Uma cena de amor quase anódina

Era uma pessoa muito próxima. Querida. Muitos amigos ela tinha. Já de certa idade. Generosa, alegre, casa aberta, sempre pronta a ajudar os outros. Presente, cuidadosa, preocupada. Afetiva.

Não lhe sabia de amores. Nunca a tinha visto com ninguém. Não se falava disso, e pra mim estava bem assim: afinal, podia ser escolha. Ninguém é obrigado a ter alguém. Ninguém é obrigado a pavonear suas histórias, suas paixões, seus rolos na frente dos outros. Ainda mais na geração dela, em que isso não era assunto tão conversado.

Até que um dia, passeando na cidade, encontrei-a. E nem teria notado nada, caso ela não tivesse estremecido e soltado a mão da outra, antes de me cumprimentar. Mas estremeceu. E soltou.

Saí dali com isso na cabeça. Que passear de mãos dadas, uma atividade tão anódina, virava, por conta de restrições sociais, de “certos” e “errados”, algo com que se preocupar. Até comigo, imaginem. Até comigo. Imaginem não poder abraçar, beijar, dizer que ama. Dizer “minha namorada”, dizer “minha mulher”. Logo ela, tão querida, tão afetuosa, tão generosa.

Uma nuvem passou diante do sol.

Droga de mundo em que não se pode andar de mão dada com quem se quiser. Que pede contas de amores de uns e de outros, atestados, carimbos, definições. Droga de mundo que fica regulando amores e mãos alheias. Em que uns podem, mas outros não. Em que os outros se incomodam com os amores e as mãos dos uns. Com os corpos, com os afetos, com os jeitos e trejeitos. Com os gostos, com as escolhas.

Droga de mundo.

Você não tem que saber

Eu não acho que você tenha que saber. Não acho mesmo. Ninguém nasce sabendo, e a gente nasce na sociedade que está aí. Essa aí. Essa das mulheres nas capas de revistas, como pedaços de carne expostos. Essa em que todo dia se mede, se pesa, se julga, se aponta. Essa em que a mulher que não é considerada bonita tem que estar sempre se explicando. Como se não lhe bastasse ser. Como se algo faltasse, como se para ser mulher fosse necessário ser bonita.

Essa sociedade em que, com três mulheres candidatas à presidência, a aparência é questão todo dia. Em que “quem você pegaria das três” é assunto. Não ocorre que talvez não seja algo relevante a ser discutido, quando se fala de candidatas à presidência. Nem relevante, nem necessário, e definitivamente prejudicial. Não ocorre, afinal, “é só uma brincadeira”, “você é que está mal-humorada”. Mal comida, talvez? Logo vi.

Então. Eu não estou dizendo que você tenha que saber. Só estou sugerindo que talvez fosse bom escutar. Pensar. Prestar atenção. Dar importância às falas. Não desprezar, não achar que é fruto da TPM. Pensar nas consequências dela ser, mesmo, esse “ser igual” em que você diz que acredita. Ser igual, no sentido dos direitos. O mesmo respeito. O mesmo espaço. O mesmo tempo para falar. Sobretudo – sobretudo! –  a mesma atenção.

Não “tomar como um dado”. Não achar que algo lhe é devido. Respeitar a diferença, a individualidade, os quereres, os desejos, os limites. Saber que ela é sujeito pleno. Dona de si e da sua própria vida. Perguntar antes, caso seja. E depois, se precisar. Deixar quieto, em certas horas. Aceitar, se for para deixá-la ir embora.

Deixá-la ir embora faz parte, por tantos motivos. Porque ela se apaixonou por outro cara. Porque aquela história não é mais. Porque não tá mais dando pra ficar juntos, embora ainda haja amor. E é isso, aceitar. Chorar no canto, que seja. Chorar sempre, se possível. Se embebedar, ouvir música, estar com os amigos. Ficar sozinho. Mas aceitar. Largar mão. Dar espaço. Recuar.

E cada uma é uma, cada jeito é um, cada história é nova. Não dá pra fazer igual, pra prever pelo passado, pra deduzir o que será. Dá pra tentar aprender algumas coisas, sim. E, talvez, quem sabe, retomar, tentar diferente, começar de novo olhando pelo avesso. Também pode ser.

Mas tenta. Não é fácil. Porque o mundo, esse nosso aqui, moldura, limite, fado, diz o tempo todo diferente. Aí tem que fazer contrapeso. Abrir frestas. Deixar o vento entrar. Jogar idéias velhas fora, sem dó nem piedade. Não, não é tudo ao mesmo tempo. Devagarinho. Um passo de cada vez. Tenta.

Não diz nada ainda.

Espera.

Você vai ver.

No tempo da delicadeza

Talvez no tempo da delicadeza. Aquele tempo. Todo mundo anseia pelo tempo da delicadeza. Dos olhos nos olhos. Da atenção ao detalhe. Do cuidado, da leveza. Da busca da gargalhada, do vem cá que eu te dou um abraço, do já passou, do não há de ser nada. Do não sei como vai acabar mas estou aqui contigo. De mãos dadas, contigo. Em silêncio contigo. Do não concordo com você mas nem por isso deixarei de te amar. No tempo da delicadeza, não deixarei de te amar. Porque sei suas perguntas, embora não concorde com suas respostas.

E talvez eu esteja errada. Eu já estive tanto errada. Tanto. Porque não de novo? Porque haveria eu de gritar minhas respostas, em vez de tentar entender seus caminhos, suas escolhas, seus motivos?

As perguntas estão aí e ninguém respondeu de verdade, vai. E tudo parece difícil, sem saída ou alternativa. Tudo parece áspero, rígido, sem nuances. Sem meios-tons.

Faz a gente sonhar com ele. O tempo da delicadeza. Do cuidado. Das sutilezas. Do talvez, do por que não, do não sei, do acho que você tem razão. Do vamos andando e no caminho a gente há de descobrir. Há de encontrar abrigo. Uma sopa quente, um cobertor. Um cantinho pra chorar as mágoas e descansar as bolhas dos pés. Uma tina de água pra lavar a alma. Pra lavar as angústias. Aquele tanto de mágoas.

Deixa em paz meu coração. Ele é um pote até aqui. Então, só mesmo lá. No tempo da delicadeza. Se lembra, maninha? Tinha a fogueira, os balões. Os luares do sertão.

Se lembra do futuro que a gente combinou? Eu era tão criança e ainda sou. Continuo naquela. Querendo acreditar que o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou.

Apesar. Malgrado. Embora. Contudo. Entretanto.

A gente continua. A gente vai levando só de birra, só de sarro. A gente vai fumando, que também, sem o cigarro….

E não me deixe aqui, tão sozinha, a me torturar
que um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar.

(Viu? Eu disse que continuava tão criança. Idade vai mudando todo dia, maturidade é outra parada.)

 

Um conto de fadas que não acaba

Era uma vez uma menina que sonhava. Com grandes feitos, com lutas contra o mal.

Ela tinha ouvido histórias contadas pelos antigos. Histórias dessas lutas, e sabia que muita gente tinha sofrido, tinha sido presa e torturada por conta delas.

