Ai, se eu te pego!

Por Xênia Mello*, Biscate Convidada

Atreva-se, ouse e não deixe de biscatear, deixe o medo pra depois. Não o traga nem pra essa que é inevitável, tão presente e que tantos substantivos, pronomes, adjetivos, servem para nomeá-la. Essa que já causou tanto temor e tanta coisa já foi feita por conta dela, que talvez seja a única inafastável verdade. Pra morte eu canto e danço um tango, né Raul?! Se a morte, que não podemos afastar, tantos temem, me pergunto como é produzido esse temor? Onde é que o medo nasce? Me digam que eu ponho saia curta, bonito decote, meia arrastão e um batom bem vermelho e vou lá encarar, porque eu de biscate até o medo comigo vem flertar.

medo

Hoje temos muitas variadas formas do medo. Um medo que não tem uma cara, nem endereço. Quando criança nos amedrontavam com o famoso Homem do Saco, talvez essa seja uma versão curitibana, mas não duvido que em cada cidade haja uma versão parecida. Pois bem, todo pai e toda mãe sabe que não existe Homem do Saco. Passamos a ter medo de algo que não existe, de algo sem rosto. Sobretudo, passamos a ser controlados por ele. Pais e mães controlando os corpos dos filhos e filhas através do medo. Eu lembro de pequena ter apontado para vários velhinhos pois acreditava ter descoberto O Verdadeiro, pra vergonha dos meus pais em se desculparem pela filha que os acusava injustamente, pra minha tristeza que até hoje não peguei o dito cujo.

Atualmente me parece que os tarados do busão e os voyeurs do banheiro são os Homem do Saco, na nossa versão adulta, gente grande. E ai me pergunto, será que a gente cresceu? Por que reproduzimos um medo infantil que ainda nos controla? Por que ainda procuramos esse dito homem que nunca existiu. Crescemos, mas não amadurecemos nem nos desvencilhamos da cultura do medo, do medo do outro, e também do medo de nós mesmos. Tarados, voyeurs, bandidos, homens do saco, estupradores. Não gosto dessa cultura escapista que cria monstros indeterminados. O tarado do busão é pauta destacada nos jornais versões tribunas, o voyeur do banheiro foi muito procurado na universidade, rolou até um ato, mas não foi encontrado. No busão espaços separados, muitas pessoas deixam de usar o  ônibus pois o carro ‘é mais seguro’. Na universidade controle total de quem entra e quem sai, instalam-se câmeras e até um inspetor na porta do banheiro, pra cagar agora é necessário identificação. O Medo, esse sem rosto, sorri! Pois lucra e controla.

Medo2

A foto do estuprador na capa do jornal, grande, destacada, amedrontadora. Agora o monstro tem um rosto, agora posso descrever O Medo: pobre, negro, ninguém, não tem advogado, não tem dignidade, não tem defesa. Podem os jornalistas expor e explorar a ultima gota do seu sangue, ele é monstro, ele não é humano. Porque enquanto o sensacionalismo lucra com O Medo, o monstro continua sendo a carne mais barata do mercado.  A cultura do medo determina que a todo momento estamos em estado de perigo. Não relaxe, tenha medo, esse é o imperativo! Sim, O Medo, continua controlando nossos corpos, como já fazia desde que eu era criança, ali nos anos oitenta, mas acredito que de muitos séculos prá cá. Essa cultura de criar o outro, o mostro, o desconhecido só favorece que tenhamos receio daquilo que não conhecemos. Quando na realidade o outro poderia ser um convite à ousadia, à biscatagi. Acredito que o perigo está quando o outro me causa medo, quando deveria me causar interesse, curiosidade. Porque ai eu sou controlada, o terror é instaurado, um pouco de mim em vida morre, um pouco do outro eu mato em vida. Eu desumanizo e me desumanizo.

Essa cultura de reforçar O Medo, de criar o outro, o desconhecido, não liberta, não afasta a violência. Sim mulheres são cotidianamente violentadas, abusadas, mortas, agredidas. Denunciar o medo, ou melhor murar o medo não é negar a violência. Em regra a violência contra a mulher é perpetrada pelas pessoas que mais amamos, pais, irmãos, amigos, namorados. Se queremos combater a violência, devemos combater as ameaças reais e urgentes como a cultura do estupro, a vitimização compulsória das mulheresa culpabilização da vítima. Se queremos mudança não podemos reforçar ainda mais essa cultura controladora que nos assola desde a infância. Devemos nos indignar, ocupar a cidade, as ruas, denunciar e não propagar, propagandear O Medo.

E pra não dizer que eu esqueci do poetinha, com carinho a gente canta: Atravesse a vida sem medo!

Eu não quero o medo. Eu só quero saber daqui que me liberta!

.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Poesia e Rap contra a menoridade penal

Por Antonio Miotto*, Biscate Convidado

maioridade_1

Volta e meia a discussão da redução da maioridade penal aparece como a solução para a violência. Mais do que uma solução mágica que não existe, essa discussão traz em si o preconceito social e o racismo estruturais da nossa sociedade embutidos. Recomendamos um excelente texto publicado ano passado no Blogueiras Feministas. Lá, diz a jornalista Cecilia Olliveira:

De 60 milhões de crianças e adolescentes, 60 mil cometem algum tipo de delito, que pode ser desde um furto de um vidro de xampu a um homicídio. Ou seja: 0,1%! O maior número de crimes cometidos é em relação ao patrimônio. No país há NO TOTAL, 1600 homicidas.
Redução da maioridade penal não faz nenhum sentido. É apenas mais uma vertente do “vamos tirar o sofá da sala”. Em média, para cada dez mil adolescentes, entre 12 e 17 anos, há 8,8 cumprindo medida de privação e restrição de liberdade, o que representa 0,09% deste universo. Ou seja, 0,9% do total de adolescentes do país comete delitos e as pessoas querem alterar a vida de 99,1% deles.

Até o ministro da Justiça reconhece que não é solução. José Eduardo Cardozo disse nessa segunda-feira passada, 13 de maio, que reduzir a maioridade penal é “inconstitucional” e só poderia ser feito com uma nova Constituição. Disse ainda que somente mudar a lei “não resolve” o problema de segurança pública e apenas “maquia” a realidade.

