Sobre Borboletas nos Olhos

De maneira geral eu pegaria geral.

Profana

Sempre ficava de butuca ligada quando ouvia falar sobre o tal sagrado feminino. Eu sei que tem gente que se liga nessa parada, mas sempre me pareceu mais do mesmo. Um convite a louvar e glorificar o que é “naturalmente” da mulher: a reprodução da força de trabalho. Essencialista (e, por tabela, transfóbico e homofóbico) e individualista (o “empoderamento” é pessoal e não relacionado a classes, raça ou outra variável construída sócio-historicamente). Conservador. Bom, né, alguém poderia argumentar que toda ação para “fazer” mulheres mais fortes, conscientes de si e se valorizando seria, nem que seja por isso, positivo. Aí eu digo duas palavrinhas só, só, só: Sagrado Masculino. Rá. A reboque: essência sexual, energias primais, ser primitivo e relação bondosa e consciente com as mulheres sagradas – achei paternalista, mas, né, quem sou eu no jogo do bicho – enfim e resumidamente: o homem potente, a mulher receptáculo-fértil. Achou familiar? (eu sei, eu sei, foram mais de duas palavrinhas).

Entretanto não tô na vibe de ficar aqui discutindo os equívocos de tentar relacionar o Sagrado Feminino com o Feminismo. Eu vim mesmo foi pôr meu carro alegórico na passarela e propor o Profano Feminino, Masculino, Andrógino, whatever. Uma vida e vínculos deliciosamente dessacralizados. Vamos desrespeitar normas e ritos. Vamos secularizar o corpo, o amor, os encontros. Vamos dessacralizar o respeito. Vamos construir valores éticos sustentados não por alguma coisa essencial e natural presente ou ausente no Outro, mas pela compreensão da alteridade, da humanidade do diverso, humanidade resultante de estruturas sócio-históricas e trajetórias individuais.

Do dicionário: o que é Profano? 1. Que não está de acordo com os preceitos religiosos. 2. Que desrespeita a santidade de coisas sagradas. 3. Que foge ao âmbito religioso; secular. 4. Que não tem a religião como propósito; mundano. 5. Que não faz parte de uma religião; fora do considerado sagrado. Sejamos mundanos, sejamos do mundo, das ruas, das esquinas, dos blocos. “Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão”. Sejamos sujeitos. Não porque alguma coisa essencial nos faz gente mas porque nos fazemos mais gente ao nos reconhecermos assim e assim reconhecermos o Outro.

Vamos nos permitir ser além de um modelo. Vamos nos inquirir. Vamos duvidar. “O corpo sou eu. Nem devia esclarecer, mas me antecipo: meu corpo sou eu, mas eu não sou meu corpo. Melhor: não sou só meu corpo. Mas ele me é”. Vamos acolher. Vamos nos acolher. Abrir mão de rótulos, caixas, designações e determinações que são necessárias para a demanda e afirmações de políticas públicas mas que podem ser despidas e esquecidas no riso, no abraço, no rala e rola, na cama, na festa, esquinas e caminhadas.

Viver corajosamente é profano. Viver livre é profano. Não aceitar a essência. Não aceitar o natural. Enfrentar, olho a olho, não a natureza humana, mas a condição humana. Aceitar a responsabilidade por nossas ações, escolhas, demandas. Não abrir mão do desejo, não projetá-lo, não nos submetermos a uma narrativa terceira do que somos e podemos ser.

Viva o feminino profano, sem culto, sem regra, sem norma, sem certo. Sem maiúsculo. Possível.

#FikaDika

Eu não curto muito respostas prontas. Generalizações, mesmo as bem intencionadas. Roteiros fixos. Vocês entenderam. Coisas como “10 maneiras de enlouquecer seu homem” ou “Como ser boa de cama”, então, passo longe. Mas, né. Justamente por evitar o extremo, hoje deixo uma mapinha.  Claro que o improviso e a iniciativa são importantes pra quem quer fazer trilha no corpo e fazer andar o desejo. Mas não custa dar uma mãozinha e oferecer sugestão para os incautos e incautas, pessoas curiosas, galera que deseja uma variada, etc. Vai que.

  1. Comece aqui:

2. Segure pela nuca. Firme. Mordisque o pescoço, desça até o ombro e suba novamente em direção à orelha. Divirta-se aí. Não seja pessoa avara nos carinhos e alcance a orelha oposta. No caminho pode mordiscar meu nariz ou esfregar o seu nariz na minha testa. Suspire alto, gema, faça sons. Desça até o ombro que ainda não tinha sido visitado. Uma das mãos pode manter-se no pescoço, a outra desce até a bunda. Agarre. Apalpe. Afague. Aperte. Faça meu corpo inclinar e beije com vagar onde a veia pulsa. Lambidinhas são bem vindas. As mãos podem, agora, dedicar-se às laterais do corpo. Desvendar curvas, reentrâncias, saliências. Lembre-se que é um corpo de mulher, não de menina. Agora, pode beijar a boca. Beije até que falte o ar e meus pés saiam do chão. Ou que eu sinta como se.

