O último Rembrandt #3

O Biscate segue com o folhetim que está sendo publicado aos domingos. Aproveitem!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

3. Ser adulto e responsável é uma droga 

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Nova Iorque, 22 de abril de 2017 – no leilão

17h56

O homem sentado à sua frente no leilão tinha, sem favor algum, em torno de dois metros de altura. Carla jamais entendeu a fascinação que os homens altos exercem na maioria das mulheres. Deus do céu, quem é que consegue manejar um homem desse tamanho na cama? Ela sorriu pensando na tarde que passara ao lado do homem de… o quê? Um metro e sessenta e oito? Um pouco menos? Do alto de seu metro de setenta e nove, Carla achava deliciosos os homens mais baixos do que ela. E aquele cara era… Bom, delicioso nem começava a descrevê-lo.

Voltando ao presente, Carla fez uma careta para a nuca do homem que bloqueava sua visão. Ela não tinha se incomodado com a distância do palco onde o quadro seria exibido. De forma alguma. Estar no mesmo cômodo que aquela obra de arte era o suficiente. E, ainda que de longe, ela a veria. Muito antes e de maneira muito melhor do que poderia apreciá-la depois que fosse comprada. Caso fosse adquirida por algum museu, quem poderia dizer para que canto do globo seria levada? E quando, exatamente, seria exibida? Em dois anos? Cinco? Dez?

Fora que, Deus a ajudasse, se a tela fosse comprada por um colecionador particular, o público poderia passar décadas sem colocar os olhos nela. Bem, talvez nunca o fizesse.

Tudo o que Carla e a humanidade poderiam ter seriam reproduções de maior ou menor qualidade.

Não, não.

O melhor a fazer era vê-la ali. Usando a identidade de sua ex-colega de quarto da faculdade – Safira Khoury, a brilhante filha mais velha de uma próspera família libanesa estabelecida nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos e, desde o começo do século XXI, diretora de um modesto museu ao norte do estado de Nova Iorque – Carla tinha conseguido entrar na casa de leilões sem dificuldades. Apesar de muito restrito, o evento não tinha um esquema de segurança que se poderia chamar de rigoroso: eram poucos, bem poucos, os que sabiam o que estava acontecendo no lugar naquela noite.

Depois de garantida a compra, os advogados do espólio que detinham a propriedade provisória do quadro fariam um anúncio em conjunto com a casa de leilões e o novo dono da obra anunciando a incrível descoberta, em meio a outros objetos empoeirados, mas valorosos, resgatados do sótão de uma viúva recém-falecida, a herdeira da dinastia Orange, um dos braços da realeza holandesa.

O plano de Carla era descer do avião, registrar-se no hotel, passar a tarde flanando no Metropolitan matando a saudade e depois correr para o leilão.

Em vez disso, tinha descido do avião, se registrado no hotel e caído nos lençóis do hóspede da suíte 1616 para ser acariciada, chupada e comida como uma garota de faculdade de férias. Sem preocupações, sem ver o tempo passar, sem olhar para o relógio até se dar conta de que tinha menos de uma hora para chegar ao seu compromisso. O 1616 sequer protestara quando ela finalmente deixou a cama, apanhou suas roupas espalhadas pelo quarto e correu para o chuveiro no frenesi de alguém que sai do coma e descobre que está em um ninho de vampiros.

Quando Carla saiu do banheiro vestida e precariamente maquiada, com o cabelo molhado preso em um coque, 1616 estava sentado na cama, fumando. Jesus, aquele era um quarto de fumantes? Se não fosse, o FBI invadiria o lugar a qualquer instante, os americanos eram uns fanáticos.

– Preciso mesmo ir embora. Estou atrasada.

– Coloquei meu cartão no bolso do seu casaco. Mas você sabe onde me encontrar.

Ele sorria. Deus, ele sorria.

Carla balbuciou uma despedida desajeitada e deu as costas para a cama, para enfiar a bolsinha de maquiagem de volta em sua bolsa e apanhar o casaco que jogara horas antes sobre uma das poltronas do quarto. Quando se virou, 1616 estava a poucos centímetros dela. Tomou-a nos braços e a bolsa e o casaco foram para o chão, enquanto ele beijava seu rosto, pescoço e colo, enquanto a língua dele acariciava seus lábios, enquanto ela era tomada pelo mesmo desejo de algumas horas atrás, de se deitar ao lado dele, de morder seu peito e se esquecer do mundo enquanto trepavam mais uma vez.