E já que a discussão é cíclica e sentimos os Direitos Humanos e garantias individuais em risco nesse momento no país, se iniciou um movimento social para combater a ideia da redução da maioridade penal. Uma campanha está rolando há quase um mês para que rappers e poetas/poetisas gravem vídeos com rap ou rima de protesto sobre o tema. A essa campanha se somaram poetisas e rappers mulheres.

Carol Peixoto, poetiza de rua -- Foto Antonio Miotto

Carol Peixoto, poetiza de rua — Foto Antonio Miotto

Tati Botelho cantando seu rap -- Foto Antonio Miotto

Tati Botelho cantando seu rap — Foto Antonio Miotto

Rap da Luisa Valente:

Rap da Lurdes da Luz:

Rap da Tati Botelho:

E a poesia da Carol Peixoto:

Se você sabe fazer rap e ficou interessado em dar sua contribuição, faça sua rima. Os vídeos podem ser gravados com webcam ou celular, à capela — a ideia é focar na mensagem — e enviar para o email contramaioridadepenal@gmail.com

Redução da maioridade penal é assunto hoje também no Blogueiras Negras. Vai lá conferir o excelente texto da historiadora Letícia Maria, ela até “desenha” e apresenta uma lista de dez motivos para sermos contra a menoridade penal.

.

Toni*Antonio Miotto (Toni) é um paulistano que há 47 anos transita quase que por toda a cidade, historiador por formação, e abraçado profissionalmente a uma lente como giz. Um atento observador social caminhando e pedalando na megacidade com uma câmera na mão, que acredita na integração do sujeito com o seu contexto social.

Liberdade para não morrer

Já estamos em clima da Marcha das Vadias no Brasil (clique nas siglas para ver a página de cada Marcha: RJBSBBH – SP – indiquem as que não achei, que vou acrescentando). Em Quito já rolou a Marcha das Putas e eu achei tão mais bacana esse nome… :P

E por que a Marcha das Vadias é necessária? Por que além dos desafios do feminismo não estarem superados ou vencidos (como disse no meu último post — sim, esse é uma continuidade daquele), o machismo é estrutural e estruturante dessa sociedade em que vivemos e sustentamos (e sustentamos inclusive o machismo, não se iludam) e sua face mais perversa é a violência sexista, que inibe, obstrui, marca, mata e nos impede de viver livremente.

Avançamos muito, é verdade. Mas, nenhum avanço foi de graça ou veio desacompanhado de dor e da perda de muitas mulheres. Ou seja, o caminho da luta pela libertação das mulheres é ladrilhado pela vida de muitas de nós. Então, muito-muito-muito respeito e cuidado ao se referir, lidar ou andar nesse caminho. E esse recado vale para  a presidenta Dilma Rousseff e para a secretaria de Políticas para as Mulheres Eleonora Menicucci. Não basta ser mulher e estar num cargo de poder, tem que usar esse cargo e todos os recursos possíveis e oferecê-los às mulheres para que possam usá-los na luta contra sua opressão. Ou de nada adianta essas mulheres ocuparem esses cargos.

E por que citei Dilma e Eleonora? Porque o governo Dilma usou menos de 30% das verbas previstas no orçamento para o combate à violência contra a mulher nos anos de 2011 e 2012. Dá vontade de chorar, sabe? Porque essa decisão, burocrática, administrativa, de não comprometer o orçamento previsto condena milhares de mulheres à morte e à tortura. Todas nós que já brigamos por políticas públicas e sempre esbarramos nas desculpas “não tem orçamento para isso” sabemos que ter esse orçamento destinado a combater violência consumiu anos de luta feminista e essa conquista está sendo jogada no lixo.

Não estamos falando de possibilidades. Mulheres morrem por falta de políticas públicas efetivas de combate à violência. Então, além da Marcha das Vadias fazerem sua tradicional reivindicação pela liberdade e o direito de ir e vir vestidas como bem quiserem sem sofrer violência, faço um apelo para que incluam essa pauta.

Para que liberdade? Para não morrer.

Liberdade para não morrer. Coisa de mulher, nesse mundo, no Brasil do séc. 21.

Até que todas sejamos livres!

feminismo-te-quiero-libre

Na véspera do 8 de Março deste ano, o site do Instituto Humanitas Unisinos publicou uma entrevista com aquela que sempre foi minha maior referência teórica do feminismo — desculpem-me se decepciono; mas, sim, uma feminista brasileira –, Rose Marie Muraro. Referência não só porque a linha feminista defendida por Rose tem o recorte de classe — indissociável, na minha opinião –, mas pela contextualização histórica. Ela sempre se deu ao trabalho de buscar a referência e a construção histórica da nossa condição de opressão, e nem preciso dizer o quanto isso é fundamental. Para combater a opressão é preciso saber como chegamos a essa condição e reconhecer nosso papel e lugar dentro dela. E a Rose sempre fez isso, e numa linguagem tão acessível… (o tempo em que trabalhou com Dom Helder Câmara e com a Teologia da Libertação devem ter ajudado muito nesse sentido)

RoseMarieMuraro

Rose sempre foi uma entusiasta das ações sociais dos governos do PT. Segundo ela, e muitos outros, tirar pessoas da miséria representa tirar mulheres da miséria, empoderá-las. E, de fato, os governos do PT fizeram isso. A questão é que afora isso não se avançou quase nada em termos de políticas públicas para as mulheres. A Lei Maria da Penha não foi iniciativa do executivo e delas (iniciativas do executivo) as notícias sempre foram ruins na questão de gênero. Tivemos o retrocesso na discussão sobre aborto, a partir da chantagem feita em conjunto pela grande imprensa e bancada “pró-vida” desde a campanha que elegeu Dilma Rousseff e que nos garantem que o SUS não oferecerá as condições necessárias para os procedimentos nos casos já previstos em lei — sendo que podemos ter retrocesso na lei. Temos a ameaça do maldito Estatuto do Nascituro, (e contando com a postura de refém desse governo diante da bancada pró-vida) que se aprovado, será sancionado. E ainda tivemos o absurdo do tal cadastro de grávidas ou bolsa-chocadeira (MP 557) que visava — não tenho dúvidas — o controle sobre as mulheres pobres que abortam.

