“Por isso é que caminho como antes
Adulta e austera.
Acrescida de véus me mostro aos viajantes:
Vês a mulher, aquela?
Dizem que a cara é de cálice e pedra.
Que a luz das ilusões passou por ela.”
Hilda Hilst
Viajante, a caminho, no caminho
Ah, a biscatagem. As risadas, os olhares, o corpo entregue sem ressalvas, o remelexo nas cadeiras, a vontade de ir mais e além. Todos os dias. Desde que se entende. A antecipação ao se olhar no espelho antes de sair de casa para se reconhecer na alegria, no riso escancarado, nos arrepios e abraços, no sangue quente, no coração batendo apressado, nas propostas aceitas cotidianamente.
Também as notícias tristes, a morte de mais mulheres, a violência presenciada na rua enquanto se ia comemorar o viver, o grito alto mesmo assim, o risco, um medo que não cabe em uma só quando não se consegue mais fechar os olhos, a luta diária pelo que se acredita ao menos ético num mundo que tem idolatrado os relativismos, principalmente quando servem para justificar maldades. Poucas e frágeis certezas.
O de repente alguém falou. Ainda. As lembranças, os fantasmas. Ciúmes. O que foi e ainda é preciso esquecer.
Levantar mais um dia sabendo que sim, vale a pena, mas não vale tudo. Porque tem o que se cala e o que se conta. O que era vidro e se quebrou. Horas certas para fechar portas e janelas, porque tem barulho demais, ameaça demais, cansaço demais. Tempestade.
Meu limite. Daqui não passo.
Mas o tudo passa, moço. O tudo sempre passa. Até lá tentamos nos proteger.
Meu corpo. Todos os seus buracos, ausências, cheiros, sabores. Com todos os seus detalhes, que algumas pessoas tão bobas chamam de defeitos ou abrigo para a maldade para em revistas e religiões insistirem em ensinar a modificar, odiar, estranhar, machucar, transcender.
Meu corpo mergulhando nas noites marulhosas, em rituais cercados de sensações e afagos com gosto de sal. Liberto das convenções sociais, dos espartilhos patriarcais, de falsas obrigações inventadas para tentar dominá-lo.
Meu corpo para um outro. Orgulhoso, entregue, feliz, satisfeito, exausto. Sem medo.
Tantas possibilidades apre(e)ndidas em abraços e alegrias. Meu corpo conhecendo em toques e delicadezas. Em ânsias e desespero. Com pressa. Devagar. Aqui. Ali. Acolá.
Corpo com seus gozos e calafrios. Temperaturas, calores, febres e suores.
Gosto dos livros, mas aprender, aprender mesmo, faço é através dos meus afetos. São as pessoas que escolhi e que me escolheram para estar em suas vidas que me apontam o que eu preciso saber. Escutar suas histórias, franzir a testa, gargalhar junto, brigar ou me afastar por um tempo se for preciso. Tentar entender. Não por elas, que não sou tão boa assim, mas por mim mesmo. Perguntar muito. Também. Cruzar as pernas quando tudo me parece coerente demais, eu que sei o quanto é fácil desempenhar papéis com roteiros pré-estabelecidos. É por afeto que prefiro não me convencer. É por afeto que desafio o outro a ir um pouco mais além, a olhar por um outro ângulo, a construir junto comigo uma ponte entre nossos abismos.
Isso não me faz o que se poderia chamar de uma pessoa confortável, nem muito menos me justifica. Mas talvez fosse o cerne do que, pelo menos para mim, me tornava uma biscate. Todos os dias. O que me fez escrever aqui.
Sei que não sou a pessoa mais indicada para dar conselhos equilibrados, disso também já me contaram, mas essa minha característica, que a Luciana chamou de tendência à subversão, é também o que faz sentirem que sou alguém em que se pode contar o que para alguns outros seria chocante, como me falou dia desses a Sílvia. E sim, eu me orgulho disso.
Mas não foi fácil também para mim mantê-la, descobri. É, até o que achamos que é qualidade pode se tornar prisão. Desafiar as pessoas, porque é disso que estou falando aqui, foi apenas a forma que encontrei de cortar pela raiz a doçura. E sim, eu sei, é horrível. Mas sou dessas. Ou era.
