Refestelar

Ele está sentado, meio recostado, no sofá.

Ao lado, a cachorra, refestelada. Adoro essa palavra.

(re.fes.te.lar -se)

v.

1. Sentar-se ou estender-se comodamente: Refestelou -se no sofá.

2. Entregar-se a algo que deleita, que dá prazer: Chegou a Paris e logo se refestelou no melhor hotel.

[F.: re - + festa + -elar. Hom./Par.: refestelo (1ap.s.)/ refestelo /ê / (sm.). Ant. ger.: refastelar-se.]

Eu estou aqui, no note, escrevendo um post.

Um lombo marina na geladeira.

Uma taça com água, sobre a mesa.

Na varanda, a gata dorme, em posições variadas de fofura.

É uma tarde cinza, daquelas em que não chove mas não faz calor. Começo de outono e começo de férias. Férias a dois. Férias de nós dois, juntos o dia todo, todo dia. Rotina de já quem vive junto, dorme e acorda, junto.

Ele lê, eu rearranjo os móveis, troco as fotos dos porta-retratos, coloco minha vida e nossa vida sobre a estante. Junto dos livros de receita, os livros de dieta e os livros de Direito.

Férias.

Tempo de refestelar.

Deitar languidamente no sofá, empurrar a cachorra para o chão, e me aconchegar ao lado dele. E estar lá.

Entregar-me ao que me deleita. As mãos grandes, o sorriso de covinhas, o jeito calado, os ombros largos que me sustentam e equilibram.

Com ele eu me permito ser louca e séria. Me permito ser todas.

Com ele, eu me sinto uma boa menina… such a good girl…

 

É claro que nem sempre é assim. E nem tem que ser. Mas hoje. Hoje é. Agora. É.

Borboletas na alma

 

Eu não sou borboleta. Não sou leve, daquela leveza fluida e colorida das belas borboletas. Sou mais mariposa. Ou achava que não era e que era.

Até que veio ela. E mostrou que borboletas nos olhos é um estado de espírito. É uma escolha, um modo de ver a vida, de levar a vida, de trazer a vida para perto. E é isso que ela faz.

Dizem por aí que “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.”

Só que a Luciana é borboleta e traz em si também o jardim. Ou sei lá, ela cultiva o jardim em cada um de nós, para que seja sempre doce e quente e colorido, para que a gente sempre vá até ela, e ela venha até a gente e todo mundo se junte e se misture e … tá bom, já entenderam.

Através do olhar generoso da Luciana eu aprendi tanta coisa… não, eu nao sei nada, mas aprendo todo dia.

E a generosidade não se traduz em moleza, não. Generosidade de falar quando a gente erra, de mostrar o que foi errado, porque não tá legal, que existem outras possibilidades ali.

A Luciana é alguém que me faz ser melhor. Do que eu gosto, quando gosto dela? Gosto de rir, de abrir a mente e a alma para a mais gostosa gargalhada do mundo. Gosto de poder me abrir para ela, sem medo do julgamento. Gosto de chorar e ranger os dentes e desabafar quando isso aqui (aqui e aqui fora) fica muito tenso, pesado, raivoso.

“Então, tem aquela outra música: “viver é afinar um instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro”. Resolvi que não adiantava esperar “mudar a minha forma de sentir” pra agir diferente. Era preciso agir diferente pra ir mudando minha forma de sentir. Então eu procuro agir de acordo com a pessoa que eu quero ser e, pouco a pouco eu vou sendo essa pessoa, sabe. (Borboletas nos Olhos, aqui)

http://www.youtube.com/watch?v=-mLDIAGruEM

Gosto – e gosto tanto! – de ter encontrado na minha vida esse clube de pessoas.

Gosto de poder respirar e não pirar nas baixarias e no ódio e no rancor que assola nosso mundo, porque tenho um lugar para pirar e inspirar.

E amo, muito, ter a oportunidade de fazer uma declaração de amor para você, no seu aniversário.

Então, hoje, apesar de toda dor lá fora e aqui dentro do meu peito, eu agradeço por ser seu aniversário e por ter você na nossa vida.

Te amo.

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Não mascare a violência contra a mulher – Campanha de Carnaval

Esta biscate escrevente está de plantão, em uma cidade histórica de Minas, com um Carnaval famoso em todo país.

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E onde em 2012 uma campanha da PM contra o beijo roubado gerou protestos dos foliões - e foliãs.

Este ano o mesmo tema retorna na campanha “Não mascare a violência contra as mulheres”, da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana da Paraíba. Segundo informado, serão distribuídos mais de 50 mil leques com telefones de Delegacias da Mulher e do Disque Denúncia 197 alertando sobre o que fazer em casos de agressão e beijo forçado. De acordo com dados da Delegacia da Mulher de João Pessoa, neste período carnavalesco o número de denúncias aumenta cerca de 30%.

Tão importantes quanto processar criminalmente e punir os agressores, autores de violências contra as mulheres, são as campanhas de conscientização.

