É tempo de jogo

tempo

E o tempo é de jogo. Jogo: risco. Jogo: brincadeira. Jogo: expectativa e coração batendo.
Jogo: vida. Avesso do tédio. Do pacífico. Do estagnado. Jogo: movimento. Corda bamba. Incerteza. Aposta. Ansiedade.
É o jogo que leva. O jogo que encanta. Que seduz. Que faz brilhar. O jogo embala e dá vontade de ir.
Não amor, o que quer que isso seja. Não necessidade. Não desejo. Jogo.
Meia-luz. Meia-luz é importante: jogo de sombras. Silhuetas. Vislumbres.
Aumenta o risco. Mover-se na penumbra é mais temerário.

O jogo é que leva, o jogo é que move, o jogo é que impulsiona. Enquanto há jogo há risco, enquanto há risco há encantamento.
Giros. Rodopios. Desvios. Desencontros.

E o jogo continua, de lá para cá, de cá para lá. Levezas. Deslizares. Tristezas. Olhando a fumaça no ar se perder. Quem ganhar leva tudo. Ninguém sai.

Tensão. Apostas. Receios. E se doer? E se doer demais?
Não vou mais.
Chega disso.
Tô de altos.
Mas o jogo puxa, o jogo atrai.
Aí, de leve. Só por hoje. Só um pouco. De novo, o jogo.

Sábado azul de saudade

Meu Vinicius de Moraes
Não consigo te esquecer
Quanto mais o tempo passa
Mais me lembro de você
Cadê meu poetinha?
Cadê minha letra, cadê?
E morro neste piano
De saudade de você
(Tom Jobim)

Hoje é dia azul, e dia de saudade. Essa saudade de você estar aí, de eu poder pegar o telefone e te ligar, e falar umas besteiras, de eu te mandar um email e você responder tirando onda, de eu estar andando na rua e de repente ligar e perguntar “posso dar uma passada?” – porque passar era sempre bom, a gente sentava e tomava um café, a gente aprendia juntos a entender novos significados, a reinterpretar e inventar antigos.
A gente ria. Sempre a gente ria.

Hoje é sábado, dia azul. Tá lindo lá fora. E eu com saudade. Com falta de poder falar com você. Ironia, sal, humor ácido. Café, mesa de madeira, e – a gente ia descobrindo – um mimo. Um chocolatinho. Um pedacinho de queijo, “prova só”. Algo pra gente se sentir em casa. A sua casa que você tinha botado abaixo e remontado desde o osso. Uma casa em que dava vontade de ficar, onde a gente se sentia confortável. Eu tirava o sapato, sempre. Tirar o sapato é sintomático: é marca. Não era dessas casas em que os donos pedem para você tirar o sapato: era eu que ficava com vontade de ficar descalça. Tinha o tapete. Tinha o chão em que eu gostava de sentar. Sua casa, do seu jeito.

Sua vontade de aprender, seu destemor em mudar. Mudar a vida toda, de repente, quando entendeu que não era mais aquilo. Todo mundo te achando louco. E você achando graça. Tudo de novo, outra forma de fazer, outra linguagem. Tudo zerado. Aquilo que dizem que não dá para fazer. Mas tem gente que vai lá e faz. Faz e pronto. Como você, que fez e pronto.

Como você, que continua fazendo tanta falta. A sua rua continua lá pra me lembrar que não dá mais pra subir, que não dá mais pra tomar um café. Os livros? Fiquei com eles. Herança. Você não ia ligar, tenho certeza.

Sábado azul. Sábado azul de saudades. Chega aí. Vamos falar besteira. Tirar o sapato. Tomar um café. Um café com risadas.

Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

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Pois é. Teve a cena lamentável do Gerald Thomas esta semana, enfiando a mão por baixo da saia de uma constrangidíssima Nicole Bahls. Muita gente já falou disso, embora talvez menos do que eu esperasse. Tem sempre um subtom “assunto de mulher”. Ou será hipersensibilidade minha?

Mas não resisti a comentar o comentário do próprio Gerald, no seu blog, defendendo a “brincadeira”. E é isso que o “artista” tem a dizer, como se pode ver aqui:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!)

