Sobre Borboletas nos Olhos

De maneira geral eu pegaria geral.

Vermelho

O batom.

Os lábios. Grandes e pequenos.

E até os do rosto.

O pano na tourada. Provocação. Convite.

O vinho encorpado.

A rosa do menino príncipe. Ternura.

As paredes de Bergman, em Gritos e Sussurros.

O Boi Garantido e a voz da Fafá. Potência.

Os olhos injetados de desejo, de raiva, da ressaca da noite mal dormida e bem vivida.

O calor em um abraço.

O envolvimento de quem se quer.

A mestra do cordão encarnado. Dança e festa.

A pincelada de Caravaggio.

Os sapatinhos. Casa. Dança. Sorte. Morte.

Audrey Hepburn, nas escadas, em ‘Funny Face’.

O churrasco quente e mal passado. Sabor.

Os morangos, ainda que mofados.

Os cortes. E, às vezes, as cicatrizes. Memórias.

O sol por trás do olho bem fechado inclinado pro céu ao meio dia. A coragem de.

O sangue derramado em luta. Dado a causas. Derramado por amor a outras gentes.

Meia bandeira do Mengo. Alegria.

Todo teu gosto na minha língua.

Pimenta.

A fraternidade, no filme. A liberdade, nas ruas.

Meu coração.

real

Hoje tem

Era uma mesa grande, daquelas animadas, os amigos tinham vindo dar os parabéns, ele era amigo de uma amiga, se conheciam de FB, estou pensando em ir, vem, ele foi. Não se sabe bem como acabaram sentando um ao lado do outro. Não foi de princípio, não. Ele, o centro da mesa, rodeado de quem chegou mais cedo, acenando muito, rindo alto, esbarrando nos copos. O outro do lado da amiga, nem quina nem meio, olhos pequenos por trás da lente, gestos contidos, mais curiosidade que interesse.

Mas era um bar, era festa, muita gente chega, muita gente sai, gente levanta pra fumar, pra beijar, pra mijar. Olha, cabe mais uma cadeia aqui? “Fasta” pra cá. Vai mais pra lá. Vem aqui cumprimentar Fulana, Sicrano, Beltrano e o Edu, que fez a música. E ali estavam, um do lado do outro. Desculpa, ainda não tinha falado direito contigo. Magina, você estava ocupado. Umas impressões sobre a cidade. Gosto sempre de vir aqui. Pena a gente não ter se conhecido da outra vez quando passei mais tempo. O ombro esbarra no outro, a cerveja pula do copo. Desculpa, meio rindo, meio constrangido. Que nada, foi bom, meio safado. Trabalho, amigos em comum, a política, música, música, o céu, o nada. Os joelhos. O inclinar pra falar mais pertinho do ouvido. Muito barulho aqui, né?

As duas mãos em direção ao mesmo copo. Opa, esse é o seu? O copo esquecido, as mãos enlaçadas. Olho. No. Olho. Nu. E foi assim: ele pegou o indicador do outro, levou até os lábios entreabertos, enfiou num movimento rápido e sugou, firme. O outro, choque. Ele continuou a sugar, com a língua catou outro dedo. A mesa continuava, impávida em seu alvoroço de cervejas e tira-gostos, conversas e risadas. O outro semicerrou os olhos, estremeceu, a calça apertando o pênis que endurecia. Ele sorriu, como quem desafia: gosta? O outro inspirou, puxou a mão com uma certa violência, ele quase entristeceu, o outro e seus dedos úmidos puxaram-no pela nuca, a boca firme na boca ainda entreaberta, a língua, dura, invadindo, exigindo, amolecendo, convidando, percorrendo, provocando. A saliva. O tesão. As mãos por baixo da mesa, por cima das camisas, a língua na orelha, que buraco gostoso, o outro ri, desejo é alegria, cangote, lambida, deixa eu respirar, quero te engolir. Delícia. Beijinho na ponta do nariz. Mão na perna. A noite segue, sem pressa, os dois, a mesa, a conversa, o ruído, a cerveja no mesmo copo, a certeza. Hoje tem.

Hands toasting wine glasses

Hands toasting wine glasses

Oferta

O que eu te ofereço é uma cama de lençóis frios e um corpo quente. Um passeio de mãos dadas. Pés descalços descansando no teu colo. Um copo pros dois. Um sorvete provado nos teus lábios. Um abraço em que a gente se esquece nele. Mãos bandoleiras. Uma vitrola, um disco. Ou dois. Um despertar com desejo, um amanhecer de ternuras, demorar-se na cama em cafunés. Um café. Outro. Mais. Uma cerveja na esplanada, esquecendo o tempo. Uma conversa que não começa nem termina, com silêncios expressivos e gargalhadas ruidosas como pontuação.