Estremecendo e se agarrando a um breve instante de lucidez, Carla se soltou dos braços dele, apanhou suas coisas e foi na direção da porta. Ao olhar para trás por um instante, viu 1616 parado no meio do quarto, nu e sorrindo.

(continua no próximo domingo)

Perdeu os primeiros capítulos? Vem com a gente:

O último Rembrandt #1

O último Rembrandt #2

O último Rembrandt #2

Hoje, o Biscate tem o prazer de apresentar o segundo capítulo de um folhetim que está sendo publicado aos domingos. Deleitem-se!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

2. O que é um pequeno crime entre amigas?

Paris, 18 de abril de 2017

11h56

Nos Estados Unidos, do leito do hospital onde tinha passado por uma cirurgia na coluna, Safira telefonara para Carla, que ensinava arte medieval em uma universidade em Paris.

– Querida, se você não pegar o primeiro avião, juro que vou me levantar de dessa cama e atravessar o oceano Atlântico de muletas para dar com elas na sua cabeça.

– Você vai nadar de muletas? Por favor, mande alguém filmar isso.

– Engraçadinha. Falo sério, o convite só chegou há dois dias. Estão fazendo tudo de última hora para que a notícia não se espalhe. Só colecionadores de arte muito, muito ricos estão sendo convidados… Ah, e alguns diretores de museus, para manter as aparências.

– Porque o leilão vai ser feito nos Estados Unidos e não na Europa? Porque não na Holanda, meu Deus, a uma hora e meia da minha casa?

– Porque todos os objetos do enorme sótão da falecida foram embalados e enviados para o sobrinho-neto, um advogado especializado em direitos autorais que vive em Nova Iorque.

– Sei, mas embalaram um…

– Eles não sabiam que era um…

– Como isso é possível?!

– O quadro estava no sótão! Cercado de cacarecos de família, roupas do século XIX, gramofones, baús e malas de todos os tipos e, sim, outras obras de arte valiosas.

– Outras?!

– Nada tão raro e valioso, mas sim, outras obras de arte. Pelos próximos anos, você verá o mercado de arte ser lentamente invadido por raridades.

– Espero que façam isso realmente bem devagar, ou o preço das obras vai despencar.

– Ah, não se preocupe, os homens que cuidam do espólio têm tentáculos em outras áreas do mundo das artes e não pretendem perder dinheiro. A casa inteira foi inventariada, cada objeto, cada cinzeirinho, tudo. Mas os objetos do sótão foram tratados como cacarecos e enviados para os Estados Unidos, provavelmente em caixotes marcados como “Tralha”.

– Meu Deus, imagino o espanto de quem abriu as caixas.

– Demorou para que o quadro fosse identificado. Na verdade, Marcel Navigateur só percebeu o que tinha nas mãos quando…

– Espere um minutinho… Marcel Navigateur?

– Sim, querida.

O Marcel Navigateur?

– Sim, meu bem.

– Puta merda!

Safira deu uma fungadela.

– Querida, isso é realmente necessário? Quero dizer, palavrões?

– Pelo amor de Deus, Saf, estamos em 2017.

– Hum.

– Bem, e aí? Você vem? Não poderei estar presente e alguém que amo precisa estar lá para me contar tudo depois.

– Você está me pedindo para largar minha vida, parcelar uma passagem internacional no cartão, atravessar o oceano e cometer crime de falsidade ideológica?

– Sim, acho que sim.

– Pego o próximo avião.

(continua no próximo domingo)

O último Rembrandt #1

Hoje, o Biscate tem o prazer de apresentar o primeiro capítulo de um folhetim que será publicado aos domingos. Deleitem-se!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

  1. Meninas boas vão para o céu.
    Meninas más vão a leilões.

 Nova Iorque, 22 de abril de 2017

17h33

O pau dele era delicioso. Certo, ele beijava bem e tinha uma voz rouca, e olhos feitos de tons e sobretons de mais e mais azul, e era gentil e nem tão gentil assim. Ele era careca e um tantinho mais baixo do que ela, muito forte – seu peito era uma vastidão coberta de pelos grisalhos, seus braços e mãos cobertos de veias aparentes e cada centímetro da pele dele pareceu queimar a dela. Mas nada se comparava ao pau dele. Nas mãos dela. E em sua boca. E dentro dela. O rosto dele aninhado em sua nuca e o pau dele dentro dela. E se isso não era feminista o suficiente, que se foda, pensou sorrindo e se ajeitando no banco de trás do táxi.

