Louca

- Ah, aquela é uma louca!

Uma pessoa acaba de ser apontada como supostamente vítima de uma doença mental. Na maioria das vezes o “diagnóstico” é seguido por julgamentos morais, que invalidam discursos e desqualificam a pessoa. Cruel, não? Mas quantxs de nós não já fizemos isso? Quantxs de nós não acham que só podem ser loucas as pessoas que matam, estupram, maltratam outras pessoas, abusam de algum tipo de droga legal ou ilegal? Porque, afinal de contas, loucxs são apenas xs outrxs, não é?

Não mesmo.

Eu mesmo sou louca.

loucura 2

Apenas mais uma, parte dos 12% da população, mais de 23 milhões de pessoas, que necessita de algum tipo de atendimento em saúde mental. Mas assim como 93% das pessoas com algum tipo de doença mental não apresento histórico de violência. Mesmo assim, como a grande maioria, sofri e sofro um preconceito que deixa cicatrizes diversas. Esse preconceito tem até nome: psicofobia. O termo é adotado para designar quaisquer atitudes preconceituosas ou discriminatórias contra as deficiências e os transtornos mentais.

Sim, eu preciso de remédios “controlados”, que se chamam dessa forma porque só podem ser receitados por um profissional especializado, o tão “temido” psiquiatra, além de terapia, que faz um bem danado pra qualquer pessoa independente de ser portador ou não de qualquer doença.

Não, eu não preciso de orações ou da medalha abençoada da Virgem ou de um banho de descarrego, nem de fortalecer meu caráter, deixar de drama ou da sua pena disfarçada de condescendência. Tampouco o remédio que preciso é uma “cambada de pau”, como “aconselha” de “tratamento” para loucxs um ditado popular aqui no Nordeste.

Eu sou louca, mesmo.

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Isso não me torna genial, nem artista, apesar de saber que pessoas com doenças mentais têm maior propensão a trabalhar em atividades ligadas a criatividade. A inspiração para o meu trabalho não vem da minha doença, apesar de alguns de seus efeitos ajudarem na elaboração de certos… bom, digamos… “pensamentos”. Só que esses “pensamentos” também podem me levar ao suicídio. Não acho nada vantajoso. Vez em quando ainda me divirto bastante em viver, sabe? Além de não gostar que outras pessoas sofram em consequência das atitudes que tomo.

Sim, eu posso rir da minha doença, mas não farei isso às custas do sofrimento de um outro alguém. Como também farei o possível para não permitir que riam de mim e não comigo.

Posso rir sozinha ou acompanhada porque, apesar desse sofrimento e depois de muita terapia, descobri que assim como alguém que tem diabetes, preciso mesmo de alguns “cuidados” extras, mas posso e tento ter uma vida relativamente dentro dos padrões da maioria da população ativa do País.

Descobri também que assumir a loucura para mim mesma e para outras pessoas, inclusive neste texto, faz parte de uma série de ações que resolvi tomar para enfrentar a tal da psicofobia, que como quase todo preconceito nasce da ignorância e do medo, para continuar me cuidando e aceitando cuidados. Porque já deixei, assim como muita gente que conheço, de tomar um remédio que precisava porque eu era mais forte que “isso”. Já tive e tenho, ao continuar o tratamento, que contornar “piadinhas inofensivas” nas muitas tentativas de traçar paralelos dxs amigxs que usam algum tipo de droga recreativa com o medicamento que eu esteja utilizando. Já aconteceu também de ser qualificada como “preguiçosa” por empregadores por conta de uma maior lentidão na execução de tarefas quando no uso de alguns desses medicamentos. De “irresponsável” por temer levar atestado médico, que é meu direito legal, quando precisei me afastar mais de um dia do trabalho. Também já senti medo de contar para pessoas com as quais eu me relacionava sobre minha doença. Talvez, porque foram muitos os abusos e posteriores desmerecimentos desses abusos por algumas dessas pessoas.

Afinal de contas, eu sou apenas uma louca.

Porém, houve o diagnóstico e tratamentos adequados até que pudesse entender que carregar a doença como estigma ou uma questão “espiritual”, assim como muita gente que sofre de depressão, crise de pânico, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outras doenças mentais, é contribuir para esse preconceito. Inclusive, na sua forma mais cruel, aquele que desmerece o doente, culpabiliza e segrega.

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E, sim, quem usa a frase que inicia este texto como forma de julgamento moral é preconceituosa. Mesmo. Quer testar? É só fazer a substituição do “louca” na frase por quaisquer outros termos que histórica e socialmente foram ou são considerados ofensivos…

- Ah, aquela é uma (especifique cor de pele, orientação sexual, condições econômicas, profissão, características físicas ou doença)!

Deu para entender?

Eu sou louca.

E continuo sendo quem sou. Eu sou muitas “coisas”. Boas e ruins. Ruins e boas. Sinto preguiça, algumas vezes sou irresponsável, posso ser má e cruel consciente ou inconscientemente, sem para isso precisar de uma doença que me “justifique”. Assim como posso trabalhar gripada ou com dor nas costas e agir como o que comumente entende-se por boa pessoa. Mas, dentre essas “coisas” que sou, eu não escolhi ter uma doença mental. Que genericamente chamam de loucura. Eu não escolhi ser louca. Mas posso escolher não ser preconceituosx em relação a doença que tenho. Que não é absolutamente o que me resume.

E se você não pode, bom… você precisa de tratamento médico com urgência. Sua doença é bem mais perigosa que a minha. E já machucou gente demais.

Dia desses eu casei…

Pois é, dia desses eu casei.

Pelo menos é o que quase agora, quando olhei meu perfil antes de começar a escrever esse texto, ainda me confirmava o facebook.

Não teve festa, e portanto também não teve aviso ou convite aos familiares e amigxs de ambos acerca de nossas intenções em contrair núpcias (desculpem, mas pelo bem da zoeira, eu tive que escrever isso).

Também nem sei se posso dizer que tenha havido algo que possa chamar de intenção. Antes de. Apenas mudei o meu “status social” durante uma “discussão” inbox acerca de relacionamentos e suas nomenclaturas e de como as pessoas, incluindo nós, reagem a esse ou aquele termo.

E daí o moço, com o qual eu vinha mantendo um tal de “relacionamento sério”, leitor assíduo desse site e que também já escreveu por essas bandas como convidado, mudou o “status” dele em resposta. Acho que porque seria bem indelicado não aceitar pedido tão singelo duma pessoa legal como eu (né, bubuio?).

Enfim, sei que acordei no dia seguinte e me passou pela cabeça que assim como nas “redes sociais” também é na tal da “vida real”. Relacionamentos começam e acabam com um simples gesto. Um toque. Um detalhe. Que não existe garantia nenhuma. Mas que talvez tivesse sido muito irresponsável da minha parte aumentar o âmbito das cobranças de determinados papéis para pessoas como eu. Ou como ele.

