Sobre Borboletas nos Olhos

De maneira geral eu pegaria geral.

Sylvia Plath e um batom vermelho demais

Sylvia Plath. Entre seus livros, sonhos cor-de-rosa, suas palavras brancas e o sofrido desejo de ser melhor e melhor, Sylvia se construiu e construiu belas e sofridas formas de dizer a dor, a solidão, o amor, a excelência, as perdas. Ela tentou se matar algumas vezes, mas quem não tenta? Com amores infelizes, trabalhos estressantes, falsas amizades, comida enlatada, prática de esportes, maus livros, todas estas escolhas são formas cotidianas de se aniquilar um pouquinho. Mais adiante, ela conseguiu. É muito mais do que se pode dizer de muitos de nós. Ela e Alfredo abriram o gás (aquele Alfredo que ninguém sabe de quê). Não sei se eles eram tão sós como se sentiam. Talvez todos sejamos e eles apenas reconhecessem mais rápido.

 Uma vez, quando parecia que eu sofria de amor, uma amiga me escreveu: não lembre de Sylvia Plath, não lembre de Sylvia Plath. Bom, eu não a esqueço. Não a esqueci em nenhum momento, nem mesmo quando a vida doeu, de verdade,  porque sempre soube que ela era grande e que morrer – de amor? – não a fez maior, apenas fez mais breve seu tempo de escrita.

Imagem relacionada

 Ela escrevia. Era isso que ela fazia. Talvez mais, era isso que ela era. Cedo chamou seus diários de Mar de Sargaços. Vai na Wikipédia, está lá a descrição, mais ou menos assim: um lugar quente, cercado por correntes oceânicas, um cemitério dos navios. Também lá está a comparação com a descrição de Rufo Avieno sobre as Colunas de Hércules*: “muitas algas crescem em meio às ondas, as quais retardam o navio como se fossem arbustos (…) Aqui, as bestas marinhas movem-se vagarosamente de um lado para o outro, e grandes monstros nadam languidamente entre os navios que se arrastam“. Para cortar caminho, apressado para realizar mais um dos seus tantos trabalhos, Hércules abriu espaço com seus fortes ombros, rasgando um estreito marítimo, hoje conhecido como estreito de Gilbratar. E não é isso o amor, ou o viver?, insistindo nas perdas, expandindo cisões, aumentando fraturas, ampliando vazios que, a seguir, se enchem de lágrimas mornas, fértil espaço para memórias-algas, saudades bestiais, contraditoriamente encalhando sonhos e alegrias?

Já adulta, escreveu: “talvez eu nunca seja feliz, mas hoje estou contente”. É de uma sabedoria ofuscante: o odor do café, um lençol macio, uma gargalhada infantil entreouvida pela janela, um beijo displicente, um bom livro pra ler. Miudezas. Uma pena não ser, sempre, suficiente.

 “Morrer é uma arte, como tudo mais”, escreveu ela. E o que mais seria? Viver é trazer a morte como possibilidade. É experenciar a finitude, todo dia, de forma solente, irreverente ou iludida. E disse também, complementando: que eu pratico surpreendentemente bem. E o que mais é escrever senão procrastinar em suicidas bilhetes? Quando não mais praticou bem a arte, foi quando abriu o gás.

Ler os tantos textos publicados sobre ela revelam como é difícil simplesmente aceitar a alteridade. Busca-se uma resposta fácil, um culpado, um motivo evidente para não encontrar o nosso desejo de um dia a mais na clara renúncia alheia de todos os dias outros. Num viés moralizante, a infidelidade se torna alvo fácil e tentamos dar nome ao que ela – e tantos – decidiram deixar no silêncio.

Sylvia era obsessiva em seu trabalho, as minúcias a atormentavam, a busca pela alinhavada precisa entre palavra e sentido – isso a consumia. Uma pálida beleza com um batom demasiado vermelho. Ela era forte, mas parecia saber disso apenas em dias alternados. Ela era bela. E ela era triste. Entre homens fortes e suas abelhas e seus ferrões ela só pôde morrer. Eu posso mais, porque posso lê-la.

Não é sobre a mais recente treta da internet 2

As mulheres têm tido péssimos encontros. Elas dão todos os sinais não verbais de que os encontros estão sendo péssimos, mas os caras não notam. Os encontros não correm nadinha parecidos com o que elas esperam ou planejam e elas sinalizam – na opinião delas, nitidamente, embora não verbalmente – e os caras nem percebem. Eles estão demasiado interessados no fato de que os encontros estão acontecendo dentro das expectativas e referências deles. Elas não falam, não vão embora (embora claramente percebam que eles não impediriam e quando, efetivamente, elas manifestam sua vontade de ir, eles não fazem nada que dificulte isso), elas ficam lá, vivendo aquele pesadelo, sentindo-se mal em cada momento, sentindo-se ignoradas e até mesmo violadas pela forma como eles estragam cada expectativa, cada anseio, sendo meio toscos, alguns escrotos, indo rápido demais, direto demais, tocando-as de uma forma que não era a que elas esperavam, comportando-se completamente diferente das expectativas  delas.