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O beijo “roubado”, pode, sim, ser “brincadeira”, se a parte do “roubado” for brincadeira, consentida, entre pessoas adultas e capazes.

O beijo forçado, obrigado, constrangido mediante uso de força física, segurando pelo braço, pelo cabelo, cercando a pessoa com os amigos em “corredores poloneses”, etc, é violência, é crime, tem que ser coibido.

O problema que vejo é que somos tão acostumadas, nós, mulheres, a mascarar a violência como brincadeira, ainda que de mau gosto, que toleramos e negamos nosso direito de dizer não. No Carnaval, não vale tudo.

No Carnaval e nas baladas, mais ainda que no dia a dia, é como se nosso corpo se tornasse público. E não é. Nosso corpo é nosso, e não abrimos mão de nossa autonomia ao vestir uma fantasia provocante e tomar bebidas alcoólicas e sairmos desacompanhadas de um homem.

Ano passado no plantão de carnaval em outra cidade do interior, um jovem de 16 anos, daqueles bem fortes, criados “a danoninho”, agrediu uma colega, com um murro no rosto que quase fraturou o nariz da jovem. O motivo: ela não quis aceitar a brincadeira de beijo roubado, já que o jovem estava embriagado.

Ser agarrada a força e obrigada a beijar, seja um desconhecido seja um colega, não é brincadeira.

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Brincadeira é brincar Carnaval. Somos todas a favor de variadas estripulias e de se fazer o que se quer. Beijin no ombro, camisinha no bolso!

Mas fazer o que não se quer, e ainda ser acusada de “estar aí para isso”, ter que ouvir “com essa roupa, quem mandou”? Não. Amor de Carnaval tem que ser sem violência!

Amigas, meninas, moças, mulheres. Não somos obrigadas. Se você quer beijar um, dois ou quantos mais, é seu direito. Se não quiser beijar ninguém, é também seu direito!

Se quer brincar, entrar na brincadeira dos beijos roubados e achar que não tem nada de mais, ok, claro que você pode.

Mas se outra não quiser, não é frescura, exagero nem “cu doce”.

É liberdade, também.

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* adendo necessário: muitos dos homens que fazem tais brincadeiras acham que são realmente brincadeiras, porque não estão acostumados a pensar na autonomia da mulher. Felizmente, vários já estão se conscientizando e entendendo que a violência se mascara de várias formas.

 

 

Ideologia…

A Denise Arcoverde publicou o link para o texto do Xico Sá, de hoje, na minha TL do Facebook: Você deixa de transar por gramática ou ideologia?.

Pergunta o Xico: “Você ficaria –não estamos falando em casamento!- com quem defende a tese do “bandido bom é bandido morto” e aplaude o neopelourinho escroto que anda rolando por ai?”.

E aí a xará responde: “pois então. eu não respondi à pergunta, pq essa do pelourinho não vale, né? É só retórica. Mas e um mezzo-reaça? Um liberal que acredita no esforço pessoal etc.?
Aí fica mais difícil dizer que não de cara. Eu pensaria.”

Pois é.

Eu pensaria. Mas possivelmente, não ficaria. Ou sim?

As questões que a questão levanta são maiores que permite essa vã filosofia.

Alguém pode ter o discurso lindo, perfeito, que combina com o seu. E os dois se completam e completam as frases um do outro, mas na convivência diária, na hora de colocar o lixo para fora e a comida na panela, os opostos se revelam, as divergências se tornam arestas intransponíveis, abismos. E não há respeito, não .

E alguém pode ter o discurso todo errado, seja na gramática ou na ideologia (errado de não bater com o seu, não sejamos arrogantes de nos achar sempre certos, isso também é brochante -ou broxante?), mas no dia a dia, comendo um quilo de sal, trocando os botijões de gás, provando do dormir e acordar, é aquele alguém que nos equilibra. Não completa, não a armadilha da alma gêmea, mas a certeza de que se é amor, vale a pena esforçar para “dar certo”. Não a todo custo, não para ser para sempre, mas enquanto durar.

E nesses dias, quando as redes sociais andam esgarçadas e ao mesmo tempo agastadas, fica mais fácil ou mais difícil separar o mezzo reaça, na linha do que a Renata Lins definiu, do feminista progressista fake.

Hora de dar uma pausa, respirar, e ver o que realmente você quer, naquele momento.

E no resto de sua vida.

Sem dicotomia entre o discurso e a atitude, sabendo que o discurso permeia a atitude, mas lembrando que a atitude, bem, ela confirma ou desmente o discurso…

Ideologia… Cazuza

 

 

Meninas, brincos e Delegadas

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Essa semana é a Semana da Visibilidade Trans*. E eu vou falar sobre a minha experiência, de mulher cis (que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer). Eu podia acrescentar meus outros privilégios, privilégios que talvez você leitor(a) também tenha, ou não. Mas hoje vou me deter nesse ponto.