O que ela estava sentindo era tesão. De novo. Como se não tivesse acabado de sair da cama daquele homem. Como se ele não tivesse acabado de sair de dentro dela. Como se ela tivesse tempo para isso. Suspirou. Com o leilão mais importante do ano começando em vinte minutos, quem tinha tempo para tesão, meu Deus?

Não era o primeiro estranho com quem ia para a cama, mas não conseguia se lembrar de uma trepada tão… O quê? Perfeita? Maravilhosa? Qual dos clichês estúpidos da pior literatura descreveriam o que tinha acabado de experimentar? Bom, foda-se de novo. Tinha sido uma tarde incrível. Uma tarde impossível de esquecer.

No mesmo instante em que fecharam a porta do quarto do hotel e ele a puxara contra seu peito, ela soube. O cheiro dele era fresco, tinha alguma coisa de limão, e ele beijou seus cabelos e ficou ali, alguns segundos com ela nos braços, imóvel, à espera de que suas respirações se sincronizassem.

Quando ela ergueu o rosto, o estranho agarrou seu rosto e mergulhou a língua dentro de sua boca. Nenhuma hesitação. Sem perguntas, sem explicações inúteis. Nada de sou casado, nunca fiz isso, meu Deus, que loucura, espere como é seu nome? Nenhum nome. Tudo bem, dois nomes, em algum momento daquela loucura, dois nomes. Andrew. Carla.

Eles se beijaram até que ela se ficasse zonza, as mãos dele em suas costas, em sua bunda, as mãos dele em todas as partes, arrancando sua saia e sua blusa, as mãos dele desesperadas no fecho do sutiã.

Ela riu e se afastou. Às vezes lhe parecia que os homens faziam aquilo de propósito, fingir que se atrapalhavam com o sutiã numa espécie de alívio cômico, de pausa, vamos respirar um bocadinho antes de seguirmos com esse desvario, mas se fosse um teatro, era bem bonitinho. Colocando as mãos nas costas, ela abriu o sutiã e ele a olhou, maravilhado. Aquilo não era fingimento. Eram os seios de uma mulher de quase cinquenta anos, mas o estranho pareceu mesmo gostar do que via. E quando ele os tocou e mordiscou e sugou cada um de seus mamilos, ela soube que sim, ele realmente gostara deles.

Quando ele ergueu a cabeça para beijá-la de novo, ela tentou, desajeitada, desabotoar a camisa dele. Gemeu frustrada, botões demais, botões demais, mas quando ele afastou as mãos dela para arrancar a camisa, ela choramingou alto e ele riu.

Alguém buzinou e xingou em idioma não identificado quando finalmente estacionaram em frente à casa de leilões e isso a fez pular de susto.

Jesus, mulher, trate de se recompor.

Por melhor que tivesse sido a trepada, não era para ficar com a calcinha molhada dentro de um táxi que ela estava em Nova Iorque.

 Estava lá para o leilão do ano, da década, do século, o mais importante leilão da história da arte, do espaço sideral. O leilão dos leilões.

Carla Nucci tinha cruzado um oceano só para estar ali. Só para estar mesma sala do que aquela tela, ainda que por poucas horas.

O último Rembrandt.

(continua no próximo domingo)

 

Pelo direito ao aborto sem drama

O colunista americano Dan Savage é famoso por falar sobre sexo e relacionamentos sem papas na língua. Ele também fala de taras, de política, de humor, de direitos LGBT, de tevê. Gosto demais dele.

Outro dia ele recebeu a carta de uma leitora contando que tinha ficado noiva do cara com quem se relacionava há três anos. Ficou noiva em maio, marcou o casamento pra setembro, decidiram ter um bebê e ela ficou grávida rápido. Só que, papo vai, papo vem, o noivo em julho decide que não quer mais ficar com ela, prefere esperar pra encontrar alguém melhor (oi?) e que ela tem que fazer um aborto. Ela escreve ao Dan e pergunta: isso é normal?

Ele responde que puta-que-o-pariu, não é normal, normal é ter medinho de casar e conversar sobre isso ANTES de engravidar. E segue dizendo que, apesar de ela não ter perguntado a ele sobre o aborto, e apesar de ele não ter um útero e nem um namorado filho da puta, acha que ela deve interromper a gravidez. Porque, mesmo que isso signifique dar ao cara o que ele pediu, ela pelo menos não vai ter que se relacionar com o cara pelos próximos 18 anos.

