Não obituário

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Tanta coisa para escrever e dizer… Sobre cenário eleitoral, sobre luta pela legalização do aborto, sobre cenário eleitoral e luta pela legalização do aborto. Ainda sobre ditadura e da luta por memória, verdade e justiça — esses substantivos todos, todos femininos –, e sobre o aniversário da Lei da Anistia e a luta pela sua revisão…

Mas há dias em que seria melhor não estar, e calar. Não estar no corpo, não estar atenta e forte, não tomar conhecimento. Não dá. É preciso dizer, mesmo quando faltam as palavras. É preciso lidar com as dores e perdas. Embora a morte, essa biscate, não deva ser temida, ela está aí e chega pra todo mundo.

Nem tinha acordado e já estava mais pobre, já estava menos eu. E pensando aqui que deveríamos escrever mais obituários. Obituários não apenas para pessoas, mas para tudo cuja perda teve relevância na nossa vida. Relacionamentos, objetos perdidos. Já perdi até casa. Deveria ter escrito obituário para ela (a casa), para os óculos escuros esquecidos numa lanchonete do dia do impeachment do Collor, para as fotografias do Calvin levadas num assalto em Fortaleza… Tanta coisa. Tem até sonho que merecia um registro fúnebre.

Mas dureza mesmo é escrever o tradicional obituário sobre pessoas queridas. É uma arte que não domino. Tanto que estou dizendo isso tudo para evitar de cumprir a tarefa. Desculpaê, não dá. É a dor suplantando a abnegação de dar o reconhecimento, o devido espaço na memória para alguém muito querido.

Se alguém aí for bom em escrever obituários, escreva um desse texto, e outro desse dia. :-(

Biscatear é como respirar

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Ontem no twitter uma amiga queridíssima dizia em tom de lamento que está sem tempo para biscatear. Encafifei. Como assim, sem tempo para biscatear? Biscatear é algo que se faz naturalmente, sem pensar sobre, igual respirar, andar e… comer! :P

Argumentei com ela que biscatear não é namorar, não é manter um relacionamento com alguém — que aí demanda que o alguém não seja qualquer um. Biscatear pode ser só fantasia, inclusive. Aí, lembrei que até nos períodos de maior depressão em que vivi, nem neles deixei de biscatear.

Biscateio com o gari lindão muso da greve do Rio. Biscateio com Darín. Biscateio com um delegado que é baixinho e tals, mas um gigante pra admirar e objetificar. Biscateio com um professor barbudão candidato que mora do outro lado da ponte. Biscateio com o meu barbudão, em casa. Biscateio com o Drexler e o Gael. Biscateio até com amigos que sequer sonham (ou teriam pesadelo) que tenho alguma fantasia com eles[spoiler]. Biscateio com o Clint. Ah, o Clint… ♥

pedreiragem

pedreiragem

Biscatear é desejo, não tem a ver só com o concreto, com o realizável. Biscatear é a pedreiragem do dia a dia, a pedreiragem arte, a pedreiragem moleque… Biscatear é só biscatear. Não demanda tempo, esforço ou articulação. Biscatear é, de fato, como respirar.

E em tendo tempo e disposição, dá até para usar estratégia para biscatear;-)

Propriedade, julgamentos e violência contra a mulher

A super lua de ontem me fez saudosa de muitas coisas. De mim, inclusive, da Niara que enxergava o mundo e até escrevia com um pouco mais de encantamento e poesia. Lembrei de um post onde contava um pouco das minhas memórias, da lua e de uma música, feita pra lua e sobre ela.

Ando seca. Talvez seja Xangô me atormentando e dizendo que não se pode descansar ou vacilar com tanta injustiça em volta. Só que é aquilo… Tanta injustiça embrutece a gente. E é só das injustiças e indignadades desse mundo que estou sabendo escrever. De modos que… Segue mais uma.

Acordei num mau humor do cão ontem. Porra, domingo, um dos raros em que não teve festa em nenhuma das ruas aqui perto de casa em OuCí e nem ensaio da banda horrorosa que ensaia na casa do lado… Mas tinha foguetório — sempre tem — e Lalá latindo, ogro gripado e roncando e se atirando na cama, #dinofilhote acordando toda hora. Não consegui dormir duas horas ininterruptas. Quando finalmente “acordei” e fui fazer meu café para sentar em frente ao pc e trabalhar — vida de jornalista freelancer é isso mesmo –, Gilson comenta sobre essa notícia que acabara de ler nas internetes… Fui despertada por ela.

Em julho do ano passado vi uma matéria com esse casal, Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine. Eles tinham feito uma “tattoo de compromisso”. Ele tatuou seu sobrenome na parte frontal do pescoço e ela tatuou um carimbo estilo “made in” dentro de um retângulo tracejado nas costas, próximo ao ombro direito, dizendo “PROPERTY OF WAR MACHINE” (Propriedade de War Machine — seu codinome de lutador).

montagem com as "tattoos de compromisso" feitas por Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine

montagem com as “tattoos de compromisso” feitas por Christy Mack e War Machine

Pausa. Respira. Respira de novo… Respira mais fundo. Bóra descascar esse abacaxi…

Suas profissões não vêm ao caso. Conhecemos inúmeros casos de homens agressores extremamente violentos exercendo profissões consideradas até dóceis. E a vítima, bem… É só a vítima! Me nego a fazer qualquer observação a esse respeito porque considero que a mulher é livre para fazer o que bem entender, inclusive uma tatuagem dizendo que é propriedade de outrem ou casar e assumir o sobrenome do marido. E sabemos também que a violência contra a mulher é democrática, horizontal, perpassa todas as classes, raças, países, origem, idade, credo e conduta.

O que tem de errado nessa história — além da violência, que infelizmente já foi “normalizada” — é a forma como a notícia foi apresentada. Em primeiro lugar editores do portal Terra, violência contra a mulher não é “confusão”. Confusão é jogar dinheiro pra cima no meio do Saara ou do Mercadão de Madureira ou na 25 de Março ou ainda no Bric da Redenção. Quando um homem espanca uma mulher, independente da natureza de sua relação (pode não haver nenhuma, inclusive) é apenas e tão somente violência contra a mulher. Não há meias palavras, não há relativização a ser feita, não há pílula a ser dourada.