É que uma das pessoas que conheci, mas que talvez não chegue a tempo de abraçar como desejo, me fez encarar frente a frente minha sombra, como acontece algumas vezes na vida, e ora, vejam só, o que me assustava tanto, o bicho papão escondido embaixo da minha cama, era a minha imensa capacidade de doçura e que eu acabei confundindo com simples submissão ou uma mera tentativa de manipular quem eu queria bem, como se não fosse isso também o que eu estava fazendo com meus constantes desafios aos outros.
Pois é, minha sombra era apenas uma menina assustada demais. E digo era por também entender que esta tal de sombra é mutável, como todo o resto em nós.
Mas enfim, amor é mesmo uma palavra em que cabe montes de outras dentro, para muitos é apenas um substitutivo para Deus, talvez por não ser esgotável ou explicável. Mas para mim, pelo menos por esses dias, que mais que nunca sei da efemeridade das minhas próprias certezas e versões, tenho chamado, em sussurros, de ternura.
Podem, pois, me chamar de biscate doce de coco. Por enquanto.
Pois é, existem esses dias, eu que também sou dessas. Assim mesmo. Em que qualquer esforço é tremendo, porque canso de tanta humanidade. Nos outros e em mim.
Dias em que estar doente é uma desculpa do corpo para dizer não a uma vida que fala alto e depressa demais fora daqui, desse meu quarto de parede branca, tijolos aparentes e lençóis azuis.
Para esses dias não tem receita, e sim confortos dos grandes, médios e pequenos. A poesia de Vinicius, elixir e benção. Vontades de chá com salsa. Camisola vermelha com barra de renda falsa. Pés no chão. Cabelos pedindo pente sem recebê-los. Mentiras necessárias.
Também gritos de cansaço diante do inexorável não eu, que exige em tiques e taques o que tenho tão pouco para dar. E ainda num ritmo que não me pertence.
Para esses dias, que também me cantam, não existe trilha sonora. Talvez umas cigarrinhas aqui e acolá logo mais à noite, impressão de alguns latidos fiéis que nos cuidam aqui nessa casa longe do tudo. As vozes dos meus pais jogando canastra no terraço. Nada muito perto, no entanto.
Porque para esses dias guardo meu melhor. Meu pior incluso. Porque nesses dias eu me guardo.Dias só para mim.
Não era para você ter-me dito sim. Ou assim. Para mim que ando aos tropeços porque a retidão não me apetece, a simplicidade da sua resposta me entonteceu, as linearidades do querer me fazem errar direções com olhar e coração sem bússolas.
Como me disse um amigo, talvez eu realmente estivesse precisando do seu texto. Do seu mote. De um norte.
Ou foi só pretexto para o que eu não quero mais escrever? Noites vazias, palavras ocas, personagens secundários num roteiro de mulher complicada e enlouquecida?
Se for isso é feio e mesmo assim. Preciso de nossos adjetivos para contar o meu impossível. Que eu posso dormir bem à noite e que talvez, apenas talvez eu queira que você acorde os dias em mim.
Metáforas podem ser confortáveis maneiras de mentir. E eu sei, eu sei que é assim que me esquivo. No entanto era ontem e apenas dez minutos num bar lotado para que eu notasse que a ingênua talvez seja eu, que acreditei por muito tempo que podia comigo sozinha.
Que seja assim então. Da forma complicada com que escolho meus simples. Com a ainda ilusão de que fui apenas eu que escolhi.
Porque eu não sei se sim ou se não isso de paixão. Talvez a única verdade seja desejo. De escutar. A última história do porteiro, a encantação das mulheres que fizeram de sua vida uma mistura bonita de flores e frutos, do quanto você detesta o que tem que por vezes fazer. De contar. Que faço crochê, cozinho só para muita gente e bebo demais. Para que essas coisas só sejam detalhes pro definitivo que é cama e chão e um talvez nós dois.
E eu agora fico sem jeito de não ter entendido quando você me contou sobre ver em todo lugar espera e possibilidade. Porque eu sou uma boba e achei que todos os encontros que podiam, já. Errei feio. Por isso, minha única poesia de hoje é que sejamos mais que um ontem.
- Existem paralelos entre o virtual e o real, eu faço. E estava pensando hoje que o que tem acontecido é como quando você vai pra cama com alguém um dia. E vai ficando, vai ficando porque é bom… Enfim, em qualquer um dos casos, no real ou no virtual é uma sorte.
- Não creio em sorte, creio em encontro.
- Tem diferença?
- Encontro é bom.
- Sorte também.
- É.
- Então enquanto for bom, ótimo.
- Enquanto ótimo, melhor.
- Ainda.
- Na mesa de sinuca ou em qualquer outro lugar.
