Sobre Mozzein

Pseudo-Intelectual surrealista. Psicanalista de Estautas. Pelego do Tradicionalismo. Palhaço das perdidas ilusões...

Lucia, Biscate-Honorária

E foi, foi no ritmo dos festejos do #BiscaTour2013SaudadeDoSeuRabo estação Bêagá que encontramos. Biscate-Honorária. Ou melhor, fomos encontrados, por uma dessas biscas improváveis que andam por aí, quietinhas, desapercebidas e, quando resolvem nos encontrar, dão aquela felicidade: Lucia.

Sarinha, Augusto e Quel, com Lúcia, só na biscatagi!

Sarinha, Augusto e Quel, com Lucia, só na biscatagi!

Assim veio Lucia. Vendia caixinhas de papel, que não nos interessou, mas ela insistiu, puxou conversa. Conhecia sotaques, cidades, falava da biblioteca Pública e dos Cachorros, mas principalmente de Bianca (porque é branquinha) que não está no vídeo.

Vídeo? É, vídeo! Procura aí, disse ela. Eu to na internet!!! E procuramos. E lá estava Lucia. Contando sua história de vida em um documentário. Uma verdadeira celebridade das ruas, cuja felicidade era que os outros soubessem de sua existência e de seus cachorros, aparentemente sem dar a importância devida às dimensões de suas palavras.

Lucia, perguntamos, quer tirar uma foto com a gente? Vamos te colocar de novo na internet! Mas é???? surpreendeu-se ela. Mas onde? No Biscate Social Club, Lucia. Você agora é Bisca-Honorária! Gostei disso! Posso mandar as pessoas procurarem? Claro que pode, Lucia! Você agora é nossa!

E como boas biscas que somos, aqui estamos compartilhando a história da linda da Lucia, no documentário dirigido pelo Sérgio R. Oliveira. Pela biscatização das Bibliotecas Públicas e contra o preconceito à pessoas de roupa suja, Bandeiras da querida Lucia.

Biscas do Brasil, se forem de ou a Bêagá, vejam Lucia, conversem com Lucia. Vejam Lucia na internet. Vai mudar um pouquinho da vida de vocês!

Beijo, Lucia. Saudade do seu Rabo!

Veja no Link abaixo o vídeo e a release do Documentário!

Lúcia – (Vídeo) Apresentação na EXPOUNA 2012 from ArkCyD on Vimeo.

Este documentário registra a história de Lúcia, uma moradora de rua de 52 anos que, após perder sua mãe, não conseguiu retomar sua vida. Conheceu a rejeição e foi morar em um albergue onde ali teve contato com as drogas. Passou a viver nas ruas, e vivenciou o preconceito que existe contra os moradores de rua. Vive atualmente em sua “mansão de papelão” na Avenida Álvares Cabral no centro de Belo Horizonte com seus cães. Apesar das dificuldades, Lúcia não perdeu o desejo de aprender, conhecer e viver.

Como trabalho para conclusão do semestre dos alunos de Cinema da universidade UNA, foi necessário criar um documentário de até 5 minutos usando fotos e apenas 1’30″ de vídeo com o tema “Retratos do Brasil Contemporâneo”. Esta é a versão inicial com vídeo, onde montamos antes de criar a versão de fotos. Nosso objeto de estudo se baseou em uma grande pesquisa sobre os moradores até encontrarmos Lúcia, uma pessoa excepcional que tem muita sabedoria da vida e história para contar.
Sergio Renato Direção e Edição
Radija Queiroz Direção de fotografia
Reuel Soares Assistente dir. de fotografia
Lucas Teixeira Direção de arte
Poliana Oliveira Pesquisa e jornalismo
Matheus Valério Roteiro e produção
Filipe Mendonça Captação de áudio
Mateus Mendes Sound designer

“Night in the Draw”
Balmorhea
“Truth”
Balmorhea

Traduzir

Vida de biscate que viaja é foda! Ops, malz! Podia falar foda? Ah, é! Aqui pode. Então.. é foda! Deparar-se com um mundo de possibilidade, de pessoas, de jeitos, de signos, de costumes… E ter que traduzi-los.

