Sobre Mozzein

Pseudo-Intelectual surrealista. Psicanalista de Estautas. Pelego do Tradicionalismo. Palhaço das perdidas ilusões...

Diversidade, Visibilidade e Tolerância

Admitir que o preconceito está na gente. Exatamente isso, falar em diversidade e tolerância é admitir que o preconceito está em nós. Nós mesmo, frutos de processos de socialização e educativo, que recebemos por anos uma chuva de padrões de comportamento, pensamento e atitude, somo a primeira barreira para a promoção da diversidade. Então, primeiro passo na promoção da tolerância é descer do pedestal.

Não é possível começar um debate sobre diversidade, visibilidade e tolerância, se quem fala sobre isso não admite que praticar a diversidade e a tolerância é, antes de tudo, um processo individual de consciência, seguido de uma prática discursiva, de edução e auto-educação e prática social efetiva. Sim, porque é fundamental se livrar da demagogia do discurso (do midiático e o das redes sociais) e partir para ação as afirmativas e as negativas (sim, as negativas, aquela que se resume em não exaltar como “folclore” atos de visibilidade).

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Paula Rego – Branca de Neve engole a maçã envenenada

E a visibilidade, né… Vamos combinar, visibilidade é um ato de quem é diverso! Se você não é diverso, não tente tirar quem é do armário simplesmente pelo fato de que você quer praticar o seu discurso sobre diversidade. É muito bonita a empatia, a fraternidade com as pessoas diversas queridas, mas expô-las como, para o seu bel prazer egóico, não é legal.

E lembre-se que ao convidar um amigo pra uma festa sua, não inclua o adendo: “vai ter um monte de gente legal, gays, lésbicas, trans*, o pessoal do candomblé que vai fazer um batuque, um colega do mestrado que é refugiado sírio e uns ativistas do poliamor”, convide só para a festa… deixe ele descobri que não há nada de diferente em encontrar essas pessoas em uma festa ou em ir a um evento do cerimonial do Itamaraty… NÃO OBJETIFIQUE QUEM É DIVERSO. Quer dizer quem vai, diga os nomes das pessoas, de onde você as conhece, mas não a característica diversa delas.

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Paula Rego – Passos do Coelho

Promover a diversidade por meio da tolerância é romper com o processo de silenciamento, naturalizando a visibilidade de quem quer ser visível, porque tem gente que não quer, ou não quer 24h, ou não quer em certos ambientes, aceite isso. Quer discutir, excelente! Estamos aqui para isso e precisamos disso! Então, dê voz às experiências das pessoas diversas, replique a voz dessas pessoas, difunda os atos públicos dessas pessoas, mas não pense que promover a diversidade é expor a vida privada dessas pessoas, porque não é.

E é isso, promover diversidade é ensinar a tolerar os processos de visibilidade, é naturalizar esse processo, é permitir que a diversidade sexual, de gênero, racial, religiosa, de corpo, de deficiência e quaisquer outras sejam parte do dia a dia. É ensinar que os preconceitos aos diversos são resultados de processos sociais que devem ser rompidos e que depende de nós preconceituosos rompê-los! O mais difícil é sai do discurso para a prática, mas a gente pode começar a qualquer minuto.

os não quereres

Não quero. Me falta saco, me falta vontade, me falta empenho, me faltam forças. Não quero. Aliás, sim, quero. Quero a possibilidade de exercitar o meu amplo e total direito à recusa, a dizer não.

Desde quando se criou a convenção de que nós devemos viver para dizer o sim? Na minha cabeça isso sempre pareceu o padrão. Não transgredir, ser um corpo manso, simpático, apático, detentor da única possibilidade de dizer a plenos pulmões: SIM. Pois não quero.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Também não sei que eu quero. Tampouco sei se preciso descobrir. Só sei que o dizer não me excita! Me causa um estremecimento, me aquece, me dá vontades. Me revela que dizer NÃO não destrói o mundo, como se meu não fosse um bomba atômica.

Dizer não transgride, em primeiro lugar, com o meu castelo de certezas e com meu mar de dúvidas. Depois o mundo, sé é que o mundo se importa com o meu não. Sé é que o mundo vai sobreviver com o meu não. Que aceitemos, o mundo e eu, é um NÃO!