Aí, amigo, é “perdeu, playboy”. O melhor que Gerald teria a fazer, o mais honesto, o mais honrado, seria pedir desculpas por, na nossa sociedade hipermachista, fazer brincadeira com a violência sexual que é assunto cotidiano das mulheres. Extremamente cotidiano, como mostra este relato da Adriana Torres, corajosamente levantando o véu sobre histórias que vezes demais são sofridas em silêncio. Do nosso lado. Conosco. Todo dia. Um doloroso relato intitulado, significativamente, “Ser Mulher”.

Não que eu de verdade esperasse desculpas: mas me impressionou a naturalidade com que ele  usa a argumentação mais machistamente clichê, mais canalhamente comum, de culpabilizar a vítima, de bunda quase de fora, de salto alto de “fuck me”.

Uma pessoa usando salto alto de “fuck me” já abdicou, segundo esta lógica, de sua dignidade: esse sapato, essa roupa. Tsk, tsk. Tão oferecida. Tão indecente. Ela tava pedindo. Foi só uma brincadeira, e essa “gentália hipócrita” não entendeu.

Incrível como o argumento é tão igual ao do agressor de todo dia. Mulher pode ser mulher, desde que. Embora. Apesar de. Contudo. Pode ser, com restrições. Com contingências. Os sinhozinhos de engenho entenderiam tão bem a explicação de Gerald. Claro. Ela estava usando saia curta, sapatos de “fuck me”. E tantas vezes é isso: se estivesse de saia comprida. Se não tivesse me olhado desse jeito provocante: olhar de “fuck me”, por suposto. Se seus quadris não rebolassem tanto. Se não tivesse esse decote.

No fundo da minha mente, tem aquele filme fantástico com a Jodie Foster e a Kelly McGillis: “Acusados”. E esse é o nome em português, mas o nome em inglês é “The Accused”. Ambíguo. Porque é essa a história do filme: uma garçonete (Jodie), que bebe demais, que sobe em cima da mesa de um bar, dança provocantemente, e é estuprada por um grupo de frequentadores seus conhecidos. Ela os acusa de estupro, mas o julgamento acaba virando um julgamento dela também: da sua saia, de seus hábitos, do fato de ela subir em cima da mesa, de dançar provocantemente. Acusados? Acusada? Roupas de “fuck me”, dança de “fuck me”. No filme, a advogada brilhantemente interpretada pela Kelly McGillis consegue fazer prevalecer seu ponto de vista: estupro é estupro, e não importa a roupa, o comportamento da vítima.

Accused

O filme é da década de 80, mas parece que pouca coisa mudou desde então.

Nada de novo nesse front, Gerald. Você, que posa de artista transgressor, falou como falaria qualquer machistazinho de plantão por aí, culpando a vítima que “pedia” sua agressão, com seu vestido, com seus sapatos. Tudo tão igual a dantes no quartel de abrantes. Tão tristemente igual. “A vadia tava querendo”. “Ela era biscate.” “A gente bateu nela porque pensou que era puta”. Ou viado. Ou travesti. Tudo tão igual. Nesse mundo machista da porra, você conseguiu ser igual a todo mundo. Tristemente igual a todo mundo.

Nesse mundo machista da porra, onde um “artista transgressor” se sente à vontade para se justificar dizendo que a moça estava “(praticamente) de bunda de fora, salto alto de ‘fuck me’.” E, não sei em vocês, mas em mim ficou ecoando esse termo. Incomodando,  machucando, ressoando: “salto alto de ‘fuck me’”.

SaltoVermelho

Uma dança apenas

 lista

Às vezes dá essa sensação: que as pessoas andam com preguiça de conhecer pessoas. Conhecer, sabe? Olhar de verdade. Parar, conversar. Tentar entender como outro, e não encaixar num molde pré-concebido.

Que los hay tantos, os moldes pré-concebidos. Vai olhar nas revistas. Tem lá os testes, um monte deles: “Como saber se seu namorado a ama de verdade”. “Dez coisas que o homem deve fazer no primeiro encontro”.

Sem falar no famigerado “Ele simplesmente não está a fim de você”. Regras. Testes. Listas. Não ligou? Não tá a fim. Não procurou? Não tá a fim. Não guardou seu telefone? Não tá a fim. E em vez de você olhar pra pessoa real que tá ali, com seus medos, com sua história, com seu jeito particular de lidar com a vida e com os relacionamentos, você chega com seu check-list. Não preencheu os quesitos? Fora.