Frank Moore - Nascimento de Vênus (Traduzido)

Frank Moore – Nascimento de Vênus (Traduzido)

Traduzir não é simples, requer observação, entendimento, alma aberta a sentir aquilo que se vê, ver aquilo que se escuta, provar aquilo que se ouve e degustar aquilo que se sente. Nem sempre traduzir é bom, mas traduzir é sempre uma experiência!

De viagens e traduções se constrói uma vida biscate… Biscateando de porto em porto, de língua em língua, de sotaque em sotaque, vamos nos permitindo o entendimento, vamos nos provocando a traduzir… Traduzir para participar, traduzir para se juntar, traduzir para não parar.

É nessa vida de bisca-viajante que nos acontece, contudo, o melhor: aprendemos. Aprender é tudo! Aprendemos o outro, conhecemos o seu jeito, a sua forma, seus costumes, daquilo que gosta e não gosta, viajamos por sua fala, sua espécie, sua língua.

Levamos ao outro aquilo que somos e acumulamos nessa viagem biscate e buscamos nele aquilo que possa nos acrescentar, nos modificar, nos compreender. Mas pra isso é necessário traduzir… Estar completamente aberto para absorver, processar e (re)significar toda a impulsão que um lugar novo com pessoas novas pode representar. Precisa fugir do óbvio.

Viajar, traduzir, viajar, aprender, traduzir, libertar, libertar, libertar-se!

É só conhecendo o resto, que nos libertamos. É só traduzindo o resto que nos entendemos.

Por isso, amigues biscates, viagem e traduzam! Libertem(-se) o óbvio, encontrem o novo.  Se joguem nessa arte!

Abolição, ou pelos olhos do lobo*

Meu lugar em casa sempre foi a cozinha. O lugar onde sempre me identifiquei. Onde sempre brinquei com as panelas entre as pernas da minha mãe; onde sempre ajudei a tomar conta dos meus irmãos; onde sempre fiz todas as refeições, sem exceção para escapadelas na sala vendo televisão; onde sempre fiz meu dever de casa e estudei; onde sempre conversei sobre tudo e ainda converso. A cozinha é o meu lugar em casa.

Filho Bastardo - Adriana Varejão

Filho Bastardo – Adriana Varejão

Ainda que de família pobre, mas de imigrantes europeus e sírio-libaneses (com um passado caboclo e indígena tão no fundo que não é sequer possível identificar), a trajetória da minha família sempre esteve fadada a cumprir a “Boa Nova da América”. Crescer, multiplicar, vencer na vida e dar trabalho a quem precisa. E, nisso, se dar ao luxo de ter, ainda que passando de classe média-baixa, média-média e média-alta, conforme o tempo, empregadas pra a tranquilidade da família.

Não me lembro de ter ficado, durante minha vida, muito tempo sem empregadas. E, vivendo num estado esbranquiçado como o é o Espírito Santo, não raro elas foram de todos os tipos e lugares, mas principalmente mineiras e baianas, negras. Mulheres das mais diversas características. Mas a cor não era um senão, ou pelo menos a entendia como se não fosse.

Viver em áreas de transição, estudar em escola pública, brincar na rua sempre me possibilitou um contato muito grande com negros. Isso sempre me fez senti-los como próximos, mas sempre diferentes, por uma simples questão de status social, afinal, eu sempre era, na infância, da família de melhor condição de vida, o filho do funcionário público, aquele cuja família tinha empregada, lavadeira e que, claro, não tinha negros na família.

Em um tempo (isso remonta há pelo menos 25 anos atrás) em que a injúria não era velada, cresci ouvindo e utilizando os piores registros linguísticos para denominar um negro! Piadas de toda sorte, que meus colegas negros da rua também contavam e riam. E ainda hoje alguns são capazes de rir, dizendo que se não rirem da própria desgraça não podem rir de nada…

Mas foi principalmente na cozinha, onde sempre recebi o cuidado das empregadas, que conheci o que era, naquela época, ser negro. Conviver com mulheres que abdicam da própria família, dos próprios filhos, da própria personalidade para passar oito, nove, dez horas por dia, a semana inteira na sua casa é um aprendizado. Cruel, mas um aprendizado. Não entender como isso remonta a uma necessidade diariamente auto-afirmada de sobrevivência é criminoso.