Não sei onde isso vai dar, o quanto o não querer importa, afeta, afasta ou aproxima. Mas é não, ao menos por enquanto. É não para derrubar minhas muralhas, nem que seja para construir novas, mas primeiro eu preciso ver o que há além das velhas. Ou, como diria a Lispector, é perder a terceira perna, par então buscar novos pontos de sustentação.

 É um não querer para tirar-se da normalidade, nem sei se para uma anormalidade, ou para-normalidade, mas definitivamente para transgredir-se. Pra por fim, ou dar uma pausa, ao excesso de sins… e é tão engraçado como o plural de SIM se traduz em “pecados” em outra língua. É hora dos NÃOS

Vênus em Via Combusta

Não, esse não é um post pra falar de astrologia… tem muito mais gente competente pra isso do que eu… mas é pra pegar o mote de Vênus estar passando pertinho dO SOOOOOOL (você imitou a Alcione mentalmente) com perigo de se queimar.

Paula Rego

Esse post é sobre se queimar! No bom sentido… é sobre aproveitar essa via combusta (ui) e deixar o desejo (Vênus) exposto à irradiação… Sim… esse post é sobre superar medos. Medo de se expor, medo de sentir, medo de ser correspondido no sentir.

Pode parecer até ingênuo, mas o fato de se expor é o mais difícil para se atingir o desejo. A não ser que você seja facinho (e é uma delícia ser facinho), a biscatagi é um convite a ser mais facinho com o próprio desejo. E, principalmente, não ter medo de exercer esse desejo!

Sim, porque se engana quem acha que o desejo é um sentir… O desejo é um exercer… é um fazer circular gestos, intenções, palavras, atrações… O desejo só vale na medida em que ele executa, senão o nome é diferente, é frustração.

Por isso, é bom aproveitar a desculpa de vênus em via combustão par se queimar um pouquinho… Pra soltar o desejo, mesmo que ele seja pego pelo rabo… vai que quem pega no rabo dele, pega bem…

Travessias

Travessia, defina como quiser… travessia, entenda como quiser, travessia, sinta com bem entender, travessias remetem a passar por, a passaram por, a estivemos em e que… passou… se retorna? talvez em outra travessia, dificilmente na mesma…

Travessias também remetem a atravessamento. Sim, atravessar situações, atravessar questões, atravessar pessoas… ser sujeito e predicado desse processo. E como todo mar que é atravessado por embarcações, como toda terra que é atravessada por pés errantes, todo ar que é atravessado por música, não ser mais o mesmo mar, a mesma terra, nem o mesmo ar…

São Cristovão by Paula rego

São Cristovão by Paula Rego

Travessias são, talvez, as inundações do nosso templo. a conversão do nosso tempo em estado, em matéria, em sorriso e em choro. são a experiência das possibilidades do nosso corpo, das capacidades de nos pensar, das instâncias e distâncias do nosso ser.

Travessias são momentos de se deixar seduzir, de enfrentar medos, de imaginar cenários, de conhecer os outros, de se conhecer, de buscar entender de se deixar levar. Há travessia para se deixar atravessar. Há travessia para se imprimir ritmo, para se exprimir em ritmo. Porque toda passagem, passa melhor com ritmo, com música…

Quem um dia cantou uma travessia e um dia pôs ritmo a um atravessamento há de fazer cantar sua passagem. Calar essa passagem é tentar em vão remover da memória o mar modificado em si, a terra revirada em si, o ar revolvido em si. E simplesmente em si, pois não há como dar conta do outro… bascos passam, pés passam, músicas silenciam… a menos que mantenhamos o canto

Um dia eu atravessei, um dia eu me deixei atravessar… passou, não sei se e como vai voltar… não importa, foi uma travessia para sonhar, para cantar, mexeu no meu mar, revolveu a minha terra, inundou o ar reverberando em meu templo e se fazendo em mim. E, assim, minha travessia tomou seu lugar no tempo…

Lágrimas de um futuro frustrado

Pensar em morrer, sem choro nem vela, com uma fita amarela gradava com nomes, vários nomes. Quem nunca pensou? Desejou? não se trata de poligamia ou poliamor frustrados, mas pode ser também. Trata-se de planos, planos frustrados.