Aí uns dias depois alguém escreve pra dizer um troço que me chamou a atenção:

Pode dizer a ela que, se ela está na dúvida, a narrativa negativa ganha um peso desmedido. Eu estava com um parceiro que amava e com quem pensei que queria filhos, mas ficar grávida acidentalmente colocou as coisas em perspectiva sobre aquele relacionamento e eu soube que precisava sair, fazer um corte definitivo. Minha preocupação era se, mesmo sabendo que era a coisa certa pra mim, eu seria atacada com “e-se” para o resto da vida. Faz cinco anos e meu aborto foi sem dúvida nenhuma a melhor escolha que eu fiz para a minha vida e eu nunca me arrependi—só sinto alegria e orgulho de ter cuidado de mim quando eu não sabia como aquilo ia funcionar. Eu gostaria que o aborto não fosse tão politizado neste país a ponto de fazer com que seja quase impossível compartilhar uma perspectiva positiva da experiência.

Cara, é tão, tão isso. Claro que tem o sofrer. Tem o estupro, tem as histórias de terror, tem as impossibilidades afetivas e financeiras, tem as ausências masculinas, tem fatalidades biológicas (zika, alguém?). Mas também tem o sim-mas-não-agora, o já-tenho-dois, o quero-viajar, o putz-meu-mestrado, o me-deu-na-telha. Porque as mulheres são pessoas que deveriam poder decidir se e quando devem ter filhos, sem penitência, sem ter que obrigatoriamente contar uma história muito triste para aplacar a culpa judaico-cristã.

A carta dessa segunda leitora tocou tão fundo em mim que me vi compelida a escrever para o Dan Savage contando a minha história. Eu estava em uma terra muito muito distante, em um relacionamento longo e estável mas que obedecia a várias dessas listinhas que se distribuem agora sobre abuso psicológico e verbal, e engravidei sem querer – demos bobeira, com a pílula (eu) e com o coito interrompido (ele). Nesse reino distante o aborto é legal. Fui lá, paguei um preço não-exorbitante numa clínica limpa, com apoio psicológico e todos os exames e medicamentos. Me separei uma semana depois. Faz uma década. No dia mesmo eu pensava: isso é a decisão mais acertada que já tomei na vida. Ele? Chorou, se descabelou, tirou todo o dinheiro da nossa conta, me chantageou dizendo que ia contar tudo aos meus pais, me stalkeou pela cidade onde morávamos e nunca assinou os papeis de que eu precisava. Quando leio no jornal sobre disputas internacionais de guarda, até me arrepio pensando que poderia estar hoje enviando um ser humano de cá pra lá, como uma encomenda, para uma pessoa assim.
 
Vamos prestar atenção ao discurso para não glorificar o sofrimento. Tenhamos a malícia e a esperteza de não validar o discurso de quem quer fazer um bicho de sete cabeças  disso: há um potencial bebê, não um bebê; é um potencial filho, não filho; homens não “abortam”, homens abandonam mulheres. Separar de uma vez por todas o que é luta por direitos, o que é estatística, o que é pressão social e todos os valores religiosos que povoam a conversa. Vamos não ter vergonha de falar que um aborto pode resultar, sim, em felicidade e alívio, e ser vivido como uma experiência relativamente tranquila – dadas as condições ideais para tal. 
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Mosaico

Imagens

Fico observando as formas ora geométricas ora orgânicas em peles e  sombras. Você não sabe dos pequenos retratos que guardo de seus pedaços. Na noite enfeitada pela luz amarela, uma moldura de ilusão macia pra tudo que nos enche os olhos. O sol não sabe de nós.

Retalhos

Enquanto a sua pele morna e escorregadia desliza sob a minha, temo que minhas costuras cedam e, por fim, arrebentem. Foi com muito cuidado e atenção que dei todos esses pontos, cerzi as partes mais frágeis, preguei pequenos retalhos achados pelo chão pra cobrir todos os rasgos. Quando escuto a linha ser forçada e atingir a tensão máxima, um leve desespero me retrai. Temo pelo tecido que me cobre, que me protege do frio e me dá abrigo. Temo ter que lidar novamente com agulhas e tesouras pra conter as vul.ne.ra.bi.li.da.des.