Em segundo lugar editores do portal Terra, não fica claro no título o motivo pelo qual Christy Mack não está podendo falar. Não poder falar é eu fazendo o #dinojantar com as mãos ocupadas entre a cebola, a pimenta e a colher de pau sem poder pegar o telefone para falar com alguém. E o pior de tudo, editores do portal Terra: Por que a profissão de Christy abre a frase do título da notícia? Por que o julgamento moral e o machismo dx editxr (deve ser um homem quem exerce o cargo, como indicam as pesquisas a respeito de cargos de chefia no jornalismo brasileiro, mas como o machismo é estrutural e estruturante, e passível de ser reproduzido por todos, inclusive mulheres, melhor deixar o gênero do cargo indefinido) responsável por essa seção do portal são mais importantes que a notícia? Atriz pornô merece apanhar? Atriz pornô que namora lutador de MMA violento a faz menos vítima? Atriz pornô que tatua ser propriedade de namorado violento a torna merecedora de violência? Se a atriz vítima de violência fosse de comédia a sua profissão estaria no início do título?

A questão é que tanto faz. Não importa sua profissão ou qual a sua especialização como atriz, sua conduta e nem mesmo sua permissividade com relação à violência. Não cabe à chefia da editoria do portal Terra julgar isso. Jornalismo relata fatos, conta como eles aconteceram, o “julgamento” fica a critério de cada leitor/a. E sabemos que nem precisava desse escárnio com Christy para que ela fosse julgada como merecedora do espancamento do qual foi vítima. Se ao ler a notícia, mesmo que nos detalhes finais, estive escrito que ela é atriz pornô todos a julgariam. Então, pra quê? Sabemos pra quê, mas estou questionando diretamente a editoria do portal Terra. Porque nesse caso não é o repórter peão que não pode ser responsabilizado pela manipulação da informação do veículo onde trabalha, nesse caso é a chefia, é quem detém a confiança do proprietário do veículo que deveria ser de informação, e não de julgamento.

Como ficaria um título isento para essa matéria? “Atriz é espancada e mal consegue falar. Namorado está desaparecido”

Se Christy não tivesse se tatuado como propriedade do namorado, ela estaria a salvo da violência? Não. Nenhuma mulher está. War Machine se sentiria menos proprietário de Christy sem a tatuagem? Não. Homens tendem a se sentirem proprietários da mulher, independente de terem ou não uma relação com ela. Há uma enxurrada de casos de assassinatos de mulheres onde o feminicida é o ex. Nesses casos todos é comum a imprensa vimitizar de novo a mulher ao julgá-la, como fez (e ainda faz) no caso da Eliza Samudio, só para citar um exemplo.

Não importa o que façamos, o que somos ou o que pensamos. Quem está na berlinda é sempre a mulher. E me admira muito que numa matéria com esse título não tenham dado uma rápida guglada e citado a tattoo como mais um atenuante para o agressor…

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas com moralismo barato usado para justificar machismo, misoginia e, por consequência, violência contra a mulher.

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atualização 11/08 às 13h30: Até consigo entender que num portal todas as notícias relacionadas a “famosos” estejam num mesmo local, mas é inadmissível que um caso de violência contra a mulher esteja na seção “Diversão”.

atualização 12/08 às 14h15: Christy Mack divulgou em suas redes sociais na segunda à noite um comunicado agradecendo o apoio e carinho que vem recebendo e relatando o que houve. Esse comunicado foi traduzido e divulgado pela seção “Combate” do Sport TV da Globo.com, num tom bem mais aproximado da realidade dos fatos. Mesmo assim, num trecho diz [o que talvez para alguns justifique as agressões de War Machine]: “Ela relatou que foi espancada pelo atleta, com quem teria rompido relações há três meses, após >>>ser flagrada<<< junto a um amigo em sua casa em Las Vegas.

FLAGRADA??? O termo flagrante aqui dá a ideia de que ela estaria fazendo alguma coisa errada. A própria Christy justifica em seu comunicado que ela e o amigo estavam vestidos quando da chegada de War Machine em sua casa.

Diz a Renata Corrêa, e eu subscrevo: “As mulheres são flagradas de biquini no site de fofocas, flagradas conversando com amigos pelo namorado ciumento mas o único flagra mesmo é do machismo na sociedade. A menina ainda tem que dizer que estavam vestidos. E se estivessem pelados? Podiam apanhar?

Por fim, um trecho do relato de Christy com parte do “saldo” de seu espancamento e as fotos dela no hospital ontem (11/8): “Minhas lesões incluem 18 ossos quebrados ao redor dos meus olhos, meu nariz foi quebrado em dois lugares, perdi dentes e vários outros (dentes) estão quebrados. Estou incapaz de mastigar e de ver pelo meu olho esquerdo. Minha fala está confusa por causa do inchaço e da falta de dentes. Tenho uma costela fraturada e o fígado severamente rompido por causa de um chute na minha lateral. Minha perna está tão lesionada que não consigo andar sozinha.

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Da inconveniência de se fazer ouvir

Costumo dizer que nasci comunista, me tornei feminista e me formei jornalista. E o meu jornalismo está a serviço da minha sobrevivência — é preciso — e está a serviço principalmente da comunicação contra-hegemônica e da luta por um mundo melhor. Não tenho nenhuma ilusão de que esse mundo possa ser reformado, será necessário botar esse abaixo e refazê-lo estruturado em outras bases e parâmetros. Tenho em mim indignação suficiente para isso, principalmente para essa primeira tarefa. A construção de um mundo outro, novo, eu sonho seja coletiva, todos aprendendo juntos, com amor e respeito. Ah, as utopias…que me acompanham há muito tempo.

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eu, em 1995

Era primavera de 1995, se não me falha a memória. Eu ainda estava no PT, e tínhamos formado em Pelotas o Coletivo Socialista — que só não era um racha da Democracia Socialista porque essa tinha se desarticulado na cidade, mas todos (com uma ou duas exceções) já tínhamos ‘sido’ DS em algum momento. Esse coletivo, tendência municipal, era radical, excelente e daquele tempo guardo lembranças lindas da militância. Nossas reuniões eram como deveria ser toda reunião de um organismo de esquerda: aprovada a pauta, análise de conjuntura e os demais temas na segunda parte da reunião. Muitas dessas reuniões terminavam em jantares divertidíssimos — sim, troskos se divertem juntos. Mas, nem tudo estava bem. No coletivo, tinha apenas três mulheres que iam em todas as reuniões, pelo menos no início. Eu, Andrea e Sônia. Intervínhamos pouco, e feminismo e questões de gênero nunca eram pauta. E isso começou a me incomodar.