Em dezembro passado estive na audiência da CPMI (investigação conjunta do Senado e Câmara Federal) da Violência Contra a Mulher em sua passagem pelo Rio de Janeiro. Os depoimentos e relatos me calaram. Eu que tanto me orgulho de já ter mais de 20 anos de luta feminista senti vergonha. Vergonha do meu ativismo feminista – em conjunto com o ativismo de outras feministas – não ter conseguido mudar um milímetro sequer a situação da mulher brasileira ante ao machismo em sua face mais cruel, a violência. Estava previsto que o relatório final seria votado no final de março deste ano. Continuo aguardando os dados coletados pela CPMI.

E ainda tem os salários desiguais, a presença ainda acanhada de mulheres em cargos de direção — seja na administração pública ou privada –, a violência e falta de assistência no parto, as políticas criminosas de controle da natalidade, o racismo, a lesbofobia, a transfobia e mais uma infinidade de “detalhes” que tornam o ser mulher neste e em qualquer outro país um desafio permanente. Diante desse quadro, nada favorável, concluiu Rose Marie Muraro:

“Sobre os desafios do feminismo, estão todos vencidos. Hoje nós já conseguimos tirar a miséria do Brasil. Esse é o principal desafio para o feminismo. Não é um desafio masculino, é um desafio da mulher.”

(leia aqui a entrevista na íntegra)

Desde que li essa entrevista nunca mais fui a mesma. A decepção e desolação com essa entrevista equivale a saber – em hipótese – que Marx antes de morrer tivesse se tornando detentor de um meio de produção e explorasse trabalhadores. Meu mundo caiu, junto com as tranças, os butiá do bolso e o cu da bunda. Rose pode estar muito empolgada com o “sucesso” dos programas sociais dos governos do PT e parece que esqueceu de analisar os números e índices da violência contra a mulher.

Se vivemos dias obscuros na luta pelos Direitos Humanos no Brasil, não se enganem: as mulheres é que sofrem mais com isso. É a violência contra nós que é naturalizada, introjetada. Ao ponto de ninguém estranhar que durante o julgamento dos assassinos de Eliza Samudio o registro seja sempre, invariavelmente, “o julgamento dos assassinos da amante do goleiro Bruno”: no título dela o julgamento e a condenação moral e a culpa (inclusive por sua morte), no título dele a profissão honrada. Ao ponto de ninguém estranhar a “pergunta” sobre o que uma “mocinha” estaria fazendo de madrugada na Lapa quando foi vítima de um estupro coletivo. Ao ponto de ninguém estranhar e até concordar com os comentários maldosos de Gerald Thomas sobre a roupa curta e o comportamento de Nicole Bahls ao tentar justificar sua agressão a ela: “uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PÂNICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido! (que nada! Brincadeira também!)”. E sobre esse comentário ridículo a Renata Lins já disse tudo o que eu gostaria de dizer.

A Índia é aqui, em Cuba, no Japão, na Rússia, nos EUA, na Etiópia, no Afeganistão ou no México. Não há lugar no mundo em que as mulheres estejam a salvo do machismo e da cultura do estupro e da culpabilização da vítima pela violência sofrida e do moralismo barato e da hipocrisia.

não sou da Marcha Mundial de Mulheres, mas estou pegando seu slogan emprestado

não sou da Marcha Mundial de Mulheres, mas estou pegando seu slogan emprestado porque só serei livre quando todas as mulheres forem livres, e até lá seguirei lutando

Por tudo isso, dona Rose Marie Muraro (aquele momento de audácia em que ouso discordar daquela que até aqui era minha maior referência teórica no feminismo — sou dessas!), o feminismo não está superado e nem seus desafios foram vencidos. Se hoje há programas sociais que tiraram muitos brasileiros – e entre eles a maioria de mulheres – da miséria isso não quer dizer avanço ou libertação da opressão de gênero e muito menos fim da desigualdade social ou da violência.

O feminismo só estará superado e seus desafios vencidos quando todas as mulheres forem livres. #prontofalei

.

*Escrevi um artigo menor, mas com o mesmo mote, para o Jornalismo B impresso, que deverá sair essa semana. ;-)

Vida Dura de Biscate…

Quem define biscate – vadia – puta (não vou usar o vagabunda de propósito) como mulher de vida fácil não faz ideia do trabalho que é bancar esse título-posto nesse mundo machista e capitalista em que vivemos. E nem precisa ser, basta parecer para ter que sustentar e botar banca.

De verdade, nunca me importei com os títulos que me davam, só com os que assumia por livre e espontânea vontade. Nessa vibe, aos 16 anos ouvi da minha mãe que os comentários a meu respeito na feira era que não conseguiria um bom casamento. E eu pensava cá com meus botões: Oba! Nunca quis casar e um bom casamento para minha mãe era um homem trabalhador, não precisava ser culto ou estudado, que sustentasse a mim e aos filhos que teríamos sem que eu precisasse trabalhar. Não é um sonho dourado? Só que não, né? Por favor…

Fato é que acostumei a bancar, fosse o que fosse: preconceito, títulos, julgamentos… Só que um dia isso tudo pesou de uma forma decisiva. Foi quando tomei uma decisão tão controversa que meus amigos da vida toda — com exceção da Fernanda, comadre e melhor amiga pra todo o sempre — não se seguraram e apontaram seus dedinhos na minha direção. A sorte — não do dia, nem do mês, nem da década — da vida? É que ao mesmo tempo em que perdia esses amigos, outros amigos surgiram. Não amigos maiores e nem melhores, AMIGOS! LINDOS! AMADOS! Gente-tri-humana, saca? Gente que me acolheu no coração e na casa e que em nenhum momento me julgou.

Mas… Eu me julgava. Não foi fácil deixar meu dino-filhote para trás. A dor e a culpa me consumiam… E por mais que conscientemente eu soubesse que estava fazendo o que deveria, não bastava. Falhar como mãe, sendo biscate, tem assim peso duplo. Sabe comé?