Ou algo assim. Hoje acho apenas que eu estava bêbada e quis uma coisa meio Las Vegas-contemporânea-virtual, sei lá… cada um que conte a sua história e faça suas considerações sobre o acontecido… nesse texto, por hora, eu posso e quero contar essa versão. Que podia ser completamente diferente. Também poderia sequer mencionar o assunto.

Por pensar desse jeito foi que fiquei realmente surpresa quando recebi os parabéns dalgumas colegas de trabalho. Mais surpresa ainda quando uma delas, mulher que intitula-se como “senhora casada, séria e respeitável” (rogai por mim, Kátia, a cega) me afirmou que se eu precisasse de “conselhos” sobre a “vida de casada” (isso morde?) podia contar com ela. Fiz uma pergunta acerca da posição sexual conhecida pelos biscates escreventes nesse club como haraquiri baiano e ela desconversou…

Bom, ela continuava chata. Eu também.

O que me tranquilizou bastante sobre questões acerca de manutenção de identidade e essas coisas que podem (e são) questionadas vez em quando por gente sem noção diante de alguns… digamos… acontecimentos. Como se deixássemos de ser quem somos individualmente, de um dia para o outro, porque, bom, porque fazemos qualquer coisa considerada como “normatizada” socialmente.

Porque né? Cadê manual de instruções pra viver? E ainda mais especificamente, cadê “normas” para pessoas que são mães, filhas, pais, namorantes, casadas, putas, amigantes, solteiras, amancebadas, tico-tico no fubá, viúvas, separadas, divorciadas, celibatárias (insira aqui qualquer termo que descreva um tipo de convívio que se mantêm em relação a outrem)? Alguém tem? E se for uma coisa e não outra? E se for tudo ao mesmo tempo agora? Cê num sabe de nada, John Snow…

Também tenho me tranquilizado quando acordo e lembro que apesar dessas pessoas, que escolho não conviver além do necessário (já disse que sou chata, oras), já faz algum tempo que comecei a viver (e a vezes contar) uma história bem legal com esse cara que agora se diz (e eu confirmo) meu marido. E ainda assim fico curiosa em como (e se) vou querer continuar fazendo isso. Também porque gosto da resposta que tenho me dado quando o vejo ao meu lado na mesma cama (de casal, de solteiro, no colchão dxs amigxs, no jardim). Quando rimos juntos. Conversamos, conversamos muito. Dividimos o silêncio. Brigamos e fazemos as pazes. Ou apenas quando ligo e escuto sua voz.

Foi para esse cara que há dois dias pedi opinião, para realmente levá-la em consideração, sobre com qual cor pintar a geladeira. Fiquei desconcertada com o amarelo da resposta. Como assim amarelo? Azul não é mais legal, não? Esse tom de amarelo mesmo? Mesmo mesmo? Tem certeza?

Pois é, agora tô eu aqui escrevendo e olhando a geladeira que antecipei à sua chegada e comecei a pintar sozinha, talvez para tentar ver como “lhedar” com a vinda de outras e fortes cores, durante um período de tempo (que me disseram ser maior apenas pelo uso de um termo) nesse meu solitário espaço, construído e decorado nos últimos anos em tons de azuis tranquilizantes e taurinos marrons.

É, casamos, mas ainda não estamos morando na mesma casa.

Ele está em outro Estado, outra cidade e outra casa. Mas espero e desejo que ele chegue logo, porque esses tem sido dias muito chatos desde que nos despedimos há longas e enfadonhas duas semanas. Que chegue de mochila pesada de livros, com o coração leve ou de qualquer outro jeito que possa nos trazer alegrias. Juntos ou separados. Seria perfeito se fosse no primeiro dia do mês que vem, tal qual combinamos. Mas ainda se ele ainda mantiver a coragem danada que tem de viver. Sem desrespeitar a minha.

Porque vai que é como disse uma grande amiga (e eu nunca esqueci)… amar é mesmo isso.

Coragem.

Quem diria, né? Teremos uma geladeira amarela, marido. Ou não.

geladeira 1

Não basta ser biscate…

Daí que não basta ser biscate, temos que acordar de ressaca e depois de recolher a calcinha vermelha pendurada no lustre da sala há mais de duas semanas, nos deparar com “instruções” pra sermos uma  das tais “mulheres de verdade” compartilhadas por gente que até gostamos e tal e coisa e coisa e tal… ah, o facebook… essa rede social tão marota, tão fofinha, tão meiga, tão… tão…  que século  é hoje mesmo, caras colegas de auditório?

Então… como “lhedar”? Simples! Aumenta o Chopin do teu radinho e vamos analisar com profundidade e espírito científico, além de muita galhardia mais essa pérola de sabedoria “feminina”, que “bombou” em muita TL antenada e cult poraí.

Comecemos, pois…

Biscate

Já de cara, reconhecemos a tal da “mulher de verdade”, esse ser mitológico que dizem ter a capacidade sobrenatural de gozar enquanto lava a louça, aspira o tapete e lê Proust em busca de conselhos para agradar o homem que chama de seu e que neste momento ronca num imaculado sofá branco futurista e de grife, comprado por ela com o salário recebido no emprego que “desempenha” com um sorriso cândido nos lábios e apenas nos intervalos dos seus oito partos, todos naturais e assistidos por freiras cotós do alto Himalaia e onde ela aproveita pra também fazer as unhas e mais uma lipo.

Notem o vestido vintage, o look new vitoriano chiquérrimo, coisa phyna, clássica e vendido em qualquer loja de departamentos pertinho de você… apreciem com emoção esse ar de desconsolo levemente chocado, mas jamais histérico, depois de saber que a vizinha lê esse site wândalo…

Mas enfim… como diz o muso Amaury Júnior… vem comigo… que o negozi só faz é melhorar com o texto. Ah, o texto…  Adelante!

“Mulher inteligente não usa o corpo, usa a mente (…)”

Óbvio, né? Porque o cérebro não faz parte do corpo e fazemos sexo por transmissão de energias cármicas, sem trocas de fluidos de espécie alguma, coisa que sabemos completamente anti-higiênica e manchadora de nossos lençóis egípcios de 56789088976786 fios… técnica essa que é milenar e aprendemos lendo a revista Nova enquanto rezávamos o terço da Virgem de Guadalupe.

“(…) Não precisa de roupas curtas, falar alto, ficar bêbada e dançar até cair (…)”

Não precisa, Brasil! Ainda bem. Já pensou que horror se divertir? E com “ças coisas” de vadia?

“(…)Não se desrespeita, não abre mão de si e nem de seus princípios para prender alguém (…)”

Muito complexo. Lembrete: pedir a Mãe Jussara pra desfazer aquela amarração queu fiz pro bofe magia vir nimim.

Próxima.