Um dia, conversei com a Andrea e nos articulamos para dizer isso pro CS, para expor que estávamos nos sentindo oprimidas pelo espaço, pela lógica da reunião e por nossa opressão específica nunca estar pautada. Porque espaços com mais homens que mulheres na esquerda inibem/reprimem “naturalmente” as mulheres de falarem, de se exporem. Quem já militou na esquerda sabe como é isso. Escrevemos um texto, fizemos cópia e distribuímos quando pedimos a palavra. Falei. Constrangida. Tremia. Eu, que já tinha feito comício, comandado assembleias de estudantes aos 16 anos, estava insegura de falar diante de pessoas que conhecia e com quem convivia há anos… Como é difícil falar da própria opressão diante do opressor, do ser que ali detém os privilégios e o protagonismo da cena! Foi difícil, mas disse. Dissemos. Abriu a rodada de intervenções sobre o tema e a primeira fala foi de um companheiro (hoje ex, felizmente) com quem militava desde os tempos de movimento secundarista, e que já tinha sido candidato a vereador e falado linda e encantadoramente das demandas das mulheres jovens. Ele pega o nosso texto impresso com um notável desprezo e diz em resumo que estávamos “carregando nas tintas” — nunca vou esquecer — e deu a entender que estávamos perdendo tempo com bobagens enquanto tinha uma luta maior e mais séria a ser enfrentada. Me senti violentada. E, mulher, descompensada e louca, desabei em lágrimas. E eu, que me sentia fraca, frágil quando chorava em público, passei a partir desse dia a respeitar mais minhas lágrimas.

Há uma naturalidade em desconsiderar a opinião e a fala de uma mulher. E os artifícios do discurso da esquerda para desestabilizar, desconstruir, desacreditar, desqualificar uma fala, principalmente quando é uma crítica, são sórdidos, mas eficazes. A gente mesma passa a duvidar do que está dizendo ou da importância de dizer aquilo naquele momento. “Será que era mesmo tão importante?”

Na madrugada de sábado revendo A Troca, um filme excelente do Clint Eastwood (qual não é?), me deparei e choquei de novo com a cena da personagem da Angelina Jolie com outra paciente no hospício em que falavam sobre a credibilidade da mulher ante um policial. Assistam:

Carol Dexter (Amy Ryan), 2:41:
“Todo mundo sabe que as mulheres são frágeis. Quero dizer, elas são instáveis emocionalmente, não são lógicas, (…). Sendo loucas, ninguém terá que nos ouvir. Quero dizer, em quem vão acreditar, numa mulher louca tentando destruir a integridade da corporação, ou num policial?” (tradução livre, minha)

Nesse final de semana, entre algumas conversas e essa cena do filme, me veio a dor daquela reunião do Coletivo Socialista lá de 1995, direto do túnel do tempo para o amargo na minha boca, só para me lembrar que nenhuma das bandeiras do feminismo foram superadas. Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai teriam ainda mais trabalho com essa esquerda muÓderna de agora.

PRESTENÇÃO, PESSOAS! Quando uma mulher (ou outra minoria) falar de si num espaço político ela não está apenas falando, ela está rasgando o papel que lhe foi designado, está rompendo com suas amarras e com o status quo. Mais respeito, porque esse é um movimento político da maior importância: é um oprimido enfrentando sua opressão.

E da minha libertação me encarrego eu.

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Mulher, ativista. Tudo puta.

“Previsão do tempo:
Tempo negro.
Temperatura sufocante.
O ar está irrespirável.
O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília. Mín.:5º, nas Laranjeiras.”
(Jornal do Brasil, 14/12/1968, dia seguinte à decretação do AI-5)

Não. Eu não acho que estamos vivendo numa ditadura. Óbvio que não. E é aí que reside o problema. Vivemos numa democracia que permite práticas comuns a uma ditadura. E isso é inadmissível. Lutamos demais para nos contentarmos com essa democracia meia boca e mal acabada. Sequer trouxemos à tona os crimes da ditadura, dando fim ao luto dos familiares dos desaparecidos políticos da ditadura e já temos uma lista maior de desaparecidos da democracia e de outras tantas violações de direitos. E ainda não completamos nem trinta anos de redemocratização…

Posso não concordar com uma manifestação, seus métodos e bandeiras, mas é minha obrigação — se eu for democrata — defender o seu direito de se realizar. Os protestos de junho de 2013 foram uma luz no fim do túnel do desencanto político após um processo de despolitização articulada, sabemos. E não, Rede Globo, os protestos de junho não podem ser chamados de “Junho Negro”, porque vocês o fazem pejorativamente, mais uma vez dando mostras do quanto o racismo está estranhado em tudo. Gostaria por demais que os protestos de junho tivessem sido negros de fato, que o morro tivesse descido para o asfalto para fazer valer sua voz e principalmente para fazer cessar o massacre de jovens negros pela polícia.

Se o jornalismo ‘oficial’ se alia ao Estado policial em várias de suas esferas para criminalizar manifestações e manifestantes não o faria sendo “apenas” racista. Óbvio que tinha que ser machista e misógino. Só não esperava que fosse de uma forma tão vil, tão sórdida.

O mito da mulher de esquerda e bandida destruidora da sociedade e da família não é novo.

“Pouco tempo depois do lançamento (…) do filme hollywoodiano ‘Bonnie e Clyde’ no Brasil, em 1968, uma versão ‘da vida real’ chegou à imprensa brasileira sob a forma de Sílvia: uma bela e loira estudante universitária e assaltante de bancos (…). O interesse da mídia por esta Bonnie brasileira só aumentou em novembro daquele ano, quando um jovem foi preso depois de um desses assaltos. Segundo a polícia, ele não apenas admitiu ter participado do evento como também revelou a motivação política do assalto, ao denunciar o envolvimento de Carlos Marighella, líder comunista e opositor do regime, e da mulher loira chamada Sílvia.
Com esta confissão, (…) Sílvia tornou-se objeto de um escrutínio intenso e decididamente sexualizado. Desde insinuações sobre um triângulo amoroso entre ela, Marighella e outra mulher, até descrições detalhadas de sua aparência física, a cobertura que a imprensa fez de Sílvia centrou-se predominantemente sobre sua sexualidade.
[Esta cobertura] é um exemplo da grande onda de representações sexualizadas de mulheres militantes que marcou o Brasil de 1968. E essas representações não se limitavam à imprensa. Por exemplo: depois de invadir uma reunião clandestina de estudantes universitários, a polícia realizou uma coletiva de imprensa para exibir os materiais ‘subversivos’ apreendidos: (…) coquetéis Molotov, estilingues, literatura comunista, facas, algumas pistolas e, no meio daquilo tudo, várias caixas de pílulas anticoncepcionais. (…) A exibição das pílulas transmitia uma dupla mensagem aos jornalistas e seus leitores: não apenas as mulheres estavam envolvidas nestas perigosas e combativas atividades (…), mas elas tinham vindo preparadas para fazer mais do que apenas discutir política. (…) Os coquetéis Molotov e a sexualidade das estudantes representavam riscos igualmente alarmantes à ordem estabelecida.
As histórias de revolucionárias perigosas e sedutoras como Sílvia ou ‘subversivas sexuais’ como as do encontro estudantil invadido pela polícia enfatizam a premissa principal deste texto: a Guerra Fria no Brasil foi profundamente marcada por batalhas de gênero. (…) Logo após o assassinato do estudante Edson Luis de Lima Souto pela polícia, em março de 1968, e a subsequente intensificação das mobilizações estudantis, diversos materiais exibindo imagens de mulheres armadas e provocantes começaram a aparecer em publicações direcionadas à classe média (…). Enquanto isso, agentes de forças de segurança estaduais e federais faziam alusão – às vezes de forma privada, mas também publicamente – à suposta promiscuidade sexual de estudantes que faziam ativismo político.”
(trechos de “Birth Control Pills and Molotov Cocktails: Reading Sex and Revolution in 1968 Brazil”, de Victoria Langland, 2008. Tradução da Camila Pavanelli)

