Aos quase 50, continue a nadar

arte: André Vallias

André Vallias

Pois é. Quase 50.
Impacta, né?
A mim impactou, nesse começo de ano. Vou fazer 48 em maio. E 48 é “quase 50″. Né.

Eu nunca liguei pra idade. Achava graça no ditado da Freira – que eu não conhecia ainda, só conheci agora na formatura da minha mãe : “Depois que eu trintei, nunca mais contei”. Achava graça e me irritava um pouco: como assim? Ainda mais que era ela, minha mãe, que retomava o ditado, quando lhe perguntavam a idade. Eu ficava magoada: se tirassem a idade da minha mãe, lhe tirariam a história, e com a história… eu. Era como se minha mãe estivesse querendo me “apagar” da vida dela.

Já disse em outro lugar:
não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte – que eu choro à beça, pra caralho ou mais – e… como diria o Neruda, de saudosa memória, “confesso que vivi”. E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho.  

Quando eu disse, foi há três anos: eu tinha 45 então, e era “bem no meio”. Esse ano, desde o começo do ano, tenho, na minha cabeça, quase 50. E, por um momento, me assustei. Aí fui ali cuidar de coisa e outra, tomar um café, encontrar a galera no Cardosão, dar uma olhada no mar, ler um pouco de Simone que anda me pautando por esses tempos (vá saber). Senti o vento no rosto. E me alegrei. Essa idade, 48, na astrologia, é fechamento de um ciclo – o quarto ciclo de Júpiter. Júpiter, planeta do crescimento, dos “vôos de águia” que ajudam a dar contexto e a sair do olhar míope da proximidade; o planeta dos estudos superiores, das longas viagens. Júpiter, o “grande benéfico” dos antigos, o planeta da boa fortuna, regente de Sagitário, “ao infinito e além”.

Júpiter tem um ciclo de doze anos: doze, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito. O quarto ciclo de Júpiter. Fechando, e começando um novo. Cada um desses fechamentos corresponde a um momento extremamente importante da minha vida. E a um novo começo. Vou contar só do primeiro, meu leitmotiv, recorrente de tanto que me explica. Aos doze, eu estava voltando de uma longa viagem. Eu-forasteira. Em carne viva, chegando ao Rio de Janeiro sem entender nada. As gírias. As roupas. Os modos. Os jeitos. Uma dor e um alumbramento. O primeiro ciclo de Júpiter a gente nunca esquece.

Esse ano, tô me sentindo próxima dessa menina aí, a dos doze anos, de olhos assustados, de jeito de bicho do mato. Essa aí que dizia que tinha frio de gente, e que tinham pisado com botas pesadas no seu jardim. A “desgarrada das gentes”. Próxima, porque por baixo de todas as camadas, essa aí ainda sou eu. Próxima, pelo afeto com que olho pra ela, ela-eu, e me alegro de tanto caminho percorrido. Te tanto pau, de tanta pedra, de tanto fim do caminho. Do fundo do poço. Do pouco sozinho.

Depois disso tudo, olho pra ela-eu hoje, e penso que andei. Que hoje não tenho mais medo de dançar em festa, embora a menina de doze anos apareça de vez em quando na hora de dançar de rosto colado. Que não gaguejo mais e que falo pra platéias grandes e pequenas, falo em plenárias, falo até em rádio, olha só. Me alegro que escrevo no Biscate, que vagueio no Chopinho, que faço mapas e falo de economia e traduzo de um pro outro, que é a minha verdadeira vocação.

Olho pra menina-eu de hoje, ao final do quarto ciclo de Júpiter, e vejo-a tão boba, tão palhaça, tão de riso solto como sempre. Ou talvez mais. Mais livre, mais tranquila, mais segura, certamente. Tão inquieta, tão curiosa, tão gulosa de vida e de comida mesmo como sempre. Com algumas cicatrizes a mais, como não. E outras histórias pra contar.

Vai ter festa esse ano. Festa de dança, pra celebrar o quarto ciclo de Júpiter. Como se deve. Provavelmente uma festa conjunta, com outros aniversariantes de maio. Gente querida. Tanta gente querida. E meu coração já fica quentinho só de pensar.

Caminho andado, caminho por andar: tá sendo gostoso esse caminho, viu. Não “fácil”. Nem sempre tranquilo. Mas bom de andar. Com seus perrengues, com seus percalços. Mesmo que de vez em quando fique tudo escuro e não pareça. Bom de andar, sim.