3. Passemos a um outro nível: molhe meus lábios, morda-os de leve e, a seguir, com força. Marque minha pele com seus dedos. Esfregue a língua nos meus dentes, prenda a minha língua entre os seus dentes, invada minha boca, explore-a, domine-a. Sua perna ainda não está entre as minhas? Grande equívoco, leve-a pra lá agora mesmo. Encoste-me em algum lugar: parede, carro, mureta, não importa. Roce. Pra cima, pra baixo, pra cima de novo. Está excitado? Ótimo. Eu estou sem ar, lembra? Beije os olhos, a testa, o rosto. E me vire de costas pra você. Uma mão na cintura, descobrindo meu umbigo; outra mão nos seios.

4. Faça o circuito costas. Ignore tecidos, afaste-os com dentes, sei lá. Ssaboreie a pele. Belisque o mamilo. Mordisque os ombros. Deslize a outra mão até encaixá-la em algum lugar morno. Eu vou arfar. Demore-se, não há motivo pra pressa (a não ser, claro, que estejamos no meio de uma rua movimentada). Sussurre ao ouvido. É aqui que perco o rumo, o prumo e o norte.

5. Permita-se. Permita-me.

Biscatear. É errado. É pecado. É crime.

revolucao

Eu não sou muito de me pronunciar a respeito de situações que envolvem crime, por vários motivos, a vida é complexa, a imprensa é tendenciosa e eu sou uma crítica do sistema penal. Mas não deu pra ficar quieta, vou abrir uma exceção pra esse caso.

Uma mulher foi presa, em Santos, por fazer sexo com dois homens. Não, ela não estava trepando com dois homens em um ambiente público e por isso foi presa – com eles – por atentado ao pudor. Nada assim. Ela foi presa por se relacionar com dois homens e um deles ter matado o outro. Ela não foi cúmplice. Ela não combinou o crime. Não há prova nenhuma que a implique com a morte do rapaz, mas ela foi presa quarta-feira pela manhã. A razão da prisão? Ela foi considerada pivô do crime apenas por se relacionar com os dois ao mesmo tempo.

Não tá dando pra entender? É porque não faz nenhum sentido mesmo. Vamos mais devagar. Ela trepava com um. Ela trepava com outro. E, quando estava com um deles se sentia à vontade para comentar o outro relacionamento que tinha. Pois para o juiz, isso é criminoso. Para o juiz, o fato dela comentar sua própria vida, sua satisfação ou insatisfação “causaram séria perturbação, trazendo reforço à sensação pública de que se vive em uma sociedade impune e eticamente apodrecida em seus valores morais como: família, fidelidade, liberdade e responsabilidade”.

Ou seja, é criminoso a gente exercitar nossa sexualidade se não for dentro de um padrão que o juiz reconheça como válido, com valores tradicionais. E o juiz não está sozinho, ah, não. Na imprensa ela já está condenada. Culpada pelo crime que outra pessoa cometeu porque, né, quem manda se dar ao desfrute? Afinal, olha que criminoso, ela procurava causar ciúmes nos caras! Ela comprava os desempenhos! Cadeia nela! Porque, claro, fetiche é coisa de homem, mulher não tem nem que pensar nessa pouca vergonha.

Não podemos trepar. Mas se a gente for trepar que seja no “santo matrimônio”. Se não for casada, pelo menos dê só pra um. Se, em último caso, for pra mais de um, seja escondido, seja em silêncio. Não deseje. Não goze. Não fale. Se cale. Se apague.

Por isso todas as vezes que eu leio textos cheios de boas intenções dizendo que ai-ai-ai-trepar-não-é-nada-demais-não-é-feminista-não-empodera-sei-que-lá-sei-que-lá eu tenho vontade de mandar catar coquinho. Trepar com desejo. Com tesão, com vontade, fazer o que quiser, se quiser, quando quiser, pôr (s)eu corpo na roda, passar o rodo é tão, tão, tão libertador e revolucionário que a sociedade esbraveja. E um juiz criminaliza.

 

Um Amor, Desses de Cinema

Eu não tenho um rosto devastado. Nunca tive um amante chinês. Não tive que proteger meu irmãozinho do ódio do outro irmão – a não ser que se conte uma ou outra birra minha mesmo. Não tinha, adolescente, um chapéu de homem. Mas, tal como a jovem de vestido de seda natural e sapatos de lamê dourado na travessia do Mékong, “muito cedo na minha vida era tarde demais”.

margue

E é por isso que, mesmo quando desenho corações no guardanapo, nunca esqueço que são de inverídica anatomia em transitório material.

Podia fazer promessas e acalentar esperanças. Podia construir castelos em nuvens. Podia falar finais e felizes e sempres. Podia dizer: fico. Seria sincero, mas não verdadeiro.

Faço as vezes de menina, mas serei sempre a velha que se balança na calçada a contar memórias de uma trapezista que voava sem rede, falando de lonas de circo que se abriam em céus e luas e estrelas, sem saber se as memórias são minhas ou do velho vinil de capa azul.

Ignoro os tempos verbais, os avisos, os abismos. Já esqueci como será te amar, repito, madrugada adentro, enquanto o oco se agiganta. E congelo sorrisos, caso sejam necessários para pôr sob o chapéu masculino, em um rosto, enfim, devastado.

Passado, Futuro e Um Pássaro no Peito

“O amor é um pássaro rebelde”

francesca-woodman

E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. São as suas histórias e as minhas histórias, são seus amores passados e os meus amores passados, que, presentes, possibilitam que esse amor seja.