O que te ofereço é viagem. Ausências. Uma saudade do que não teremos. Uma vontade de mais. Viver mais, trepar mais, saber mais, rir mais. Entontecer um pouco.

O que te ofereço é fazer supermercado junto, implicar com os gostos um do outro, brindar o possível, enroscar o teu cabelo entre os dedos enquanto nos recostamos no sofá e ouvimos música ou vemos um programa bobo na tv. Um telefonema no começo da noite só pra dizer: dá uma chegadinha na janela e olha a lua. Um cartão de aniversário feito de recortes de revista. Uma mensagem no celular com um trecho inteligível de Lacan. Uma carta sobre nada, só pelo prazer de tuas mãos tocarem o mesmo papel que as minhas.

trapezistas-Qualiblog

O que te ofereço é uma companhia na cozinha, tempo e fogo, temperos, os sentidos se aguçando. Uma taça de vinho. Um cheiro no cangote. Um álbum de fotografias. Uma mordida no nariz. Encostar a cabeça em teu peito, enlaçar mãos e chamar pra dançar um bolero. Sem música.

Brincar com teus bichos. Ler teus livros. Esquecer um sutiã no teu armário. Bagunçar teu armário. Lavar a louça. Morder teu dedão. Cutucar. Te agarrar de repente. Te devorar lentamente. Mandar mensagens absolutamente banais em horas pouco apropriadas. Nudes. Da alma, quase sempre.

O que te ofereço são beijos. Molhados. Rápidos. Demorados. Na boca. Na pele. Sugando. Lambendo. Suave. Forte. Com pequenas mordidas. Ou grandes. Em despedida. Em reencontros. Em descobertas. Virtuais. De saudades. De promessas. De convites. Beijos.

tumblr_ntncqza1eN1s9f8i8o1_500

O que te ofereço é companhia no trânsito, um fim de semana na serra, um ombro encostado no teu ombro no cinema, uma pipoca dividida, a escuta das miudezas cotidianas, a acolhida das dores quase esquecidas que se fazem inesperadamente presentes e imensas.

O que te ofereço é termos uma canção. Ou duas. Um fim de semana. Ou dois. Ou mais. Um lance. Um romance. Um rala e rola. Um rolo. Um gozo. O relógio sem ponteiros.

O que te ofereço é um abismo. Um mergulho. Um vôo de trapezista. Sem rede. Também conhecido como primeiro encontro.

Fodidos

separação

Porquejánãoestádandocertoentrenóseeuachomelhor… ele falava rápido, meio sem fôlego, emendando palavras. Pra que eu não argumentasse, talvez. Pra convencer. Alguém. Eu. Ele mesmo. Nosso público imaginário. Eu lembro Verissimo. Quase rio. Temos sempre uma platéia por dentro. Dentro. Vazio.

Depoisdetantosanosjuntosprecisodescobrirmaiscoisassobremim… ele ainda fala. Eu aceno. Menos concordando do que incentivando que ele continue. Ele gagueja, na poltrona baixa, meio inclinado pra  frente, as mãos como em uma prece. Eu, retinha na cadeira da mesa de jantar. O ângulo de 45 graus lembrava uma sala de terapia. Ah, os pequenos hábitos. Ao Verissimo na minha cabeça se juntam Pedro Cardoso e Debora Bloch e colocam um meio sorriso na minha boca. Eu interrompo: nunca assistimos Veja essa Canção juntos. Ele me olha, confuso. Nãoqueromaistempo, ele diz, eu meneio, não era isso, eu não acompanho direito o que ele diz, ele não adivinha o que eu penso.

Ascoisasentrenósnãosãomaisasmesmas… entre nós. Entre lençóis. Entre. Venha. Penetre. Eu sempre fui capaz de pensar em sexo a partir das coisas mais corriqueiras. Ele fala, eu vejo os lábios, a ponta da língua e começo a sentir o bom e velho fogo na periquita. Fico úmida. Meladinha, era como diziam no tempo em que ele não passava tempo se despedindo de mim mas me fodendo.