Eu, me identificando como “menina”, tinha os cabelos curtos, estilo “joãozinho”, e aos cinco anos de idade me foi negado o direito de usar o banheiro de meninas, que tinha uma peixinha de brincos e lacinho rosa, e me indicaram o banheiro de meninos, com o peixinho de bigode e gravata azul. Uma menina, mais velha (hoje, em retrospecto, imagino que ela devia ter uns nove ou dez anos) me disse que o meu banheiro não era aquele. Era inverno, o uniforme era moleton marron e eu não usava brincos.

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Ao sair da aula e encontrar com minha mãe, em prantos eu exigi que minhas orelhas fossem furadas e me fosse concedido aquele precioso símbolo da minha identidade de gênero. Não foi possível furar as orelhas no mesmo dia, e então, mesmo no frio, usei o uniforme de verão, sainha curta, para ir às aulas no dia seguinte.

Esse episódio se tornou meio que uma anedota familiar, e eu meio que o ignorei, afinal, não fazia sentido ficar remoendo. (…)

Já adulta, Delegada de Polícia, a militância em Direitos Humanos, que me acompanha desde o ensino médio, me aproximou de grupos ditos (e feitos) vulneráveis, entre eles o grupo das pessoas trans*, dentre a população LGBT.

Em uma conferência de Segurança Pública, dentre toda a fauna de policiais, gestores, sociedade civil, tive o prazer de conhecer Walkíria la Roche. Me impressionou sua delicadeza e feminilidade, fez com que eu, a menina “tomboy” dentro de mim, me sentisse quase “masculina”.

E depois, conheci, em 2012, pelo Blogueiras Feministas, Haley Kaas e outras pessoas trans*, mulheres e homens, e comecei a conhecer (um pouco) mais e pensar (muito) mais sobre as questões de gênero e identidades.

Percebi que o que eu achava que era “natural” não é bem assim. Que muitas mulheres em processo de transição sofrem enormes pressões para serem femininas e delicadas, para se enquadraram perfeitamente no molde da “MULHER”, esse ser que não se nasce, se torna, para todas nós, cis e trans*, mas que para uma mulher trans* é ainda mais opressivo.

No texto que abriu essa semana, a Daniela Andrade falou sobre as profissões que são designadas à mulheres trans*, às travestis: a prostituição ou os salões de cabeleireiros, quase sempre vilipendiadas, estereotipadas, violadas pelo preconceito.

Na semana passada, foi divulgado o fato de uma mulher trans* haver se submetido à cirurgia de redesignação de sexo, em uma profissão que muitos consideram masculina, e que por coincidência, é a minha profissão: Delegada de Polícia Civil. Foi em Goiás, e a mulher é a dra. Laura.

Eu tenho tentado não ler comentários em portais de notícias. O anonimato permite uma virulência que enoja, assusta, entristece. Mas li alguns, na matéria malfeita e maldosa de um jornal local. E uma das “preocupações” de alguns comentaristas era com a situação juridico administrativa da delegada. Afinal, ela entrou como “homem”, e de repente, “virou” mulher. Logo, ela fraudou o sistema.

Muito me espanta, gente até inteligente e estudada, falando isso. Não há cotas, nas policias civis e federal, como há nas PMs. Logo, a situação juridico-administrativa, ao meu ver, não sofreu alterações.

Outros, preocupavam-se com a dita “reserva de mercado” das DEAMs, que são as delegacias de atendimento à mulher, delegacias que tradicionalmente são ocupadas por mulheres.

Voltando ao tema, eu torço para que Laura, minha colega na PC, em Goiás, seja feliz, no caminho que trilhou. Seja na DEAM, seja numa depol de área, aquelas “chão de fábrica”, como a minha. Onde cabe “macheza” suficiente em uma mulher, como cabe em mim, o que quer que seja isso.

Porque hoje eu luto por um mundo onde a falta ou não de brincos não seja definidora de gênero. Para que crianças possam crescer sabendo que os banheiros não devem ser motivo de opressão de gênero, e que meninas podem ter bigode, meninos podem usar lacinhos e cor-de-rosa, e que isso não define quem somos.

Luto e torço e espero por um mundo onde papéis de gênero não sejam tão fixados que impeçam que um homem possa ter empatia e capacidade de sensibilidade suficiente para trabalhar com mulheres em situação de violência, em uma DEAM, ou que, pelo oposto, imponham a todas as mulheres a obrigação de sermos sensíveis e “boazinhas”, portanto, ideais para trabalharmos “na Mulheres”.

Queria voltar ao passado e dizer para a Renata de 5 anos que tudo bem usar o banheiro de meninos, e que ela não precisa furar as orelhas se não quiser.

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Mas o que realmente dói é saber de tantas meninas em situação de disforia que não tem apoio, não tem amparo, não tem a quem recorrer.

Hoje eu vejo que o meu trauma é meu, e não é “bobo”,não vou diminuí-lo, pois ele me ajuda, agora, a calçar por alguns segundos, o sapato de uma criança trans*. Meus brincos me garantiram de imediato o ingresso no meu mundo, onde nunca mais me foi negada a minha condição de mulher. Eu quero que meus filhos vivam em um mundo onde não seja preciso um par de brincos ou um médico ou juiz para garantir que todos e todas possam ser felizes, da forma como escolheram.