Na cozinha da minha casa vi mulheres de todos os tipos, jeitos, caracteres, credos, estimas e estigmas. Conversei com todas, convivi com todas. Fui mimado, educado, aconselhado, recriminado por todas. Não que tivesse pais ausentes, pelo contrário, mas quando se passa muito tempo na cozinha de casa, é impossível não atrapalhar o serviço das empregadas com coisas de crianças!

Carpeaux  - "Pourquoi naitre esclave" - Abolição

Carpeaux – “Pourquoi naitre esclave” – Abolição

Essas mulheres nunca se mostraram a mim como vítimas e também nunca as vi assim. Quando já “grande” e nas melhores escolas e segundo grau, quase sem negros em volta, mas ainda com empregadas (e, agora, com todos ao meu redor na mesma situação), nunca consegui me curvar ao discurso da vitimização. As mulheres que, durante a minha infância, ajudaram a formar aquilo que sou, nunca me deram essa idéia, nunca se colocaram de um ponto de vista frágil. Pelo contrário, sempre me foram um modelo de que a vida se vence, pela luta e por todos os meios que a condição de inferioridade se nos colocam nessa luta.

O que eu entendi, depois com minhas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, direito, ética, é que essas mulheres são o exemplo velado de um falso modelo de sociedade. Essas mulheres, em sua abnegação ao próprio, em sua vulnerabilidade ao individual, em sua atenção (as vezes extremada, as vezes branda, as vezes negligente) àquilo que não lhes pertencia por ser seu, mas por buscarem nisso (a minha família) a própria sobrevivência, me deram uma dimensão de respeito ao outro que não tenho como recusar.

E essa consciência, tampouco, representa algo que me assumiu em uma epifania. Ninguém acorda no dia seguinte ao ler Casa Grande e Senzala e se dá conta disso. Ao contrário, muitos que leem Casa Grande e Senzala (e se regozijam com isso) apenas o reproduzem de forma mascarada. E é recorrente aquilo que vejo e aprendo na cozinha de casa.

Ao longo dos anos, foram essas mulheres que me trouxeram o cheiro da realidade que só me pintava às mãos pela tinta dos jornais, ou apenas me era aceso aos olhos pela luz da televisão. Foram essas mulheres que me trouxeram o outro lado da realidade, a que se vive e que, em certo sentido eu convivi na infância, mas que hoje não faria parte do que me é dado (ou do que procuro) conhecer do mundo.

É só por essa realidade que sou capaz de entender que, em 125 de abolição, o que a sociedade em que eu vivo representa é um recorrente choque de ordem. Choques de ordem que se empenham em conceder migalhas de direitos. Choques de ordem que buscam encobrir um estado social em que o trabalho e o esforço só são capazes de gerar a sobrevivência, mas nunca a vitória.

Choques de ordem que mantém pobres, os miseráveis; negros, os criminosos; e as mulheres que trabalharam ao longo dos anos na minha cozinha, as mesmas mulheres que, sem motivo nenhum para ter vergonha, continuarão lutando pela própria sobrevivência e abdicando das próprias vidas. E não se trata só de pensar em “o que é que eu posso fazer para mudar isso?”. Abolição não é algo que se faz, abolição não é algo que se entrega e se diz “vá, agora és livre, cuides da tua vida, deixes de ser aquilo tudo que sempre fostes e muda”.

Abolição é como a sociedade vive e se constrói e, perdoem-me, as mulheres que entram na minha cozinha todos os dias de manhã só são capazes de me mostrar, ainda, que essa abolição não é plena. Não é plena, porque mesmo com as subsequentes conquistas e dádivas de direitos, ainda não fomos capazes de reconhecer no outro aquilo que queremos como sociedade para nós. Ainda não somos capazes de aquiescer no outro a legitimidade na luta e a busca por oportunidades, por mais impossíveis que às vezes elas pareçam.

Estamos longe e considerar próprio que libertos tomem, quaisquer que sejam os meios legais ou legítimos que os levaram lá, lugares de destaque, sem ouvir, nos mais diferentes tons possíveis a reprovação acompanhada, não raro, da expressão (quando muito bem politicamente correta colocada) “aquele negro”.