“(…) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”. (Vinícius de Moraes)

Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Das conversas arrastadas. Das mensagens trocadas à distância. Dos pequenos mimos. Tenho inveja das coisas que nosso relacionamento deixou em você. O olhar mais terno. O silêncio mais cúmplice. As manhãs preguiçosas de pernas enroscadas. Os filmes na cama.

Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, digo eu, podia dizer saudade.

“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” (Bukowski)

Cicatriz

Tem o corte. Que mais arde que dói e vai daqueles mais superficiais aos que precisam de pontos. Se foi fundo, sangra e ficamos fracos. Depois do corte, uns dias de tontura. Não sabemos direito quem somos sem aquela parte lacerada, por que nos expusemos ao corte, por que ficamos, por que fomos. Por quê ainda queremos. Ou pior, nem queremos mas sentimos a noite vazia como se quiséssemos. Decerto é a perda de plaquetas. Ou hemácias. Ou dos projetos de futuro a dois, sei lá. Um copo de suco de goiaba e um misto quente diz que ajuda, como depois de doar sangue. Provavelmente à meia noite, sentada no ladrilho frio da cozinha, com um pouco de secreção balançando na ponta do nariz.

Às vezes o corte inflama ou infecciona. Aí é que dói de verdade. Lateja. Fica sensível toda a área ao redor. “Poxa, não fala em X porque parece com Fulano”. “Ah, ele gostava/praticava/era de X?” “Não, não, ele gostava/praticava/era de Y, mas Y é quase parecido com X…”.  Mas não entreguemos os pontos, a inflamação é o corpo reagindo. Os leucócitos tentando garantir alguma saúde. É um pouco melancólico lembrar que muitos deles morrerão no processo. Bom, mas dizia eu, os leucócitos precisam de tempo para fazer seu trabalho.

Vem o tempo, passa o tempo, traz alívio e casquinha. Que protege, mas só se. Se a gente não coça. Se não esbarra em alguma coisa. Se não roça com a toalha de banho. Se não vê no bar da esquina, se não esbarra por acaso no samba, se não percebe online no messenger, se não precisa encontrar pra tratar de alguma coisa importante como a divisão dos LPs. Quando qualquer uma dessas, magoa. Magoar a ferida é osso. Dependendo, começa tudo de novo, da hemorragia ao risco de infecção. Mas a gente torce que não, ferida quase secando.

A casquinha insiste e por baixo dela, o corte vai deixando de ser. Já não lateja. Já não perdemos sangue, já não ficamos fracos. Nem percebemos mais a luzinha verde entre tantas outras pessoas online e chegamos no bar sem fazer o rastreamento de identificação em todas as mesas. Passou. Não arde, não dói, não sangra. É quase como se não tivesse sido. Passou. E não. Já não há corte, é certo. Mas também não há a integridade antiga do corpo. Aquele risco branco na pele é história.

cicatrizes

PS. Se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção:

Sugestões para um agosto mais Biscate

Texto com dicas também de
Renata Lins, Lis Lemos e Raquel Stanick

Um beijo no meio da rua. Papear com a cadeira na calçada. Conversar virando madrugada. Roça-roça no pé do muro. Sexo matinal. Banho de mar sem roupa. Dormir sem roupa. Praticamente qualquer coisa sem roupa. Mandar beijo pra lua cheia. Morder, voraz, uma manga suculenta. Sexo oral. Servir ou sorver uma bebida gelada. Aos golinhos. Lamber sorvete que derrete escorrendo na casquinha. Rir junto. Rir muito. Rir alto. Gargalhar. Postar gif de putaria. Beijar de língua na balada. Enviar nudes desejados. Rapidinha. Entabular conversa despudorada, dada, danada na fila do banco. Dizer sim. Escrever mensagens eróticas. Deixar em guardanapos. Com marquinha de batom. Ver um filme. De preferência, no escurinho do cinema.  Ou no colo de alguém. Masturbação. Masturbação a dois. Passar um café. Fazer um pão. Ou um bolo. Ou uma careta. Suspirar. Tomar banho de chuva. Girar, braços abertos, olhos fechados. Dançar sem música. Mandar mensagem pra os amigos. Aproveitar aquele óleo meio esquecido e fazer uma massagem no seu próprio pé. Ou em qualquer outra parte sua (ou alheia) que rolar. Acolher o inesperado. Divulgar os posts do tumblr do biscatesc. Cantar no chuveiro. Na rua. No pé do ouvido de alguém. Ler O Amante. Ou Hilda Hilst. Fazer um strip tease pra alguém. Que pode ser você mesma. Olhar de lado. Flertar no ônibus. Andar descalça na areia da praia. Ou na grama. Ou no cimento frio. Molhar os pés. Deixar as ondas lamberem a pele. Soltar o cabelo. As asas. A franga. Pintar as unhas, Ou o sete. Fazer uma listinha de música com cara de trepada. Enroscar pés – com meias, caso faça frio. Derrubar forninhos. Fazer uma coisa nova. Fazer o mesmo de sempre que apetece. Provar. Experimentar. Repetir. Dar.

como viver

E as suas sugestões? Coloca aí nos comentários, vai…

Fico

Então, fico. Mais um pouco, mais um dia, mais um tempo. Mais. Mais pele. Mais fogo. Mais suor, pernas encaixadas, mais língua, gosto, gemido, mais nós. Mais coração acelerando o ritmo, mãos modelando carne, olhos mergulhando em olhos. Mais perto. Mais.