“(…) Sabe que sua beleza é apenas reflexo de seu conteúdo e de todo seu eu (…)”

Amo muito tudo isso. Todo meu eu é aquele negócio do fundo do âmago do meu ser enquanto pessoa verdadeiramente verdadeira, né? Enfim…

“(…) Sabe a diferença entre ser sensual e ser vulgar (…)”

Obviamente. Ser sensual é dançar na boquinha da garrafa, já ser vulgar é cantar Núbia Lafayette no karaokê da Lagoa depois de chafurdar na lama com dor de cotovelo. Bem que Mãe Jussara me avisou…

“(…) Sabe o que falar. (…)”

Se eu quiser beber eu bebo… se eu quiser fumar eu fumo…

“(…) Sabe deixar saudades e que a sua presença seja notada, não porque seu corpo está a mostra, mas porque tem presença, é decidida, sabe o que quer e o que merece.”

Neste momento fechei os olhos, respirei através da luz que irradia do âmago no fundo, bem fundo do fundo do meu ser e deixei que ela me inundasse de neon fluorescente pink , dei uma última agachadinha na boquinha da garrafa, lancei um olhar Paulo Ricardo 43, joguei  o cabelo e gritei: beijoooooo, me ligaaaaaaaaaaaaa!!!

Porque né?

Estamos em reforma

Há cerca de um ano e meio, talvez influenciada pela Elis que cantava a tal da casa no campo, me mudei dum quitinete naquela avenida movimentada do bairro universitário e embrenhei-me no verde.  Ao invés de viver a paz e o bucolismo prometidos musicalmente, foi desde então que passei a andar com uma placa de “estamos em reforma” pendurada no pescoço.

Pedreiros, tijolos, cimento, barulho, arrastar móveis, crises de stress, dor de coluna, tem sido uma constante, mas também as novidades e descobertas diárias desse “sentir-se em casa” diferente do antes.

Como tenho pouco dinheiro, o lugar que já foi um ateliê de tijolinho aparente e que nem banheiro tinha, tem se transformado num lar muito de pouquinho em pouquinho, com a ajuda quinzenal e nem sempre competente, mas confortadora e falante de Aldenir, o pedreiro.

Poético, né?

É.

Ou era.

Até dia desses, em que o inverno começou a dar o ar de sua graça e a chuva infiltrou-se em cascatas pela janela nova da cozinha e aranhas caranguejeiras e armadeiras passaram a me lembrar constantemente que eu “não estava mais no Texas, Totó”.

Doze palavrões, uma garrafa e meia de vinho, mil arrependimentos suspirados de saudade da “civilização” depois  foi quando intensifiquei o pensar acerca dum “habitar” biscate.  Será que “isso” existe?

Enfim, lembrei que independente de onde e quando gosto de decoração, curto organizar os detalhes e planejar confortos coloridos, mas diferente dos apartamentos impecáveis das revistas que tratam do tema, sei que meus espaços sempre estiveram longe da perfeição. Ainda bem. Ainda bem?

Fui dormir bêbada, um pouco mais apaziguada e sonhei com uma promoção sensacional de telhas e madeiramento.

Acordei de ressaca, dei um “jeitinho” na janela com a cortina do box, fui trabalhar e na volta comprei flores para plantar no vaso terracota. Não consigo imaginar o que alguma outra biscate, depois de um stress qualquer, resolvesse fazer… se arrumar para alguma balada?

Mas sei que desejo a nós duas é que  tenhamos ambas “festas” sensacionais. Andando descalças no jardim ou circulando de salto alto em algum piso espelhado.

Pois é, o fato é que acredito que uma casa, assim como nossas vidas, nunca está pronta.  Mas podemos dar um tempo, curtir o que já foi feito e esperar que o temporal diminua. Também podemos arrumar as malas, visitar outras paisagens, transitar entre as possibilidades, com a certeza de que há um logo ali para onde voltar.

E que só para alguns isso é “bom”…  para mim pelo menos tem sido.

Bruxa!!!

bruxaMuitas pessoas chamam hoje a Antiga Religião de Wicca, mas no imaginário popular e para alguns que (assim como eu) a escolheram, Bruxaria é um nome que soa melhor. Porque assim o é para mim. Simplesmente por isso.

Sim, eu sou uma bruxa!

(Pausa para as reações de incredulidade, hilariedade (risos irônicos também valem), nojo, ou dificilmente (?) pelxs que “imagino” lerem esse site de medo e preconceito,ainda que disfarçado de superioridade intelectual ou religiosa).

Pois é, Bruxaria… Ah, a Bruxaria… O que dizer dela que já não esteja espalhado em milhares de sites disponíveis a distância de apenas um clique de mouse?

(Mais uma pausa para… para… suspiro…)

Seus praticantes podem se denominar (ou se calar, já que nem sempre foi “agradável” “assumir-se”) de diversas maneiras, mas existem e fazem parte de uma religião que se insere num grupo maior e entendem-se como pagãos ou neopagãos, estão espalhados pelo mundo e tradições distintas, assim como os galhos e folhas que surgem da mesma e antiqüíssima raiz.

Podem estar cozinhando sozinhos em casa ou se reunindo em grupos chamados de Covens, espécies de “famílias” com no máximo treze membros, frequentando feiras e palestras que tratem de temas esotéricos, cursos de Ciências da Religião nalguma universidade, lendo cartas de tarô, acendendo velas e incensos, começando ou cuidando de uma horta, abraçando árvores ou mergulhados em literatura especifica.

Também, quem sabe, em sincretismo e palavreado com sentido mágico, estejam benzendo com galhos de arruda em algum interior do Nordeste, vendendo ervas e “garrafadas” nos mercados públicos Brasil afora, depois de levar suas filhxs e netxs para conhecer uma florebenzedirasta na Itália ou de auxiliar partos domiciliares em algum outro e qualquer rincão desse mundão da Deusa.

Muitxs destxs provavelmente sequer se dirão. Mas também o sabem entre os seus. Comum à todxs é o fato de praticarem magia, que podem (também) chamar de Grande Arte, e modificando suas realidades pela força da vontade.

Circulam entre profissões, costumes, ideologias políticas e “filosofias” diversas até porque a “estrutura” da religião, que nada tem de dogmática ou piramidal, estimula a liberdade de pensamento e ação, uma vez que não acreditamos em pecado, julgamento, culpa.

É uma religião politeísta, mas honra basicamente uma Deusa Tríplice e um Deus Chifrudo (ui!), que circula em volta desta numa Dança que deu e dá origem a tudo que está. Esta Deusa e este Deus são interiores e independente do gênero dx praticante da Arte sabemos nos “habita”, nós Xs somos e Xs vivenciamos, mas também são exteriores e em tudo mais espalham-se. São apesar disso, Além de Tudo e Mistério.

A Deusa e o Deus podem ser chamados, invocados e suas características específicas “potencializadas” através de nomes diversos, dependendo do panteão que se escolha honrar ou sequer referidos por denominações, mas por “sensações”. Vez em quando, por exemplo, chamo a Deusa de Força. Ou de Amor. E o Deus de Tesão.

