O Último Demônio

Exposição de Raquel Stanick

Exposição de Raquel Stanick

Não sei mais escrever histórias de esperança. Muito menos de acontecimentos alegres. É que cantei demais naqueles dias em que quem sabia fazia a hora, não esperava acontecer. E talvez, apenas talvez, a nossa hora tenha passado enquanto estávamos caminhando.

Ainda acordo de ressaca, sentindo falta dos afetos, que de comum nada tinham, e que brindavam conosco os dias e as noites, em viagens, palavras e encontros, reais e imaginários. Não há mais clima, estamos todos tensos e temos Netflix.

Teorizamos nossas verdades achando que alguém as compraria. Algum dia. Estamos sendo pagos com ódio e medo dos que perderam-se antes de nós. Todos, absolutamente todos, presos na mesma teia de ilusões, esperando morrer ou matar. Talvez essa seja a ressaca.

Talvez melhore a dor de cabeça, se tivermos coca-cola em jejum. Se eu me iludir um pouco mais, talvez dê para aguentar a terra plana e o abismo depois do mar. Talvez eu pare de beber porque ainda somos amigos. E biscates. Talvez, assim, consigamos sobreviver aos encontros e despedidas. Talvez.

Monto um brechó na ilusão de que foi o peso em alguma de nossas tantas viagens. Mais a sobrecarga do tempo. Vendo, troco e negocio em nome da minha negação. Você diz que eu estou fugindo, eu afirmo novos ares. E agora? Amores ou amizades?

Um Sol Sem Graça

Cara, cês já viram médic@s terem que brigar para afirmar sua profissão como importante? É isso que artistas e (quase) todas as pessoas que trabalham na cadeira produtiva da Cultura (e nisso incluo @s professor@s) tem que fazer todos os dias. TODOS OS DIAS! Para família, amig@s, empregador@s e principalmente, para si mesm@s. É que no Brasil ainda somos considerad@s profissionais substituíveis, sabe? Nas escolas ou somos encarad@s como meros “decorador@s” para festas ou de nós é exigido o domínio (teoria e práxis) de TODAS as especialidades de “nosso” campo (música, teatro, dança e artes visuais), mesmo com cursos universitários e pesquisas na área sendo entendidos como coisa de vagabund@. Da galera que tá fora de sala de aula, a maioria não consegue sequer pagar as contas no final do mês, mesmo produzindo e “vivendo” arte e cultura 24 h por dia…

Então, se isso já era difícil de lidar com um Ministério específico pra nossa área, imagina sem um?

Ah, esqueci… talvez você e eu desaprendamos a imaginar. Porque né? Imaginar não é útil em diante da tal crise que está aí, nem tampouco contribui para o crescimento de nosso País nos ditames da tal “Ordem e Progresso”.

“Olha não tem ninguém na praça/

Só tem um sol sem graça/

Não tem ninguém para ver e contar…”

“Ah, mas só foi uma transferência, Raquel…”

O único só para mim nessa história é que Cultura é um babado do campo simbólico, Brasil. Portanto, atrelar Cultura a Educação é um desserviço que ecoará na produção artística de toda uma geração. Quer praticamente dizer que toda obra ou trabalho terá que ter uma “moral da história”. E no caso desse governo específico, cara, quero nem pensar em qual seria.

Ah, eu imagino sim.  Ainda?

Peças de teatro com conteúdo bíblico? Imitações de “estaltas” gregas com saia abaixo do joelho? Cinema com mensagens edificantes sobre ser “bela, recatada e do lar”?

Num vai “dar bom” isso não…

E (ainda) por falar em Cultura, muitas, muitas mulheres, em sua maioria pobres, fizeram e fazem cultura em nosso país. No intervalo do cuidar dos filhos, da casa, depois da lida na roça, cansando olhos, costas e coração.

Para ajudar num orçamento quase inexistente, insistiram na renda de bilro, no crochê, no ponto cruz. Para continuarem vivas e darem de comer as filhas e filhos a baiana montou seu tabuleiro e a paneleira acendeu seu forno de queima de cerâmica.

Talvez, também, para insistir em belezas cotidianas no meio de tanta dor? Acredito que…

No entanto, apesar disso acontecer desde que fomos “descobertos”, muitas dessas mulheres, até hoje, se envergonham do que produzem e não sabem “botar preço” no próprio trabalho. Porque, talvez, ainda não o entendam como tal?