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foto: Vanessa Rodrigues

Na véspera da final da Copa do Mundo, 23 ativistas foram presos “preventivamente” no Rio de Janeiro. Destes, três mulheres estiveram em destaque na mídia que não poupou adjetivos e falsos crimes para vender suas imagens como terroristas perigosas. Uma advogada “acusada” de não cobrar honorários de seus clientes baderneiros, uma professora de filosofia “acusada” de subverter alunos com suas aulas e uma… uma… ativista. Já conhecida dos noticiários que visavam criminalizar manifestações, Sininho (Elisa Quadros Sanzi) virou o nosso Bin Laden, a terrorista perigosa que deveria ser temida por todos, a causadora de todos os males — qualquer semelhança com a definição da mulher pela Santa Inquisição não é mera coincidência, esse mito ainda persiste no nosso imaginário.

Mas não bastava. Era preciso criminalizar Sininho por sua sexualidade. Sendo ativista, é puta. E sendo puta, precisava de lares ou romances desfeitos por ela para que seu crime fosse perfeito. Se a fofoca de ter acabado com o casamento de um deputado não colou, a de ter “roubado o namorado de outra ativista” colaria, e viraria matéria na imprensa. Veja bem que a matéria linkada (em vermelho) não usa o habitual “supostamente” da imprensa, ela compra a versão do roubo de namorado ter contribuído com a “investigação” do caso. E aí, você, eu e mais a torcida do Flamengo e a do Corinthians juntas se perguntam: desde quando isso é crime? Qual é o artigo do código penal? E como muito bem perguntou a Bia ontem, quantos namorados eu preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Pelo Código Penal nenhum, mas pelo julgamento da sociedade taí o resultado. E se ainda restar alguma dúvida, dá uma olhada na guglada da Camila Pavanelli com as expressões ”pegar homem”, ”pegar mulher”, ”roubar namorado” e ”roubar namorada”.

Estivemos sob a famigerada Lei Geral da Copa, que esteve acima da Constituição Federal (e ninguém até agora explicou esse absurdo jurídico) e que justificou toda sorte de repressão quando em vigor (ninguém sabe ao certo até quando, porque apesar da Copa já ter terminado, não há prazo de validade previsto). Parecia que a prisão preventiva dos 23 ativistas sob o argumento de impedir que cometessem “novos crimes” se baseava nessa lei. Balela. Como o inquérito estava sob segredo de justiça até a “Globo obter com exclusividade acesso aos autos” e manipulá-lo como bem quis, PRIVILÉGIO não concedido — ou dificultado — aos advogados dos #presosdaCopa, não sabíamos os detalhes. Até o prazo da prisão que era temporária vencer, e virem os Habeas Corpus para soltar os ativistas. Antes dos últimos três presos, entre eles Sininho e Camila, serem soltos, eis que surge o Ministério Público do Rio de Janeiro, analisa um inquérito de duas mil páginas em pouco mais de UMA HORA e oferece denúncia contra os 23 ativistas. Vinte minutos depois, uma nota ordenava a prisão dos acusados.

“Às 18h06 de sexta (18), a Polícia Civil confirmou à reportagem da Folha que havia enviado o inquérito finalizado ao Ministério Público. Exatamente uma hora depois, às 19h06, o MP divulgou nota informando que havia oferecido denúncia contra os ativistas. Vinte minutos depois, uma nota da Justiça do Rio ordenava a prisão preventiva de 21 dos 23 denunciados.
(…)
Na sexta-feira à tarde, Darlan falou com a Folha e criticou a prática de se prender antes da condenação no país. “Aqui no Brasil, prende-se e depois verifica-se se o camarada merece ou não a prisão.”
No habeas corpus impetrado em favor de Joseana Maria Araujo de Freitas, militante feminista e jornalista, o advogado Lucas Sada alega que o princípio de “presunção de inocência” estava sendo violado. “A velocidade com que a denúncia foi apresentada e recebida pela Justiça reforça o movimento articulado entre os poderes de criminalização dos grupos”, disse Sada.” – Folha de São Paulo, 20/07/2014

Ao virar processo, os advogados de defesa dos acusados entraram com um pedido conjunto de Habeas Corpus para os 23. E aí, ficou evidenciado o conluio entre vários entes do Estado para criminalizar os manifestantes. Até mesmo o desembargador que iria julgar o HC dos acusados teve dificuldade para ter acesso ao inquérito.

“O desembargador Siro Darlan pediu ontem novamente acesso à documentação relativa ao inquérito contra os 23 ativistas acusados de suposto envolvimento em atos violentos nas manifestações. “O delegado não cumpriu a determinação. Foi mandado um ofício e ele não respondeu”, afirmou ao DIA o magistrado.
O primeiro pedido formal foi feito na terça-feira passada ao delegado-titular da Delegacia de Repressão a Crimes da Informática (DRCI), Alessandro Thiers, quando Darlan concedeu liberdade provisória a 10 ativistas, argumentando que não via fundamento para a prisão temporária. A nova determinação é, agora, ao juiz da 27ª vara, Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau.
Darlan pede, por exemplo, o relatório policial já divulgado por veículos da imprensa. Para o desembargador, os documentos são necessários para analisar o novo pedido de liberdade provisória feito pelos réus.” — O Dia, 22/07/14.