 

Fico. Deixo a mochila encostada na porta da rua, lembrando que a despedida será. Alerta do café que esfriará na xícara enquanto o pensamento passeia por manhãs em comum. Anúncio antecipado dos dias que escreverei saudade com lápis para poder apagar em papel o que não se apaga em tesão. Avisando o bem querer com calendário.

 

Fico sabendo que já não somos. Que é um puxadinho. Fico apesar de. Da passagem comprada. Do projeto acertado. Dos dias que estavam certos de ser. Fico sabendo que não engano o relógio, não engano a rota, não engano a vida. Não me engano.

 

Fico com a cabeça encostada em teu peito, buscando me ensudercer pelas batidas do teu coração e assim não ouvir o sussurro zombeteiro do tempo. Fico mesmo sabendo os acertos. Os planos. Os contras. Fico mesmo sabendo que você não cabe na minha vida e eu não orno com a sua.

 

Fico e imitamos tão bem a felicidade que sempre sentimos que quase acredito que estar é verbo a ser conjugado no presente. Fico e trepamos. Fico e rimos. Fico e gozamos. Entrelaçamos dedos, acarinhamos rostos, roçamos corpos, prolongamos beijos, como se fosse possível.

 

Fico até que você durma e a dor amanse como bicho selvagem domado. Um equívoco necessário. Fico até conseguir soltar a mão que você segura entre a sua sem que isso cause mais que um gemido desgostoso. Fico até o silêncio passear nos ambientes da casa e entorpecer temporariamente a saudade. Fico até roçar os lábios em seu rosto, inspirar próximo ao seu cabelo, engolir a despedida, pegar a mochila próxima à porta de saída, trancar a porta e passar aquela chave que você nem pestanejou pra me entregar por baixo da porta.

 

Aí, vou. Vôo.

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Elevador, de novo

Leia o post Elevador da Lis Lemos, aqui

Reparou no moço sentado esperando o elevador. Era o mesmo. Era o mesmo? Olhou primeiro no espelho do hall, as mesmas havaianas indignas, uma saia indiana mais sambada que a Sapucaí, camisetinha branca e os grampos de sempre. Seis. Tirou o olho do arrependimento no espelho e confirmou: era ele. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Talvez um pouco mais curto que no encontro passado. Talvez. De novo ao telefone, de novo um recado ambíguo: estou chegando. Em casa? Uma visita? Não, não era vizinho, quase um ano lá, muita falta de sorte se não cruzasse mais vezes com ele – cruzasse, rá, pensa bobagem, ri alto, ele levanta a cabeça, atento, ela queria desviar o olhar, acaba mergulhando no dele, que bonitos que são, escuros, sombrados por olheiras.

Oi. Pra ele sai tão fácil. Porque ela foi rir? E agora, o que responder. Repetir o oi? Comentar o tempo? Que droga de cidade na linha do Equador onde o tempo nem serve de conversa fiada. Ele insiste: já nos vimos no elevador, não? É preciso desengasgar a timidez ou serão 21 andares de mico. Levanta a cabeça, acena, sorri, sim, nos conhecemos aqui. Ele estende a mão. Aquela mão enorme que notou desde a primeira vez. O elevador chega. E agora? Elevador, mão, elevador, mão, isso, aperta, morna, gostosa, áspera, o elevador fecha a porta, sobe, ele ri: perdemos. Não solta a mão. Opa. Faz um carinho na palma, como era mesmo que sua avó dizia? Pedindo um beijo. Bonita, sua mão. A voz faz cócegas no ouvido. Gostosa. Sente a pele arrepiando e o mamilo enrijecendo. Camiseta branca sem sutiã. Que idéia, que idéia. Obrigada e levanta os olhos que não encontram os dele, dessa vez, atentos que estão aos mamilos enrijecidos. Ela esquenta mais, aperta a mão dele sem notar. Nota. Puxa a mão, baixa a vista e encontra a calça de moletom dele, marcada.

Respira fundo, impressão, impressão. Ele ainda está falando mas ela não escuta, ocupada com o sangue quente, a palma suada, a perna mole, o tesão. O elevador que chega, vazio. Ele faz um gesto, ela entra na frente, ele encosta a mão nas suas costas, gentil, ela lembra: a câmera está quebrada, porque ela está pensando nisso agora, para de repente no meio do elevador, ele esbarra, as portas se fecham, nenhum dos dois se afasta. Ela sente a respiração morna dele em seu pescoço, sente o roçar do pênis pressionando a calça de moletom e sua surrada saia indiana. Tenho que fazer alguma coisa, tenho que fazer alguma coisa. Um andar, outro.