Enquanto a cor, o sexo, ou condição continuarem a ser um parâmetro de identificação na nossa sociedade, não se enganem, a abolição ainda não terá chegado. Enquanto for necessário ver na ação e na conquista algo que tenha que ser tomado como igual ao invés de sê-lo, nossa realidade ainda estará fadada a criar meios de exclusão. Enquanto a cidadania tiver que ser celebrada como um meio de conquistas esparsas e não como um âmbito da satisfação de direitos, ainda estaremos apenas reproduzindo um vulto daquilo eu nos foi posto como liberdade.

E é isso. Em 125 anos de abolição, a noção de fraternidade foi a que menos se esboçou para nós. Aqui, vista pelos olhos do lobo e através dos exemplos diários que entram e saem da minha cozinha, parece que uma tensão cada vez maior se forma e que conquistas ou dádivas são capazes de criar celeumas impensáveis em nome do status vigente. A abolição da escravatura, jamais significou e ainda não significa a plenitude de direitos, ela sequer tergiversou sobre o reconhecimento do outro como igual em direitos.

É esse reconhecimento que, pela busca da própria sobrevivência, essas mulheres me trouxeram e ainda trazem. É esse reconhecimento que, hoje mais claro pra mim, me parece negligenciado por um discurso do que deveria ser próprio e meritório a cada um, quando na verdade não é. Abolição não se trata só de permitir, seja em que nível for, que os demais sejam livres, trata-se de viver isso!

*Post vinculado à Blogagem Coletiva pelos 125 anos de Abolição, convidado pelo Blogueiras Negras.

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Vazio

O vazio em cada um de nós. Não que seja ruim, simplesmente vazio. Vazio que permite conhecer, saber tal que se merece ou não preenchimento. Vazio, puro vazio. Tabula rasa? Não! Vazio não como ausência, mas vazio como escolha. Vazio como presença e como espera. Vazio do outro, mas profusão de si.

lugar

Rosa em Meditação – Dalí

Incoerente? Por certo, que sim ou que não. É vazio o que sinto quanto mais entendo, quanto mais me entendo. Não que recuse o cheio, mas no vazio completo, enquanto aguardo aquilo que preencha.

Aproveitar o vazio dos planaltos íntimos. Aquiescer na distinta condição de saber o querer. Manter um vazio fugaz ou pleno, insípido ou deleitoso, inerte ou fulgurante. Não manter.

Ter vazio, só para preencher. Ter vazio, só para entender. Ter vazio, só para não conter. Ter vazio, para deixar-se transbordar.

Vazio, para de seu exagero ocupar, no mesmo exagero. Vazio para completar como e com o que quiser, mesmo pela metade.

Vazios para aqueles que buscam o seu lugar…

Descobrimentos

Não há dia certos para se descobrir nada. Mas como hoje é uma data simbólica, vale a pena falar sobre os descobrimentos…

Descobrir é uma surpresa (oh, descobri o Brasil!). Para o bem, para o mal, que não fede, nem cheira, ou que cheira um pouquinho e as vezes fede, ou que é boazinha, mas ruim também. Descobrir é um dos objetivos da vida. Algum poeta algum dia ainda dirá que infelizes aqueles que nunca descobriram. E outro contista, talvez, acrescentará: infelizes daqueles que descobriram e sequer perceberam…

Não se trata de ser fácil, difícil ou de ter um tutorial de como se fazer, pensar, ou perceber descobrimentos. Basta apenas prestar atenção, basta apenas estar aberto a sentir o novo, sem compromisso… (Hey, péra! Isso não é um tutorial?).

Voltando aos descobrimentos. Adoro descobrir sinais, sorrisos, olhares. Gosto de descobrir, num sentido um pouco mais profundo, a satisfação! Sim, porque descobrir não é só o perceber ou encontrar algo que ocorre, descobrir pode ser desnudar, o trazer à tona aquilo que não sabíamos em nós ou o que as pessoas não sabiam em si. Descobrir é revelar! Também…

Bisca descobridora - Chagall

Bisca descobridora – Chagall

O tão bom de se descobrir na gargalhada. O riso, desculpem-me os tristes, mas o riso nos revela, como um todo. Choro com qualquer um que o mereça, por tristeza, felicidade ou rotina, mas é de rir constantemente que quero morrer. É na revelação e cada gargalhada, contida ou indiscreta, pudica ou biscateira que quero encontrar tudo o que é, pelo simples fato de querer ser…

Porque descobrir é isso, é desnudar o que é… é deixar ser, simples e apenas pelo fato de ser. DESCUBRA!