Mas continuemos… Bruxs celebram essa referida Dança que é criadora, mas também destruidora (num sentido de “destrutiva” como facilitadora dum posterior renascimento), através do ciclo anual das estações, no período de um ano solar, comemorado em oito festas anuais chamadas de Sabbats e nas primeiras noites de cada lua cheia, denominados de Esbats. É através do tempo externo, ou de que chamamos de Roda do Ano, que vivenciamos as mudanças internas e passamos a entendê-las como cíclicas e espirais.

É uma religião que se vive através de “mitos” poéticos, pois só o Amor que habita a Criação pode tentar sussurrar o Incontável. Tenho a opinião, pelo tanto de Tempo que a tenho vivenciado, que é até por poetizar essa “impossibilidade” dicotômica, que bruxas e bruxos não acreditam ou concebem nenhuma entidade que seja “portadora” dum mal absoluto, portanto não acreditamos em demônios que “contrapõem-se” a divindades. A própria lógica ecológica que permeia xs adeptxs parece que não “dá trela” pressas coisas.

bruxa 2A nudez é estimulada dentro dessas comemorações, e é vivenciada e protegida pelo que chamarei de espiral energética criada por quem delas participa, mas não é obrigatória, tampouco tem caráter de fetiche, e sim de compromisso com a verdade individual, que habita para além das roupas, símbolos de “poder” e máscaras sociais. Alguns, por exemplo, contam o estar nu num ritual de estar vestido de Céu.

Obviamente (e posso “chocar” alguns companheirxs de crença ao dizer isso (que minhas benções recaiam sobre elxs)) pode haver sexo consensual nessas comemorações, assim como em qualquer “boa” festa que se preze. Para a Bruxaria, a sexualidade e todas as suas instâncias são vistas e vividas como dádivas e presentes dxs deusxs. Todo ato “criador” é sagrado, mas não estimula-se ou impõe-se sua “sacralização”. A possibilidade de acontecer alguma “suruba” demoníaca, pois, como é lugar comum imaginar quando menciona-se algum “Sabá de Feiticeiras” é inexistente. Não acreditamos em demônios, com já frisei. Então, se seu intuito é participar de orgias e afins, recomenda-se procurar uma casa de swing, não a Religião Antiga.

pentagrama

Existe muito pouco de “impositivo” na bruxaria, até por considerar-se que todo ato que gere dor e-ou sofrimento a outrem esbarra na única Lei e/ou “Regra” que norteia nossas práticas: tudo que fizeres voltará três vezes para ti. Simples e objetivo, não? Nem por isso deixamos de desejar algo e sim, de fazer feitiços para diversos fins específicos e considerados “egoístas”, inclusive se você considerar se proteger assim.

Mas enfim, tudo que escrevi aqui não pretende nada além do “educativo”, já que por ser a bruxaria uma religião iniciática, pede um período de estudo prévio, que hoje é considerado adequado ser em um torno de ano e um dia após o que alguns entendem e nomeiam como o “chamado” da Deusa até a iniciação propriamente dita. Depois dela, bom… tem mais estudo e “obrigações” ainda, exigindo, portanto, um comprometimento que poucxs querem ter, liberdade de pensamento e não oferecendo redenções ou “facilidades”.

Também não existem nenhum “cargo de liderança” que traga compensações materiais à espera, o poder dentro de um Coven (que dificilmente são encontrados em anúncios nas páginas amarelas) é considerado “ideal” quando vivenciado de forma cíclica por todxs, uma Alta Sacerdotisa ou Alto Sacedorte de um Coven (se escolherem serem chamadxs assim) sabem-se canal de manifestação da Deusa e do Deus, e portanto, que tentar manter-se nesse “patamar”, para isso impedindo o crescimento das potencialidades dos seus outrxs membros é fatalmente abrir mão do Poder.

HowgartsE antes que você, leitor e leitorx de Harry Potter como eu, me peça o telefone de Howgarts,  já  aviso que sou o que conhecemos na Religião como Bruxa Solitárix, sendo assim, por escolha e característica, não faço parte de nenhum coven. Bem como não “inicio” ninguém.

Sendo ainda mais clara, não interessa a um bruxo ou a uma bruxa, nenhuma espécie de “conversão”, já que “dizem alguns mitos” que ninguém deixa de ser quem é ao se tornar… quem se é. Eu mesma continuo nada adepta da dieta composta por asa de morcego e pata de lagartixa, por exemplo, por mais que me digam que é ótimo para emagrecer, ficar eternamente jovem e tal e coisa e coisa e tal.

Também não seqüestro crianças e as mato. Acusação da qual Fabiane, chamada de bruxa, foi “setenciada” por uma horda de pessoas que revestiram-se de um Poder que crê em espancar alguém até a morte. Que a Deusa me livre do encargo de julgar e amaldiçoar essas pessoas é o que peço enquanto escrevo esse texto, porque ainda não sei como mensurar o horror que senti diante do acontecido…

FabianeFabiane Maria de Jesus não era Bruxa. Sei porque ela estava indo buscar o livro sagrado da cristandade ao ser assassinada. Esse argumento é até óbvio, mas cheguei a ler em algum lugar que tal Bíblia poderia ser “usada” nas mesmas tais “missas” (oi?) de magia negra que essa mulher, que levava no seu nome os da Mãe e do Filho dos Cristãos, supostamente praticava. Para quem escreveu isso, assim como para qualquer seguidor de outras sendas espirituais eu afirmo: bruxa alguma precisa negar ou ritualizar o que não crê. Simples assim.

Fabiane Maria de Jesus não era bruxa, repito!

Mas e se fosse?…..

 P.S:  Se você quiser entender ou saber mais sobre Bruxaria existem diversos sites, livros e palestras sobre o tema pululando na Internet e nas livrarias e bibliotecas.

Como nossos pais…

Semana santa taí, né? Feriadão, meu aniversário tá pertinho e…

texto 2

Bom, é lugar-comum neste nosso País tão cristão, quando alguém quer salientar uma suposta igualdade entre as pessoas dizer que “somos todxs filhxs de Deus”. Crenças à parte, nunca consegui entender isso muito bem (até porque leio as notícias, vez ou outra tentam me “converter” a alguma religião e percebo na maioria dos discursos que mesmo para esse Deus, existiu e existe uns/umas filhxs mais filhos que outrxs)… mas talvez já tenha tido alguns vislumbres do que seja essa ancestral forma de hierarquizar o mundo quando noto jocosidade e ironia ou uma espécie de paciência “sábia” prestes a se esgotar que muitxs demonstram ao chamar alguém ao qual pretensamente tentam “ensinar” algo “sobre a vida” de “meu filho” ou “minha filha”.