Aí o “gênio” da moda, o chef estrelado, a loja no shopping se apropriam de suas criações para que a madame e o senhor, que contribuem com essa injustiça e alienação, ao acharem exorbitante pagar R$ 50 num “paninho”, desembolssem contentes R$ 50.000 numa peça que quem produziu jamais conseguiria pagar. Essas mesmas pessoas não sabem porque se chama alta costura a alta costura. Artesanato, senhoras e senhores. E cultura!

O valor do humano ali na sua frente, materializando tempo, paciência e heranças.
No país do quartinho de empregadA ainda temos muito que aprender e deglutir.
Por exemplo: que não há beleza alguma na morte da representatividade (essa morte em vida), não há apaziguamento possível diante da tentativa de nos calarem.

Porque de tantas formas “eles” tentaram, que aprendemos a “falar” e nos fazer entender de formas que sequer imaginam, esses sinhozinhos… mesmo quando parece que estamos servindo. Invisíveis. De joelhos.

Também aprendemos a ver, porque aprendemos na porrada e com o olho roxo, o que é feio e vil. Ainda que chegue-nos disfarçado como suposto respeito e consideração.

Portanto, não é “favor” algum dar-nos, enquanto mulheres, UM cargo de fachada num ministério extinto. Somos metade desse país, porra! Então é isso! Vai ter LUTA, SEUS MERDAS!

E lembrem, somos biscates… “Com a nossa rapa você não é capaz!”

 

Novelo

Início: 06/05

Para Ângela e Duda.

Meu pai está morrendo.

O facebook e suas lembranças. Lunna me escrevendo há alguns anos dizia-me...

“Somos diferentes, não é mesmo? Talvez por isso você tenha disparado aquela pergunta em nosso último diálogo. Você se lembra? “por que?” – indagou você. Eu não sei o seu tom de voz. Nunca nos falamos se não por palavras escritas. Então imagino um tom acima, animado que vai se silenciando enquanto o discurso é feito. Não teve pausa o seu questionamento, mas eu a inseri aqui para dar o peso necessário a esse discurso que chegou a mim assim “eu me pergunto porquê eu insisto em conversar com você”…”

Meu pai está morrendo.

Lunna. Ah, Lunna…

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”. – Carlos Drummond de Andrade.

Meu pai está morrendo.

Falamos de amizades, sororidade e rupturas.

Penso cinematograficamente. O que é complicado, tendo em vista as inúmeras possibilidades dessa forma de fazer e viver arte. Sem roteiro fica complicado. Do que eu ia falar mesmo?

Meu pai está morrendo.

As personagens aqui: Mãe, Beth, fogo, menstruação

As personagens fora: Leide Jane, Raísa, Camila, HipHop, Feminino Sagrado

Bijoux. Paciência. Bela, recatada e do lar. Bruxas.

Meu pai está morrendo.

Novelo Prateado. Fotos Performance LuzdelLuna

Cabelo Branco. Gatos. Fonte. As coisas que aconteceram.

Lu, Cláudio, visitas. Lunna reaparecendo. O texto de Lunna.

Filiação ao Psol.

Meu pai está morrendo.

Novelo do Mundo

Pensei em não pintar mais os cabelos, criar muitos gatos, banhar-me no chafariz Felliniano que ia instalar em sonhos no jardim. Pensei em consolar-me ranzizamente em ervas, cristais, esconjuros, benzeduras, divinações e na paz de andar nua e descalça na grama. Mas é que tem maldade andando nas ruas e “pessoas assim” podem morrer assassinadas a qualquer momento.

Meu pai está morrendo.

Enfim… muito tempo sem escrever. Acho que perdi o jeito. O prumo. As rédeas. As palavras. Elas tomaram conta do ambiente e se esparramaram sem controle.

Meu pai está morrendo.

A sensação de não caber no que esperam. Do que falo eu que possa interessar? – questionei durante o todo tempo em que a pesquisa e as palavras ficaram em pause. Organizando o caos no Word. Peço ajuda porque sim. Dependo dessa (re)construção coletiva do que tenho apreendido de mim e nos outros.

Das certezas: grande parte das minhas crises existenciais rolam quando eu estou com fome ou com sono. As maiores quando estou com fome E com sono. Mas sou teimosa demais para me admitir tão óbvia assim. Dramas de uma taurina.Parte superior do formulário

Meu pai está morrendo.

