Mulher, ativista. Tudo puta.

“Previsão do tempo:
Tempo negro.
Temperatura sufocante.
O ar está irrespirável.
O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília. Mín.:5º, nas Laranjeiras.”
(Jornal do Brasil, 14/12/1968, dia seguinte à decretação do AI-5)

Não. Eu não acho que estamos vivendo numa ditadura. Óbvio que não. E é aí que reside o problema. Vivemos numa democracia que permite práticas comuns a uma ditadura. E isso é inadmissível. Lutamos demais para nos contentarmos com essa democracia meia boca e mal acabada. Sequer trouxemos à tona os crimes da ditadura, dando fim ao luto dos familiares dos desaparecidos políticos da ditadura e já temos uma lista maior de desaparecidos da democracia e de outras tantas violações de direitos. E ainda não completamos nem trinta anos de redemocratização…

Posso não concordar com uma manifestação, seus métodos e bandeiras, mas é minha obrigação — se eu for democrata — defender o seu direito de se realizar. Os protestos de junho de 2013 foram uma luz no fim do túnel do desencanto político após um processo de despolitização articulada, sabemos. E não, Rede Globo, os protestos de junho não podem ser chamados de “Junho Negro”, porque vocês o fazem pejorativamente, mais uma vez dando mostras do quanto o racismo está estranhado em tudo. Gostaria por demais que os protestos de junho tivessem sido negros de fato, que o morro tivesse descido para o asfalto para fazer valer sua voz e principalmente para fazer cessar o massacre de jovens negros pela polícia.

Se o jornalismo ‘oficial’ se alia ao Estado policial em várias de suas esferas para criminalizar manifestações e manifestantes não o faria sendo “apenas” racista. Óbvio que tinha que ser machista e misógino. Só não esperava que fosse de uma forma tão vil, tão sórdida.

O mito da mulher de esquerda e bandida destruidora da sociedade e da família não é novo.

“Pouco tempo depois do lançamento (…) do filme hollywoodiano ‘Bonnie e Clyde’ no Brasil, em 1968, uma versão ‘da vida real’ chegou à imprensa brasileira sob a forma de Sílvia: uma bela e loira estudante universitária e assaltante de bancos (…). O interesse da mídia por esta Bonnie brasileira só aumentou em novembro daquele ano, quando um jovem foi preso depois de um desses assaltos. Segundo a polícia, ele não apenas admitiu ter participado do evento como também revelou a motivação política do assalto, ao denunciar o envolvimento de Carlos Marighella, líder comunista e opositor do regime, e da mulher loira chamada Sílvia.
Com esta confissão, (…) Sílvia tornou-se objeto de um escrutínio intenso e decididamente sexualizado. Desde insinuações sobre um triângulo amoroso entre ela, Marighella e outra mulher, até descrições detalhadas de sua aparência física, a cobertura que a imprensa fez de Sílvia centrou-se predominantemente sobre sua sexualidade.
[Esta cobertura] é um exemplo da grande onda de representações sexualizadas de mulheres militantes que marcou o Brasil de 1968. E essas representações não se limitavam à imprensa. Por exemplo: depois de invadir uma reunião clandestina de estudantes universitários, a polícia realizou uma coletiva de imprensa para exibir os materiais ‘subversivos’ apreendidos: (…) coquetéis Molotov, estilingues, literatura comunista, facas, algumas pistolas e, no meio daquilo tudo, várias caixas de pílulas anticoncepcionais. (…) A exibição das pílulas transmitia uma dupla mensagem aos jornalistas e seus leitores: não apenas as mulheres estavam envolvidas nestas perigosas e combativas atividades (…), mas elas tinham vindo preparadas para fazer mais do que apenas discutir política. (…) Os coquetéis Molotov e a sexualidade das estudantes representavam riscos igualmente alarmantes à ordem estabelecida.
As histórias de revolucionárias perigosas e sedutoras como Sílvia ou ‘subversivas sexuais’ como as do encontro estudantil invadido pela polícia enfatizam a premissa principal deste texto: a Guerra Fria no Brasil foi profundamente marcada por batalhas de gênero. (…) Logo após o assassinato do estudante Edson Luis de Lima Souto pela polícia, em março de 1968, e a subsequente intensificação das mobilizações estudantis, diversos materiais exibindo imagens de mulheres armadas e provocantes começaram a aparecer em publicações direcionadas à classe média (…). Enquanto isso, agentes de forças de segurança estaduais e federais faziam alusão – às vezes de forma privada, mas também publicamente – à suposta promiscuidade sexual de estudantes que faziam ativismo político.”
(trechos de “Birth Control Pills and Molotov Cocktails: Reading Sex and Revolution in 1968 Brazil”, de Victoria Langland, 2008. Tradução da Camila Pavanelli)

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foto: Vanessa Rodrigues

Na véspera da final da Copa do Mundo, 23 ativistas foram presos “preventivamente” no Rio de Janeiro. Destes, três mulheres estiveram em destaque na mídia que não poupou adjetivos e falsos crimes para vender suas imagens como terroristas perigosas. Uma advogada “acusada” de não cobrar honorários de seus clientes baderneiros, uma professora de filosofia “acusada” de subverter alunos com suas aulas e uma… uma… ativista. Já conhecida dos noticiários que visavam criminalizar manifestações, Sininho (Elisa Quadros Sanzi) virou o nosso Bin Laden, a terrorista perigosa que deveria ser temida por todos, a causadora de todos os males — qualquer semelhança com a definição da mulher pela Santa Inquisição não é mera coincidência, esse mito ainda persiste no nosso imaginário.

Mas não bastava. Era preciso criminalizar Sininho por sua sexualidade. Sendo ativista, é puta. E sendo puta, precisava de lares ou romances desfeitos por ela para que seu crime fosse perfeito. Se a fofoca de ter acabado com o casamento de um deputado não colou, a de ter “roubado o namorado de outra ativista” colaria, e viraria matéria na imprensa. Veja bem que a matéria linkada (em vermelho) não usa o habitual “supostamente” da imprensa, ela compra a versão do roubo de namorado ter contribuído com a “investigação” do caso. E aí, você, eu e mais a torcida do Flamengo e a do Corinthians juntas se perguntam: desde quando isso é crime? Qual é o artigo do código penal? E como muito bem perguntou a Bia ontem, quantos namorados eu preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Pelo Código Penal nenhum, mas pelo julgamento da sociedade taí o resultado. E se ainda restar alguma dúvida, dá uma olhada na guglada da Camila Pavanelli com as expressões ”pegar homem”, ”pegar mulher”, ”roubar namorado” e ”roubar namorada”.