Se no cristianismo temos Maria, que nos “contou” da capacidade “feminina” de perfeição e pureza enquanto mulher que se tornou mãe sem “conhecer homem”, também para algumas religiões não “tradicionais” nascemos fadadas a sermos amadas pela(s) “divindade(s)” por nossa suposta “capacidade” em gerar e/ou sermos companheiras/ esposas/ musas. Na de “refletirmos” um(x) outrx. Oi, lua!

Comecei esse texto falando de religião, terreno escorregadio, para discorrer sobre outro buraco, desta vez mais embaixo. Porque acredito que a religiosidade de um povo diz muito sobre o que é de nós esperado e em como são construídas algumas relações. E na maioria delas, x filhx é sempre expectativa de. Que dificilmente cessa. Também porque creio que isso se repete nas relações por aqui, nesse negozi que chamamos de mundo.

Aí eu pergunto: se somos todxs filhxs, em qual “cartilha” você aprendeu a sê-lo? E como (já?) conseguiu “escapar” dessa condição?

Os pais são (ou supostamente deveriam ser) o primeiro contato que temos com outros seres de nossa espécie, nosso primeiro esboço para um posterior entendimento de humanidade e aqueles que (também supostamente) nos ensinam a portar-nos como seres “civilizados” para estarmos e agirmos no mundo. Responsabilidade danada, né? Mas é também no exercício dessa função que alguns experimentam a delícia que pode ser o exercício da soberania sobre um(x) outrx ou a doce e viciante utopia do amor “incondicional”. Escrevo incondicional entre aspas porque que no caso de pais e filhxs estamos em ambos os casos exercendo o amor sob o “jugo” de uma “suposta” condição.

Ah, a ironia…

Daí eu te conto agora é do cotidiano: dia desses cheguei em casa depois de dois dias na casa de uma amiga e a geladeira estava desligada. Minha mãe tinha-me feito esse “favor” não solicitado e levado todos os potes de comida pra casa em que mora com meu pai. Não, não tinha água gelada tampouco. Sim, somos vizinhxs. Liguei reclamando. “É, sou mesmo uma monstra ingrata e blábláblá”. Próximo take: horas depois, estou na cama pelada, me masturbando enquanto falo ao telefone com o gatchênho. Quem abre a porta para trazer um iogurte que tinha sido “esquecido” na tal “mudança”? Meu pai. Sem ligar, sem avisar, sem bater na porta. Fiquei envergonhada e depois irada por ter me envergonhado. Resultado: mais briga. Das feias.

Não, a briga não foi por causa da geladeira desligada ou pelo “flagra”. Mas pode exemplificar como alguns pais (os meus inclusos aí) entendem a casa ou a vida dxs filhxs como uma continuidade de suas próprias. Tendo a ambas livre acesso por um direito que não pode (ou não deve) ser questionado sob o eterno risco destes filhxs serem considerados como “rebeldes” ou “ingratos”. Oi, hierarquia! Alô, cansaço…

texto 1

Esse episódio que é até engraçado (e se eu não puder gargalhar não é minha revolução!), mais uma vez me fez questionar seriamente: onde foi que eu errei (ou estou errando?) enquanto filha? Como atestar-me como adulta, se apesar da minha carteira de identidade dizer que tenho 38 anos, sou cotidianamente infantilizada por ações e palavras? Dos meus pais e de toda uma sociedade (falo do aqui e do agora) que se estrutura a partir dessas primeiras e estabelecidas relações de “poder” e “pertencimento”?

Enfim, faz algum tempo que passei a notar no discurso da minha mãe (e olhe que ela é até bem “moderna”!) que apesar de ter ido morar só já com dezessete anos, ter trabalhado desde que e vivenciado experiências diversas só fui considerada “emancipada” ou “independente” enquanto estive casada. Horrível? Eu também acho, mas é muito comum. Para algumas amigas minhas, por exemplo, isso só aconteceu quando tornaram-se (também) mães. E mesmo assim…

Bom, eu que não pretendo ser mãe e também tenho minhas (e muitas) ressalvas quanto ao casamento enquanto instituição, sob a ótica dos meus pais e da sociedade, estarei fadada a ser vista e tratada sempre como “filha”? Aquela que precisa de monitoramento e “educação” permanentemente já que?

Ai, meus sais…

Daí resolvi dividir essa “angústia existencial” com outrxs amigxs queridxs, que me deram alguns “depoimentos” que também compartilho com vocês:

“Eu sei o que você passa! E minha mãe nem é minha vizinha…”

“Se ajuda, digo que meus pais me tratam feito criança e tentam toda hora decidir as coisas por mim. Nem meu pai internado, sem sair da cama sozinho, deixa de fazer isso comigo.”

 ”Ô, amore. que difícil. Porque tem coisas boas também, né? Mas os limites tem que ser conversados com muito cuidado. Uma amiga, quando tinha acabado de ter filho, acordou com o sogro dentro de casa, de manhã cedinho, pegando a bebê…. ia sair com ela para os pais dormirem mais. O que é lindo. Só que não avisou! Ela disse que se tivesse acordado depois (foi antes do celular), ia achar que a bebê tinha sido raptada…”

 ”Poizé, minha experiência é oposta… meus pais “saíram de casa” quando eu tinha 18 e meu irmão 16. Pra BSB. De lá para Roma, depois BSB de novo… vieram morar no Rio de novo só quando o F. já tinha 6 anos e eu tava grávida do J. Eu me arrepio de ouvir essas histórias, mas sei que ter mãe/pai perto pode ser muito bom também. A negociação é que é delicada…”

 ”Eu num pitaqueio por motivos de: meus pais são super entrões mas não são nada entrões. Explico: a gente partilha praticamente tudo lá na minha família. no começo do ano a gente faz uma reunião e cada um conta seus planos, de ter filho a escrever um livro passando por mudança de trabalho, comprar carro, reformar casa, ir em uma praia naturista, etc. daí todo mundo dá pitaco em tudo, se oferece pra ajudar, contesta, etc. Depois, é só suporte. Meio no lance de respeitar o limite como a R. falou. E eu já voltei pra morar dentro da casa dos meus pais depois de separada. Com S. Mas era isso: vá perguntar pra sua mãe se pode e tudo. E se eu ia sair negociava pro S. ficar com eles e nem precisava dizer pra onde que eu ia. Eu ia sair. Acho que passa pela conversa, né. Muita.”

 ”Eu já tive cada quebra pau com a minha mãe por causa disso que virge! Só vivendo a mil km de distância…”

“Ah, sim, meus pais são desses (eram, né.  meu pai) super-respeitosos também. Nunquinha que entrariam sem bater. Minha mãe que sempre teve a chave da minha casa, sempre tocou antes de entrar.”

 ”Nossa, a minha mãe em compensação…Lia carta minha escondido, mexia nas minhas coisas, mexia nos meus diários, ouvia conversa no telefone, coisa de doido mesmo!!!!”

texto 3Daí eu te pergunto: e vocês, como se entendem enquanto filhx? Ou pais, se acaso o são? Pra qual “ideia” de mundo vocês foram “educados” ou tentam “educar” seus filhxs? E como?