Já vi as demais biscates usando a expressão “mãe de cesárea”. Pois, é. Não é o caso. O parto do dino-filhote foi normal. Normal não, natural. Porque não é normal passar a cabeça de uma criança por um lugar onde “normalmente” só entram coisas pequenas (a piada é péssima, eu sei, as não resisti). E não me sinto mãe de cesárea. Tenho uma ligação muito forte com meu dino e acho que fui muito além do que poderia ir como mãe.

Há coisas das quais não me orgulho, é fato. Mas não me sinto diminuída. E agora que meu dino está de novo debaixo da minha asa, me sinto bem mais segura para sustentar minhas bandeiras, títulos e famas.

Estou botando banca, sim, e sustentando essa banca. Vai encarar?

photo (1)

Dinossauros reunidos

Paixonites esquizofrênicas

Ou, o amor nos tempos da bipolaridade.

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

paixonite

Eu desperto e o seu cheiro ainda está em mim. Não me incomodam os seus pêlos que em carícias sorrateiras vêm parar na minha boca.  Esses me engasgam, eu cuspo e rio depois. O que me incomoda é a sua ausência. É passar o dia todo com você em mim. Quem sabe não furo uma veia, abro ainda mais um poro, invento algum outro orifício pra ver se você me ausenta sem dor. Ou racho a minha cabeça pra ver se escoam essas lembranças inúteis. Não sei pra quê as guardo. Da mesma forma como ainda não sei porquê eu nunca te disse eu te amo. Talvez puro receio disto não ser recíproco. E certamente não será. Mas estou com vontade de dizer. E aí, você aguenta? Esquenta, meu bem, pois o cobertor, é curto, bem curtinho, então vem logo. Sabe por que? Amanhã eu mudo de idéia. E te odiarei, teu time, teus pêlos, teu jeito desastrado.  Só posso ser feita de matéria abjeta e suja, porque até hoje não ouvi de você, espontaneamente, nem um mísero e vago “eu te adoro”. Eu, justamente eu, que me arranhei, me sangrei, aprendi a cozinhar na panela de pressão, a entender o que era um impedimento, a ver o jogador Fred para além da sua beleza e prestar atenção para um voleio (!). Você, verme miserável, que sai plácido e cinicamente da minha cama quase todas as manhãs não merece mais do que meu mortal desprezo. Nunca mais vou tencionar dizer eu te amo. Te odeio e tenho fome de ti. A louca de sentimentos imprevisíveis, que à distância se reconhece bipolar, só quer um abrigo no espaço de teus braços. Um carinho, somente. A palavra dita na hora certa. A coisa feita na hora certa. E não pense que estou falando das vezes que você me convidou pra comer sushi e eu aceitava com os olhos brilhando. Não, não me vendo por comida. Ok, só algumas vezes. Mas naquele dia foi sacanagem, vinho argentino e salmão com molho de maracujá, porque você precisava ser tão baixo??? Era só ter trazido mais uns cinco sashimis que eu te declararia amor eterno. E você, em contrapartida, o que você sabe do meu mundo? Sabe o que eu pesquiso? Sabe que eu choro ao ler Neruda? Que fico paralisada e arrasada depois de ver um filme de Bergman? Que meu sonho é viajar pro Chile e pra Cuba? Que meu desejo mais íntimo é ser só mais uma na multidão, confundida com toda essa gente? Mas você só sabe falar mal dos meus vestidos compridos. Esses mesmos vestidos que são elogiados no meio acadêmico e de trabalho, esses vestidos que você condena porque não são curtos, coladinhos e chamativos, como você queria. É querido, você namora com um bicho-grilo (que não vai mudar o seu visual). E eu, com um caretão tardio que quer tão somente uma menina transadinha e na moda, maquiada e escovada, toda trabalhada no previsível gênero inteligível (só Butler pra me salvar!). Juro que vou ficar apenas pra ver quem ganha essa queda de braço, eu, a sua outsider preferida.

Beijos, te cuida…

Peraí, vc sabe o que é uma outsider?

.

jeane melo*Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

O jogo político

jogo político

Mesmo o mais alienado dos cidadãos desse país percebe que vivemos momentos turvos e complexos no que se refere a direitos humanos e liberdades, coletivas ou individuais. Não é pior ou igual ao período da ditadura militar. Óbvio que não. Toda a luta da esquerda até aqui impulsionou — não tenho dúvida ou medo de atribuir isso à esquerda — melhorias na qualidade de vida para os mais pobres, desde a diminuição da taxa de mortalidade infantil e jornada de trabalho até o acesso a serviços públicos. Mas está longe, muito longe, de podermos relaxar, sob qualquer aspecto.

Apesar da propalada democracia, temos um Estado altamente repressor e coercitivo. Não há uma única manifestação nesse país, além das religiosas (e talvez isso não seja apenas coincidência), que não seja reprimida. Sempre as mesmas cenas: polícia batendo, jogando gás de pimenta, um aparato sempre desproporcional ao tamanho da manifestação e a “criação” do clima do terror, com policiais à paisana em meio aos manifestantes fazendo fotos, helicópteros sobrevoando, armas sendo exibidas, provocações, policiais sem identificação na farda. Não é de hoje que denunciamos. Não é de hoje que observamos.

Sempre que há uma “direitização” na política fica a impressão de um perigo iminente oferecido pela esquerda — ou pelo menos é isso que sempre tentam nos fazer acreditar. Foi essa a justificativa para o golpe militar de 1964: “o perigo comunista”. Reforçavam os golpistas e seus apoiadores o boato que os comunistas eram capazes de atrocidades e “nossos salvadores da pátria”, “honrados”, nos livraram dos “terroristas comedores de criançinhas” COMETENDO ATROCIDADES. Mas como isso ficou nos porões e os porões foram fechados, o boato ainda persiste.

Não estou dizendo que a esquerda é santa e boazinha. Eu faço parte da esquerda que nasceu criticando as atrocidades do chamado socialismo real (experiências socialistas que foram endurecendo e cerceando a liberdade e se burocratizando e, por consequência, se perdendo, deixando de serem socialistas). Somos todos humanos, vivemos numa sociedade estruturada sobre preconceitos e a cultura da violência. Sempre lembro que o único animal capaz de articular, planejar, elaborar e executar a maldade é o ser humano. Mas também que a única chance de nós, humanos, termos uma vida com o mínimo de justiça e paz é num sistema que tenha o humano como parâmetro, e não o dinheiro ou coisas.