E então, o que aconteceu aí? (um parêntese, qualquer coisa diferente do narrado, que inclua uso de força, poder ou influência que impeça a mulher de verbalizar a negativa não é o tema do post, é estupro e tal). Voltando: e então, o que tem acontecido?

O moço pode ter sido indiferente, negligente, autocentrado. O moço pode ter sido tosco. O moço pode ter sido escroto. Nada disso faz dele um abusador ou do encontro uma violência que ele lhe impingiu.

Isso não significa que, ok, tudo bem, sigamos, é assim mesmo. Nada precisa ser “assim mesmo”.

Não sei se precisava salientar, mas não se perde: não importa se foi o primeiro encontro e a mulher aceitou ir na casa do cara ou levou-o à sua, não importa se ela estava de roupa “provocante”, não importa se ela decidir parar no meio do rala e rola, não importa se ela tirou parte da roupa ou se deixou despir, não importa se o encontro ruim foi com um desconhecido ou com uma pessoa com quem ela se relacionava há mais tempo e de forma estável. Nada disso importa se uma mulher disser não.

E, claro, este é um dos pontos nevrálgicos desta conversa. Nossa capacidade de dizer “não”. Nós, mulheres, somos ensinadas a ser dóceis, cordatas, mansas. Assertividade não é coisa muito feminina. Firmeza não é coisa muito feminina. Acolher o próprio desejo acima dos desejos alheios, especialmente o desejo sexual, deusolivre, não é coisa lá muito feminina. Assim, forjamos mulheres que esperam que as outras pessoas leiam sinais não verbais, discretos, sutis, feitos para não ofender a vontade alheia. Por outro lado formamos homens feitos para agir antes de refletir, para tomar decisões rápidas, para ouvir seu desejo antes de qualquer outra consideração. Homens pouco afeitos à escuta, que dirá entenderem sinalizações confusas e silêncios que parecem consentimento – especialmente no que se refere ao sexo, onde ainda se tem um imaginário em que mulheres não se interessam tanto por, não se divertem tanto no, não se expressam muito durante o sexo. Não sei a quem me lê, mas isso me parece uma combinação desastrosa.

É na estrutura que se inscreve a expectativa do príncipe encantado, mesmo para o encontro casual e que inibe o nosso “não”, coerente com nosso mal-estar. Porque “vai que”. Vai que ele melhora. Vai que ele entende. Vai que ele está em um momento ruim mas minha presença vai fazê-lo ficar bem. Vai que o sapo vira o príncipe que a cultura me ensinou que está nele, bem reservado para quem souber ser perfeitamente feminina e encontrar a chave mágica. E, assim não dizemos o “não”, não caímos fora. É também na estrutura que estão os números dos feminicídios, dos estupros, dos espancamentos contra mulheres. Vai que se eu disser não ele passa do escroto pro violento? Vai que ele me bate? Vai que ele mata? Melhor ficar quieta e encarar o menos ruim, né. Já somos mesmo acostumadas a comer por último, sair da frente, pedir desculpas mesmo estando certas, ver homens aclamados por ideias que demos poucos minutos antes e foram completamente ignoradas, etc. Um silêncio a mais não vai fazer tão mal assim. E, assim, não dizemos o “não”, não caímos fora.

Poderia continuar falando da estrutura/cultura e como internalizamos estes padrões que favorecem que situações como a lá de cima se repitam na zona cinza entre a violência/abuso e um encontro, apenas pessoas conversando, se conhecendo, se apalpando, fazendo sexo, bom ou ruim. Acontece que a estrutura/cultura não é algo absoluto e independente das subjetividades. Não somos seres passivos, tábulas rasas onde toda sorte de inscrições e normativas externas são gravadas e repetidas. Somos seres ativos, seres de desejo, que nos fazemos ao mesmo tempo em que somos feitos.

Eu lembro de um texto do comecinho do blog, que surgiu de uma piada tipo “se sua namorada disser que não quer ovo de páscoa, dê mesmo assim ou ela ficará zangada”. Dizia eu, dizíamos nós: se ela disser que não quer, respeite o que ela disse que é o desejo dela e não o que você acha que ela deseja. E se ela queria mesmo o ovo, mas não disse por recato, por educação, por charme, whatever, azar, da próxima vez quem sabe ela verbaliza sua vontade. Lá no texto tem (e sustento): toda e qualquer insinuação de: “ela não sabe o que diz”, “ela não sabe o que quer”, “ela diz uma coisa, mas está querendo outra” deve acionar imediatamente nosso alerta vermelho. É perigoso – perigoso porque continua alicerçado na idéia de que a mulher não pode ser responsável pela sua vida, pela sua vontade, pelos seus interesses, pela sua ação.

