Sexo, Idade e o Absurdo

Há um momento em “E o vento levou” em que o galã, Reth Butler, meio agoniado de não conseguir a atenção da não tão mocinha Scarlett, pergunta: “Você já pensou em casar só pela diversão?” e ela, entre surpresa e desiludida, responde: “Besteira, diversão é só pra homens”. Vejam bem, essa fala veio de uma personagem mulher em um filme que retrata a Guerra da Secessão Americana e o período logo a seguir, ou seja, por volta de 1865. Uma mulher, nessa época, seria educada pra reprimir seus desejos, pra subestimar seu prazer. Além disso ela foi casada primeiro com um moço demasiado jovem e inexperiente e posteriormente com um personagem mais velho e aparentemente não muito atento a satisfação da esposa. Nada mais razoável do que uma personagem assim considerar a diversão e o prazer do sexo como exclusivos dos homens. Pra sorte dela, o moço Reth a ajuda a perceber que essa idéia é um equívoco e que devia ter gozo pra todos os envolvidos no rala e rola.

Desde 1865, vamos combinar, muita água já passou por baixo da ponte, tivemos o Relatório Kinsey, a pílula anticoncepcional, tem gente cantando alegremente: “a porra da buceta é minha”, a Marcha das Vadias está na rua, o aborto é legalizado em vários países, há uma compreensão maior do papel do clitóris no orgasmo, tem muita gente envolvida na busca do Ponto G, já se fala em pornografia direcionada às mulheres e por aí vai. Temos até um blog que tem BISCATE no nome, né? Dá pra imaginar que a fala da Scarlett, “diversão é só pra homens”, está totalmente superada, não? Claro, a gente sabe que sempre tem um ou outro mais antiquado, mas as pessoas bem informadas já ultrapassaram isso… Bom, detesto partir o coração de vocês, mas não, não superamos não.

Se tivéssemos superado não teríamos uma decisão, vinda de um Supremo Tribunal de um país teoricamente de Primeiro Mundo, “europeu e esclarecido”, deliberando que uma indenização destinada a uma mulher (por conta de um erro médico que a impede, entre outras coisas, de trepar) deve ser reduzida porque, ATENÇÃO, sexo não é uma coisa relevante para uma mulher de 50 anos. Eu reli pra ter a certeza de que não tinha entendido errado. Mas é isso mesmo: juízes decidiram reduzir uma indenização a ser paga por um hospital por causa de erro médico porque, no entender deles, mulher de 50 e tais anos não tem que ficar de saliência, afinal, nem vai ter mais filhos mesmo. MAS, GENTE, QUE ANO É HOJE?

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Leiam e chorem, amiguinhos: “O Supremo Tribunal Administrativo reduziu o valor da indenização que a Maternidade Alfredo da Costa tem de pagar a uma mulher que ficou impedida de voltar a ter relações sexuais com normalidade depois de ali ter sido operada há já 19 anos. Um dos argumentos invocados pelos juízes, com idades entre os 56 e os 64 anos, é o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, isto é, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Tal decisão traz, inequivocamente, uma visão utilitarista da sexualidade feminina. Sexo, pra mulheres, deve ser para procriar. O corpo feminino serve, a princípio, a terceiros. Como incubadora, prioritariamente. Ecoa a fala da Scarlett: Diversão? É só para os homens. Como bônus, temos a acompanhar mais um elemento da visão machista sobre a sexualidade feminina: uma mulher não é pra se dar ao desfrute, imagine uma mulher velha! Afinal, sexo é uma coisa para corpos femininos jovens, que possam ser devidamente objetificados. Além de incubadora, um objetivo secundário: ser parque de diversão pros homens. Bobagem nossa achar que sexo tinha relação com o prazer que a pessoa, em seu corpo, com formato e idade que tivesse, podia obter no processo.

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Depois de ler essa notícia que me chocou, entristeceu e revoltou, fui fuçar no google. Sabe como é que é, coloquei, em diversas combinações, as palavras: sexo, mulher, velhice (só façam isso em casa se tiverem o estômago forte). Não, o choque, a tristeza e a revolta não foram embora. O que eu li foi uma sucessão de textos que naturalizavam, justificavam ou mesmo preconizavam a redução da vida sexual das mulheres com o passar dos anos sem nenhum questionamento do papel da cultura, da mídia, dos valores nesse processo (não estou falando dos artigos acadêmicos, mas de matérias de portais, posts em blogs e sites ditos femininos). Nenhuma interrogação. Alguma lamentação, muito conformismo, uma e outra dica. E, na minha cabeça, um monte de temas completamente ignorados nas publicações. As mulheres mais velhas fazem menos sexo  e, muitas vezes, quando o fazem, não aproveitam nem se satisfazem e isso não causa nenhuma coceirinha no juízo de vocês? Tipo autoimagem, autoestima, padrões de beleza, a mitificação da mulher como ser sem desejo, a supervalorização da relação entre sexo e amor para as mulheres, o desconhecimento do próprio corpo, a pouca prática da masturbação, a vinculação entre sexo e procriação… nada disso, sério mesmo, é sequer mencionado quando se fala em sexualidade feminina na terceira idade? Só diminuição da lubrificação, desconforto e bola pra frente, tem outras atividades que podem ocupar o tempo? Pronto, pra que falar mais sobre o assunto?