Biscate: categoria celebração!

#BiscatagiÉCultura #2anosBiscateSC

Então são dois anos de Biscate Social Clube, e como autora não-convidada membro honorária deste dileto clube, voltei a dar as caras para celebrar!

Hoje minha categoria é “Biscatagi É Cultura”. E nessa categoria tem de Gilda a Niara. Passando por Stefhany, Amanda Palmer, Dina TalaatSimone de Beauvoir, Pagu, Maria Medalha, Joan JettJosephine, Madonnaartistas latinas da rua, Lucia, Scarlett O’Haragrafiteiras, Pam Grier, Angélica, Joni Mitchell e Taylor Swift, Yazda Rajab, Chica da Silva, Catherine Millet, Nina Simone, Cora Coralina, Alzira e VioletaMarguerite Yourcenar, Ana Cañas, Tatazão, pretas, escravas e sinhás, Pete Burns, Piaf, Louise Bryant, Gracyanne, Laerte e Vânia Flor, Brigitte Bardot e tantas, tantas outras…

Do clássico ao “brega”, do Cult ao Pop. Biscate-Caminhão, Biscate sofredora.

Biscates reais e biscates ficcionais, com as quais nos identificamos tanto quanto.

Biscateamos em alto estilo com o Clint, Bond, com roqueirossoltamos a franga.

Nesses dois anos, foram dezenas de posts, sobre anônimas e famosas que se enquadram na nossa deliciosa categoria BISCATE. Biscate, essa mulher livre, para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser.

Nem sempre é fácil, e muitas tantas vezes escorregamos, sem querer, em julgamentos feitos com a mesma régua com a qual nos medem e julgam.

Sobre o comprimento da saia, a profundidade do decote, o peso da maquiagem, o salto alto de fuck me…

Não somos perfeitas, não cobramos perfeição. E tentamos ser coerentes, ainda que isso seja difícil e dolorido.

Hoje o post é para todas nós, Biscates.

Luciana e Niara.

Renata e Renata, Sara, Jeane, Charô.

Bete Davis, Silvia, Raquel, Cláudia, Lis.

Toni e Mozzein.

Biscates fixas e convidadas do Brasil e do Mundo, Uni-vos! (sorry, Niara, não resisti!)

Esse post de final de ano é um post-memória-celebração.

Memória é vida, como bem deixa a Renata Lins, no post de ontem, entendido.

Estamos aqui, não estamos sós.

É um prazer e uma honra caminhar junto com vocês nesses dias difíceis, mas torço para que em 2014 estejamos juntas mais e mais vezes!

Amo vocês! ♥

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Eufemismos, medo e morte

No dia 22 de novembro de 2013, uma jovem de 17 anos foi morta pelo (ex)namorado, no interior do Paraná. As câmeras do circuito interno de vigilância do supermercado onde a jovem Letícia trabalhava captaram parte da cena.

Assisti tal notícia num jornal sensacionalista, do tipo Cidade Alerta. Sábado modorrento, de passar a tarde em casa depois de almoçar fora. Namorado zapeando canais da televisão. E de repente, no meio do meu sábado, dentro da minha sala, aquela cena.

Uma jovem sendo arrastada por um agressor. Se agarra a um homem, na porta do supermercado, implorando por socorro. O homem que a arrasta mostra uma arma, e o pequeno grupo de pessoas se afasta, impotente, com medo. Ou talvez pensando: “em briga de marido e mulher…”.  Eles saem. Todos na porta, olhando.   Segundos depois, ela volta, correndo. Escorrega. Cai. E é atingida por mais um disparo.

Isso foi transmitido na tevê.

Ao final da matéria, eu chorava. De dor. Desespero. Agonia. Raiva.

Durante a matéria, entrevistas com colegas de trabalho e com a mãe da jovem.

O (ex) namorado, de 21 anos, não aceitava que a jovem trabalhasse. Ou estudasse. Exigia que ela largasse o emprego. Não foi a primeira violência, aquela sequência transmitida em rede nacional.

E os repórteres noticiam: “mais um crime passional”.

Duas semanas depois, o Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a autorização ou não para a investigação da agressão relatada pela esposa de um parlamentar, que o acusou de agressão e narrou que ficou apanhando por 40 minutos, votou contra, usando seu conhecimento em MMA para desqualificar o depoimento da vítima.

Segundo o Ministro, “Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, o ministro Marco Aurélio também sabe que nem num torneiro de Mixed Martial Arts (MMA) se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”, explicou Fux, que pratica jiu-jítsu. “Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, completou adiante, observando que o exame do Instituto Médico-Legal (IML) encontrou apenas lesões na mulher, como hematomas nos braços e nas pernas.”