Linguagem

Toco seus cabelos lentamente, com todos os dedos, que se dobram de modo preguiçoso enquanto se conectam a você, numa tentativa de que eles, secretamente, lhe falem o que meus lábios não dizem. Respiro fundo, com o rosto muito colado ao seu, em uma brecha muito pequena onde posso concentrar o cheiro da sua pele em pouco ar, em busca de mensagens ocultas que se transmitam instantaneamente, sem o desperdício de palavras. Por que queremos dizer tanto quando se pede tão pouco? Por que anseio por símbolos quando o silêncio se mostra tão gentil? Por que quero tanto falar sobre o que eu nem mesmo sem o nome?

Dedos e línguas

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Gosto de seus braços imensos. Da consciência do encontro fortuito, espremido no horário comercial, com tempo pra acabar. E, mesmo assim, capaz de beijos tão molhados, íntimos e envolventes.

E do Motel de sempre, com a mesma voz mecânica da recepcionista perguntando “o senhor tem nosso cartão fidelidade?”

Sempre rio do cartão. Fidelidade.

Gosto do jeito como você chupa. Gosto desse jeito de desfrutar meu corpo, que você desfruta. Que você, de tão comprido que mal cabe na cama, vai decupando ele todo, enquanto me largo no colchão redondo do quarto.

E de ainda descobrir fetiches.

De você me chupando o dedo do pé enquanto mete. E você me chupando o cu, entretido longamente nessa preliminar que não é só uma preparação pro que virá. É desejo em si. Você gosta disso também. Porque, na verdade, não é mesmo só uma preliminar.

Gosto do barulhinho da camisinha se abrindo. E do movimento que nem vejo, porque estou costas. E me faz piscar. Porque eu sei. Gosto do jeito como você suspira “nossa” enquanto mete. Gosto do suspiro. Gosto do “nos-sa!” longo. Como se fosse a primeira.

E gosto que nunca, jamais, em todos esse tempo, nos chamamos pelo nome. Gosto. Fantasio que mantém o sabor clandestino de nossos encontros. E eu gosto. Um simulacro de anonimato. Que.eu.gosto.

Ainda que saibamos os nomes de nossos filhos, os problemas de nossos irmãos, da saúde de nossos pais, das tretas em nossos trabalhos. Mas, sem a certeza de sermos genuínos. Pode ser tudo uma grande mentira. De verdade mesmo, só nossos corpos no Motel.

A moça de lá sabe mais do nosso RG que nós mesmos! Ainda que perguntemos depois da primeira gozada: “e aí? Novidades?” E a gente ri. E até conta no meio de um cafuné nas costas.

Gosto que não sejamos amigos no Facebook.

Gosto que não falemos de política. Nem da crise. Pra continuar gostando.

E de suas vogais alongadas em nossas conversas no whatsapp. Porque disso precisamos. Pros agendamentos.

Gosto da lembrança da primeira vez, de puro dedos e línguas. Somente dedos e línguas. E foi sexo. E teve gozo. E a gente se quis logo de cara. E logo depois.

Gosto porque não é muito mais do que já é. Porque é o que é. Encontros fugidios durante a semana. Com meses de distância, às vezes. Com tempo certo pra acabar.

Sem drops. Sem sonho de valsa na porta do Motel. Cada um na sua vida. Sem engatar um próximo encontro. Que acaba acontecendo. Porque eu gosto. E você também.

Mais

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Não queria, mas entendi que o nosso tempo se esgotou. Nosso caso – tão curto – já chegou ao fim. Não chega a ser uma dor sabe, mas é que eu achava que faltou a gente conversar mais, se olhar mais, se tocar mais, se beijar mais. Acho que faltou mais vezes seu corpo visitar o meu. Assim, como quem não quer nada. Faltou mais sua boca nos meus peitos, seus dedos na minha buceta.

Sinto falta de sentir mais tua boca de cigarro e cerveja. Teus lábios no meu pescoço. Minha mão na sua barba. Não é que esteja ruim a vida sem você, mas é que ia ser tão bom se você viesse com a tua mão grande na minha perna. Penso nos outros com quem me deito e penso que sortudo seria você se assim o fizesse também. Ai como me faz falta você me comendo de quatro!

Não me interessa saber o que aconteceu, porque você não quis, porque não quis ficar dentro de mim de novo. Queria que você quisesse de novo. Só isso. Não posso dizer que mais uma vez bastaria, porque pode ser que não. Mas pode ser que sim também, não sei. Eu queria que você quisesse de novo pra poder te lembrar o quanto chupo seu pau bem.