- Assim seja. Falando nisso tava pensando no meu texto pro biscate…
- E aí?
- Não sei bem o que escrever. Alguma dica? Eu te disse ontem, estou com crise criativa
- Quem sabe sobre sinuca, cores, texturas…
Porque eu sou inconstante e má e vez por outra acho engraçado brincar de não sei. E porque letras não conseguiriam mesmo contar tudo o que nos aconteceu, inventamos nós dois dias desses. Desde então despejo meus disparates tão particulares só para te irritar. E gargalho enquanto imagino isso ocorrendo nesta imensa rede em que os afetos podem ou não ser reais.
Talvez enquanto conversamos, as responsabilidades e a realidade esmaeçam, suspiro tentando entender.
Mesmo assim das minhas responsabilidades eu sei. Acabo por decidir dançar um rock da ysmália e não falar nunca mais contigo, descalça no piso frio para não pirar de vez. De camisola vermelha ainda. E sem calcinha.
Eu canto do outro cara que te contei. E pra você também que é mais um, é qualquer outro, é o que eu quiser inventar. Como ele, como aquele e como tantos.
Histórias demais.
As suas responsabilidades eu apenas vislumbro e nem quero saber muito, porque foi você mesmo que me disse que não importava mais. Foi você que me convenceu que não existia. E essa é daquelas verdades tristes que dá vontade de chorar escondido, porque é.
Como toda vez que nos apaixonamos.
Então eu peço minha escova de dente de volta sabendo que você vai ser educado o suficiente para não me chamar de filha da puta, mesmo que sejas daqueles caras que curte um som pesado e banca o rebelde, numa cidade tão distante da minha.
Mas até isso também pode ser uma mentira, assim como o que eu escrevo e penso e sinto agora.
Temos que manter nossa fama para continuarmos acreditando em nós mesmos, decido mais um pouco. É isso, eu posso me desapaixonar em cinco minutos. Também podemos trepar numa mesa de sinuca amanhã ou nenhum dos dois chegar mesmo a existir. Um no outro.
A questão é que não deveria importar. Você me renderia um ou dois posts, três ou quatro citações e seguiríamos com nossas vidas, cada qual no seu quadrado como naquela musiquinha imbecil. Talvez, vez ou outra disséssemos um oi em caixinhas e eu apenas risse do fato de você não me achar legal.
E isso seria lindo, apesar de. Ou talvez por causa.
Não sei desde quando sou biscate, mas lembro que aos dez anos, minha mãe foi advertida por uma amiga que a filha dela estava se “amostrando” demais, nas férias que passávamos em grupo num interior da Bahia. E que se eu continuasse “daquele jeito” iam acabar falando mal de mim. Para quem não sabe, em Recife, cidade onde nasci e morei um bom tempo, uma pessoa “amostrada” é alguém que se exibe, que se “acha”.
Mas vamos ao que interessa e tratemos logo dos assuntos que caracterizam e carimbam uma mulher como biscate. Sexo. E liberdade.
A primeira vez que fiz sexo foi com um cara que havia voltado há pouco dos States, usava brinco de caveira e calça rasgada. Tinha namorada “séria”. Me presenteou quando fiz quinze anos com um solo de bateria cercado de uns amassos leves. Algumas semanas depois perguntei se ele queria transar comigo. Com essas mesmas palavras. De forma direta, sem romantismo ou ilusões de manter algum relacionamento posterior com ele.
Querem algo mais biscate que isso? Pois tem.
Nunca namoramos, mas chegamos a morar juntos na casa da minha mãe, outra bisca de carteirinha, que sempre desejou, acima dos falsos moralismos, que eu fosse feliz. Eu tinha dezesseis anos.
Imaginem o escândalo.
Desde então transei com eu queria, quando queria e onde queria. Simples assim. Para mim e pelo menos por um tempo. Algumas amigas passaram a ser aconselhadas por suas mães, mulheres mais “ajuizadas e sérias” que a minha, a não andarem comigo. Passei a ser má companhia. Muitas pessoas da minha família também criticavam abertamente meu estilo de vida, que incluía rock, cerveja, tatuagens e namorados demais, nas suas dogmáticas opiniões. É, os ônus sempre são muitos quando escolhemos viver com liberdade. Fazendo sexo. Se somos mulheres. E doem sim. Muito.
Falemos deles também.