Estamos participando, aqui no Biscate, da campanha #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher e enquanto eu pesquisava sobre esses dois casos, para poder explicar qual a ligação entre um e outro, encontrei uma “matéria” com uma declaração do tio da Letícia Monique, dizendo: “Nós esperamos que isso sirva de exemplo para outras jovens que estão em um relacionamento complicado como este. Infelizmente, é um exemplo ruim”, lamenta o tio.

“Exemplo para outrAs jovens”, diz o tio.

“Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, diz o ministro Fux.

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, dizem tantos.

Lei “Maria da Vingança”, já ouvi homens dizendo.

Relacionamento “complicado”.

“Na hora, assim, da fúria, né? A pessoa não pensa… ai eu efetuei os disparos”, disse o assassino.

Uma jovem é morta, no interior do Paraná, por um homem de 21 anos. Crime passional – porque foi filmado, gravado, testemunhado, ele foi preso em flagrante e confessou.

Uma mulher é agredida por um deputado federal, durante um longo tempo. Podem ter sido 40 minutos. Para o ministro não houve crime, não houve sequer agressão. Segundo ele é impossível, inverossímil, a versão inicial da vítima — “a suposta vítima e a testemunha, empregada doméstica da família, teriam voltado atrás em seus depoimentos”, diz o jornal. Felizmente o STF entendeu, por 6 votos a 3, que existem indícios suficientes para a instauração de uma ação penal e atenderam ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que a denúncia contra o deputado fosse recebida e o processo fosse aberto. Ele agora é réu.

Entre o tio da Letícia Monique e o nobre magistrado, doutor, ilustre e fã de MMA, nada em comum. E tudo em comum.

O pensamento é semelhante, o objetivo é semelhante: legitimar a ação do homem e agressor, e desqualificar as palavras da vítima.

Leticia já havia sido agredida antes. Na frente de amigos e familiares. Já havia sido arrastada pelos cabelos, na frente de casa, pelo Jean Albino. Na frente da mãe. O tio chama o relacionamento de “complicado”.

Letícia faz o que é chamada a fazer, para demonstrar que “não gosta de apanhar”: se separa do agressor. Termina o namoro.

Não sabe (ou talvez saiba) que aumentou em mais de 85% o risco de ser morta.

E morre.

Quando vamos ver a relação entre as declarações dos nossos jornalistas e dos nossos juízes (e nossas jornalistas e nossas juízas!) e as mortes de ao menos 10 Letícias por dia?

Quando vamos entender que Jean Albino não matou em um momento de fúria, sem pensar? Que ele pensou, e muito. Ele pensou, e muito, que Leticia era sua coisa, sua propriedade, sua posse. Que Leticia não tinha direitos sobre a própria vida, que não podia trabalhar, estudar, ter outros interesses na vida, salvo ele.

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Para a imprensa, um “namoro que terminou tragicamente”.

Para o tio, “um exemplo para outras jovens”.

E para os agressores, a declaração do Ministro: nunca vi murro de mão fechada não deixar marcas. E a suposta vítima tem apenas lesões.

Apenas. Lesões.

A mensagem que fica é: bata, mas não deixe marcas.

E se matar, foi apenas um momento de fúria. De um jovem desequilibrado. E não de um sistema, de uma situação, familiar e cotidiana, que afasta qualquer debate ou discussão ou conversa, e que coloca os autores de agressão física, verbal, psicológica, sexual, como monstros. Desequilibrados.

O jovem Jean Albino não demostrou arrependimento. Logo dizem: monstro. Ou então: apaixonado.

Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas.

Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.

Angélica, Marquesa dos Anjos

Era o ano de 1990, isso mesmo, século passado, e eu tinha 13 anos, e tive catapora. Fiquei de repouso, e esgotei os livros que tinha para ler. E então, na estante, descobri um certo livrinho, chamado “Os Amores de Angélica”, com uma capa brega, mas interessante.

Sem imaginar no que me metia, em pouco tempo li a história toda, e fiquei sabendo que se tratava de uma série, com vários livros, todos eles focados na figura de Angélica de Sancé de Monteloup, a filha de um casal da pequena nobreza da França do século XVII, com suas aventuras, desde a infância de pés descalços, na nobreza pobre do interior, até seu casamento de conveniência com um Conde tolosano, o Conde Joffrey de Peyrac, treze anos mais velho, rico, experiente, mundano, e que viria a se tornar o maior amor da história dos amores de Angélica.

Coleção Angélica

Coleção Angélica

A história dos autores da obra, por si, já é fascinante:

Anne e Serge Golon.

Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS – sim, ainda era URSS!) em 1903, e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (França), em 1928. Conheceram-se e casaram-se na Africa, para onde Anne, com o dinheiro de um prêmio literário, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na época: formado em geologia, mineralogia e química, cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atraída por sua fama, Anne resolveu entrevistá-lo.

De volta à França, em 1952, já casados, tiveram a ideia de escrever uma novela histórica ambientada no século XVII: Seerge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercendo um talento para as letras já manifestado na infância.

O sucesso de Angelica, Marquesa dos Anjos, lançado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vários idiomas, fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo.