Hoje é o primeiro dia de Lua Nova. Em algum momento vai fazer sentido, sussurra-me o homem com a voz do deus. “Invento o amor e sei a dor de me lançar”. Repito baixinho e timidamente antes de prender a respiração para esquecer os medos todos. Bobos.

Mergulho.

Meu pai está morrendo.

Todas Essas Coisas Sem Nome – 5o Capítulo

Esse é o quinto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

8

Não sei se você entende o que me ofereceu. Talvez eu também não. E o que depois me negou quando eu não consegui mais mentir meu desejo, que eu estava tentando aos poucos, nesses últimos meses, que voltasse a desabrochar em alegrias cotidianas.

Cheguei agora do psiquiatra, depois de muito esforço em sair da cama, porque eu tinha que sobreviver. Comer. Parar de fumar um cigarro atrás do outro. Ter horários condizentes com o resto do mundo. Porque tive uma proposta de trabalho que vai pagar meu aluguel do mês que vem, e hoje soube que alguns trabalhos meus não foram aprovados em um festival qualquer. Porque ainda tenho milhões de projetos a serem executados e já gastei o dinheiro que recebi por eles. E não me pergunte como, pois você sabe.

Não quero mais ter que pedir ajuda financeira a minha mãe, como ela me lembra sempre em quase todos os telefonemas que trocamos. Porque eu tive que brigar até para comprar um fogão – que sei, terei preguiça de usar -, preferindo sempre comer fora, logo, gastando mais. Porque eu não tenho número algum nas entradas financeiras do meu caderninho amarelo.

Porque já me sei apenas uma mulher, e dói, dói. Dói ter que me saber também em você. Não quero. Não, obrigada, não quero. Repeti, repeti e repeti. Você não precisava ter que me mostrar novamente o quanto era amargo e doce, para logo depois continuar em sua trilha cega, morrendo de medo de você mesmo. E de mim. Já fui muito bem criada por uma família de loucas. Decorei meu papel, e bem. Não precisava se preocupar tanto.

Claro que você sabe do que eu estou falando, ou você acha que eu também não estava lá?

Acha que não fui eu quem arrumou em perfeita harmonia estética os remédios da minha loucura, e em suas caixas escrevi horários em vermelho para não confundir tudo, junto com uma escova de cabelos, a carteira de cigarros, dois isqueiros (um vermelho e um verde), um cinzeiro com duas piolas dentro, um perfume de frasco lilás, um hidratante com cheiro bom, o celular caro que fotografaria essa cena – mas que tenho que levar na assistência -, um outro aparelho que peguei emprestado, (enquanto não faço isso com meu pai), um pen drive e um fone de ouvido?

Mas tem muito mais coisa aqui nesse móvel que sobreviveu à falência de um bar, que outrora abrigava uma máquina de crepes, e que ficou numa casa que já considerei minha. Mas que nunca o foi, quando de lá fui mandada embora tantas vezes entre gritos e ameaças.

Cores, texturas, projetos, leituras. Não deu para descrever tudo no pouco tempo que nos demos. Ou até daria, mas levaria mais vidas inteiras – que você escolheu tentar viver sem mim.

Penso que você gostaria de ver a tal arrumação, eu achei bonito quando finalmente parei e olhei, logo após guardar a feira feita depois de pagar o aluguel e a conta de energia. Ah, e de ter ido visitar a pessoa que ainda acredito poder me salvar da alienação, junto com as palavras que insistentemente escrevo, mesmo morrendo de medo de pedir e oferecer ajuda em alto bom som.

Depois de fazer essas coisas, finalmente pude gritar sem me importar com os vizinhos: “Pronto, estou louca, louca, louca, louca!”

Tranquilizo-me ao lembrar que tenho meus remédios e os dias que passam. Porque nem tudo é poesia, meu amor. E em toda loucura existe a possibilidade de crueldade. Ou de amor.

Sua condição – a que eu briguei muito para não aceitar -, foi a de me reconhecer doente. E eu achando que era apenas paixão.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

(link pro quarto capítulo)

Todas Essas Coisas Sem Nome – 4o Capítulo

Esse é o quarto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

12

Estou doente. Falo contigo enquanto engatinho tentando me arrastar de volta pra cama vazia. Ela. Eu também. O vazio é uma espera, poetizo. Mas estar de joelhos não é fácil para ninguém. Nem para pedir, muito menos para apoiar um primeiro pé que sirva de impulso para o corpo inteiro seguir junto com a necessidade de levantar. E continuar sobrevivendo.