Éclaroqueeuaindagostodevocêesperoqueagentepossaseramigo. Claro, eu digo e me levantando devagar, um passo, outro, ele levanta a cabeça, pode continuar falando, ele continua, amigosvamosseramigos, eu levanto a saia e tiro a calcinha. Oquevocêstáfazendo… um passo, outro passo, pernas abertas, me lambe. Encosto o corpo no rosto dele, ele inspira fundo meu cheiro de tesão. Ele ajoelha. Eu puxo os cabelos da nuca. Ele sopra. Ele sempre sopra, antes. Praafastaralabareda, ele dizia. Ele diz. Ainda diz. E sopra. E deixa a língua passear. Enche a boca de saliva. Molha. Lambe. Vai, vem, o nariz faz cócega, não é cócega depois dos 15, eu lembro, eu gargalho. Ele afasta a cabeça e diz: depoisdos15. Eu ainda escuto. Ele ainda adivinha. Uma mão, firme, na minha bunda. Tábua de salvação. A outra, vadia por baixo da blusa. Puxa o mamilo. Esfrega. A língua depois dos lábios grandes e pequenos, provoca o clitoris. Firme. Leve. Firme, firme, firme, leve. E deixa e vai brincar de esconder na fresta. Entra sem pedir licença, visita de muito tempo tem intimidades. Um gemido. É meu. Bom. Bom mesmo. Essa facilidade, que pena perder essa facilidade. O pensamento vagueia um pouco, até sentir aquele dedo médio explorando a entrada do cu. Sinto o vazio na hora que ele para de lamber e cospe nos próprios dedos. Aqui e ali e em todo buraco. Findo o vazio. Em todo buraco. Ao mesmo tempo. A perna fraqueja. Bambeio pra frente, ele enfia mais fundo. A língua. Mais. Mais. O dedo. A língua. O outro dedo. Os dedos. O gozo. Morno. Deslizo. O joelho bate no chão frio. A gente nunca comprou um tapete. Agentecompra, ele diz enquanto desabotoa a calça. Eu penso em responder: não mais, mas encho a boca com o pau duro. Faço um vácuo com a boca, ele suspira. Ritmo. Vou e venho, vou e venho, língua, lábios cobrindo os dentes. Estico o braço e enfio meu dedo na sua boca. Ele lambe, um de cada vez. Agora é o meu dedo molhado no cu dele enquanto chupo, firme, gosto como o pau pulsa na minha boca. Sinto o gosto salgado do momento de parar de chupar.

posiçao normal

Deito de lado, ele deita atrás, tão fácil, ensaiado, quase. A camisinha? Eu digo, ele diz, ele escuta, eu adivinho, a gente ri. A gente trepa rindo. A camisinha. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa até quase esquecer da gente, de tudo, do dito e do que ainda faltava dizer. Quase. A gente goza. Eu, uma, duas, eu gozo no plural. Ele goza. E eu, ainda. Denovo? Não? Simsimsimgozanaminhamãodenovo.

Uma coisa que sempre gostei: o jeito como o pau dele desliza, relutante, pra fora da minha buceta. Pra fora. Saindo. Você foi saindo de mim, devagar e pra sempre, eu canto baixinho. Ele enterra a cabeça no meu pescoço e chora. Não estou desafinando tanto assim, eu penso em brincar, mas calo. Ele chora, uma mão entre as minhas pernas, a outra no meu ombro. Ele escorre no meu pescoço em lágrimas mornas. Eu escorro o prazer passado entre as coxas. Eunãoseise. Sabe. Silêncio. Ainda lembro de dizer: Se você fosse o amor da minha vida e eu fosse o amor da sua vida, a galinha tinha dois pescoços. Ele ri. Verissimo é nossa Paris.

É hora de separar e estamos fodidos.

Balanço

Canta o Geraldo Azevedo: “quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente…”. Ou muito antes pelo contrário, esse clube gosta de colocar tudo de pernas pro ar (#segundasintençõesfeelings).

Pouco mais de quatro anos de clube, de posts, convidados, lutas, farras, gozos, encontros, reflexões, biscatagem. Neste fevereiro, além de cair na esbórnia, os biscates escreventes vão também tomar fôlego.

Este mês não teremos novos posts. Eu sei, vai todo mundo sentir saudades. Nós, inclusive. Mas o clubinho está precisando de tempo pra dar uma espanada na casa – e nas idéias. Como na canção: “a chama continua no ar, o fogo vai deixar semente”.

