Sobre Mozzein

Pseudo-Intelectual surrealista. Psicanalista de Estautas. Pelego do Tradicionalismo. Palhaço das perdidas ilusões...

Entreveros, ou você tem que vir pegar

To nessas fases da vida em que escutar Cher é dos meus melhores momentos de sabedoria… Porque, claro, a maior Diva Internacional viva tem algo a nos ensinar (tudo bem que, em geral, ouço Bethânia, mas esse momento eu to mais pra Cher). Pois é, toca a música aí abaixo e vem comigo!

 

Não sei se isso são bem preguiças de férias… ou se são somente preguiças, mas to na fase do “tem que vir pegar”, ou “me pegar”, ao gosto do freguês. Não se trata de uma revolta com a vida, ou um recado (afinal, em geral, se Maomé não vai até a montanha, a montanha fica na internet postando indireta), mas sim de um completo e total estado de preguiça. Afinal, como diz nossa querida Cher, “but if you want my heart, you gotta take it like a man”.

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Pois é… é preguiça. Preguiça dos “entreveros”: do muito esforço por nada, dos excessos de esforços alheios, de ser alvo quando quero ser seta… Pegar é uma arte que tem que ser dominada por todos os lados envolvidos, sem qualquer exceção… Esforços são válidos, mas quando eles partem de um único lado causam isso, essa profunda e completa sensação de “não sei”, que eu prefiro chamar de preguiça… só pra não ter que explicar muito…

Por isso, em alguns momentos, o essencial é deixar estar… ver o quanto o outro suporta esperar e o quanto e de que forma o outro vai vir te pegar… E, assim, ver as atitudes tomarem forma para além de palavras, de meros gestos, de promessas – se é que essas promessas, de fato, existem ou são simples frutos podres da nossa imaginação… No fim, não ser o motor de um futuro entrevero… ter, simplesmente, preguiça por um pequeno período de tempo…

E, depois dessa fase Balú, aquele urso fofo e rabugento amigo-pai do Mogli-Menino-Lobo, de saber que “Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”. Depois da pegada, passar para a fase Preta Gil e “não ter preguiça, não”! Mas isso é pra outro post.

Expurgos

Fins de ano… Fins. As vezes me parece que reunir frustrações, esperanças e desejos em um momento especialmente preparado para encontros, acordos-desacordos e expectativas seja um trabalho um tanto quanto estóico. Essa “reunião” (confesso já fiz muitas, pois sou desses), não raro, só trouxeram a aparência de um “recomeço” de ano de ilusões e, por isso, de uns anos pra cá, aderi aos expurgos.

Dalí - Sobre expurgos

Dalí – Sobre expurgos

Sim, expurgo. De coisas boas, de coisas ruins, de expectativas não cumpridas, de metas não realizadas (eita parte difícil), mas expurgo. E expurgar não significa, aqui, abrir mão do próprio desejo, mas sim não tentar forçar questões, encontros e lançar expectativas sobre ele apenas porque se está chegando ao “fim de um ciclo” (ciclo de rola é cu, se me permitem a subversão do trocadilho).

Expurgar pra começar leve. Tipo tomar um laxante simbólico… Deixar no fim desse “ciclo” tudo aqui que foi preparado pra ele e, justo por ter uma preparação forçada, não cumprido. E, principalmente, expurgar “metas” que estão sendo repaginadas, pois nunca foram cumpridas. Que, se o fim de ano serve para alguma coisa, sirva para o expurgo das ilusões de que coisas que nunca foram, possam, num dia ainda que longínquo, ser.

Se é que algo recomeça a cada virada de ano, que comece leve… Que cada virada de ano não seja uma nova luta a ser travada para se impor o próprio desejo, mas sim uma forma de reaprender a viver o próprio desejo. Que a virada de ano seja terreno fértil para novas sementes fecundarem e não um bando de pequenas mudas enxertadas em pedra quente. Que o novo ano seja um espaço de livre aprendizado! Como diz o filósofo, “Deixa acontecer naturalmente”, que acontece bem!