Por onde você anda? O que tem feito?

Eu sabia que seria estranho. Você não fode nem trepa – faz amor -, me contou  na primeira noite.

E eu olhando estranho seu jeito estranho de me olhar, como se fosse uma mentira o que te flagrava desvelando entre cervejas e joelhos que se encostavam.

Você pinta e eu abomino suas criações, não quero ser mais uma, falei em tom de brincadeira de artista contemporânea cool. Mas era verdade. Aí teve o beijo, teve a porra do seu beijo.

Teve você me beijando e falando e salivando que verbalizar trepar era vulgar. E eu levantando a mão: presente!

Te mostrei meu sutiã vermelho e rimos. Também seus telefonemas “só para escutar minha voz”, e eu gelada fugindo da sua. Estava trabalhando.

Então teve o dia em que você me recebeu em seu abraço e massageou meus pés e, golpe baixo, você os beijou. Aí eu já estava em suas mãos, homem. Flagrei a adolescente que nunca fui, quando hesitei em ir para o quarto. Porque eu sabia, eu sabia, que você ia me foder. Literal e metaforicamente. Mas o que fez aquela noite foi amor, deixando-me atordoada, tanto que, canalhamente, vesti uma roupa apressada e saí em busca de um cigarro e de um abrigo. Apenas porque eu não podia ficar daquele jeito, tão nua, brega, vermelha e sóbria, sentada no seu banheiro com a cabeça entre os joelhos tentando parar de tremer para, logo depois, ensaiar na frente do espelho meu imbecil ar blasé.

Mas não adiantou. “Eu sou uma farsa” -, pensei enquanto me aconchegava no seu peito e descansava de mim naquela rede tão branca, tão porto, tão firme, tão certa.

“Você tem cara de menina de dezesseis anos com o primeiro namorado.”

“Desde menina que eu não sou mais menina.”

Era a verdade até aquele momento. Você lembra?

Estou triste. Mesmo. As razões são muitas. Mas sei que não é só isso. Ou só por isso.

Não sou de todo imbecil. Mas quem disser que mergulhar em suas próprias motivações, aquelas, escondidas por baixo de todas as confortáveis mentiras que contamos a nós mesmos é fácil, me indique o método. Ou uma anestesia. Porque quero evitar pensar no que me dói de verdade.

Nunca fui muito corajosa. Sei que existe tanta coisa mais importante, tanta gente mais legal… Essas frases tão suas que tentaram escrotamente me consolar. E, sim, eu já sabia que ia dar nisso. Essa neve toda. Que você me deixaria nua e sozinha no frio do Ártico.

Mas não ligue para o que eu digo, você me conhece e sabe que eu sobreviverei.

Sempre existem as possibilidades.

Ontem. Em que era muita gente culta para pouca referência bibliográfica na parte que me cabia naquele latifúndio. E eu que nem com óculos de leitura me enxergo mais nas citações de Clarice, porque parei de chorar e, muito menos encolhida, fiquei foi dançando pequenininho, numa timidez que não estava escrita. Torcendo para que outro avistasse em mim qualquer coisa além das aspas.

Algum dia poderemos nos ver novamente?

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

Todas Essas Coisas Sem Nome – 3o Capítulo

Esse é o terceiro capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

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Boa leitura!

21

Quando nos conhecemos eu tive a certeza de que seríamos apenas mais uma história triste, escrita com caneta a manchar-me os dedos no diário de capa vermelha. Sabes que carrego esse romantismo que desconstrói todos os meus discursos revolucionários, só para caber na fôrma que me é oferecida, ao mesmo tempo em que me faz vestir armaduras para combater em nome desses mesmos discursos. Um romantismo que é fardo… e asas.

Não, não foi seu olhar que me deu essa certeza, mas sim o espelho que trazes nele. Desde o nosso primeiro encontro.

Dia desses ligou um cara às quatro e meia da manhã. Não atendi porque não vi. Nada demais. E mesmo que tivesse visto, provavelmente não o atenderia.

Ele insiste – depois de termos entre bebedeiras e vontades -, que não é “isso” o que foi. Isso o quê? – dá vontade de perguntar: “Vontade de mim? Como a que também te fazia ligar sempre que bebia?”