Nós podemos, nós devemos. Uma mulher deve poder dizer sim e não. Seguir e parar.

Não é arrumando formas de acolher, proteger e garantir o silêncio das mulheres que avançaremos, penso eu. Não é culpando homens por não saberem traduzir nossos discretos sinais de negativas dúbias, divididas entre o desejo que ele pare e o desejo que ele mude durante um encontro, que avançaremos. Isso não significa que não vamos (vamos, nós-pessoas, não apenas nós-mulheres) trabalhar e insistir para que os homens escutem mais, entendam mais, acolham mais, cuidem mais. Sim, isso é necessário. E será a contrapartida, penso eu, do movimento das mulheres de falarem mais, (se) afirmarem mais, se posicionarem mais em relação às sua intenções, vontades, expectativas, planos.

Não vai ser no automático. Não vai ser de agora pra amanhã. Não vai ser nem mesmo se todas as mulheres lerem este texto (ahahah) e concordarem e decidirem dizer seu sim e seu não. Porque somos seres de inconsciente, somos seres de cultura, somos seres sociais, somos ambíguos, contraditórios, seres em processo. Será preciso tempo, muitos encontros ruins, muitos nãos gaguejados, muita melhora na escuta dos homens, muito avanço na verbalização, muita mudança econômica (porque sim, segurança econômica não define, mas interfere na autoestima e na segurança emocional), muito avanço no campo das relações de igualdade de raça, muito mais coisa precisa acontecer para que.

Mas não vai ser é nunca se resolvermos apenas mudar quem tutela o desejo e a voz das mulheres. Não vai ser é nunca, especialmente, se consideramos que estes desejos e vozes são uniformes ou poderão vir a ser. Não vai ser é nunca se elegemos vilões e projetamos neles os equívocos e mascaramos a nossa conivência. Não vai ser é nunca se cristalizarmos as mulheres no lugar de quem precisa ser sempre defendida e resguardada de tudo – inclusive de um péssimo encontro – seja por família, Estado ou movimento.

Não basta uma decisão individual de cada mulher. Mas não prescinde disso. Então é preciso, penso, acolher a voz das mulheres, sem lhes tirar a responsabilidade pelo que é dito.

radicalchic

PS. o texto tratou do tema focando na relação homem-mulher porque a maior parte das questões que têm surgido de denúncias de abuso é sobre este tipo de relacionamento (sejam relacionamentos entre pessoas heterossexuais ou bissexuais). Isso não significa, de forma alguma, que relacionamentos entre homens e/ou entre mulheres não tenham, também, vivências de abusos, etc.

PS2. Isso não significa que não existam ambiguidades. Que as mulheres não possam dizer “não” e depois dizer “sim”. Ou dizer “sim” e depois mudar para o “não”. Meu argumento é apenas que se respeite o que se disse no momento: não é porque ela mudou pro sim que quando ela disse o não, o não já era um sim disfarçado. É que como pessoa autônoma, consciente e reflexiva ela pode pensar, sentir, ponderar e transformar sua decisão.

Não é sobre a mais recente treta da internet

“…e eu não tinha, a exemplo dos hipócritas, uma cara autêntica e outras falsas.
Tinha muitas caras porque era moço e porque eu mesmo não sabia
quem era e quem queria ser “.
(Milan Kundera, em A brincadeira)

É muito complicado definir o que o feminismo é ou não é. Como movimento social. Como significado individual. Como luta política. Como marco cultural. Nem vou tentar. Eu me disse feminista em 2010. De lá pra cá vi o alcance deste termo chegando em lugares e pessoas que eu não via antes (podia estar lá e ser cegueira minha, claro). E isso, penso, veio com (e trouxe) vários avanços. Um sensor mais atilado para as manifestações do machismo no nível macro e micro, por exemplo. A compreensão de que o individual é político.

Porém, ah, porém, essa última assertiva parece-me que vem sendo um tanto mal interpretada. Muita gente tem se dado o direito de se imiscuir na vida privada de outrens e, bem abancados ali, fazer julgamentos de base moral como se fossem crítica social. Criticar um moço porque ele é galinha é apenas moralista. Criticar um moço porque come mulheres e não dá notícia é apenas moralista. Criticar um moço porque parece legal, fala coisas afins com o feminismo e come muitas mulheres e some depois é apenas moralista.