Conheci o homem que se tornaria meu marido aos vinte anos. O traí. Ele ameaçou me matar. Me assustei mais do que quando era chamada de puta por alguém com quem tivesse compartilhado beijos e prazer no dia, no mês ou no ano anterior. Devia ter algo errado comigo, só podia ser isso- pensei. Tentei me “comportar”, pois. Casei. Vim morar na cidade desse homem. Muitas brigas, anos e violência depois, acabei me separando, quando um dia finalmente me convenci que eu acabaria morrendo se continuasse naquela relação. Nem que fosse de tristeza e murchando aos poucos. Não foi tão simples e quem acha que demorei demais para tomar a decisão não deve saber do que eu estou falando. Exigiu uma coragem que tinha se atrofiado com o tempo vivendo aquilo, que por mais que eu tentasse e diziam-me ser o certo, o que toda “boa” mulher almeja, o que tanta gente invejava, eu não conseguia mais desejar.
A terapia, a Arte e a escrita, essa última refúgio e fortaleza desde a infância, ajudaram-me a tomar essa e outras decisões e reafirmar-me como pessoa, e sim, sim, sim, biscate. Finalmente.
Foi como tal que escolhi largar uma profissão em que ganhava muito bem para tentar viver de cultura e arte. Voltei para a universidade. Mudei completamente de padrão de vida. Passei por algumas necessidades e sufocos financeiros, mas também a entender que o que eu tinha vivido não tinha sido culpa minha. Mas que sim, eu era e sou responsável pelas minhas escolhas e que mesmo errando, risco que corremos em maior grau quando livres de certezas absolutas, eu posso transformar esses erros em sentimentos e ações se não corretas no sentido literal da palavra, ao menos justas para comigo e com xs outrxs.
Também foi através da escrita, dessa vez em blogs, que conheci a Luciana. Estabelecemos uma amizade que só fez se fortalecer em vários encontros regados a cerveja, cidades variadas e compreensão e que rendeu o convite há alguns meses atrás (mentira, me ofereci mesmo. Sou dessas) de escrever por aqui.
Tenho assim, aprendido aos poucos, na prática e todos os dias, sozinha e acompanhada, lendo e escrevendo, pintando, bordando e fotografando o que é ter uma alma de biscate. Talvez eu nunca consiga entender completamente o que isso significa. Mas tenho tentado. Talvez daqui a alguns anos eu consiga. Talvez outras pessoas o façam por mim. Mas o que sei é que enquanto isso não acontece, já ajudei a organizar a primeira Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar também de minha, ministrei palestra sobre Beauvoir no interior do Estado, sobre a própria Marcha por aqui mesmo. Ganhei prêmio como artista, fiz várias exposições, escrevi e aprovei projetos. Minha arte cada vez mais tem se misturado com feminismo e literatura. E com meu próprio corpo. Viajei. Dancei. Usei muito decote, roupa curta e batom vermelho. Fiz outras tatuagens. Gargalhei muito também. Alto.
E o Sexo?
Bom, ainda transo como eu quero, quando quero e onde quero. Simples assim. Para mim. Também ando na companhia de gente maravilhosa e que de um jeito lindo aconselham a outras pessoas, mulheres principalmente, a andarem, correrem, trotarem, se relacionarem com quem e como quiserem. É, os bônus sempre são muitos quando escolhemos viver com liberdade.
Tem como não ter um orgulho danado, desses que não podemos contar sem desnudar também um pouco de nossa história, em ter essa tal de alma biscate? Tem como não se “amostrar” em fazer parte desse club?
E como diz Piaf: “Avec mes souvenirs/ J’ai allumé le feu (…)”
Gosto dos homens. Eles me divertem e espero mesmo que eles também se divirtam comigo, porque de outro jeito que graça tem, não é?
Mas enfim, neste mundo tão louquinho, bichinho, escolher ser livre faz você ter um olhar digamos, um pouco mais crítico e irônico, mesmo não querendo recorrer a generalizações, acerca de certos comportamentos quase que padronizados entre os homens, esse gênero que anda tão confuso, assim como nós, em como se comportar num mundo onde se destroem discursos com a rapidez de um clique e em que novos relacionamentos são oficializados e comemorados pelo facebook.
Então, nesse emaranhado de tantas histórias e novas formas de se relacionar, você se depara com esse cara: o homem Jaçanã. Ele é meio fora de moda, mas você é uma vadia e como tal curte um samba e tal e coisa e coisa e tal, além do lance vintage do “eu não tô fazendo nada nem você também”.
Pronto. Danou-se.