Uma coisa que é recorrente, pelo menos pra mim, é tomar as experiências e frustrações em relacionamentos como uma perda. Perda de tempo, de sanidade mental, às vezes, até perda de amor próprio. O que me sempre foi muito difícil e acredito que seja pra muita gente, é tomar essas experiências como ganhos. Sim, ganho de experiência, de autoconhecimento, de conhecimento de vários outros, de contato com pessoas e questões diferentes da nossa e, mesmo, de condições distintas da nossa.

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Talvez seja por isso que a gente chora (pelo menos, chora por dentro, para aqueles que não se permitem chorar mesmo). Nossas frustrações amorosaa (e quem é biscate sabe que tem uma tapa de frustração de uma leva só) são o reflexo de como desejamos o outro e como transferimos para esse outro, às vezes sem qualquer garantia, nossas vontades de futuro. Garantia… Nós sempre queremos uma garantia e, pior, queremos que o outro seja a nossa garantia… Difícil é sermos a nossa própria garantia com o outro…

Não se trata de buscar proteção, de não criar expectativas, etc… Se retrair diante de relacionamentos (ou possibilidade) é, talvez, a pior estratégia. Ao contrário, a ética do “se joga” abre a vida para um conjunto maior de possibilidades, felizes ou frustradas…

Talvez não seja fácil, muito menos pouco dolorido (no ego, no coração, na cabeça e no corpo), mas a frustração, o seu choro, as lágrimas derramadas são a nossa única garantia de ter buscado a experiência, de ter vivido o nosso desejo. Então, SE JOGA.

Os Outros

Acho que sou recorrente e repetitivo. Uma das repetições a que me presto é falar do “outro”, ou dos “outros”. Não como fofoca, mas da importância e presença deles em nosso convívio. Sim, prefiro usar CONVÍVIO a VIDA, pois não é qualquer “outro” que faz parte das nossas vidas: muitos são mera passagem, alguns poucos passagens marcadas, poucos são permanentes. O que os reúne, de uma forma geral, é que são “outros”.

A idéia não é fazer um post de blablablá anti-individualista, pró-gregário e sociologiquês. A idéia é pensar no “outro” de um jeito biscate. Mas como pensar nos “outros” de um jeito biscate? Poderia ser um pensar igual, um pensar livre, um pensar fraterno, um pensar sexual… Ou poderia ser só um pensar…

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Mães e Filhas – by Paula Rego

Acho que é uma tecla em que eu sempre bato. Nós (eu estou incluidíssimo) estamos acostumados a pensar o “outro” do nosso viés. Às vezes, também nos preocupamos em pensá-los de seu próprio viés (aquela coisa lá de calçar o sapato do outro, etc…).  O que é raro, mas que dá pra tentar fazer, é pensar o outro sem o compromisso consigo mesmo ou com ele, simplesmente pensar, pra procurar entender as nuances e, em princípio, não julgar.

Não se trata da demagogia de “entender a plenitude do outro”, muito menos de buscar a “verdade do outro”, “a realidade do outro”. A ideia é buscar um novo viés, ou um anti-viés, ver o outro em conjunto, amalgamar as ideias próprias, com a dele e, se possível, com a de quem mais. Ou seja: dialogar o “outro”.

Claro que não é fácil: se fosse fácil chamava pipoca e não diálogo. Fazer a palavra circular é a dificuldade. Na impossibilidade de ser como os “outros”, na dificuldade de entendê-los pura e simplesmente da própria perspectiva e na inglória tentativa de se colocar no lugar do “outro”, a forma que sobra é interagir. Romper a barreira do isolamento, ser fácil para que o “outro” facilmente se aproxime.

Não tem método, não tem forma, só há experiência. Vale pro sexo, pro pré-conceito e pro preconceito, para a amizade, pra família, para as paixões e para o amor. Mas só vale se for junto. Não se trata sequer de unir, de amálgamas: trata-se de circular a palavras, de “sins”, “nãos”, “talvezes”, “comos”, “de quais formas/ maneira/ modos”. Trata-se de entender. E é isso, entender o outro sem compromissos e ver no que isso vai dar.

Qual república vai cair?

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Anunciaram e garantiram que a República iria se acabar nesta segunda-feira. Mas que república? Uma grande questão sobre a nossa sociedade e a atual situação de grupos vulneráveis e minorias é, certamente: Que República?