A menina com a cabeça cheia de sonhos alimentava esses sonhos com livros. Muitos muitos muitos livros. Os livros eram um mundo que a acolhia: quando o mundo daqui se tornava por demais doloroso e estranho, ela mergulhava sem escafandro nem garrafas de oxigênio no mundo dos livros.
Mas lá ela tinha guelras.
O mundo dos livros era familiar e mágico, aconchegante e estranho. Mas uma coisa – ela bem sabia – era certa: ele sempre estaria lá. Quando tudo mais não estivesse, sempre haveria o mundo dos livros. E para lá ela poderia fugir, lá ela podia se refugiar.

(esperem aí que eu vou buscar um café e conto mais.)

Pois então. Teve aquele dia. Em que um personagem do mundo dos livros apareceu no mundo de cá. E foi como Monteiro Lobato, que sabia das coisas, conta, quando os personagens do País das Fábulas resolveram visitar o Sítio do Picapau.
meio bagunçado.
De repente a fronteira se esgarçou, as brumas se afastaram e os dois mundos se encostaram.

Mas isso não pode.
(ou tão pouco).

A gente de verdade pode ir no mundo de lá – contanto que crie guelras.
Mas os personagens de lá…. é melhor, quem sabe, que fiquem lá.
Eles não fazem de propósito.
Eles acham que são gente como a gente.
Não são.

A gente torce para que tudo “dê certo”. Pra que caminhos que constroem novos sonhos e recuperam antigas esperanças se firmem e se concretizem no mundo de verdade.
A gente tá perto, olhando, querendo que dê.

Mas com cuidado.
Devagar.
Sem esquecer
que a gente é daqui.
Que eles são de lá.
E que os encontros podem até acontecer.
Mas tão pouco.

(e é por isso que o conto de fadas não acaba).

Cuidar de meninos, ainda

DeBruyne

Cuidar de meninos. Já escrevi um sobre isso, aqui. E tenho vontade de falar muito mais sobre o assunto. Meninos: pressões sociais. Ser menino, algo que eu acho tão difícil. Acho tão difícil, daqui de onde olho. Sem ser. Mas vejo as pressões, o tempo todo, permanentes. As pressões para sentar de tal jeito, não mexer a mão de tal outro, falar com voz assim ou assado. As roupas. Ah, as roupas. Só pode isso e aquilo, aquela nem pensar, essa cor de jeito nenhum. De-jei-to-ne-nhum.
“Mas por quê?”
E a resposta definitiva: “Não é coisa de menino”.

Coisa de menino: não é tanta coisa que pode. Tanta coisa não pode. Uma, em particular: não pode brincar de boneca. Não pode ter boneca. Já ouvi histórias de gente que deu bonecos (nem eram bonecas, vejam bem: eram bonecos, bebês) para filhos de amigos. Pareceu fazer sentido, ia nascer um irmãozinho: um boneco é algo que se dá com frequência quando vai nascer um irmãozinho, ajuda a criança a lidar, a aprender a cuidar, a brincar de “ter o seu bebê” também, agora que a mãe vai estar ocupada com um.

Que se dá? Ah, sim, se dá para as meninas. Ponto. Menino não brinca de boneca. E vão os pequenos lidar com suas dores sem apoio. Sem aprender a botar no colo, a ninar. No máximo um bicho de pelúcia, não-humano. Boneca, nem pensar. É coisa de menina.
Panelas, comidinhas? Coisa de menina. Vassoura, ferro de passar? De menina. Brilhos, paetês, maquiagens? De menina, de novo.

Pros meninos? Sobram os carros. Carros: potência, velocidade. Atributos “de macho”. Sobram as armas. Na minha casa não rolava: no máximo, pistola de água. Porque era de água, não porque era pistola. Mas é presente comum, né? As pessoas dão. As bolas, que são talvez a parte mais legal. Já tinha comentado no outro texto:

Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Porque educar é isso, não é mesmo? Educar pra quê? Pra navegar do seu jeito nesse mundão velho sem porteira, acho eu. Pra saber que o outro é outro e é igual a você. E merece respeito, como você. E merece atenção, como você. E merece viver do jeito dele, como você.

E pra isso, é melhor começar cedo. Quando as crianças são pequenas. Bem pequenas. Com o exemplo, ainda mais importante que as palavras. E com as aberturas de espaços. Conviver com os outros diferentes. Aprender que os diferentes são, também, iguais. Brincar. Brincar, que é aprender a vida. Brincar que ajuda a se entender no mundo. Mais meninos brincando de bonecas. De pular corda. De elástico. Brincar de roda. Junto com as meninas. Junto. Fazendo junto. Se fantasiando junto. Criando novos mundos. Do seu jeito. Com o que der. Abrindo possibilidades e caminhos.

E, sim, isso é assunto para esse nosso bloguinho. Que tantas vezes fala da violência contra a mulher. E o que está proposto aqui é, também, forma de luta. Lá no começo, quando eles ainda são bem pequenos, cuidar para começar a desmontar essa armadilha.

calvin-e-haroldo

Henrietta, Gerda, Agatha: faces e imagens

Quem me conhece sabe que eu (re)leio Agatha Christie em tempos de crise. Proteção e aconchego. Livros com final. Reconfortantes. Familiares.

Tem uns que eu reli mais vezes, claro: já falei de um deles aqui. E quando digo “livros”, na verdade são personagens: que eu já conheço, a quem já fui apresentada e que reencontro, feliz, a cada passagem-leitura. Aqui, são duas as personagens que me interessam, que formam um eixo: as duas mulheres do médico e pesquisador John Christow em “A Mansão Hollow”. Gerda, a esposa; Henrietta, a amante. As duas são mesmo um par que se complementa: uma é o avesso da outra e uma não existiria sem seu avesso.

Gerda Christow é, talvez, a personagem mais fascinante: no livro, ela é apresentada quando está numa dúvida cruel. Está na hora do almoço, John ainda não chegou do consultório, o rosbife já está na mesa e Gerda, sentada, angustia-se: o que fazer? Mandar o rosbife de volta para a cozinha para que não esfrie? Mas John é tão impaciente, ele vai reclamar se o rosbife não estiver na mesa quando chegar. Deixá-lo ali? Se ele se atrasar mais, o molho vai esfriar, a comida vai ficar ruim… Gerda se tortura durante alguns minutos com as alternativas. Para o leitor, fica evidente: não tem saída. Qualquer escolha será a errada. Porque é Gerda. Lenta, indecisa, pesada. Muito aquém do que se esperaria de uma mulher para o brilhante e bonito John Christow. Isso, inclusive, na sua própria opinião. Ela é imensamente grata a John por ter casado com ela, embora não entenda o motivo disso ter acontecido. E, por gratidão, aceita o mau humor, a rispidez, a impaciência dele. Ela é a errada, por necessidade. Ela é Gerda. O rosbife deixa claro.

Não falei de amor, apesar do livro fazê-lo: esse é meu jeito de contar essa história. Ela pode pensar que é amor, sem dúvida pensa: mas será? Essa aceitação embevecida de que o “ser superior” dignou-se a olhar para ela, condescendeu em casar com ela? Não me parece. Dependência demais, sentimento de inferioridade demais. Um tipo de amor, talvez? 

