A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

Ou… Estou me guardando pra quando o outono chegar

montagens_135_Derretendo - Sapo2

Tempos bicudos, esses. Muito distante do meu habitat natural, tenho sérias, seríssimas dificuldades em me achar nesse espaço de agora. A dificuldade em me achar não me é estranha, mas não me saber nesse lugar incomoda demais. Faltam as pessoas conhecidas para encontrar por acaso na rua, e os “quanto tempo!”, “como vai a tua mãe?”, “ainda moras no mesmo lugar?” acabaram se tornando tão importantes quanto os rostos, ruas, casarões, esquinas e — óbvio — bares familiares.

Nesse calor do Ridijanêro pouco sobra de energia para qualquer coisa após o trabalho, cuidados da casa, filho. Dia desses lendo a Lu falar que são os sonhos pequenos que a fazem feliz (não era bem isso, mas foi assim que entendi), fiquei a me perguntar onde andariam os meus sonhos, grandes ou pequenos… Onde estão os meus sonhos? Nesse calor, querides, se perdem facinho. O cérebro amolece junto com o corpo e tudo se esvai. Cá estou eu, no subúrbio aguardando a tão desejada chuva em mais um final de dia… Esclareço: chuva não é sonho ou delírio. É necessidade, concreta, para suportar o dia a dia nesse pedaço “privilegiado” do inferno, abandonado até mesmo pelo diabo (dizem que foi passar férias em praias mais frescas do Caribe). E ainda tem os outros calores que estão fazendo um carnaval com meus hormônios… Sim, acho que estou entrando na menopausa. (spoiler!)

Se eu tivesse um ar condicionado, mais ventiladores, pudesse morar numa rua mais arborizada… O subúrbio do Rio é devastado, e nas lajes que tentam aliviar o sufoco das moradias precárias e ampliar um pouquinho o conforto só o que cresce é cimento, nenhuma árvore é plantada, nem mesmo em vasinhos. Falta de grana está diretamente ligada à precária qualidade de vida na “cidade maravilhosa”. Mais que uma cidade partida é uma cidade desumana para seus moradores — o Freixo tinha razão.

Além de rebaixar a qualidade de vida, a falta de grana te expõe mais aos preconceitos. E aqui me reservo e preservo o direito de não relatar pormenores. Porque dói se expor tanto, embora a necessidade de desabafo seja premente.

A saudade e a sensação de não pertencimento, o calor e a impossibilidade de sonhar com ele, combinados com a falta de grana e essas pressões e opressões cotidianas colocaram minha biscatice em xeque… Sou biscate, mas não estou biscate. Chuif.

Quem sabe quando chover e arrefecer um pouco, tudo o mais fique menos pesado… Quando é mesmo que começa o outono?

Case-se com ela. Oi?

Redes sociais formam a rua virtual onde todos se encontram sem sair de casa ou sem deixar de ir ou estar em outros lugares, inclusive na própria rua. E nessa rua cada um tem um espacinho de muro ou tapume para escrever, colar, rabiscar, pintar o que bem quiser. A gente também passeia, e vê coisas interessantes e para pra curtir, comenta, faz pergunta, se não gosta bate-boca, enfim… É vida real, só que de outro jeito, noutra versão.

Alguns desses muros tem holofotes em cima, são maiores, fundo claro, e tem um público cativo que sempre passa lá para olhar, aplaudir, comentar, fazer buxixo. Outros muros são pequenos, uns encantadores, uns mais agressivos. Cada um tem “a cara” de seu dono/a. O que me atrai nos muros virtuais é o conteúdo, embora a aparência conte bastante não é o principal. Para algumas pessoas basta um amigo estar curtindo, aplaudindo um muro que ele vai passar a curtir e aplaudir. A isso se chama confiança, admiração. ‘Fulanx pensa e articula ideias como eu gostaria de pensar e articular ideias, então, se ele tá aplaudindo, acho que posso confiar’. E confiam.

Nessa onda do comportamento por indicação e influência, como quem passa a frequentar determinado bar em determinada rua ou bairro porque alguns amigos legais e que são famosos por serem legais sempre estão, conteúdos muitas vezes absurdos e que nem sempre refletem o que as pessoas pensam e sentem de fato são reproduzidos . ‘Veio do fulano e ele não viu problema…’ e quando vimos, determinada frase, imagem ou ainda imagem + frase tomou todos os muros da rua naquele bairro. Viralizou.

Foi o caso desse meme:

meme

Tiveram outros memes com o mesmo conteúdo, mas esse foi o que viralizou. Logo várias feministas e páginas feministas pensaram em respostas para esse meme. Uma delas foi essa aqui:

resposta

Um viralizou e o outro não. Ou, um viralizou mais que o outro. Adivinha qual? É…pois, é. Enquanto o meme original teve 22,5 mil likes e mais de 25 mil compartilhamentos, as respostas pulverizaram. Essa resposta (foto acima) foi a que viralizou melhor — aparece melhor posicionada na busca do google com a frase + nome da rede social facebook. E teve apenas 640 likes e 462 compartilhamentos. Respondeu? Se contrapôs? Marcou posição? Nem precisa ser ‘social media‘ para saber que não. E não só pela quantidade de pessoas atingidas por e por outro…

Cadê a resposta supimpa, aquela que diz que o casamento como objetivo principal a ser atingido pela mulher ou como prêmio por um determinado comportamento nos foi imposto por essa sociedade machista e que não é a escolha individual e livre de cada uma? Cadê os questionamentos óbvios?