Institucionalidades

As músicas dizem muito sobre como pensamos a vida. As músicas expressam, às vezes, aquilo que estamos dispostos a dizer, mas não dispostos a tornar imperativo, aquilo que é necessário ficar no imaginário, sem ser objeto de intervenção. Não só a música, eu sei, é um propósito da arte, não toda, mas de alguma. A institucionalidade, ao contrário, nos obriga.

Paula Rego - O Regresso

Paula Rego – O Regresso

Exato, a institucionalidade, a esfera da exclusão do que é belo, por definição. Como boa Bisca que sou, tenho minhas teorias sobre a institucionalidade. A principal delas, é que as pessoas não só esperam por isso, como clamam, imploram e se submetem. A institucionalidade é, em si, a representação documentada da condição de ser… É a própria submissão à condição de estatística.

Mascarada como legitimidade, a institucionalidade é a forma como a nossa sociedade conseguiu, sem ao menos tentar, praticar a fraternidade. Sim, a fraternidade, aquela bela forma de reconhecer no outro os mesmos direitos, as mesmas liberdades, as mesmas possibilidade de dançar, à sua maneira, a mesma música que dançamos… A institucionalidade, em forma de lei, de decisão jurídica, de ordem de autoridade, é a nossa declaração de absoluta incompetência para viver com o outro, de conviver com o outro.

Sim, estou culpando o resultado por sua causa… Anarquia? Talvez… Por que não? A busca incessante que vivemos hoje pela satisfação de direitos através da lei é o resultado desse processo de institucionalização da vida… Bato nessa tecla, estamos passando da esfera do “livres para fazer o que não é proibido” (seria melhor livres para fazer o que não afete a liberdade alheia) para a do “livres para fazer o que a lei manda” (no melhor dos casos). Estamos invertendo tudo.

Desculpem a visão utópica. Do entender a marcha das minorias (e alguns excluídos nem minorias são) pela institucionalização de direitos, a concordar que isso é a única forma de se fazer respeitar as diversas condições, me falta a vontade. Me perco, às vezes… simplesmente não registro o quê de liberdade que há nisso. É como se a minha música tocasse não para ser ouvida, mas para ser registrada, não para ser dançada, mas para ser marchada, não para ser sublime, mas para ser verdade.

Sobre Institucionalidades - Laerte

Sobre Institucionalidades – Laerte

Assim, eu não queria… Mas, pelo jeito, por uma infortuna “formação cultural” o que tem pra hoje é um processo amplo, geral e restrito de institucionalização. No qual ao invés de se reivindicar direito, reivindica-se legalizações. Vivemos num país onde o se educar em conjunto, tornou-se um vamos fazer valer “isso” para que as pessoas, então, aprendam. Perdemos o bonde do processo de socialização… deixamos de significar as relações sociais para criar instituições, caixinhas mais confortáveis onde as pessoas possam dormir melhor…

Assim eu não queria… Mas se o jeito, hoje, é lutar para que as pessoas institucionalizem sua condição social, sua cor, sua sexualidade, sua identidade de gênero, não vou fechar os olhos e deixar acontecer, meu jeito é lutar junto. Lutar junto, contudo, para lutar mais. Lutar é a única forma de se posicionar pela igualdade, pela alteridade! Ser intransigente, se preciso, na minha opinião e combater o conformismo, sempre!  É assim, virarei estatística, se preciso, pra defender o direito ao reconhecimento, sobretudo pra defender minha utopia de não ter que institucionalizar o que sou, sou livre, sou música, sou dança, sou a arte de uma vida de histórias e sentimentos, não caibo em definições…

Para todos e pra quase ninguém: sonhos

Iemanjá brincava com a gente na praia. Era sol de fim de tarde, o mar estava verde e o barquinho navegava um céu que quase não se via de tão rosa. Inundava-nos em sonho.

O vento era forte e Santa Bárbara sussurrava. Era conforto. Estava quente e eu só me lembrava que a distância é o esquecimento… como a música gosta de dizer. Brincar era mais que aquilo e responsabilidade era dádiva. Não estávamos no limbo, mas num interstício entre ser e ser também.

Cantávamos nossas músicas. Eu velho, quase macambúzio; você tristemente, buscando um reconforto para aquilo que acreditava nunca ter passado. Não era a vida, apenas parecia uma profusão de momentos sem nada que os alinhavassem, mas era bom.