elevador

Estende a mão pra trás. Aperta o botão do seu andar. Meio de costas, volta a mão no pescoço dele. Deixa escorregar, peito, barriga, pau. Afaga. Puxa enquanto dá dois passos em direção ao fundo do elevador. Ele segue, as mãos já embaixo da camiseta branca sem sutiã. Ele beija o pescoço, o ombro, a barba macia acentuando a carícia. Puxa os bicos dos peitos, dá um peteleco. Ela espalma as mãos na parede do elevador e esfrega a bunda com força no quadril dele que já deixou uma das mãos encontrar o caminho e passar fácil pela saia e pelo elástico frouxo da calcinha. Sente o dedo, firme, roçando o clitóris. Quarto, quinto, se o elevador parar em algum andar? Respira, respira, ela tenta lembrar mas arfa enquanto ele continua, ritmado, a massagear e estimular. Ela sente a calcinha encharcando, a outra mão dele deixou os seios e aperta a sua bunda, os dedos firmes marcando seu rabo, explorando a fenda, insistindo, empurrando, ela se empina mais, ele mergulha o indicador na buceta encharcada e começa a enfiar, gentil e firme, no cu. Que andar, que andar, ela não sabe, ela sente os dedos na buceta, no cu, no clitóris, por todo lado, quantas mãos enormes ele tem? O pênis se esfregando no lado da coxa, a boca aberta sugando o ombro, ela arfa, ela goza, ela goza, ela goza. Ela geme, as pernas trêmulas. Ela sente o vazio. Os dedos se afastando lentamente. A porta do elevador abrindo. Ele se encosta em um dos lados, mantendo o elevador no seu andar enquanto ela arruma as roupas e tenta se segurar em pé sem o apoio das paredes do elevador. Olha pra ele que chupa, com ar satisfeito, os dedos.

Da próxima vez me dá um beijo? Ele diz. Ela sorri, marota, e pensa, zoando a si mesma: não ando dando essas liberdades pra qualquer um. Ele pisca, desconcertado com a gargalhada livre que ela dá. Ela fica na ponta do pé, morde a orelha onde balança o brinco e sussurra. Da próxima vez eu dou… o beijo. Sai sem esquecer de rebolar e sem olhar pra trás enquanto o elevador fecha, suave, a porta. Vermelha, satisfeita, vê confirmada sua hipótese: sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

Nota de Apoio a Monique Prada e às Trabalhadoras Sexuais

Publicado originalmente no
Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros

Nós, que abaixo assinamos, manifestamos nosso apoio a Monique Prada, militante feminista, trabalhadora sexual e presidenta da Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS). Monique tem sido atacada por grupos que se posicionam contra a garantia de direitos trabalhistas para profissionais do sexo.

Como Monique Prada, inúmeras outras trabalhadoras sexuais e militantes feministas que a elas se aliam nessa luta vêm sendo frequentemente expostas por grupos defensores de políticas de erradicação da prostituição que não só se mostraram ineficazes ao longo da história, como também refletem os projetos políticos dos setores mais conservadores da sociedade. Basta dizer que, no caso brasileiro, o argumento de que prostituição e exploração sexual são indissociáveis já foi publicamente defendido pelo deputado Wilton Acosta (PRB/MS), pastor da Igreja Sara Nossa Terra; e que o relator que propôs a rejeição do projeto de regulamentação das atividades de profissionais do sexo, submetido pelo deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ), foi o deputado pastor Eurico (PHS/PE), da Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

Reiteramos que a regulamentação das atividades de profissionais do sexo representaria um avanço significativo no combate à cultura do estupro, uma vez que asseguraria melhores condições de trabalho e segurança para trabalhadoras e trabalhadores sexuais, fortalecendo também a luta contra a exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes.

Assinam esta Nota:

Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros / Uerj

Anis – Instituto de Bioética

Biscate Social Club

Blogueiras Feministas

Centro de Referência em Direitos Humanos, Relações de Gênero, Diversidade Sexual e Raça (CRDH/Nupsex)

Coletivo Davida

Coletivo Não Me Kahlo

Edis – Núcleo de Estudos em Diversidades / UFAL

Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas

Geni – Grupo de Estudos de Gênero, Sexualidade e/m Interseccionalidades / Uerj

Grupo Identidade, Campinas

LADIH – Laboratório de Direitos Humanos / UFRJ

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Mulheres Guerreiras

Nudes – Núcleo de Estudos em Discursos e Sociedade / Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada / UFRJ

Nupsex – Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero

Observatório da Prostituição / Laboratório de Etnografia Metropolitana-LeMetro – IFCS / UFRJ

Nusex – Núcleo de Estudos em Corpos, Gênero e Sexualidade do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ

Roda Feminista / Uerj

Transgride – Núcleo Transdisciplinar de Estudos em Gêneros, Sexualidades, Cultura e Relações Étnico-Raciais, FND / UFRJ

TransRevolução
Amara Moira, travesti, putafeminista

Aricelina Gomes,  APROSPI – Associação das Profissionais do Sexo do Piauí

Aurilene Soares, AMUPS – Associação de Mulheres Profissionais do Sexo, Queimados/PB

Carmem Costa, Grupo Liberdade/PR

Cida Vieira, APROSMIG – Associação de Profissionais do Sexo de Minas Gerais

David Soares, Doutores da Prevenção – Campina Grande/PB

Diana Soares, ASPRORN – Associação de Profissionais do Sexo do Rio Grande do Norte

Eliane de Castro Melo, coordenadora do CIPMAC – Centro Informativo de Prevenção, Mobilização aos Profissionais do Sexo