Então, eu não sei vocês, mas eu pretendo falar muito sobre o assunto. Perguntar. Me indignar. E continuar afirmando, em palavras e ações (de preferência mais ações que palavras #intençõesbiscates), que a relação entre idade e sexo não deve ser necessariamente de “quanto mais A, menos B”, seja em quantidade, qualidade ou, mesmo, vontade. Nossa sociedade imediatista, focada na juventude, machista, cristalizou a ideia de que as mulheres, ao envelhecerem não são mais desejáveis (e, claro, nunca desejantes, a não ser que sejam essas, essas, essas…biscates, que não se dão ao respeito) e é essa ideia que, acho eu, precisa ser desconstruída pra que absurdos como a decisão do Supremo Tribunal Administrativo português não continuem sendo regra no nosso cotidiano.

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PS. Para além do sexismo clamoroso eu suspeitava que a decisão compreendia, também, um forte componente de classe. Ali, escondidinho discretamente na matéria, temos a informação de que a vítima do erro médico era uma empregada doméstica. Sem mais elementos, não coloquei esta discussão no meu texto. Os elementos surgiram, (ieba) nesse texto que nos dá ainda mais pra pensar, “O sexo e a idade” de João Taborda da Gama: “em 1998, um “administrador de empresas” retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o “administrador” ficou incontinente e impotente. Ao senhor “administrador” “com quase 59 anos”, o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem “social e financeiramente bem-sucedido na vida” que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.

Bem Maior

“O maior inimigo do bem é outro bem maior”
(Quevedo)

 Eu sou do time que não espera nem acredita em um bem maior (oi, tem mais alguém aí?). Não acredito em finais felizes, em fim da estrada, em linha de chegada. Não acredito no fim das mazelas, no mundo perfeito, no enfim, em alcançar o horizonte sonhado. Eu sou das miudezas, indo da gentileza de desconhecidos à busca da regulação social crítica e contínua. Sou da busca do melhor possível, agora e já. Pras pessoas do hoje. Acho que a valorização do bem maior pode trazer, junto, a noção de que o que se é feito pra atingir aquele bem, mesmo que machuque alguém no caminho, tá valendo. Bom, eu acho que não está.

E é por isso que sou implicante. É por isso que pergunto, que me pergunto. É por isso que não, não acho que as boas intenções devam ser o meu critério último. É por isso que me apego ao dito. Não ao que a pessoa quis dizer, mas o que ela disse. E porque disse. E a quem disse. E me pergunto e me apego ao como ouvimos. E porque ouvimos alguém e não o outro. E todas essas implicâncias que me fazem parecer mesquinha e tacanha e limitada (e não nego que posso ser – ora, que muitas vezes sou – isso aí mesmo). Porque acredito que a materialidade das relações passa e é ultrapassada pela linguagem (e, dialeticamente, a linguagem é construída na e pela materialidade). Eu não sou condescendente porque eu não vejo a vida melhor no futuro, eu quero que ela seja, hoje e agora, menos dolorida.

Por outro lado (ou pelo mesmo, nem sei), um dos meus compromissos comigo mesma é exercitar um olhar generoso. Um olhar generoso pra mim. Pros outros. Não julgar a pessoa (tem relação com esse texto que escrevi no BiscateSC). O olhar generoso implica em não nomear ou rotular a pessoa. Suas ações, suas ideias expressas, sim, me permito e acho necessário discutir, criticar, mas não limitar a pessoa a isso que fez ou disse ou aparenta. O olhar generoso lembra que somos mais, bem mais que um dos nossos aspectos, mesmo o mais admirável ou hediondo. Nem sempre isso é bem entendido. A gente diz: sua atitude foi machista (ou homofóbica, ou racista, ou transfóbica) e a pessoa entende que estamos dizendo que ela é assim. Cristalizada. Quando a vida é tão dinâmica, né. Não é uma questão de etiquetar, mas de problematizar. E, acho eu, ouvir é sempre um bom negócio. Antes de se sentir chateado, ofendido, antes de retorquir, tentar ouvir. E aquele lance lá de cima: saber quem fala, de onde e tal. Reconhecer que somos socializados pra repercutir opressões é um outro passo necessário, acho. Reconhecer que por mais que a gente se esforce, vamos enfiar o pé na jaca muitas vezes. Reconhecer que por mais que a gente tenha sofrido uma injustiça, uma violência, uma ofensa, isso não apaga ou anula os tantos outros privilégios que temos. Reconhecer que o que nos parece uma resposta desproporcional muitas vezes é a resposta de quem recorrentemente passou e passa por uma situação violenta que repetimos mesmo sem querer. E que não é porque eu “não quis dizer/fazer isso desse jeito” que o que foi dito/feito não ofende, não dói, não machuca.

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Acho que tão ou mais importante que ter em mente a meta é cuidar da estrada e do passo. Olhar pro lado, aproveitar a viagem e as companhias. Curtir os meios. Cuidar deles. Fazer mediações. Parar de vez em quando, revisar rotas, olhas mapas, recriar percursos. Descansar. Celebrar os avanços.

Eu caminho devagar. E, às vezes, paro pra respirar. Errei e erro muitas vezes. Mas vou tentando. Sigo tentando. Porque eu não quero chegar naquele horizonte idealizado, não me submeto ao bem maior, mas acho que caminhar até um encontro no bar da esquina, inclusivo, reflexivo e biscate, é bem atraente.

Reflexões Biscates

Por Thayz Athayde, Biscate Convidada

Próximo ano serei uma mulher balzaquiana. Sim, farei 30 anos. E não estou reclamando, tô achando bom, curtindo e achando gostoso. E aí que eu fiquei observando minhas sobrinha e irmã, que estão na faixa dos 15 anos. As duas já conhecem o feminismo e isso faz com que elas tenham acesso a debates e reflexões que eu não tive nos meus 15 anos. Então, fiquei pensando como teria feito as coisas se tivesse conhecido a biscatagem e o feminismo antes, se eu teria feito as coisas de uma forma diferente.