Estivemos sob a famigerada Lei Geral da Copa, que esteve acima da Constituição Federal (e ninguém até agora explicou esse absurdo jurídico) e que justificou toda sorte de repressão quando em vigor (ninguém sabe ao certo até quando, porque apesar da Copa já ter terminado, não há prazo de validade previsto). Parecia que a prisão preventiva dos 23 ativistas sob o argumento de impedir que cometessem “novos crimes” se baseava nessa lei. Balela. Como o inquérito estava sob segredo de justiça até a “Globo obter com exclusividade acesso aos autos” e manipulá-lo como bem quis, PRIVILÉGIO não concedido — ou dificultado — aos advogados dos #presosdaCopa, não sabíamos os detalhes. Até o prazo da prisão que era temporária vencer, e virem os Habeas Corpus para soltar os ativistas. Antes dos últimos três presos, entre eles Sininho e Camila, serem soltos, eis que surge o Ministério Público do Rio de Janeiro, analisa um inquérito de duas mil páginas em pouco mais de UMA HORA e oferece denúncia contra os 23 ativistas. Vinte minutos depois, uma nota ordenava a prisão dos acusados.

“Às 18h06 de sexta (18), a Polícia Civil confirmou à reportagem da Folha que havia enviado o inquérito finalizado ao Ministério Público. Exatamente uma hora depois, às 19h06, o MP divulgou nota informando que havia oferecido denúncia contra os ativistas. Vinte minutos depois, uma nota da Justiça do Rio ordenava a prisão preventiva de 21 dos 23 denunciados.
(…)
Na sexta-feira à tarde, Darlan falou com a Folha e criticou a prática de se prender antes da condenação no país. “Aqui no Brasil, prende-se e depois verifica-se se o camarada merece ou não a prisão.”
No habeas corpus impetrado em favor de Joseana Maria Araujo de Freitas, militante feminista e jornalista, o advogado Lucas Sada alega que o princípio de “presunção de inocência” estava sendo violado. “A velocidade com que a denúncia foi apresentada e recebida pela Justiça reforça o movimento articulado entre os poderes de criminalização dos grupos”, disse Sada.” – Folha de São Paulo, 20/07/2014

Ao virar processo, os advogados de defesa dos acusados entraram com um pedido conjunto de Habeas Corpus para os 23. E aí, ficou evidenciado o conluio entre vários entes do Estado para criminalizar os manifestantes. Até mesmo o desembargador que iria julgar o HC dos acusados teve dificuldade para ter acesso ao inquérito.

“O desembargador Siro Darlan pediu ontem novamente acesso à documentação relativa ao inquérito contra os 23 ativistas acusados de suposto envolvimento em atos violentos nas manifestações. “O delegado não cumpriu a determinação. Foi mandado um ofício e ele não respondeu”, afirmou ao DIA o magistrado.
O primeiro pedido formal foi feito na terça-feira passada ao delegado-titular da Delegacia de Repressão a Crimes da Informática (DRCI), Alessandro Thiers, quando Darlan concedeu liberdade provisória a 10 ativistas, argumentando que não via fundamento para a prisão temporária. A nova determinação é, agora, ao juiz da 27ª vara, Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau.
Darlan pede, por exemplo, o relatório policial já divulgado por veículos da imprensa. Para o desembargador, os documentos são necessários para analisar o novo pedido de liberdade provisória feito pelos réus.” — O Dia, 22/07/14.

Dos 23 acusados apenas cinco estavam presos, dezoito eram considerados foragidos. Aí, veio pedido de asilo político no Consulado do Uruguai, manipulação do vídeo de defesa da advogada Eloisa Samy pela mídia, tentativa de criminalização da deputada estadual do PSOL Janira Rocha por ter dado carona em carro oficial da Alerj aos três foragidos e os ter retirado do prédio. Quando já tinha perdido a conta dos absurdos do processo, veio o manifesto dos juristas em defesa dos ativistas e do direito de manifestação e, FINALMENTE, veio o Habeas Corpus para os 23, que poria em liberdade três dos cinco que estavam presos.

Com o HC vieram os detalhes do processo e do inquérito. E a coisa fica pior.

Quando finalmente o desembargador Siro Darlan teve acesso ao inquérito, tiveram acesso a ele também o restante da imprensa (e não mais apenas a Rede Globo) e todos nós. E os absurdos ganharam uma proporção para além de Kafka. Toda a acusação foi fundamentada em apenas UM DEPOIMENTO. Um suposto ex-líder da FIP (Frente Independente Popular), mesma organização da qual Sininho faz parte, se apresentou espontaneamente à polícia para depor e dar detalhes dos protestos violentos e para identificar “baderneiros” após ter sido escrachado pelo Coletivo Feminista Libertário Geni. Esse depoimento deu origem a sete meses de investigação paga com dinheiro público que devassou a vida de dezenas de pessoas, teve escutas telefônicas anticonstitucionais autorizadas pela justiça, e tudo que conseguiu — além de violar um pressuposto básico da democracia que é o sigilo advogado-cliente — foi obter uma confissão de Sininho de que torceu contra a Seleção Brasileira na Copa — crime gravíssimo e inafiançável, como todos sabemos.

Piora ainda mais.

Além do processo usar expressões muito comuns da ditadura – e haver mesmo sombras da ditadura nesse cerco a advogados de ativistas –, se baseia em fontes nada confiáveis (blog de direita, ufanista) a respeito de Sininho. Diz o jornal O Dia do dia 24/07/2014:…o texto faz referência a “matérias jornalísticas”, que indicam que Elisa teria feito “cursos de ativismo político e agitação com formação e ações de guerrilhas e terror urbano em Cuba e na Rússia”. Isso, segundo a investigação, teria relação com ataques feitos por Black Blocs à embaixada brasileira em Berlim, em maio deste ano”. Tratar opinião de blog como “matéria jornalística chega a ser café pequeno nesse amontoado canalha (isso, opinião, de blog) de suposições.

E apesar do Habeas Corpus, e apesar de um desembargador afirmar com todas as letras que a imprensa está mentindo quando repete a exaustão uma série de supostos crimes cometidos pelos 23 ativistas quando na verdade a denúncia do Ministério Público fala em apenas UM DELITO, “formação de quadrilha armada”, e apesar do processo e da investigação estarem completamente desmoralizados, precisamos reconhecer que isso é apenas para nós que temos a acesso à contra-informação. Para a maioria da população prevalecem as mentiras e o perfil perigoso, terrorista e de caráter duvidoso — leia-se puta — de Sininho. E a perseguição continua.

E para fechar com chave de ouro, o depoente vingativo que originou a investigação e que em entrevista (a mesma em que chama o desembargador Siro Darlan de “veado” e “permissivo” — claro… #TudoPutaEViado) declarou ter se divertido com a prisão de Sininho — Ela se borrou toda ali na hora. toda toda toda. Ela ficou igual a uma baratinha tonta ela e a advogada dela batendo a cabeça sem saber o que fazer. Aquela foi a cena mais engraçada de todas, quase tive um orgasmo ali na hora. Foi muito engraçado. – postou no youtube um vídeo se dizendo ‘apaixonado’ por ela. E juntando esse depoimento com a da ativista que ‘teve o namorado roubado’ por Sininho, temos um processo baseado em recalque, vingança e machismo. Seria até um roteiro interessante, se fosse novela e não vida real.

Nesse mundo machista quando não se bate ou se estupra ou se mata “por amor”, se denuncia a “amada” pelo crime de formação de quadrilha armada. E o Estado aceita.