Era um jeito de estar, uma mania de inventar, uma chance de não pensar, um sentir de arrebatar. Não causou euforia. Muito menos ilusão. Quebraram-se mitos de ações inesperadas, de reações desapontadas e de feições acalentadas. Era simples não ser o que a música espera que sejamos… A arte não era o nosso forte.

Inesperado, poderíamos dizer… não, não dessa forma. Racionalidade imperava naquilo, mas era contrária ao que praticávamos. Imperavam predicados, mas nossos verbos estavam mal e parcamente colocados, nossas regências nominais se confundiam. Éramos ora vocativo, vezes aposto, mas nunca orações subordinadas.

Faltavam-nos conhecimentos e línguas que pudessem expressar aquilo que não queríamos omitir, mas que uma megalomania de sentimentos enveredava. Excessos de cosmopolitismos. Éramos crianças em gênero, adultos em número e liberdade em graus diferentes.

Sonho causado pelo vôo de uma abelha em torno de uma romã, Salvador Dalí

Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã

Fraternidade nos soçobrava. No íntimo, reconhecíamos-nos, mas dispensávamos. Éramos distintos disso. Disso que todos esperam… Alagar cântaros de virtude nos era demais. A tentação nos bendizia e a transgressão nos estimulava. Estávamos ali, diante de Iemanjá, à lá traviatta

Não queríamos fora, não exigíamos diferentes, não manifestávamos o óbvio. Apenas chorávamos o também… também. Para todos também, mas pra quase ninguém atendia… Assim, não queriam. Assim não se entendia. Estávamos ali por você, também, éramos biscates…

Das preguiças: Cativar por quê?

Meu problema hoje talvez não seja um problema biscate, talvez seja. Ou, vai ver, seja um apenas reflexo. Cativar…

De uma maneira geral, eu quero que Saint-Exupéry vá à merda… Isso mesmo! Esse negócio de responsabilidade ETERNA pelas pessoas que cativamos… Que merda é essa? Não tomo conta nem da minha vida direito, vou ter que cuidar daquilo que plantei em quem está longe; ou perto e afastado; ou perto e não quero ver; ou longe e quero esquecer; ou não está?!? E eu? Sim, essa é a pergunta! Quem é que quer saber se os meus grilhões estão postos? Pois é… só eu…

- Cativas? - Não, brigado

– Cativar?
- Não, brigado.

 

Desculpe se cativei… Sim, se criei um cativeiro sentimental, fraterno, amoroso, ou sexual… a culpa é sua! Não, não foi minha intenção, ou foi, mas agora já passou… Sério, não andou… não me quis, não queremos, ou não queremos mais, acabou antes de começar. Ou começou, rendeu e agora decidi que acaba… Sim, decidi. Porque a escolha, agora, é só minha… quando foi nossa, não rendeu, faltou liga, cola e todos aqueles clichês das histórias de tias velhas, novas e que ainda vão nascer.

Platonismo não me serve, querer “longe, de mim distante” pensando “onde irá seu pensamento” não cabe no meu Eu disponível… Minha pegada pragmática, empirista, não consegue esperar ausência, nem presença frouxa. Me cativar vai muito além de me colocar em uma paixão louca, em uma amizade efusiva, em uma chave de pernas… Me cativar é saber me entender e ter a disposição de me aturar. Não, não sou o ser que pede 100% de atenção. Aliás, primeiro passo fora da minha realidade…

Melhor dica? Pra me encantar? Não se esforce… É, é sério, minha veia biscate não aguenta esforço. Nasceu na preguiça do dia a dia e contra ele morrerá! Situações criadas, vontades arranjadas, expressões colocadas como algo a se louvar, não aturo… Gosto do que gosto e é à primeira vista, do primeiro jeito, num primeiro julgamento… Minha “análise” sempre mostra que é assim, ou a regra e três se encarrega do resto… portanto, não se esforce… Jamais tente ser comigo uma linha daquilo que não foi antes, com a mesma força daquilo que foi antes…

Exato! Se começou brusco, é para terminar brusco, se começou brando, assim vai terminar… Síndrome de Gabriela? Talvez, mas por um tempo curto… Quando quero mudança, ela é conversada… Sim, relacionamento se muda pelos dois lados. Palavras? Quem sabe?! Mas que razão de ter saído alguma coisa para além daquele primeiro olhar foi que palavras não eram necessárias, muito menos atitudes, ou falta delas… Isso mesmo, sou difícil. É na minha dificuldade, insensatez, tacanhice que construo tudo que não quero, e tudo que decido que fará parte de mim… O que quero? Olhares me mostram, por muito ou pouco tempo… e meu olhar também demonstra… o resto é preguiça.