Seguem, então, os meus questionamentos: O casar com ela é um prêmio por ter mais livros que sapatos? E se a moça não quiser casar, não quiser ser o prêmio do cara por ELA ter mais livros que sapatos? E se a moça ler e doar todos os livros (é mais fácil se mudar e viajar com pouco peso) e carregar consigo apenas um, o que está lendo no momento, e dois pares de sapatos? E se os livros da moça forem todos de auto-ajuda? E se os livros da moça forem todos racistas, machistas, preconceituosos ou de direita? Desde quando é razoável que o relacionamento entre duas pessoas — que deveria ser a base de qualquer casamento — é decidido apenas por uma? Sério mesmo que é tipo bingo, se a moça marcar um número x de pontos o prêmio dela será… CASAMENTO? Sério mesmo que o valor de outra pessoa continua a ser medido conforme o código de outra?

Por fim. No que desqualifica uma pessoa ter mais sapatos que livros? E no que qualifica uma pessoa ter mais livros que sapatos/bolsas/roupas/bibelôs/bichinhos de pelúcia? E o pior, nesse caso: ninguém sequer imagina um meme colocando o homem como o objeto a ser julgado e receber o prêmio do casamento, né? Quase caí na tentação de gerar um meme colocando o homem como o objeto, mas não é isso que vai resolver a questão. Né?

Continuo indicando o texto da Renata Corrêa, que desconstrói de uma vez por todas essa coisa do ‘valor da mulher’ medido pela régua alheiaNinguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história.”

Memes machistas é o que mais tem na internet. Se fuçar bem, quase todos são. Mas, o que me irrita e aflige são justamente os que precisam ser esmiuçados assim para revelar seu machismo e ou misoginia e que, por parecem inofensivos ao primeiro olhar, são compartilhados até por pessoas que se dizem antimachistas, que concordam conosco em todas as questões sobre a liberdade/libertação da mulher. O próprio Biscate SC surgiu de um meme desses, ‘bobinho. Parece inofensivo, mas não é.

Quantos livros ou sapatos eu tenho? NÃO INTERESSA! Apenas pare de medir xs outrxs com réguas/regras, elas são suas e ninguém lhe pediu medida nenhuma ou perguntou nada.

Ah, essxs lindxs…viva xs convidadxs! (2)

E xs convidadxs que viraram fixxs!

#BiscateConvidadx #2anosBiscateSC

Minha maior alegria nesses dois anos do clubinho é ver gente que estava por aí se reconhecer biscate ao se deparar conosco. Minha segunda maior alegria é transformar essxs que agora se sabem biscates em escreventes convidadxs. E a terceira maior alegria é ver esses escreventes convidadxs se transformarem em biscas escreventes fixxs.

Muitxs não aceitaram a responsa de escrever por aqui a cada quinze ou trinta dias e preferiram mandar seus textos conformem fossem saindo ou respondendo a convites especiais. Alguns aceitaram e estão aí há tanto tempo ou tão organicamente inseridos que parece estarem desde sempre. Tem a Renata Lins, que começou fazendo um lindo obituário do Wando quando de sua morte, em fevereiro de 2012, e nunca mais parou, pegou o touro pelo chifre e teve tanta-tanta-tanta gente que se reconheceu biscate através dela que não há mais como dissociá-la de nós. *\o/*

A Charô Lastra chegou para apresentar a lindeza e biscatice de Josephine Baker, numa quinta cultural antes mesmo de completarmos um mês de vida, e ficou escrevente fixa, depois aleatória, de novo fixa e aleatória novamente, e sua presença é tão linda e iluminada que sua cadeira na Academia Biscate está garantida pra sempre, e torcemos fervorosamente para que ela a ocupe pelo menos de vez em quando para matar nossa saudade. ♥

A Jeane Melo chegou até nós como escrevente convidada em junho de 2012, com essa carroça já andando, com seu texto facinho e cheio de poesia, dúvidas e ousadia. E não é que ela se acomodou direitinho junto com as demais abóboras e virou escrevente fixa? Ah, ela chegou toda apaixonada, ainda em dúvida se amor combinava com a biscatagi, mas já desaforada. ;-)

O Toni Miotto já é macaco velho na biscatice, nos acompanha e se reconhece biscate desde o primeiro dia, mas chegou oficialmente ao blog com seu registro fotográfico da Marcha das Vadias São Paulo de 2013. E gostou tanto de ver suas fotinhas aqui que foi oferecendo generosamente outros registros, com seu olhar e sensibilidade ímpar com a dor e o sofrimento humanos, até que o convidamos para fazer isso sempre. E ele ficou. Ê!!!

Esse post era para falar dxs Biscates Convidadxs, mas achei que tinha de fazer esse registro. Primeiro para dizer… Tu aí que colabora de vez em quando nesse clubinho, e gosta muito: estamos vendo tudo e querendo mais — sempre queremos mais — e qualquer dia pode pintar um convite mais formal… Então… Talvez seja o caso de nem esperar o convite… Se oferece logo, vai?! :P

Ano passado, no aniversário de um ano, fiz um post parecidinho com esse, cheio de depoimentos lindos — que depois viraram banners mais lindos ainda lá no facebook –. Então, seguem aí outros depoimentos tão lindos quanto aqueles, que mais tarde virarão banners.

cris charãoCris Charão“Quando me olhei neste espelho, me vi. Hoje, falo assim, de boca cheia, escancarada, lambuzada: sou biscate. E ando em ótima companhia. Longa vida à biscatagem!”

andréaAndréa Moraes“Quando eu era pequena minha avó morava comigo. Eu aprendi a ser biscate com a minha avó. Quando eu ficava decepcionada com alguma coisa, ela sempre dizia: Não fique triste assim! Você tem muita sorte. Pra minha vó era assim: eu tinha sorte e o mundo era melhor por isso. Tinha sorte porque podia estudar, tinha sorte porque não era obrigada a casar, tinha sorte porque podia escolher com quem namorar e que roupa usar. E foi assim que eu aprendi que era a vida. Depois vovó morreu, eu cresci, vi que as coisas não eram assim tão simples. A minha sorte não era um prêmio, a minha sorte dependia de tantas lutas e histórias que vieram antes de mim e mais do que isso, a minha sorte depende da crença de que não só eu, mas todas as mulheres merecem sorte. Que a boa fortuna venha pra todas e que esse mundo possa ser mais biscate.”