 

Naquela época, tudo que uma adolescente apaixonada por história podia fazer, ao ler todos aqueles nomes em francês, todos aqueles lugares, aqueles personagens, alguns familiares das aulas de história da antiga 7ª série, como Luiz XIV, o Rei Sol, outros, da história de D’Artagnan e os Três Mosqueteiros, como oCardeal de Mazzarino, era mergulhar na enciclopédia Barsa e nos atlas da família, e viajar naquele mundo novo e ao mesmo tempo, familiar.

Angélica me fascinou desde o primeiro livro.

São 26 volumes, os lançados pela Nova Cultural e vendidos em banca. Sei que havia a edição do Círculo do Livro, mas estes meu pai não quis comprar pra mim (comprou O Guarani e a coleção dos Escoteiros Mirins, ao invés…).

Coleção Angélica

Levei, sem brincadeira, dez anos para completar a coleção. Durante muito tempo, em qualquer cidade que fosse, se visse uma banca de revistas onde havia troca de livros, eu parava para garimpar. Um dos volumes foi achado no Rio, em uma banca perto da Candelária, quando lá estive em 95, para o show dos Stones no Maracanã.

Angélica é uma jovem mulher à frente de seu tempo, mas ao mesmo tempo, não tão diferente de todas as mulheres. Ela sofre, se alegra, ri, ama, vive.

Tem seu primeiro amor arrancado de seus braços e queimado na fogueira, é amada pelo próprio Rei Sol, desdenha desse amor, foge, em busca de Joffrey, que afinal, não fora queimado como feiticeiro, mas conseguiu fugir e virou pirata no Mediterrâneo.

Angélica se casa com o Conde de Peyrac, perde tudo e é lançada na sarjeta, depois vive com um mendigo e bandido (tem um passado por trás), tem um caso com um panfleteiro, depois com um policial que a persegue (e que tem ainda uma outra história por trás, claro), depois, chantageando alguns nobres que estupraram e mataram um garotinho, consegue subir de novo na vida, se casa com um Marques (de novo: claro que tem uma história por trás!).

Coleção Angélica

É tida como amante de Luiz XIV, se revolta, foge para o Mediterrâneo, é capturada por piratas, vendida como escrava sexual para um hárem (hello, Gloria Perez, tá melhor que Dorme Jorge!), faz amizade com o eunuco (seduz o eunuco!), foge com um grupo de escravos, se apaixona por um deles, volta para a França.

Ufa. Calma, ainda é só metade da saga!

Nesse meio tempo, faltando tipo, metade da história, Angélica reencontra Joffrey, e os dois vão para o … Canadá!!!

E lá, ajudam a colonizar a colônia francesa, encantam índios, enfrentam demônios, padres e fofoqueiros de plantão.

E tem casos extra-conjugais!

O mais legal da série, que é longa, e obviamente, oscila bastante, é a dinâmica entre Angélica e seus amores. E as reflexões que a personagem vai fazendo ao longo da vida.

Eu já tentei fazer a cronologia, e pelos meus cálculos, Angélica se casa pela primeira vez aos 17, e termina o 26º livro com 40.

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Tem seis filhos, com pais diversos, inclusive uma “filha do pecado”, fruto de um estupro…

Angélica foi a primeira biscate que conheci. Biscate, biscate mesmo. Com as capas que horrorizavam minha pobre mãe, que se indignava com o fato de eu, uma moça tão inteligente, tão elogiada pelos professores,  gostar de romances de banca (na cabeça dela, era pornografia. Ah, mal sabia ela de metade da missa. Mas isso fica para outra história).

Angélica não só teve vários amores, como teve vários amigos e amigas, refletiu sobre política, filosofia, guerra, o papel da mulher na história…

A obra é um misto de conto de fadas com crônica histórica, sé é que dá para imaginar.

E as capas… As capas são um amor à parte.

O primeiro marido, Joffrey, é o que mais aparece, mas os personagens secundários também surgem, ainda que só no fundo, ou mesmo agarrando nossa heroína, que, via de regra, é retratada lânguida e desfalecente nas capas, ao contrário da personagem forte e decidida que sempre foi.

Esse contraste chega a ser irônico…

Quer saber mais sobre Angélica, a série, e Anne Golon, a autora?

Dê uma googlada, ou aguarde meu post do dia 25 de fevereiro, no Blogueiras Feministas!

Se quiser saber mais sobre os romances de banca, também tem post meu lá no BF.

Quem tem fama…

#AlmaBiscate
Por Renata Lima

Não nasci biscate.

Me fiz biscate.

Nasci mineira, da tradicional família.

Mas sou ousada (palavras, em tom elogioso, de meu pai).

E por pensar diferente de alguns muitos e muitas, por agir diferente (nem sempre melhor, claro), muito nova, sem mesmo provar o gosto da fruta, já fui tachada de má-companhia.

Decorrente da língua de jovens homens que seguiram (seguem?) o roteiro, de falar mais do que realmente fizeram, de contar como vantagem, o que pra nós, mulheres, tem que ficar escondido.