Sim, preguiça. Porque acho chato sentir compaixão, acho demais sentir pena e insisto em não guardar rancor, raiva, ou qualquer outra coisa que crie amarras… Há muito decidi me libertar disso… Também não guardo alegrias não cultivo paixões e não carrego amores… vivo-os, assim na malemolência mambembe do simples querer. E é por isso que não quero saber de cativos… quero livres… livres para vir e ficar, para vir e partir, nunca e a toda hora, seriamente ou na brincadeira, nunca na mente ou premente, só vigente. Só espero que nossos olhos digam e que nossas cabeças acenem… é simples! Um “venha cá” ou “adeus” são bem fáceis de entender… Só não cative nenhuma parte disso. Esteja e seja comigo enquanto quisermos e é só… Não quero na minha saudade mais uma prisão!

Biscarnaval

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É Carnaval! Hora de tomar conhaque com o ticket do leite. Isso mesmo, amiga-amigo, biscate. Caia na gandaia! Desça na boquinha da garrafa, segure o tchan, vá na dança da ondinha, chame Dalila, Pererê e quem quiser! #SiJoga

Beije um, beije dois, beije três e beija eu, seja eu! Porque se vamos comer Caetano ou Bethânia, tudo depende da madrugada com a vitrola rolando, nus, dançando de biquíni ou BB King sem parar! Pois já que em tempo de pega-pega-pega-pega-pega,  pega-pega, já peguei, nada mal, a gente curte o terra samba e tira essa loucura de dizer que não te quero, Conceição!

E, naquela hora, em que todo mundo é menino e vai gritar pra todo mundo ouvir: Olha a Mangueira aí, gente! Chama a Valesca e, #Mama, fia! Beija-flor, seja flor, dance no céu! #EuQueriaSerUmaAbelha #HajaAmor #AjaAmor

Depois, é felicidade que brilha no ar! É luar, estrela do mar e o que há de bom! Grita alalaôôôôô e vamos pra turma do funil!

É assim, bisca-amores, atrás da verde e rosa e na frente da Mangueira só não vai quem já morreu.  E como we are carnaval, we are folia, we are The world of carnaval, caia na folia!

A gente estancou de repente…

O dia depois, seguinte. Aquele dia em que o mundo cresce e enquanto tudo não parece parar, vem a dor. Aquela hora em que a vida derrama-se, esgota-se o peito, amargura e horror. Aquele instante mediato, midiatizado, o pavor.

alma-de-luto

Como erguer-se? Como sustentar-se? Como acreditar-se capaz de se manter, de não duvidar, de segurar forte, de não doer, de só amar e do amor recriar? Como velar?

Não tem razão. Não tem questão. Não tem senão. É a mácula. É a dúvida. É a miragem de uma alcunha devida, repetida, exigida, implorada e encarnada. Impregnada de vida, é o que queria. O mundo à frente, é o que teria. Um ser patente, é o que seria.

Uma flor que jamais desabrochará, Um sonho que jamais vingará. Uma folha que já, a mais, cairá. A falta da última desdita. A falta da última ferida. A falta da última despedida. Sem cor. Ser sorriso. Se lágrima. Dormindo na incômoda fileira. Sofrendo a interna trincheira. Provando da horrorosa maneira.

É a dor e não é assim. É a tragédia e não tem fim. É uma roda vida e não bonfim. Atitude? Consolo. Atitude? Decoro. Atitude? Atitude. Atitude… Não tem fim, sequer sim, dor assim, no dia seguinte.