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Não se engane: eu aproveitei muito quando era adolescente. Mas, eu não tinha coragem e o empoderamento suficiente para entender que ser biscate é… bom! E então, eu aproveitava a vida, me divertia, mas a noite eu sentia aquela culpa. Aquela culpa chata por não ser uma mulher santa. Não tinha força suficiente para dizer para todos os amigos e amigas que sim, sou biscate e não tô nem aí para o que você pensa.

Se tivesse me assumido como biscate, eu teria feito sexo muito mais gostoso. Teria feito o sexo que faço hoje, o sexo sem culpa. Teria ficado com mais meninos e meninas, que eu não tive coragem por achar que “o que será que vão pensar de mim?”. Não teria ficado ou feito sexo com algumas pessoas, justamente porque ser biscate é saber o que deseja. E seguir seu desejo também passa por dizer não. É também decidir quem pode te tocar e quem não pode.

Teria menos vergonha do meu corpo, me sentiria muito mais bonita. Me sentiria livre muito mais vezes e insegura menos vezes. Teria ficado nua mais vezes. Teria admirado meu corpo e me deixaria ser admirada. Saberia que para ser bonita e gostosa não é preciso estar dentro de um padrão de beleza.

Teria me desculpado menos por quem sou e teria aproveitado as relações de uma forma bonita, intensa e almodovoriana, como a vida deve ser. Teria entendido que uma relação para ser boa não precisa ser necessariamente longa ou monogâmica. E para ser ruim não precisa ser longa e nem monogâmica. Só precisa de duas pessoas. Três. Quatro. O número que sua imaginação quiser.

Entenderia que uma relação é feita muito mais na confiança em si mesma e no olhar bonito ou cruel que você tem sobre si. Ainda viveria todas as dores, choros e noites mal dormidas, afinal, essa é a parte almodovoriana da coisa e eu sou especialista nisso. O sentir passa por viver as sensações, mesmo que seja de tristeza. E por que não chorar? Por que não vivenciar?

Teria ficado com mais mulheres e esquecido toda aquela culpa. Não entendia como poderia sentir atração por homens e mulheres. Sentia-me esquisita por isso. Não é esquisito não. É bom, é gostoso e não há nada de errado nisso. Teria me assumido bissexual muito mais cedo. Teria entendido todos os meus desejos e pensamentos com mulheres como algo tão comum quanto meus pensamentos em relação aos homens.

Talvez o meu relacionamento hoje seja tão gostoso porque eu aprendi todas essas coisas. E quando vejo garotas cada vez mais cedo se assumindo feministas e biscate eu penso: uau! Ela não vai passar pelas mesmas coisas que passei. Então, isso aqui é um recado de uma mulher que aproveitou e se divertiu muito, mas que teria se divertido e aproveitado muito mais se tivesse deixado biscatear. Você não precisa ser santa. Não precisa ser puta. Você não precisa ser nada. Só permitir-se sentir. Não importa com quantos meninos e/ou meninas você fica. Não importa o olhar de rejeição que você recebe. Eu sei que é difícil entender tudo isso, mas se você precisar de apoio tem um monte de biscates aqui pra te dizer que tudo isso é ok, e que vai ficar tudo bem.

euA Thayz é bi: bissexual e biscate. É também feminista, almodovoriana e babadeira, ela quer mesmo é desmontar as ideias montadas

Peitos

Eu tenho peito. Dois, inclusive. Grandes. Gosto deles, um bocado. Mas, alerto, eles não são atestado nem condição do meu ser mulher. Tem mulher com dois peitos, mulher com um peito, mulher sem nenhum. Mulher que nunca teve peito. Mulher que nunca teve peito e colocou. Mulher que teve, mas tirou. Tirou tudo, tirou só um pouquinho. Mulher com peito grandão, mulher com peito miudinho. Mulher com silicone nos peitos. Ou mesmo com peito só de silicone. Mulher com peito que tem mamilo saltado. Ou mamilo invertido. Mulher com peito em desenvolvimento. Mulher com peito murchinho. Mulher com peito que aponta a lua, mulher com peito que roça barriga. Mulher com peito no sutiã, com peito soltinho, mulher com peito na memória.

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Sabe o que esses peitos e corpos, todos, tem em comum? Não existem pra o nosso escrutínio. Não existem para terceiros terem prazer, embora, peitos e/ou corpos, generosamente, às vezes o façam. Não existem para ser julgados. Nossos corpos não existem para. Eles são. E é por isso que repudiamos esse vídeo da Campanha da Nestlé contra o Câncer de Mama, que, em palavras livres, diz pra gente: “mantenha seu peito saudável que o mundo tá de olho”. Não cuidamos dos nossos corpos para que eles sejam vistos e examinados pelos outros. Se o fizermos é por nosso prazer e saúde. Sem mencionar a culpabilização da mulher totalmente mastectomizada e o recado implícito que, se ela não tem peito, seu corpo está “fora do jogo”.

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O ser mulher não está no nosso peito. Nem no cabelo, unha, buceta. Ser mulher não está em nenhum lugar do corpo que se possa apontar – e julgar. Relacionar o foco do cuidado e da saúde com avaliação social compromete a campanha e machuca mulheres que já passam ou passaram por processos dolorosos, o temor de perder a vida, a mudança na auto-imagem, os ajustes nos relacionamentos e tantas outras coisas que sequer podemos, de fora da situação, dimensionar.

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Então, sim, apoiamos e divulgamos a ideia de que é preciso atenção com a saúde dos seios, o auto-exame, que as pessoas com peito devem estar atentas ao diagnóstico precoce do câncer de mama. Mas repudiamos qualquer naturalização de gênero relacionada ao processo e toda e qualquer legitimação da objetificação do corpo nessas campanhas.