E agora, na contraface, a outra. A outra que é a outra: Henrietta Savernake, linda, livre, independente, artista. Henrietta é aquela por quem todos se encantam. E que no entanto entende que o posto de esposa já está tomado: não será dela, como teria gostado que fosse – ela será a amante e terá a intimidade de John, os sonhos de John, como Gerda não tem. No entanto, nada de todo dia: isso pertence a Gerda. Ela é a pessoa que tem mais paciência com Gerda, que tenta incluí-la nas conversas e fazê-la sentir-se à vontade. Não por fingimento: por compaixão genuína. Ou assim parece. Mas é, também, a pessoa que comete a maior crueldade: uma estátua inspirada em Gerda, uma estátua sem rosto, em que o que conta é o peso do pescoço e dos ombros: uma estátua a que dá o nome de “O Adorador”.  Ela percebe que isso é cruel, mas não consegue fazer diferente: a arte é o que a puxa para a vida. É o que lhe dá impulso. Ela é a amante, e  mesmo assim John se ressente porque ela não o coloca em primeiro lugar.

E aqui? É amor? Aqui é menos claro para mim. Acho que sim, que é amor. Que com John é entrega, mesmo que ele a acuse de não amá-lo o suficiente, de preferir-lhe sua arte. Arte é necessidade, é o que faz dela o que ela é e o que a torna livre para, sim, amá-lo. De igual para igual. A ele, as pesquisas médicas; a ela, as esculturas. Paixões paralelas e similares.

Gerda, Henrietta: um eixo. Formas de amar. Ou de achar que é amor. A entrega da adoradora Gerda, que não pede nada, mas no fundo espera algum reconhecimento do seu sacrifício permanente. A honestidade de Henrietta, sua incapacidade de fingir ser o que não é, embora fosse tão mais fácil, tão mais cômodo: ou eu estou aqui inteira, ou não estarei. Mesmo que isso me faça sofrer imensamente. Mesmo que estar inteira implique que o lugar do homem não é o primeiro.

Gerda e Henrietta, sementes. Arquétipos. Fios do novelo emaranhado que é o pensar o amor, nem que seja pelas beiradas. O nome do livro em inglês: “The Hollow”. Que é o nome do vale em que se encontra a mansão. E que quer dizer oco. Vazio.

À guisa de amor, pelas beiradas

Tentando falar de amor pelas beiradas: é nesse ponto que começa o texto, com o comentário longo que deixei nesse post aqui da Luciana em que ela falava de amor e que sequestro de lá para cá:

Beibe, tão lindo e tão preciso o texto. Necessidades. Os vazios devem, acho, ser apontados, mostrados, assinalados, marcados com caneta colorida e fosforescente. Pra gente não confundir. Não achar que ‘querer pra si’ é igual a ‘amar mais’. Que não é, que não é mesmo. Perguntar-se, sempre e todo dia, o que será que você gosta em mim, o que será que ele gosta em mim, o que será que eu gosto do que ele ou ela gosta em mim. Não pra ficar neurótico: pra, paradoxalmente, relaxar. Não confundir o coração batendo, o suor frio, o aperto na boca do estômago com intensidade do sentimento. Como diz aquele meme lá, isso é outra coisa.
E não esquecer, nunca, que tem gente que ama contido: que ama quieto, que ama calado. Que ama assim sem por isso amar menos.
Aliás, o que é “menos”? O que é “mais”, quando se trata desse assunto aí?
[continuação em breve num post perto de você, em que prometo citar inclusive nossa musa Agatha.]
Adoro que você me ajuda a pensar.

 E, como prometido,  venho continuar a conversa. Ela tinha me perguntado, antes, se eu tinha algum texto sobre amor. E eu ri e disse que não. Depois li o texto dela e lembrei de alguns que falavam disso assim, pelas beiradas, e estão linkados lá. Mas era pelas beiradas, porque não sei muito falar disso. É como algo que fica ali, no meio, e eu contorno, e, ao contornar, a este algo tento dar forma. Delimitá-lo, chegando tão perto quanto possível. As bordas do Vesúvio. As margens do Mediterrâneo. De algo grande. Profundo. Denso. De algo que poderá nos engolir, nos devorar. Sim, confesso: sou meio cautelosa quanto a isso aí que chamam de amor. E que eu não sei direito o que é. Sei tão pouco que não consigo falar disso, a não ser pelas beiradas.

Paixão eu sei: é febre, é taquicardia, é suor, ardência, angústia. E passa. Paixão, por definição, é algo que passa. E ainda bem, acho eu. Quem é que aguentaria viver daquele jeito, com aquela febre, aquele desespero, aquela fome de outra pessoa vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano? Dá não. É lupa demais, tensão demais, fora do eixo demais. É bom, claro que é bom. Pode até ser absurdamente bom. Mas é bom, inclusive, porque passa.

Amor é diferente disso.
[escrevo e paro: definição? não sei. reverência. respeito. um certo temor, talvez.]
Nele só poderei chegar dando voltas, arrodeando, fazendo de conta que é possível ser leve. Usando, talvez, aquela expressão da minha avó que eu demorei tanto tempo para entender: “vai comer um quilo de sal com ele”. Comer um quilo de sal demora. Dá para a gente ver tantas facetas da pessoa. Os dias sim, os dias não, os dias quem sabe. Os dias nunca mais. Os chuvosos, os de vento forte. Os ensolarados também, os levinhos como a brisa, os suaves. Tantos dias. Que vão se acumulando e se transformando. E a cada dia a gente se pergunta: outro? E se responde. Sim. Ou não. E isso não é amor, é convivência. É escolha de convivência. É dizer sim, tantas e tantas vezes. E às vezes também dizer não. E o não também pode falar de amor, e tantas vezes fala. Já que amar deveria ser não precisar receber de volta. Dar, pura e simplesmente. Dar-se. Dar o melhor de você. Para o outro.

E aí tem algo que sempre suspende meu pensamento: O que é “o melhor de você”? E, indo mais além: será que “o melhor de você” é o que o outro espera de você? O que deseja, aquilo de que precisa? O vazio a ser preenchido? Será…?

A pergunta contém sua própria resposta, sem surpresa: claro que não. Você só pode dar o que você tem, o que, em última instância, você é. Inevitavelmente. E o que o outro deseja é tão apenas o que lhe falta, o que já lhe faltava antes de você aparecer. O fato de você preencher ou não esse espaço, de suas arestas encaixarem ou não nas reentrâncias do outro, é puro acaso. É sorte. A gente pode até agradecer quando acontece, mas entender? Acho que não. Embora o outro, esse outro específico e suas reentrâncias de contornos particulares, possa também iluminar facetas que antes permaneciam na sombra, por tanto tempo que você até tinha meio que esquecido que elas existiam.

Como é que dois porcos-espinhos fazem amor? Com muito cuidado.

Narrativas e movimentos. Coreografia, já que não existe o jogo sem o outro. Mesmo que o outro não saiba. Não, não, ele não é responsável. Ele apenas é. E a intensidade da marca que deixará em você depende apenas do que você é e do espaço que você dá. Não é “ele”, “ela”. É ele, ela, vistos por você. Recebidos por você. Traduzidos por você. Ele é. Você percebe e recebe. Capta. O que você capta não é o que ele é: é o que você identifica. Aquilo que te sensibiliza, aquilo para o qual você está atento, aquilo que você está preparado para acolher e para deixar instalar-se.

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
que é pra te dar coragem
de seguir viagem
quando a noite vem.