Dos 23 acusados apenas cinco estavam presos, dezoito eram considerados foragidos. Aí, veio pedido de asilo político no Consulado do Uruguai, manipulação do vídeo de defesa da advogada Eloisa Samy pela mídia, tentativa de criminalização da deputada estadual do PSOL Janira Rocha por ter dado carona em carro oficial da Alerj aos três foragidos e os ter retirado do prédio. Quando já tinha perdido a conta dos absurdos do processo, veio o manifesto dos juristas em defesa dos ativistas e do direito de manifestação e, FINALMENTE, veio o Habeas Corpus para os 23, que poria em liberdade três dos cinco que estavam presos.

Com o HC vieram os detalhes do processo e do inquérito. E a coisa fica pior.

Quando finalmente o desembargador Siro Darlan teve acesso ao inquérito, tiveram acesso a ele também o restante da imprensa (e não mais apenas a Rede Globo) e todos nós. E os absurdos ganharam uma proporção para além de Kafka. Toda a acusação foi fundamentada em apenas UM DEPOIMENTO. Um suposto ex-líder da FIP (Frente Independente Popular), mesma organização da qual Sininho faz parte, se apresentou espontaneamente à polícia para depor e dar detalhes dos protestos violentos e para identificar “baderneiros” após ter sido escrachado pelo Coletivo Feminista Libertário Geni. Esse depoimento deu origem a sete meses de investigação paga com dinheiro público que devassou a vida de dezenas de pessoas, teve escutas telefônicas anticonstitucionais autorizadas pela justiça, e tudo que conseguiu — além de violar um pressuposto básico da democracia que é o sigilo advogado-cliente — foi obter uma confissão de Sininho de que torceu contra a Seleção Brasileira na Copa — crime gravíssimo e inafiançável, como todos sabemos.

Piora ainda mais.

Além do processo usar expressões muito comuns da ditadura – e haver mesmo sombras da ditadura nesse cerco a advogados de ativistas –, se baseia em fontes nada confiáveis (blog de direita, ufanista) a respeito de Sininho. Diz o jornal O Dia do dia 24/07/2014:…o texto faz referência a “matérias jornalísticas”, que indicam que Elisa teria feito “cursos de ativismo político e agitação com formação e ações de guerrilhas e terror urbano em Cuba e na Rússia”. Isso, segundo a investigação, teria relação com ataques feitos por Black Blocs à embaixada brasileira em Berlim, em maio deste ano”. Tratar opinião de blog como “matéria jornalística chega a ser café pequeno nesse amontoado canalha (isso, opinião, de blog) de suposições.

E apesar do Habeas Corpus, e apesar de um desembargador afirmar com todas as letras que a imprensa está mentindo quando repete a exaustão uma série de supostos crimes cometidos pelos 23 ativistas quando na verdade a denúncia do Ministério Público fala em apenas UM DELITO, “formação de quadrilha armada”, e apesar do processo e da investigação estarem completamente desmoralizados, precisamos reconhecer que isso é apenas para nós que temos a acesso à contra-informação. Para a maioria da população prevalecem as mentiras e o perfil perigoso, terrorista e de caráter duvidoso — leia-se puta — de Sininho. E a perseguição continua.

E para fechar com chave de ouro, o depoente vingativo que originou a investigação e que em entrevista (a mesma em que chama o desembargador Siro Darlan de “veado” e “permissivo” — claro… #TudoPutaEViado) declarou ter se divertido com a prisão de Sininho — Ela se borrou toda ali na hora. toda toda toda. Ela ficou igual a uma baratinha tonta ela e a advogada dela batendo a cabeça sem saber o que fazer. Aquela foi a cena mais engraçada de todas, quase tive um orgasmo ali na hora. Foi muito engraçado. – postou no youtube um vídeo se dizendo ‘apaixonado’ por ela. E juntando esse depoimento com a da ativista que ‘teve o namorado roubado’ por Sininho, temos um processo baseado em recalque, vingança e machismo. Seria até um roteiro interessante, se fosse novela e não vida real.

Nesse mundo machista quando não se bate ou se estupra ou se mata “por amor”, se denuncia a “amada” pelo crime de formação de quadrilha armada. E o Estado aceita.

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Alguém com raiva querendo se vingar de um grupo de mulheres indo a polícia denunciá-las por falsos crimes não me espanta nada, mesmo sendo um absurdo e injusto, é problema dele, que arque com as consequências de seu ato. Mas, a polícia usando essa denúncia, baseada em vingança pessoal, como base para um processo e uma longa investigação é que é problema. É problema da polícia, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e é problema nosso. Não é para isso que pagamos impostos, não foi por isso que lutamos tanto e deveria ser inadmissível numa democracia. Deveria.

Claro que a zueira acompanha a indignação com as notícias desse caso…

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Maurício Santoro: “No Rio de Janeiro há inúmeras quadrilhas de traficantes, milícias, grande banda podre da polícia e muitos, muitos etc. E o principal jornal local quer me convencer que esta é a inimiga pública n.1.

E como a falta de noção do ridículo nesse caso não tem limites… #SeloSandraAnnenbergDeDeselegância

Foto: Sandro Vox / Agência O Dia

diz a legenda original da foto em matéria do jornal O Dia: “Com gesto grosseiro, manifestante tenta impedir trabalho de fotojornalista” — Tadinho!