Desde que decidimos, por um golpe militar, implantar uma República no Brasil, fizemos a instituição de um estado estratificado, desigual, patriarcal e patrimonial. O que eu quero dizer com isso? É que fizemos um estado do “meu” e não um estado “de todos”.

A nossa concepção de política, de liberdade, de igualdade e de fraternidade simplesmente se resume a: o quão livre eu posso ser no meu grupo de privilégios; o quanto de igualdade eu posso conceder sem permitir que todos os meus privilégios decaiam; e, como conter os ideais de alteridade pelo simples fomento do ódio.

É isso o resumo do que somos. Somos uma sociedade heteronormativa, que busca manter-se como tal. Que, às vezes, faz concessões por vias de enfrentamento (decisões judiciais, protocolos administrativos, etc) e que, quando estamos muito descontentes, nos ensinam que emitir um mugido de revolta, mandando nosso opositor procurar uma rola (ou coisa melhor, às vezes), é a melhor solução.

Nosso grande “esquecimento” é que a condição de igualdade, formando a base republicana, só se dá quando reconhecemos no outro a nossa própria liberdade. Isso mesmo! A nossa verdadeira liberdade só se realiza na liberdade do outro. Na sua igualdade e no seu reconhecimento.

A noção de “público” na República não é simplesmente algo que seja de todos indistintamente. Mas é algo que todos possam reconhecer o próprio gozo. Sim, GOZO, simbólico e material. Gozo, realizado mediante o entendimento de que gozo proveniente do desejo do outro é tão legítimo quanto o nosso gozo, quanto o nosso desejo.

A república que não temos é justamente a nossa incapacidade de aceitar que a “coisa” mais pública que temos que preservar é a não-intervenção no desejo alheio, na medida em que ele não pratique nenhuma opressão e, como tal, manifeste a integridade de um sujeito.

Quando chegarmos a esse patamar, o de reconhecer a plenitude do outro como um ser que merece gozar, desejar e ser e viver a delícia que é, que teremos uma república… E ela não cairá!

Das inconstâncias

Comigo é assim: nem sempre é, ou não é mesmo, ou é assim sendo, ou simplesmente é, mas sem ser. Não tem constância, receita, medida ou prumo. Vontade, pode até ser, mas até nela as inconstâncias comparecem.

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Dali – The Ship

Das piores metáforas para a vida, pelo simples fato de nenhuma ser suficientemente boa, a da navegação talvez seja a que mais me agrade. Inconstante por si só, navegar traz em si um explorar-se, um dar-se ao próprio acaso… um ver o que rola.

Navegar-se. Navegar a si mesmo é, talvez a nossa melhor odisseia. Despretensiosa, objetiva, interessada, descompromissada, preguiçosa, astuta, navegar em si é entender as próprias amarras, é descobrir cada nó que nos segura e cada um daqueles que desatam as nossas velas…

Navegar-se, nas inconstâncias da vontade, nas malemolência do desejo é um convite a explora-se… a desatar-se de nós… a desancorar-se de águas calmas. E sim, são estalos… assim como geme um barco que naufraga, gemem (de gozo, dor, êxtase, ou que quer que seja)  os nosso sentidos em cada exploração.

Explorar-se é entregar-se ao mar de vontades, é naufragar-se em medos, é emergir-se deles, é dar-se às próprias inconstâncias, não para transformá-las em constâncias… viver não é calmaria, mas para aprender a navegar-se em quaisquer águas.

E em navegar-se, em explorar-se, em viver-se das próprias inconstâncias, aprender a desatar os nós, a naufragar os próprios navios, a nadar no desconhecido de si… E é isso. O processo de viver, de se viver é também o de compreender os naufragares… É navegar-se, naufragar-se e emergir-se em todos os explorar-se, sem ordens, regras, ou modelos…

Não é só, mas é intimamente solitário. Não é inaudito, mas é inexprimível pelas formas de comunicação. Não é apático, ao contrário, revela os sentimentos das nossas inconstâncias. Navegar-se é isso, viver das próprias inconstâncias, ou tentar…

Das pessoas que passam pela nossa vida

Não acredito que nada seja perene, pra sempre ou eterno… talvez nem enquanto dure (desculpa, Vinícius). E assim também não é com as pessoas. Elas passam… no mínimo, todo mundo vai morrer um dia, inclusive nós mesmos. O mais importante, acho, é contudo o que eles deixam na nossa vida.