E nem quero falar dessas regras específicas aí não: tô querendo falar de regras, de quaisquer. Tenho uma amiga que saía com um cara uma vez e dava a lista: “você não precisa me ligar, a gente não precisa se ver sempre, você pode sair com seus amigos quando quiser…” . Não entendia por que isso haveria de assustar alguém. Só que é a mesma coisa, né? Regras, como as outras.

“Eu apenas te chamei pra dançar”.

Só pra dançar. Hoje. Agora. Nesse momento. Sem expectativas. Sem “o que tem que ser”. Nada tem que ser: solta o corpo e vai. O ritmo vai te pegando. E você vai se incorporando. As regras? Depois, né? E não pré-estabelecidas: constroem-se no caminho, naquele caminho. Que a gente se surpreende com a gente mesma também. E o que um dia era essencial de repente parece tão secundário. Outra história, outros caminhos.

Ou não.

Apenas uma dança.

Mas que delícia dançar.

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Um olhar a partir do portal das mulheres

 

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Há muito tempo que falo disso assim: a gente vive em portais. Realidades quase que paralelas: é tão forte o lugar de onde a gente olha o mundo. O que dele recebe. É tão grande a tentação de olhar do nosso portal e dizer “todo mundo”. Não é “todo mundo”: sou eu, de onde olho, com minha experiência, minha história. De dentro do meu portal.

Do meu portal de mulher, tenho vontade de falar de pequenas violências. Cotidianas, culturais. Que os homens muitas vezes nem percebem, lá do seu portal. Tão pequeno. Tão pouco. Pra que tanto barulho. “Vocês não têm senso de humor”. Homens de todo tipo acham isso: esclarecidos, estudados, viajados, cosmopolitas, elegantes, bem educados. Às vezes, calam: melhor deixá-las falar. Até cansar. Não ouvem de verdade. Esperam acabar o “surto” para chegar no que realmente importa. O que quer que seja isso.

A violência estética: o padrão que nos é impingido, que nos é enfiado goela abaixo, todo dia, toda hora. Dessa já falei aqui, num post-galeria de fotos de bancas de jornais. E tudo o que ela comporta. É como se uma mulher que não corresponda ao rígido padrão estético vigente não fosse uma pessoa de direitos plenos: a qualquer momento, pode lhe ser lembrado (numa crítica, num xingamento, como uma forma de desestabilizá-la) que ela é “gorda”, é “feia”, é… de alguma forma, errada. Se não tem a barriga chapada, o peito empinado, as coxas torneadas, o nariz afilado, o cabelo liso, como se atreve? Como se permite? Como? Se já é uma incrível prova de tolerância que ela possa estar ali, simplesmente estar. Não ser expulsa, incômoda na sua forma destoante dos cânones.

E tome infelicidade. Remédios. Esforços fracassados. E tome tristeza, auto-rejeição, sentimento de abandono. Por uma coisa tão pequena. Pequena?

Claro, há as que se libertam. Que vão por conta própria. Que dão de ombros. E que descobrem que há muitos outros espaços, há outras possibilidades. Mas isso é caminho consciente: é caminho contra a corrente. Dá pra ir, e, acho eu, é o único jeito: sair fora. O que não dá é pra deixar passar. Pra fazer de conta que é normal. Que não é violência.

Desse portal se avista, em pleno século XXI, a sutil desvalorização de mulheres que – por escolha ou por circunstâncias - não casaram, que não tiveram filhos. Essas também. O tempo todo. Se explicando, se justificando. Como se casar, ter filhos, fosse o mínimo. Como se fosse necessário “cumprir tabela”, marcar esses pontos, para só então poder ser. Poder viver, após ter realizado sua função social. Pressão cotidiana. Olhares piedosos. Perguntas sutis ou menos sutis. Murmúrios. Um “coitada” espreitando por trás das palavras amigas. Nada exuberante, nada escandaloso: fica difícil até reclamar. Sem ser tachada de “mal humorada”.

Vai ver é por isso que não casou: por conta do mau humor.