Pra te dar? Pra me dar. Pra me dar coragem de seguir viagem, quando a noite vem. Porque gosto do meu reflexo nos seus olhos. Do meu nome na sua voz. Da minha cabeça no seu colo. Do seu sorriso em mim, das suas lágrimas em mim.

Eu.

Uma vez ele me disse (e eu nunca esqueci): “A gente está sozinho sempre, ao se jogar na água. A gente pode é torcer para que haja alguém com uma toalha felpuda do lado de fora, na beira, para que a gente possa se enrolar.”

O estar sozinho é condição e necessidade. O que não impede a escolha de caminhar juntos. Mas é e será sempre escolha. Mesmo que pareça não ser. A cada dia em que a gente permanece (e acumula mais um dia na pilha de dias, sim, não, talvez), a gente escolheu ficar. Mais um dia.

Amor, você perguntou? Não sei mesmo. O que dá pra contar são uns arrodeios aí.

Conversas sobre o feminino e outros bichos

Ontem, almoço com amiga querida. E conversas sobre o feminino. O não-feminino. Ela, como eu, cresceu naquela terra distante de relógios e vacas (que permitem os queijos e os chocolates). Chegou aqui, como eu, no início da adolescência. E teve que se deparar com o que era ser mulher, aqui.

Talvez por isso a conversa tenha sido na base de tanta concordância: a gente se entende, por ter tido um primeiro olhar sobre isso lá na Europa. Por ter crescido ouvindo conversas de feministas da década de 70, por lá. Por ter as mães que a gente teve, que, embora não se dissessem feministas, faziam parte dessa época pós-queima de sutiãs, em que as mulheres ocupavam os espaços, tratavam dos seus assuntos. Reivindicavam. Era o mundo pós-pílula, e, na Europa, era um mundo ainda marcado pelas duas grandes guerras – quando os homens foram para as frentes de combate e as mulheres ficaram para tocar a vida civil, as fábricas, os campos… quando acabou a guerra, como fazer as mulheres voltarem para dentro de casa?

Não que não houvesse contradições nesse mundo aí: eu, menina de classe média que crescia no Rio de Janeiro, fui pela primeira vez apresentada às noções de que meninas são “mais arrumadas”, “têm cadernos mais limpinhos” lá, em Genebra. Nunca tinha ouvido falar disso…. na escola, a gente tinha aula de costura e culinária, enquanto os meninos tinham “trabalhos manuais” variados. Coisa que me parecia bizarra. A gente reclamava muito disso, aliás. A gente, todas as meninas. E, na década de oitenta, isso mudou, como me contou minha professora de primário, Mlle. Guelpa: todo mundo passou a ter aula de tudo. Juntos e misturados, como deve ser.

Divaguei, mas esse parágrafo me trouxe de volta ao assunto: o que é “feminino” e “masculino”, onde se dá a linha de demarcação. Quem sempre morou no mesmo lugar, acho, pode ter mais dificuldade de perceber o quanto esses conceitos são construídos. A mim, na volta, no começo da adolescência, foi necessário um longo período de adaptação: como “ser menina” no Rio de Janeiro? Não era igual ao que eu conhecia; ralei para entender. Tanta coisa que, pra mim, era só um jeito de ser sem maiores consequências, aqui me encaixava em categorias bizarras como “hippie”, “fora do padrão”, “moderna” (Rá. Moderna, eu, aos treze anos? Passe de novo.).

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

Olhando hoje, tanto tempo depois, a sensação que tenho é que isso aí só piorou. Afinal, na década de oitenta, ainda havia eflúvios de Hair, de amor livre, de flores nos cabelos. No meu portal, dizem-me. Certamente, no meu portal. Mas é dele que continuo olhando o mundo, e mesmo aqui, as definições me parecem hoje, tanto tempo e tanta luta depois, mais estreitas. Continuamos no mundo do “homem não chora”, e a ele adicionamos brinquedos ainda mais definidos por gênero: o mundo das meninas, antes bem colorido, virou um insuportável universo cor-de-rosa. Até ovo Kinder hoje tem “de menino” e “de menina”, pelamor. Caixinhas apertadas. Tão difícil se encaixar. Corresponder às expectativas. Saltar a barra cada vez mais alta da aceitação sem questionamentos. Mas aí, se for pra ser aceito assim, não pode tanta coisa. Não pode camiseta rosa, não pode brincar de boneca, não pode gostar de glitter ou de maquiagem, não pode usar cabelo assim ou assado… não pode. Meninas também não podem, e são suavemente empurradas para o universo fofo e cor-de-rosa, inexoravelmente. Um universo em que importante é ser bonita e fazer pose, biquinho, charme.

Que difícil.

Aí, claro, cada vez fica mais gente de fora: que não consegue se encaixar nem em uma, nem em outra. E que quer ser ouvido. Que quer estar, ser, poder. Como todo mundo. E agora? O que fazer?

Talvez, quem sabe, uma dica, pra começar a conversa.

Post1

Esse texto, que vai ficar assim mesmo, meio aberto e sem certezas, cheio de angústias arranhadas e de dúvidas implícitas, mas com muita vontade que esse panorama mude, tem a ver com o almoço de ontem (obrigada, Claudinha!), mas tem também a ver com a nota tão estranha que circulou em jornal carioca essa semana. Nota que me ficou entalada na garganta. Porque era “engraçadinha”. Porque vinha de coluna “descolada”. E porque encerra, em tão poucas linhas, uma quantidade tão absurda de preconceitos… e penso na minha escola primária, que na década de oitenta aboliu essas diferenças. E lembro que estamos em 2014. E me dá uma tristeza. Um cansaço.
Post2

Abrir o olhar

Les Demoiselles d’Avignon. Picasso. <3

Abrir o olhar, era disso que falávamos. E de que continuei falando. Abrir o olhar. Dar-se conta de que beleza, feiúra, são conceitos construídos. Dar-se conta é o primeiro passo. Livrar-se dos padrões que não são nossos, voltar àquela fase, bebê, em que a gente não sabia ainda que existiam padrões e se encantava diferente: com cores, com texturas — uma pele macia, um colo confortável e aconchegante, morninho, um sorriso aberto, uns brilhos –, com jeitos, se encantava diferente e verdadeiramente, se encantava do nosso jeito. Antes. Antes de ouvir dizer que tal ou qual é bonito, que tal ou qual é feio. Antes de entender isso, de acreditar talvez. De incorporar no olhar.

Nu Descendant L’Escalier. Duchamp

Tem uns sofrimentos que percebo virem daí. E agora não estou falando de aceitação de nosso próprio jeito, de nosso próprio corpo (embora sempre também): estou falando do outro. Da aceitação do outro. De fulano que gosta de sicrana, gosta mesmo (e eu não ponho isso nem um segundo em dúvida), mas tem vergonha de apresentá-la aos amigos e conhecidos: fulana é “fora do padrão”. Do padrão de quem? Não dele, claro, que dela gosta; do padrão dos outros, daquela camisa-de-força que impingem a todo mundo que é o que se considera “a beleza certa”, e seu anverso, a não-beleza. Já ouvi histórias assim, de um fulano que saía com sicrana, que trepava com sicrana  (trepava: o desejo fazia-se presente, não é mesmo? desejo, essa prova dos nove), mas não saía em público. E a dor envolvida. E a aceitação por parte de sicrana. Que também acolho, que também acredito que faz parte. Ela, com ele, sentia-se bem. E aceita. Embora quisesse mais, sentisse falta da exposição, da “saída do armário”. Ele digladiava-se com seus próprios preconceitos, com sua própria necessidade de aceitação por parte dos pares. Ela-espelho. Ela-consciência. Ele-dogmas. Ele-insegurança. Ele-dificuldade.