É, não tenho muitas respostas faz é tempo. E poxa, como é difícil continuar perguntando! Ou vai que eu estou mesmo no tal do “inferno astral”. Em todo caso e mesmo assim, Feliz Páscoa para todxs vocês, biscates queridxs!

Fiquem com Elis…

De olhos bem abertos

Fui ensinada a não falar de boca cheia

e não por os cotovelos na mesa.

Sentei-me ereta por muito tempo,

ganhei da minha mãe, pés de bailarina.

Usei organdi e fui com vovó á igreja.

 

Então se hoje,

por acaso, eu grito,

seja educado,

não tape os ouvidos.

Objeto de Desejo- Foto-poema de minha autoria

Objeto de desejo- Trabalho de Raquel Stanick

Dia desses estava conversando com amigxs e acabei contando como foi difícil e demorado acabar minha graduação.  Pois é, foi só ano passado, quase sendo jubilada e aos trinta e oito anos, que me formei num curso universitário que muita gente nem sabe que existe. Ou não acredita em sua necessidade de existir. Mas foi a licenciatura em Artes Visuais que me trouxe, entre outras coisas, um pensar sobre o mundo em que vivo que mexeu e ainda mexe com muitas das minhas certezas.

Trabalho de Micaela Maia, artista Portuguesa, em seu  extinto blog-manifesto-performance  "Ela só queria ser Arrebatada".

Trabalho/ Performance de Micaela Maia.

Foi ao descobrir-me artista e posteriormente fazer da Arte profissão e modo de ganhar a vida que comecei a entender a máxima que diz que “uma imagem vale por milhões de palavras”, não só pelo seu valor descritivo, mas principalmente por seu valor simbólico.

Performance de Marina Abramovic

Performance de Marina Abramovic

Passei também a enxergar o corpo enquanto objeto, e, por favor, não me entendam mal. Ao dizer do “corpo enquanto objeto”, quero simplesmente apontar o conhecimento, sentimentos e lembranças que emergem dele a partir das experiências vividas por quem tenta “interpretá-lo”. Não há necessariamente “passividade” nisso, acredite.

Todxs nós, e ainda mais especificamente (alguns) artistas visuais contemporâneos, atrizes e atores, bem como prostitutxs com domínio de seu ofício, podem fazer do próprio corpo ferramenta. Com o uso de técnicas e estilos dos mais variados. Esperando este ou aquele resultado. No caso de alguns, sabem e bem o que estão fazendo. Quer um exemplo? Na imagem abaixo observe a reação das pessoas que assistem/ participam da performance. Apesar de existir um certo consenso na linguagem corporal do público, cada pessoa reage e se posiciona à sua maneira.

É, as pessoas são estranhas, como eu sempre repito. E únicas.

Um momento da performance do artista brasileiro Marco Paulo Rolla na 27° edição da Feira de Arte Contemporânea (ARCO- 2008). .

Um momento da performance do artista brasileiro Marco Paulo Rolla.

Sim, você leu direito, escrevi “artistas visuais, atrizes, atores e PROSTITUTXS”!

Continuando…

Então… com os resultados da pesquisa do IPEA (apesar de sua falha metodológica e posterior correção), mas principalmente por causa dos comentários machistas e violentos que o movimento “Não mereço ser estuprada” trouxeram à tona (leia o texto da bisca-amada-irmã Sílvia Badim sobre o assunto clicando aqui), novamente encafifei-me: o que esta ou aquela pessoa “viu” quando estava “vendo” uma mulher com “pouca roupa”? 

Putas? Vadias? Biscates? E qual seria o problema se ganhassem dinheiro com seus corpos, afinal de contas? Que profissional não faz isso? O cérebro não faz também parte do corpo? Qual é realmente o grande problema que deixa machistas de cabelo em pé e prontos para ameaçar tudo e todxs de estupro com seu mítico cetro patriarcal?

Mais uma performance de Marina Abramovic

Mais uma performance de Marina Abramovic

Henrique Carneiro num artigo que trata criticamente da violência como marca do poder masculino (triste, né?), afirma que a violência viril (é assim mesmo que ele a denomina) é um dos emblemas da masculinidade que nasceu com as primeiras civilizações e permanece como essência do próprio conceito desta.

Sim, de acordo com tal teoria, essas pessoas realmente acreditam estar defendendo a civilização como um todo. Seria engraçado se não fosse assustador. Principalmente por entender criticamente de que “civilidade” estão falando.

Performance de Ana Mendieta, assasinada em 1985 pelo seu então marido, também artista.

Performance de Ana Mendieta, assasinada em 1985 pelo seu então marido, também artista.

ana mendieta

Performance/ Pintura de Ana Mendiet

Já Barthes dizia que “a palavra, enquanto instrumento, é símbolo de poder”. A forma de materializar conceitos, apontar desejos e ideias. Vista dessa forma, é pois (e também) um símbolo fálico por excelência. A quem o poder da palavra tem histórica, social e economicamente pertencido durante tanto tempo? Porque gritar, xingar, principalmente no conforto do anonimato, dos falsos perfis ou no meio de um coletivo de “iguais” alguém que escreve em seu próprio corpo a vontade de mudar o mundo a partir de si mesma, do seu referencial “feminino”?

Não enxergam essas pessoas que defendem agressivamente uma “civilização” que já dá mostras de ter fracassado, que estamos vivendo agora e aqui uma necessidade urgente de mudanças no nosso entender de mundo?

Mulheres já são maioria nas universidades Brasileiras e no mercado de trabalho o percentual feminino passou de 38,8%, em 1992, para 40,3%, em 1999. Mesmo com as condições desfavoráveis que toda mulher inserida nesse mercado sente na pele, muitas já são, inclusive, inteiramente responsáveis pelo sustento de suas família.

Ainda assim continuam sendo tratadas como incapazes por uma “civilização” tão cruel que se utiliza de suas próprias vítimas para calar-lhes a voz. Exemplo? Uma médicA e uma juízA revestidas de autoridade por essa mesma ideia opressora chamada Estado de Direito achando que podem decidir (e decidindo!) por outra mulher.

Performance de Bela Reale

Performance de Bela Reale

Então aterroriza-me ver que as mesmas pessoas que louvam ou endossam os argumentos que justificam o estupro na citada pesquisa, bem como questionam a soberania na decisão de uma mulher grávida sobre seu corpo e a escolha de como parir seu filho, são as que usam o vídeo com mulheres ameaçando cortar picas para teorizar acerca duma suposta violência “feminina” inata da qual tem que se defender.

Mais uma performance de Berna Reale

Mais uma performance de Berna Reale

Sim, talvez eu queira mesmo cortar várias picas simbólicas. A da tal juíza, da tal médica, da maioria dos imbecis que comentaram e comentam barbaridades pela internet e no meio da rua e de mais um monte de gente que acha que poder é automaticamente sobre alguém e não sobre si mesmo. Mas acho que assim endossaria uma prática que mostrou não dar lá muito certo, e que acaba por transformar os atuais oprimidxs em futurxs opressorxs. Prefiro pois, questionar a própria estrutura de poder, essa mesma estrutura que faz com que a violência seja entendida como tal. E “masculina”.