Em março, estaremos aqui. Nós, os posts e, esperamos, vocês, leitores. No por enquanto, ô balancê, balancê, quero dançar com você….

balanco

Quatro

O Biscate fez aniversário. Quatro anos. Faz festa em um tempo difícil, resistimos com riso e tesão. Difícil em contexto, são temos sombrios, de moralismo,  backlash, genocídio, políticas públicas autoritárias e desvinculadas das demandas das minorias, repressão. Difícil no grão em grão, muitos biscas escreventes passando por situações complexas, ocupados, atarefados, cansados. E isso aparece nas linhas e entrelinhas. Difícil mas nos esmeramos na busca da gargalhada, da trepada, do desejo pra fazer frente. Pra ir em frente.

Uma vez escrevi, nesse nosso mesmo clube: somos o que fazemos, sabemos. E fazemos o que somos. O Biscate somos todos que o fazemos, que o lemos, divulgamos, comentamos. Somos todos que o escrevemos. O Biscate sou eu, parodiando o Rei Sol. E o Biscate me é. Tento, todo dia, ser mais e mais a biscate que esse clube me inspira a ser: liberdade, aceitação, prazer, entrega. Encontros.

O que eu faço no clube e o clube faz em mim é abrir. Portas, alma, peito, ideias, pernas. Um convite insistente de vida. Um convite insistente de luta. Um convite insistente de gozo. É pouquinho e é imenso, em um mundo onde as mulheres não podem usar a roupa que querem, sair e andar por onde querem, na hora que querem, ainda não podem decidir sobre quando e com quem trepar, se querem ou não ter filhos, um mundo em que nossos corpos são vistoriados, pesados e rotulados, nosso desejo é escamoteado e negado, nossa vida é menos. Menos importante. Menos gente.

Então, o Biscate resiste. Insiste. Faz aniversário, acende o neon, aumenta o decote, coloca o brega na vitrola, pega a taça maior e vai pra pista. Vamos pra pista. E aproveito o embalo pra fazer as declarações de amor. Porque sim. Porque sempre. O Biscate é quem o faz, repito.

540345_450598784951520_225203334157734_1727526_1724507047_n

Augusto, um Biscate, meu Biscate, em frestas, picadas, trilhas. Um Biscate que caminha em risco e riso, a beira do abismo como companhia e incentivo. Um Biscate que desvela, que rasga o véu, que escracha. Que gargalha. Que aponta o plural do possível. Amar-te no Biscate é confiança, cumplicidade e conforto. Amar-te é amar em liberdade. Amar-te é amar a liberdade.

Bianca Cardoso, um biscate que chega, que dá, que (se) oferece. Um biscate de  letras precisas e leves. Amar-te no Biscate é um amor a mais, um amor de gratidão e aprendizado.

Fernando, um Biscate em rima. Poesia do corpo. Um biscate escrito em suor, saliva, semen. Um Biscate que vem da rua, meio tonto, meio vinho, meio vida. Esquinas. O avesso do avesso do avesso até ser o que ele mais é: idenfinível. Amar-te é te saber em mim, justinho no canto que deveria estar, como falta. Amar-te no Biscate é aceitação, descoberta, sufixo que faz de mim nova palavra.

Iara Ávila, um Biscate de humor acentuado, olhar crítico mas generoso. Um Biscate pop, antenado, televisivo. Um Biscate de luta e de afetos. Amar-te no Biscate é um amor de encontro, de distância diminuída com afeto, de acolhimento e cumplicidade.

Jeane Melo, um Biscate nordestino, de um nordeste colorido, quente, afetuoso. Um Biscate que é sobrevivência e noites de lua, o morno na pele, a vida afirmada nos encontros. Amar-te no Biscate é como um fetejo de São João, há ritmo, sabor, corpo e promessas de um sempre.

Klaus, um Biscate que é transformação. Que é busca, inquietação e sonho. Uma escrita que se reinventa, uma pessoa que se redescobre, um clube que não se limita. Amar-te no Biscate é deslumbre, abraço, horizonte. Amar-te é processo e belezas.

Lis Lemos, um Biscate que é tesão. A letra mais nua, mais quente, mais sexy. A coragem de escrever entre lençóis, de mergulhar de olhos abertos, de cozinhar em fogo alto. Amar-te é em saudades, em espera, em tempos e suspiros. Amar-te é uma alegria.

Raquel, um Biscate que era antes de ser. Um Biscate de letras intensas, de perguntas, de conversas, de convites. Uma escrita tão pessoal e única que nos recebe a todos, que indica anseios que nem suspeitávamos em nosso peito. Amar-te é reencontro, beira de praia, cerveja gelada, conversa solta, vento levantando as saias. Amar-te é.