Vá em frente, o homem Jaçanã desperta a mesma emoção que sentimos com discos de vinil, vá por mim, eu te entendo. Só que amiga, não se iluda e Freud já nos contou faz tempo. Ele não pode perder esse trem que sai agora as onze horas, porque senão só amanhã de manhã.
E óbvio, quem vai amanhecer ao lado de alguém que não se pode “levar a sério”? O homem Jaçanã é que não.
O homem Jaçanã é fruto de uma cultura que diz que sexo e sexo, compromisso é compromisso e que não se pode enxergar mais nada além destes extremos. E o sono dos homens justos é sagrado, mulher! Além disso, tem outra coisa… a mãe não dorme enquanto ele não chegar, e ai de você, biscate na vida… como lutar contra essa entidade que pariu seu “sonho de consumo”, um macho para chamar de seu? Pois é, eu que faz tempo morro é de rir, sugiro que você diga a ele como chegar na estação do tal trem ou sugira fazer uma papinha pro tal cara antes dele se mandar.
São apenas sugestões, óbvio, cada mulher tem seu jeito de lidar com esse tipo de cara. Mas entenda o óbvio. Não é culpa sua. Não foi a sua calcinha, nem o jeito que você fez gemeu, nem mesmo porque ele se assustou com você.
O homem Jaçanã não quer uma mulher, ele quer um arquétipo. Então conselho de amiga, não fique se perguntando se fez algo de errado ou como “segurá-lo” em sua cama até o amanhecer “da próxima vez”. Pergunte-se, isso sim, se você quer uma próxima vez com um cara que prefere beber com os amigos (sério que você caiu nessa história de mãe?) a ficar transando com você.
Ou, ainda pior, um cara que não teve sequer vontade de te chamar para acompanhá-lo na cachaça. Isso é imperdoável, carxs amigxs, acreditem em mim. Não tem relativismo nem meditação que me faça perdoar e transcender um troço desses.
Ah… o homem Jaçanã é das antigas, lembre disso, e como tal ele não vai sair sem antes um “eu te ligo” de brinde.
Vá (novamente) por mim (ou não)… nessas horas seguem mais dicas: diga educadamente não, por favor, obrigado ou seja grossa e diga ligue não, fofolete ou apenas gargalhe. Alto. Pois é baby, se divirta, você e ele merecem. Todos nós merecemos.
Inclusive nos divertir com afeto, porque é isso que o homem Jaçanã não entende, que entre uma coisa e outra, entre tempo e espaço, entre aqui e agora, a ponte é o afeto. Em qualquer posição.
E quando falo de homem, falo de você também mulher, de mim. Que tem que ir embora porque não pode mostrar vontade de ficar, porque no jogo de caça e caçador quem é mais insistente em não se entregar ganha. Triste assim.
Vivemos num mundo em que o melhor é sempre o adiante, o dia seguinte, a próxima etapa: rolo, namoro, noivado, casamento, filhos (ufa! ufa! ufa!). Então porque se “desgastar” demonstrando carinho, olheiras, cara amassada, você em verdade e luz do sol com quem não dá nem para pensar em sugerir um “relacionamento sério” nas redes sociais?
Então, lembrando que pelo menos o homem Jaçanã reconhece que tem sua própria casa (ui, Freud, beijo e me liga!)… é assim…
“O outro sugere ser decifrado, para que lados mais difíceis de meu eu, do meu mundo, de minha cultura sejam traduzidos também através dele, de seu mundo e de sua cultura. Através do que há de meu nele, quando, então, o outro reflete a minha imagem espelhada e é às vezes ali onde eu melhor me vejo. Através do que ele afirma e torna claro em mim, na diferença que há entre ele e eu.” (Carlos Rodrigues Brandão)
Paixão é fogo. Queima como para nos fazer renascer. Para pessoas como eu, em que a paixão é o estado em que disfarço alguns climas frios do de dentro, certos olhares são quase a morte por congelamento.
Nunca prometi a ninguém nada além do que posso dar, que se por algum acaso e desejo, olhares, mãos e corpos se encontrem, algo de nossas verdades possa transparecer. Talvez, por isso eu escreva histórias, para que a certeza que esses encontros só podem ser breves, fugidios, fugazes, mesmo que durem, não me atinja com tanta força.
Pessoas que me imaginam tola, romântica e frágil, um tanto quando ensandecida e incoerente, não sabem da possibilidade de frieza e manipulação de que sou capaz. E do ódio que me toma quando me dou conta da minha incapacidade em machucar outrem conscientemente. Da raiva pela minha impotência, e a palavra é essa mesmo, impotência, em magoar conscientemente as pessoas.