Ah, eu sei. É só porque ele ri comigo, se sente à vontade. Mas só de ligar. E de falar sério. Falar besteira. De apenas escutar em silêncio minhas coisas todas. E rir novamente. E sentir vontade de novo. De comentar o filme. O trânsito ruim. Do seu dia. Da noite de ontem. De escutar uma música e acha-la a minha cara. Lembrar-se de lembrar, se por acaso nos encontrarmos, de contar. De tal artista. A tal piada. Os fatos.

Não, eu não sou a tal. Não precisa me lembrar. Eu sei que ele quer ser apenas meu amigo, como você também disse, ao se despedir, que um dia conseguiríamos.

Também houve um. Outro. Quarenta e oito horas de anestesia. Mentiras amigas, daquelas antigas. Num quarto de hotel turismo em corpos e garrafas. Fez as malas e foi embora. Deixando-me com a bagagem de sempre. Tudo de anterior. Pesar, saudade, medo.

Dor.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

 

 

 

Todas Essas Coisas Sem Nome – 2o Capítulo

Esse é o segundo capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club. As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

17

Entrei no chuveiro gelado. Esfreguei com força a boceta. Penteei os cabelos com raiva. Nunca pensei que no inferno era tão frio.

A estação continua. Ainda não choveu o suficiente.

Enquanto eu observo os galhos secos das árvores lá fora, lembro-me das veias nas mãos da minha avó. Eu fumo enquanto penso na minha avó. Se ela gostaria de você…

Olho minhas mãos com extrema atenção enquanto levo o vinho aos lábios e acendo um cigarro no outro.

Tenho andado aterrorizada com mãos que tremem e esfregam.

Sou apenas mais uma boceta no mundo. Num corpo que sente, pensa, e acha tudo tão ridículo. Meu coração está entre as pernas, você me contou e eu só queria o desejo de me tocar e enfiar-me dedos, mas é inverno, querido, é inverno.

Só consigo lembrar é da minha avó que já morreu.

E tornar a encher o cálice de mais vinho.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

Todas Essas Coisas sem Nome – Prefácio e 1o Capítulo

Esse é o prefácio e primeiro capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

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6

Para W.

Eu queria te fazer feliz. No meio da estrada, no meio do mundo.

Como contar apenas agora que estou só nossa história?

Poderíamos ter tentado antes. Quando você sabia, eu também.

Mas ficamos em silêncio. Calar a boca era o mínimo que devíamos ao cinismo e a todas essas coisas sem nome que nos obrigaram a permanecer assim. Mesmo.

Ainda somos a geração dos que morrem de medo. O tipo de gente que sempre pode tentar ser novamente feliz para sempre – como na música que ainda não acabou de tocar.

As palavras que poderiam ter nos servido de salvação, foram embora cedo demais.

Nós também, meu amor, antes mesmo de termos começado a acreditar um no outro.

Inverno

“Meu coração tropical está coberto de neve,
 mas ferve em seu cofre gelado,
 a voz vibra e a mão escreve mar
 bendita lâmina grave que fere a parede e traz
 as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais.”

 (Corsário- João Bosco cantado por Elis Regina)

I

Porque eu ainda acredito que você possa mudar de ideia, escrevo. Sinto-me com setenta anos, e hoje tentei não me olhar no espelho. Também não saí por aí tentado entender e perdoar em outros corpos o aprendizado que fostes. Sim, fostes. Algo… Ao menos.

Mas confesso que me sinto muito, muito aliviada sem a expectativa opressora de ter que reencontrá-lo. Acontece que sem ela tenho me cuidado muito mal. Não posso culpá-lo, nem a mim. Isso me envelheceu demais, sabe?

Tenho agido no automático. E uma das poucas coisas que tenho feito de forma consciente, é drenar o tom emocional de nossa última conversa. Tentar entender o que realmente foi dito, sem tantos sinais, exclamações, acusações ou enfado excessivo. Sem entonação, sem riso, sem grito, sem desejo.

Nada era tão bom, nem tão ruim. Penso e arrepio de medo. Fui nossa história por um tempo. Sozinha. Não posso esperar mais nada de você, nem mesmo uma leve culpa, isso me causa horror, como se espíritos maus estivessem me roubando alguma coisa muito importante ao passar roçando seus lençóis em mim. Procuro nas gavetas e dentro dos bolsos. Onde é o lugar certo de guardar as ilusões do para sempre?