Renata Lima, um Biscate em intervalos. Aquele que diz só e justamente o que tem pra dizer. Um Biscate de histórias. De vivências. De certeza que é possível ir sem deixar de estar. Amar-te no Biscate é sentir sua falta toda semana e celebrar cada encontro, cada vez que fomos, que seremos.

Renata Lins, um Biscate em delicadeza. Cada texto, porto, viagem e oceano. A escrita que é lâmina em seda enrolada, como a cantiga. Uma escrita que é, ao mesmo tempo, pra mim, reconhecimento e surpresa. Um Biscate que é afirmação dos caminhos. Amar-te no Biscate foi. Amar-te no Biscate é. E além.

Sara, um Biscate feito de coragem e superações. Um clube que é a cada dia, a cada texto, a cada tempo. O mesmo. Outro. Descobrindo percursos. Descobrindo-se no percurso. Amar-te no Biscate é certeza de futuros. De encontros. De abraços.

Sílvia, um Biscate feito de intensidade.  Os textos sem pele. A escrita e o viver com entrega, com beleza, com fé, com amor. Um clube que está. Como cristal, bate a luz e a beleza quase ofusca. Cores. Matizes. E aquela firmeza de pedra, núcleo, sustentação. Preciosa. Amar-te no Biscate é alento. É respiro. Suspiro e lembrança de que sim, em algum momento, o bom é.

Vanessa, um Biscate que é luta, gozo, transformação, riso, leveza, história. Um Biscate que é gente. A fala da gente. A vida da gente. Um Biscate que é diário. Que é concreto. Que tem cheiro, gosto, que se toca e que se sente. Amar-te no Biscate é espelho. Mais, é casa de espelhos, onde somos muitos, possíveis, outros e mesmos.

O Biscate que eu amo é cada um e é tanto amor que eu nem sei escrever. Que bom o tempo que passamos aqui. Que bom um tempo em que somos, juntos.

PS. O Biscate faz aniversário. Festejamos. Comemoramos. Escrevemos. Convidamos. Vem Biscatear, vem fazer, vem ser Biscate com a gente. Se quiser escrever um post convidado, manda no nosso mail biscatesocialclub@gmail.com

PS2. Que difícil resistir às piadinhas com ficar de quatro.

Tempos Verbais

No futuro do pretérito, escrevemos o desejo. Seriam tempos de quarto de hotel, palavras rudes e mãos rápidas. Uma certa violência. Seria tua boca, mordendo. Seria um gemido. Seria um encontro, uma conversa, um perder-me. Seria uma paixão sem calendário. Sem retrato, sem saudade, sem espera. Gostaríamos, claro, de nenhuma roupa, nenhum pejo, nenhuma restrição. Enroscaríamos as pernas pra dormir. Eu perguntaria muito. Você riria pouco. Aceitaríamos o enquanto. Sem tempo de nos aprender, adivinharíamos recantos, curvas, anseios. Fecharíamos a cortina e ignoraríamos a hora certa. Certas horas são apenas para o gozo, eu tentaria dizer, mas você me ocuparia a boca. Não conheceríamos nenhum adeus. Eu ficaria dormindo. Você sairia tranquilo. Só a carne é triste depois do sexo.

drink

Nós sempre soubemos que só há um tempo certo para o amor: o pretérito imperfeito – e nele inscrevemos nossa história. Já não procurávamos enganar o tempo fechando janelas e ignorando as horas, o agora é, ele mesmo, uma lembrança. Temos saudades do que estamos vivendo: beijava, tocava, falava, gozava. Pretérito. Eu, imperfeita. Acordava, abraçava, aceitava. Viver em rimas pobres. Também. E conjugo: mordia, ardia, queria. É que havia teus olhos enevoados, a covinha no canto da boca, as mãos enormes e o jeito certo do teu peito me servir de travesseiro, eu inventava teu corpo fazendo passado com o meu. Eu digo: lembra que nós enroscávamos as pernas pra dormir? E você quase lembra em pernas que se misturam às minhas. Você lembra como andávamos sempre nus? E banimos as roupas. Você lembra? Lembra? Lembra? Vamos forjando retratos e desvendando o segredo: a verdade é uma narrativa. Aceitávamos o enquanto, chamando-o de memória.

tumblr_ljx4c0m3eQ1qggjgvo1_500

Abre, cautelosa, a caixinha delicada onde guarda as palavras mágicas. Aquelas que coleciona para os dias de sofrer, que costumam chegar: menina, sal, adorável, perto, ontem, quente, sorriso, querida, logo, junto. Sorri, a contragosto, acha bonito o tempo do desassossego. Sabe que construiu as janelas todas para o nascente. Há estrelas de papel no teto e disso se ri. Brilham apenas no escuro e há nisso uma beleza que ela hesita em esclarecer pra si mesma. Com algum pudor, fala em voz alta, como quem confessa: longe é o outro jeito de dizer desejo. Desejo. Mais uma daquelas palavras que cabem, direitinho, na caixinha delicada.