marianaMariana Rodrigues“Dois anos de biscatice livre e prazeirosa e também dois anos de biscatice engajada e comprometida! Muito bom ser a Biscate Sapatão (ou seria a Sapatão Biscate?) para participar e acompanhar de perto toda essa produção sobre os temas da nossa vida: saúde, amor, trabalho, visibilidade, autonomia, sapatonices, filhos, perdas, saudades, politica… Enfim, dois anos deliciosos com toda a nossa história contada, produzida, relatada, inventada e compartilhada por nós, Biscates para Biscates do mundo! Que venham todos os (muitos) outros anos cheios de biscatice autônoma, livre e engajada!”

bárbara guimarãesBárbara Guimarães“Lembro quando o Biscate foi criado. E eu impliquei, é claro. Se não implicasse não seria eu. ‘Ah, mas biscate tem uma conotação negativa irremediável!’ Eu estava errada. Que bom. Hoje vejo o Biscate como um espaço fundamental. Nosso. De todo e qualquer um que tenha o que dizer para ajudar nesse longo processo de compreender e abraçar o feminino – o que inclui lutar contra as coisas que o sufocam ou oprimem. Parabéns, biscates corajosas!!!”

eversonEverson Fernandes – “Foi conhecendo o Biscate Social Clube, as biscas e os biscas, que eu aprendi a me desconstruir. Aos poucos, todos os dias. Essa biscatagem eximida da culpa de outrora. De gente que se oferece, que deseja, que beija e se deixa desejar. De gente viva, gente delícia. Gente biscate.”

E a biscaiada se agita e responde rapidinho aos apelos… Mais! Mais! Assim…

clara (2)Clara Gurgel
Biscate. Bi. Pan. Pa pum!
Bis…coito. Molha. Com um, com oito.
Bisca, pisca, trisca, pode, fode.
Bisca mor. Morde, assopra, de prima, de salto,
de quatro, no ato.
Biscate. Capte-me mas não adapte-me. Camaleôo.
Bisca…radamente desavergonhada, assume, assanha a sanha.
Bisca, zen, sem, com, dentro, fora, tudo ao mesmo tempo agora.
Bis…cato. De cá. De lá. De lado. De novo.
Biscate. Aranha que arranha a jarra, a vara, a cara.
Bisca…anátema, santa, profana, profícua.
Bisca, busca, lusca-fusca, ofusca
Bis…cate! Cate mas não mastigue. Engula, a gula
Peça bis… Biscate!

cl_romanoClaudio Luiz — “Quando conheci Luciana – Niara – Renata e passei a ler o Biscate fiz um up grade nos meus pontos de vista sobre a luta feminina, sobre pessoas, sobre liberdade de escolhas, sobre sexo. Depois, quando a Luciana me convidou a escolher algumas imagens que entrariam nas postagem de domingo, mais um ponto acima. O que seria interessante para elas? Quais imagens estariam mais de acordo com o site? Não acho mais que uma imagem diga mais que mil palavras, mas tenho claro que eles podem dizer muito (independe do número de palavras para traduzi-las. Sou mais de imagem do que de letras). E treinar o olhar, tentar ver todas as nuances expostas na imagem é um exercício para ser menos preconceituoso e consequentemente, mais atento a pessoas.”

deborah sá

Deborah Sá
“Jardim de delícias
Toda malícia
Biscate
Social
Clube
Colore tons de lume
Tão logo assume
A incandescência
De toda concupiscência”

Foi Biscate Convidadx e seu depoimento não está aqui? Ainda dá tempo. ;-)

já que estamos rememorando... esse foi o banner do primeiro aniversário biscate :)

já que estamos rememorando… esse foi o banner do primeiro aniversário biscate :)

Ainda enterrado em cova rasa o AI-5 completa 45 anos

E as mulheres com isso?

*esse texto faz parte da VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

grafite, de Gabriel Muniz

Em quase todos os momentos da história da cultura judaico-cristã o simples fato de ser mulher e ir um passo além do papel designado pela sociedade patriarcal já nos colocava na situação de subversiva. E foi assim na resistência à ditadura.

“Fica evidente que para a ditadura militar brasileira, a mulher militante não era apenas uma opositora ao regime militar; era também uma presença que subvertia os valores estabelecidos, que não atribuíam à mulher espaço para a participação política. Como esta questão está presente na sociedade e nas próprias organizações de esquerda, pode-se concluir que as relações de gênero têm uma dimensão que perpassa todas as instâncias e instituições sociais.
Para uma história das mulheres é imprescindível que a história seja entendida como resultado de interpretações que têm como fundo relações de poder. O caráter de construção da história nos permite desconstruir e reinventar a história, inclusive o papel dos homens e das mulheres na sociedade. Assim a história passa a ser vista como um campo de possibilidades para vários sujeitos historicamente constituídos; lugar de lutas e de resistências.”
As mulheres e a ditadura militar no Brasil, artigo de Ana Maria Colling ICH-UFPel

Se os atos institucionais, entre eles o desgraçado AI-5, foram dando as desculpas legais para toda sorte de arbitrariedade nos porões das delegacias e “departamentos de ordens e segurança” durante a ditadura militar contra quem ousava criticar e se insurgir, contra as mulheres nada disso nunca foi necessário. Embora a subversão das mulheres nunca tenha sido tolerada, também nunca precisou de uma ditadura oficial para ser combatida especificamente. Mas, mulheres subversivas e comunistas já é vandalismo. E embora também não tenha sido fácil para as mulheres (como ainda não o é) enfrentar o machismo da esquerda e se destacarem como quadros políticos na resistência, nunca se teve dúvidas sobre quem era o inimigo maior. E enfrentamos os mesmos horrores.