Esse texto de hoje é pra todo mundo que tá chegando lá comigo: tamos começando outro, galera. Ainda tem muito chão pela frente. A chuva ainda não chegou. Borandar. Dançar. Chorar. Gostar.

Continue a nadar, diz a Dory.

Olho pra frente, pra quem já andou mais do que eu, e vejo caminhos a percorrer. Olho pra trás, e cuido das lembranças que me fazem quem sou hoje. Agradeço, todo dia, sempre. Continuo a nadar.

Renata by João

Renata by João

Maria de Fátima Pimentel Lins é sujeito da história

Por Renata Lins.  Fotos: Antonio Miotto.

Ela. com o nome todo. Maria de Fátima, e não Fáfa (assim com acento no primeiro “a”), porque ela gosta desse. Pimentel que é o nome da família de onde veio e a que pertence, tanto, sempre: de Paudalho, meu avô e minha avó. Lins que é o nome que ela adotou depois que casou, que é tão dela também.

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Dali vem. A família, que nutre e que se espalha,  que dá origem e sentido. Tradições, como a “Folhinha do Sagrado Coração de Jesus” que ela compra todo ano e dá para os filhos, os irmãos, os sobrinhos. Como fazia meu avô. A religião, que faz parte dela de um jeito alegre, que lhe abriu a porta para a política. Porque ela levou a sério essa história de “somos todos irmãos” e foi lá tentar ver o que dava pra fazer. Entrou pro movimento de juventude católico, filhote da teologia da libertação. JEC, JUC. Viagens, amizades. Ampliação de horizontes. Vontade de transformar. Veio dali.

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Veio dali também, acho, a escolha do curso: Serviço Social, na escola onde Paulo Freire dava aula. Pra botar a mão na massa, pra fazer o que estivesse ao seu alcance. Utopias concretas. O primeiro projeto de conclusão de curso era um projeto de alfabetização pelo método Paulo Freire. Numa favela do Recife. Ela sempre conta que ficou surpresa quando, junto com algumas colegas de curso, foram perguntar do que era que aquelas pessoas tão despossuídas sentiam mais falta: essa seria a base do projeto delas. Pois bem, foi isso. Aquelas pessoas queriam saber ler. Saber ler pra poder entender com a própria cabeça. Escrever com as próprias palavras. E elas entraram de cabeça no projeto: alfabetizar aquele grupo de gente que não tinha nada mas queria cidadania. Pela alfabetização.

Corria o ano de 64 e estava tudo planejado: ela iria se formar e casar no final do ano. Seu noivo Marcos (noivado recente, do ano anterior) trabalhava com o prefeito do Recife, Pelópidas da Silveira. Ventos de mudança por ali, pelo Nordeste inteiro. No Rio Grande do Norte, a campanha “De Pé No Chão Também Se Aprende A Ler” era símbolo da prefeitura de Djalma Maranhão. Método Paulo Freire, ainda.

E teve o golpe. E mudou tudo. Pelópidas foi preso, Marcos saiu do Recife, por dúvida das vias. Pra São Paulo. O Dr. Antônio Pimentel decretou: “filha minha não sai de casa sem estar casada”. Pois muito bem: casou por procuração. E até hoje ela comemora “o dia em que casei com meu pai”, rindo de ter realizado a freudiana fantasia de toda menina. Casou no religioso, depois, em São Paulo. E foram pra Paris, assim de repente. Depois para a Argélia. E, quando ela ficou grávida, voltaram para o Brasil, para sair de novo, dez anos depois, fugindo da polícia da ditadura.

Com isso tudo, a formatura não aconteceu. História interrompida. Fio solto e sempre, apesar de todas as realizações, meio dolorido. Tanto que foi o pedido feito à Comissão de Anistia: ter o direito de se formar. Só faltava a monografia, o trabalho de conclusão de curso.

E assim, cinquenta anos depois, ela vai se formar. Na UFRJ, dessa vez. Apresentando um memorial em que conta essa história, sua história.
“Não é a história toda… mas é a minha verdade”. Esse o título do memorial. Depois de tanto tempo. Tanta luta. Tantas perdas. Tantas paisagens: Paris, Argel, Genebra, Brasília, Roma. E o Recife como pano de fundo, onde começava o mundo. Pelo menos o mundo deles.