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Alguém com raiva querendo se vingar de um grupo de mulheres indo a polícia denunciá-las por falsos crimes não me espanta nada, mesmo sendo um absurdo e injusto, é problema dele, que arque com as consequências de seu ato. Mas, a polícia usando essa denúncia, baseada em vingança pessoal, como base para um processo e uma longa investigação é que é problema. É problema da polícia, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e é problema nosso. Não é para isso que pagamos impostos, não foi por isso que lutamos tanto e deveria ser inadmissível numa democracia. Deveria.

Claro que a zueira acompanha a indignação com as notícias desse caso…

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Maurício Santoro: “No Rio de Janeiro há inúmeras quadrilhas de traficantes, milícias, grande banda podre da polícia e muitos, muitos etc. E o principal jornal local quer me convencer que esta é a inimiga pública n.1.

E como a falta de noção do ridículo nesse caso não tem limites… #SeloSandraAnnenbergDeDeselegância

Foto: Sandro Vox / Agência O Dia

diz a legenda original da foto em matéria do jornal O Dia: “Com gesto grosseiro, manifestante tenta impedir trabalho de fotojornalista” — Tadinho!

Para encerrar, é preciso falar sério. A liberdade dos 23 acusados é provisória e no inquérito são citados os seguintes grupos e entidades: FIP Frente Independente Popular; FIST – Frente Internacionalista dos Sem Teto; FNT – Frente Nacional dos Torcedores; Grupo de Luta dos Petroleiros; MEPR – Movimento Estudantil Popular Revolucionário; MFP – Movimento Feminin@ Popular; MRP – Movimento de Resistência Popular; OATL – Organização Anarquista Terra e Liberdade; Oposição de Resistência Classista – ORC; RECC – Rede Estudantil Classista e Combativa; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência; Universidade Indígena Aldeia Maracanã; Unidade Vermelha; Dia do Basta, Ocupa LAPA; Ocupa Câmara; Ocupa Cabral; Anonymous Rio; Black Bloc RJ; Mídia Ninja; Coletivo Mariachi; Coletivo Calisto; Coletivo Rebaixada; Coletivo Tempo de Resistência; Coletivo Desentorpecendo a Razão; Coletivo Rosa dos Ventos; Coletivo Vinhetando; Coletivo Projetação; Coletivo Margaridas Urbanas; Coletivo SUBURBAGEM; Coletivo Das Lutas; Coletivo SerHurbano; Coletivo Inimigos do Rei; Coletivo Vô Pixá Pelada; Coletivo PACAL; Coletivo PaguFunk; Instituto Raízes em Movimento; Alemão de Noticias; Complexo do Alemão; Jornal Voz das Comunidades; Mulheres de Atitude – AMA; Barraco #55; Descolando ldeias; APAFUNK; Porque Eu Quis; Favela não Se Cala; Fórum Social de Manguinhos; Fórum Rode da Juventude; Favela em Foco; Norte Comum; Observatório de Favelas; Observatório de Conflitos Urbanos; Fala Roça; Marcha Mundial das Mulheres – MMM; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência; Rio Na Rua; Grupo Teatro da Laje; Surbanitas; Núcleo Socialista da Tijuca; Linhas de Fuga; Fórum Popular de Apoio Mútuo; Movimento Direito Pra Quem; Arteiras; Rede de Instituições do Borel; Ocupa Borel; Fora do Eixo (criador da Mídia Ninja); Mídia Independente Coletiva – MIC; Tem Morador; Suburbano da Depressão; Movimentos Cidades Invisíveis; Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia; Favela Não Se Cala; Sindsprev; Sindpetro; SEPE.

foto: Coletivo Projetação

“Saiu a nova lista de prisões preventivas do Rio de Janeiro. Veja se você está nela.”

Não são apenas os ‘terríveis’ Black Blocs os alvos dessa pantomima. O processo de criminalização é principalmente contra os movimentos de periferia e favela, mulheres e os coletivos provisórios de protestos e insurgência contra o status quo.

Precisa desenhar o que está em risco e quem serve de bucha de canhão?

p.s. da zueira: Se as mulheres fossem mesmo tão perigosas e nossas bucetas tão poderosas já teríamos exterminado o machismo bobo-feio-cara-de-melão com apenas uma abertura de pernas… né?

O Estado contra Beth

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

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Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “”"gorda”"”, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. :P

Pareço feminista, mas…

…tô nessa Copa só pela zueira e objetificação

Quem me acompanha pelas redes sociais (ou plataformas — oi, Adriana) sabe que sou do time do #NãoVaiTerCopa, razões mais do que explicadas e justificadas pelo Fabiano Camilo, pela Camila Pavanelli e pelo Vladimir Safatle. Isso não quer dizer que não esteja assistindo aos jogos ou ignorando a Copa. Para quem ama futebol seria mesmo impossível. Isso não quer dizer também que esteja assistindo da mesma forma que todo mundo. Claro que não. Sou quinta-coluna, da turma da zueira e, óbvio, da biscatagi e da objetificação desses deuses que passearam e ainda passeiam, graças a Cher!, pelos gramados das tais arenas superfaturadas.

Desenhando: #NãoEstáTendoCopa, mas futebol e moços lindros SIM e #TáTendoObjetificaçãoPraCaralho!

A Seleção Croata, por exemplo, não contente em desfilar nos gramados, resolveu se pelar fora deles. Foram flagrados (eles acharam mesmo que estariam a salvo em algum local com a imprensa mundial no país?), se revoltaram com a imprensa, fizeram #mimimi e disseram que não iriam mais descer pro play pra brincar. Fiquei deveras #chatiada porque estava mais era querendo que a moda pegasse. :/

Para a nossa sorte, objetificadorxs de plantão, para essa Copa a Puma produziu os melhores uniformes ‘ever’ da história do futebol: camisas coladinhas ao corpo, quase uma segunda pele. E os jogadores das seleções de Gana, Itália, Uruguai, Camarões, Chile, Suíça, Costa do Marfim e Argélia desfilam(ram) seus corpitchos desenhadinhos nos uniformes da marca alemã. Os jogadores dessas seleções também usaram uma chuteira de cada cor. Ok, quase ninguém reparou nesse detalhe das chuteiras porque estávamos olhando mais pra cima. Mas, olhamos, olhamos mais, gostamos, assoviamos, molhamos e desejamos intensamente que eles fossem adiante na Copa. Infelizmente faltou futebol para a maioria, que já voltou pra casa. #TodxsChora

Os uniformes…

seleção italiana_o globo

Seleção Italiana (ui…)

Gana comemora gol de empate durante jogo com EUA_Toru Hanai_Reuters

Seleção de Gana, o uniforme mais colado dos coladinhos

Cavani e o uniforme uruguaio

Cavani e o uniforme uruguaio

Como não estamos aqui para fazer propaganda gratuita para empresa de material esportivo (se pagarem bem a gente até faz, viu?), não ficamos restritxs a essas oito seleções, ó-b-v-i-o. Objetificamos todos, olhamos tudo, até o jogo. Então, chega de conversa mole, segura o tchan e fiquem aí com os DEUSES dessa Copa nos tumblrs Eu Tô É Morta e Vai Ter Bofe e dos twitters @Ola_Casa e @HomensDaCopa (e instagram). CLIQUEM!