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Então, pessoas com peito, vamos nessa: meu corpo, minhas regras, meu cuidado. Vamos se tocar ;-)

Separação e Sofrimento

Por esses dias vi, na TL de uma pessoa querida, esse link que rendeu uma boa conversa. Uma fotógrafa registrou mulheres depois do fim de um relacionamento. E é tão bonito na imensa tristeza e melancolia que transmitem. Esteticamente encantador.

Dá pra lembrar tanta coisa bonita assim, nesse mote, né? Elis Regina cantando Atrás da Porta, o livro A Dama das Camélias, o filme sobre Camille Claudell, Fafá de Belém batendo a real em Abandonada. Sem falar na loucura de Ofélia. Pra completar temos as incontáveis matérias em revistas femininas tratando do tema: como a mulher pode abandonar a tristeza do fim de um relacionamento, como superar, dar a volta por cima, etc, etc, etc. Se você colocar no google: “mulher fim relacionamento” vai ver a profusão de resultados.

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Daí que me bate a inquietação. Essa narrativa única que relaciona mulheres e sofrimento no término das relações. Onde estão os outros sentimentos? E não digo só o riso, embora ele também. Onde a raiva? Porque tão poucas Medéias? Onde o prazer da liberdade? Onde o alívio? Onde o medo do futuro? E, claro, a fotógrafa não tem obrigação de dar conta de todos os registros, já não estou conversando sobre este trabalho especificamente. Mas entender que este trabalho se inscreve em uma tendência majoritária de tratamento do tema. O discurso geral, homogeneizante, uniforme e autorreferente é: as mulheres sofrem no fim dos relacionamentos. Parece que esse é o único caminho, o único sentimento possível para a mulher: lamentar o fim do relacionamento. E, aparentemente, como passiva. Porque tanta tristeza só faz pensar que ela não decidiu. Foi decidido por ela. Objeto da solidão e não sujeito dela.

Não é que eu esteja negando o sofrer. Eu também sofro, às vezes. Eu escuto Maysa, eu canto Dolores Duran. Eu assisto Casablanca e Suplício de uma Saudade com o propósito específico de reviver a solidão e dar sentido à ausência.  Não sou nada contra a estética da dor. Nem questiono a identificação. Mas eu acho cruel que seja a narrativa não só principal como única que se possa ter de um momento do relacionamento. E acho que é o ampliar das possibilidades de sentir que enriquece a vida. Porque o registro: mulher que sofre por ser deixada sozinha é, não só o registro mais escolhido para ser feito mas também o mais divulgado. Não precisamos reivindicar espaço para a tristeza, ela já é a norma.

Eu estou pra ver o foco de fim de relacionamento pra mulher no cinema, na música, nas fotografias que não seja essa ideia aí de solidão e dor e sofrimento, E, olha, digo por experiência própria que nem sempre é tristeza. Mesmo quando o relacionamento era bom. Especialmente quando era. Pode ser riso, inclusive conjunto. Mas não achamos que seja porque não aprendemos que pode ser assim. Não há, significativamente, fotos, relatos, músicas nem filmes que desvelem outras possibilidades. A narrativa única é que me irrita. Porque molda. Porque faz com que as mulheres acreditem que TEM que ser triste primeiro pra depois ser riso. Não tem não. Pode ser alívio, pode ser reencontro, pode ser qualquer coisa. E mesmo quando é tristeza tem intervalos. Mesmo na dor e na angústia tem o abraço do amigo, as compras de calcinhas novas com a amiga, tem a trepada casual do fim de semana, tem aquele riso leve diante da salada de frutas com sorvete, tem sair pra cortar o cabelo. Tem vida. Tem respiros e não só o encarar o vazio e chorar na cama. Como a gente pode aprender outro lugar se só nos oferecem esse?

Claro que ninguém chega pra uma menina e diz que romper dói e ensina: olha, menina, você vai ser mulher e vai sofrer sozinha sempre que acabar um relacionamento. Mas ninguém chega e diz pra gente que tem que ser magra, alta, branca, jovem e de cabelo liso pra ser bonita e desejável, assim como ninguém chega e diz que mulher direita não goza – e mesmo assim a gente aprende isso. Porque é o que está por aí, no senso comum e representado esteticamente. Porque eu acredito que a gente vai dizendo o que aprendemos a dizer e a sentir, né? Pelo menos a maior parte das experiências não é de admoestação direta. É de construção simbólica. Então o “nosso sentir” não é um dado de essência imutável. É uma construção subjetiva a partir de narrativas sociais e vivências.

Não estou dizendo que sofrer não tem espaço e razão de ser. Claro que sim. Doer faz parte de ser humano. A falta é estruturante da nossa subjetividade. Sermos incompletos é, justamente, o que nos faz ser – e as experiências de separação são o reviver dessa angústia. Mas o sofrimento não é o único sentir proveniente dessas experiências – mas muitas vezes é o único que aprendemos a nomear e a dar concretude. E aquela borboleta na barriga? Alívio? Excitação? Curiosidade? Alegria? E tanto espaço, tanta vida pra viver, que outros sentimentos nos podem acompanhar? O que podemos escolher, para além do que já escolheram pra nós?

Pra mim é como o lance da beleza. Tem que ter opção. Tem que ter todo tipo de corpo nas capas de revistas, tem que ter todo tipo de rosto nas telas, tem que ter todo tipo de gente pra gente poder sentir, verdadeiramente, que nosso corpo é válido. Tem que ter pintura, filme, fotografia, música, cartaz com mulher vivendo as separações de várias formas para além do sofrimento pra gente poder aprender que nosso sentir é verdadeiramente válido e aceitável.