Difícil dizer se na tortura a crueldade era maior com mulheres. Tortura é cruel, desumano e abominável. Ponto. Claro que haviam os abusos continuados, porque alguns torturadores usavam presas como objetos sexuais diariamente, independente da tortura outra, para arrancar informações e para “quebrar” militante. Estavam ali mesmo, “à disposição”. Sevícias eram comuns com homens e mulheres, fazia parte da cartela de crueldades. Úteros perfurados, filhos roubados, mães logo após sessão de tortura expostas à visita dos filhos, grávidas torturadas… Muitos e horríveis são os relatos do período, ainda não oficiais, ainda não inclusos na história oficial do país, ainda não julgados, ainda colocados em dúvida.

45 anos após aquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro de 1968 ainda tememos as delegacias, os abusos, a tortura, os desaparecimentos. Ainda tememos a polícia, homens e mulheres que ousam se insurgir contra… qualquer coisa. Basta ser consideradx subversivx. Estar com uma câmera, profissional ou celular, na mão e “ameaçar” registrar os crimes dos agentes da lei. Basta estar com uma garrafa de desinfetante no lugar errado — ou no lugar certo, do ponto de vista do Estado e da polícia que precisa responsabilizar alguém, e se for preto e pobre fica “melhor responsabilizado ainda”.

Embora não estando oficialmente num estado de exceção, o Estado não é seguro. As ruas não são seguras para subversivos e insurgentes, homens ou mulheres. Como bem lembrou a Suzana Dornelles, o AI-5 está enterrado em cova rasa, e se não estivermos atentos e vigilantes talvez nem precisemos de outro ato institucional para vivermos mais horrores nessa “democracia”.

Leia também:

E assista:

“Que Bom Te Ver Viva”de Lúcia Murat:

Lutar contra a violência dói

violence_woman

Já escrevi muito sobre violência contra a mulher, aqui inclusive. Causas, consequências, políticas públicas de prevenção da violência e cuidado com as vítimas, leis mais duras para punir agressores, mecanismos e estruturas que facilitem a denúncia e nos deem a real dimensão da violência sofrida (todos os números se baseiam na violência denunciada e estimativas), mecanismos que facilitem também a punição como delegacias, centros de referência, defensoria-promotoria-vara especializada, lei específica… Nada até agora parece ter sido suficiente.

:-(

Não, não é derrotismo puro e simples. É mais cansaço mesmo. É muito tempo lutando nessa mesma trincheira e cada vez que vou ao campo de batalha o cenário é o mesmo. Os relatos de como ocorreu, como foi a via crucis nessa estrutura legal que foi criada a partir da luta feminista nas últimas décadas, as marcas, a dor, a auto estima que não existe mais… O horror.

:’(

Não, não é derrotismo puro e simples. É cansaço. É constatação dos fatos. E é dor. O movimento feminista teve muitas vitórias ao longo das últimas décadas no Brasil, conseguiu quase tudo que queria em termos de estrutura para dar conta da recepção/tratamento da vítima e punição do agressor. Mas nada foi suficiente para coibir ou prevenir a violência. Os números aumentaram. Não só porque o número de denúncias aumentou, mas principalmente porque a população brasileira dobrou em 40 anos.

O machismo continua inabalável, intacto. E se antes éramos apontadas em mexericos nas conversas de esquina, bar, pátio do colégio e bastava não ligar para os comentários que atingiam a “reputação” ou incorporá-los, dependendo da personalidade de cada menina, agora ele se espalha pelas redes sociais, e esses comentários ganham provas materiais, e já não depende mais da personalidade de cada menina superar as difamações e mexericos. E elas se matam.

:’(

É tão perverso que esses homens (alguns tão meninos quanto suas vítimas) sequer precisem desferir um golpe para matar, basta enviar uma foto pelo celular ou publicá-la numa rede social. Solução? Vamos pensar em mais enquadramento legal, mais penas, mais estruturas e mecanismos para dar conta das vítimas que sobreviverem?

:-/

Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.

Continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada?

Hoje é mais desabafo mesmo. Dsclp!

:-(

:-(

Das fogueiras atuais…

Ou de sempre.

Faz tempo que nos debatemos por aqui contra as caixas, rótulos e classificações. Entre as caixas mais comuns nos enquadram em santa/vítima ou puta/destruidora de lares. É essa dicotomia que envolve um triângulo de atores que ocupa e alimenta revistas e sites de fofoca no momento (texto da Nádia Lapa falando a respeito) Não vou discutir o papel desses veículos nem seu conteúdo e se é informação ou jornalismo, apenas os conceitos e preconceitos embutidos/transmitidos/espelhados.

triângulo

Um casal lindo e fofo, mocinha e galã, literalmente de capa de revista, se separa. No centro do “furacão” (?) um pseudo caso dele com outra, a periguete. E daí? E daí que era um casal lindo e tinham filho-cachorro-gato-mansão-galinha-futuro? Ninguém sabe em que termos era pactuada a relação do tal casal. E não interessa. Ninguém sabe o que aconteceu, se aconteceu, vai acontecer e os detalhes… E não interessa. Não fossem os comentários preconceituosos e o julgamento da periguete do tal triângulo, talvez só soubesse dessa história quando o atual casal já estivesse se separando… #SouDessas

Das poucas certezas que há nessa vida é que relações acabam e afetos se esgotam. Alguns afetos se transformam tanto e tantas vezes que esticam e perduram as relações por mais tempo. Se acontecer, beleza. Mas saibam que há uma indústria que se alimenta da ilusão do amor eterno e do casamento perfeito, que vai desde a celebração do início até a auto-ajuda do final. O mito da fidelidade é tão pactuado quanto quebrado, diariamente.