Vamos Biscatear

Estou desde ontem tentando escrever esse post. O post de hoje. Da biscatagi. Ia falar de beijar na boca. Porque é bom. Porque beijei. Porque é caminho bom de biscatear. Sei lá que mais, eu ia trazer beijos e línguas pra humedecer as letras.

Mas no lugar de saliva achei as lágrimas. São elas que tem dado a cara dos dias. Lágrimas de tristeza. De raiva. De impotência. De pesar. De empatia. De mais raiva. De angústia.

Então o que trago hoje é um convite. Da gente usar esse cantinho como trampolim e se informar de tanta coisa dolorida, potente, desesperadora, inspiradora, combativa, transformadora que tem acontecido.

mujeres-en-lucha-mulheres-em-luta

Eu deixo três motes:

– o crime ambiental que aconteceu/está acontecendo em Minas e a cobertura jornalística desprezível.

– a ocupação das escolas públicas em São Paulo e a repressão belicoso, perigosa e criminosa feita pela PM.

– o #MulheresContraCunha que tem tomado as ruas de variadas cidades.

Não, não vou colocar nenhum link. Só dessa vez vou chamar assim: Vem. Vai. Vamos biscatear. Procura. Pergunta. Mexe. Remexe. Indaga. Espalha. Divulga. Perturba. Esse corpo que queremos livre, coloca na rua, na pauta, na luta.

Todas Essas Coisas Sem Nome – 6o Capítulo

Esse é o sexto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

20

Hoje eu estava só. E segura.

Não lembrava meu nome até a terceira cerveja. Desse tipo besta de segurança. Eu fiquei triste, homem, e eu não soube me defender. Não teve sarcasmo, nem ironia, nem aquele meu orgulho – dos quais te davam orgulho de me ter ao teu lado. Porque empinava o queixo, as costas e o peito.

É, eu fraquejei. Estou cansada.

Você não me ama mais, eu sei.

Mas tenho que te contar de alguma forma.

Hoje eu liguei para uma amiga, pedindo para que ela me desse apenas um único motivo para não apertar nenhuma tecla naquela porra de celular que não fosse definitiva. Porque de você não quero resultados. Quero os problemas.

Não liguei. Porque eu não saberia o que dizer, porque não quero que você me guie via Embratel. Mas e agora, como dizer que não quero o que não quero?

Por que continuo te escrevendo mesmo sem resposta?

Você vai ser o referencial sempre? Porque você é sempre, lembra, meu amor? Lembra?

Se eu responder por você, estarei contando a verdade?

Ah, eu ainda quero saber, porque estou só. Tua voz. Quero me saber na tua voz.

Qual tem sido o teu caminho? O que você tem feito? Você nunca tropeça ao pensar em mim?

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

(link pro quarto capítulo)

(link para o quinto capítulo)

Indo

Eu estava. Eu estou. Com essa vontade. Ou esse vazio. Com essas lágrimas. Com esse eco. Com essa dúvida. Eu não sou boa de escolhas, gosto quando vou vivendo a vida no fluxo. Mas a cama grande demais, o retrato em branco e preto e aquela pergunta que acompanha madrugadas insones vão atrapalhando o ritmo. Eu tropeço. As pessoas que me amam entendem, o que me surpreende um pouco, porque eu mesma mal consigo perceber relances dessa fome. Só sei que falta. Respiro. Tenho dificuldade de ser essa eu que estou sendo. Abro portas, janelas, aplicativos e peito. Se houvesse som no vazio, seria um riso de deboche. Mas nem. Sinto um pouco de inveja de quem tem fé, além daquela da canção. Eu não costumo encontrar respostas fora de mim. E, dentro, hoje, mal encontro as perguntas. Trago o corpo em desalinho. Dizem por aí que o mestre surge quando o aprendiz está pronto. Dizem, por outro lado, que a gente escuta o que quer ouvir. Uma coisa, outra ou as duas, fui ler a Fal* para lembrar que o bom, o belo e o justo sim, são possíveis. E eis que ela, além de tudo, se faz oráculo. Eu li. Leiam também:

Q: Fal, e quando você acha que achou o cara da sua vida, mas ele é quase 15 anos mais novo do que você? como faz?