Reinventar a narrativa. Ser protagonista. Escolher o riso e o bom. Minha bandeira.

Pulso

Ele segura sua mão. Ela, deitada, enfraquecida, muita pele, muito osso. Dor. Muita dor. Ele chora. Ela, não. Ela não produz mais lágrimas. Produz ausência. Lembranças. Ele lembra: o riso, sempre. O primeiro beijo, tudo errado, dentes batendo, línguas demais. Tesão. Ele lembra o choque de desejá-la tanto que teve que se afastar pra não gozar só encostando nela, esfregando nela. Lembra os seios, jovens e duros, depois macios e pesados, ainda mais depois, saborosos e moles. Sempre dela. Sempre bons. Lembra a pele enrugando e a mão dele se perdendo nos cantos quentes: entre os dedos, a curva do pescoço, atrás do joelho, entre as coxas, o cu, a buceta molhada. Sempre pronta, ela dizia. Sempre foi verdade.

Lembra as certezas que teve: pra vida toda. Só não sabia é que, mesmo toda, a vida também acaba. Lembra de esquecer a felicidade mas, em fragmentos, ela o machuca. Lembra as conquistas que avaramente empilhava e ela sempre tratava de zombar, ele fazia o inventário de sua felicidade e ela espalhava em ventanias de desassossego. Lembra que sempre queria mais e ela sempre tinha mais pra dar.Lembra a trepada no banheiro do restaurante. Lembra as viagens de carro e o sexo oral que ela lhe fazia com olhos risonhos. Lembra a intimidade em casa, o natural andar nu e, de repente, o pau latejava, ela ria adivinhando a necessidade dele. Lembra as mudanças: papaiemamãe, de quatro, de lado, ela cavalgando, ele invadindo, em pé, sentados, lenços, óleos, bolinhas, de quatro, papaiemamãe. Lembra os dias em que não saíam de casa, o sexo fazendo às vezes de comida. Lembra o mês inteiro sem trepar, a mãe dela doente, ela sofrendo junto, ele sofrendo com ela. Lembra as perdas, todas as perdas que eram vazios maiores que o espaço do seu abraço.

E, claro, lembra o rabo. Que bunda, senhor, que bunda, ele a enrabava sempre que podia, ela fazendo doce, aiaiai e oferecendo e pedindo e mandando. Enfia. Sim, ele lembra, ele pensa, mais, mais e ela sempre tinha mais pra dar. Lembra as mãos dela tocando, agarrando, movendo-se, firmes, fortes, quentes. Lembra a língua dela deslizando no seu corpo. Lembra os dedos dele se enfiando entre as pernas dela a qualquer hora. Quente. Molhada. E, agora, ela quase não está mais lá.

Ele segura sua mão pra que ela não parta sem que ele saiba. Não, ele segura sua mão para que ela não parta. Ele a quer, tanto. Ele, em pontadas, reconhece sua fome. Será?

Vira a mão que segura com zelo e beija o pulso que acelera quase imperceptivelmente. Ele sempre a tirou do prumo. Ele a olha. Olhos entreabertos, respiração difícil, osso, pele, dor. Ela adivinha. Sempre soube do tesão dele no momento mesmo que. Quero. Querida, tem certeza? Quero. Ele sobe na cama de hospital, alta demais, estreita demais, não importa. Ela está nua, coberta apenas pelo lençol. Ele se coloca entre as pernas dela, as mãos não se demoram, o dedo procura os lábios, grandes e pequenos, afasta-os: quente, pronta. Ela: eu disse que queria. Ele ri, precisava ter certeza. Curva-se, com uma certa dor nas costas, a idade pesa nele um pouco menos, mas também já chegou. Desajeitado, repete o beijo. O primeiro. O errado. Línguas demais, dentes batendo, vontades que não se pode dizer. Que nem mesmo se devia sentir. Mas ela sabe, sempre o soube antes dele aceitar o querer. Afasta a coxas e a faz dobrar os joelhos, porque ela já não tem forças. A língua já conhece os caminhos. Primeiro os grandes lábios, sem pressa. Pra cima, pra baixo. Com força, leve, leve. Beijos. Sugar, sem força. Ela arfa. Ela ri. Ou não é riso isso que acende lágrimas no olho dele? Ele para. Não, não, continue. Ele entrelaça a mão com a dela, e dirige-se aos pequenos lábios. Mais delicadeza, mais prazer. São brancos os poucos pelos que restam. Ele sopra, quente, uma brincadeira de sempre. O clitóris chama. Pulsa, avermelha-se. A língua desliza, certeira, e pressiona. Ele beija. Chupa. Lambe. Roça o queixo, flácido, no sexo dela. O dedo entra e sai, entra e sai, entra e sai. Ela soluça. Leva a outra mão dele com esforço até a boca e, num movimento firme, chupa o polegar. Ele também arfa, meio sem ar. Ela sempre soube deixá-lo tonto. Ele, mais rápido, dedo e língua. Ela, mais firme, com mais fome, polegar. Ele chora. Ela não. Não produz mais lágrimas. Gozam. Ela geme, ele já não sabe se de prazer ou da dor que é sempre dela. Ela vai embora hoje, ele sabe, ela sabe. Ele desliza pra fora da cama, pega um copo d’água, senta e segura, mais um pouco, a mão dela. Beija o pulso, mas já não há.