Algumas pessoas dizem não saber viver um relacionamento aberto, dizendo não terem estrutura para deixar x outrx livre para ir ou ficar, ou saber do envolvimento dx amadx com outra(s) pessoa(s). Pois eu não sei viver um relacionamento de mentira. Não há como se isolar numa bolha. Nós esbarramos o tempo todo com outras pessoas e sentimos por elas de indeferença a tesão, de ódio a amor, de compaixão a raiva. O fato de termos um relacionamento não nos impede de sentirmos atração por outras pessoas. Sentimos e pronto. O que fazemos com esses sentimentos é da nossa conta e da(s) pessoa(s) com quem nos relacionamos. E só.

triângulo bala

A história do cinema e da televisão é repleta de relacionamentos que iniciaram com um casal que contracenava junto, de triângulos (quadrados, retângulos, trapézios…) amorosos e de casamentos desfeitos da mesma forma. Ainda dar audiência para quem especula essas relações e discutir a vida de “famosos” como se fosse a nossa é tão século XX… Já apontar o dedo, julgar e condenar as mulheres como putas é no mínimo idade média. Quem nunca esteve num triângulo sexual/afetivo que risque o primeiro fósforo. NÃO, PERA… Ainda bem que as fogueiras não matam mais, pelo menos não literalmente.

No mais… Viva as bruxas!

Pelo direito à vulgaridade

Estou muito cansada de ver as mulheres que exercem sua liberdade vistas, tratadas como vilãs. Basta estar diante de uma mulher mais atirada e que tome iniciativas para o homem se tornar vítima indefesa. Socorro, hein… É nessa representação de papéis que se afirmam e perpetuam preconceitos e discriminações. E é de papéis, representações, personagens e atrizes que quero falar.

Faz um tempo que observo e comento que em algum momento entre os anos 80 e hoje encaretamos. Não que a passagem do tempo seja garantia de evolução, não é. A história é cíclica e encadeada, determinado fato teve outro(s) fato(s) como causa e provocará consequências e talvez, momentos de maior liberdade que ansiavam ou caminhavam para um determinado ápice, quando frustrados geram traumas que mudam a ordem das coisas, tiram da sequência. Não sou historiadora, mas arrisco dizer que o ano de 1989 tenha sido esse divisor de águas. E não foi para o bem.

Do ponto de vista cultural e comportamental, a simples existência de Leila Diniz, Elis Regina, Dina Sfat não nos garantiram por si só que tivéssemos depois delas atrizes e cantoras enfrentando a hipocrisia dessa época e/ou simplesmente tendo coragem de assumirem o que pensam. Talvez elas tenham chocado demais e produzido gerações covardes, caretas, babacas… Talvez a quebra após 1989 e a ascensão do neoliberalismo nos anos 90 explique… Mas, são apenas conjecturas de como chegamos aqui.

Sei que, daqui, do ponto de vista do nosso clubinho, acho que estamos muito mal representadas, principalmente nas novelas. Ou porque as periguetes das novelas são personagens que ousam pouco além da arte de seduzir e a conquista de objetivos imediatos ou porque as atrizes que as representam são moralistas, caretas e preconceituosas. Isso sem esquecer o fato de que periguete é SÓ a menina que manifesta seu desejo.

eu quero ser a puta! o/

eu quero ser a puta! o/

Não que Leila, Elis e Dina fossem biscates ou periguetes. Não? Não. Do ponto de vista do senso comum e de como esse perfil é visto e representado, não. Do ponto de vista de serem visionárias, revolucionárias, feministas e bem resolvidas com seu corpo e sexualidade, SIM!

E o que elas têm em comum com suas correspondentes* atuais? Vejamos. Ísis Valverde que interpretou recentemente uma periguete em Avenida Brasil numa entrevista na tevê – no mesmo programa que a Graúna-Lu-Borboleta estava — disse, textualmente: “Não deixem seus namorados perto de uma periguete. Ela vai tentar seduzi-lo”. Sério mesmo que o namorado é propriedade, que a relação é nesses termos e basta ser periguete para seduzir todo mundo? Aí… lembrando Leila Diniz: “Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um“. Foco no direito de escolha da mulher. Não é porque é periguete que vai seduzir todo mundo. Além do que, para duas (ou mais) pessoas se enroscarem-envolverem é preciso a vontade de ambas. A contradição: a personagem batia no peito e assumia que usava o corpo para conseguir o que queria e não se envergonhava disso. Não deixou lição nenhuma para a atriz.

A cantora Sandy virou polêmica nacional uns dois anos atrás por ter declarado numa entrevista à Playboy que “é possível ter prazer anal. Após a repercussão e repressão que se seguiu, voltou atrás e declarou que não foi bem aquela a sua resposta, dizendo: “nunca falei e não falo detalhes sobre minha vida sexual“. Aí… lembrando Elis Regina, sobre Fábio Jr.: “Ele foi como um sorvete, gostoso e rápido, mas brigamos quando eu disse que ele estava com saudade do plim-plim da Globo” e arrematou “ninguém vai fazer da minha vida uma novela” respondendo sobre os boatos do namoro. A contradição: A pessoa construiu uma imagem de pudica, de diva adolescente eternamente infantilizada/assexuada, aí resolve dar entrevista para uma revista masculina pra quê? Trocar receita de bolo? Mas, nada disso justifica o linchamento moralista e hipócrita sofrido por Sandy nas redes sociais por conta da tal declaração.

A atual periguete “em cartaz” na novela Amor À Vida só é periguete nos xingamentos da vizinhança. Porque, vamo combiná, ela não tem atitude nenhuma. Trepar e ir a motel todo mundo trepa e vai, o que faz uma periguete é a atitude, principalmente se assumir como tal. Mas, tá… Vamos considerar que ela seja periguete, além de não ter nenhuma fala no sentido de exercer sua liberdade sexual, a atriz Tatá Werneck declarou em entrevista na cobertura de sua participação no especial do Dia da Criança do programa Altas Horas (explicando o sucesso da personagem com a criançada) que “a Valdirene não é uma periguete vulgar“. Então não é periguete, né? Porque se ser liberada sexualmente para a mulher é ser vulgar, não existe periguete que não seja vulgar. A contradição: a Valdirene é vulgar. O que ela não é, é periguete.