#Luto #SantaMaria

 

Sobre a Liberdade

#Alma Biscate
Sobre a Liberdade, Augusto

“Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome”, pois é, não saber o significado talvez seja um começo… Prestar atenção, compreender, respeitar, um passo fundamental. Crítica, autocrítica, indispensável… Revelar uma alma biscate talvez seja equivalente a descobrir cores, talvez seja como invadir o desconhecido em si e desbravar, para si, os freios e os contrapesos da alma. É buscar a liberdade de conhecer e dar o nome que quiser às cores, ou simplesmente mantê-las anônimas, não ter que nominar tudo…

2012-06-01 21.20.40

Se libertar é um processo. É um exercício de autoconhecimento. Liberdade é o estado de espírito em que se permite estar em equilíbrio consigo mesmo, sem freios, sem medos, sem vergonhas, sem dores. E não é fácil, às vezes improvável, às vezes estanque, às vezes contínuo; nunca impossível. É navegar “louco, louco, louco, louco e sujo de sal”. Sal de suor, de lágrimas, de sangue ressequido, de feridas em cicatrização, de luta, de desejo, é o sal do outro. É também encontrar “luz em um caos de paixões”; é poder flanar sobre as “almas esticadas no curtume” da vida, nas exigências da família, da religião, da sociedade e se desapegar.

A liberdade é o exercício diário e pleno da própria vida, é o erro e o acerto em cada ação para consigo e para com o outro. Sim, pois para ser livre é necessário, fundamental, errar! E mais, é preciso ser capaz de assumir a responsabilidade pelo erro e transformá-la em aprendizagem ao invés de recalque, de autocastração.

Meu processo de aprender uma vida livre dói. Não me importa se mais ou menos do que dói nos outros…Dói de uma maneira que é só minha e que é assim para cada um, há que estar disposto! Meu primeiro passo foi o desapego, do qual abusei; depois a exposição, que reprimi; ainda as críticas, que descobri fundamentais em mim e desimportante nos outros; Agora estou em luta, que transformei em mantra, luta pela liberdade, mas inconstante.

Quere ser livre é, assim, ato diário, constante! Ser livre, talvez seja o seja menos. Por vezes nos perdemos em nossas próprias armadilhas, não é! Importante é saber sair delas. Mas liberdade é consciência de si e noção de coletivo. É entender que mais que levar a própria liberdade ao extremo e até o limite a liberdade do outro, liberdade é ser livre com o outro.

SER LIVRE COM O OUTRO, com todos os demais. Talvez seja isso que tenha aprendido com o Bisca: querer a liberdade; entender as limitações alheias, afinal, cada qual se prende em sua gaiola de ferro; e batalhar quando tentam me enfiar em uma dessas prisões. Aprendi que não posso, como gostaria, diariamente e constantemente empurrar todos para uma direção que sequer conheço, mas que posso tentar exercitar, com cada um que também esteja disposto, o traçado de um outro caminho e é isso que faço no Bisca, vou tocando em frente, de vagar, sorrindo…

Obrigado, biscas do meu coração! Biscatagi é isso… é ir junto!

Antibiscatista

Esse texto é biscasolidário a Karina Veiga e um recado às reações à situação.

Nada mais que um bosta, era seu prazer em ser. Regular a vida alheia, a opinião alheia, o gozo alheio. O que mais? Bem feitor. Adorava arrotar seus méritos em conseguir benesses para qualquer coisa, mesmo que ninguém precisasse delas. O importante era mostrar-se capaz de fazê-lo.

Abominava, verbo preferido em qualquer conjugação, tudo e todos. E quanto mais ojeriza lhe brotavam à boca, mais dedos se apontavam ao léu. Amor? Não era… não tinha… não podia… Se impedia.

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Apontava, recriminava, controlava, por puro desprazer, tudo o que se pudesse fazer sem se satisfazer e impunha suas premissas às hordas de submissão. Tinha o benefício da autoridade e se acreditava no dever de fazê-lo pelo bem da manutenção daquilo que era antes do passado.

Racista, machista, chauvinista, homofóbico, egocêntrico, pau pequeno, ou grande… mas não sabia usar, certeza! Ou, ainda, as vontades lhe coçavam em lugares, para si, impróprios… Paçoca, jamais!

RECALQUE… sua sina. Os outros o incomodavam, não entendia a diferença, o diferente. Não aceitava (-se)… tinha ojeriza. Viveu ~{[("feliz")]}~, por muito tempo, mais que a necessidade e convalescendo com a esperança. Seu nome? Ethero Normativo des Alteritário.

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