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Sobre Ontem a Noite

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Oi, amiga…pode falar? Sim, eu sei que você sempre me escuta, mas é tão cedo. Não, eu não dormi ainda. Deixa eu te contar. Ontem fui àquele bar, aquele que toca blues direto e tem decoração com cinema dos anos 30 e 40. Pois é, também adoro aquele lugar. Tava, tava cheio. Eu fiquei de papo com o pessoal da sinuca, todo mundo elogiando meu corte de cabelo, nunca pensei que ia ser essa revolução. Se soubesse tinha feito isso antes, né. Hein? Sim, ela estava lá e perguntou por você. Affe, não sei porque vocês não se arrumaram ainda, tá na cara que ela também está a fim. Tá, deixa pra lá. Enfim, eu ia te contar é que  nessa hora aí ele chegou. Sim, aquele. Você sabe que basta olhar pra ele pra minha calcinha ficar molhada. Lembra que te contei quando a gente se conheceu? Foi naquela festa da barraca de praia. Foi quase. Só lembro da gente dançado quase sem música, naquele fim de festa, nem era mais dança, né, a gente só se roçava, aquela mão enorme e quente passeando nas minhas costas, agarrando meu rabo, a outra segurando minha nuca pra eu não desviar os olhos dos olhos dele, eu sentia os mamilos tão duros que chegavam a doer…ai, tá vendo, já estou ficando com tesão. Aí, depois, aquele moço sem sal veio dizer: ah, cê acha que ele é homem? nem pau ele tem. Dá dó. Amigo, se você acha que sua masculinidade tá no funcionamento do seu pênis que pequeno que é você. Alguém devia contar pra ele que tem sexo sem penetração, né? Mas, enfim, eu tava falando era do meu gostoso. Ele ontem chegou naquele jeito festeiro e zuado. Mas um zuado tão delícia. Lembra aquele dia que a gente se cruzou na entrada do cinema? um monte de gente passando aí ele veio se chegando, se chegando, conversando abobrinha, tocando e, quando vi, eu estava encostada na parede, ele com a perna bem entre as minhas, esfregando pra cima e pra baixo, brincando com a ponta do meu cabelo e me contando sei lá o quê. Quando ele foi embora eu era incapaz de reproduzir uma única palavra do que ele disse, mas poderia descrever minuciosamente, em um tratado de 200 páginas, o que significa desejo. Ai, amiga, eu só queria esse homem em cima de mim. Por horas. Dias? Aquelas mãos, aqueles dedos, aquela língua…Affe, até desconcentrei. Assim eu não termino de contar nunca. Então, ele chegou e foi falando com o pessoal, eu não desviava os olhos. Até que ele me viu e acenou com a cabeça. Puto. E ainda deu aquele sorrisinho de canto de boca que eu acho uma glória. É claro que todo mundo adora o safado e, daqui a pouco, já estavam chamando pra nossa rodinha. Vontade de correr. Pra cima, claro. Ele veio, bezadeus, que saúde. Foi cumprimentando as pessoas, dando beijinho nas mulheres, aí sabe o que o sacana fez comigo? Não beijou, nada disso, pegou aquele queixo maldito dele e ficou esfregando no meu rosto…no rosto todo, mulher! O queixo dele na minha face, na minha boca, nos meus olhos…eu só faltei gemer alto. E a mão dele “sem querer” esbarrando nos meus peitos. Sei, sem querer. Eu, pelo menos, queria mesmo. Inclinado pra mim, tudo que ele queria me dizer tinha que ser ao pé do ouvido, desde perguntar se eu queria mais cerveja até dizer que tinha gostado do meu cabelo curto porque minha nuca à mostra era sensual como seu eu estivesse nua. Eu, puta. E excitada. Ele tirando meu prumo com a voz tão rouca. Daí ele disse que tinha muito copo na mesa e passou a beber do meu copo. Foi sexy, sabe? Que boca aquele homem tem. Ms, né, nem fode nem sai de cima: não trabalhamos. Pensei eu, com meus botões – que, pelo meu gosto, já estariam todos desabotoados – que daquela dança eu sou professora, né. E em uma vibe Vandré, resolvi que quem sabe faz a hora. Para de rir, mulher, eu por acaso fico rindo quando você tá contando das suas moças apaixonantes? Tá, fico, mas deixa eu contar do meu moço delicinha. Então, estava lá aquele clima, roça daqui, roça dali, a gente bebendo no mesmo copo, aí eu me viro e sussurro: tenho uma coisa pra você. E vou pro meio da pista de dança, né, meia luz, muita gente. Sinto o olho dele pregado em mim. Vou dançando e descendo a calcinha. Foi, no meio do salão. Rá, sou louca, cê jura? Ah, não dava pra notar muito não, eu estava com aquelas saias longas, bem soltas, só se alguém estivesse prestando atenção. E ele estava né. Cara, foi bom. Só de pensar no que eu estava fazendo senti meu corpo quente e pulsando, todo pedindo toque, pedindo língua, pedindo…Com a calcinha morna em uma mão cheguei perto dele (sim, minha perna tremia, mas nem sei se de nervoso ou de tesão) e com a mão livre peguei o copo de cerveja e bebi assim, deixando molhar o lábio. Né. Lambi, naquela vibe vulgar sem ser sexy e deixei a calcinha no colo dele – não sem antes dar aquela passada de mão nas coxas. Cheguei mais perto e disse: estou precisando de carona, você vai ficar mais tempo ou quer ir lá em casa me foder? E dei uma fungada no cangote, porque, né, nordestinamos a biscatagi. Menina, juro pra você que ele gemeu nessa hora. Hein? Ah, você acha que eu não dormi ainda por quê? Veio, veio. Agora estou aqui, ouvindo Chico e pensando que não vou te tempo de escrever o post do blog hoje, cê pode me cobrir? Brigadinha, viu? Beijo, beijo.

Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

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Intervalo

intervalo

Essa noite. Essa noite eu vou. Essa noite vou aceitar convites, esquecer a hora, perder o rumo. Direi apenas sim e mais e quero. Essa noite eu vou sentar perto. Vou falar muito, gesticulando sempre e como se fosse pra ser, vou tocar teu braço. Uma vez. Outra. Até que seja isso: a fala vai no afago. Displicente, enquanto escuto com a cabeça inclinada e os olhos meio fechados, vou fazer da língua, brincante. Umedecer caminhos. Essa noite vou antecipar cumplicidades, inventar segredos, manter ditos inacabados. Vou encostar joelhos e esquecer o corpo no conforto de sentir outro corpo e deixar o quente de onde as peles se descobrem fazer fogueira. Essa noite vou usar superlativos, beber de outro copo, cruzar a linha, enfiar os pés pelas mãos.

Essa noite andarei bem perto, frequentarei esquinas e sombras, encostarei testa com testa e desfrutarei a mão na minha nuca, nos ombros, nas costas. Serei abraços. Essa noite ouvirei o rouco junto ao meu ouvido e me embalarei no som da ânsia, afastarei tecidos pra que minha pele seja percurso e facilitarei os atalhos. Essa noite encostarei no muro, levantarei a saia e, pra aproveitar melhor a brisa, vou entreabrir as coxas. Essa noite vou provar pele, morder lábios, beber saliva. Essa noite abrirei camisas, enrolarei meu mindinho em pelos ásperos e meu nariz deslizará em cócegas e minha língua o seguirá, curiosa. Essa noite vou assoprar olhos, mordiscar orelhas, lamber pescoços, murmurar desejos. Vou roçar o queixo em ombros e rir baixinho, vez ou outra, só pra confundir.

Essa noite vou ser em verbos: abrir, roçar, esfregar, molhar, morder, agarrar, mexer, mover, saborear. Descobrir. Essa noite serei em voz passiva: alisada, abraçada, sugada, tocada, beijada, perturbada, excitada.

Essa noite eu vou.

Mergulho*

“Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. (…) E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo”. (Clarice Lispector)

mergulho

É esse o convite, acho. Pra um mergulho. Pra se permitir. O que? Qualquer coisa que apeteça. Sentir, talvez. Esquecer o destino, aproveitar a estrada. Estar. Aceitar a dança. O risco. O riso. Apostar no bom. Em movimento: dos barcos, dos quadris. Como andar: desequilíbrio e coragem. Matéria. Ser o corpo. Ouvir a carne.

Dar a mão. Oferecer o ombro. Ser abrigo. Acolher abraços. Olhares. Expor-se. Deixar o querer chegar manso. Distrair-se. Rir alto. Sussurrar. Tocar. Tocar-se. Acreditar que é possível isso de gostar. Apenas por. Assim: um, outro, um espanto.

Desfrutar. Vento no rosto, ponta da língua, tatear. Encantar-se. Rasgar as listas. As exigências. Esquecer o branco, o preto. Viver a cores. Pintar o sete. Como se fosse brincadeira de roda, rodopio, entontecer. Farejar.

Ouvir, ir além, perguntar. Querer saber. Querer percorrer. Querer. Dilatar-se em aceitações. Venha. Toque. Saiba. Diga. Deixar o dia ser noite e a noite se fazer dia em conversas de pouco dizer. Intervalos. Olhos. Contato. Desprezar amanhãs, o futuro é o agora do depois.

Ser encontrada. Vista. Desejada. Encontrar, ver, desejar. Deslizar. Roçar. Encostar. Perto. Abrir portas e janelas. Ainda mais: prescindir das paredes. Desistir da hora certa, do lugar certo, da pessoa certa. Abandonar a régua e o singular.

Umedecer-se. Aceitar-se molinha, flexível, aberta. Mergulhar. Brincar. Bater na água. Fazer borbulhas. Tomar caldo. Deixar o sal se fazer gosto na pele. Salgar-se. Resgatar-se. Querer apenas o querer. Um dia. Outro dia. Lembrar: é divertido. Um avaro pelo avesso: viver os dias como quem desenterra tesouros. Sem certezas. Deixar as âncoras no barco, deixar a bússola na gaveta, experimentar. Vai doer? Vai doer. Isso sentido, seguir.

 Como disse Clarice, saber que fez um perigo: viver.

 

*Post síntese de sensações/conversas biscates com a querida Renata Lins.