Amolis, cê sabe que eu não sou uma florzinha, não sou uma pessoa boa, não creio numa energia-muito-linda, não creio na bondade, então creia, não tou te falando isso porque sou uma fofa. Tou te falando isso porque é a real: vai lá. Quinze anos mais novo, que odeia tatuagem, usando peruca, trinta anos mais velha, muito mais alta, muito mais gordo, magro de doer, bigodudo, torcendo pro time errado, com dez vezes mais grana do que você, atleta, tatuado, bicho grilo, careca, duma profissão que sua santa família considera abaixo “do nosso status social”, fumante, cadeirante, dum gênero que você jamais imaginou que rolaria, eleitor de partidos exóticos, pobre de doer, doutro país, artista, funcionário público, com cabelo esquisito, dono de boate, gótico, pagodeiro, sertanejo universitário, iéiéié: vai lá. Sempre. Só não vale quem não quer você, quem você não quer e dimenor. De resto, vai lá. Eu juro pra você que nada, nada, nada disso importa. Na-da. Não é papo “clube dos corações solitários”, é da vida, ouça a tia Fal: vai. Seja ele o cara da sua vida ou o cara dos próximos lindos 15 minutos (a gente nunca, nunca, nunca tem como saber): vai. Vai, vai, vai. O que a sua mãe acha, eu juro, não importa, porque ela dorme agarrada no seu pai e você, vivendo pela cartilha dela, vai ou dormir sozinha (nada contra, eu durmo, mas, né?) ou dormir com um ser que não é teu número. Quem não quiser te receber de fim de semana porque “ela se juntou com aquele cara estranho” e “ele casou com aquela esquisita”, pode ir capinar um lote, porque num sábado chuvoso e tristonho, eles têm com quem ver Netflix, você vê com o cão (eu vejo com o cão, nada contra, mas, né?). Eu já pensava isso antes de o A. morrer, mas depois que ele morreu, falo pra todo mundo, o tempo todo: vai. Porque é raro. É tão bom. E efêmero. Em um segundo a sua vida muda. E se você for quem tou pensando que você é: VAAAI!!!”

309948_476187695752499_1323543996_n

* Se você não conhece a Fal, aproveita. Fal Azevedo é artífice de letras com sentimento. Autora de “Sonhei que a neve fervia”, “minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”, “o nome da cousa” e alimenta tumblrs a rodo. É dela o “Drops da Fal”, maior preciosidade da internet.

Bolhas

Às vezes me dá um pouco de cansaço. De não entender porque as pessoas não entendem. Que seria tão melhor – acho – que ninguém regulasse a vida do outro pelo seu umbigo. Que não, não interessa o seu pecado, a sua crença, a sua teoria, o seu deus, o seu medo, o seu desejo, pra o outro tomar as decisões dele. Que a diferença do outro não é liberação pra ser morto de fome, de dor, de procedimentos mal feitos, espancado, de solidão, queimado na rua, baleado por engano, esfaqueado por ciúme. De desesperança ou desilusão. Às vezes me dá um pouco de cansaço. A insensibilidade pesa. A do outro, que não se acanha de verbalizar seu ódio, sua crueldade e se ofende se a gente apenas diz: mas isso é tão cruel. A minha insensibilidade pesa, porque estou aqui, ocultando status pra não saber se gente que eu quero bem é capaz dessa falta de sensibilidade aí. Às vezes me dá um pouco de cansaço de estar sempre vasculhando as entrelinhas, de perguntar de onde vem o riso, de me inquietar com as concordâncias imediatas. De tentar ser quem eu espero ser. De percorrer as distâncias. Eu disse cansaço? Devia dizer tristeza.

Esses dias em que existir tem sido difícil. Tanto desprezo, tanto ódio, tanta crueldade em relação às mulheres. A forma como nossos poucos direitos vão sendo dissipados, nossos corpos violentados e nossos desejos ignorados. Vamos garantindo que as mulheres que não são boas o suficiente (e nunca somos), morram, por dentro e de fato, algumas vezes. A gente não pode trepar. Fecha as perninhas. Se comporte. Se oriente. Só com a bênção do papa da vez, seja qual for sua doutrina, que seja decente. Incluindo aí, sua militância. Uma militância de perninha fechada. Sem riso e sem gozo. Sem gosto. A não ser por um pouquinho de sangue.