“O liberalismo pensa estar defendendo o indivíduo quando nega a primazia do social, ou diz que uma sociedade é apenas um conjunto de ambições autônomas. O culto ao individualismo seria um culto à liberdade se não elegesse como seu paradigma supremo a liberdade de lucrar, e como referência moral a moral do mercado. Se não fosse apenas a última das muitas tentativas de substituir o Ser Humano como a medida de tudo, e seu direito à vida e à dignidade como o único direito a ser cultuado. Já tentaram rebaixar o homem a mero servo de uma ordem divina, a autômato descartável de engrenagens industriais, a estatística sem identidade de regimes totalitários, e agora a uma comodidade entre outras comodidades, com nenhuma liberdade para escolher seu destino individual e o mundo em que quer viver. Mas o indivíduo só é realmente um indivíduo numa sociedade igualitária, como só existirá liberdade real onde os valores neoliberais não prevalecerem.” — Luis Fernando Veríssimo, trecho de O Parâmetro Humano (crônica publicada em Zero Hora ao final dos cinco dias do primeiro Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001, em Porto Alegre-RS).

O golpe militar não foi para conter a ameaça comunista ou para manter a ordem. Ele fez parte de uma articulação internacional que beneficiou os EUA na dita guerra fria. Nós éramos/somos o quintal estadunidense. Não acredite em mim, assista a essa entrevista do professor Enrique Serra Padrós falando sobre a América Latina, com foco na Doutrina de Segurança Nacional e Operação Condor nos vídeos 1, 2, 3 e 4. Ou seja, não estamos falando de política como discussão/decisão coletiva sobre a vida das pessoas, mas sobre interesses políticos que geram lucro e poder. As pessoas no meio disso? Danem-se! Aí, sim, os comunistas (na verdade qualquer um que ousasse questionar o processo) viraram ameaça. Não era só a luta quase ingênua e romântica contra a truculência e por liberdade. Era a percepção de todo esse processo e a organização (mesmo que sujeita a cometer erros) para tentar de alguma forma barrá-lo.

Se com liberdade de expressão e organização é difícil explicar isso para as pessoas — uma vez que no pouco e raso de educação que temos não privilegiamos a formação de cidadãos, porque ao capital interessa formar mão de obra obediente –, imaginem sem!

Não é que a luta por Direitos Humanos seja maior ou menor que qualquer luta. É que não deveríamos lutar por direitos humanos. A vida deveria ter valor universal em qualquer sociedade, e o zelo por sua manutenção obrigação de qualquer Estado e ideologia. As disputas e discussões políticas deveriam se dar a partir dessa garantia.

Os sinais do processo de direitização que estamos vivendo são evidentes. O que já era ruim em termos de direitos humanos, só faz piorar. Há uma ameaça comunista? Queria que houvesse, mas não. Há sim, interesses maiores em bens públicos nacionais. Enquanto nos debatemos contra pastores evangélicos que decidiram se aventurar na política para aumentarem seu poder e lucros pessoais e que refletem e evidenciam todos os preconceitos estruturais dessa sociedade, grupos muito mais organizados que a dita bancada evangélica aumentam a passos largos o seu poder de influência em todos os poderes (executivo, legislativo e judiciário) da República. O moralismo religioso é apenas cortina de fumaça para esconder um jogo de interesses bem maior. Tal e qual durante a ditadura.

Ameaçar direitos humanos conquistados nada mais é do que nos desviar de outra luta para voltar atrás numa luta já vencida. A isso se chama estratégia. Talvez no nosso caso seja um chacoalhão para acordar todo mundo que estava parado, alheio a banda que estava passando. O que me parece é que a banda estava passando descarada demais, alegórica demais, e antes que alguém mais percebesse…

O que temos a ver com isso? Eu, tu, o BiscateSC? Somos a moeda de troco/troca na barganha do jogo político. É a nossa vida, nossos direitos que são rifados nas negociações da macro-política. Se negar a pensar sobre política é abrir mão do direito de pensar e decidir sobre nossas vidas. Não adianta se reafirmar biscate com orgulho se permitirmos que as decisões políticas que definem nossas vidas sejam tomadas por moralistas retrógrados.

Minha parte exilada

Abafada, contida, quase perdida nessa cidade que não é minha e é partida. Claro que dentro da cidade estou no mesmo lugar em que sempre estive. Na parte que é minha, no lugar reservado pra mim nesse mundo. Sei o meu lugar, sei de que lado estou em qualquer partilha de cidade ou mundo, mas está longe de ser confortável ou bom. Me saber não quer dizer estar bem ou aceitar. E sou ‘revolts’, vocês sabem. É… exilada.

Na parte da cidade que não é minha, a parte é familiar na simplicidade das gentes, gostos, jeito, gestos, cheiros. Mas falta clima, temperatura, sotaque, tempero… Está faltando o encantamento, o lúdico, aquela coisinha que mesmo nos momentos difíceis te fazem sorrir e seguir caminhando.

Ser estrangeira numa cidade de beleza tão anunciada em prosa, verso e vendida em publicidade e não se sentir confortável não é fácil. Nem é fácil se fazer entender quando digo que meu lugar é mais bonito que aqui. Será só a sensação de despertencimento, de exílio?

Cidade de biscatagem solta e anunciada, de malemolência cosmopolita, me faz biscatear menos. Será o exílio? Estou ambientada. Me obriguei a me ambientar para sofrer menos. “Escolhi” ficar, para poder escolher melhor depois. Para voltar a ser eu, revolts, biscate… satolepiana.