Elizabeth Pereira, APROCE –  Associação de Prostitutas do Ceará

Fátima Medeiros, APROSBA – Associação de Profissionais do Sexo da Bahia

Georgina Orellano, AMMAR – Asociación de Mujeres Meretrices de la Argentina

Indianara Alves Siqueira, TransRevolução

Ivanete Bezerra, DASSC – Dignidade, Ação, Saúde, Sexualidade e Cidadania- Corumbá/MS

Irene dos Santos, Articuladora das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe

Jacqueline Brasil, ATREVIDA – Associação de Travestis Reencontrando a Vida/RN

Juma Santos, Tulipas do Cerrado, DF

Leonisia Santo, APROSEP- Associação de Profissionais do Sexo de Picos/PI

Roberta Torres, Movimento TransLegau, Nova Floresta-PB

Sebastiana dos Santos, APAM – Associação das Prostitutas do Amazonas

 

Adriane Pereira, estudante de psicologia, RJ

Alline de Souza Pedrotti, tradutora, RJ

Amana Mattos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenadora do Degenera/Uerj

Amanda Rastelli, psicóloga e pesquisadora do Gepesp (Iav/Uerj)

Barbara Gomes Pires, doutoranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Carolina Bertol, doutoranda em psicologia social (PUC-SP)

Carolina Maia de Aguiar, mestranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Caroline Cavassa, jornalista, Roma, Itália

Caroline G., publicitária e ativista, RJ

Clarissa Godoy, educadora, RJ

Claudielle Pavão, professora de história do município do Rio de Janeiro

Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Erika Natasha Cardoso, doutoranda em História (PPGH/UFF), pesquisadora-bolsista na FBN (PNAP), com ênfase em estudo sobre o sexo e suas representações

Fátima Lima, Nudes/PP

Gabrielle Sales Ferreira, estudante, RJ

Geisa Ferreira do Nascimento, pedagoga, RJ

Giovana Xavier, professora de Ensino de História, UFRJ

Heloisa Melino, advogada ativista, feminista interseccional, doutoranda em Direitos Humanos, Sociedade e Arte (PPGD/UFRJ)

Henrique Marques Samyn, professor da Uerj e colaborador do MundoInvisivel.org

Iasmin Rocha da Luz Araruna de Oliveira, historiadora, RJ

Isabella de Mendonça Nunes, RJ

Izabel L. Ramos Moreno, publicitária, RJ

Jacqueline Ribeiro, historiadora, Degenera/Uerj

Joyce Costa Barbosa, analista socioambiental, RJ

Kathleen Feitosa, militante feminista e antiproibicionista, RJ

Laila Queiroz de Souza, pós-graduanda em Violência Doméstica (PUC-RJ)

Leticia Calhau Freitas, educadora social, RJ

Leticia Naves, associada da Anis – Instituto de Bioética

Liliane Gusmão, arquiteta, ativista, QC, Canadá

Lina Arao, pós-doutoranda, UFRJ

Luciana Holanda Nepomuceno, Professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, RN

Luisa Dantas Soler, advogada, especialista em gênero e sexualidade, graduanda em ciências sociais IFCS/UFRJ

Luisa Lorena Neto de Oliveira, assistente de DP, RJ

Maíra Rocha, arquiteta, RJ

Maria Clara Drummond, RJ

María Elvira Díaz Benítez – PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

Maria Luiza Rovaris Cidade, psicóloga, RJ

Mariana dos Reis Santos, professora do Instituto Benjamin Constant e doutoranda em Educação, RJ

Mayra Okamura, estudante de psicologia, Uerj

Raisa Ramos, comunicadora da Anis – Instituto de Bioética

Sinara Gumieri, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Valéria de A. M. Forti, psicóloga e professora aposentada, RJ

Vanessa Dios, diretora-executiva da Anis – Instituto de Bioética

Vanessa Oliveira Batista Berner, professora associada da Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ), coordenadora do LADIH/UFRJ

Vanessa Fonseca, doutoranda em psicologia pela UFF, Degenera

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Balé

“Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A primeira vez que ouviu isso foi em uma série de tv, há tanto tempo que nem podia garantir que a ela que escutou era a mesma ela de hoje. E riu, no dia, claro. Pimenta nos olhos dos outros. “Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A segunda vez que ouviu essa frase foi no dia anterior e o som era da sua própria voz, com um acento ácido e cruel. Ela não sabia direito porque sua voz soava assim quando estava machucada ou confusa.

Ela não precisava se ver para saber que era um clichê perambulante, na praia. Calça encarapitada no meio do tornozelo, pés descalços, sandálias balançando na mão e aquela desolação no rosto. Peixe fora dágua. Lembra a primeira vez que se encontraram, lados opostos da mesa do bar, aniversário de uma amiga em comum, ex-namorada das duas. Mundinho pequeno, comentaram, ela e a menina das pernas esguias e mãos bailarinas.

Era tão bonita que dava vontade de pegar no colo. E pegou. No colo, na bunda, nos peitos. E os beijos? Ah, os beijos. As línguas alternando escrita no céu da boca. Mal conseguiam respirar, mas a menina das mãos bailarinas ainda encontrou fôlego pra dizer: acho que vamos dar certo. Isso lhe tirou um pouco o chão, mas ela descontou no tesão e ignorou.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia de não fazer nada: não depilar perna, não chegar na hora, não comprar os ingressos. Ontem foi o dia de falhar. E depois, cruel, dizer: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Dois meses só? Um pouco menos. Mas tão pesados que ela não contava em dias, mas em quilos.