E só para não dizerem que não estou ligada no futebol e/ou no andamento da Copa em si e do que ela representa, seguem os protestos pelas ruas do país — assim como a repressão, prisões arbitrárias, violência policial — principalmente nas cidades sede nos dias de seus respectivos jogos. Das seleções de uniforme coladinho, Gana, Camarões, Itália e Costa do Marfim não passaram da primeira fase; Uruguai, Chile e Argélia já caíram nas oitavas de final e; resta-nos apenas a Suíça. E das demais seleções de bonitões perdemos também a Grécia. Chuifff…

Tudo bem, se foram mais da metade dos motivos das nossas objetificações, mas a bunda do Hulk continua firme (ô!!!) e forte e tivemos o clássico das camisas coladinhas, Uruguai x Itália, que só não foi perfeito por não compor o uniforme o maravilhoso shortinho de 1982. #GezuisMeAbana

Zico e Serginho, em campo pela Seleção Brasileira na Copa de 1982 na Espanha

Zico e Serginho com o famoso shortinho, em campo pela Seleção Brasileira na Copa de 1982 na Espanha

Enfim, continuo dizendo #NãoVaiTerCopa, mas objetificação está sobrando… #TáTendoObjetificaçãoPraCaralho! Não consegui formar uma seleção completinha dos bonitões da Copa, mas deixo os meus preferidos nesse certame:

Orestis+Karnezis+Japan+v+Greece+Group+C+0PEthobAWE4l

o goleiro grego Orestis Karnezis (28 anos — 1,89m)

o zagueiro uruguaio

o zagueiro uruguaio Diego Lugano (33 anos — 1,88m)

o atacante russo

o atacante russo Alexander Kerzhakov (31 anos — 1,76m)

o meio-campista italiano

o meio-campista italiano Claudio Marchisio (28 anos — 1,79m)

o goleiro argelino

ADENDO, já na prorrogação: o goleiro argelino Raïs M’Bolhi (28 anos — 1,90m)

a bunda do atacante brasileiro

a bunda do atacante brasileiro Hulk (111cm — e já ganhou até gif animada)

Se alguém não entendeu que não há contradição ou incoerência entre ser feminista (o título é só ironia) e a objetificação de homens e precisa de explicação sobre porque a nossa objetificação desses moços é diferente da objetificação da mulher, a Camilla Magalhães desenhou isso direitinho lá no Blogueiras Feministas, e tem também esse post da Gabi Machado específico sobre A Bunda do Hulk.

Enfim…

... :P

p.s.: #TeDedico Iara Ávila.

O machismo nosso de cada dia

Se alguma atriz que hoje é apresentadora de programa e/ou finalmente alcançou o sucesso (resguardadas aqui as noções possíveis do que é fazer sucesso) e tem destaque da/na mídia, seja isso produzido artificialmente ou não, ai dela se fez algum filme pornô ou apareceu nua em alguma capa de revista! Será execrada. Pra sempre.

Mesmo que poucos lembrem, e esses poucos quase sempre recalcados, esse “escorregão” será usado para desmerecê-la, para lembrar a todos que ela já foi objetificada e se se sujeitou à objetificação é porque a merecia, é porque escolheu, é porque é uma ______________ (preencha com o adjetivo moralista e desqualificador que preferir) mesmo.

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem (já aumentou, podem conferir)

Ah, o cinema nacional teve uma fase ruim e ~engraçada~ e até homens passaram por isso. Ou, textualmente como me foi dito, “o inusitado é engraçado. O cinema dessa época é engraçado. Homens também pagaram mico nessa época, não?“. Sim, mas ninguém posta foto do Nuno Leal Maia pelado para desmerecê-lo. Né? Porque mesmo que postassem não o desmereceria. São as mulheres que são julgadas por qualquer coisa a todo o momento. Os homens tem salvo-conduto para tudo, para qualquer coisa. Inclusive para dizer que só postaram foto da Regina Casé nua num filme dos anos 80 porque acharam engraçado e não porque estavam sendo machistas.

diálogo com a pessoa que retweetou a postagem machista sobre a Regina Casé, porque achou "engraçado"

justificativa da pessoa para o retweet da postagem machista sobre a Regina Casé, achou “engraçado”

Chata sou eu em observar o machismo e “não deixá-lo rir” de uma piada tão banal, tão corriqueira, tão normal. Chatas essas feministas que não deixam a sociedade objetificar e oprimir as mulheres como bem entendem. A questão é que não estou aqui para deixar ou proibir nada no comportamento de ninguém, só não esperem que não chame as coisas por seus devidos nomes. Nomeio, denuncio, exponho. É só o que posso fazer. É tudo que devo fazer. Porque o dedo apontado para Regina Casé está apontado para mim também, e para todas as mulheres. Esse dedo está apontado para a Xuxa, para a Myrian Rios, para a Gretchen e para qualquer uma que “se deixou” objetificar em algum momento da vida. Não nos interessam os motivos pessoais que as levaram a isso, mas seria muito bom debatermos as condições de opressão que cercearam suas escolhas nesse período da vida. Não nos interessa também o que Xuxa, Myriam Rios, Gretchen e Regina Casé fazem da vida agora. É fã quem quer, curte quem quer, admira quem quer, critica quem quer. O que não pode, amigues, é julgar moralmente a pessoa e nem exigir coerência moral. Aliás, o que é coerência moral? De quem exigimos isso?

De todas essas para as quais vemos dedinhos apontados e ouvimos adjetivos serem pronunciados, apenas a Myriam Rios enveredou pela vida pública, e mesmo assim deve ser julgada por seus projetos e políticas defendidas, e não por seu passado ou pela cobrança de coerência do passado com o presente. Porque né… Ninguém faz isso com um homem na mesma posição. Aliás, sequer investigam. Aliás, um homem jamais estaria na mesma situação. Aliás, se um homem fodeu ou exibiu o pau e a bunda no cinema foi só um passeio do cidadão de bem no submundo da putaria, “não dá nada”. Aliás, putaria pra homem é mérito.

Até quando não perceberemos o que tem de machismo nas nossas atitudes diárias? Até quando apontaremos o dedo para condenar mulheres por seu comportamente sexual? Até quando o comportamento sexual da mulher seguirá nos chocando e sendo assunto público? Até quando o machismo será justificado como piada?

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas. E faz tempo.

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash "O Segredo da Múmia" (1982), de Ivan Cardoso

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash “O Segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso

p.s.: o tal filme da Regina Casé não é nem pornô, é um trash — O Segredo da Múmia de Ivan Cardoso de 1982. Uma época bem menos careta e moralista que essa, onde o nu no teatro e no cinema eram comuns e bem menos comerciais que hoje.

Quem quiser assistir ao filme completo, clique aqui

Leia também “Não Tem Graça”, da Luciana Nepomuceno.

Há uma luz que nunca se apaga…

Há uma luz que nunca se apaga...