Umbigo Biscate

578844_336247899803647_751295272_nAbrir a janela, inclinar o corpo, espiar o azul até o olho doer. Deixar a noite ficar mais um pouco, como memória, no pijama, nos pés encolhidos em cima da cadeira enquanto assopro o café, no pensamento vadio. Fazer o cotidiano: banho, dente, arrumar a cama, a pia, temperar a carne da futura fome. Espiar como os amigos viveram a noite nas redes, pitaquear um pouco, começar novas conversas com os ausentes. Blusa, casaquinho, casacão, saia, meia, bota, espelho, riso, que cabelo esquisito, pensar em arrumar, desistir, rua. Ir pelo caminho mais longo só pra beber sol. O dia quase amorna. Quase. Aqui e ali, placas. leio todas. Gosto do correio, de fantasiar pequenas narrativas para as correspondências alheias. Azulejos nas fachadas. Lilás nas árvores. Vento na pele. Sentar no banco do Jardim espiando toda gente, bonita e distraída, que o atravessa. Rir de si mesma e da biscatagem tão a flor da pele. Mais esquinas, sacolas de supermercado, o tomate em rubro, o cheiro do manjericão, os cogumelos. Quase Alice. Tirar: bota, meia, calça, casacão, casaquinho, blusa. Deixar os pelinhos do braço gritarem o frio, colocar um vestido leve. Dizer afetos. Trabalhar. Folhear livros, separar artigos. Fazer perguntas. Tatear. Ler e ler e ler. Ouvir: é a chuva. Vez em quando: moldura azul do FB. Cozinhar. Acender o fogo. O forno. A lua, como diria o moço das crônicas. Amassar a batata, lenta, lenta, como quem molda um sonho. Usar as mãos no ofício, cozinhar é íntimo. Refogar, o azeite amorenando grãos e cogumelos. Montar o prato, comer com os olhos. Fotografar pros amigos. Rir de mim mesma. Reconhecer a solidão que faz desejar partilhar o momento. Mastigar: o tempo, a carne, triturar saudades. Engolir o dia. Ainda: chuva. Enroscar no sofá com o livro tão conhecido como um amigo de tanto tempo que a gente nem lembra como era sem ele. Deixar a Bethania cantar o meu sentir. Abrir a janela, aceitar o escuro, também de fora pra dentro. Ser a minha noite. Agasalhar o sentir. E esperar, toda noite, o milagre antes de dormir.

Amar é Dar

Tem a Tulipa. E aquela música que todo mundo gosta, inclusive eu. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Tão tentador, não é, poder acreditar que o amor é esse moldador de peças de quebra-cabeça que nos faz achar um encaixe perfeito, que o amor garante exclusividade, que o amor é sintonia. Só que. Pelo menos não do lado de cá do abismo. Daqui, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Tem o amante, ouiés. O amante é aquele que sente que algo lhe falta. Não sabemos o que é, mas é claro, olha só, deve estar nessx moçx faceirx de olhos cor de âmbar (ou complete aqui conforme seu desejo). E amamos. Amamos isso que supomos estar no outro e que preencheria o que nos falta. A tampa da panela. A metade da laranja. O parceiro perfeito da dança. Daí, tem o amado. Opa, me escolheram, essx daí deve saber o que eu tenho pra dar. Eu não sei o que é, mas que importa, se elx me quer, elx viu em mim isso. Belezinha, né? Só que o amado também é ser de falta. Também ele espera a tal completude. O que ele tem a dar ao amante é: nada. Ou ainda: sua própria falta. Seu buraco. Seu oco. O amor preserva, justamente, o lugar da falta. O amante precisa que o amado seja também amante. Amar é querer ser amado. É além: é querer ser amado do jeito que queremos que o amor seja.

"o sono compartilhado é o corpo de delito do amor"

“o sono compartilhado é o corpo de delito do amor”

E aí eu lembrei uma outra dança. Da Teresa com o amigo do Tomas (n’ A Insustentável Leveza do Ser). Tomas a quem ela ama com essa fome que a devasta (e não há metáfora melhor para o amor, acho eu, porque a fome só finda definitivamente quando finda o sujeito. No por enquanto, a saciamos transitoriamente. Amar é bem assim, de vez em quando parece que. Mas, a seguir, queremos mais). Dizia eu, Teresa dança com o amigo de Tomas. Porque, repare bem, ele, Tomas, não gostava de dançar. E aí Tomas fica ali, mastigando ciúme, observando como eles – Teresa e seu amigo inominado (e não ter um nome não deve ser por acaso, né, Kundera, seu lindo) – dançam bem juntos. “Ele estava estupefato de ver com que precisão e docilidade ela se adiantava uma fração de segundo à vontade de seu parceiro. Essa dança parecia proclamar que sua dedicação, esse ardente desejo de satisfazer o que lia nos olhos de Tomas, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas, mas que estava pronta a responder ao apelo de qualquer que fosse o homem que encontrasse em seu lugar”. É claro que o ciúme de Tomas inibe que ele reconheça que não é qualquer homem em seu lugar, mas ele ou qualquer homem que ocupassem esse lugar: de alguém que tem algo que ela supõe que a complete. Que a faria feliz. Plena. Futuro do pretérito. Ou ainda. Pretérito mais que perfeito, se não ligarmos à gramática.  Tomas desconhece que o amar não é acaso, é repetição. Tem aquele traço único que buscamos e que supomos em quem amamos. É esse traço, que desconhecemos mas reconhecemos, que faz a amarração. Ponto de estofo. Teresa ama Tomas, um tanto, porque supõe que ele sabe alguma coisa sobre ela que ela mesma desconhece. O amor é uma pergunta. Um desassossego. Amando, buscamos o apaziguamento da hiância*, mas, rá, só podemos fazê-lo reconhecendo que ela existe: a distância. O vazio. O desamparo. Quando enunciamos eu te amo como se fosse eu preciso. Eu preciso que você precise. É aí, na vulnerabilidade – e na aceitação da vulnerabilidade do outro – que o desencontro – marca das relações humanas – nos permite ser – na falta de palavra melhor – felizes (e o pra sempre, sempre acaba).

 * Hiância é tipo um não-lugar. É como o vazio que tem entre os parênteses ou aquele símbolo do vazio na matemática. É um nada margeado, relativizado, definido por ser bordeado, porque é um nada que só (in)existe a partir de um alguma coisa que existe. Porque como somos seres de linguagem o vazio absoluto é impossível de dizer (como, ademais, qualquer coisa do real), quando nomeamos: nada, aí existe algo, a nomeação pelo menos, né. Ou resumindo: o que é fendido, lacuna.

Ou leiam esse texto sensacional que a Renata Lins já tinha sugerido, Verbete: Amor

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