Por que criminalizar o aborto e quem o auxilia?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

O Aborto é uma imbecilidade burocrático-patriarcal. E eu poderia passar a noite inteira em claro reconstruindo argumentos (porque eles já existem aos montes) pra justificar a liberação irrestrita da prática da interrupção da gravidez, poderia usar os mais secos e “capitalistas” de questão de saúde pública, diminuição da pressão carcerária, etc. Além disso, muitos dos bons argumentos a favor do aborto serão trazidos na nossa Quinzena #AbortoSemHipocrisia

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Garota com um Feto (2005) by Paula Rego

Essa quinzena tomou fôlego com as notícias, recém divulgadas do crescente número de crimilização de pessoas que prestaram apoio a mulheres que buscaram o aborto (veja aqui). E é sobre isso que me debruço nesse post inicial. E não, não vou escrever um tratado jurídico pra explicar a situação. Basta saber que nossa legislação permite, sim, criminalizar quem presta qualquer auxílio à mulher que faz aborto – e, sim, é qualquer auxílio mesmo, desde indicar o remédio abortivo, comprá-lo, levar à clínica, pagar o médico clandestino, tudo isso é participação no crime.

Agora, sendo sensatos no assunto (ou tentando, pelo menos). A nossa sociedade é prolífica em demonstrar que historicamente nossa liberdade sobre o próprio corpo é quase nula. Quando se trata de mulheres (cis ou trans*) essa autonomia sobre o próprio corpo é menor ainda e isso não é uma mera questão legal… isso é cultural, algo incutido na nossa formação e que reprime qualquer atitude que tomamos em relação ao nosso corpo, desde a masturbação, exposição do corpo nu, passando pelo sexo, até o aborto.

O legado da nossa sociedade é de opressão ao corpo e de oprimir o corpo do outro. Agora, imagine o quão difícil não é tomar o ato de liberdade desse contexto cultural e decidir fazer o que é considerado “crime” por essa mesma sociedade. Agora, imagine fazer isso sozinho. É não só cruel, como irresponsável. A prática do aborto requer assistência! A mulher que, não importa o motivo, resolve dispor do próprio corpo e se submeter a esse procedimento médico precisa de auxílio: moral, financeiro, afetivo, profissional. E o que o nosso Direito Penal Arcaico faz? Isso mesmo, criminaliza que quer que esteja disposto a dar suporte a esse mulher, seja ela consciente-empoderada, inconsequente-vítima do contexto social, seja ela simplesmente o que tem que ser uma mulher que aborta: alguém que decidiu dispor do próprio corpo.

Hoje, nosso sistema político e jurídico transforma a questão do aborto em uma questão de coragem, de clandestinidade e de resistência. Mulheres Livres e seus “Camaradas”, seus auxiliadores, se põem no lugar de uma guerrilha a ser combatida de forma abrupta e truculenta. Se tornam, mais que criminosos por um sistema injusto e arcaico, vítimas de um estado que os deviam acolher e dar assistência. E é muita infelicidade para uma sociedade não conseguir entender e chegar a este estágio de civilidade, porque é isso… nos falta civilidade, compreender a dor e as questões do próximo e, sobretudo, apoiá-los nesses momentos. Contudo, nós e nosso Estado irascível preferimos criminalizar vítima e quem quer que a auxilie…

Não nos basta reconhecer que estamos passos atrás, nosso problema é, depois disso, pedir para sermos cimentados nesse lugar atrás.

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Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Pequenos Prazeres Biscates: Beijo Grego

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates…

#PequenosPrazeres

Cunete, anilingus, rimming, cuzete, beijo negro, beijo natalistico, beijo baruerense, beijo allanistoico, beijo tianical, tulipa roxa, folhinha verde. SIM, ele, o BEIJO GREGO.

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Disembodied Lips – Julia Randall

Talvez um dos maiores tabus da vida sexual contemporânea média. Pois é, um dos melhores Pequenos Prazeres Biscates, Ele é, sim, o mais castigado pelas convenções. Sujo, imundo, anti-natural…

Expressões de ódio e ojeriza ainda estão pra ser criadas, cada vez mais aviltantes, para designar, por referência, o Beijo Grego. Se foram os gregos mesmo quem o inventaram, pouco me importa… A pluralidade de designações é suficiente pra mostar que origem não é o problema, o que importa é a prática!