Eu não estou querendo dizer que há pautas mais importantes. Estou dizendo que responsabilidade afetiva ou sei lá qual é o nome que chamam não deveria ser pauta. Somos seres de cultura. Somos seres de desejo. Somos sujeitos do inconsciente. E somos, homens e mulheres adultos, adultos. Ativos. Autônomos. Não se apoia, não se sustenta, não se valida a emancipação de uma mulher insistindo em uma infantilização afetiva. O desejo tem caráter social, mas não voluntário. Entender esta nuance é importante:

O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações. (texto, todo, aqui)

Um relacionamento não é abusivo porque outra pessoa nos passou um queixo fingindo (ou sentindo) interesse, trepou e depois se desinteressou. Um relacionamento é abusivo quando se usa um poder socialmente legitimado (seja ele financeiro, de gênero, de classe) para limitar a existência, a experiência e a possibilidade de outra pessoa. Eita, mas se a pesosa for escrota no relacionamento? Foi escrota. A gente se magoa e/ou fica puta e/ou ignora mas a gente sentir tudo isso ou uma dessas coisas não faz da outra pessoa um abusador nem do relacionamento um relacionamento abusivo. Do cara mentir pra trepar a mudar de idéia em relação ao que queria do vínculo há um mundão de coisas e nenhuma delas é abuso.

Mulheres e homens somos seres de falta e vamos nos foder nos relacionamentos. Isso não significa que está ok a pessoa mentir. Que está ok a pessoa sair correndo depois da trepada porque “acha que a outra pessoa vai se apegar”. Não está ok atropelar os sentimentos alheios. Vamos ser pessoas melhores, desenhar relacionamentos melhores, criar pessoas melhores, fazer filmes e canções com narrativas melhores sobre vínculos, etc. Vamos fazer do mundo um lugar melhor. Não porque seja machismo magoar a outra pessoa. Porque é legal, gostoso, sensual, delícia, confortável. E, mesmo assim, mesmo no mundo de pessoas gente fina, vai ter gente querendo, gente magoada, gente sozinha, gente ansiando, gente ignorando. Enquanto formos seres de desejo inconsciente, vai ser sempre foda.

Alguém vai ler e achar que estou dando biscoito, passando pano, etc. Ignoro, feliz, especialmente porque aposto que vão usar o termo “macho” na lacração – coisa que me faz desistir, de princípio, da interlocução. Eu vou continuar aqui, com bandeiras antigas,  incluindo aquela de que mulheres são gente, também. Para o bem, para o mal e para a dor de cotovelo.

Bastiana e o novo clip da Anitta

Eu estava pensando em biscatear por outras paragens, mas ontem a Anita lançou música e clip – que eu não ouvi nem vi, não é esse o cerne do post – e rolaram comentários desde “puta” – como ofensa – até considerações sobre a presença de celulite da sua bunda. Já falei sobre usarmos puta como xingamento e deixei claro que considero como absurdo tosco. Mas repito.

Chamar uma mulher de puta como se fosse ofensivo faz parte de um comportamento generalizado de buscar ofender mulheres considerando seu comportamento sexual (tem até nome em inglês, slutshaming). A sociedade apresenta um padrão moral ao qual as mulheres devem se submeter e que abrange itens desde o tamanho do decote até a quantidade de bocas beijadas, fluidos trocados, bares frequentados… e por aí vai. O bom e velho “mulher tem que se dar ao respeito” ou a versão disfarçada “sexy sem ser vulgar”.

Policiar o corpo e a sexualidade feminina é uma forma de controle, ainda mais violenta porque internalizada e reproduzida, muitas vezes, pelas próprias mulheres. Esta condenação do comportamento da mulher induz, muitas vezes, à culpa, vergonha e sentimentos de inadequação. Nós, mulheres, não devemos, não podemos. É feio, é pecado, é perigoso (e aí quando alguém é assediada, abusada, estuprada, sempre perguntam: mas onde ela estava? O que estava vestindo?) ter prazer com o próprio corpo, seja a aceitação estética do mesmo e suas particularidades, seja o usufruto sexual. É como se a dignidade feminina dependesse do seu comportamento sexual.

25442965_2021002711477200_1535780771263242994_n

Muitas mulheres procuram se adequar ao esperado, reprimem sua sexualidade, justificam a violência contra outras mulheres que não acatam o modelo… mas isto não as protege. O ideal de comportamento feminino é sempre além do alcance: amamentou em público? despudorada, pode ser ofendida; saiu tarde da aula e estava sozinha na rua voltando pra casa? fácil, pode ser ofendida; conversou com o amigo do seu marido, sozinha, enquanto ele chegava do trabalho? oferecida, pode ser ofendida. Mais ainda: cometeu um equívoco no trânsito, discordou do colega de trabalho, questionou a atitude de um homem? Mesmo que não sejam comportamentos ligados à sexualidade, é este o tópico que virá a tona na ofensa consequente: puta, rameira, vadia.