Mulher tuaregue.

Tenho vontade de botar os dois no colo. De dizer “pronto, passou” e soprar o dodói. O dodói que é dos dois, que veio na forma do xarope amargo e intenso das normas e regras da estética social. Essa mesma que gera aquilo que chamo de “corpo-troféu”. O conquistado, através de muitas dores e dificuldades (o que aumenta, inclusive, seu valor): e pode ser exibido em capa de revista. O corpo domado para entrar nos padrões. Tem aquelas pessoas que, por circunstâncias meio genéticas, meio de criação, enquadram-se sem nenhum esforço nesses padrões: será a vida fácil para essas? Esse texto da Adriana Torres fala disso com muita propriedade, acho. Nem assim.

As possibilidades de agora, do século XXI, tecnologia, abundância de informações e de acessos, poderiam ser usadas para isso: para, a partir da ampliação do olhar, quebrar preconceitos, eliminar pré-julgamentos, acabar com padrões estéticos. Olho pra dentro, e tento buscar alguma vantagem nesses padrões: não encontro nenhuma, sinceramente. Só desvantagens. Só aprisionamentos. Só dores construídas. Só desencontros e impossibilidades.

E no entanto, nosso sistema de padronização acachapante parece fazer justo o inverso: a partir de certos centros muito bem estruturados de poder, disseminam caixinhas estreitas e exigem que todo mundo nelas se esprema. Leitos de Procusto. Pra caber, há que se cortar pés, há que se esticar pernas. Há que se alisar cabelos, que se perder quilos, que se afinar narizes, apagar rugas, definir abdômen, pernas, glúteos. Duro leito de Procusto onde tão poucos cabem por obra e graça da natureza, que tem mais o que fazer do que cuidar de leitos alheios.

Abrir o olhar, dizia eu. Alargar. Mudar a postura. Não precisa mexer nada, não precisa nem sair do lugar. É uma mudança bem interna, uma decisão de não deixarem dizer, de fora, o que é feio, o que é belo.
A pergunta, acho, é: o que te emociona?
A resposta, suspeito, é algo como: ainda não sei, mas quem sabe…? ;-)

E isso é um convite.
(caso não tenha ficado claro.)

P.S.
Só depois de ter escrito o post é que vi essa história, uma história que fala tão bem disso de que tentei falar aqui. Veredas possíveis. Novos olhares.

 

 

Ainda corpo: a necessária desnaturalização de padrões estéticos

Renoir. Outros padrões.

Escrevi, junto com a Lu Nepomuceno, um post-entrevista conjunta sobre corpo, sobre percepções e padrões, que tá aqui. E a repercussão deste, junto com minhas próprias inquietações, me fazem voltar ao tema hoje – acho, aliás, que esse tema merecia uma série dele, a galera toda do Biscate escrevendo sobre corpo, contando histórias, desmontando preconceitos. Seria lindo, acho que dava muito pé. Mão. Peito. Bunda. Enfim. Dava. A gente já é dada mesmo…

Voltando: o que mais me impressiona, e isso não é de hoje, é a naturalização dos padrões. A substituição do “eu acho bonito” por “é bonito”. Me lembro de uma conversa muito antiga, de quando eu era adolescente, em que eu dizia que achava determinado cantor negro bonito. E minha interlocutora dizia “você não pode achar isso, ele tem nariz chato, ele tem cabelo pixaim…”

Cabelo pixaim. Nariz chato. Pronto. A pessoa não pode mais ser bonita, com essas características. Como se houvesse alguma ordem prévia que ditasse as regras de beleza, em que entrariam “nariz afilado” (que é um pernambuquês para “nariz fino”) e “cabelos lisos”. Agora, mais recentemente, alguns episódios me trouxeram essa conversa à memória.

O primeiro foi o da jornalista que disse que as médicas cubanas tinham “cara de empregada doméstica”. Como se as pessoas nascessem com “cara de médica” ou “cara de empregada doméstica”. Certamente ela não foi a única a pensar isso: afinal, no Brasil das desigualdades enormes e  persistentes, a incidência de gente loira (não é “branca”, atenção: é loira mesmo) entre os médicos que protestavam contra a vinda dos médicos cubanos (aqui, um exemplo) deveria causar vergonha a todos os brasileiros, pelo que isso demonstra sobre o fracasso do país que dizia que ia pra frente (uôuôuôuôuô). Isso, é claro, cria naturalizações. Mas essa jornalista não só pensou: ela pensou e escreveu em rede social, como se fosse uma “gracinha”. O que assusta tanto.

Uma vez, uma amiga querida – negra – me disse: “Renata, o racismo é sempre estético em primeiro lugar”. Nunca esqueci. Porque é mesmo, né. Não é sobre “alma”: é sobre pele. Sobre nariz. Sobre cabelos. Sobre corpo. Sobre o que se chama de belo, o que se chama de feio. E aí, puxando o fio da meada, a gente chega no outro episódio que eu queria destacar aqui: a eleição de Lupita Nyong’o pela revista americana People como a mulher mais bonita do mundo.

(pausa para Lupita. respiro.)

Pareceu-me uma eleição absolutamente razoável,  por qualquer critério que se use (isso, evidentemente, aceitando que eleger “a mulher mais bonita do mundo” seja razoável; mas aí já é outro assunto.). Jogando com “as peças do inimigo”, ela foi escolhida, no começo do ano. E foi um frisson no mundo. Por aqui, ouviram-se muitas vozes protestando. Não vou reproduzir essas falas, mas o tom era basicamente o mesmo do da jornalista. Como pode uma pessoa com “cara de empregada” (racismo e classismo andam juntos como gêmeos univitelinos) ser a mulher mais bonita do mundo? Para uma revista americana, ainda mais? Por trás disso, tem, certamente, a idéia de que cabelo liso, loiro, olhos azuis, são, por necessidade, “mais bonitos.” Naturalmente. Por desígnio divino. “É” assim.

Nada melhor para esse tipo de idéia do que viajar. Não precisa nem ser pra outro país: a gente tem vários num só, aqui. Amazônia. Sul. Nordeste. Tantas caras. Tantas misturas. Altos e baixos. Cores variadas. Rostos árabes, rostos negros, rostos rosas, rostos morenos. Traços indígenas. Asiáticos. Temos gentes de todos os jeitos. Alargar o olhar. Aprender e apreender belezas, como diz a Lu na nossa conversa já mencionada, assim:

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas.”