Dói e eu quase. Quase me fecho ali, na bolha confortável que é a ilusão que meus privilégios me protegerão. Aí recebo seu inbox, amigo, me falando do que aprendemos juntos. Aí tem o Blogueiras Feministas e a resistência. Aí tem a conversa livre com a amiga, que escuta, fala, pondera e permite. Aí tem o convite pra falar de feminismo – eu, biscate. E tem esse clube. Essas pessoas que fazem esse clube. Essas ideias e anseios e risos e trocas e gozos, liga que nos une, que mantém o blog no ar, que mantém a esperança no ar, que sustenta minha luta. Uso a ponta afiada da dor e estouro a bolha. O único modo de seguir que conheço é esse.

bolha

Da exigência de respeito à monogamia alheia

poliamor-300x219

De maneira recorrente vejo apelos para que mulheres não fiquem com homens comprometidos porque isso ia trazer sofrimento para outra mulher. Esse apelo feito em nome do feminismo, sororidade e quetais. Acho que há muita, muita coisa complicada nesse tipo de discurso, mas vou falar só de duas (por exemplo, vou passar ao largo da questão: mulher com mulher a fidelidade é automaticamente garantida? Porque não tem um apelo pra mulheres não ficarem com mulheres comprometidas? A homossexualidade feminina e a bissexualidade foram esquecidas ou mulheres são automaticamente fiéis se estão juntas?).

Mas, dizia eu, vou ficar só em dois pontos. O primeiro deles se refere a uma certa noção do desejo como voluntário. Sim, a forma como o desejo é constituído pode e deve ser problematizada. Os discursos mainstream sobre beleza e atratividade, a estrutura machista que supervaloriza a ação como masculina e implica em uma passividade dita feminina, a cultura que legitima que coisas como crime contra a honra ainda existam no imaginário das pessoas, tudo isso pode e deve ser questionado. Mas isso não significa que o desejo constituído possa (ou deva) ser normatizado. O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações.

O segundo é o próprio horizonte de relações presente nas entrelinhas: a ideia de que a monogamia é um modelo desejável de relacionamento. Ou, pelo menos, de que é um modelo de relacionamento a ser preservado. Parte-se da ideia, nesse apelo, de que todos compactuam dessa visão e desejo (por exemplo, sempre que ficamos com um homem comprometido ferimos nossa própria vontade e sonho de um relacionamento saudável., sim, eu li algo assim). Sem reparar (espero) lança-se o apelo a partir de uma suposição de moralidade comum. Mas e se a gente não tem o anseio por um “relacionamento saudável” ou não deseja que os “relacionamentos sejam saudáveis”? Ou se, mais longe, a gente não tem modelo e cada relacionamento pode ser do jeito que for? Se a gente levar às últimas consequências a ideia de que ninguém pode nem deve definir como alguém exerce sua afetividade e sua sexualidade, nem Igreja, nem Estado nem os parceiros? E se a gente não compactuar com o direito de posse intrínseco à idéia de monogamia?

Eu não. Não à culpa. Não à religiosidade dogmática do discurso pode ou não pode, fode ou não fode. Não às identificações fraternas e suas implicações. Não à conversão. E não, não, não, uma negativa sistemática à noção de que eu ou alguém saibamos o que é melhor pros outros e outras no que se refere ao usufruto do seu próprio corpo.

PS1. Minha questão não é que não existem pessoas que são comprometidas, ficam com outras pessoas E são escrotas. Minha questão é que elas não são escrotas ou sacanas PORQUE ficam com outras pessoas, não é uma relação causal e sim de concomitância (idem para quem é o “terceiro”, não significa que esse terceiro não possa ser um sacana, mas não é sacana porque é o terceiro).

PS2. Não foi intenção desmerecer os sentimentos pessoais. Somos quem podemos ser. A sociedade nos educou pra entender que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque fomos insuficientes de alguma forma. E isso dói. Caso não compremos o discurso da insuficiência tem também a idéia de que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque ela não presta, e isso dói também, como assim escolhemos errado? Então entendo e acolho quem vive como pode viver, se respeitando e ao seu ciúme e tal. Mas entendendo que isso é um jeito próprio e possível de viver bem, não uma bandeira. E que existe a possibilidade de uma vida em sociedade menos dolorida, possível se baseada na separação entre respeito e exclusividade.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...