Pasmem. Diz o Dicionário Aurélio, VULGAR: adj. Relativo ao vulgo. / Comum, trivial, corriqueiro: fato vulgar. / Baixo, reles, desprezível: sentimento vulgar. // Latim vulgar, latim que se falava no Império romano (por opos. a latim clássico). / &151; S.m. O que é vulgar. / Língua vernácula. Nada, nadica, nenhuma referência à mulher ou comportamento, apenas com a condição social. Ser vulgar, na raíz da expressão, é ser reles, do povo. Tomemos a expressão ao pé da letra e sejamos vulgares. Sem ser sexy.

Retomando. Liberdade é exercício, então deixe a pessoa com quem te relacionas livre para ir, voltar, ficar, ser, estar. Se importe menos com xs outrxs periguetes e seja mais periguete você. É possível ter prazer de várias formas, se permita, e principalmente assuma o seu prazer. Além de libertador pode ajudar a libertar outras pessoas. E por fim, PELO DIREITO DE SER VULGAR!

Não, não esqueci da Dina Sfat. Deixei sua imagem para encerrar o assunto, porque biscate-periguete-puta pode até estar na vida só pela diversão, mas a gente aprecia muito as que são de luta.

dina sfat

*essa correspondência não tem caráter comparativo de talento, importância ou grandiosidade.

Sou flôxa

Ou podem chamar também de biscate de critérios. Eu? É. Não saio com qualquer um, só com os que bebem. Não abraço qualquer um, só os que cheiram bem — e isso não tem a ver com perfume, que fique bem claro. Não beijo qualquer um, só os ‘barbudão’ — e aí, entre os barbudão, pode ser qualquer um, desde que a boca seja escovada. Não trepo com qualquer um, só com quem tenho tesão e já beijei e cheirei e saí antes… Claaaaaaro que os critérios afrouxam – ou ‘afloxam’* — bastante depois de beber ou por qualquer outro motivo. Porque né… Biscate. (beijo no ombro)

Imaginando que todos tenham os seus critérios, podia ser diferente a biscatagi. Podíamos ter um “Espaço Biscatagi” nos botecos e buátchy onde todo mundo que tá a fim de pegação vai lá dar pinta e fazer exibição da figura. Mas, aí, fica muito focado no físico… E a biscatagi transcende… E nem todo mundo curte boteco ou buátchy… Então, o ‘Espaço Biscatagi’ podia ser para conversar… Mas, aí, a gente já faz isso entre os amigos, e com os amigos dos amigos, ligando ou cutucando… Não, pera! Já é assim.

critérios

Então, poderia ser igual, como é, mas diferente. Porque, vamucombiná, o problema não está nos lugares. Só que pessoas não são questionários de múltipla escolha a serem preenchidos. Poderíamos nos agarrar menos a convenções sociais, e altura da gargalhada e o comprimento da saia ou escassez da blusa e se mostra a calcinha, ou não esconde o pau que endureceu ‘do nada’ no meio da conversa — até porque isso é qualidade — e que horas saiu/voltou de casa para beber, se deu no primeiro ou no segundo ou no terceiro encontro — o ideal é dar no primeiro, no segundo, no terceiro encontro e em quantos mais for possível e for do agrado de ambos encontrar e dar. Poderíamos não olhar tanto pras mãos (a não ser para reparar no tamanho e gestos e supor do que são capazes) procurando sinais evidentes de comprometimento com outrem e nem ficar se guardando no papo esperando o momento que a criatura diga se mora sozinho ou acompanhado e com quem (a pessoa pode morar sozinha e não querer falar, né?). Poderíamos nos entregar mais pra todo mundo. Deixar tudo rolar. E se for para escolher, só se a urgência do desejo exigir, lá no final, depois de ter aproveitado bem todo mundo. Poderíamos não exigir tanto de nós mesmos, impondo ritmo, ordenando passos, etapas…

Poderíamos julgar menos, principalmente as mulheres, em todos as situações acima e noutras tantas. E poderíamos sair beijando indiscriminadamente quando sentíssemos vontade, tipo micareta-todo-dia-aqui-e-agora onde o único critério é gostar do beijo pra seguir adiante. *\o/*

Enfim… Como única regra a biscatagi deveria ser só saber que o bacana é trocar, física e intelectualmente, muito. Com muitas pessoas (quantas mais melhor, acho) ou com poucas, no gosto de cada um/a. Mas que haja troca, e que seja bom para todxs xs envolvidxs. Experiência, saliva, fluídos, suor, o dia pela noite, o pé pela mão… Trocar.

Cheguei num ponto da vida que achei na minha vã filosofice que jamais chegaria: o de dizer que a idade/maturidade/experiência (chame do que preferir) me deixou frouxa. Sou muito inflexível com ideologia, mas não com pessoas. Quando biscateio com alguém não estou pensando em deixar minha vida em suas mãos na trincheira da revolução e nem deixá-lo conviver com meu filho. Estou só biscateando. Então, respeitem minha biscatagi e seus ~critérios~ libertários/libertinos/frouxos. Porque se não respeitarem… Bem, vou biscatear do mesmo jeito.

barba2

Só ando um tanto intransigente com barbas. Mas…depois de beber um pouquinho…talvez…afrouxe aí também.

*Minha avó Carolina, analfabeta e filha de um alemão com uma polonesa, tinha dificuldades com algumas palavras. Para ela não existia afrouxar, mas afloxar. E olha, na pronúncia, a dela fica mais de acordo. Porque alguém flôxo é bem mais frouxo, acreditem.