Para encerrar, é preciso falar sério. A liberdade dos 23 acusados é provisória e no inquérito são citados os seguintes grupos e entidades: FIP Frente Independente Popular; FIST – Frente Internacionalista dos Sem Teto; FNT – Frente Nacional dos Torcedores; Grupo de Luta dos Petroleiros; MEPR – Movimento Estudantil Popular Revolucionário; MFP – Movimento Feminin@ Popular; MRP – Movimento de Resistência Popular; OATL – Organização Anarquista Terra e Liberdade; Oposição de Resistência Classista – ORC; RECC – Rede Estudantil Classista e Combativa; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência; Universidade Indígena Aldeia Maracanã; Unidade Vermelha; Dia do Basta, Ocupa LAPA; Ocupa Câmara; Ocupa Cabral; Anonymous Rio; Black Bloc RJ; Mídia Ninja; Coletivo Mariachi; Coletivo Calisto; Coletivo Rebaixada; Coletivo Tempo de Resistência; Coletivo Desentorpecendo a Razão; Coletivo Rosa dos Ventos; Coletivo Vinhetando; Coletivo Projetação; Coletivo Margaridas Urbanas; Coletivo SUBURBAGEM; Coletivo Das Lutas; Coletivo SerHurbano; Coletivo Inimigos do Rei; Coletivo Vô Pixá Pelada; Coletivo PACAL; Coletivo PaguFunk; Instituto Raízes em Movimento; Alemão de Noticias; Complexo do Alemão; Jornal Voz das Comunidades; Mulheres de Atitude – AMA; Barraco #55; Descolando ldeias; APAFUNK; Porque Eu Quis; Favela não Se Cala; Fórum Social de Manguinhos; Fórum Rode da Juventude; Favela em Foco; Norte Comum; Observatório de Favelas; Observatório de Conflitos Urbanos; Fala Roça; Marcha Mundial das Mulheres – MMM; Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência; Rio Na Rua; Grupo Teatro da Laje; Surbanitas; Núcleo Socialista da Tijuca; Linhas de Fuga; Fórum Popular de Apoio Mútuo; Movimento Direito Pra Quem; Arteiras; Rede de Instituições do Borel; Ocupa Borel; Fora do Eixo (criador da Mídia Ninja); Mídia Independente Coletiva – MIC; Tem Morador; Suburbano da Depressão; Movimentos Cidades Invisíveis; Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia; Favela Não Se Cala; Sindsprev; Sindpetro; SEPE.

foto: Coletivo Projetação

“Saiu a nova lista de prisões preventivas do Rio de Janeiro. Veja se você está nela.”

Não são apenas os ‘terríveis’ Black Blocs os alvos dessa pantomima. O processo de criminalização é principalmente contra os movimentos de periferia e favela, mulheres e os coletivos provisórios de protestos e insurgência contra o status quo.

Precisa desenhar o que está em risco e quem serve de bucha de canhão?

p.s. da zueira: Se as mulheres fossem mesmo tão perigosas e nossas bucetas tão poderosas já teríamos exterminado o machismo bobo-feio-cara-de-melão com apenas uma abertura de pernas… né?

O Estado contra Beth

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

beth

Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “”"gorda”"”, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. :P

Pareço feminista, mas…

…tô nessa Copa só pela zueira e objetificação

Quem me acompanha pelas redes sociais (ou plataformas — oi, Adriana) sabe que sou do time do #NãoVaiTerCopa, razões mais do que explicadas e justificadas pelo Fabiano Camilo, pela Camila Pavanelli e pelo Vladimir Safatle. Isso não quer dizer que não esteja assistindo aos jogos ou ignorando a Copa. Para quem ama futebol seria mesmo impossível. Isso não quer dizer também que esteja assistindo da mesma forma que todo mundo. Claro que não. Sou quinta-coluna, da turma da zueira e, óbvio, da biscatagi e da objetificação desses deuses que passearam e ainda passeiam, graças a Cher!, pelos gramados das tais arenas superfaturadas.

Desenhando: #NãoEstáTendoCopa, mas futebol e moços lindros SIM e #TáTendoObjetificaçãoPraCaralho!

A Seleção Croata, por exemplo, não contente em desfilar nos gramados, resolveu se pelar fora deles. Foram flagrados (eles acharam mesmo que estariam a salvo em algum local com a imprensa mundial no país?), se revoltaram com a imprensa, fizeram #mimimi e disseram que não iriam mais descer pro play pra brincar. Fiquei deveras #chatiada porque estava mais era querendo que a moda pegasse. :/

Para a nossa sorte, objetificadorxs de plantão, para essa Copa a Puma produziu os melhores uniformes ‘ever’ da história do futebol: camisas coladinhas ao corpo, quase uma segunda pele. E os jogadores das seleções de Gana, Itália, Uruguai, Camarões, Chile, Suíça, Costa do Marfim e Argélia desfilam(ram) seus corpitchos desenhadinhos nos uniformes da marca alemã. Os jogadores dessas seleções também usaram uma chuteira de cada cor. Ok, quase ninguém reparou nesse detalhe das chuteiras porque estávamos olhando mais pra cima. Mas, olhamos, olhamos mais, gostamos, assoviamos, molhamos e desejamos intensamente que eles fossem adiante na Copa. Infelizmente faltou futebol para a maioria, que já voltou pra casa. #TodxsChora

Os uniformes…

seleção italiana_o globo

Seleção Italiana (ui…)

Gana comemora gol de empate durante jogo com EUA_Toru Hanai_Reuters

Seleção de Gana, o uniforme mais colado dos coladinhos

Cavani e o uniforme uruguaio

Cavani e o uniforme uruguaio

Como não estamos aqui para fazer propaganda gratuita para empresa de material esportivo (se pagarem bem a gente até faz, viu?), não ficamos restritxs a essas oito seleções, ó-b-v-i-o. Objetificamos todos, olhamos tudo, até o jogo. Então, chega de conversa mole, segura o tchan e fiquem aí com os DEUSES dessa Copa nos tumblrs Eu Tô É Morta e Vai Ter Bofe e dos twitters @Ola_Casa e @HomensDaCopa (e instagram). CLIQUEM!

E só para não dizerem que não estou ligada no futebol e/ou no andamento da Copa em si e do que ela representa, seguem os protestos pelas ruas do país — assim como a repressão, prisões arbitrárias, violência policial — principalmente nas cidades sede nos dias de seus respectivos jogos. Das seleções de uniforme coladinho, Gana, Camarões, Itália e Costa do Marfim não passaram da primeira fase; Uruguai, Chile e Argélia já caíram nas oitavas de final e; resta-nos apenas a Suíça. E das demais seleções de bonitões perdemos também a Grécia. Chuifff…

Tudo bem, se foram mais da metade dos motivos das nossas objetificações, mas a bunda do Hulk continua firme (ô!!!) e forte e tivemos o clássico das camisas coladinhas, Uruguai x Itália, que só não foi perfeito por não compor o uniforme o maravilhoso shortinho de 1982. #GezuisMeAbana

Zico e Serginho, em campo pela Seleção Brasileira na Copa de 1982 na Espanha

Zico e Serginho com o famoso shortinho, em campo pela Seleção Brasileira na Copa de 1982 na Espanha

Enfim, continuo dizendo #NãoVaiTerCopa, mas objetificação está sobrando… #TáTendoObjetificaçãoPraCaralho! Não consegui formar uma seleção completinha dos bonitões da Copa, mas deixo os meus preferidos nesse certame:

Orestis+Karnezis+Japan+v+Greece+Group+C+0PEthobAWE4l

o goleiro grego Orestis Karnezis (28 anos — 1,89m)

o zagueiro uruguaio

o zagueiro uruguaio Diego Lugano (33 anos — 1,88m)

o atacante russo

o atacante russo Alexander Kerzhakov (31 anos — 1,76m)

o meio-campista italiano

o meio-campista italiano Claudio Marchisio (28 anos — 1,79m)

o goleiro argelino

ADENDO, já na prorrogação: o goleiro argelino Raïs M’Bolhi (28 anos — 1,90m)

a bunda do atacante brasileiro

a bunda do atacante brasileiro Hulk (111cm — e já ganhou até gif animada)

Se alguém não entendeu que não há contradição ou incoerência entre ser feminista (o título é só ironia) e a objetificação de homens e precisa de explicação sobre porque a nossa objetificação desses moços é diferente da objetificação da mulher, a Camilla Magalhães desenhou isso direitinho lá no Blogueiras Feministas, e tem também esse post da Gabi Machado específico sobre A Bunda do Hulk.