Das muitas vezes em que me disfarço em bebedeiras para tentar fazê-lo. Porque eu preciso? Porque eu quero? Porque também poderia me dar prazer?
Fui alvo de tentativas de colonização excessivas vezes. Soube-me por conta disso anima, alma do mundo, metáfora ideal, estrangeira na minha própria casa, para que aquele homem não precisasse olhar para dentro de si mesmo e reconhecesse suas fragilidades e terrores interiores. Foi quando olhei para dentro de mim mesma e aprendi a buscar temperaturas mais amenas. Dentro e fora.
Estou pois, cansada de lutar contra esse mundo “real” que ele me ensinou a viver. Onde o feminino era constantemente o desconhecido que precisa ser ou dizimado ou divinizado. Não sou apenas imanência ou terror. Ninguém é apenas isso. Ou aquilo.
Que loucura é essa que nos tenta ensinar que alma vale mais que corpo, razão que emoção, inteligência que intuição? Que corta, machuca, fere, faz-nos ver o pior para que olhando em nossos olhos de dor possa se enxergar?
Não posso dar mais nada de mim. Estou cansada. Muito, muito cansada.
Não atendo o telefone e continuo a ler trancada em mim mesma.
Até que um alguém, longe do passado triste, me molha a boca com gosto de café num sussurro quente: “Assim, o que o outro vê de seu lugar não é apenas a película superficial de minha pele, mas uma interioridade inesgotável que aí se expressa e exterioriza, sendo possível aos corpos enlaçados um ao outro (um corpo em geral visível-vidente) fazerem seu exterior seu interior, e seu interior seu exterior”.
Quebro o espelho algoz, coloco meu batom vermelho, a saia curta, fecho os botões da blusa negra para que o coração não se assuste com tanto barulho de outros tempos, tranço o cabelo e vou ao encontro de um alguém quem tenta enxergar todas as estações que podem nos contar, não como homens ou mulheres, e sim como pessoas, para dividir alegrias das bobas e musicais depois desse longo inverno de lembranças e sentimentos ruins.
Porque há muito tempo meu veneno foi dado àquele personagem de filme de terror.
Vivo, pois, o agora de acordo com a liberdade de estar romance leve.
Desligo o som e o celular antes de fechar a porta. Vou embora.
Eu não sei se é lisonjeiro ou irritante homens que oferecem (e insistem nesse oferecimento) ir te visitar, quase sempre depois das duas da manhã, seja te abordando na festa por sua ousadia no decote, seja por que em redes sociais você escreve palavrão e poesias eróticas. Mentira, eu sei sim, é extremamente irritante. Ainda mais, porque hipoteticamente, esses caras são meus amigos. Deviam saber que quando trata-se de sexo, não é não.
Outra coisa, se você é meu amigo, custa chamar para tomar uma cerveja antes? Ou para assistirmos um filme? Você deve gostar da minha companhia sendo meu amigo, não é? Ou ao menos respeita o fato de que existem relações que ainda estão se estabelecendo e a amizade não faz parte dos termos que utilizaríamos para nos referir a alguém que só queremos para ser nosso parceiro numa casual e única relação sexual?
Amigo meu se quer vir na minha casa para transar comigo, sabe que as conversas não vão se esgotar com o sexo, a camaradagem já está estabelecida, e principalmente, o convite foi feito na forma de “minhas portas estão abertas para você”. Essa ligação normalmente vai me alegrar por que ela não envolve apenas, ainda que seja somente para sexo. E não seremos menos ou mais amigos por causa disso.
Claro que esse texto é uma provocação mesmo. Dessas coisas que viram outras, ou daquela que deixa de existir, ou de uma nova que surge lá adiante. E foi escrito por que dia desses neguei tornar-me amiga de alguém com quem tinha transado. Porque tenho repensado meus conceitos nas relações amorosas em geral. Amorosas no sentido de incluir um outro, aquele que desejamos que nos deseje. Sem tornar títulos em estigmas ou dogmas. Sem esquecer quem você é.