Podia ser fácil. Os mesmos filmes, trajetórias parecidas, algumas dores, amores aqui e ali, bairros vizinhos.  E vazios que queriam se encaixar. Ela acreditava no tempo, no desejo, no movimento. Mas a menina das mãos bailarinas preferia o esforço. A disciplina do amor, a menina brincava, com aquele jeito desastrado que a gente usa quando tenta disfarçar uma verdade.

A menina das mãos bailarinas tinha um plano. Ensaiava a felicidade. Fazia marcações. Repetia os passos. Perfeição: a vela, a colcha, a viagem no fim de semana, o bilhete na geladeira, o presente certo, a hora certa, a palavra certa. E ela: desastrada. E preguiçosa. “Porque você não”. Ela detestava as frases que começavam assim. E eram muitas. Porque ela não, realmente.

Havia a conversa – e era boa. A cama preguiçosa aos domingos – e era bom. A parceria na cozinha, os filmes no sofá, o conforto em meio às tristezas do cotidiano. Bom. Mas as conversas, o domingo, a cozinha, os filmes, o conforto da menina precisavam de uma forma. Um fórmula. O correto. Precisa se dedicar, a menina pedia. Tem que dar certo. E ela carregava o peso de não saber a hora adequada para o abraço, de não escolher o filme iraniano, de não cortar a cebola em julienne, de deixar farelo na cama, de não saber ficar calada.

Sentia nos ombros, mas esquecia quando se perdiam uma na outra. O tesão. O telefonema picante do meio do dia, os dedos curiosos no meio das pernas, o suor e cheiro de gozo nos lençóis. Tinha seios grandes e de aureóla escura, a menina das mãos bailarinas, seios que ela chupava até a menina arquear e perder o equilíbrio. Tinha um cabelo crespo e macio no qual ela enfiava nariz e língua, descendo pela testa, rosto, até a curva atrás da orelha e deixava a língua alternar com os dentes enquanto as mãos apertavam a bunda. E que bunda. Grande, espaçosa, macia. Era macia, a menina das mãos bailarinas e quente. Nas axilas, entre as coxas, na curva do pescoço, embaixo dos seios, sua temperatura era sempre um grau acima. Ela se acendia só de lembrar do morno da menina.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia do desacerto, do descontrole, do fim do peso. O dia da gota d’água em forma de frase: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Uma pergunta ali, aqui, antes, depois: foi bom? Faço assim? Eu li na revista que as pessoas gostam mais de. Eu vi no filme que é melhor se . Peguei um livro que manda. Vamos nos esforçar. A gente tem que: depilar, alternar, apalpar, demorar, usar. Listas: de preliminares, de posições, de objetos. Ordem. Para fazer dar certo. Para dar certo. Que trocadilho infame.

Parece que foi ontem. E foi. Aniversário de relacionamento. Vamos comemorar antes, porque o dia melhor é sábado. A mensagem que já estava no celular ao acordar: não esquece de depilar as pernas. O telefonema no meio da manhã: não esquece de buscar os ingressos. O whatsapp no fim da tarde: não vai se atrasar pro jantar hoje, não é? O dia como chumbo, arrastado em correntes. Não depilou as pernas. Não pegou os ingressos, não chegou na hora. Poucas reclamações. Não é certo brigar no dia do aniversário. O jantar gostoso, a salada cortada de forma impecável. Tão melhor o corte julienne, não acha? O brinde depois, as carícias certas, na ordem certa, na hora certa. Preliminares. Posições. Gemidos. Prazer ou esforço? E a frase, sua, na voz quase irreconhecível, o acento ácido de quando ela está dolorida: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A menina de mãos bailarinas nem mudou a respiração antes de começar a chorar. E baixar as pernas. E se encolher na cama. Ela não pediu desculpas, não fez nenhum gesto de alento, recolheu as roupas, vestiu-se no banheiro, saiu em silêncio. Certos abismos são intransponíveis. Lembra da Marquesa: quando eu machuco o coração de uma mulher, é definitivo. Ou algo parecido.

Parece que foi ontem. E foi. Agora ela caminha na praia, enfiando o pé na areia para não sair flutuando, perdida, sem peso que a mantenha. O vazio que ela sente vai ser dor. Agora é só clichê e um pensamento aleatório. Associava as mãos bailarinas à graça e leveza, quando eram treino e joanetes inflamados.

Debochado, o mar lambeu seus pés.

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Aparências

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A gente passa metade do tempo militante lutando para ninguém julgar ninguém pela aparência. E a outra metade julgando e disparando mágoa e animosidade nas pessoas que tem uma determinada aparência.

Não é a existência da pessoa dita bonita que sustenta o padrão de beleza excludente. Não é a existência de alguém que sustenta uma situação estrutural. Ela, no máximo, reproduz. No caso da aparência física, isso nem mesmo é uma opção.

A sustentação da exclusão e marginalização se dá via mecanismos materiais alinhados a um discurso naturalizador. Cobrar posturas individuais, culpa e autoflagelação não muda a estrutura. Nem faz cócegas nela. No máximo satisfaz parcialmente nossa fome de um sofrimento alheio que se equipare ao nosso.