Dar-se conta de que o que você chama de bonito (você, eu, qualquer um) tem a ver com o que disseram a você na infância que era bonito. E seu reverso: o que disseram que era feio. Explicitamente ou insidiosamente, sub-repticiamente. Jeitos de olhar, de tratar, de falar a respeito. Isso deixa marcas de que a gente nem se dá conta. Até ser jogado em lugares onde os padrões são diversos. Aí é jogo de rebobinar a fita (ok, não se rebobina mais fita, mas cês entenderam), começar de novo, do zero. Começar de novo? Olhar de novo, procurando belezuras. Que las hay. Sempre. Entender as belezuras que os outros acham. E quanto mais a gente andar nesse caminho, que é um caminho que se escolhe andar, mais a gente vai se dar conta de que “beleza” é algo que se cultiva no olhar. No perceber. “Beleza” é desconstrução de padrões. É desmonte de regras. Beleza pode deixar de ser prisão. Se a gente deixar acontecer. Se a gente escolher.

Uma conversa sobre corpo

Essa experiência começou numa conversa entre a Lu Nepomuceno e eu. Sobre corpo, padrões, formas. E virou isso aqui: uma entrevista a duas vozes. As perguntas a gente fez juntas, eu umas, ela outras; as respostas, separadas. Ela respondeu, eu respondi. Vai assim pra vocês, pra vocês poderem fazer as próprias perguntas, darem as próprias respostas. Que a gente acha que é um assunto  delicado e premente. A gente optou por não botar imagens: aqui, o que conta são as palavras, os relatos, a imagem que a gente tinha da gente mesma.

1. Como era sua relação com essa questão de gordura/magreza na adolescência? você sentia alguma pressão para ser magra? você era magra?

L: Retrospectivamente eu sei que era magra na adolescência. Porque vejo as fotos. Mas era bunduda, comparando com o resto do corpo. Não me sentia nem magra nem gorda. Eu não tinha (e essa é uma coisa que me acompanha) a sensação de ter um corpo de um determinado modelo. Eu não pensava (e não penso muito) sobre meu corpo. Eu sou meu corpo, eu vivo meu corpo. E era um pouco assim na adolescência, só que sem nomear esse processo como hoje nomeio. Eu não sentia pressão pra ser magra ou mais gorda. Se a pressão existia, nunca dei por ela. Credito isso a uma série de fatores que se entrelaçaram com maior ou menor relevância: eu não via novelas nem tinha acesso a revistas ditas femininas, então não tinha modelos imediatos de beleza, minhas referências eram as atrizes dos filmes de sessão da tarde e, principalmente, corujão, geralmente mulheres da década de 40 a 60, com seios e quadris proeminentes e do tipo voluptuosas. Minha mãe é do tipo dessas atrizes, peitão e quadril, então ficava com a mesma referência. E minha mãe nunca me pareceu vaidosa, no sentido usual. Ela não usa maquiagem, não frequenta academia, essas coisas. E meu pai sempre foi bem apaixonado. Então acho que fiz uma operação mental de que pra ser desejável não precisa reproduzir nenhum destes comportamentos ou que determinado tipo de corpo é mais legal que outro. Além disso, eu estudei dos seis aos dezesseis anos em uma escola em que todas as alunas eram mulheres. Me acostumei com a diversidade do corpo, acho, especialmente porque não havia muito esse lance de “mais bonitas” ou “mais magras”. Depois tive o privilégio de fazer a faculdade de psicologia (e, concomitantemente, análise) e essas questões do corpo se tornaram ainda menos importantes em termos de forma e mais no que tange a existência.

R: eu era muito magra, mas isso é algo que vejo também retrospectivamente. Gostava muito de ser magra, mas não me dava conta do quão magra era. Era (sou) muito peituda, e isso me incomodava; naquela época, o bonito era bunda grande/peito pequeno, o modelito da minha mãe, da minha irmã. Eu era basicamente o oposto, e preferiria ser como elas. Minha mãe é muito diferente de mim fisicamente, tem cara de índia, corpo de índia. E eu achava lindo e tinha pena de não ser assim. Olhando fotos hoje, me assusto com o fato de não me dar conta que era tão magra.

2. Você me parece ter uma relação mais livre com o corpo do que quase qualquer pessoa que eu conheço. Isso é natural ou foi fruto de um processo?

L: Como eu comecei a falar antes, nunca foi uma questão pra mim isso de ser magra ou gorda, bonita ou feia, etc. Não diria que é natural, no sentido de inato. Diria que foi um processo que eu não precisei deflagrar conscientemente. Foi mais a forma como eu pude organizar e simbolizar as coisas que me aconteceram e como me aconteceram e como eu agi sobre elas e assim uma coisa leva à outra… Acho que uma coisa importante nessa trajetória de sentir o corpo à vontade (e não só no que se refere a ser gorda, porque como eu disse isso nem era questão pra mim, mais de coisas como se vestir, maquiagem, etc) foi questionar o ridículo, eu lembro de pensar as pessoas importantes pra mim me respeitariam e gostariam de mim independente de como eu me apresentasse e as que não me respeitassem e gostassem usando como critério a forma como me apresento não eram pessoas que eu me interessasse que se tornassem importantes pra mim. Depois generalizei isso pra um monte de coisas, especialmente pros relacionamentos afetivo-sexuais-amorosos (depois relativizei e suavizei, mas, né, as bases já estavam postas).

R: minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras. Mas com relação a sexo, acho que sempre foi. Tinha um modelo bacana em casa, tinha uma família (pais, tios, avós) que gostava de sexo e deixava isso transparecer. Além disso, sempre encarei sexo como uma atividade que se aprende. Tenho muita preocupação com esses discursos que enfatizam uma suposta “centelha mágica”, um “clique” e tal. Pra mim sexo é que nem paladar, se educa, como um gosto; é que nem outra atividade física qualquer, se aprende e se exercita. E quanto mais se exercita, mais se descobre.

3. Hoje em dia, pode-se dizer que você seja “fora do padrão”, em termos de peso. Alguém já te cobrou isso? Como é que você lida com isso na vida?

L: De manhã, quando vou tomar banho, tiro a roupa na frente do espelho de corpo todo, olho e penso: que gostosa! No instante seguinte começa a avaliação: a barriga tá caída, a gordura das costas, olha aí a papada. Como eu lido? Não fico pro instante seguinte ;-)

O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. Acho que existem (ou eu sinto) dois tipos de cobrança/situações. Uma que é estrutural. Não precisa ninguém dizer que eu estou errada em ser gorda: a poltrona do avião diz, as marcas de roupas que não produzem acima de determinados números dizem, os personagens de filmes e novelas que sempre se definem pelo corpo dizem (gordo é repulsivo, meio bobo, às vezes é engraçado, mas nunca sexy ou inteligente de fato), as matérias parciais nas revistas e na televisão sobre dieta, estilo de vida, etc relacionando peso com valores morais e comportamentais dizem(pessoas gordas são preguiçosas, não tem autoestima, precisam de uma mudança de vida). O outro tipo de cobrança/situação me chega por meio de ações e ditos contraditórios das pessoas que me amam e/ou são próximas. Minha mãe, por exemplo, de vez em quando me pergunta se eu não vou emagrecer, que essa barriga não é saudável e tal. Mas quando vou visitá-la me elogia, me acha linda, serve cerveja e cozinha um monte pra mim. Ou a amiga que vem conversar comigo porque agora estou namorando e preciso (sic) me cuidar mais (me cuidar mais = emagrecer e aparentar mais vaidade como usar batom) pra que o moço não perca o interesse mas que super me admira (e isso não é uma frase irônica, eu sei que ela realmente gosta de mim, me aprecia, me acha sensacional) e deseja ter minha (sic) segurança e autoestima. Ou ainda como moços por aí que já me perguntaram se eu não vou emagrecer ou se eu não me acharia mais bonita mais magra, mas sempre quiseram rala e rola e na hora do rola e rala é nos “excessos” que eles se empolgam. Então, eu rio. Você pergunta como lido com essas cobranças e eu penso isso: eu gargalho. Porque as opções são: emagrecer (não vou), sofrer com isso (não gosto), ou rir e viver (prefiro). Então eu digo pra mamys que a comida tá gostosa, digo pra amiga que não espero do moço interesse eterno e que se o critério dele fosse magreza e maquiagem certamente ele teria se engraçado por outra pessoa e, bom, nunca respondia pros moços, tava ocupada e de boca cheia, hohoho.