Biscatiei com a morte quase toda minha vida. Sempre me pareceu uma boa ideia, extremamente simpática e atraente. Passei da infância pra adolescência me debatendo com a obrigatoriedade da vida. Não escolhi estar aqui, apenas estou. Então, por que não decidir não estar mais? Tanta gente interessante, cheia de coisas para dizer se matou, optou por não estar mais aqui… E eu adorava gente morta.

A adolescência é bipolar, né? Over na farra e na deprê ao mesmo tempo. E essa coisa meio dark, meio deprê me definia quando adolescente. Pode ser porque fui adolescente nos anos 80 e nenhuma outra época se encaixou tanto com esse sentimento, acho. É assim que percebo, daqui do meu portal.

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

Adolescente — mas não apenas — biscateia demais com a morte. Pelo desajuste, pelas incertezas ou certezas demais, pelo que lê e ouve. E tudo na minha adolescência, completamente revolts, me levava a simpatizar com o universo suicida. Digo universo e não o suicídio em si, porque existe quem curta viver para gostar da morte. Tem até mercado para isso. Encontrar Smiths, Cure, Joy Division a partir dos 14 anos ajudou demais nesse processo.

O Calvin (filho) gostar de Smiths não é uma coincidência ou acaso. Ouço em looping There Is A Light That Never Goes Out — estou ouvindo agora –, que fala da morte como uma experiência agradável, se for eternizar aquele momento. Nada mais adolescente que isso. Trágico, fugaz, efêmero. E apaixonante.

disse em outro momento que foi essa música que me salvou da mediocridade. E não há exagero nisso. Guria pobre no subúrbio de Pelotas, não tinha acesso a outro tipo de cultura que não a massificada e massificadora. Ou se comprava os discos ou não se ouvia nada diferente do que tocasse no rádio. E minha primeira sensação de pertencimento ao mundo me veio justamente nessa declaração de despertencimento e desajuste do Morrissey. Também porque é uma declaração de amor. É triste sem ser. Trágica, fugaz, efêmera e, principalmente, silenciosa. Ele certamente escreveu o que não conseguia dizer. Tão eu. Ainda hoje tão eu. Até tatuei no braço…

minha tattoo

minha tattoo, fiz em 2013

Me leve para sair esta noite
Onde exista música e pessoas
que sejam jovens e vivas
Sendo levado no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque eu não tenho mais uma casa

Me leve para sair esta noite
Porque quero ver gente, eu quero ver luzes
Sendo levado no seu carro
Oh por favor, não me abandone em casa
Porque esta não é minha casa, é a casa deles
E eu não sou mais bem-vindo

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Me leve para sair esta noite
Oh me leve para qualquer lugar, eu não ligo
E numa passagem subterrânea escurecida, eu pensei
“oh Deus, Minha chance finalmente chegou”
Mas então um estranho medo me tomou
e eu não pude pedir

Me leve para sair esta noite
Oh, me leve para qualquer lugar, eu não ligo, não ligo, não
Apenas indo no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque não tenho mais uma casa
Eu não tenho mais

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…

Curto bem mais a vida agora. Nunca me senti tão bem em estar viva. Mas isso tem a ver com a minha trajetória até aqui, e não com os sentimentos da adolescência ou por serem sentimentos “característicos da adolescência”. Isso é estigma. Tem gente que biscateia com a morte até morrer bem velhinho. O próprio Morrissey, hoje coroa — e bem mais bonitão do que da época do Smiths — mantém ainda esse tom meio deprê, nas composições e na voz.

Não biscateio mais (tanto) com a morte, mas continuo gostando de gente morta, e Smiths, Cure, Joy Division continuam na minha playlist. E ouvindo There Is A Light That Never Goes Out em looping. #DSCLPmundo

Caçando sonhos

[clica na música  e vai ouvindo...]

“O que foi feito amigo de tudo que a gente sonhou? / O que foi feito da vida? / O que foi feito do amor? / … / E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir / Falo assim sem tristeza, falo por acreditar / Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer / Outros outubros virão / Outras manhãs plenas de sol e de luz”

Quase sempre uso esses versos pra perguntar para e por amigos agora distantes onde estão os sonhos que sonhamos juntos. Raramente faço essa pergunta a mim mesma. [sim, esse post é sobre o meu umbigo]

Diante de uma foto não tão antiga, mas de um tempo que me parece agora tão distante, e da dúvida diante do significado do meu próprio sorriso me perguntei: onde estão os sonhos daqueles dias? Que sorriso era aquele? Seria sincero, sarcasmo ou palhaçada?

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

E caçando meus próprios sonhos, sonhei com coisas extremamente simples: um olhar (oi, Renata) mais generoso comigo mesma — tinha pensado o pior de mim e daquele momento, mas lembrei onde estava e para quem eu sorria… só podia ser sincero –; outras manhãs, plenas de sol e de luz em Satolep…

Podia ser mais. Talvez devesse ser mais, sonhar mais e maior, mas por agora é só isso mesmo. Vou deixar para caçar os outros sonhos depois.

amanhecer no Laranjal

amanhecer no Laranjal

Eu decido

escolha

eu + Calvin

Na ressaca do Dia das Mães, comercial e excludente, sou obrigada a reconhecer que a cada passo que damos, individual ou em pequenos grupos, no coletivo maior da sociedade estamos caminhando de costas. Na esteira do desabafo que fiz do meu desconforto com a data, veio uma enxurrada de manifestações, quase todas legais, quase todas afagos, conforto, o que faz um bem danado. Mas — sempre ele –, vieram, no privado, inbox, perguntas, curiosidades de quem não conhece meu histórico de maternidade ou o conhece apenas parcial ou superficialmente.

Nas curiosidades estava implícito a cobrança do meu ativismo na área do autismo. Tipo, como assim eu ativista-comunista-feminista não sou um expoente da luta pelos direitos dos autistas no Brasil? Oras, porque não. Porque decidi não expor o Calvin e nem nossa condição socioeconômica para que tenhamos garantidos direitos que deveriam ser universais. Simples assim.

A cobrança não fica só aí, vai ao limite da sordidez. Como assim eu me dou o direito de viver (incluindo biscatear) e não vivo apenas para o meu filho? Porque somos duas pessoas, oras, e não é justo que vivamos apenas uma vida. Cada um tem a sua vida e a vive como é possível, como faz ser possível. O Calvin depende de mim para várias coisas — quase tudo, é verdade –, e eu tento suprir suas necessidades na medida do possível. Do possível. Sim, porque não sou obrigada a me tornar heroína e ir além da minha condição humana só por que tive um filho específico.

Como seria possível ser feminista e não lutar pelo meu direito à vida, mesmo que em condições tão adversas? Como ser ativista dos Direitos Humanos e não lutar pela minha própria condição, pelo meu direito à humanidade? Como ser comunista e não lutar para ter o melhor do mundo também para mim? Está parecendo egoísta, né? É, estou falando de mim, do meu umbigo, porque foi a minha existência plena, a minha vida que foi questionada nas entrelinhas da curiosidade.

Não quero, e não vou, me tornar a madre-teresa-de-calcutá dos Lennox-Gastaut (síndrome do Calvin). Poderia justificar com um zilhão de motivos, mas vou fazê-lo com apenas um: essa escolha é apenas minha. Lidem com isso.