Viver assim, é claro, é escuro, tão mais cheio de sutilezas, olhares, palavras, atitudes, linguagem corporal, e em outros casos de suores, tremores, ardores. É educação diária que inclui por vezes impor silêncio à sua mente e escutar seu corpo. Ou vice-versa. É troca, nem sempre equilibrada, nem sempre justa, no sentido da justiça que agrada a todas que cabem dentro de nós, múltiplas e desdobráveis que somos, mais uma troca mesmo assim. Entre você e você mesmo, entre você e a outra, ou outras pessoas que estão nesse lance. Talvez por isso chamem de jogo. Jogo de sedução. Jogo este, em que preferi permanecer amadora. Aprendendo.
E claro que amo meus amigos, quero que nossos caminhos sejam de outros amores, muitos, dos mais variados, diversos, aconchegantes, com boas lembranças. Isso inclui também impor-me limites, inclusive nos meus ciúmes, atitudes intempestivas e demais monstrinhos, baseada unicamente no que não desejaria para mim. Inclui respeito e atenção, mesmo que a gente enfie os pés pelas mãos alguma vezes.
Talvez por isso tenha negado ser amiga desse homem especificamente, por que senti que tal título, lindo e tão importante, estava sendo usado para restringir o meu desejo, não o dele. A amizade era um “não se envolva, mulher” dirigido unicamente a mim, com várias exclamações depois do mulher, e que me colocava como mais propensa cromossomicamente a tal ocorrência. Era também um esgotar de possibilidades, um construir de muros que sempre acaba me cansando quando se trata das relações entre as pessoas. Gente. Humanos com o pacote todo que o termo implica. Com sentimentos bons e ruins, terrores e belezas. Entendi isso quando ele disse que queria que continuássemos amigos “porque eu poderia sentir ciúmes” se hipoteticamente o visse com outra pessoa. E que achava que a relação seria mais duradoura se baseada na amizade. O que a gente mais teme no outro normalmente fala muito de nós, pensei. E senti medo. Por ele e por mim.
Então é simples assim? Amigos não sentem ciúmes, certo? Amigos são cuidadoso uns com os outros, não são? Não causariam ciúmes um ao outro por querer, causariam? Mulheres se apaixonam quando fazem sexo e homens não? Homens dividem bem as coisas e mulheres complicam tudo? Ah, somos biscates e portanto nossos amantes, aqueles que amam e que são por nós amados, são sempre passageiros e muitos? Biscate quer dizer o que mesmo?
E sim, aconteceu o que esse cara me disse que aconteceria, ele ficou com outras pessoas na minha frente e eu senti ciúmes. Foi então que decretei: seremos amigos no dia que eu me sentir confortável para também fazer o mesmo, ok? Não é isso que amigos fazem? Não é assim que as relações se tornam “duradouras”? Com gente que fala a verdade, deixando às clara as regras do jogo?
Não me interessam mais adversários, e sim, companheiros numa diversão que chamo vida, por isso talvez faça questão de escutar meu corpo, porque sei da sabedoria que a pele carrega e nesse caso, entendo quando a minha arrepia quando recebo uma ligação dessa pessoa e não daquela às quatro da manhã. Abro portas, espanto sono, acendo velas, me preparo para o prazer. Não só para o prazer sexual, mas o prazer que considera também a educação, bom papo, companheirismo, risadas, respeito e sim, também a amizade como fatores importantes para que ninguém saia com a sensação de que perdeu mais do que tinha antes dessa confusão toda que é desejar uma ou mais pessoas. Amor-próprio e alegria, inclusive.
Mas essa sou eu, veja só. Eu no meio de tantas. E ele, ou eles, no meio de tantos. E mesmo assim, só por enquanto. Podemos mudar de ideia daqui a pouco. Assustador? Também acho, podes crer. Mas a vida é assim mesmo e até amizades podem ser passageiras, quem não sabe disso? Ou você acredita mesmo em amor eterno, esse clichê brega?
Então vai um em que eu passei a acreditar: só podemos ser fiéis à nos mesmos. E compartilhar o máximo de intimidade que duas pessoas podem compartilhar, seja por uma hora, uma noite, ou pelo tempo que tiver que ser, exige muita, muita fidelidade a si mesmo.
Pelo menos até nos presentearmos silenciosamente com todas essas coisas sem nome que se misturam e são uma coisa só. Ou até quando eu sentir o mesmo com aquele tal outro cara que me ligou depois das duas da manhã. Ou com outro qualquer. Porque sou livre, assim como você. E nunca foi a liberdade de escolher o que esteve em jogo, lembre-se, sou uma amadora. Não jogo apostando tão alto assim.
Agora me responda você: amor só dura em liberdade ou é um estar-se preso por vontade?