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Paula Rego – Crianças Voando

Experiências, boas ou más. Experiências, dóceis ou abruptas; contínuas, interrompidas, frequentes. Experiências… sim, elas deixam experiências. Cada pessoa que passa em nossa vida, por mais singular que seja, as vezes quase imperceptível, as vezes como um turbilhão e as vezes como mar calmo em dia de muito vento, são experiências a serem aproveitadas, conhecidas, reconhecidas e elaboradas.

Boas ou más, experiências são oportunidade de autoconhecimento. Nada automático, tampouco cartesiano… não há uma relação binária ou mesmo linear entre uma experiência e um aprendizado, muito menos há uma relação temporal, mas o conhecimento de si vem… se vem!

E é bom… conhecer(se) é bom, a gente gosta e goza! E pra quem é biscate, quanto mais gente, melhor! Porque mais gente é mais oportunidade e gente é outra alegria!

São dessas coisas a vida… deixar as pessoas passarem… permitir, sobretudo, que elas permaneçam, pelo tempo que quiserem, como quiserem, enquanto for bom pra gente também. É sempre um também… vida sem também é uma vida sem experiências, é uma vida em que o conhecer-se não se resolve.

Como como diria o poeta, passar por essa vida é se dar, é chorar, é amar, é sofrer, porque, por incrível que possa parecer, esse é um dos caminhos de satisfação, de ser feliz… se sofrer, na vida, é um compasso de autoconhecimento, sofrer é também um passo de sublimação, de epifania… sofrer é parte do processo de amar, de se amar… Porque passar por pessoas, viver pessoas e se conhecer com essas pessoas é um ato de se amar…

Das opressões ao corpo: as próprias

O Corpo e os Dedos não faltam para apontar o irregular. Dedos do outro, dedos da mídia, dedos da moda, dedos do padrão de beleza estabelecido, dedos do parceiro, dedos dos familiares, dedos e mais dedos e os nossos dedos… Não se trata de criar uma categoria de qual dedo apontando dói mais, aliás, essa não é nem a questão.

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O Embaraço – Paula Rego

A questão, acho,  é o quanto dói o nosso dedo apontando para o próprio corpo e impondo padrões de beleza como forma de opressão, sem revelar o nosso desejo. Culpa, ressentimento, pavor, terror, auto-negligência… E não se trata da idéia de negligência com a saúde e a “aparência” próprio (o popular desleixo), trata-se da negligência consigo, com o não querer se ver…

Ver o próprio corpo… Não é bem um “Três passos, se aceite, você é lind@”… Mas precisamos ver o nosso corpo! Mais que ver, precisamos tocar a nós mesmos. Sem pudor, sem horror, com carícia, com afago… fazer um auto-cafuné… E não é a idéia do “Já que ninguém faz…”. Se a gente não é capaz de fazer, como alguém vai fazer por nós???

Sim, há aqueles que vão fazer por nós sem que saibamos o quê… Mas não é só assim, não precisa ser só assim e é melhor, pra nós mesmo, que não seja só assim… Porque, uma coisa é certa, se é bom quando acertam o nosso corpo, é muito melhor quando sabemos por que a pessoa acertou…

Se é que existe uma jornada de autoconhecimento, talvez ela seja a da delicadeza dos próprios dedos percorrendo cada dobra, cada músculo, cada buraco do próprio corpo até entender que é nosso! que é do jeito que somos! que pode ser bom e prazeiroso sem causar repulsa.

Sim, porque o dedo que aponta o próprio corpo, o aponta com repulsa… E não, não estou dizendo “foda-se, você não pode ter auto-crítica”… Ter auto-crítica é bom, mas a crítica pela crítica ao próprio corpo, apenas para manter as convenções de beleza é no mínimo, espúria.

Cuidar do próprio corpo, caso se chegue a uma conclusão depois de um processo de auto-conhecimento, poderia ser um simples indicativo de prazer… uma simples prova de amor próprio e, principalmente, um cuidado que não pareça uma agressão, um cuidado que demonstre um desejo…

É pura e simplesmente uma idéia de só mudar o próprio corpo para ser mais quem a gente quer… Pra que o nosso dedo que nos percorra, seja pra entender quem a gente quer é ou quer ser e não pra trazer o que o mundo quer que o nosso corpo pareça…

Patrulhas da sexualidade… Alheias

Tem uma coisa que me incomoda… Incomoda muito! A tal da patrulha… “Olha, fulano tá namorando demais, cada dia com uma!”. “Olha, siclana trocou de namorado ontem e agora tá pegando aquela menina”. “ME-NI-NA, você viu! Beltrano saiu do armário… beijou não sei quem no carnaval, eu vi! Até que enfim!!!”.