R: meu momento mais “no padrão” – uma afirmação disso – foi quando, aos 24 anos, fiz um book com um fotógrafo. Era meio terapêutico, uma maneira de deixar pra trás uma certa sensação de “patinho feio e inteligente” que me acompanhava. Tinha aquela coisa dos seios grandes, de ser “de outro padrão”. Branca, peituda, magra. Quando eram valorizadas as curvilíneas, morenas, de peitos pequenos. Adorei fazer as fotos, posar, achei que ficaram bem bacanas (num sentido meio teatral, já que a maquiagem, as poses, não era eu de verdade); outros acharam também e isso é espelho, é onde a gente se reflete e alimenta autoestima. Mas sempre valorizei muito a “dinâmica” com relação à “estática”: não tenho nenhum apreço pelos ditos belos (na beleza padrão de revista e de TV). Sempre gostei de brilho no olho, de gargalhada, de jeito de ser. Desde criança, eram esses os meninos que me encantavam: os que “sabiam ser”, e não os chamados de bonitos. Aí me encontro com esse olhar generoso que você diz que exercita: gosto de encontrar belezas, e encontro. Na pele, no corpo, mas também e sobretudo no movimento, no andar, no falar, nos gestos de mãos, no inclinar de cabeça, no acender um cigarro, no segurar um copo. Em homens e mulheres. Tenho muita pena dos homens que não admitem achar outros homens bonitos, como se lhes faltasse um pedaço, sabe.

4. Você, como mulher e ativista, reflete sobre essa questão da opressão a corpos, particularmente intensa no caso das mulheres. Queria que você comentasse um pouco isso, inclusive falando do contraponto: a magreza.

L: Eu me inquieto que a publicidade designe determinadas representações para as pessoas gordas. Eu questiono a indústria da moda. Eu me indago sobre os estereótipos reproduzidos em filmes, séries e novelas. Mas a minha questão não é apenas se o padrão atual é opressivo para as mulheres/pessoas gordas. É que exista um padrão ou que existam padrões que escalonem que corpos são mais bonitos, desejáveis, aceitáveis. Os corpos são diversos. São gordos e magros e altos e baixos e jovens e velhos e cada um tem a sua beleza. Não é com a reordenação do que é melhor que se constrói uma sociedade inclusiva e acolhedora, acho eu, mas com a aceitação de que não há melhores, há os corpos que levam a vida que levamos.

Nem sempre o discurso da militância está atento a essas matizes e, algumas vezes, culpabiliza as mulheres magras no lugar de se estar atento à estrutura. Eu acho que não interessa se a mulher é magra por metabolismo, por estilo de vida ou porque se esforça em dietas, cirurgias e diversas intervenções com maior ou menor sofrimento físico ou psíquico. Não interessa se a mulher é mais ou menos refém do discurso da beleza magra. Nós não temos que ser questionadas individualmente, acho. A questão deve ser sempre a busca de uma mudança na cultura. Para que as mulheres, as pessoas, não tenham mais que sofrer pra se enquadrar.

Eu acho que a questão central de opressão dos corpos não é a gordofobia, embora seja essa a manifestação mais evidente e cruel que vemos na convivência social diária. Penso que o que está mais no cerne é o escrutínio e o controle sobre o corpo feminino. O fato de que não questionamos as sucessivas avaliações e julgamentos pelos quais o corpo feminino passa, seja por ser gordo demais, magro demais, malhado demais, velho demais, negro demais, com pelos demais se mantém, acho, intrinsecamente relacionado com a legitimidade de que um saber externo e terceiro decida e opere sobre ele, seja a medicina, a religião, o Estado.

R: achei muito pertinente isso aí que você falou. Embora o problema da “gordofobia” seja, também, um problema prático: as pessoas não cabem. Nas roupas, nos assentos, nas passagens. Como se esse mundo não fosse feito para elas – o que, evidentemente, gera outras dores. Mas a magreza considerada excessiva também pode ser foco de muita reprovação e de muita sensação de inadequação. Assim como a busca dessa magreza vista como beleza e perfeição pode levar à doença, na forma do binômio bulimia/anorexia. Identifico-me com isso também, já fiz dieta (quando já era bem magra, mas não via isso) e cheguei a pesar 49 kg para 1 metro e 68. Só me dei conta de que estava indo além do razoável porque quase desmaiei na aula de canto. O resto das pessoas, em volta, me aplaudia. E isso também me assusta retrospectivamente. Ontem ouvi no rádio um comentário sobre “pneus” da Fernanda Lima: um horror, a invasão, o direito que as pessoas se arvoram de ficar falando mal do corpo das mulheres ( e ela tem corpo, basicamente, de modelo), porque são gordas, magras, idosas demais para usar biquínis…. isso sai tão espontaneamente, é tão naturalizado… como se fosse uma espécie de obrigação das mulheres. Como se fosse reprovável não cultivar e manter certo padrão de beleza, sendo mulher.

5. Como você se posiciona em relação às diversas inciativas de busca de emagrecimento, tais como dietas e cirurgias plásticas?

R: Já escrevi sobre isso (no texto “A Mulher em Bancas”): acho isso tudo uma prisão do cacete. E que fique claro: não é uma reprovação – mais uma – à mulher que acha que deve corresponder ao padrão x ou y e para isso faz o que considera necessário, mas sobre a sociedade que as empurra para esse padrão cada vez mais estreito. Estava lendo estes dias, por exemplo, sobre a onda de rinoplastias no Irã: de onde vem isso? Os narizes lá tendem a ser naturalmente aduncos, mas o padrão estético ocidental é diverso. No universo do cinema, as mulheres são cada vez mais iguais. E isso me entristece, porque a isso corresponde também um estreitamento do nosso sentido de beleza: quanto menos diversas as belezas possíveis socialmente, menos aguçados estarão nossos sentidos para percebê-las. Há, por assim dizer, um certo embotamento social da percepção do belo. Que ocupa um espaço cada vez mais estreito. Por mais que a gente (eu, você) se revolte contra isso na prática, construindo nosso próprio sentido de beleza, é uma luta inglória. Dá uma passada numa banca de jornais e olha só as capas de revistas femininas: uma mesmice só. Tristeza. E ao mesmo tempo, a certeza de que a gente tem que ir adiante. E questionar, e mostrar outras possibilidades, e fotografar, filmar, exibir, discutir. Ampliar. As redes permitem isso. Vamos aproveitar.