Receita simples: 1 cu e 1 boca. Junteo-os e exercite a gosto! Mulher em homem, homem em mulher, mulher em mulher, homem em homem. Não importa a orientação de gênero, nem a identidade de sexo, sequer sexualidade. Sim, o beijo grego é, talvez, o pequeno grande prazer sexual 100% passível de prática entre todos os seres humanos dispostos nesse planeta! Beijo, democracia!

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Disembodied Lips – Julia Randall

Não… esse post não é uma manual de Beijo Grego, para isso convidamos vocês à prática, tampouco um serviço de saúde pública (para isso recomendamos gente especializada, por exemplo, urologistas e ginecologistas). Esse post é, sim, um serviço de felicidade!

O Beijo Grego, esse nosso pequeno prazer, nossa maior expressão Biscate, é a liberdade de se permitir atingir o ponto amplamente negado pela história da atividade sexual. Sim, não se trata simplesmente de ser um cu e uma boca… Trata-se de ser a junção apaixonada desses parceiros anatômicos e fisiológicos.

Pontas de um mesmo sistema, cu e boca (e que fique claro que línguas e dentes – sim, dentes – também participam) promovem o encontro do êxtase… Revelam, em si, a autonomia fundamental: a de se permitir fazer o sexo que tiver vontade!

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Disembodied Lips – Julia Randall

Por isso, amigxs biscates, tome o Beijo grego como um ato de liberdade, como um ato de auto-conhecimento e de conhecimento do parceiro. Não se trata de concessão, de prova de amor… Trata-se de descobri uma fonte de desejo. Beije!

Você deveria votar em, ou a buceta é de quem mesmo?

Se tio Eric Hobsbawn tivesse vivo, certamente rafaria o livro Tempos Interessantes e o escreveria de novo. Certamente o chamaria “Tempos Interessantes: uma ode ao chorume e à cagação de rega”, como caso, nossas eleições de 2014. Por isso, resolvi escrever esse post pra ensinar como uma biscate deve votar.

Bz4QvfqIgAA-9x0O processo de votação é simples: você vai à urna se quiser, digita se quiser e confirma se quiser… é tudo no consentimento. Mas na hora de escolher o candidato você tem um problema. Problema fundamental! A escolha do candidato é algo tão intrínseco e íntimo  que merece uma pergunta em especial: A buceta é de quem mesmo?

Isso mesmo, leitor amigo! Ao pensar em votar, pense na sua buceta. Se você não tiver buceta, deixe de pensar em termos normativos de sexo e incorpore uma buceta ao seu físico. Agora, pergunte comigo: A buceta é de quem mesmo?

Exato! Seu voto, sua escolha nessa e em qualquer eleição é como a sua buceta (real ou figurativa). Você escolhe que quiser, se quiser e, mesmo, não escolhe. Buceta e voto, na biscatagem, é coisa sagrada! Dar, pra quem quiser, ou não dar depende apenas da sua vontade. Isso mesmo VON-TA-DE.

Pode parecer chula e inapropriada a comparação entre voto e buceta, mas eu te garanto que não é! Ambos repousam cálida e contemplativamente sobre um mesmo princípio, a liberdade. Isso mesmo, a liberdade de dar o seu voto é a mesma de dar a sua buceta.

A formação de uma consciência política dorme junto e se inquieta justo no meio de suas pernas, na sua tímida bucetinha do voto secreto, normativo, regrado, representativo, mas seu. Ou no seu bucetão militante aberto, reganhado e vociferante de uma posição sólida, ideológica e partidária. Ou ainda, na sua buceta virgem, ou na cansada, que não querem ou não se dispõem ao trabalho de se abrir a proposta do candidato e simplesmente não querem votar!

Por isso, amigues, nesses tempos tão interessantes de estupros políticos generalizados, toda vez que vierem enfiar um candidato buceta, digo voto abaixo em vocês, perguntem: A buceta é de quem mesmo?