Eu queria de novo não só pra recriar os caminhos de antes. Queria pra percorrer os novos que nos prometemos naquela noite de muita cerveja e maconha. Sonho com a promessa de que da próxima vez você me comeria o cu. “Da próxima vez tu compra lubrificante, hein?”. Disse eu já querendo amarrar o encontro seguinte. É mais forte do que eu, sou assim, de lua em touro.

Sonho com a possibilidade de você gozar na minha boca. E, ok, quero relembrar tua boca quente na minha buceta. Queria dormir aninhada no teu peito de novo. Lembro que você me abraçou a noite toda e mesmo achando ruim, eu estava achando bom. Acho que talvez soubesse que não mais tua perna pesada em cima de mim.

Quando pensei no próximo encontro, não era uma regra, um dever, um ter que. Estava mais para possibilidade. Está vendo, você não me conhece e aí não sabe que sou inteira possibilidades, alternativas e facilidades. Quisesse tu me comer de novo, ficava sabendo que sou dessas que só dizem sim.

Feminismo e relações abusivas

No palco, na praça, no circo, no banco de jardim… Esses versos de Mambembe me fazem pensar em como a liberdade também pode ser assim, matreira, solta, malandra, moleque, quando a gente permite se desfazer de certas amarras nocivas. Ela sai por aí e rola no ar, desce ladeiras, abre caminhos e molha por dentro. Alivia. A liberdade serve pra ventilar o coração. Pra fortalecer recomeços. Pra recuperar autoestimas combalidas e rotas. Pra fundar outros percursos. Pra reinventar a vida, que é o que gente faz o tempo todo e às vezes não se dá conta. Pois, em verdade vos digo: sobrevivemos. E do cenário de escombros, uma flor. Das dinâmicas perversas, clareza pra sair. Dos relacionamentos abusivos, coragem pra dizer não. E outra coisa: correr de pessoas que abusam da nossa fragilidade. De gente emocionalmente fechada. Desses tipos perversos que declaram amor apenas pra se sentirem menor pior, às nossas custas. Narcisos que precisam do espelho alheio e da força de alguém pra se enxergarem fortes, bonitos e inteligentes. Não. Meu espelho não vai mais refletir ou projetar vaidades de outrem. Meu espelho é pra ser respeitado em sua imagem e pranto. Sabe, quando estamos fracas e implicadas em relações abusivas, porventura até conseguimos ver as coisas como elas são, mas frequentemente não temos forças pra sair. E aí, querendo amor e alguma redenção lá na frente, a gente vai alimentando o palco de manipulações e jogos de poder que o outro exerce sobre nós. E dói e às vezes até dá vergonha ficar tão empacada em uma história tão sabidamente sem futuro, logo você, que sempre foi tão hábil em detectar possíveis ciladas. Em tempo: feministas também entram em roubadas, como todos e todas algumas vezes na vida. E de repente, meu feminismo, que sempre ofereci as outras como um abraço generoso, não estava dando conta de mim. Por longos e dolorosos momentos, não nos pensamos também como vítimas de ególatras narcisistas. Abarcamos sozinha toda dor e culpa. Claro, dei o meu quinhão nessa história. Possuo a minha agência, meu poder de ação e discernimento. E é justamente isto que tenho lançado mão pra entender o que se passou e pra me proteger dessa história bisonha que eu presumia ter algum controle. Às vezes a gente tem tanto orgulho e se considera tão autossuficiente que não se enxerga como vítima. Mas sim, pra nossa falta de sorte, isso acontece. E creio que aceitar essa condição é um primeiro e importante passo pra modificá-la. E não, o feminismo não tem que dar conta de tudo. Não tem que dar conta do outro, aliás, não pode. Afinal, se um relacionamento é feito a dois, qual o sentido em se colocar como a única protagonista de um possível fracasso afetivo? Nas entrelinhas, que nós não transformemos as vítimas em culpadas. Mais uma vez, vamos pegar mais leves conosco. Infelizmente, a lógica da violência machista e misógina está aí para todxs. Até para mulheres feministas.

Faísca

Eu estava encarando sua boca, sou louca por sua boca. Sabia que não ia dar certo, quando a gente fica juntos sai faísca, bebo um copo de cerveja, acreditando que, ao engolir o líquido, iria junto o desejo de beijá–lo. Ele tem esse poder sobre mim, não sei cumprir com meus acordos quando ele está presente. “Não fico mais com ele!” Disse pra mim mesma, ele disse algo parecido pra mim um pouco mais cedo. Esse era o certo, mas o certo nunca acontece quando estamos juntos.