Enfim…

... :P

p.s.: #TeDedico Iara Ávila.

O machismo nosso de cada dia

Se alguma atriz que hoje é apresentadora de programa e/ou finalmente alcançou o sucesso (resguardadas aqui as noções possíveis do que é fazer sucesso) e tem destaque da/na mídia, seja isso produzido artificialmente ou não, ai dela se fez algum filme pornô ou apareceu nua em alguma capa de revista! Será execrada. Pra sempre.

Mesmo que poucos lembrem, e esses poucos quase sempre recalcados, esse “escorregão” será usado para desmerecê-la, para lembrar a todos que ela já foi objetificada e se se sujeitou à objetificação é porque a merecia, é porque escolheu, é porque é uma ______________ (preencha com o adjetivo moralista e desqualificador que preferir) mesmo.

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem

reparem, sublinhado de vermelho, o número de retweets e curtidas da postagem (já aumentou, podem conferir)

Ah, o cinema nacional teve uma fase ruim e ~engraçada~ e até homens passaram por isso. Ou, textualmente como me foi dito, “o inusitado é engraçado. O cinema dessa época é engraçado. Homens também pagaram mico nessa época, não?“. Sim, mas ninguém posta foto do Nuno Leal Maia pelado para desmerecê-lo. Né? Porque mesmo que postassem não o desmereceria. São as mulheres que são julgadas por qualquer coisa a todo o momento. Os homens tem salvo-conduto para tudo, para qualquer coisa. Inclusive para dizer que só postaram foto da Regina Casé nua num filme dos anos 80 porque acharam engraçado e não porque estavam sendo machistas.

diálogo com a pessoa que retweetou a postagem machista sobre a Regina Casé, porque achou "engraçado"

justificativa da pessoa para o retweet da postagem machista sobre a Regina Casé, achou “engraçado”

Chata sou eu em observar o machismo e “não deixá-lo rir” de uma piada tão banal, tão corriqueira, tão normal. Chatas essas feministas que não deixam a sociedade objetificar e oprimir as mulheres como bem entendem. A questão é que não estou aqui para deixar ou proibir nada no comportamento de ninguém, só não esperem que não chame as coisas por seus devidos nomes. Nomeio, denuncio, exponho. É só o que posso fazer. É tudo que devo fazer. Porque o dedo apontado para Regina Casé está apontado para mim também, e para todas as mulheres. Esse dedo está apontado para a Xuxa, para a Myrian Rios, para a Gretchen e para qualquer uma que “se deixou” objetificar em algum momento da vida. Não nos interessam os motivos pessoais que as levaram a isso, mas seria muito bom debatermos as condições de opressão que cercearam suas escolhas nesse período da vida. Não nos interessa também o que Xuxa, Myriam Rios, Gretchen e Regina Casé fazem da vida agora. É fã quem quer, curte quem quer, admira quem quer, critica quem quer. O que não pode, amigues, é julgar moralmente a pessoa e nem exigir coerência moral. Aliás, o que é coerência moral? De quem exigimos isso?

De todas essas para as quais vemos dedinhos apontados e ouvimos adjetivos serem pronunciados, apenas a Myriam Rios enveredou pela vida pública, e mesmo assim deve ser julgada por seus projetos e políticas defendidas, e não por seu passado ou pela cobrança de coerência do passado com o presente. Porque né… Ninguém faz isso com um homem na mesma posição. Aliás, sequer investigam. Aliás, um homem jamais estaria na mesma situação. Aliás, se um homem fodeu ou exibiu o pau e a bunda no cinema foi só um passeio do cidadão de bem no submundo da putaria, “não dá nada”. Aliás, putaria pra homem é mérito.

Até quando não perceberemos o que tem de machismo nas nossas atitudes diárias? Até quando apontaremos o dedo para condenar mulheres por seu comportamento sexual? Até quando o comportamento sexual da mulher seguirá nos chocando e sendo assunto público? Até quando o machismo será justificado como piada?

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas. E faz tempo.

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash "O Segredo da Múmia" (1982), de Ivan Cardoso

a cena que gerou o post no twitter com Regina Casé é do trash “O Segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso

p.s.: o tal filme da Regina Casé não é nem pornô, é um trash — O Segredo da Múmia de Ivan Cardoso de 1982. Uma época bem menos careta e moralista que essa, onde o nu no teatro e no cinema eram comuns e bem menos comerciais que hoje.

Quem quiser assistir ao filme completo, clique aqui

Leia também “Não Tem Graça”, da Luciana Nepomuceno.

Há uma luz que nunca se apaga…

Há uma luz que nunca se apaga...

Biscatiei com a morte quase toda minha vida. Sempre me pareceu uma boa ideia, extremamente simpática e atraente. Passei da infância pra adolescência me debatendo com a obrigatoriedade da vida. Não escolhi estar aqui, apenas estou. Então, por que não decidir não estar mais? Tanta gente interessante, cheia de coisas para dizer se matou, optou por não estar mais aqui… E eu adorava gente morta.

A adolescência é bipolar, né? Over na farra e na deprê ao mesmo tempo. E essa coisa meio dark, meio deprê me definia quando adolescente. Pode ser porque fui adolescente nos anos 80 e nenhuma outra época se encaixou tanto com esse sentimento, acho. É assim que percebo, daqui do meu portal.

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

— ai, que infortúnio! (Funérea, a diva gótica)

Adolescente — mas não apenas — biscateia demais com a morte. Pelo desajuste, pelas incertezas ou certezas demais, pelo que lê e ouve. E tudo na minha adolescência, completamente revolts, me levava a simpatizar com o universo suicida. Digo universo e não o suicídio em si, porque existe quem curta viver para gostar da morte. Tem até mercado para isso. Encontrar Smiths, Cure, Joy Division a partir dos 14 anos ajudou demais nesse processo.