Leia também:
Maternidade “especial” – o que o feminismo tem a ver com isso? – Cyntia Beltrão

A barbárie e o que tem de nosso nela

"O Sacrifício de Abraão", Candido Portinari

Candido Portinari

Os últimos dias-meses-anos têm sido especialmente difíceis para qualquer ativista dos Direitos Humanos e para quem sofre algum tipo de opressão. Lembro de ter lido e ajudado a produzir muitas análises de conjuntura no final dos anos 80 e início dos 90 que apontavam para o que estamos vivendo hoje: a barbárie. E não sinto nenhum orgulho em estar(mos) certa(os).

Pensou em pessoas se matando por comida? Sabe de nada, inocente! Matar por comida é um instinto que considero até justo, é a lei da sobrevivência no mundo animal. Mas somos os únicos animais a matar por motivos outros — que não os justos — e a destruir o lugar onde vivemos, piorando dia a dia a nossa “qualidade de vida” (vai entre aspas a expressão, porque está prestes a se tornar piada).

Mulheres morrem por abortos mal feitos, assassinadas pelo machismo. Favelados morrem assassinados pela polícia. Ciclistas morrem por um… ops! era para ser só brincadeira encostar o carro e desequilibrá-lo(a). Pedestres morrem pela pressa dos carros. Operários ainda caem de andaimes em obras e outros acidentes de trabalho. Índios ainda são assassinados pela conquista da terra.

O que todos eles têm em comum? Afora ciclistas e pedestres no trânsito e os índios, a maioria das mortes dos outros casos são de negros(as) e pobres.

O que nós temos com isso? Tudo. “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”, dizia Martin Luther King. Somos uma imensa massa silenciosa que permite todas essas atrocidades.

Na semana passada mais um negro foi assassinado pela PM numa favela carioca. Nada de novo. Acostumamos, e acostumamos a silenciar diante dessas mortes. Foram 500 mil mortes violentas na última década, dez mil desaparecidos, só no Rio de Janeiro. Douglas Rafael da Silva Pereira poderia estar entre os dez mil, junto com Amarildo, não fosse ele dançarino de um programa de tevê na Rede Globo. No entanto, Regina Casé, a apresentadora desse programa não se sente co-autora de seu assassinato e diz sofrer pelo colega. Mas, há pouco mais de um ano, promoveu em seu programa um circo para exaltar a política governamental que vitimou DG. Até quando fingiremos que não temos nada com isso? No primeiro programa sem o dançarino, em sua memória, a palavra assassinato sequer foi mencionada e ficamos todos com a impressão de que ele morreu em virtude de um desastre natural, dada a quantidade de vezes que a palavra tragédia foi repetida.

Nesse mesmo dia um episódio já comum e corriqueiro nos campos de futebol: um jogador negro foi alvo da sanha racista de torcedores. A novidade esteve na reação, instintiva e até admirável (se analisada isoladamente) de Daniel Alves. Mas é fato que ele e os demais jogadores negros não poderão ficar comendo todas as bananas jogadas em campo; terão de engolir (?) o racismo ou precisarão pensar em outra(s) forma(s) de reagir (texto do Blogueiras Negras questionando a orquestração dessa reação). Da reação de Daniel Alves “surgiu” uma campanha de marketing capitaneada por um outro jogador brasileiro, Neymar, que não se assume como negro (e mesmo que tenhamos muita boa vontade em supor que ele mudou de opinião de 2010 – quando declarou não ser “preto” – para cá, o fato é que não há nenhuma declaração dele desdizendo àquela, e foram vários os momentos em que ele se debateu com a questão) dizendo que “todos somos macacos” (me nego a usar a hashtag). Todos quem, cara pálida?

Não vi, me corrijam se estiver errada, nenhum(a) negro(a) que seja ativista do antirracismo que a tenha usado ou repetido. A campanha foi assumida por brancxs (muitxs inclusive declaradamente contra a luta dxs negrxs por direitos) e por negrxs que não se assumem como tal e tampouco são reconhecidos como referência da luta antirracista. Isso se resume a dizer que a campanha foi assumida por quem reproduz o racismo. Resultado: uma campanha de marketng supostamente contra o racismo que reforça o racismo. E podem até forçar a barra comparando com o uso do termo vadia pelas feministas ou nós que ressignificamos o termo biscate. Fomos nós, oprimidas e ofendidas cotidianamente com esses termos que nos apropriamos deles. Uma campanha capitaneada por alguém que não se diz negro chamando negros de macacos nunca será a mesma coisa. (e a nota ‘esclarecedora’ da agência responsável pela campanha ilustra bem o que direi a seguir). Isso é o opressor — e quem se coloca a seu lado fingindo não ser oprimido, mas sendo — dizendo ao oprimido: “divirta-se aí com o termo que uso pra lhe colocar no seu lugar, assuma o seu lugar, esse lugar que eu lhe dou, que permito que ocupes”.

O que isso tem a ver com a barbárie? Ora, se a intolerância passa a ser nomeada e “identificada” na fala e na luta dos oprimidos por sua libertação, estamos ou não vivendo a barbárie? Nesse momento são xs negrxs, feministas e esquerdistas acusadxs de intolerantes, vândalxs, promotores da desordem, enquanto quem reproduz os preconceitos estruturais posa em seu bom-mocismo e lucra com suas boas intenções. Sim, se a ordem é além de oprimir manter os oprimidos calados, óbvio que seremos desordeirxs.

Quem quer manter a ordem? Eu, NÃO!

Leia também:
Quando me gritaram “macaco!”, por Karu Vinícius
A bananização do racismo, por Ana Maria Gonçalves
Contra o racismo nada de bananas, nada de macacos, por favor!, por Negro Belchior
Macacos e vadias são a mesma premissa de ressignificação?, por Luka

A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

Ou… Estou me guardando pra quando o outono chegar

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Tempos bicudos, esses. Muito distante do meu habitat natural, tenho sérias, seríssimas dificuldades em me achar nesse espaço de agora. A dificuldade em me achar não me é estranha, mas não me saber nesse lugar incomoda demais. Faltam as pessoas conhecidas para encontrar por acaso na rua, e os “quanto tempo!”, “como vai a tua mãe?”, “ainda moras no mesmo lugar?” acabaram se tornando tão importantes quanto os rostos, ruas, casarões, esquinas e — óbvio — bares familiares.

Nesse calor do Ridijanêro pouco sobra de energia para qualquer coisa após o trabalho, cuidados da casa, filho. Dia desses lendo a Lu falar que são os sonhos pequenos que a fazem feliz (não era bem isso, mas foi assim que entendi), fiquei a me perguntar onde andariam os meus sonhos, grandes ou pequenos… Onde estão os meus sonhos? Nesse calor, querides, se perdem facinho. O cérebro amolece junto com o corpo e tudo se esvai. Cá estou eu, no subúrbio aguardando a tão desejada chuva em mais um final de dia… Esclareço: chuva não é sonho ou delírio. É necessidade, concreta, para suportar o dia a dia nesse pedaço “privilegiado” do inferno, abandonado até mesmo pelo diabo (dizem que foi passar férias em praias mais frescas do Caribe). E ainda tem os outros calores que estão fazendo um carnaval com meus hormônios… Sim, acho que estou entrando na menopausa. (spoiler!)