Podia ao menos chover um pouco para me fazer sentir melhor… Mas, não.

ridijanêro

deve ser até pecado sentir esse gosto de exílio numa cidade dessas… mas, é assim que é

Rôr-re, mi amor… ♥

Faz tempo que uso esse espaço para declarar meus amores, e vou fazer isso mais uma vez… :P

Não tive tempo de ler o post da Karla (nossa biscate convidada dessa semana) ontem, mas li hoje cedo no ônibus a caminho do trabalho, enquanto brigava com o sono. Post lindo por sinal, declaração de amor próprio biscate. Esse sentimento já existia, óbvio. Mas temos o dom, neste espaço, de renomear e ressignificar coisas, cores, sentimentos, lugares, e trazê-los à luz. Essa coisa de ser e de estar no mundo. Amo muito tudo isso, mas não é (só) esse amor que quero declarar.

jorge drexler barbudão

Essa relação que a Karla fez de dar e receber me lembrou desse amor, que estremece meu peito e pernas toda vez que ouço a música desse (docinho) uruguaio que me foi apresentado por ninguém menos que Vitor Ramil, numa entrevista generosa que Vitor me concedeu por telefone em Pelotas, em novembro de 2004. (p.s.: infelizmente a entrevista só existe impressa e ninguém me fez o favor ainda de escanear ou fotografar). Lembro que quando Vitor falou seu nome, Jorge Drexler, pronunciado em espanhol fica Rôr-re Drexler, tive que perguntar novamente e ele precisou soletrar para mim. Era a primeira de muitas vezes que ouviria e falaria dele… E me derreteria.

JorgeDrexler-8Quanto mais ouço e conheço Drexler mais me apaixono. Meus neurônios, hormônios, moléculas vibram com a música dele. Traduzindo: ele mexe com minha libido. Entro numa vibe de alegria quando o escuto, fico alheia às demandas e sentimentos diários. Fica tudo lindo, num tom azulado, brilhante… É minha ‘dorga’!

E tem uma música dele em especial, que poderia ser um hino da biscatagem e que traduz em notas musicais esse texto da Karla. E vou deixar aqui letra e música. Ah, assistir o Rôr-re cantando  nesse vídeo é pura biscatagi…

Todo Se Transforma

Tu beso se hizo calor,
Luego el calor, movimiento,
Luego gota de sudor
Que se hizo vapor, luego viento
Que en un rincón de La Rioja
Movió el aspa de un molino
Mientras se pisaba el vino
Que bebió tu boca roja.
.
Tu boca roja en la mía,
La copa que gira en mi mano,
Y mientras el vino caía
Supe que de algún lejano
Rincón de otra galaxia,
El amor que me darías,
Transformado, volvería
Un día a darte las gracias.
.
Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.
.
El vino que pagué yo,
Con aquel euro italiano
Que había estado en un vagón
Antes de estar en mi mano,
Y antes de eso en Torino,
Y antes de Torino, en Prato,
Donde hicieron mi zapato
Sobre el que caería el vino.
.
Zapato que en unas horas
Buscaré bajo tu cama
Con las luces de la aurora,
Junto a tus sandalias planas
Que compraste aquella vez
En Salvador de Bahía,
Donde a otro diste el amor
Que hoy yo te devolvería
.
Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.

Nada se perde na música de Drexler e ela se transforma em alegria para mim. ♥

Quer conhecer melhor o Rôr-re? Aqui um vídeo onde ele mesmo explica um aplicativo criado para interagir com seu público. Seu Site, e seus canais oficiais: Facebook, Twitter e Youtube.

Está liberado suspirar. Seria inútil proibir… É inevitável.

Inventário de uma alma rebelde

#Alma Biscate
Por Niara de Oliveira

recorte d'eu, pela lente generosa de um amigo

recorte d’eu, pela lente generosa de um amigo

Por ter colocado o Biscate SC no ar há um ano, poderia, ao escrever sobre minha alma biscate, fazer uma espécie de inventário ou histórico do blog. Cometeria uma indelicadeza ímpar com a Lu e com todxs xs biscas que ajudam a manter essa bagaça diariamente. Mas, não só por isso. Não quero fazer inventário. Pelo menos não do blog. Quero falar de como me sinto quando sento ao computador para escrever aqui. Vou tentar, então, fazer inventário da minha alma biscate, de como sou neste espaço.

Começo dizendo que fiquei toda comovida quando xs biscas escreventes do BSC, ao escolherem um texto de outrx bisca numa espécie de mandala ou amigo-bisca-secreto, escolheram cada um/a um texto meu. Gostei de todos os textos que escrevi aqui, principalmente os que são misturas doidas, confissões e que falam de cinema. Mas apenas o Fernando, bisca convidadx, citou um dos meus queridinhos — estrelinha pra ele! Mas, não vou fazer apenas uma colcha de retalhos citando os posts. Vou justificar a motivação para escrevê-los, porque acho que é aqui que está a minha alma biscate, na motivação, no que empolga, move.

Tiveram textos movidos pela raiva e pela indignação, que foram os mais fáceis de escrever. É como se o que faz a cabeça esquentar e o sangue ferver escorresse pelas veias até a ponta dos dedos. O texto simplesmente flui. Sempre fui adepta das discurseiras, do dedo em riste, do peito estufado de razão. Foi-se a época em que subia no banco para me fazer ouvir melhor, e hoje me restam apenas as redes sociais e os blogues. Rá!

Os textos movidos pela admiração e prazer são os que envolvem, adivinhem..? Po-lí-ti-ca! É fácil escrever sobre política, embora eu fique cheia de #mimimi se vou cometer algum deslize (e eu sempre os cometo). Porque política é isso, erro e acerto, na mesma medida. Nem sempre um, nem sempre o outro, é aprendizado, negociação, mediação e, principalmente, construção. Não existem verdades a serem ditas, mas debate a ser feito (não esqueça de ler os comentários). E como eu gosto disso tudo! Me deleito e me lambuzo toda, como na humilde homenagem a minha musa biscate Pagu, que deu trabalho mas deu muito prazer também.