E lembrem-se: ninguém é obrigado a votar em alguém, ninguém é obrigado a aceitar ou concordar com qualquer posição política ou candidato e todos estão aptos a expressar as opiniões mais esdrúxulas possíveis e serem arduamente criticados por elas. Afinal, ninguém é obrigado a gostar da sua buceta também… Aliás, tem até gente que prefere outros sistemas, como o cu, por exemplo… mas daí são outros casos…

Por isso, amigues, argumentem, ou não. Se ofendam, ou não, mas lembrem-se que assim como a sua buceta, seu voto e tudo o que está em torno dele é pra ser objeto do seu gozo. Se não for pra gozar muito, melhor não ficar cagando regra na internet…

Beijo no coração.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

No último domingo, 28/09/2014, assistimos ao vivo, em cadeia nacional de TV o que talvez tenha sido a maior expressão de desrespeito pelo humano da nossa história recente. As declarações do candidato à presidência Levy Fidélix sobre a legalização definitiva do Casamento Homoafetivo deixou incrédulos atônitos, cépticos desconcertados e militantes destroçados. E foi “formidável”!

Pra quem não assistiu, o vídeo está aí, se forem capazes da ousadia de apertar o play.

Digo formidável por não encontrar palavra que melhor caiba ao assunto. Quase quimérico, fabuloso (no sentido de “saído de uma fábula”, embora alguns animais se recusassem a dizer aquelas palavras se pudessem falar), o espanto geral, dizem, derivou de ninguém ser capaz de reagir simultaneamente a tal discurso, não importa o motivo.

Porém, eu digo, isso aconteceu justamente pelo fato de não ser nossa praxe reagir ao “formidável”. Diariamente, a grande maioria da população LGBT* no nosso país ouve calada esse tipo de discurso envolto em risos, palmas e outras formas de aprovação e nós continuamos a não falar. Esse problema é nosso! Nós estamos convalidando a continuidade desse tipo de coisa.

by Bosh (via @perfunctorio)

by Bosh (via @perfunctorio)

Temos que dar a cara a tapa! Dizer que o “espanto” vem do fato que seria inimaginável um candidato à presidência, em pleno 2014, usar abertamente desse tipo de discurso é simplesmente negar o cotidiano e tentar dar uma aura de “especialidade” ao fato. NÃO! Não há nada de especial no discurso do Fidélix!

Esse discurso é o que ouvem diariamente jovens ao acordar em um família conservadora e que não os aceita. Esse discurso é o que ouvem pessoas que passaram a vida inteira reprimidas por suas religiões enquanto tentam manter sua crença, as vezes o único consolo, firme. Esse discurso é aquilo que se propaga diariamente nas piadas infames que vitimiza transexuais, lésbicas, bissexuais e homossexuais e que sai da boca de “pessoas de bem” e das próprias vítimas desses discursos, seja por homofobia, misoginia, falta de aceitação, medo (sim, porque o terror imposto por muitos armários provoca isso) ou simples costume.

Friso isso, pois não é pra causar espanto que esse tipo de discurso ganha força numa campanha à presidência da república. É para justificar atitudes! É pra justificar a falência de uma sociedade que tornou-se incapaz de entender e aceitar o outro. É para deslegitimar a luta cada vez mais esvaziada e inócua por cidadania do ser e não do ter.

E quando coloco isso como “nosso” problema, não estou falando da militância. É nosso problema como sociedade! Pois é formidável como, com isso, o que perdemos não tenha sido apenas o senso de democracia, a noção de igualdade ou qualquer mostra de alteridade.

O discurso do candidato à presidência da república Levi Fidélix é a prova da nossa anulação como seres humanos, como humanidade.

E deixo em destaque essa frase pra chamar a atenção para o que talvez não seja tão óbvio: o primeiro passo para o extermínio é a desumanização. Coisificar o ser humano, suas vontades, seus anseios e suas lutas, já disse Hannah Arendt, é o primeiro passo pra justificar sua desnecessidade e sua possibilidade de inexistência. E disso a nossa sociedade já pode se gabar. Demos o primeiro passo ao formidável, ao enterro da nossa última quimera, à ilusão de que éramos uma sociedade capaz.