Se eu tivesse um ar condicionado, mais ventiladores, pudesse morar numa rua mais arborizada… O subúrbio do Rio é devastado, e nas lajes que tentam aliviar o sufoco das moradias precárias e ampliar um pouquinho o conforto só o que cresce é cimento, nenhuma árvore é plantada, nem mesmo em vasinhos. Falta de grana está diretamente ligada à precária qualidade de vida na “cidade maravilhosa”. Mais que uma cidade partida é uma cidade desumana para seus moradores — o Freixo tinha razão.

Além de rebaixar a qualidade de vida, a falta de grana te expõe mais aos preconceitos. E aqui me reservo e preservo o direito de não relatar pormenores. Porque dói se expor tanto, embora a necessidade de desabafo seja premente.

A saudade e a sensação de não pertencimento, o calor e a impossibilidade de sonhar com ele, combinados com a falta de grana e essas pressões e opressões cotidianas colocaram minha biscatice em xeque… Sou biscate, mas não estou biscate. Chuif.

Quem sabe quando chover e arrefecer um pouco, tudo o mais fique menos pesado… Quando é mesmo que começa o outono?

Case-se com ela. Oi?

Redes sociais formam a rua virtual onde todos se encontram sem sair de casa ou sem deixar de ir ou estar em outros lugares, inclusive na própria rua. E nessa rua cada um tem um espacinho de muro ou tapume para escrever, colar, rabiscar, pintar o que bem quiser. A gente também passeia, e vê coisas interessantes e para pra curtir, comenta, faz pergunta, se não gosta bate-boca, enfim… É vida real, só que de outro jeito, noutra versão.

Alguns desses muros tem holofotes em cima, são maiores, fundo claro, e tem um público cativo que sempre passa lá para olhar, aplaudir, comentar, fazer buxixo. Outros muros são pequenos, uns encantadores, uns mais agressivos. Cada um tem “a cara” de seu dono/a. O que me atrai nos muros virtuais é o conteúdo, embora a aparência conte bastante não é o principal. Para algumas pessoas basta um amigo estar curtindo, aplaudindo um muro que ele vai passar a curtir e aplaudir. A isso se chama confiança, admiração. ‘Fulanx pensa e articula ideias como eu gostaria de pensar e articular ideias, então, se ele tá aplaudindo, acho que posso confiar’. E confiam.

Nessa onda do comportamento por indicação e influência, como quem passa a frequentar determinado bar em determinada rua ou bairro porque alguns amigos legais e que são famosos por serem legais sempre estão, conteúdos muitas vezes absurdos e que nem sempre refletem o que as pessoas pensam e sentem de fato são reproduzidos . ‘Veio do fulano e ele não viu problema…’ e quando vimos, determinada frase, imagem ou ainda imagem + frase tomou todos os muros da rua naquele bairro. Viralizou.

Foi o caso desse meme:

meme

Tiveram outros memes com o mesmo conteúdo, mas esse foi o que viralizou. Logo várias feministas e páginas feministas pensaram em respostas para esse meme. Uma delas foi essa aqui:

resposta

Um viralizou e o outro não. Ou, um viralizou mais que o outro. Adivinha qual? É…pois, é. Enquanto o meme original teve 22,5 mil likes e mais de 25 mil compartilhamentos, as respostas pulverizaram. Essa resposta (foto acima) foi a que viralizou melhor — aparece melhor posicionada na busca do google com a frase + nome da rede social facebook. E teve apenas 640 likes e 462 compartilhamentos. Respondeu? Se contrapôs? Marcou posição? Nem precisa ser ‘social media‘ para saber que não. E não só pela quantidade de pessoas atingidas por e por outro…

Cadê a resposta supimpa, aquela que diz que o casamento como objetivo principal a ser atingido pela mulher ou como prêmio por um determinado comportamento nos foi imposto por essa sociedade machista e que não é a escolha individual e livre de cada uma? Cadê os questionamentos óbvios?

Seguem, então, os meus questionamentos: O casar com ela é um prêmio por ter mais livros que sapatos? E se a moça não quiser casar, não quiser ser o prêmio do cara por ELA ter mais livros que sapatos? E se a moça ler e doar todos os livros (é mais fácil se mudar e viajar com pouco peso) e carregar consigo apenas um, o que está lendo no momento, e dois pares de sapatos? E se os livros da moça forem todos de auto-ajuda? E se os livros da moça forem todos racistas, machistas, preconceituosos ou de direita? Desde quando é razoável que o relacionamento entre duas pessoas — que deveria ser a base de qualquer casamento — é decidido apenas por uma? Sério mesmo que é tipo bingo, se a moça marcar um número x de pontos o prêmio dela será… CASAMENTO? Sério mesmo que o valor de outra pessoa continua a ser medido conforme o código de outra?

Por fim. No que desqualifica uma pessoa ter mais sapatos que livros? E no que qualifica uma pessoa ter mais livros que sapatos/bolsas/roupas/bibelôs/bichinhos de pelúcia? E o pior, nesse caso: ninguém sequer imagina um meme colocando o homem como o objeto a ser julgado e receber o prêmio do casamento, né? Quase caí na tentação de gerar um meme colocando o homem como o objeto, mas não é isso que vai resolver a questão. Né?

Continuo indicando o texto da Renata Corrêa, que desconstrói de uma vez por todas essa coisa do ‘valor da mulher’ medido pela régua alheiaNinguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história.”

Memes machistas é o que mais tem na internet. Se fuçar bem, quase todos são. Mas, o que me irrita e aflige são justamente os que precisam ser esmiuçados assim para revelar seu machismo e ou misoginia e que, por parecerem inofensivos ao primeiro olhar, são compartilhados até por pessoas que se dizem antimachistas, que concordam conosco em todas as questões sobre a liberdade/libertação da mulher. O próprio Biscate SC surgiu de um meme desses, ‘bobinho. Parece inofensivo, mas não é.

Quantos livros ou sapatos eu tenho? NÃO INTERESSA! Apenas pare de medir xs outrxs com réguas/regras, elas são suas e ninguém lhe pediu medida nenhuma ou perguntou nada.

Ah, essxs lindxs…viva xs convidadxs! (2)

E xs convidadxs que viraram fixxs!

#BiscateConvidadx #2anosBiscateSC

Minha maior alegria nesses dois anos do clubinho é ver gente que estava por aí se reconhecer biscate ao se deparar conosco. Minha segunda maior alegria é transformar essxs que agora se sabem biscates em escreventes convidadxs. E a terceira maior alegria é ver esses escreventes convidadxs se transformarem em biscas escreventes fixxs.

