os corpos sabiam, fizeram, ainda que mulher e homem se constrangessem um pouco. O que os corpos queriam, faltou, posto que queriam começar sempre e não parar nunca de se fazer gozo. Mas a mulher e o homem souberam que o que faltou aos corpos tem nome e a este hiato de insatisfação chamaram amor e se chamaram por toda a noite falando de toda a vida.

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