+ Sobre o assunto:

[+] Vandalize o discurso de ódio nas eleições! (escrito em parceria com a coordenação do Blogueiras Feministas)

[+] A homofobia de Levy Fidelix doeu tanto quanto o silêncio dos candidatos

Movimento e corpo em descompasso

Não, este post não é pra falar de safadagi, embora quando se trate de corpo, só o movimento sexy é o que importa, ou o vulgar sem ser sexy , ou o sexy sem ser vulgar… sei lá. Este post, na verdade, sem qualquer pretensão, é pra discutir os rumos de militância. Sim, rumos. E não é de nenhum movimento em específico, mas especificamente daqueles em que o corpo de seus membros é a reivindicação em si da liberdade! Daí que este post, quer entender e talvez queira mais perguntar que entender: em que medida a intervenção do movimento, da militância, no corpo do sujeito – ativo ou passivo na causa –  é legítima?

by Goya

by Goya

Isso é algo que me preocupa… Não é incomum ver movimentos ditando regras sobre as formas como o corpo de seus militantes devam ser. FEMMEN; outros grupos que se dizem feministas e que vinculam o feminismo a certos padrões de sexo feminino e não de gênero; grupos LGBT que direcionam campanhas apoiadas em exposição corporal estereotipada, ou que vinculam a homossexualidade a determinados padrões – ursos xiitas, por exemplo, ou barbies; grupos negros que rechaçam seguidores que não adotem traços físicos – principalmente cabelo – e culturais – religiões e cultos – que não sejam afro; grupos a favor e contra modificações corporais e sua luta incansável em dizer o que seus seguidores tem ou não podem fazer, como certos grupos punk que só identificam como membros pessoas com tatuagem, piercings e alterações corporais, ou grupos naturistas radicais que não permitem qualquer tipo de intervenção estética em seus membros…

by Paula Rego

by Paula Rego

A lista é imensa e, talvez, inesgotável, mas nem é o propósito expor toda ela. Me intriga o seguinte. Apenas fazendo uma pequena digressão histórica, dá pra chegar à época das reformas religiosas. Romper com a idade média e caminhar rumo à modernidade –  que deus ou o diabo ou Cher a tenha – teve muito, senão tudo, a ver com o corpo.

Sim, a modernidade foi o momento de rompimento. Foi no seu nascimento que, ora vejam só, por uma cisão religiosa – Beijo, Lutero – abandonou-se o modelo de domínio completo de corpo e alma pelo poder absoluto da igreja e se iniciou, de um ponto de vista ideal, a separação entre poder civil e poder divino. Assim, a Fé teria domínio exclusivo sob a alma-intelecto e o Estado passaria, então, a ter o domínio mediante a lei, do corpo.

Bom, ruim ou mais ou menos, ou mais pra mais, menos pra menos, nasce dessa divisão o ponto em que o ideário iluminista – que que não seja iluminista quem o queira, mas não negue que nossa sociedade o seja – nos permite a mobilização e a militância e, mesmo, a luta contra o Estado para garantir a nossa autonomia sob esse poder civil pelo próprio corpo! Ou seja, tão certo quanto dizer que o Estado passou a ter a gestão do nosso corpo de aí por diante, mais certo ainda é dizer que se fortaleceu a nossa luta pelo nosso próprio corpo até ela tomar a forma de movimentos organizados.

E é aí que mora o perigo. Não sei em que falha de entendimento da história, das questões sociais e da própria sociabilidade, se perde a noção de que a porra do corpo pertence apenas ao seu dono! Não sei se alguns movimentos não foram capazes se avançar ou se regrediram no debate e começaram a olhar com certa nostalgia pra era medieval e começaram a dogmatizar sua militância, começaram a transformá-la em fé e, agora, querem se firmar como seita, ocupando o papel perdido muito a contra gosto pela religião: o de domínio de corpo e alma-intelecto.

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by Dali

E é isso, enquanto faltar entendimento de que A PORRA DO CORPO É MEU, vai sobrar espaço pra gente gritar pelo fim desse descompasso! Militância nenhuma é, de fato, libertária se ela não é capaz de reconhecer a autonomia indistinta de qualquer pessoa sobre o próprio corpo. E  isso não é uma mera questão retórica. Isso é, talvez, a maior conquista do que se possa chamar “humanidade”. E enquanto houver pudor, vergonha ou, mesmo, castração, ainda que auto-castração, da nossa autonomia corporal, estaremos aqui para lutar e lembrar que é essa a única liberdade que nos convém. É por essa liberdade que estamos aqui! Pois essa é a única liberdade que temos o direito e a capacidade indistintos de realizar, sem qualquer intervenção. A nossa existência depende só e somente da autonomia na gestão do próprio corpo. É livre o nosso corpo!