É fácil identificar o machismo presente quando se busca ofender mulheres tendo como referência sua liberdade sexual: é só reparar na discrepância de parâmetros para meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres. Pra quem se diz “cuidado, não sente de perna aberta”? Quem é depreciado por ter muitos parceiros sexuais? Quem é condenado por não se vestir decentemente?

Vez ou outra eu vejo, mesmo em meios feministas, que a liberdade sexual das mulheres deve ser “com moderação” porque mulheres sexualmente livres agradam aos homens (oi, heteronormatividade, você é insistente e insidiosa, né). Digo eu: necasquipitibiriba (sim, eu sempre argumento com fluência). Não existe liberdade sexual demais. Existe liberdade e ausência de liberdade (e, claro, ninguém é livre, a gente está livre em alguns aspectos e em outros, não, dinamicamente) e regular o comportamento de uma mulher porque ele pode agradar ou desagradar um homem continua mantendo o homem no centro das decisões.

Não é da conta de ninguém se eu uso decote. Não é da conta de ninguém se eu rebolo. Não é da conta de ninguém se eu trepo. Se estou querendo, se estou gostando, se o outro ou outros estão querendo, estão gostando, é só o que deveria importar.

E a celulite na bunda? Tenho. Opa, não era isso. É que consideramos que o corpo de uma mulher é disponível para nosso julgamento e escrutínio. “Os corpos das mulheres são públicos para serem tocados, narrados, rotulados. Seja o corpo desprezado, ridicularizado, marginalizado, os corpos gordos, deficientes, velhos; seja o corpo-troféu, magros, malhados, cirurgicamente tratados, duramente conseguidos, incensados na mídia. Os corpos das mulheres estão aí para serem questionados. De uma forma ou de outra, essa mulher está sempre errada” (texto, completo, aqui).

 Então eu não tenho nada a dizer sobre o clip da Anita – porque não vi. E não tenho nada a dizer sobre o corpo da Anita e o comportamento sexual da Anita porque não é da minha conta. Não é da sua conta. Não é da conta de ninguém, senão da própria Anita. “Mas os homens vão bater punheta com a bunda dela”. “Mas ela favorece a objetificação da mulher”. Uma dica: lutar pela autonomia da mulher é lutar para que cada uma de nós seja responsável pela nossa vida, pelo nosso corpo, pelas nossas idéias, pelo nosso comportamento. Não pelo comportamento do outro. Deve ter estratégia melhor de transformação estrutural do comportamento dos homens que inibir alguma ação de uma mulher.

Por fim, certa estava a Bastiana que decidia sobre suas roupas, seu corpo, seu comportamento tendo como critério o que era melhor pra ela: se facilita, tá bom.

Profana

Sempre ficava de butuca ligada quando ouvia falar sobre o tal sagrado feminino. Eu sei que tem gente que se liga nessa parada, mas sempre me pareceu mais do mesmo. Um convite a louvar e glorificar o que é “naturalmente” da mulher: a reprodução da força de trabalho. Essencialista (e, por tabela, transfóbico e homofóbico) e individualista (o “empoderamento” é pessoal e não relacionado a classes, raça ou outra variável construída sócio-historicamente). Conservador. Bom, né, alguém poderia argumentar que toda ação para “fazer” mulheres mais fortes, conscientes de si e se valorizando seria, nem que seja por isso, positivo. Aí eu digo duas palavrinhas só, só, só: Sagrado Masculino. Rá. A reboque: essência sexual, energias primais, ser primitivo e relação bondosa e consciente com as mulheres sagradas – achei paternalista, mas, né, quem sou eu no jogo do bicho – enfim e resumidamente: o homem potente, a mulher receptáculo-fértil. Achou familiar? (eu sei, eu sei, foram mais de duas palavrinhas).

Entretanto não tô na vibe de ficar aqui discutindo os equívocos de tentar relacionar o Sagrado Feminino com o Feminismo. Eu vim mesmo foi pôr meu carro alegórico na passarela e propor o Profano Feminino, Masculino, Andrógino, whatever. Uma vida e vínculos deliciosamente dessacralizados. Vamos desrespeitar normas e ritos. Vamos secularizar o corpo, o amor, os encontros. Vamos dessacralizar o respeito. Vamos construir valores éticos sustentados não por alguma coisa essencial e natural presente ou ausente no Outro, mas pela compreensão da alteridade, da humanidade do diverso, humanidade resultante de estruturas sócio-históricas e trajetórias individuais.