E acabou a cerveja, abre outra correndo, entra em casa e respira fundo, volta pra rua e enche o copo, já estava embriagada. Só não sabia se era por causa de (só) uma garrafa de cerveja ou se era por causa do seu cheiro, uma mistura de perfume com cigarro. Sem querer, ele esbarra em mim, eu arrepio toda. Vai dar errado, nunca dá certo quando estamos juntos, tenho essa fraqueza por ele que eu não entendo.
“Falei tanto que iria dar errado que ele já está deitado na minha cama”, pensei comigo. “Meu último ônibus já saiu, agora só daqui a três horas.” ele falou. “Puta merda! Três horas, tenho que me segurar pra não atacá–lo.” Pensei e respirei fundo. A gente sempre perde a hora conversando, ele iria passar rapidinho aqui e iria pra casa, mas… nunca dá certo, a gente pode planejar o contrário, mas é só quando eu estou com ele que eu não me controlo.
Ele me contou da sua cicatriz, que ele não gosta e eu acho linda, sinto tanta vontade de beijá–la, não tenho juízo quando estou com ele, só penso em beijá–lo. Como num passe de mágica, eu já estava alisando a perna dele, ele pega na minha perna, eu reclamo, ele fala “você também tá com a mão na minha perna!” E tudo flui tão bem, como se eu pudesse viver sem culpa, sem medo, sem me preocupar com o dia seguinte. Eu só sinto, desejo, amo e gozo! E é sempre assim, a gente junto não dá certo (será que não?), sempre sai faísca.

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Uma Noite

Ele não é meu tipo, não sou fã de caras bonitinhos, rostinho de menino. E foi o que disse quando o conheci, que não dava tesão nenhum. E não foi que o convívio realmente deu tesão? Depois de um dia de convivência, pensávamos tão parecido, dava pra ficar horas conversando. E, nesse meio tempo, era encostar que dava choque.

Primeira transa, segunda e acabou, vamos manter a amizade. Mas é chegar perto, sai faísca. Uma certa noite, não aguentei, o sono destrói meu bom senso, não tirava os olhos de sua calça. É tão nítido algumas lembranças das noites anteriores. Lembrei que o cheiro dele me excitava, como sua pele era macia de apertar, o toque de suas mãos.

Resistir a algumas tentações, agir como amigo, fingir que não tem tesão nenhum entre a gente, “ultrapassamos esse momento da amizade, somos como irmão e irmã”. A quem eu engano falando essa mentira? É só olhar pra mim e qualquer pessoa nota como me sinto.

Voltando àquela noite, senti em minha boca o gosto de seu pau, a suavidade da sua mão acariciando meus peitos e minha bunda. Lembrei o som dos seus gemidos no meu ouvido, lembrei do seu beijo e foi difícil segurar, ele sabe que ainda o desejo, um desejo que vem quase de uma identificação, como se ele fosse minha versão masculina. É como se, até quando discordássemos, nos entendessemos.

Nessa noite, na minha cabeça, escondido, me perguntei o que faltou pra dar certo. Ele seria quem eu queria ao meu lado, sem cobranças, sem obrigações. Aquele companheiro de todas as horas, ombro pra chorar, namorado pra passear nas noites de lua. Fiz minhas fantasias e, naquela noite, sonhei com ele, na hora em que dormi. Acordei e fui viver minha vida.

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Gostos e jeitos

Ele não quer ser mulher. Não quer mudar de nome, mudar de gênero. Está bem assim. Gosta de usar saias, vestidos, corpetes. Maquiagem, brincos longos, colares. Meia-calça, salto alto, unhas pintadas. Sexy, sedutor. Saboroso.

***

Ela não gosta de sexo com penetração. Gosta de roçar, encostar, esfregar, tocar, bulir.
Adora a sensação do pau passando pelo corpo dela. Goza quando ele esfrega o pau no rego da sua bunda, deitada de costas, na cama. Por cima dela, nos peitos. Embaixo do braço. Na barriga.

***

Ele gosta de ser penetrado. Seu maior tesão: ela penetrando-o por trás, segurando na sua bunda, quente, forte, intenso.  Indo, vindo, apertando. Puxando-o. Ele se encanta com o corpo dela, o gosto dela, o cheiro dela. A forma como ela o penetra.