Quando eu era criança, meus pais (?) me ensinaram a prestar atenção quando estou apontando o dedo. É um pra lá, um meio confuso e três pra mim. Bobo, né? E, no entanto. Poucas coisas mais verdadeiras (diferente do “nem escuto a zoada da mutuca”, que é mais a enunciação de uma intenção que de um fato, mas divago).

Eu acho que cheguei estragada para a militância feroz. E para a militância sentida, magoada. E, mais que tudo, para a militância que não se pergunta sobre ela mesma. Coloco (contente) na conta de dois barbudinhos, Freud e Horkheimmer. Eu já escrevi umas mil vezes (mas aprendi também que tem um gozo na repetição) que o caminho é tão importante quanto o local de chegada. Que ele determina o local de chegada. Que temos que nos inquirir sobre nossos processos, nossas motivações, nossas chaves e nossas falhas e nunca, nunquinha, supor os processos, motivações, chaves e falhas internas alheias.

Acho que a gente acabou entendendo errado o negócio do privilégio. Ou fui eu que entendi na contramão, forçando o conceito pra meu horizonte de referências. Eu sempre entendi que privilégio era algo pra gente ir dando conta dos nossos em relação a. Tem duas coisas embutidas aí: o privilégio dos outros não é da minha conta, não sou eu quem tem que apontar, identificar, qualificar, analisar, questionar, whatever, isso porque (aí vem o loutro lance, mais importante) o privilégio (o meu e o de qualquer outro) não é absoluto nem cristalizado. Privilégios são em relação. São forças, dinâmicas. Não rótulos estanques. Ninguém (acho eu) deveria ser “acusado” de um determinado privilégio. Mas, claro, reconheço que eu posso ter forçado o conceito pra poder compartilhar dele. Se não for isso, se rpivilégio é alguma coisa que a pessoa tem, absoluta, definível, identificável a priori e sem contexto, estou desde agora parando de usar e deixando de achar útil na militância.

Sair da modo-culpa-de-funcionamento, seja nossa, seja demandando a alheia, penso que seria um passo importante para uma dinâmica de relacionamentos interpessoais bem mais, na mais superficial das hipóteses, divertida.

Vivemos numa sociedade excludente. Sim. Um dos aspectos em que isso se evidencia é na questão da aparência física. Sim. Nesse quesito unem-se preconceitos vários como racismo, gordofobia, transfobia, preconceito contra deficientes físicos, etc. Sim. Isso fica material na hora de sentar na cadeira do avião, de tirar foto pra documento, de ler uma vaga de emprego que fala em boa aparência? Sim. Isso também aparece na hora que você vai pra balada e sua amiga magra, loira e malhada parece ter mais olhares desejosos do que você, baixinha, gorda e meio índia? Sim. Mas. Enquanto dá pra gente discutir novos tamanhos de cadeira no avião, demandar novos softwares de leitura de imagem e fiscalizar a equidade nos processos seletivos, não tem ação externa que dê conta do desejo (e nem é pra ter mesmo).

O desejo, os afetos, os amores, os relacionamentos, são atravessados por construções sociais? Não. Eles mesmos são construções sociais. Nem por isso são voluntários, domesticáveis, moldáveis conforme a disposição política e militante.

A dinâmica de transformação da realidade social é dialética, vamos mudando o dentro e lutando no fora e ao mudar o fora vamos redimensionando o dentro. Demora? Sim. Vai continuar doendo ir pra balada e não pegar as pessoas todas que a gente nem queria pegar mas queria que quisessem nos pegar? Sim (ou não, vai que a gente aprende também a não ficar olhando o que não tem e aproveitar melhor o beijo na boca disponível). Mas a transformação do quem e como se deseja nunca será por imposição ou vontade consciente.

A única coisa que pode resultar da fiscalização do tesão e dos relacionamentos alheios é moralismo. Imposição. Doutrinação. Culpa. Pecado. Ou seja.

O que a gente pode ir construindo é um território onde os desejos e relacionamentos que não são no “padrão” não sejam ridicularizados, escanteados ou causem temor e vergonha. Isso é um passo. O que a gente pode tentar é desenvolver comportamentos e discursos com menos foco na aparência física. Isso é um passo. O que a gente pode ir fazendo é lutar por representatividade. Outro passo. O que a gente pode ir incentivando é mais generosidade com nossas nomeadas imperfeições, sem esquecer que o lugar de onde essa limitação vem não tem relação com o corpo em si, com o que ele faz e oferece, mas com uma dinâmica que busca criar a insatisfação. Mais um passo. O que a gente pode ir fazendo é lembrar que o mundo que a gente tem de horizonte ainda vai ter esta gente toda que habita neste (a não ser que, mas então nem estamos do mesmo lado da trincheira), eles sendo do jeito que a gente quer ou não. E que a gente não deveria achar que tem o direito de determinar que alguém seja de algum jeito (mas sim que a sociedade funcione de determinada forma).

O que a gente pode ir fazendo é gozar. E deixar gozar. Abrir mão da culpa. Nossa. Do outro. É parar de exigir enquadramento, seja ele qual for. Vamos gozar. O prazer é subversivo.

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