E quando misturei política com biscatagi não foi nada, porque teve texto que escrevi pura e simplesmente para biscatear. Usei mesmo o espaço para mandar recados, e eles foram recebidos (teve até comentário para comprovar)… Mas, claro que esses eu não vou linkar, até porque estão misturados com as tantas receitas que postei, e das receitas a minha preferida é uma que mistura comida com indignação e o debate sobre valores construídos, e porque além de fazer a receita beuba, eu escrevi o texto beuba, e embriagada estava no encontro lindo com a Lu e na primeira reunião da gerência da biscatagi e naqueles dias de outono em que tudo foi celebração. Teve celebração em outros encontros com a biscatagi escrevente e com a biscatagi da vida, e que tinha até cantada (brega, claro) e que não teve um comentariozinho sequer… #chatiada

Teve texto sobre moda misturado com receita, texto sobre política misturada com gramática, texto sobre outras lutas, paixão pelo futebol, teve receita safada e até gramática biscate…Tiveram os textos escritos a quatro mãos em parceria com a Lu. Três deles foram especiais: Estupro não é sexo (biscatagi séria, porque a violência de gênero é ampla e democrática e é preciso combatê-la SEMPRE), Pingos nos Is, ou o que é ser biscate (serviu para comemorar nosso primeiro mesversário), e o post mais divertido ever de escrever… “Você escolheu errado o seu super-herói” (basta ler para ouvir nossas gargalhadas). Teve texto dolorido também. Em que o debate não foi exatamente fraterno e eu me senti muito sozinha e foi difícil não responder na medida em que sentia atacada. C’est la vie!..

Teve coisa à beça. E sinto que ainda falta muito. Muito do meu ser biscate, das gargalhadas que dou ou da raiva que passo enquanto estou escrevendo e que não consigo colocar em letrinhas no texto, das minhas lutas e indignações tantas… Ainda terá muito de mim por aqui.

Estou/tamos apenas começando. :P

e se alma biscate tivesse música, essa seria a partitura...

e se alma biscate tivesse música, essa seria a partitura…

~~*~~*~~*~~*~~*~~*~~*~~*~~*~~*~~*~~

EM TEMPO: Aproveitando… Vou escolher agora os textos dxs outros biscates escreventes que mais gostei, um de cada.

Luciana — Não Tem Graça (não tem mesmo, e a Lu desenhou direitinho)

Renata Lima — Biscate Absoluta (para jogar no chão os preconceitos todos)

Cláudia Gavenas — De você para você mesma (porque perde-se o pudor a partir de si)

Silvia Badim — Yes, nós temos barriga! (aceitação é tudo para auto-estima)

Renata Lins — O monstro de olhos verdes (aceitar as contradições é o primeiro passo)

Augusto Mozzein — Antibiscatista (sobre recalques… nossa antítese?)

Raquel Stanick — Tá combinado! (dose homeopática de noção)

Lis Lemos — A escolha de Ana (pingo no i)

Bete Davis — As regrinhas ou você não é o síndico (dose cavalar de noção)

Sara Joker — Só fico com quem eu quero! (uma tonelada de noção)

E repito o trecho que escrevi sobre o texto preferido de biscate convidadx, que serviu como homenagem e agradecimento pela belíssima participação de todxs… Porque amo de verdade esse post e ele é o meu preferido entre todos os textos do BSC:

Nesse um ano de BiscateSC foram muitos os textos que gostei de ler e escrever. O BiscateSC pra mim, para além do trabalho que dá co-gerenciá-lo, é só prazer. Entre os textos dxs biscates convidadxs, dentre os quais tenho que escolher APENAS UM, também foram muitos que se encaixaram na série “os textos que gostaria de ter escrito”. Mas teve um em especial que me ganhou desde o primeiro parágrafo. Quando o terminei de ler, sabia que ficaria para sempre entre os meus favoritos. Não só porque traduz o BiscateSC — o que somos e queremos e o que não somos e o que não queremos –, mas porque aponta para o surgimento da opressão e do machismo nas nossas vidas. Mais do que isso, ele é uma ode à rebelião contra a opressão, de forma prática, concreta. Quer saber como ser uma Mocinha de Valor? Ou melhor, quer saber como NÃO SER uma Mocinha de Valor? A linda da Renata Corrêa ensina de forma clara, direta e objetiva.

Amo vocês tudo, biscas! ♥

Sambando e estripando…

Niemeyer morreu. Madonna no Brasil, de novo. Periguetes em alta. Dedos em riste… Não, pera… Que diabos tudo isso tem em comum? Vou explicar por partes, como faria Jack.

Tripa 1 – Niemeyer morreu. O cara tinha 104 anos, se dizia comunista, ateu, falava umas coisas bacanas sobre liberdade, oportunidades e sonhar, e trabalhou até praticamente o último instante de vida. Amava o que fazia. Críticas? Muitas. Tinha paixão pelo concreto e desconhecia o que era ecossiocialismo (para saber mais). Para dar visibilidade às suas obras era capaz de mandar destruir lugares onde a natureza foi muito generosa, como o local do Museu de Arte Contemporânea em Niterói que, como disse o Chico Capeta, é “o melhor mirante do Rio do Janeiro”. Era assumidamente stalinista (sinto arrepios só de pensar que alguém pode escolher ser stalinista, escolher simpatizar com essa corrente), mas era inegavelmente um GÊNIO da arquitetura, de traço incomparável, respeitado e ovacionado no mundo inteiro (e só a besta do Reinaldo Azevedo para não reconhecer isso). A morte de alguém muito grande como Niemeyer provoca reações díspares, como díspares são as pessoas. Há aquela velha corrente da santificação, insuflada pela grande imprensa que tenta lucrar com audiência através dos feitos do morto e tentando apresentar a melhor cobertura do funeral ou o melhor portifólio da obra. Mais recentemente surgiu a corrente da demonização, que tentando ir na direção contrária da santificação acaba sendo muito deselegante e rude com quem acabou de partir. Porra, será que não dá para ter um pouco de respeito nem na hora da morte da criatura? Dá, sim. E acho que respeitar é ser justo, é dizer a verdade e deselegante mesmo é puxar o saco, principalmente depois que o saco do cidadão já até gelou. Então, ao pensar na sede do Partido Comunista Francês, em Brasília, na igreja da Pampulha (ó, que interessante… um ateu projetando igreja, e lindamente… sim, nós humanos somos feitos de contradições), no Memorial da América Latina, lembre-se também do que representa construir blocos de concretos no meio de grandes cidades superaquecidas, sem arborização e, principalmente, lembre-se dos CIEPs no Rio de Janeiro. Tá, poderíamos falar só do que é boniteza e tals… Mas, ainda tem mais um detalhe, o comunista Niemeyer apoiou Eduardo Paes nessa última eleição — atual prefeito da cidade do Rio de Janeiro — que promove na contramão da história do humanismo e cuspindo nos Direitos Humanos obras que desalojam pessoas, implodem a memória da cidade em nome de grandes investimentos, eventos, enfim… Em nome do progresso! Só as atrocidades cometidas em nome de Deus foram piores e/ou maiores do que as cometidas em nome do progresso. Ou seja… Se Niemeyer era comunista, Kátia (a cega) é jazz*!