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“Mau humor” dá o gancho. Essa é a última de que eu queria falar: a violência que é a exigência de que a expressão feminina seja… bom, “feminina”. Assim: pode falar. Mas tem que ser doce, tem que ser suave, tem que ser baixo, tem que ser… muita coisa tem que ser. A Sara Joker se insurgiu aqui contra as flores no Dia Internacional da Mulher. E, certamente, não é porque ela não gosta de flores… dia 8 de março é dia de luta. É disso que se trata. Não de homenagear a suavidade das rainhas do lar com lindas flores. E mulher que discute, que fala alto, que briga, tantas vezes é desconsiderada. Tantas vezes deixa de ser escutada. “Tadinha, tá histérica“. Deixa-se de lado o conteúdo. Revolta, indignação? Ah, sinto muito. Não é bonito, não é delicado, não é “feminino”. Essa caixinha estreita e pequena onde cabe o que decidiram que era “ser feminino”.

E no entanto.  Se vocês pararem com isso, se olharem com cuidado, abrindo o olhar… se escutarem de verdade, sem desconsiderar, sem deixar de lado… tanta coisa pode… outras histórias, outras imagens, outras aventuras. O começo: mudar o olhar. Tentar perceber que existe o portal. Apenas considerar. E aí…

LeilaPasquim

Biscaterapia

Escrevi um comentário nesse texto aqui (e já quando escrevi sabia que teria vontade de estender a conversa): “escrever no Biscate é uma alegria e um alívio. Um se soltar, acho. O coletivo sustenta. E a gente se joga.”

Pois então. Escrever aqui é um alívio. Um desafogo. A gente se solta e solta as letras no papel. Fica mais leve. A gente fica mais leve, a vida fica mais leve. A rede-biscate sustenta e ampara. Como no curso de dança, quando a gente se jogava na rede feita pelos braços estendidos dos colegas: se solta que dá. Com medo, você retém e fica mais pesado; tem que acreditar e ir. Tipo um suspiro. Tipo um “ah!” e foi. Tipo um mergulho de alto. Solto. Livre. Livre porque amparado.

Escrever na rede: perceber que aquilo em que você se sentia mais solitária é sentimento de tantas outras solidões. Que se reconhecem, se achegam, se aconchegam e de repente a gente está menos só.

O grupo do Biscate: fluido, móvel, alegre, solidário – seu núcleo consistente e acolhedor de Niara e Luciana, as musas criadoras. Idéia não tem perna, mas quando arranja… ah, quando arranja…

Estar juntos, na rede: rir e chorar juntos. Pertencer, fazer parte de. Estranheza compartilhada deixa de ser estranha. Vira característica. E, daqui a pouco, vira charme.

Libertar-se, palavra biscate. Libertar-se de preconceitos, de dores, de incompreensões. De silêncios mal-digeridos. Libertar-se de idéias feitas, de palavras de ordem, de etiquetas um dia engolidas. Entender em que se é igual, em que se é diferente. Biscaterapia.

E agradeço. Como não? Agradeço todo dia, agradeço em silêncio. Agradeço por vocês. Pelo Biscate. E agora, aqui, em voz alta.
Eita que virou quase uma reza…
(e por que não?)

 

A Mulher Em Bancas

Bancas. Jornais e revistas. Imagens. Mini-universos.
Mulheres nas bancas: pra pesquisar, no centro é melhor. E tô falando do centro do Rio, mas imagino que não seja diferente em outras cidades brasileiras.

“Pesquisar” talvez não seja a palavra: no meu caso, é mais “ser atingida”. Tem uma particular – porque no meu caminho, não porque seja diferente de inúmeras outras – que eu chamo de “açougue”. Mulheres em pedaços. Coxas, bundas, peitos. Como é que os homens, os homens-pequenos, os que estão aprendendo, vão entender mulher se estão expostos a esse bombardeio de pedaços de carne, todo dia, toda hora, em todo canto? Essa em particular me inspirou a fala: “O povo da burca talvez tenha um ponto.” Pois não é a mesma coisa ao contrário?

burca_cartum

De vez em quando penso nas grandes mulheres de tempos passados: tempos onde não havia tanta imagem. A ditadura da imagem não tinha se estabelecido ainda. Quando até a fotografia era cara e não era acessível a qualquer um. Menos padrão, menos pressões.
(E aqui, um parêntesis: não acredito em progresso contínuo. Ou inelutável. O futuro pode ser para melhor, pode ser para pior, mas o mais provável é que suas várias dimensões não sejam adequadamente captadas pela chapada régua do “melhor” ou pior. Complexidades.)

burca na fraça preta

Voltando às bancas: o que me assusta mais, o que me impacta mais, de verdade, são as revistas que têm a mulher como público-alvo. E “alvo” é palavra adequada. Sempre em tom imperativo. Sempre com pontos de exclamação. O corpo dos sonhos, “seco”, a barriga chapada, os peitos em pé. Necessidades. Obrigações.