Do dicionário: o que é Profano? 1. Que não está de acordo com os preceitos religiosos. 2. Que desrespeita a santidade de coisas sagradas. 3. Que foge ao âmbito religioso; secular. 4. Que não tem a religião como propósito; mundano. 5. Que não faz parte de uma religião; fora do considerado sagrado. Sejamos mundanos, sejamos do mundo, das ruas, das esquinas, dos blocos. “Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão”. Sejamos sujeitos. Não porque alguma coisa essencial nos faz gente mas porque nos fazemos mais gente ao nos reconhecermos assim e assim reconhecermos o Outro.

Vamos nos permitir ser além de um modelo. Vamos nos inquirir. Vamos duvidar. “O corpo sou eu. Nem devia esclarecer, mas me antecipo: meu corpo sou eu, mas eu não sou meu corpo. Melhor: não sou só meu corpo. Mas ele me é”. Vamos acolher. Vamos nos acolher. Abrir mão de rótulos, caixas, designações e determinações que são necessárias para a demanda e afirmações de políticas públicas mas que podem ser despidas e esquecidas no riso, no abraço, no rala e rola, na cama, na festa, esquinas e caminhadas.

Viver corajosamente é profano. Viver livre é profano. Não aceitar a essência. Não aceitar o natural. Enfrentar, olho a olho, não a natureza humana, mas a condição humana. Aceitar a responsabilidade por nossas ações, escolhas, demandas. Não abrir mão do desejo, não projetá-lo, não nos submetermos a uma narrativa terceira do que somos e podemos ser.

Viva o feminino profano, sem culto, sem regra, sem norma, sem certo. Sem maiúsculo. Possível.

#FikaDika

Eu não curto muito respostas prontas. Generalizações, mesmo as bem intencionadas. Roteiros fixos. Vocês entenderam. Coisas como “10 maneiras de enlouquecer seu homem” ou “Como ser boa de cama”, então, passo longe. Mas, né. Justamente por evitar o extremo, hoje deixo uma mapinha.  Claro que o improviso e a iniciativa são importantes pra quem quer fazer trilha no corpo e fazer andar o desejo. Mas não custa dar uma mãozinha e oferecer sugestão para os incautos e incautas, pessoas curiosas, galera que deseja uma variada, etc. Vai que.

  1. Comece aqui:

2. Segure pela nuca. Firme. Mordisque o pescoço, desça até o ombro e suba novamente em direção à orelha. Divirta-se aí. Não seja pessoa avara nos carinhos e alcance a orelha oposta. No caminho pode mordiscar meu nariz ou esfregar o seu nariz na minha testa. Suspire alto, gema, faça sons. Desça até o ombro que ainda não tinha sido visitado. Uma das mãos pode manter-se no pescoço, a outra desce até a bunda. Agarre. Apalpe. Afague. Aperte. Faça meu corpo inclinar e beije com vagar onde a veia pulsa. Lambidinhas são bem vindas. As mãos podem, agora, dedicar-se às laterais do corpo. Desvendar curvas, reentrâncias, saliências. Lembre-se que é um corpo de mulher, não de menina. Agora, pode beijar a boca. Beije até que falte o ar e meus pés saiam do chão. Ou que eu sinta como se.

3. Passemos a um outro nível: molhe meus lábios, morda-os de leve e, a seguir, com força. Marque minha pele com seus dedos. Esfregue a língua nos meus dentes, prenda a minha língua entre os seus dentes, invada minha boca, explore-a, domine-a. Sua perna ainda não está entre as minhas? Grande equívoco, leve-a pra lá agora mesmo. Encoste-me em algum lugar: parede, carro, mureta, não importa. Roce. Pra cima, pra baixo, pra cima de novo. Está excitado? Ótimo. Eu estou sem ar, lembra? Beije os olhos, a testa, o rosto. E me vire de costas pra você. Uma mão na cintura, descobrindo meu umbigo; outra mão nos seios.

4. Faça o circuito costas. Ignore tecidos, afaste-os com dentes, sei lá. Ssaboreie a pele. Belisque o mamilo. Mordisque os ombros. Deslize a outra mão até encaixá-la em algum lugar morno. Eu vou arfar. Demore-se, não há motivo pra pressa (a não ser, claro, que estejamos no meio de uma rua movimentada). Sussurre ao ouvido. É aqui que perco o rumo, o prumo e o norte.

5. Permita-se. Permita-me.

Biscatear. É errado. É pecado. É crime.

revolucao

Eu não sou muito de me pronunciar a respeito de situações que envolvem crime, por vários motivos, a vida é complexa, a imprensa é tendenciosa e eu sou uma crítica do sistema penal. Mas não deu pra ficar quieta, vou abrir uma exceção pra esse caso.