E o primeiro namoradinho, tadinho, veio com tanta sede ao pote, achando que eu era… galinha, fácil, biscate…

Não era, ainda.

E ele se descobriu namorando uma jovem da TFM, com um pai zeloso e horários para chegar. Depois do primeiro “avanço” e do esclarecimento, o temor de se/me comprometer. E ele saia da minha casa, onde me deixava, virgem, pura, intacta, e ia se encontrar com uma ex (soube disso anos e anos depois, pela ex, imagine que mundo pequeno… realmente, Ovorizonte. )

O fato é que um dos primeiros caras que beijei, em uma festa, num canto, disse pra todo o colégio que me “comera”. E todos acreditaram… menos eu, que só fiquei sabendo mais de ano depois.

A verdade é que a fama não me fez deitar na cama. Pelo contrário. Por mais que eu quisesse, as vezes, temia o momento. Era romântica, jovenzinha, e queria toda a coisa de luz de velas, declarações de amor e um príncipe no cavalo branco.

Vieram príncipes. E sapos. E ogros. E dragões.

E demorei muito, muito tempo, para realmente descobrir o que eu desejava. Desejo: Amor. Respeito.

Sexo.

No fim das contas, com um ou com vários, o que define uma biscate, ao menos para os outros, é uma mulher admitir, em público, que gosta de sexo. E que faz.

Com amor, sem amor.

Mas sempre, com respeito. Respeito por si, respeito pelo parceiro.

Respeito pelos limites e pelos momentos uns dos outros.

Sempre questionei tantos duplos padrões, tantas coisas que meu irmão, mais novo, podia fazer, e eu não. Horários, locais. Mas admito que tive mais liberdade que a maioria das colegas da minha idade. Para as mães delas, eu era muito “solta”.

Hoje, me identifico cada vez mais com o texto da Márcia, biscate convidada, sobre ser Biscate Loser.

Sim, eu sou.

Ainda que não biscateie tanto quanto desejaria (ou quanto as vezes parece que biscateio), minha biscatagem é constante.

E é constante na busca da coerência de não julgar, de não medir outras mulheres (e até homens, claro!) pela mesma régua com a qual fui medida.

Nem sempre é fácil, e as vezes escorrego. Em pensamentos, e até em palavras. Mas me arrependo (sim, Jesus, vem e me chama de Madalena, seu lindo!) e logo volto a persistir no propósito:

Se não veio o anjo e me disse para ser biscate na vida, eu mesma decido e digo que sim, eu sou biscate, prá vida!!

E com a ajuda do super time de biscates super poderosas (e poderosos), sei que vencerei!

Façamos…

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Façamos, Renata Lima

Aquelas horas lânguidas, em uma cama grande, espaçosa, ou aquela meia hora agitada, em um carro apertado, ou aqueles minutos intensos, em um canto qualquer…

Qual o som que te embala?

Cada som, uma expectativa, uma lembrança, um desejo.

Every inch of my love…

Led Zeppelin é rock blueseira. E combina com horas de sexo intenso, selvagem mas demorado. O que? Selvagem e demorado, não combina? Você que pensa, e que pena que pensa assim.

De qualquer forma, na lista de rock n’ roll, sempre cabem oustras combinações e outros sabores (e velocidades e duração…)

A voz rouca e gemida de Plant em Rock n’ Roll,  é um espelho da minha voz, rouca, gemida, quase ganida. Cio.

Aretha, Nina, Ella…

Elza Soares. E Chico (nem eu consigo escapar de Chico… esse muso da alma Biscate…)

Façamos. Vamos amar…

Arrepiam-se os pelos da nuca. A boca fica seca. Pede por uma taça de vinho, um queixo áspero arranhando o pescoço. Uma mão dura apertando a cintura. A respiração ofegante, o pulsar do sangue concentrado em um único ponto. Parecendo que a voz dele e a dela se misturam e derretem cada nervo e cada músculo do corpo, tudo se concentrando em uma poça quente e ardente.


Uma festa lotada. Um funk batidão rolando. Um tesão irreprimível.

Quero te dar, quero te dar.

Rapidinho, em pé, ao som do batidão.

Vem cá, vem cá, vem cá.

Não precisa dizer mais nada.

Frejat e sua voz rouca, seu olhar de quem cheirou uma carreira de … gatinhos.

E as letras quentes e sugestivas.

Um carro. No escuro. Só a lua. Os vidros embaçando, as pernas batendo no painel.  E a voz do Frejat cantando: vê se ao menos me engole.

Mas é claro.

A verdade, no entanto, é que a melhor trilha sonora para esses vários momentos é aquela que o corpo faz.

Os gemidos, as palavras, os suspiros, os gritos, os urros (tem uns que gozam em silêncio, mas adoro quando urram de prazer).

O som da pele escorregando nos suores misturados.

A sucção de uma boca ávida.