A culpa é sua sim!

A culpa é sua sim! Quem mandou nascer, crescer, ser alfabetizado em uma sociedade patriarcal e que reproduz na educação doméstica e formal esse patriarcado, começar a trabalhar, ser independente, casar, ter filhos e, depois disso tudo, sair por aí, do jeito que quer, cacarejando acriticamente o que aprendeu a vida toda? Sim, a culpa é sua!

Na semana em que o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA – divulga uma pesquisa que retrata a opinião favorável de 65,1% dos entrevistados de que a mulher vítima de abuso sexual contribui, de alguma forma, para a agressão, não é a sensação de “pare o mundo que eu quero descer” a mais apropriada. Tampouco, a sensação de “isso é um absurdo” é válida! Sabemos com certeza matemática, pelo menos isso o dizem pesquisas como essa e dados produzidos por agentes públicos, que a violência contra a mulher, principalmente de cunho sexual, no Brasil é monstruosa.

Retratos de um Brasil Agressor

Retratos de um Brasil Agressor

E o porquê de “a culpa é sua”? Simples! Porque você é capaz de achar isso normal, de concordar com o resultado da pesquisa e de dizer: “Mas é claro! Mas se ela não fizesse/tivesse/vestisse/dissesse ‘isso’, não seria abusada”. Se você tem domínio desse discurso, parabéns, este post é para você. Esse post é para te conceder um pouco de compaixão. Compaixão por entender que você não foi capaz, por algum motivo que não vem ao caso, de pensar criticamente o contexto social em que cresceu.

Além disso, é um post para te permitir um pouco mais de amplitude a respeito das causas do estupro, como mostra o gráfico abaixo:

Causas do Estupro

Causas do Estupro

Ou ainda, é um post pra te conscientizar a partir de exemplos correlatos e que levam para uma realidade paralela a essa sua forma de pensar, como na imagem abaixo:

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Como os agressores pensam

Parece absurdo, não é? Pois é! E não entender isso só quer dizer uma coisa: você falhou em entender seu processo de socialização. Você pode ser uma “pessoa de bem”, pagar seu impostos, trabalhar dignamente, contribuir para o futuro do seu país. Tudo isso é ótimo. Contudo, se você não conseguiu entender que o corpo de cada pessoa pertence apenas a ela e que nada, leia novamente NADA, justifica qualquer tipo de agressão contra ela. Foi nisso que você conseguiu falhar. Você falhou em reconhecer o outro como um ser humano livre e capaz, dotado de direitos e deveres tal qual você é! E pior, ao dizer “mas se ela não”, você acabou de justificar e legitimar o agressor. Você acabou de ser conivente com a agressão. Você acabou de ser cúmplice. A culpa é sua sim!

Ps. Não é a primeira vez que falamos sobre o tema, alguns posts podem ser encontrados clicando aqui.

Com ou sem fantasia: Biscarnaval

Se você fosse sincera, ôôôôô, AU-RO-RA, olha só que bom que era, ôôôôô, AU-RO-RA. NÃO, calma, cara! Que fantasia é essa? Vai por mim! A Aurora não tá sendo sincera pra te poupar!

Pensa bem! Alguém, em pleno carnaval, no auge da amargura, decide ser super sincero! “Sua fantasia tá feia”, “Mas você tá sem fantasia”, “Fiquei em casa porque não tenho paciência para ~fantasia~” Eita, porre! Tamo junta, Aurora! Melhor ficar calados!

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Aliás, carnaval, BISCARNAVAL, melhor se amar, né, mex povx! Amando na folia, amando fora da folia, amando fantasiado, no bloco, no quarto na rua, na chuva, na fazenda! Acho um porre casinha de sapê! (Desculpa, Aurora, mas tive que ser sincero!).