E poderia falar horas sobre isso: mas deixo as imagens. Elas contam essa história.
História de perdas e danos: como sobreviver a esse massacre? Como não se sentir, também, um aglomerado de partes?
Mulheres-corpo. Ditaduras.

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Uma Biscate De Família

#AlmaBiscate
Por Renata Lins

 

Pois é, gente. Sou biscate de família, confesso. Não tenho nem muito mérito nisso: a biscatagem corre solta há várias gerações. Da minha bisavó paterna Joana, dita Janinha, pouco sei: mas sei que ela causou escândalo em Areia, sua cidade natal, quando cortou os cabelos curtos, à la garçonne; quando andou a cavalo “como homem”, pernas abertas, e não de lado. É ou não é para ter orgulho?

Minha avó Maria, filha dela, parecia extremamente comportada. Silenciosa, ponderada, elegante. No entanto, botou os filhos – sob reprovação de boa parte da família católica – no Colégio Americano Batista do Recife: o motivo? Queria que seus filhos estudassem em colégio misto. Só tinha aquele. Minha avó não gostava desse negócio de homem prum lado, mulher pro outro. Quando resolveu deixar de pintar o cabelo e assumir o branco, foi no cabelereiro e pediu pro cara passar a máquina. A um. Essa eu me lembro. Tem foto linda da minha avó, toda sorridente, cabelinhos espetados. Minha avó só fazia o que lhe dava na telha.

De tia Sônia, irmã do meu pai, vou falar pouco aqui: dia desses faço um post só pra ela. Basta contar que ela foi presa e torturada pela ditadura. Guardou sequelas, mas não arrependimentos: nunca, nunca na vida vi minha tia dizer que deveria ter feito outra coisa. Tia Sônia, digna herdeira da linhagem Janinha-Maria. Dona do seu próprio nariz. Apesar do sofrimento.

Minha mãe? Biscate 100%. Das seis filhas do meu avô Pimentel,  a única que foi para a  faculdade: imagino que pra isso deva ter cantado meu avô, que esse era o jeito da minha mãe conseguir exatinho o que queria (e isso, eu, que bato de frente, nunca aprendi). Minha mãe que tinha sido proibida pelo meu avô de namorar tal ou qual sujeito, e combinou com a madre superiora da sua escola que iria ver o rapaz ali mesmo, na escola. Com o argumento razoável que ela iria vê-lo de qualquer jeito: será que a madre superiora não preferia que fosse sob as vistas dela? Minha mãe morena e seus microbiquínis, suas gargalhadas. Biscate toda vida. Casou com meu pai por procuração, porque ele já tinha saído do Recife após o golpe de 64 – e por isso não se formou, já que do casamento eles foram pra Paris e depois pra Argélia, onde eu quase nasci. Aliás, no dia em que saiu da maternidade, foi  a um churrasco… comigo. “Você tava bem, ia mamar, tinha um quartinho onde eu podia botar o moisés”, explicou.

Então, quando chegou a minha vez, acho que não tinha nem muito jeito, não levo nem muito crédito: não há saída senão fazer o próprio caminho, escolher as próprias dores, viver  as alegrias. Conquistar as gargalhadas, soltar o choro.

O que eu demorei a aprender, e que a coragem de vir fazer parte do time incrível do Biscate Social Club me ensinou, foi como é bom dizer-se. Contar-se. Deixar-se ver. Abrir esse espaço pra mais gente. Eu sou do tipo privado, introvertido. Por muito tempo eram vastas emoções e pensamentos imperfeitos guardados dentro. Ou escritos só pra mim, em cadernos trancados. Comecei a escrever “pra fora” porque ganhei um blog de presente no ano passado: obrigada, Cacá! E, pelas redes, conheci as super-fundadoras do Biscate, Niara e Luciana. Primeiro pelas redes, depois pelas ruas: amor eterno, encontro de almas. Mas mesmo assim foi devagar. Fui chegando de mansinho, olhando, visitando. Depois, como biscate convidada. E, finalmente, cheguei de verdade.
Ufa. Achei meu canto. Um canto de militância com muitas gargalhadas. Um canto de liberdade como poucos. Primeiro ano. Lindamente primeiro ano. Vamos mais!