O Calvin (filho) gostar de Smiths não é uma coincidência ou acaso. Ouço em looping There Is A Light That Never Goes Out — estou ouvindo agora –, que fala da morte como uma experiência agradável, se for eternizar aquele momento. Nada mais adolescente que isso. Trágico, fugaz, efêmero. E apaixonante.

disse em outro momento que foi essa música que me salvou da mediocridade. E não há exagero nisso. Guria pobre no subúrbio de Pelotas, não tinha acesso a outro tipo de cultura que não a massificada e massificadora. Ou se comprava os discos ou não se ouvia nada diferente do que tocasse no rádio. E minha primeira sensação de pertencimento ao mundo me veio justamente nessa declaração de despertencimento e desajuste do Morrissey. Também porque é uma declaração de amor. É triste sem ser. Trágica, fugaz, efêmera e, principalmente, silenciosa. Ele certamente escreveu o que não conseguia dizer. Tão eu. Ainda hoje tão eu. Até tatuei no braço…

minha tattoo

minha tattoo, fiz em 2013

Me leve para sair esta noite
Onde exista música e pessoas
que sejam jovens e vivas
Sendo levado no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque eu não tenho mais uma casa

Me leve para sair esta noite
Porque quero ver gente, eu quero ver luzes
Sendo levado no seu carro
Oh por favor, não me abandone em casa
Porque esta não é minha casa, é a casa deles
E eu não sou mais bem-vindo

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Me leve para sair esta noite
Oh me leve para qualquer lugar, eu não ligo
E numa passagem subterrânea escurecida, eu pensei
“oh Deus, Minha chance finalmente chegou”
Mas então um estranho medo me tomou
e eu não pude pedir

Me leve para sair esta noite
Oh, me leve para qualquer lugar, eu não ligo, não ligo, não
Apenas indo no seu carro
Eu nunca mais quero ir para casa
Porque não tenho mais uma casa
Eu não tenho mais

E se um ônibus de dois andares colidisse contra nós
Morrer ao seu lado, que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus

Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…
Há uma luz que nunca se apaga…

Curto bem mais a vida agora. Nunca me senti tão bem em estar viva. Mas isso tem a ver com a minha trajetória até aqui, e não com os sentimentos da adolescência ou por serem sentimentos “característicos da adolescência”. Isso é estigma. Tem gente que biscateia com a morte até morrer bem velhinho. O próprio Morrissey, hoje coroa — e bem mais bonitão do que da época do Smiths — mantém ainda esse tom meio deprê, nas composições e na voz.

Não biscateio mais (tanto) com a morte, mas continuo gostando de gente morta, e Smiths, Cure, Joy Division continuam na minha playlist. E ouvindo There Is A Light That Never Goes Out em looping. #DSCLPmundo

Caçando sonhos

[clica na música  e vai ouvindo...]

“O que foi feito amigo de tudo que a gente sonhou? / O que foi feito da vida? / O que foi feito do amor? / … / E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir / Falo assim sem tristeza, falo por acreditar / Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer / Outros outubros virão / Outras manhãs plenas de sol e de luz”

Quase sempre uso esses versos pra perguntar para e por amigos agora distantes onde estão os sonhos que sonhamos juntos. Raramente faço essa pergunta a mim mesma. [sim, esse post é sobre o meu umbigo]

Diante de uma foto não tão antiga, mas de um tempo que me parece agora tão distante, e da dúvida diante do significado do meu próprio sorriso me perguntei: onde estão os sonhos daqueles dias? Que sorriso era aquele? Seria sincero, sarcasmo ou palhaçada?

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

E caçando meus próprios sonhos, sonhei com coisas extremamente simples: um olhar (oi, Renata) mais generoso comigo mesma — tinha pensado o pior de mim e daquele momento, mas lembrei onde estava e para quem eu sorria… só podia ser sincero –; outras manhãs, plenas de sol e de luz em Satolep…

Podia ser mais. Talvez devesse ser mais, sonhar mais e maior, mas por agora é só isso mesmo. Vou deixar para caçar os outros sonhos depois.

amanhecer no Laranjal

amanhecer no Laranjal

Eu decido

escolha

eu + Calvin

Na ressaca do Dia das Mães, comercial e excludente, sou obrigada a reconhecer que a cada passo que damos, individual ou em pequenos grupos, no coletivo maior da sociedade estamos caminhando de costas. Na esteira do desabafo que fiz do meu desconforto com a data, veio uma enxurrada de manifestações, quase todas legais, quase todas afagos, conforto, o que faz um bem danado. Mas — sempre ele –, vieram, no privado, inbox, perguntas, curiosidades de quem não conhece meu histórico de maternidade ou o conhece apenas parcial ou superficialmente.

Nas curiosidades estava implícito a cobrança do meu ativismo na área do autismo. Tipo, como assim eu ativista-comunista-feminista não sou um expoente da luta pelos direitos dos autistas no Brasil? Oras, porque não. Porque decidi não expor o Calvin e nem nossa condição socioeconômica para que tenhamos garantidos direitos que deveriam ser universais. Simples assim.

A cobrança não fica só aí, vai ao limite da sordidez. Como assim eu me dou o direito de viver (incluindo biscatear) e não vivo apenas para o meu filho? Porque somos duas pessoas, oras, e não é justo que vivamos apenas uma vida. Cada um tem a sua vida e a vive como é possível, como faz ser possível. O Calvin depende de mim para várias coisas — quase tudo, é verdade –, e eu tento suprir suas necessidades na medida do possível. Do possível. Sim, porque não sou obrigada a me tornar heroína e ir além da minha condição humana só por que tive um filho específico.

Como seria possível ser feminista e não lutar pelo meu direito à vida, mesmo que em condições tão adversas? Como ser ativista dos Direitos Humanos e não lutar pela minha própria condição, pelo meu direito à humanidade? Como ser comunista e não lutar para ter o melhor do mundo também para mim? Está parecendo egoísta, né? É, estou falando de mim, do meu umbigo, porque foi a minha existência plena, a minha vida que foi questionada nas entrelinhas da curiosidade.

Não quero, e não vou, me tornar a madre-teresa-de-calcutá dos Lennox-Gastaut (síndrome do Calvin). Poderia justificar com um zilhão de motivos, mas vou fazê-lo com apenas um: essa escolha é apenas minha. Lidem com isso.

Leia também:
Maternidade “especial” – o que o feminismo tem a ver com isso? – Cyntia Beltrão

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