Nunca fomos amigos, mas sempre o seremos. E não há nenhuma contradição nisso, meu amor.
Hoje eu me preocupei.
E se na sua vida eu for como aqueles na minha.
Que me ligam e eu trato bem apenas por que sou educada. Que marco em encontrar já pensando em não ir. Que viro de lado por que pouco me importa a posição que tomem, contanto que demorem o mínimo nela e na minha cama.
Hoje eu pensei que posso ser realmente louca e inventei sozinha uma história para brincar de paixão imaginária.
Porque eu nem gosto de você. Eu não te aguentaria três dias.
Porque sou completamente apaixonada por você, meu amor.
Mas.
Mas.
Porra, tinha que ter mais?
Desejo o mais para mim. Quero poesia e reciprocidade. Andar de mãos dadas e beijar na boca. Morrer de calor e de frio e de tesão. Quero barba, cabelo e bigode. Ser ridícula e saber que alguém acha isso lindo. Ir no cinema, andar de pedalinho, comer algodão doce, dividir o mesmo canudo no milk shake. Trepar até achar que não posso mais gozar de tanto.
Quero morrer de amor.
E não de vergonha.
Porque quem tem que se envergonhar é você, que deseja tão pouco da vida.
E de você.
E de mim.
Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Será uma quinzena caliente não lhes parece?
#Erotismo em Nós Espera, Raquel Stanick
Querido M.,
Resolvi te escrever, porque ainda nos lembro. Muito. Deve ser por causa do excesso de vinho e uísque barato dos últimos longos anos e a proximidade dos quarenta. Ou porque tenho trepado muito pouco ultimamente. Este seria, entre risos, seu veredito final, tenho certeza.
Enfim, essas lembranças são principalmente sobre sua delicadeza e insistência em certos carinhos tão seus. Daqueles do tipo que depois de algum tempo sendo feitos, me deixavam pronta para enfrentar banheiros em bares cheios ou ruas escuras em locais ermos . Carinhos que até hoje se por acaso repetidos em meu corpo por outro alguém, me levam de volta ao tempo de nós dois.
Por exemplo, quando mesmo entre amigos e cervejas, pegavas minha mão, e exploravas em círculos minha palma, com um língua lenta e morna e molhada e tesa. Eu gostava de ver seus olhos abertos, divididos entre me fitar de soslaio e prestar atenção à conversa das pessoas na mesa que estivéssemos.
A resposta da minha mão, quando me era devolvida, longos minutos depois, era levá-la ao jeans sujo que estivesses usando. E ele sempre estava duro, como se com tua língua tivesses lido que meu futuro próximo era foder contigo noite adentro.
Gostava também quando com tua unha comprida de violonista coçavas engraçado por trás do meu joelho, um sinal de que logo depois, irias com uma leve pressão de dedos apertando minha coxa até enfiar teu dedo na minha boceta molhada. As calcinhas foram abolidas, os vestidos se tornaram meu uniforme na nossa batalha diária. Alguém chegou a vencê-la, querido?
Encontrei a Ana dia desses num boteco aqui na cidade louca, e ela me lembrou que foi você que me fez beijá-la a primeira vez. Disso eu não lembrava, mas ainda sinto o gosto do riso que te acompanhava quando eu acordava em nossa cama e puta da vida, expulsava a mulher que por acaso estivesse conosco. E então, quando eu voltava para o quarto e começava a quebrar coisas, você me derrubava no chão e prendia minhas mãos e sufocava meus gritos com um beijo agressivo e antes de se meter entre minhas pernas com brutalidade, comentava que eu havia adorado cada momento com a tal desconhecida. Eu sempre acreditava em você. E gozava. E gozava. E gozava.
Enfim, lembro principalmente quando você correu atrás de mim numa rua alagada, no meio de uma chuva infernal, quando decidi que aquele estado de eterna ânsia e desejo só poderia acabar nos matando. Lembro quando eu finalmente cansei e sentei naquele banco de praça e você estava lá logo depois, e me obrigou a sentar no seu colo e me comeu agarrando meus seios com força e puxando meus cabelos com raiva. E quando me sabias preste a gozar, me empurrou para longe de ti e de volta à minha decisão. E me deixaste sozinha.
Desde então, nunca mais parou de chover, querido.
Daqui a três dias estarei de volta à nossa cidade, e marquei com alguns de nossos velhos amigos no mesmo velho local. Se puderes aparecer, te prometo minha mão em cima da mesa, novamente à espera de tua língua.