Eu, que amo tantos homens que também se sabem capazes de escapar desse tal horror civilizatório, modificando a(s) realidade(s) ao seu redor.

Portanto não cortarei pica alguma. Primeiramente porque não acho que a violência de alguém se resume ao fato desta pessoa ter ou não um pênis (apesar de concordar que histórica e socialmente isso pode contribuir bastante). Mas principalmente porque realmente quero acreditar que somos todxs capazes de conviver, mesmo com nossas diferenças, sejam elas políticas, sociais, intelectuais, de comportamento ou gênero. Utopia? Obviamente…

Então utópica e biscate que sou, escolho falar do falo com carinho e intimidade.

Junto também decido que não mais me calarei por medo. Ou vestirei as roupas que alguém escolheu para mim porque acha que tenho que me envergonhar de quem sou. Aprendi na vida que “ganho” quando consigo argumentar, sorrir e emendar um poesia ou trabalho artístico depois de uma discussão, mesmo que minha vontade seja a de usar uma peixeira. Ganho de mim mesma também. E me humanizo.

Ou você acha que é fácil ser artista visual e tentar enxergar o mundo de olhos bem abertos, onde estou e sendo quem eu sou? E além de tudo, míope?

P.S: E se falei acerca d’Arte, esqueça, não é nada disso ou daquilo, ou então não seria Arte, seria linguagem. E a Arte está além do alcance desta.

Intimidade, Casas de Swing e outras ferramentas de busca

Então fui para o Rio. Bom, bom, bom. Bom, nada! Deliça! Cremosa! Catupiry da coxinha! (Re)encontrei muitxs que amo. Tomei todas. Curti o que em proposta tinha feito ao moço:- vamos brincar de lua de mel? Santa Teresa. Ai, ai.

De lá trouxe comigo para essas paragens nordestinas e com sol de rachar o quengo, lembranças de risadas, alguma saudade apaziguada, intimidade renovada, esse homem moço que tenho amado em encontros e várias cidades e uma gripe inconveniente que me derrubou de forma retumbante.

Pois é. Ainda consegui trabalhar a manhã de sexta. Só. No meio do dia a gripe, única companhia que não solicitei me obrigou a buscar o telefone da farmácia. Imaginei congelar embaixo do endredon enquanto uma vergonha sem tamanho me invadia. Cadê glamour, Brasil?- Clamei em desespero enquanto me esvaia em fluidos corporais diversos, porque obviamente também menstruei assim que o avião pousou. Se dramaticidade pede sangue então o quadro estava completo.

sangue e neve

Só sei que foi assim…

Não, não é engraçado. Imagine imaginar idílios românticos e só conseguir tossir e tremer. Nada de tremidinhas das boas, quem dera, mas daquelas que vem acompanhadas de catarro e da sensação de ter sido atropelada por elefantes azuis do alto Himalaia montados por freiras cotós bordadeiras. Porque obviamente delirei um pouco. Também.

“Enfim sós” é o caralho. Meu nome é Zé Pequena!

- Me deixa morrer, porra!

Me deixa morrer, porra!

Daí. Culpa. Culpa. Culpa. De não me sentir sexy, de não sentir um tico de tesão enquanto penso que vou morrer (lembro da personagem de Capitães de Areia e resmungo Jorge, mesmo Amado), de não conseguir levá-lo para (re)conhecer a cidade. De não. Tosse. Febre. Culpa. Culpa. Tosse. Febre. Sinfonia dos infernos.

- No céu tem pau, mamãe? E morreu.

No céu tem pau, mamãe? E morreu.

Obviamente essa não sou eu. Aquela. Biscate. Biscatona de marré descer. Lembra?

Então.

Toalha molhada na testa. Afago. Café feito. Trilogia que começou com trenzinho assistida na cama. Conchinha. Delicadezas cotidianas. Melhoro um pouco. Feira. Xarope. Paciência. Enrosco. Essas coisas que recitadas juntas quase podem ser chamadas de intimidade.

De repente. Desejo. Tesão. Tesão. Tesão. Sexo de imaginar estrelinhas na voz dele. No sotaque dele. Ai, ai. Again.

E as casas de swing do título? Nem te conto!

Labirintos

downloadHoje eu me encolhi entre lençóis depois de pensar muito abraçada a uma solitária taça de vinho. Era tarde, como sempre, e todos dormiam nessa casa que não é mais minha. A chuva de mais um verão fez correr um Rio Lete entre as minhas pernas, apagando com doçura e uma sabedoria mais antiga que o tempo os resquícios das suas mãos no meu corpo.

Persistente, a matéria era a própria chuva. Também o telhado protetor e a trama que me aquecia. O livro que me sussurrou soltando odores dos antigos mitos, o DVD de quase agora. Minha certezas escoando em letras nesse papel.

Com elas te digo. Encontre seu próprio fio, homem, ainda tenho muitos labirintos a construir. E porque hoje eu paguei ao barqueiro com minhas últimas três moedas também confesso: foi com todo o peso da minha carne que eu te amei.

Quis essa casa de muro-baixo por sem medo e casal sorridente dentro. Ser a mulher que ontem mesmo preparou o café da manhã com cuscuz vitamilho e margarina delícia, beijou os filhos, alimentou o cachorro e as promessas para um logo mais à noite.

Quis o simples. Mas eu não sou.

Adeus, Aquela.

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Água quente, pó de café.

#erotismoemnós #2anosBiscateSC

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013, p.1 e 2

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Oi, amor de um monte de jeito,

Dezembro é mês de aniversário biscate, o que não faz de forma alguma com que a distância diminua, mas dá uma sensação de que tudo ficará bem, melhor, mais leve mesmo, sabe?

Afinal foi aqui mesmo, cercada de amigos, onde há um ano nos conhecemos conversando sobre trens, música e sexo. Sobre dormir juntos. Ou não.

Ainda desejo que não passe esse calor, essa ternura, esse tesão que tem nos acompanhado desde que. Pego a próxima rodada de cerveja pra brindarmos e sorrio ao dividir planos. Meus, nossos.

Ah, meu tão querido leitor…

O fato é que foi primeiro aqui e finalmente com você que perdi de vez o medo de me consumir. Quero que você me coma, me ame, me deseje. Me mande cartas, declarações, fotos, lembranças, videos, gemidos. Quero também que me peças. Mais. Mais. Todos os dias.

Ah, seu cheiro, amor… seu cheiro… É, saudades. Muitas.

2 (2)

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Foi também por conta desse aniversário que escolhi escrever sobre erotismo. Em mim. Em nós. E relembrar. Porque todas as palavras sobre o assunto me remetem a você, que é minha escolha até onde pode ser escolha isso de arrepiar pele, eriçar pelos, acelerar o coração.