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Registro Rupestre de um Beijo – Piauí-Brasil

E o problema da patrulha não é só, em alguns casos, a superexposição da sexualidade alheia. Sexualidade é igual marca de nascença, expõe quem quer. Tem gente que tem orgulho, tem gente que tem receio e tem gente que acha complicado. Acima de tudo, é foro íntimo e é da vontade de cada um usufruí-la para além de qualquer patrulha (sim! qualquer patrulha! de movimentos pela ou contra a liberdade).

Pra ser chato, eu meio que tenho uma teoria baseada em nada mais nada menos que minha mera observação sobre a situação: A patrulha da sexualidade alheia revela uma insatisfação com a própria sexualidade. Pois é… Me desculpem os psicólogos de plantão (e os que têm rotina também), mas é isso… Não to dizendo que o fato de um “heterossexual” se incomodar com “homossexuais” revele que ele seja um potencial “homossexual enrustido, ou que uma pessoa “pudica” que se incomode muito a “lascívia” de outras pessoas seja alguém “que não trepe”.

Pode até ser que isso seja verdadeiro. No entanto, o que quero dizer é que a preocupação e o incômodo sobre as formas como os outros exercem as próprias sexualidades (seja heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual ou qualquer outra forma de designação) é um indício de uma incapacidade, ainda que momentânea, da pessoa se satisfazer plenamente a própria sexualidade e, em específico, sentir prazer com essa sexualidade. E não há nada pior que, ainda que exercendo a própria sexualidade, a gente não goze!

Em princípio, isso não é problema nenhum… Todo mundo já passou ou vai passar por algum momento de insatisfação sexual e de exercício “precário” da própria sexualidade. O problema é quando essa insuficiência de gozo se transfere do mero incômodo com as sexualidades alheias e parte para uma patrulha dos hábitos e das ações das sexualidade alheias. E, pior, parta para iniciativas de cerceamento das sexualidades alheias! O que é inconcebível.

Daí vem a minha implicância, porque patrulha/policiamento já nunca é bom, quando é da nossa sexualidade, então, é terrível! Por um simples motivo: a sexualidade é a prerrogativa mais íntima que nós temos e seu exercício livre é o maior sinônimo de nossa satisfação como humanos e em sociedade… É como a gente sente prazer, é o jeito que a gente goza… É isso…

Biscateando às vezes

Às vezes… nem sempre, nem nunca…  em muitos casos,  em poucos. às vezes surpreendentemente, para o bem, para o mal ou para o incerto e às vezes, muito às vezes, a vez.

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Não é bem uma matemática afetiva… não é uma multiplicação de pessoas e gestos e feições e afeições, sequer é soma… tampouco o clichê da divisão e, menos ainda, o subtrair do outro, mas, às vezes, esse é mais…

O querer é da ordem do “às vezes”… querer sentir, querer estar, querer ser… é em meio à infinitude, encontrar o que a gente quer e, também, o outro quer… para mais, para menos, por isso às vezes dá certo… nem nunca, nem sempre… às vezes…

O querer… querer é um bicho com quem ninguém pode… o querer é da destruição de qualquer matemática da vida… mas, às vezes, ele desperta um quê para além do querer… aquela ponta de desejo que vai para além do infinito e, por vezes, explode em uma profusão de querer também.

TAMBÉM, como querer também é bom! querer também subtrai pra dividir uma soma que multiplica tudo o que se é junto… mas também não é matemática… também é linguagem… de uma língua das mais aplicadas! Também é quando o às vezes do querer acontece…

São linguagens para além de palavras, são linguagens do sentir em forma de música, de movimento, de um conjunto de formas e maneiras confusas e inconfundivelmente abstratas para que só a ordem só sentir entenda… e para que só no tocar, no envolver, no beijar e no ser se entenda… linguagens para poder realizar o querer… esse querer também que parece difícil, mas que entre uma biscateada e outra, às vezes, desavisada e despretensiosamente captura…

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