O Mapa Natal do Biscate

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Sol em sagitário, que é pra lembrar que o Biscate tem por trás uma filosofia de vida, uma forma de se apresentar que é um ensinamento, um aprofundamento do olhar. Sagitário é sábio e com ele a gente aprende. Com ele também, signo de fogo, a gente se engaja para ir “ao infinito e além”. Bora? Na casa VIII, casa de submundos e desapegos, de morte e renascimento. Morte de idéias preconcebidas, transmutação em novas formas de pensar.

O ascendente tá em Touro, um dos dois signos regidos por Vênus/Afrodite: o outro é Libra. Mas enquanto a Vênus libriana é esteta, toda elegância, a taurina é a sensual por excelência, a deusa do prazer, do tocar, do encostar, do … biscate, né? O ascendente Touro, de pés no chão fincados na terra, teimosamente, persistentemente, nos lembra que nada do que é do corpo e do reino dos sentidos nos é estranho. Lamber, cheirar, provar, roçar, esfregar-se… verbos taurinos. Biscatemente taurinos.

A lua, essa, é de Virgem: virgem dos pequenos gestos, da delicadeza, dos finos bordados e dos sutis artesanatos. Virgem obreira, exaltando no cotidiano a simplicidade do que é básico. O que é básico pra mim, pra você? Virgem analista, separando o joio do trigo: o que é ser mulher, o que é ser biscate. O que não é. O que quer dizer assumir-se biscate. Lua conjunta a Marte, o deus das batalhas: lutadora. Porque a gente segue gargalhando, mas não é todo dia fácil. Tamos na luta. Marcando posição. Negando, desde o princípio, a falsa dicotomia “biscate X mulher para casar”. Somos biscates pra casar: se quisermos. Se.

Vênus, regente do ascendente, está em Capricórnio, altaneira: lá em cima no céu, quadrada a Júpiter e Saturno. Pra reforçar que é preciso coragem pra seguir viagem quando a noite vem. Que é preciso ter força, é preciso ter graça, é preciso ter gana, sempre. Maria Maria mistura a dor e a alegria. A gente monta a tenda, a gente faz o fogo, a gente se junta, a gente se esquenta e arregaça as mangas: é muito trabalho pela frente ainda, nesse mundão machista de meus deuses. Mas a gente não arrefece: Capricórnio sabe que tijolo com tijolo, num desenho mágico, a gente chega lá. Andando. Sob o sol, andando.

E, pra fechar esse mapa em pinceladas da estrutura essencial, o Meio do Céu: Aquário, por suposto. Aquário, signo da liberdade, das transformações, da fraternidade e das revoluções. Aquário que diz que do nosso jeito é melhor: que não vale forma pronta, molde comprado, feito pra outros e por outros. A gente faz como a gente sente, como a gente intui, como a gente vislumbra. Do nosso biscate jeitinho. Só nosso. Livre. E bagunçando essa festa, à base de gargalhadas.

Do muso Laerte - sugestão da bisca convidada Patrícia Sampaio

Do muso Laerte – sugestão da bisca convidada Patrícia Sampaio

***

Agora, na contagem do “nosso time” fixo, um panorama astral do Biscate, pelos signos solares de cada um:

Peixes -I

Capricórnio -III

Touro -II

Cancer -I

Sagitário -II

Aquário – I

Libra -I

O nosso clube, como visto acima, tem: Sol em Sagitário, Ascendente Touro, Vênus em Capricórnio.

Capricórnio: o signo da Vênus é  que tem mais gente, e nem surpreende… é o da nossa musa inspiradora Ni de Oliveira, e também do bisco Augusto e da Lis.

Lua em Virgem: oposta exatinho ao sol em Peixes da Borboleta Lu, as pernas do projeto. Contraponto e equilíbrio.

Touro (signo do ascendente) e Sagitário (do sol) têm dois cada um: em Touro, a Raquel e eu (Renata Lins); em Sagitário, a Bete Davis e a Silvia Badim.

Libra, o outro domicílio de Vênus, trazendo elegância, ponderação e senso estético para o time, com a Claudia.

Cancer da xará Renata Lima: a casa natural da Lua, o signo que conforta e acolhe, e aconchega.