L: Concordo inteiramente com você, não se trata de avaliar e condenar as mulheres individualmente, eu penso no sofrimento silencioso sedimentado diária e imperceptivelmente que nos conduz a esse olhar critico sobre nós mesmas e as exigências que construímos a partir daí. Sinto que as iniciativas individuais são a forma como cada uma consegue lidar com sua história, com as demandas sociais, com os padrões. E devem ser respeitadas ao mesmo tempo em que não se pode deixar a peteca cair no questionamento do porque, na reflexão sobre o cenário em que essas ações se tornam necessárias.

6. Como você entende a questão corpo magro X saúde X corpo gordo?

R: A questão da saúde, pra mim, já é uma questão. Quer dizer, essa obrigação de ser saudável (ainda antes de falar do gordo x magro) já é uma coisa questionável. Por quê? Nem sempre foi assim. Se eu escolho beber, ou comer aquilo de que gosto, ou ser sedentária e viver com meus amigos nos botecos da vida, por que isso seria pior do que a vida daquele que escolhe ir à academia todo dia, só comer tal ou qual coisa, ser moderado, não fumar…? Um “sim” – à vida saudável – tem sempre um “não” embutido – às atitudes consideradas não-saudáveis. Que podem ser as que me dão prazer, as que me trazem conforto. Pode ser o que eu tenha vontade de fazer. Eu ou qualquer um. Ninguém deveria ter o direito de se meter na vida dos outros como se metem, dizendo “você devia malhar mais”, “devia comer mais verduras” e tal.
Tem aí uma reprovação meio moral que me dá agonia. E olha que comigo isso não acontece; apesar de hoje eu estar um monte de quilos acima da magreza original, não tem ninguém me dizendo que eu devia isso ou aquilo. Mas vejo acontecer, muito. E aí tem esse outro ponto: as pessoas consideram, a priori, que magro é igual a saudável, gordo é igual a doente. E não adianta a pessoa gorda argumentar com resultados de exames, com dados concretos: é um a priori muito estabelecido, se você é gordo, algo de errado deve haver com você. A contrapartida é que se você é magro, nem sempre identificam a tempo quando há algo de errado com você, como em tantos casos de anorexia não-identificada.

L: eu responderia assim, do jeitinho que você respondeu. Que não há nenhuma garantia a priori de que o corpo magro é saudável e o corpo gordo não, que essa equação é sustentada pelo preconceito. E, para além, que nenhum discurso seja estético, médico, moral ou religioso externo deveria pautar e moldar os corpos e suas vivências acriticamente. Incluindo o paradigma da saúde como meta e da juventude como momento a se preservar e perpetuar o máximo possível.  Me preocupa a forma como o discurso estético se entrelaçou ao discurso médico e o poder que o discurso médico tem sobre o corpo, especialmente o corpo feminino (como bem se percebe em relação a questão do parto). Fico pensando se não caminhamos, em algum grau, pra uma certa patologização do viver contraditoriamente sustentada pela busca ativa da vida mais “corretamente” vivida. Uma coisa que eu costumo repetir é que eu levo a vida do corpo que levo e levo o corpo da vida que levo. Não acho que é modelo pra todo mundo, mas conforta e acolhe.

Ao acaso e ao sabor do vento

“O acaso vai me proteger”, isso é certo. Mas tem uma condição para isso. É “enquanto eu andar distraído” que ele vai me proteger. Só distraído é que a gente encontra o que a gente não estava procurando. Distraidamente, passeando sem necessariamente prestar atenção em nada. Apenas percebendo. Deixando acontecer. Apenas sendo, se é que me permitem. Não? Só dessa vez, vai.

Deixar-se ir. Não ter certezas. Desconfiar das próprias certezas, mais bem. Há regras demais. exigências demais. Intensidade demais, pureza demais, segurança demais. Não é preciso nada disso. Só soltar. Soltar, respirar, e… (depois do e… ficam as reticências mesmo; a gente não sabe. Espaço vazio. Oco. Amplo de possibilidades e riscos.)

O pano de fundo disso tudo é a voz da minha tia-avó Nitinha, uma mulher que viveu a vida, uma presença quente, uma risada carinhosa: “Eu sempre disse que nunca namoraria paraibano, baixinho e careca. Conheci o Lima: careca, baixinho, paraibano. Me apaixonei.” Ah, o acaso. O acaso? O espaço também. Porque consigo vislumbrar uma história em que meu tio-avô Dadu (o Lima, aqui) chegasse e passasse, porque ela estaria tão presa às suas certezas, às suas intenções, que nem perceberia, nem daria chance. Era tudo o que ela não queria. Era tudo o que ela queria e nem sabia.

É esse o reconhecimento: a gente não sabe. Tantas vezes não sabe. A gente acha que quer, acha que gosta. Mas não, na verdade é outra coisa, ou pode vir a ser. Gosto se constrói também, gosto se adquire. Gosto se amplia, se apura. Deixando vir. Contaminando-se. Viralateando-se. Se embolando ladeira abaixo, já que a chuva ajuda a gente a se ver. E, já que a gente se viu, que tal? Um café, uma cerveja, uma passada na praia, uma caminhada pela cidade, um silêncio compartilhado, um banco de praça? Atender o telefone, aceitar o convite, suspender as certezas e as seguranças, ser frágil e ignorante como de verdade se é? Despossuir-se, meio que. (Tá muito? É que achei que cabia tão bem….)

Um dos sonhos mais incríveis: eu, na frente de uma vitrine de papelaria. Uma caixa de lápis de cor e de tintas, grande, luxuosa. Tudo o que eu queria. E era esse o sonho: eu olhando pela vitrine da loja, a caixa de lápis, e, na minha cabeça, todos os desenhos que eu faria com ela. Folha em branco: caminhos.

É claro que há arte no deixar-se levar: como numa dança a dois. Um dos parceiros – tradicionalmente a mulher, mas né – está ali, deixando o fluxo-que-é-o-outro levá-lo. Presença, leveza, um soltar-se que permite sentir o movimento antes mesmo que ele aconteça. Com isso aí que a gente chama de vida, de acaso, de caminho, também: deixar-se ir, descuidado, sentindo o movimento. Se não deu, não deu. Ora. Não é necessário o murro em ponta de faca. Aqui, da mesma maneira. Uma leveza. Um despreendimento que faz ver que a onda leva para outro caminho. Insistir só dói. Só. Não há grandeza, não há mérito. Só dói.

É exercício, é despreendimento. É de todo dia. Olhar o céu, olhar o sol, olhar o mar. Ser o céu e o sol e o mar. Rir e chorar, quando for. Estar. Deixar-se levar mesmo que o plano fosse outro, que o projeto fosse diverso, que houvesse tanta expectativa e – por que não? – tanta esperança. Entender que a esperança e a expectativa são pesos que são dos outros. Não seus. Seu é o caminho. Eventualmente caminhado com outro, com outra, com outros. Por um tempo. Durante um trecho. E, numa curva, de repente.

Nada dava a entender. Mas o acaso, que nos protege como o céu, também dá sinais. E aí. Fazer o quê. A gente segue, sem certezas. Certezas no las hay, lo siento. Porém já não as havia. A certeza era uma falta de capacidade de ver. Uma miopia. Esquece a certeza. Deixa. Larga. Solta.
Vai.

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