Escrevo, escrevo, escrevo. Escrevo para não enlouquecer. Até a raiva é mentira. Talvez sinta apenas uma leve vergonha. Tenho uma comiseração nojenta ao assumir isso.  Sinto pena de mim, eu estou com muita pena de mim. Mesmo. Mas é uma pena intercalada com uma total frieza. E desprezo.

Penso que quando se sente dessas coisas, deveríamos apenas narrar fatos. Como numa necrópsia. Mas ninguém morreu. Ninguém sofreu. Ninguém está feliz também, já que a sua felicidade com ela é apenas mais uma ilusão. Torço os dedos e bato na madeira para que seja isso.

Estou definitivamente congelando aqui. Querendo agradecer de joelhos por isso. Dizer: “Moço, você me salvou de mais uma idealização. Obrigada, Obrigada, Obrigada.”

E depois, chamá-lo de canalha. Mas só depois de ser educada e contida. Aí eu vou me convencer. Nunca conversamos. Nunca trepamos. Continuarei fantasiando nas músicas, nas coincidências e no gozo solitário de depois do almoço.

Não quero mais escrever tristezas, no entanto, que diferença pode fazer agora?

Talvez eu ainda me importe.

Merda.

Hoje Eu Me Diverti Muito…

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Começando no shopping. Fui pra pagar as contas da Marisa, porque né? Depois de ter o crédito cortado em tantas e num sei quantas lojas (não, não vou me explicar…) é aonde ainda posso comprar em não sei quantas vezes.

*Obrigado, Marisa, por me fazer todo mês ter que ir até à sua loja mais próxima pagar meu cartão e consumir mais… (Sim. É isso mesmo: não discuto propaganda machista da Marisa porque não posso pagar à vista em outros lugares, me julguem…)

Mas enfim… É … enfim… o limite do cartão da loja amiga dava apenas pra bolsa lindona de creusa, costurada provavelmente por escravxs (bolsa só troco a l’única de mãe solteira “básica” de dois em dois anos e já fazia três desd’aquela grana e Jah é legal e eu tenho bom gosto, por necessidade e tals (sim , podem me julgar pela escrita necessária de caraminholas entre parênteses, eu deixo).

Enfim, enfim, enfimmmmmmmmmmmmmmm… comprei a tal da bolsa lindona de creusa. Pedi em preces enquanto anotava as parcelas, que visse (por favor!) de mão de obra honesta, inocente que sou…

Daí que depois de arrumar troços numa praça de alimentação e dar a bolsa antiga (saudades para sempre em meu heart!) pra moça da praça de alimentação, pedindo desculpas e tals (mas era só para não acharem que eu estava jogando uma bomba na lixeira), capitalista que sou, e já me sentindo mais dadivosa, senti no âmago do meu ser que precisava de uma nécessaire. E de uma carteira. Cronometrei R$ 40,00 reais e uma hora em lojas populares.

Até que ela chega, aquela biscate sensual, me oferendo em voz rouca e lúbrica:
– Você já tem o cartão da… (inclua o nome da sua empresa aqui depois de pagar nossa percentagem). Fazer o que? Eu disse sim, facinha que sou. E que horror, aprovaram-me créditos e ainda me deram 1.200 royais com dez por cento de desconto apenas pra ontem.

Ai. Ai.

Não podia comprar a sandália a mais nem tampouco aquele jeans. Mas eu o vesti. E lembrei. Que há mais de seis anos eu não em permitia comprar nenhum jeans que custasse mais de R$ 70 pilas. Daí aquela calça me abraçou em gostosuras, e sequer pinicava em troca do carinho oferecido, vejam só que horrror!!! E porra, a sandália era linda e acreditem eu só tenho sete pares dessas coisas de pés…

Comprei mais. Comi no chinês e ainda cometi a insanidade de pegar um táxi pra casa. Desculpem.

Aí eu decidindo morrer porque “como assim eu posso pagar?” a amiga ligou. E eu tinha tanto para fazer, mais contas inclusive. Mas né? Saímos para comemorar aniversário. Porque ela sempre foi dessas.

Me diverti ainda mais.

Ca cara daquele cara quando eu disse que eu mesmo pagava minha conta e não íamos esticar pra porra de lugar nenhum. Ca cara daquele outro quando eu disse que ele era ridículo por achar que… Ca cara de tacho quando eu disse que não, eu não tinha emagrecido, e na verdade aquela era uma comemoração não só do aniversário da amiga, mas também do meu novo manequim de calça jeans, bem maior desde que…

Então. Sério. Né? É isso que é ser LibFem? Me emponderar aos quarenta anos, depois de muitos abusos em prestações? Te pago uma cerveja e daí você me explica melhor, ok?