E  o Aquário da Sara, signo do Meio-do-Céu, lembrando pra todo mundo que a condição da biscatagi é ser livre. Livre de corpo, mas também de alma, aquarianamente.

 

Corpo Livre – autor: Flavio de Oliveira

Post de sábado quente

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Sábado. Sol. Quente. Aqui tá mais fresquinho. Pela janela vejo a pedra, vejo o verde. Vejo azul o céu.

Post no Biscate: hoje é meu dia. Calor. Preguiça. Saco de gelo na nuca. TV-abobrinha. É meu dia: e isso pega, isso gruda nas idéias, isso atrapalha o fresquinho do saco de gelo na nuca.

Deixar pra lá: não sei fazer. Penso no que a Déborah me disse-que-o-analista-dela-disse- pra-ela mas podia ter sido pra mim: você nunca deixa pra lá e considera feito? Ele disse pra ela e ela me disse. A mim. E ele podia bem ter dito a mim, porque é mesmo a minha cara. Uma lista de não-feitos. De pendências quase caindo do pé. Mas permanecendo. Incomodando. Impedindo o balanço da rede, o dengo do sábado, o relaxar no calor.

Mas é assim: a gente ouve. Parece que nem deu atenção. Muda de assunto. E mesmo assim aquilo fica lá, ecoando. Esse ficou. Minha imagem é de fios desamarrados: na minha cabeça tem um monte deles. Pendências pendendo penduradas. São fios pretos, não que eu jamais tenha pensado nisso ou escolhido sua cor. Mas vejo-os: são pretos. Num varal. Desamarrados.

E aí, como uma nova porta, um novo horizonte desconhecido, a idéia nunca dantes navegada, quase revolucionária: e se eu deixasse pra lá? E se eu simplesmente aceitasse que alguns não? Que na verdade nunca, que talvez nem deveriam ter sido? Que nem estão mais lá, se eu olhar com honestidade?

Não sei ainda. Tá calor. Dá preguiça. E tem que definir. Tem que decidir que fios. Os que ficam, os que vão. É também um tipo de comodismo, esse não-escolher: um faz-de-conta à maneira da Emília. Faz de conta que estão todos ali ainda. E que um dia eu vou fazer. Vou amarrá-los um a um, bonitinhos, com laço e tudo. Vou completar. Vou fechar um ciclo.

E no “não sei” nada acontece. É necessário coragem pra deixar ir. Desapego. Até dos desafios, até dos problemas. Desistir: também uma sabedoria.

Aprender a desistir: um novo caminho. Novo fio?

Enquanto isso, a rede. O azul. O calor. A janela. A pedra.
O post.

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Por trás de um grande homem

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É quase arquetípico: o casal está junto há sei lá quanto tempo. O cara é aquele sujeito artista, gente boa, querido, poeta sonhador; criador, engajado em causas, líder de utopias. Todo mundo o ama.
A mulher? briguenta, centralizadora, dominadora, ranzinza – “não deixa ninguém chegar perto dele”, “controla [a grana/as notícias/ os contatos] com mão de ferro”, é insuportável… ah, se não tivesse essa mulher…

Sério que vocês acreditam nisso? Acham que o cara não sabe de nada – tadinho – e que a mulher decide tudo sozinha, faz tudo sem o conhecimento dele, tem toda a responsabilidade? Pelamor. Casal só se entende em conjunto. Inda mais nesses casos. É uma coisa só: o cara só é “o poeta-gente boa-sonhador-criador” porque tem a mulher “criadora de casos” pra fazer a retaguarda. Pra negociar. Pra acertar as arestas. E valorizar o passe.

Isso é até profissão: não é à toa. Quando é profissão, fica mais claro, embora muitas vezes a culpa da dureza das negociações, da dificuldade do acesso, fique nos ombros do agente. Mas esse é pago pra isso. No caso de casais, não. Mas é uma parceria, igual. É um acordo. Um só pode ser o que é porque há o reverso da medalha – da mesma medalha.