Muitxs não aceitaram a responsa de escrever por aqui a cada quinze ou trinta dias e preferiram mandar seus textos conformem fossem saindo ou respondendo a convites especiais. Alguns aceitaram e estão aí há tanto tempo ou tão organicamente inseridos que parece estarem desde sempre. Tem a Renata Lins, que começou fazendo um lindo obituário do Wando quando de sua morte, em fevereiro de 2012, e nunca mais parou, pegou o touro pelo chifre e teve tanta-tanta-tanta gente que se reconheceu biscate através dela que não há mais como dissociá-la de nós. *\o/*

A Charô Lastra chegou para apresentar a lindeza e biscatice de Josephine Baker, numa quinta cultural antes mesmo de completarmos um mês de vida, e ficou escrevente fixa, depois aleatória, de novo fixa e aleatória novamente, e sua presença é tão linda e iluminada que sua cadeira na Academia Biscate está garantida pra sempre, e torcemos fervorosamente para que ela a ocupe pelo menos de vez em quando para matar nossa saudade. ♥

A Jeane Melo chegou até nós como escrevente convidada em junho de 2012, com essa carroça já andando, com seu texto facinho e cheio de poesia, dúvidas e ousadia. E não é que ela se acomodou direitinho junto com as demais abóboras e virou escrevente fixa? Ah, ela chegou toda apaixonada, ainda em dúvida se amor combinava com a biscatagi, mas já desaforada. ;-)

O Toni Miotto já é macaco velho na biscatice, nos acompanha e se reconhece biscate desde o primeiro dia, mas chegou oficialmente ao blog com seu registro fotográfico da Marcha das Vadias São Paulo de 2013. E gostou tanto de ver suas fotinhas aqui que foi oferecendo generosamente outros registros, com seu olhar e sensibilidade ímpar com a dor e o sofrimento humanos, até que o convidamos para fazer isso sempre. E ele ficou. Ê!!!

Esse post era para falar dxs Biscates Convidadxs, mas achei que tinha de fazer esse registro. Primeiro para dizer… Tu aí que colabora de vez em quando nesse clubinho, e gosta muito: estamos vendo tudo e querendo mais — sempre queremos mais — e qualquer dia pode pintar um convite mais formal… Então… Talvez seja o caso de nem esperar o convite… Se oferece logo, vai?! :P

Ano passado, no aniversário de um ano, fiz um post parecidinho com esse, cheio de depoimentos lindos — que depois viraram banners mais lindos ainda lá no facebook –. Então, seguem aí outros depoimentos tão lindos quanto aqueles, que mais tarde virarão banners.

cris charãoCris Charão“Quando me olhei neste espelho, me vi. Hoje, falo assim, de boca cheia, escancarada, lambuzada: sou biscate. E ando em ótima companhia. Longa vida à biscatagem!”

andréaAndréa Moraes“Quando eu era pequena minha avó morava comigo. Eu aprendi a ser biscate com a minha avó. Quando eu ficava decepcionada com alguma coisa, ela sempre dizia: Não fique triste assim! Você tem muita sorte. Pra minha vó era assim: eu tinha sorte e o mundo era melhor por isso. Tinha sorte porque podia estudar, tinha sorte porque não era obrigada a casar, tinha sorte porque podia escolher com quem namorar e que roupa usar. E foi assim que eu aprendi que era a vida. Depois vovó morreu, eu cresci, vi que as coisas não eram assim tão simples. A minha sorte não era um prêmio, a minha sorte dependia de tantas lutas e histórias que vieram antes de mim e mais do que isso, a minha sorte depende da crença de que não só eu, mas todas as mulheres merecem sorte. Que a boa fortuna venha pra todas e que esse mundo possa ser mais biscate.”

marianaMariana Rodrigues“Dois anos de biscatice livre e prazeirosa e também dois anos de biscatice engajada e comprometida! Muito bom ser a Biscate Sapatão (ou seria a Sapatão Biscate?) para participar e acompanhar de perto toda essa produção sobre os temas da nossa vida: saúde, amor, trabalho, visibilidade, autonomia, sapatonices, filhos, perdas, saudades, politica… Enfim, dois anos deliciosos com toda a nossa história contada, produzida, relatada, inventada e compartilhada por nós, Biscates para Biscates do mundo! Que venham todos os (muitos) outros anos cheios de biscatice autônoma, livre e engajada!”

bárbara guimarãesBárbara Guimarães“Lembro quando o Biscate foi criado. E eu impliquei, é claro. Se não implicasse não seria eu. ‘Ah, mas biscate tem uma conotação negativa irremediável!’ Eu estava errada. Que bom. Hoje vejo o Biscate como um espaço fundamental. Nosso. De todo e qualquer um que tenha o que dizer para ajudar nesse longo processo de compreender e abraçar o feminino – o que inclui lutar contra as coisas que o sufocam ou oprimem. Parabéns, biscates corajosas!!!”

eversonEverson Fernandes – “Foi conhecendo o Biscate Social Clube, as biscas e os biscas, que eu aprendi a me desconstruir. Aos poucos, todos os dias. Essa biscatagem eximida da culpa de outrora. De gente que se oferece, que deseja, que beija e se deixa desejar. De gente viva, gente delícia. Gente biscate.”

E a biscaiada se agita e responde rapidinho aos apelos… Mais! Mais! Assim…

clara (2)Clara Gurgel
Biscate. Bi. Pan. Pa pum!
Bis…coito. Molha. Com um, com oito.
Bisca, pisca, trisca, pode, fode.
Bisca mor. Morde, assopra, de prima, de salto,
de quatro, no ato.
Biscate. Capte-me mas não adapte-me. Camaleôo.
Bisca…radamente desavergonhada, assume, assanha a sanha.
Bisca, zen, sem, com, dentro, fora, tudo ao mesmo tempo agora.
Bis…cato. De cá. De lá. De lado. De novo.
Biscate. Aranha que arranha a jarra, a vara, a cara.
Bisca…anátema, santa, profana, profícua.
Bisca, busca, lusca-fusca, ofusca
Bis…cate! Cate mas não mastigue. Engula, a gula
Peça bis… Biscate!

cl_romanoClaudio Luiz — “Quando conheci Luciana – Niara – Renata e passei a ler o Biscate fiz um up grade nos meus pontos de vista sobre a luta feminina, sobre pessoas, sobre liberdade de escolhas, sobre sexo. Depois, quando a Luciana me convidou a escolher algumas imagens que entrariam nas postagem de domingo, mais um ponto acima. O que seria interessante para elas? Quais imagens estariam mais de acordo com o site? Não acho mais que uma imagem diga mais que mil palavras, mas tenho claro que eles podem dizer muito (independe do número de palavras para traduzi-las. Sou mais de imagem do que de letras). E treinar o olhar, tentar ver todas as nuances expostas na imagem é um exercício para ser menos preconceituoso e consequentemente, mais atento a pessoas.”

deborah sá

Deborah Sá
“Jardim de delícias
Toda malícia
Biscate
Social
Clube
Colore tons de lume
Tão logo assume
A incandescência
De toda concupiscência”

Foi Biscate Convidadx e seu depoimento não está aqui? Ainda dá tempo. ;-)

já que estamos rememorando... esse foi o banner do primeiro aniversário biscate :)

já que estamos rememorando… esse foi o banner do primeiro aniversário biscate :)

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