(então, reescrevendo…)

“Só ando um tanto intransigente com barbas. Mas…depois de beber um pouquinho…talvez…afloxe aí também.” (sentiram a floxidão?)

SIM, sou flôxa!

#VemNiMim

Beijo, Vó!

Tia lésbica. Quem nunca?

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É engraçado. Sempre que vou me posicionar sobre qualquer assunto tenho um exemplo na minha família, com o qual cresci e convivi. Escrevi ontem no meu blog confessando o meu racismo que o avô materno que conheci era negro. Também tive uma tia-avó mezo polonesa mezo alemã, loira de olhos azuis, que era mãe de santo e dona de terreiro de umbanda. Essa que foi a religião que mais pratiquei na vida, embora não a tenha abraçado quando cresci.

Até mesmo as coisas feias e que quase ninguém confessa como roubo, tráfico, prisão, assassinato teve na minha família. E teve marido corno e alcoolismo, morte de cânceres vários e espancamento de mulheres, filho doado, perdido, reencontrado e suicídio, paixões de cinema, casamento interracial nos anos 40, abortos, dores, alegrias… Acontece, nas melhores famílias.

Óbvio, teve também lesbiandade. Cresci com uma tia lésbica que sempre passava pelo menos uma semana das férias na casa da minha avó com a companheira. Minha avó a recebia como a qualquer outrx sobrinhx e a sua companheira como a qualquer outro marido ou esposa hétero. Vó Carola era a “mãe-joana” da família. Todxs sempre queriam/precisavam de sua aprovação da pessoa que se integraria a esse núcleo de doidos, e ela acolhia x todxs. A única diferença é que a companheira dela não tinha título, era apenas a cicrana.

Óbvio também que a maioria apenas a aturava, ela, a lésbica e a cicrana sua companheira. Discretas e sem carinhos públicos que denunciassem a natureza da relação entre as duas para não “desrespeitar” ninguém. Era tipo o preço a ser pago por ter escolhido assumir sua orientação sexual. Estou falando de uma mulher que tem hoje mais de 70 anos e só é bem recebida de fato de uns 15 anos pra cá, quando foi abandonada pela então companheira e ficou “assexuada”, “sossegou”, como dizia minha mãe.

Apesar de não ter pedido autorização a ela — e por isso não divulgarei seu nome e nem sua imagem — achei que deveria dar visibilidade à sua história. Só estudou até a quinta série do primário, não tinha instrução, não frequentava lugares cultos e nem tinha capacidade de teorizar sobre sua condição. Nunca a vi lamentar por agressões sofridas e nem ouvi nenhum comentário a esse respeito na família. Imagino que as pessoas deveriam fingir que eram apenas amigas morando juntas. Elas não quebravam o código moral(ista) e familiar(podre) em público e assim estava bem.

Não era feminista e nem levantava bandeira nenhuma. Ela apenas vivia sua lesbiandade. E se não sambava na cara da sociedade, sua alegria denunciava que sambava escondido, só no miudinho. Só queria uma vida normal, trabalho, casa, pagar as contas e estar com quem gostava. Nada demais.

À minha tia.

semana_lesbica_bissexualEsse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexualconvocada pelo True Love

Cada uma com seus cada qual…

“Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.” — Galeano

Cada um com seus cada qual é uma máxima que vale para quase tudo na vida. Cada uma/um com suas lutas, indignações, vida, amores, biscatagis, prazeres e dores. Carregamos o que escolhemos e o que aceitamos. Ponto. Nem mais nem menos. Por não aceitar x ou y e por escolher esse ou aquele caminho sou essa pessoa com essas ideias e características. É o que fiz de mim nesse mundo capitalista, machista, racista, homofóbico, xenófobo, transfóbico, etc, intolerante. Sou o que fiz de mim para resistir e organizar uma resistência a um mundo com essas condições. Isso não me faz melhor ou pior, apenas eu.

Dentre os meus “cada qual” que me mobilizam estão o moralismo e a hipocrisia. Mas só eles não são capazes de definir a minha revolta. Me refiro ao ódio, repulsa que algumas pessoas sentem de mulheres vadias-putas-biscates-livres que sejam também feministas. Porque até ser feminista é suportável, desde que sejam moralistas e tenham certos critérios. Feminista e puta já é vandalismo… Bueno, e aí que feminista e puta sou eu. É por mim que estas pessoas sentem ódio e repulsa. Quanto a repulsa, vá lá. Elas se sentem repelidas por mim e ficam lá no seu canto. Mas, ódio é complicado. Vai além do seu canto e causam mal ao outro.

Estou há dias tentando achar-inventar-criar um termo que defina isso. Existe na literatura feminista essa classificação? Ajudem-me, por favor, se existir. Caso não, me ajudem a criar. Na falta de um termo/conceito mais completo sou obrigada a apelar mais uma vez ao bom (sic) e velho moralismo combinado à hipocrisia.

Minha boca, buceta e cu não são da conta de ninguém além da minha e de quem pretende conhecê-los mais de perto. E mesmo para quem pretende conhecer, estar, visitar, usar, abusar deles e do resto do corpo — mas povinho é fixado em orifício, né? — também não interessa o que faço com meu corpo quando não estamos no intercurso. A questão é que não é apenas o corpo. Galera se ocupa também da ‘minha moral’ (pfffffff) e vida pregressa, quantos homens já conheci biblicamente (nem eu sei quantos), se dei por amor ou só por dar e essas coisas que só deveriam interessar a mim.

deu é amor

Deixa eu dizer uma coisinha. Dar é amor. Então, dar apenas por dar já é amor, se não amor pela outra pessoa, amor por mim, pelo meu corpo, pelo meu prazer. Não interessa se conheço para quem dei, se tinha garantias, promessa de ressarcimento ou pagamento. Dei, tá dado. Vai me atirar pedras?