Um conto para o não-dito (ou ainda: a linguagem do desejo)

dito

Ela: – Um tal cara ligou às quatro e meia da manhã desses dias. Não atendi porque não vi. Nada demais. E mesmo que visse. Provavelmente não. Ele insiste, depois de termos entre bebedeiras e vontades, que não é isso o que foi. “Isso o quê?” – dá vontade. De perguntar. Vontade de mim? Como a que te faz ligar sempre que bebe? Como a que se infiltra nas ligações não atendidas do meu celular vez ou outra?

Ele: – Ah, eu sei. É só porque ela ri comigo. Se sente. A vontade. Mas só de ligar. E de falar sério. Só falar besteira. De apenas escutar em silêncio minhas baboseiras todas. E rir de novo. E sentir vontade de novo. De comentar o filme. O trânsito ruim. Do seu dia. Da noite de ontem. De escutar uma música e achar minha cara. Lembrar de se lembrar, se por acaso a gente se encontrar, de me contar. De tal artista. A tal piada. Os fatos. Não, eu não sou o tal. Não precisam me lembrar. É, eu sei. Que ela quer ser “apenas” minha amiga.

Ela:- Eu escolheria um nome menos comum, principalmente porque ele fala prazer em te conhecer bem baixinho. Também sobre deuses e mitologia. Observa fixamente tela e olhos. Anda como um felino, languidamente e, no entanto, é surpreendentemente estável e forte. Seu parentesco com os gatos de rua, é que nada parece que vai assustá-lo ou tirar seu equilíbrio.

Ele:- Você nunca foi naquele bar. Era meu território e eu me achava em segurança. Então, é claro que eu estava desarmado. E entenda também, quase dois meses que eu não te avistava, estava me sentindo quase curado, quase não doía mais. E aí quase. Quase acreditei que manteria firme a decisão de nunca mais. Mas você saiu de onde eu não te podia, naquela mesa lá longe para beijar um outro. Doeu tanto que eu roubei um microfone e fui berrar minhas dores. Você me olhava e eu me senti tão ridículo ali, tão bêbado, tão de joelhos, tão “sem sentir meus pés no chão” que fui aplaudido de pé quando terminei minha apresentação de desespero. E você foi embora para que eu conseguisse conter as lágrimas e o ódio e a vontade. Aí teve o Sábado. Novamente. Teu olhar firme me acompanhando sem motivo algum. Eu fugindo para procurar pela janela, minha vergonha. Porque eu te queria e te quis tanto. Domingo. Te quero. Ainda. O outro mostra tua mensagem no celular. Depois a tua rouquidão nos nega no viva-voz, se nega para mim, me nega para si mesma.

Ela:- “… E, mesmo assim, estarei sempre pronta para esquecer aqueles que me levaram a um abismo. E mais uma vez amarei. E mais uma vez direi que nunca amei tanto em toda a minha vida.”

Ele: – O grande problema, meu amor, é que as pessoas preferem nossa versão editada. E eu não vou mais desperdiçar uma boa cena apenas para agradar o grande público.

Ela:- Três vezes. Choro escutando o galo cantar. Acordo com sua crueldade e frieza me fazendo doer as têmporas em laranjas e amarelos. Coloco os óculos escuros e tenho que enfrentar a verdade ao voltar para casa. Você nunca.

Ele: – Para sempre, seu.

Hipocrisia

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

cartazaborto

Há alguns anos eu engravidei. Decidi ter a criança. Os dois pequenos fragmentos abaixo foram escritos no meu blog, em dias diferentes na época em questão, e contam um pouco do que aconteceu.

“Eu estava grávida. Até hoje. Perdi meu filho e minha confiança no serviço público de saúde e na empatia que acreditava natural entre os seres humanos. Comecei a sentir dor, um dia depois de passado o medo, finalmente ter me rendido à alegria e sair espalhando a notícia para todos os amigos. Rindo. Hoje fui para o hospital com J. Uma amiga não achou normal o sangramento. Nem a dor. (…) Esperas. E esperas. Mais. Até que uma mulher que não sabia meu nome, nem nenhum outro, nem minha história nem nenhuma outra, disse-me que não havia mais nada. Nem nome, nem história, nem espera. Friamente. Cruelmente. E resultado nenhum vale mais que seu diploma. Amém, amém… deuses todos eles. A atendente que queria saber minha profissão, o médico que viu a dilatação, o enfermeiro que mediu minha pressão. Deuses de pedra. E eu carne e sangue. E nada.”