Uma mulher foi presa, em Santos, por fazer sexo com dois homens. Não, ela não estava trepando com dois homens em um ambiente público e por isso foi presa – com eles – por atentado ao pudor. Nada assim. Ela foi presa por se relacionar com dois homens e um deles ter matado o outro. Ela não foi cúmplice. Ela não combinou o crime. Não há prova nenhuma que a implique com a morte do rapaz, mas ela foi presa quarta-feira pela manhã. A razão da prisão? Ela foi considerada pivô do crime apenas por se relacionar com os dois ao mesmo tempo.

Não tá dando pra entender? É porque não faz nenhum sentido mesmo. Vamos mais devagar. Ela trepava com um. Ela trepava com outro. E, quando estava com um deles se sentia à vontade para comentar o outro relacionamento que tinha. Pois para o juiz, isso é criminoso. Para o juiz, o fato dela comentar sua própria vida, sua satisfação ou insatisfação “causaram séria perturbação, trazendo reforço à sensação pública de que se vive em uma sociedade impune e eticamente apodrecida em seus valores morais como: família, fidelidade, liberdade e responsabilidade”.

Ou seja, é criminoso a gente exercitar nossa sexualidade se não for dentro de um padrão que o juiz reconheça como válido, com valores tradicionais. E o juiz não está sozinho, ah, não. Na imprensa ela já está condenada. Culpada pelo crime que outra pessoa cometeu porque, né, quem manda se dar ao desfrute? Afinal, olha que criminoso, ela procurava causar ciúmes nos caras! Ela comprava os desempenhos! Cadeia nela! Porque, claro, fetiche é coisa de homem, mulher não tem nem que pensar nessa pouca vergonha.

Não podemos trepar. Mas se a gente for trepar que seja no “santo matrimônio”. Se não for casada, pelo menos dê só pra um. Se, em último caso, for pra mais de um, seja escondido, seja em silêncio. Não deseje. Não goze. Não fale. Se cale. Se apague.

Por isso todas as vezes que eu leio textos cheios de boas intenções dizendo que ai-ai-ai-trepar-não-é-nada-demais-não-é-feminista-não-empodera-sei-que-lá-sei-que-lá eu tenho vontade de mandar catar coquinho. Trepar com desejo. Com tesão, com vontade, fazer o que quiser, se quiser, quando quiser, pôr (s)eu corpo na roda, passar o rodo é tão, tão, tão libertador e revolucionário que a sociedade esbraveja. E um juiz criminaliza.

 

Um Amor, Desses de Cinema

Eu não tenho um rosto devastado. Nunca tive um amante chinês. Não tive que proteger meu irmãozinho do ódio do outro irmão – a não ser que se conte uma ou outra birra minha mesmo. Não tinha, adolescente, um chapéu de homem. Mas, tal como a jovem de vestido de seda natural e sapatos de lamê dourado na travessia do Mékong, “muito cedo na minha vida era tarde demais”.

margue

E é por isso que, mesmo quando desenho corações no guardanapo, nunca esqueço que são de inverídica anatomia em transitório material.

Podia fazer promessas e acalentar esperanças. Podia construir castelos em nuvens. Podia falar finais e felizes e sempres. Podia dizer: fico. Seria sincero, mas não verdadeiro.

Faço as vezes de menina, mas serei sempre a velha que se balança na calçada a contar memórias de uma trapezista que voava sem rede, falando de lonas de circo que se abriam em céus e luas e estrelas, sem saber se as memórias são minhas ou do velho vinil de capa azul.

Ignoro os tempos verbais, os avisos, os abismos. Já esqueci como será te amar, repito, madrugada adentro, enquanto o oco se agiganta. E congelo sorrisos, caso sejam necessários para pôr sob o chapéu masculino, em um rosto, enfim, devastado.

Passado, Futuro e Um Pássaro no Peito

“O amor é um pássaro rebelde”

francesca-woodman

E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. São as suas histórias e as minhas histórias, são seus amores passados e os meus amores passados, que, presentes, possibilitam que esse amor seja.

“(…) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”. (Vinícius de Moraes)

Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Das conversas arrastadas. Das mensagens trocadas à distância. Dos pequenos mimos. Tenho inveja das coisas que nosso relacionamento deixou em você. O olhar mais terno. O silêncio mais cúmplice. As manhãs preguiçosas de pernas enroscadas. Os filmes na cama.

Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, digo eu, podia dizer saudade.