Você, que me manda cartas lindas, tão lindas…

A sua presença, o toque, o conforto da sua mão no meu corpo todo, do seu olhar no meu corpo dizendo: quero. Da sua língua que cala buscando a minha. Os gemidos que pouco a pouco aumentam e vão substituindo com sei lá o que essa necessidade de contar de amor. Os seus dedos me invadindo  ao invés de digitar esperas. Os meus com unhas pintadas em rubro que alisarão suas costas no depois.

Cafuné.

Aconchego.

Chegar em casa.

2

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Onde pornograficamente ando nua. Falo palavrão. Gozo gritando e incomodando os vizinhos. Gargalho e choro, meio louca, meio santa, tão puta. Biscate com todas a letras que me cabem.

Porque até nossos tratos, os ciúmes que desafiam o querer, as malas sempre arrumadas para saber mais uma vez que nada disso importa ou deveria importar são carregados de erotismo. Com ou sem clichês. Ainda. Novamente.

É. Somos. Não nos devemos, nunca nos devemos nada e no entanto, ainda quero compartilhar um tanto contigo. Tanto. Que bom ter te conhecido, amor. Como, pois, não comemorar e desejar mais Dezembros?

3

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Enfim, escrevi só para dizer que continuo querendo dormir e acordar ao seu lado. Te desejando de tudo que é jeito. Mas você sabe, é só por que seu café é muito, muito, muito gostoso…

Bom dia, tesão!

R.

P.S: “Quando Fevereiro chegar…”

 

Insônia (ou é apenas poesia, amor…)

“(…) A liberdade é uma dura conquista: conquista da matéria que resiste sempre, conquista de técnicas que mudam sem parar, conquista dos nossos pares para o que fazemos, conquista do sistema ou da rede do qual participamos, e assim por diante. A frase da Clarice, “liberdade é pouco o que eu desejo ainda não tem nome” já deixa isso claro. É como se ela tivesse dizendo: a liberdade é sempre relativa, mas o desejo de absoluto – para o qual não tenho nome – é, essa sim, a mais pura liberdade.”
(André Parente)

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Sem lógica. Ou palavras. Copos sujos, a garrafa vazia, o cinzeiro cheio e o livro aberto na última poesia antes do deitar é que ainda gritam seu nome.

Penso enquanto: quero mesmo pertencer ao tipo de gente que consegue todo dia fazer café sem se queimar, sair de casa na hora certa, deixar tudo no devido lugar. Pertencer ao tipo de gente que consegue deitar na mesma cama sem suspirar, mas olho o relógio que continua tiquetaqueando: não vai passar, não vai passar, não vai passar.

Resolvo lavar louça ao invés. Porque “seja útil, se ocupe com isso e aquilo” grita aquela. Mais. Olha, que boa menina, agora ele vai te amar. Pronto, acabou a lição de casa, ele vai lhe querer. Espia, não tem um prato na pia, agora ele tem que ceder.

Lembro. Da língua na minha e de palavras que não se ausentam das outras. Como desejo e gozo, naturezas mortas evocando de substantivos abstratos a nomes próprios, adjetivos e verbos para registro das ações e paixões.

Relembro. Que eu amo de verdade é os jeans que uso desde que. São os mesmos daquela vez, me convenço e os arranco. Pensamentos e certezas. Qualquer coisa que não seja.

Azul.

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Passo a procurar correspondências, disfarces na língua-mãe do que é do desejo e da vontade. Palavras. Em papel listrado e prisioneiro recito mais uma maldita: “escrevo sobre ninguém!”. Mas falo querendo um pouco mais. Novamente. Entrelinhas transbordam, além.

Volto a pintar.

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Para receber um amor biscate

IMG_20130905_135814Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando

Abro a segunda cerveja deste Domingo e observo os móveis da cozinha, que são de madeira de lei e resistiram a tantas histórias antes da nossa. Essa que torço e faço brilhar nos meus dias e noites para que o cupim do ciúme e da distância não estrague rapidamente.

Prendo o cabelo com lápis, do jeito que te ensinei pra que calor não chegue a incomodar, sambo mais um pouquinho. Varro a casa, ajeito nossas verdinhas e as Brahmas na geladeira que lavei.

Não vai ter feijoada, mas comprei sorvete. E lasanha congelada.

Acendo incenso. Acabo o crochê.

Esta sou eu, meu amor. Finalmente. Por enquanto. A que te espera vivendo o mundo inteiro.

Prendada. Vagabunda.

Mulher de um amor só, o seu, porque aprendeu sozinha a grande dádiva que é escolher seus próprios caminhos.

Que podia não ser esse, um nosso.

Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando

Sei da mochila que você me contou. O que trazes. Mas sempre me surpreendes, delícia. Hoje sambas também. Sorrio novamente, pensando no seu corpo ao meu encontro enquanto lavo os cabelos. Depilo as pernas e a buceta que discutimos em feminismos e risadas. Porque é assim, sem perfume forte, em nós mesmos, com uma sinceridade corajosa que aprendemos a nos amar.

Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando

Como você demorou, concluo ainda apaixonada pelo frio que tem me tomado toda vez que penso em ti. Passo o pano nas dúvidas e na ansiedade do se é mesmo.

É.

Não tem mais o que duvidar. Nem por que.

Limpo qualquer restinho de dor desse riso que antecipo ao te ver desembarcando na terra que nasci. Me faço menina e coloco flor no cabelo enquanto recebo o sol.

Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estréia uma camisola
Eu tô voltando

Dessas coisas que você sente e fazer o que? Escapa entre os dedos e vira sei lá.

Antes de tudo, em minha última defesa, tenho que dizer que odeio o acaso, esse deus de barbas brancas. Papai noel que se foda sozinho. Quero acreditar que estava escrito nas minhas e suas linhas da mão, na minha calcinha molhada, no seu pau duro antes mesmo que.

Abre, abre, abre.

Quero, quero, quero.

Tanto que tenho mesmo que chamar de amor essa vontade de ficar para sempre nua na sua frente até me esgotar no seu desejo.

No meu. Meu, meu, meu.

Repetir até que deixe de ser e volte a pertencer a esfera das sensações apanháveis no ar, feito gripe.

Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da avó
Que eu to voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, ia, porque eu to voltando!

Suo essa febre que escorre os poros todos, derreto por instantes o que vem junto com as cachaças para presentear amigos, a briga com mães, irmãs que não precisam saber. Te amo esse amor de sem jeito. Sem filhos. Empregados ou patrões. Lembranças. Sem estado.

Sem eu, essa que já se perdeu em algum lugar que gemia e dizia vem. Sem você que a essa altura dos acontecimentos passados, presentes e futuros, ousou me responder.

Ah, você me respondeu, amor.

Correspondeu.

Isso. Quero isso.

Você está chegando.

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