Mas é isso, Biscarnaval é nosso convite a você, leitor-folião que entre uma fantasia ou outra, entre um livro ou outro, entre um bloco ou outro deu uma paradinha pra biscatear entre nós!

Ah! Uma boa lembrança! haja ou que houver, esteja onde estiver, abusem dos quadradinho, do quadradinhos de 8, dos quadradinho de borboleta e do, delicioso, quadradinho de borboleta cansada! Porque carnaval é época de bater a ppk no chão, na parede, ou onde quer que lhe apeteça! Ou, mesmo, nem bater ppk!

E, assim, amores! Não importa se vocês vão ou não pra folia, se vocês vão ler ou praticar a trilogia dos 50 tons! Carnaval é pra viver, não pra ver os outros viverem! (putz! Desculpa de novo, Aurora!)

Ainda Mais Biscate

Reunir a biscatagem. Biscatear. Arregimentar biscates. Ser Biscate. Ser cada vez mais Biscate. É isso, é o nosso club, a nossa dança, é o jeito que a gente dirliza na sociedade.

Entender o jeito de se biscate, o propósito de ser biscate e a vontade de se tornar e estar biscate é o nosso trabalho, o nosso sacerdócio, a nossa sina! Optar, politicamente, pela biscatagem é o que nos move coletivamente, é o que nos faz uma corja! Sim, porque se quiséssemos ser família, também seríamos, mas queremos ser corja!

Queremos e tentamos subverter os padrões, somos o buteco incômodo do debate político-trollador, libertário-afetivo, artístico-militante e nada, mas nada modestos! A regularidade não nos importa! A conformidade não nos apetece! O discurso pronto, pelo discurso, não nos elabora! E apontar dedos, não nos cabe!

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Nossa Cor Biscate (foto: Antonio Miotto)

O Biscate é o espaço do nosso conforto enquanto sambamos na lama, na cama e na passarela. Descalços, de salto, de sapato alto! Gloriosos ou tristonhos. Mas sambando num mesmo tom furta-cor!

E são nesses tons, que não são 50 nem 250 – contar pra quê? – que damos a nossa tônica. Que reunimos a nossa esbórnia. Que compartilhamos a nossa sanha! Sim, porque ser biscate é ter sanha de viver! Ser biscate é acontecer, onde quer que esteja!

E quando queremos acontecer, o melhor que seja junto, que seja misturado, que seja agregando amigos-leitores. É assim que a gente gosta! Se espetando e se amando, em processos profundos de afofamentos! Na mesa, na cama, no banho e no feno! Rolando no chão e mordendo de tesão. Tesão pela vida, tesão pelos outros, tesão por si mesmo, tesão em ser biscate.

E é assim que aprendo não apenas ser, mas ser ainda mais! E é assim,  Biscate é a nossa amizade, a nossa familiaridade, o nosso amor. Amor pela nossa liberdade, juntos, separados, com os outros e com ninguém. Ser biscate é estar reunido nesse objetivo, ser biscate é a suruba da vida!

Sociedade de Exceção: Violência e Minorias

A idéia de excepcionalidade. A Exceção. Não no Estado, que é uma categoria jurídico-política específica, mas na sociedade. Ser uma excepcionalidade na sociedade, ser tratado como diferente, querer ser diferente, lutar pelo direito à diferença. Questões que se colocam e que perturbam justo quando ser essa diferença resulta em violência, marginalização, morte!

The Barn - Paula Rego, 1994. A normalidade e a Agressão

The Barn – Paula Rego, 1994.
A normalidade e a Agressão

Não é à toa que assistimos atônitos na última semana, o caso do jovem Kaíque (leia aqui), negro, homossexual, pobre, encontrado morto, com sinais de morte brutal e completa desfiguração. Ser diferente, em nossa sociedade resulta em ser exceção. Não apenas no sentido de ser excepcional, mas e principalmente no sentido de ser excluído e, por fim, eliminado.