“Terça-feira passada a dor me fez voltar ao hospital. Outro ultrassom, outros médicos impessoais. Fui internada. No quarto coletivo, mulheres e seus sofrimentos. Havia uma menina de dezesseis anos, uma mulher de quarenta e um. Outras. Mais. Todas perderam ou estavam perdendo seus filhos como eu. Sentiam dor como eu. Como eu, ficaram vinte horas sem comer até aparecer um anestesista que nos dopasse para arrancarem os últimos resquícios de uma maternidade que não aconteceu. O nome disso é curetagem. Quando acordei estava numa enfermaria com outras mulheres e seus recém-nascidos filhos. Entrei em choque. Quis ir embora, mas tive que assinar um termo de responsabilidade e passar os últimos cinco dias em casa, quase sem me mexer. Dor. Dor. Dor. Ainda. Acho que para sempre.”

Hipocrisia.

A hipocrisia não permitiu que eu tivesse um atendimento rápido, me mandou para casa sem nenhuma medicação para sofrer uma hemorragia. A hipocrisia matou meu filho. E me fez voltar para o mesmo hospital para ser tratada como uma pária dias depois. Achando pouco, a hipocrisia me acordou num quarto com recém-nascidos.

Hipocrisia. A única explicação que encontro e que fui obrigada a engolir junto com minha dignidade foi a de que me trataram no hospital “assim”, porque claro que eu, fêmea traiçoeira, filha de Eva, tinha “propositadamente” abortado.

Espera de horas, ironia, secura.

E se fosse? E se é? Porque não tive o direito de ser tratada com dignidade e respeito como qualquer pessoa que fez uma escolha?

Hipocrisia!

Aquela que só de substituir a palavra “pessoa” por “mulher” faz quase todo mundo mergulhar em relativismos. Que diz que, se como “mulher” não cumpro com minha obrigação maior que é parir, seja lá por que motivos, minha vida não vale nada mesmo.

É disso que trata discutir sobre aborto.

Da vida de pessoas. Que querem ter filhos. Que não querem ter filhos.

Da minha vida.

Da nossa vida.

Eu poderia ter morrido. Tive sorte. Mas até quando é apenas com a sorte que poderemos contar?

Pequenos Prazeres: Tempo

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates

#PequenosPrazeres

O mundo anda bem agitado e eu por aqui tenho andado meio que encaquifada, assim como que estranhando sua velocidade, que sei também minha, já que, afinal de contas, sou mulher desse tempo que agorinha mesmo escrevi.

Então pois, não sei se é coisa do por dentro ou se realmente o tempo tem parecido cada vez menor, brincando de tomar a porção do encolhimento lá no País das maravilhas da Alice.

Tempo.

Falar desse senhor sem idade pode nem parecer tão interessante assim, quando imagino prazeres e ah… as possibilidades… mas o sino dos ventos murmura com a ajuda da brisa fugidia nesse verão que ainda não começou, que talvez seja isso mesmo…

Tempo.

tempo

Para andar descalça, tomar banho de mangueira pelada, deitar na grama. Perder as horas dando e recebendo cafuné, alisando costas, experimentando arrepios, até encontrar-me no aqui, agora.

Tempo.

Para as risadas compartilhadas, a saliva antecipando sabores, o corpo se abrindo para a experiências de fome e saciedade enquanto deixo cozinhando lentamente uma delícia planejada na panela de barro, que um dia ainda vou comprar naquele mercado que estive não lembro direito quando.

Tempo.

Para o ritual do embelezar-se em canela, erva doce e hortelã, para a purificação em arruda e sal grosso, para mante-me corajosa em pimenta e girassol. Plantados nessa minha terra, com minhas mãos cheias de propriedades. Para experimentar todos esses cheiros também naquele outro que amo, o que agora dorme ao meu lado. Para raspar as pernas lembrando da meninice quando apenas imaginava que sim, sim, sim. E ria, ria, ria…

Tempo.

Para fazer todas as esperas transformarem-se em alegrias, delicadezas e gozo.

Tempo.

Para estar pronta quando. Para nós dois.

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