O som da cama batendo na parede. O colchão rangendo, os lençóis caindo ao chão.

O escorregar dos corpos colados, mudando de posição, e o súbito estalar de um tapa, espalmado, espalhando arrepios pela coluna acima. E abaixo.

Qualquer que seja a trilha sonora escolhida, não podem faltar aquelas palavras quentes, picantes, obcenas.

Sim, eu quero, sim eu gosto. Não pára.

E o súbito silêncio, quebrado apenas pelo ruído do isqueiro, e da brasa do cigarro queimando, e o sorriso mudo que antecede o sono saciado.

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

O dom de ser feliz

Tem gente que acha que a gente que é biscate não sofre por amor.

A gente sofre, sim. E chora. Ou não chora.

E sofre, por nós e pelos outros. A gente se chama de biscate, e tira do outro o gostinho de achar que ofende, mas a gente se entristece com gente que fecha os olhos. Com gente que nega alegrias. Que nega amor, que nega amizade.

A gente sofre por amor, a gente sofre por ver o preconceito e a discriminação ainda fazerem vítimas. A gente se engaja, as vezes, só do sofá, as vezes, saindo para a rua, as vezes, só militando em nossos círculos mais restritos.

A gente sofre quando vê a miséria física, explicitada em crianças nas ruas. Quando vê a miséria espiritual, sangrando nas páginas policiais.

Eu sofro quando vejo o outro sofrer. Eu me importo.

E a gente sofre quando o Outro, aquele que um dia nos teve nos braços, vai embora, leva tudo de si, tenta apagar toda e qualquer lembrança. Tenta contaminar, quem sabe sem querer,  toda lembrança boa, tudo que poderia ter ficado, ou que poderia ter sido.

Mas a gente vai e chora, e cai em outros braços. Braços de amigos ou braços de amantes.

E de repente, ela está ali.

Felicidade.

Outro dia acordei assim, de um sonho no meio do sonho, e sonhei com um beijo e um afago.

Mas não eram os dele. Já não era sem tempo.

Saudade tem fome, se a gente não alimenta, ela míngua.

Estou matando a minha de outros sabores, alimentando outras vontades.

Estou viva, cada dia mais.

Já paguei minha divida com as saudades, já não quero mais doer.

Quero o gozo infindo, aquele que parece a morte.

E acordar em outros braços.

Felicidade.

Não é alegria.

Não é estar apaixonada.

Não é acreditar que é retribuida.

É tanta coisa, e não é descritível.

É crível, só isso.

Palpável.

É se bastar, mas ter espaço para o outro, para os outros, para a preocupação e o cuidar, para o compartilhar e o dividir, para o egoísmo e o altruísmo.

Eu sou boa.

Quis ser má, quando foram maus comigo.

Mas essa não sou eu.

Quando chega a vazante, eu sou de Câncer.

Tenho minhas memórias e meu aconchego.

E tenho meu sorriso.

A vida segue.

(e para fazer invejinha, que sou boa mas não sou santa, mando uma fotinha de um momento de felicidade simples, ao lado de Renato Teixeira e Almir Sater, depois do show em BH)

Depois do show, a gente segue, tocando em frente
Eu sei… que nada sei…

Paixão? Amor? Outra resposta possível?

Aqui em Minas, a gente tem um jornal. Quer dizer, temos uns três, mas acho que um é “O grande jornal dos mineiros” ¬¬ e é o Estado de Minas – EM (uma grande porcaria, se querem minha opinião. se não quiserem, azar.).

Meu pai ainda o lê. E minha mãe, na segunda feira, me mostrou uma coluna escrita por um deputado e conselheiro sentimental, cagador de regras, chamado Antõnio Roberto, o artigo em comento, que começa, via de regra, como as colunas dele no tal jornal, com a pergunta de um leitor(a).

Eis a pergunta:

“Antônio Roberto, apaixonei-me por um rapaz, há um ano. Foi uma loucura nosso relacionamento nesse período. Vivíamos exclusivamente um para o outro. Há um mês, ele terminou, após um período de esfriamento. Por que a paixão acaba? Estou sofrendo muito. Me ajude. Beatriz de Belo Horizonte.”

Me peguei pensando em todas as paixões, paixonites e amores que já vivi na vida.

E lembrando de Legião Urbana e do amor que é fogo que arde sem se ver e que sem amor, eu nada seria…

E de todas as canções de amor que já foram escritas.

E de que alguém já disse que de amor não se morre, se vive.

E que sou uma eterna romântica, mesmo quando faço cara de biscate blasé.

E lembrando de Legião, busquei o Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

E lembrando da Luciana, que freudianamente me indico este texto, eu lembrei de um post do Borboletas, e quando o encontrei, me perdi. E me achei.

A resposta, Beatriz, afinal, eu não sei.

Paixão, amor, amor, paixão? Quem é que sabe?

Mas explicação para eu escolher os dois, sempre, mesmo com a dor e a agonia, é essa aqui, do vídeo:

Enquanto dura, é bom pra caralho! (E pra buceta!)

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