“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” (Bukowski)

Cicatriz

Tem o corte. Que mais arde que dói e vai daqueles mais superficiais aos que precisam de pontos. Se foi fundo, sangra e ficamos fracos. Depois do corte, uns dias de tontura. Não sabemos direito quem somos sem aquela parte lacerada, por que nos expusemos ao corte, por que ficamos, por que fomos. Por quê ainda queremos. Ou pior, nem queremos mas sentimos a noite vazia como se quiséssemos. Decerto é a perda de plaquetas. Ou hemácias. Ou dos projetos de futuro a dois, sei lá. Um copo de suco de goiaba e um misto quente diz que ajuda, como depois de doar sangue. Provavelmente à meia noite, sentada no ladrilho frio da cozinha, com um pouco de secreção balançando na ponta do nariz.

Às vezes o corte inflama ou infecciona. Aí é que dói de verdade. Lateja. Fica sensível toda a área ao redor. “Poxa, não fala em X porque parece com Fulano”. “Ah, ele gostava/praticava/era de X?” “Não, não, ele gostava/praticava/era de Y, mas Y é quase parecido com X…”.  Mas não entreguemos os pontos, a inflamação é o corpo reagindo. Os leucócitos tentando garantir alguma saúde. É um pouco melancólico lembrar que muitos deles morrerão no processo. Bom, mas dizia eu, os leucócitos precisam de tempo para fazer seu trabalho.

Vem o tempo, passa o tempo, traz alívio e casquinha. Que protege, mas só se. Se a gente não coça. Se não esbarra em alguma coisa. Se não roça com a toalha de banho. Se não vê no bar da esquina, se não esbarra por acaso no samba, se não percebe online no messenger, se não precisa encontrar pra tratar de alguma coisa importante como a divisão dos LPs. Quando qualquer uma dessas, magoa. Magoar a ferida é osso. Dependendo, começa tudo de novo, da hemorragia ao risco de infecção. Mas a gente torce que não, ferida quase secando.

A casquinha insiste e por baixo dela, o corte vai deixando de ser. Já não lateja. Já não perdemos sangue, já não ficamos fracos. Nem percebemos mais a luzinha verde entre tantas outras pessoas online e chegamos no bar sem fazer o rastreamento de identificação em todas as mesas. Passou. Não arde, não dói, não sangra. É quase como se não tivesse sido. Passou. E não. Já não há corte, é certo. Mas também não há a integridade antiga do corpo. Aquele risco branco na pele é história.

cicatrizes

PS. Se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção:

Sugestões para um agosto mais Biscate

Texto com dicas também de
Renata Lins, Lis Lemos e Raquel Stanick

Um beijo no meio da rua. Papear com a cadeira na calçada. Conversar virando madrugada. Roça-roça no pé do muro. Sexo matinal. Banho de mar sem roupa. Dormir sem roupa. Praticamente qualquer coisa sem roupa. Mandar beijo pra lua cheia. Morder, voraz, uma manga suculenta. Sexo oral. Servir ou sorver uma bebida gelada. Aos golinhos. Lamber sorvete que derrete escorrendo na casquinha. Rir junto. Rir muito. Rir alto. Gargalhar. Postar gif de putaria. Beijar de língua na balada. Enviar nudes desejados. Rapidinha. Entabular conversa despudorada, dada, danada na fila do banco. Dizer sim. Escrever mensagens eróticas. Deixar em guardanapos. Com marquinha de batom. Ver um filme. De preferência, no escurinho do cinema.  Ou no colo de alguém. Masturbação. Masturbação a dois. Passar um café. Fazer um pão. Ou um bolo. Ou uma careta. Suspirar. Tomar banho de chuva. Girar, braços abertos, olhos fechados. Dançar sem música. Mandar mensagem pra os amigos. Aproveitar aquele óleo meio esquecido e fazer uma massagem no seu próprio pé. Ou em qualquer outra parte sua (ou alheia) que rolar. Acolher o inesperado. Divulgar os posts do tumblr do biscatesc. Cantar no chuveiro. Na rua. No pé do ouvido de alguém. Ler O Amante. Ou Hilda Hilst. Fazer um strip tease pra alguém. Que pode ser você mesma. Olhar de lado. Flertar no ônibus. Andar descalça na areia da praia. Ou na grama. Ou no cimento frio. Molhar os pés. Deixar as ondas lamberem a pele. Soltar o cabelo. As asas. A franga. Pintar as unhas, Ou o sete. Fazer uma listinha de música com cara de trepada. Enroscar pés – com meias, caso faça frio. Derrubar forninhos. Fazer uma coisa nova. Fazer o mesmo de sempre que apetece. Provar. Experimentar. Repetir. Dar.

como viver

E as suas sugestões? Coloca aí nos comentários, vai…

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...