madonna periguete

tatuagem fake que Madonna fez para o momento do strip-tease de seu no Rio na última segunda-feira (3) onde em outros lugares também exibiu “Peace”, “Obama” e “Pussy Riot”

Tripa 2 – Madonna no Brasil. Super estrela pop vindo fazer show no nosso quintalzão, de novo. UAU! Não, pera… Em tempos de Lady Gaga, Madonna virou a tia velha e ganhou a pecha de ridícula. Já não se lembram mais de sua bela voz e que ela canta de verdade, compõe, dança (e interprata mal, isso é fato) e que está no topo do mundo pop desde os anos 80 e que envelheceu, sim, mas e daí? Desde quando envelhecer é ruim? (tem um exto bacana aqui sobre envelhecer) Madonna sobreviveu sem forçar a barra, sem parecer mudar de estilo ou ficar decadente. Então, porque afinal ela é acusada de ser decadente? Simples. É mulher, passou dos 50 anos dando coice na cola como dizem lá no pampa e está pouco se importando com as opiniões a seu respeito. Madonna incomoda demais. Ela é independente, dona do seu nariz, vida, corpo e carreira. Quando (dizem) apanhava de Sean Penn pagava pau pro marido e fez para ele um disco falando em quase todas as músicas de amor verdadeiro. As feministas odiaram. Ela seguiu. Nessa passada pelo Brasil, Madonna resolveu se assumir perigueti. Como assim, brazew? Mas perigueti não é só um estereótipo do qual “todas” fogem porque não são “respeitadas”? Não, pera… Alguém sabe me dizer qual mulher é respeitada sem se impor e sem se esgualepar inteira? NENHUMA! E Madonna sabe disso. Sua homenagem às periguetes é uma campanha de visibilidade tipo, “olhem pra mim, bem sucedida, dona de mim e PE-RI-GUE-TE!”

Tripas 1 e 2, sambadas – Se Madonna sambou na cara do moralismo do mundo inteiro a partir do nosso moralismo tupiniquinim, Niemeyer sambou na cara da morte e deu-lhe tanto trabalho, mas tanto trabalho, que só por isso eu já sei que ele não era comunista de verdade (risos). Mas… Rótulos servem para quê, mesmo? No que chamar Madonna de velha, decadente e acabada tira seu brilho? No que chamar Niemeyer de comunista-stalinista-gênio-calhorda tira seu mérito? Eu pergunto, eu mesma respondo: Tira muito do nosso brilho como pessoas e desgasta muito da nossa capacidade como humanidade. Dedos em riste só servem se for para se fazer respeitar e em nome da verdade. Se forem para julgar moralmente dizem mais a respeito de nós, do vergonhoso nós, do que de quem estamos julgando.

Achou contraditório? É, ué. A contradição é condição humana e essencialmente biscate. E se for para se valer dela para lembrar de quem samba na cara do moralismo, tô nem aí, uso mesmo! :P .

p.s.: Não sou fã nem do trabalho da Madonna e nem do Niemeyer, mas isso não tem nada (ou tudo) a ver com respeito ou com os meus moralismos e contradições.

*Kátia é jazz” é uma expressão que surgiu nos comentários de um post da Suzana Dornelles aqui,  e foi criada pela Deb. ou deborahpetri (alter ego de uma querida que prefere o anonimato e essa vida dupla), para me contrariar quando afirmei que Magal não é brega. Disse Deb.: “Se Magal não é brega, Kátia é jazz!” — Levamos pra vida.

Receita Contra a Violência

Para uma vida sem violência, se você for HOMEM:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não manipule. Não estupre. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “presas” suas. Você não é um caçador ou um predador. Você é só humano, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas através do privilégio que tens agora pode se voltar contra você a qualquer momento. Se há alguém reclamando de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito.

Para uma vida sem violência, se você for MULHER:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção de que quem é maior que você e está em situação de privilégio poderá tirar proveito disso. Então, não recorra a subterfúgios para tentar manipular, porque se você é capaz de jogar as pessoas envolvidas no jogo são capazes de entendê-lo. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “concorrentes” suas. Você não é caça nem presa. Você é só humana, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas podem se voltar contra você a qualquer momento. Se há quem reclame de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito. Use a inteligência também para detectar as situações de violência não apenas quando você ou “os seus” poderão se tornar vítimas. Não se proteja das pessoas, mas da violência com que elas possam te atingir e atingir os demais. Se organize com as outras mulheres e com os demais grupos tidos como desprivilegiados na escala do poder e opressão. 

LEMBRE-SE: machismo, racismo e homofobia são estruturais. Não existem pessoas machistas, racistas e homofóbicas. Existem ATITUDES machistas, racistas e homofóbicas e TODOS NÓS podemos cometê-las a qualquer momento, até mesmo quando temos a melhor das intenções. Não há ideologia, organização, cor, orientação sexual, religião ou boa intenção que te imunize desses preconceitos estruturais. Saibamos que ao tentar seguir essa receita iremos errar e o que vai nos diferenciar será a forma como trabalharemos esse erro. Como diria um negão da pesada do samba, o Noite Ilustrada, “reconhece a queda e não desanima… levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Ouça aqui!

LEMBRE-SE: qualquer sistema baseado no cerceamento de liberdade e direitos e que segregue as pessoas produz obrigatoriamente violência e NINGUÉM está a salvo nele.

O 25 de Novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, em homenagem a LAS MARIPOSAS. Patria, Minerva e María Tereza Mirabal foram atraídas para um emboscada e assassinadas pelo ditador Trujillo na República Dominicana em 1960. A data foi escolhida pela Assembleia das Nações Unidas em 1999 para o dia de combate à violência sexista.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...