A cabeça só se desloca se os pés a levarem, já pensaram nisso? Parece óbvio. E no entanto. Tem até um ditado, muito difundido por AdeA: “idéia não tem perna”. E é exatamente isso. Tantos artistas sonhadores existem sem ninguém saber. Estão lá, no canto deles. Sem “pernas”: porque brigar, negociar, barrar, dizer não, dá trabalho. E, tantas vezes, a mulher vai assumindo essa função: porque ela quer o que ele quer – que é fazer sucesso, aparecer, virar liderança nacional. Crescer para além das próprias idéias, da própria utopia, dos próprios poemas. Virar inspiração e caixa de ressonância. Difundir, multiplicar. Espalhar-se.

E, vejam bem: eu não estou discutindo se isso é bom ou ruim. Não estou fazendo julgamento de valor. Só estou querendo marcar uma posição: não dá para olhar um sem o outro. “Ele completa ela e vice-versa”. E vice-versa. Sem o versa, não há como entender o vice. Fica pela metade. E entendimento pela metade é entend…  não chega a canto nenhum.

Sejamos menos ingênuos: não há bruxa, não há santo. Ou por outra: só há santo porque há bruxa.

Resiliências


Resiliência
 ou resilência é um conceito oriundo da física, que se refere à propriedade   de que são dotados alguns materiais, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse sem ocorrer ruptura. Após a tensão cessar poderá ou não haver uma deformação residual causada pela histerese do material – como um elástico ou uma vara de salto em altura, que verga-se até um certo limite sem se quebrar e depois retorna à forma o
riginal dissipando a energia acumulada e lançando o atleta para o alto. (Wikipedia)

No caso da psicologia, resiliência trata da capacidade de “sustentar sem quebrar” em situações de tensão. Tomo emprestado o conceito, pra divagar sobre relações. Ontem, em mesa de amigos, vinho ajudando, falávamos disso: de como relações longas têm ciclos, que comportam encontros, desencontros, separações até – para novos encontros, novos apaixonamentos. Ciclos que passam por lugares e sentimentos já conhecidos, de novas formas. Novas e quem sabe lindas formas. Melodias. Cadências. Enredos. Batuques. Encantamentos. 

Resiliência: uma qualidade taurina. Signo de terra, fixo. Básico. Que sustenta. Que mantém.  Por isso, signo de Vênus. Vênus, abençoando amores. Acolhendo. Dando colo. Confortanto. Afastando-se. Calando quando necessário. E murmurando, só pra deixar claro: “estou aqui.”

Lembro-me de um vendaval em que, no meio do mar revolto, alguém me estendeu um galho, na forma de livro com dedicatória: ” E eu estou aqui. Com você.” 

Ufa. Expiração. Suspiro de alívio. Estar aqui: qualidade do resiliente. Que não quebra sob tensão. Que verga. Forte porque flexível. Curvando-se para, passado o vento grande, retomar a posição inicial. Chove lá fora. ” E eu estou aqui. Com você”.

“Com você”. Andando. Fazendo caminho: nada para, nada é estático. Nada é permanente, e para estar há que se andar. “É preciso estar atento e forte/ não temos medo de temer a morte.”

Companheiro: o que compartilha. Se só tem um pedaço, que o dividamos em dois. Nosso. Juntos. Caminhando. Se só tem um par de sapatos, que o usemos alternadamente. Dividindo as bolhas. As dores. As feridas.

Momentos de silêncio. Momentos de separação. De solidão. Momentos. Há que se respirar também. Cada um do seu lado. Cada um pra seu lado. Silêncio. Quietude. Vazio. Ausência.

“E eu estou aqui, com você”. Como uma corda estendida. Como uma ponte inventada. Como uma porta aberta, onde se vê o outro lado: a cadeira de balanço. O tricô. O livro aberto. A luminária. E os olhos se fecham, confiantes. Tranquilos. “Com você”.

É uma dança, um movimento: aproxima, afasta. Vem, vai. Pra perto, pra longe. Dançando. Encontrando, puxando pra junto, afastando. Girando, rodopiando. Balançando sem cessar.

“Vai e vem/ tudo o que o mundo tem/ só o que não se cansa é a gente se querer bem”.

Um texto como um cobertor, como um travesseiro. Como um aconchego, um acalanto. Uma voz que murmura, que embala, que leva. O caminho do sonho, o caminho da vida. Caminhos. Traçados, construídos, imaginados, desejados. Abandonados, esquecidos, queimados. E retomados, abrindo portas, fazendo pontes, lançando amarras.

Resiliências.

Fixo. Terra. Touro.

E eu. Estou. Aqui. Com. Você.

 

 

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