A idéia de uma sociedade de exceção é justo essa que impede, mesmo que para isso seja necessário o extermínio, o diferente. Arraigada em preconceitos patriarcais, conservadores defensores de uma “normalidade” ou, no caso, uma heteronormalidade e heteronormatividade, essa sociedade nos apresenta quase que uma pulsão de morte, ou seja, para se integrar a ela, temos que excluir toda a individualidade e subjetividade do nosso ser, nos excluindo como pessoa. Participar de uma sociedade de exceção é minar a própria existência em prol de algo que sequer sabemos se valerá a pena!

É essa sociedade de exceção, também, que é capaz de classificar uma morte brutal como a do joven Kaique, que teve TODOS os dentes perdidos, traumatismo craniano e cerebral e fraturas expostas nas pernas como SUICÍDIO. E que não se alegue incompetência! A principal característica desse tipo de sociedade é a ocultação dos crimes de ódio, para que não se exponha a violência que sustenta sua normalidade.

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by Laerte
“A Exceção: Anormais e Normalidade”

Essa sociedade, de uma forma perversa e deliberada, atua no combate ao diferente atuando, para além do seu extermínio, na sua ocultação. Essa decisão, para além de uma ação criminosa, é uma decisão política, certa e convalidada pelos membros dessa sociedade, que preferem, em seu estado de alienação ruminante, concordar com o dado produzido institucionalmente pela polícia de estado (ver sentido amplo de polícia como instâncias de controle da vida) a questionar quaisquer informações produzidas sobre o assunto.

E não sejamos ingênuos, uma sociedade de exceção não é formada por indivíduos pobres e analfabetos. A violência desta sociedade se encontra no fato de que seus membros têm a completa capacidade de entender a situação, porém, por alguma conveniência nefasta, escolhem acolher esse extermínio nem sempre velado em roca de seus privilégios. O Kaique, a juventude pobre e negra, homossexual ou não, os transexuais, as mulheres “não patriarcais”, os mentalmente incapacitados, os “diferentes” são todos vítimas dessa violência e essa violência é fruto dessa aparente normalidade instaurada e não combatida. Por enquanto.

Renovar

Repensar o velho. Tá aí um sentido porreta que eu nunca tinha parado pra imaginar de “Renovar”. Me falaram tanto em renovar expectativas, renovar experiências, renovar planos, que começar o ano me pareceu um pegar tudo que passou, dar um banho tcheco, e botar uma roupa nova pra ir na esquina.

Renovar

Renovar

E sabe que é por aí? Não que seja pressão, exigência, opressão social, ou seja… mas pensar em começar uma nova vida a cada ano que passa sem enfrentar os fantasmas do passado, reviver a delícias do passado, resolver os problemas do passado é o mesmo que tentar não ver, apagando a luz em pleno meio dia.

Mesmo que um “Ano novo” possa não nos dizer nada especial de especial em relação a um novo ciclo, as lembranças que esse período nos traz das possibilidades de renovar são, pra dizer o mínimo, interessantes. E é justo esse sentido de botar uma roupa nova no passado que importa.

Quem nunca se colocou uma roupa nova naquele adolescente franzino e desengonçado e foi pra uma baladinha pela primeira vez se sentindo bem pela primeira vez? Quem nunca se imergiu naquela leitura fantástica que estava há anos jogada no fundo da gaveta do criado mudo e que indicou aquela possibilidades? Quem nunca se deixou levar por aquilo que sempre imaginou que daria errado e deu certo?

 Pois é… Renovar é o simples que é complicado… Renovar é (re)aprender a lidar com as próprias oportunidades, com as próprias liberdades, com as próprias liberalidades e, porque não, com os próprios desejos. Renovar talvez seja, buscar os impulsos reprimidos do passado, entender a causa de sua repressão e fazê-los valer a pena, ou lidar com sua impossibilidade.

Tá aí, se um  novo ano traz essa idéia de renovar, que essa idéia não se traduza em um único repensar e deixar morrer o repensado. Se esse sentido de renovar não se perpetuar todos os dias, aquelas, sete ondas, 12 uvas, prato de lentilhas, lingerie colorida não valeram de nada…

E que esse renovar possa, de fato, ser a oportunidade de pensar um novo momento de possibilidades. Falando de um jeito bem biscate, que esse renovar seja não ter vergonha de saber, ou querer saber, como se goza… E de gozar mais! Renove!

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