***

Ele gosta de olhar. Pira no olhar. Recosta-se nos travesseiros. E olha. E se toca. E saliva. Enfia os dedos na boca. Morde os lábios. chupa o dedo. E se masturba com a outra mão.  Lentamente. Saboreando o olhar.

***

Ela gosta de passar a buceta no rosto dele. Na língua dele. Se demorar no nariz. na testa. Puxar seus cabelos. Gemer rouco, gemer alto. Escorrer para dentro da boca dele, por cima do nariz dele. Deslizar. Soltar-se.

Nojinho de buceta?

A origem do mundo, de Courbet www.francebleu.fr

Quem tem medo de buceta?

Certa vez, transando com um peguete novinho, pedi que me masturbasse. Até que o menino tinha habilidade, mas ficou um tanto incomodado por eu querer isso e não pedir que me penetrasse logo de cara. Daí, quando estava perto de gozar, ele parou e pediu pra eu pegar camisinhas. Como assim, brasil? Estava com paciência porque era a primeira vez que trepava com o dito cujo. Me levantei, peguei a bendita e dei pra ele (a camisinha e a buceta).

E foi tão borocoxô… Não gozei. O homem parecia uma britadeira, mete, mete, mete. Aí a paciência foi diminuindo, assim como o meu tesão, interrompido abruptamente. Pedi que parasse. Ele também não gozou. Estávamos quites. Dispensei o boy e esse, ah, esse não me come nunca mais.

Sabe por quê?

Disse que só fazia sexo oral em namoradas (e eu concluí que o boy sofria da síndrome do nojinho de bucetas). Ok, é uma escolha dele. Não vou obrigar ninguém a ter uma prática que não é a sua. Mas fico me perguntando até que ponto a negação tem a ver com essa cultura asséptica, sem pêlos, com bucetas padronizadas e jovens que se espalha como uma praga por todos os cantos. E me parece que isso é algo recente, sabe? Nas minhas memórias pregressas de sexo, todos os meus parceiros caíam de boca em mim com fome e vontade. De uns breves tempos pra cá, tive a infelicidade de me deparar com homens que simplesmente não curtem fazer isso.

Sim, não curtem chupar, mas adoram ser chupados. Que injusto, não?

Pra completar a inutilidade da noite, o boy ainda questionou se eu era hetero. Por que, né? Quem seria louca de adiar o encontro com o pau-maravilha dele? Porque, se eu fosse uma hetero de verdade, ia querer logo que metesse bem fundo. Desde quando gostar de sexo oral e de masturbação me torna lésbica? Que equação bizarra é essa? Não, infelizmente não sou lésbica. Só queria deixar registrado que muitas lésbicas amam penetração e muitas mulheres heterossexuais não gozam só com penetração. Bem didático, né?

Não existe amor mesmo nessa vida. Recuso-me a entrar nessa. E fiquei orgulhosa de deixar claro que o rapaz tinha sido um péssimo amante. Quase escorracei daqui de casa. Esse não volta mais. Vá pro inferno com seu nojinho e preconceito! Bem longe da minha cama, de preferência.

Sabe, não quero me relacionar com homens que pensam ser o falo (deles) o centro de toda a transa. Pra coisa ser boa pra mim, não rola ter tanta frescura e egoísmo. Quero mãos que me toquem profundamente, línguas que me chupem com desejo até eu gozar e sentidos que saibam reconhecer o cheiro bom da excitação do sexo. Quem não manjar disso, simplesmente, vai ser carta fora do baralho.

Se eu tenho nojinho? Não, nenhum. Tudo que curto que façam em mim, gosto de fazer também. Comigo a brincadeira tem que ser recíproca, que assim me dá mais prazer. Eu dou e como também. Caça e caçador. Tudo isso e mais um pouco. Definitivamente, não tenho mais tempo a perder em um sexo com muitas restrições e caretices. Pior é perceber quando a restrição e a caretice esconde um medo danado de uma buceta. Medo do corpo de uma mulher adulta. Medo de perder uma suposta primazia do falo. Sabem de nada, inocentes!

E um beijo pra quem sabe apreciar uma buceta. Pra quem gosta de olhar, admirar, cheirar, beijar, lamber, chupar. Foder. Com amor, carinho e muita safadeza. Afinal, como num texto que li há pouco tempo, quem ama, chupa. Querem verdade mais cristalina que essa?

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