Ler tudo que escrevi até aqui e concordar se tu for homem e mais ou menos liberal é relativamente fácil. A coisa pega mesmo é quando a mulher que tu julgavas como sendo tua — por ilusão, contrato, compromisso, promessa, acordo — dá para outro. Inquiri meus amigos virtuais uma noite dessas sobre como reagiriam. Perguntei: Como é que você homem chama a mulher com quem se relaciona quando ela fica com outro? O assunto é tão incômodo que quase a totalidade se esforçou em responder o aceitável, ou o que eu não condenaria como resposta. Apenas ~um~ respondeu “chamo pelo telefone prá gente conversar“. Ainda tentei ajudar reforçando “me refiro na hora em que vê ou fica sabendo… no desabafo com o melhor amigo“. Não funcionou. E desculpa se apelo para a achologia ou empirismo ou ao “todos sabemos que” tão carentes de maior comprovação, mas a resposta é uma só: julgariam moralmente e a chamariam de puta-vadia-biscate-vagabundzzzzzzzzz… Não entendo porque a vergonha em admitir. Sentem vergonham do que são e pensam? Desculpaê, não sofro desse mal.

Me chamem pelo meu nome, porque se tentarem me classificar moralmente me sentirei elogiada. Beijo no ombro.

Mulher de um homem só é mulher sofrida. Mulher que tem dois homens é evoluída. Mulher que tem três homens é uma atrevida. E a que tiver mais? ela não sofre, ela curte a vida… ela é feliz, ela é bandida! – da funkeira MC Mayara de Curitiba adepta do Eletrofunk.

Gramática Biscate, Lição II

Faz tempo que escrevi a lição I desta gramática, desse jeito todo nosso de conjugar, adverbiar, substantivar… Então, leia ou relembre a primeira lição e vamos aos verbos e tempos verbais conforme prometido.connie-corpos

Tinha dito que QUERER, na minha opinião, é o verbo preferido das biscates. Bueno, porque sem ele, conjugado na primeira pessoa do presente em alto e bom som, nenhuma mulher é biscate. O querer conjungado no pretérito imperfeito — queria — ou no pretérito mais que perfeito — quisera — pode revelar desejo represado, contido e biscate que é biscate dá uma levantada na saia, areja a vontade e passa a conjugar o querer no futuro — quererei –, de novo e sempre até saciar a vontade, matar o desejo na saliva, enfim…

Conjugar o querer abre espaço e evidencia outros verbos e a necessidade de outras conjugações. Quando se quer, quer alguém ou alguma coisa. Para chegar a esse alguém, coisa ou lugar é preciso ir. E o IR, no caso da associação com o querer só cabe conjugar no presente. Eu quero, eu VOU (tu vais, ele/ela/você vai, nós vamos, vós ides, eles/elas/vocês vão).

Mas há outros verbos que nascem da conjugação do querer que são mais amplos… DAR, por exemplo! Dar é um verbo lindo, e sua lindeza está justamente na conjugação que nós biscas damos (com vontade, com louvor e devoção) a ele. Eu dou no presente, dei no pretérito perfeito, eu dava no pretérito imperfeito (e sigo dando), eu dera no pretérito mais que perfeito e eu darei, muito e cada vez mais, no futuro. \o/

tesão_tumblr_Henrique Brandão

E olha a biscatagi tomando conta do verbo… DAR no imperativo só existe no afirmativo. Dá tu, dê ele e/ou ela — dê você, demos nós, dai vós, deem eles e/ou e vocês. DEEM! Porque é dando, no gerúndio ou não, que se recebe. AMÉM? E o que foi dado no particípio passado sempre pode ser dado de novo. ALELUIA!

E agora vão dar por aí e aguardem a próxima lição. ;-)

Domingo de #SaudadeDoSeuRabo…

“E antes que eu confunda todo mundo, antes que eu confunda o domingo… o domingo com a segunda” 

Ou com a bunda. Ops! Há como confundir domingos com bunda? Ou só confunde com a segunda? Enfim… Domingo, ou o final de semana, esse final de semana, foi de matar a saudade da bunda, digo, do rabo. Era domingo e sábado e será segunda de #BSCSaudadeDoSeuRaboTour2013 Estação Sampa!!! E eu não fui, #mimimi. Mas estou matando a saudade do rabo dxs biscas pelas fotos e pelos relatos. Esses tempos de internet permitem… :-)

domingo

#BSCSaudadeDoSeuRaboTour2013 Estação Sampa — foto oficial ♥

Meu domingo foi meio assim como esse da música do Titãs, só sendo salva — ALELUIA! — por fotos como essa, com o Toni exibindo seu rabo, a Lu o seu sorriso (certeza que exibiu o rabo pra toda Sumpaulo antes ou depois dessa foto, porque ela é dessas) de sempre, o Augusto… bem o Augusto exibindo toda sua figura biscaaaaaaaaaaaaaaa…

E teve a Lis Lemos e a Cláudia Gavenas, que não aparecem nas fotos mas que estavam lá que eu sei. Se não no domingo, estavam no sábado. ;-)

MuitaMuitaMuita #SaudadeDoRaboDeVocêsTudo!

p.s.: Não estou esquecendo da Baby e do outro moço barbudão na mesa, mas é que eles não são desse clubinho — Aliás, POR QUE NÃO SÃO? :O

p.s.2: Sobre as ausências na foto: a Silvia não pode ir por causa do trabalho, a Renata Lins tava com a família, a Renata Lima se descapitalizou por causa de sua missão ‘sãofranciscana’, a Raquel nenhuma companhia aérea permitiu sua saída da Paraíba (#denúncia), a Sara não conseguiu juntar a fome com a vontade de comer e eu deprimi com o tanto de coisa que me impediu de ir…

p.s.3: Por que Charô não foi? hein-hein-hein?

p.s.4: A Iara está reclusa e a gente deixa porque ama ela. ♥

p.s.5: Essa sou eu escrevendo o post do evento que não fui. #MeDeixa

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