E a gente, os filhos, a gente vai tar lá pra bater palma, pra ver a reparação dessa perda que parece pequena, e é tanto. A gente se alegra, a gente vibra, a gente lembra daquele que foi seu companheiro durante quarenta anos e que não vai tar aqui pra ver isso. Mas, de alguma maneira, vai.
Esse texto é pra ela, é pra ele também. Com orgulho e gratidão.

Viva você, mãe. Vai ser lindo.

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Lu e Fátima. Biscateando…

Canção lenta para o equinócio de outono

snoopy outono

É primavera no hemisfério norte, é outono aqui. Já é quase abril, o mês que abre. Um começo com cara de começo. Com cara de novo como poucos. Um começo de vento fresco.

É, sei, o mar não tá pra peixe.
Mas é assim que tô sentindo, fazer o quê.

Lembro de “Setembro”, daquela época em que o Woody queria ser Bergman. Um Bergman um pouco mais light. Um pouco menos sueco. Um pouco mais judeu, vai. Adorava a fase Bergman do Woody. Outono lá. se fosse aqui, seria Abril.

Setembro é um filme de cores de outono. Marrons. Ocres. Amarelos. Folhas secas. Roupas, casacos: todo o outono expresso nas cores. Sentimentos de outono. Outono da vida. Adoro. Lembranças de deitar em folhas secas: meu primeiro outono no hemisfério norte. Marcelo e eu encantados com o tapete de outono. Vontades de chá. De cachecóis. Talvez de um quadradinho de chocolate. Gostos de outono.

E, claro, Sonata de Outono. Bergman-Bergman. Liv Ullmann, Ingrid Bergman. Portentosas. Gigantes. Fantásticas. Confrontos. Mágoas. Dores reviradas. Tiradas do baú. Trilha sonora: piano. Gritos. Lágrimas. Securas. Há tanto tempo vi mas ainda mora em mim.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n’ai pas oublié.

Ivo Livi, o Yves Montand, tão lindo. Cantando tão lindo. E isso também é lembrança: eu vi o Yves Montand cantando isso. No Maracanãzinho. Foi no século passado. Foi épico. Que bom que eu pude estar lá com ele. (ah, Piaf…. você mandava bem…).

MontandPiaf

Yves Montand e Edith Piaf

Uma pitada de melancolia. Duas doses de lembranças. Uma mesa de bar, como não. Talvez um violão dedilhado. Um olhar ao longe, perdido. Uma alma aberta, sem saber direito pra que. Uma vontade de ir, sem saber direito pra onde. Uns cílios. Um cigarro entre os dedos. A fumaça subindo. Laranjas, ocres, castanhos, dourados. Um caderno sem pauta, uma caneta de pena.

Enfim, outono. Há tanto tempo que eu tava te esperando.

Roupa de periguete, jeito de biscate

para Marcos, Fátima, Sônia, Pilar – que me ensinaram e me inspiram

Babalu

“Roupa de periguete”. Com que idade se aprende a dizer isso? Muito pequeno, parece. Não tem jeito, tá nas ruas, tá nas bocas, nas cabeças.
É algo que parece pequeno também; e mesmo pais de cabeça arejada, bem-intencionados, podem não estar atentos para a necessidade de parar. De explicar. De dizer que não, que não tem isso. Que tem muita coisa que se diz e que se ouve nesse mundão de meu deus, mas que não faz sentido classificar tal ou qual roupa como “de periguete”. Muitas vezes deixam passar, acham graça no pequeno. Pensam que depois. Quando tiver idade. Quando entender melhor. Por enquanto, deixam pra lá.

Suelen

Atrevo-me a pensar que não deveriam. Não estou aqui para dar aula pra ninguém: por outro lado, educação se faz todo dia. Conceitos, valores – a gente cria desde que nasceu, os pequenos estão aí olhando, absorvendo, apreendendo, fazendo sua própria síntese e tirando suas conclusões. Do comportamento dos pais, das falas dos pais. Dos vizinhos. Dos professores. Dos colegas. Dos programas de tv. E um dia a gente olha e aquela pessoa que era uma pessoinha vira uma pessoa com opiniões seguras, firmes, com posições. Com valores que, agora, são seus. Nessa altura aí, fica bem mais complicado mudar.

Tendo a achar que, em muitos casos, quando pais cujos valores são mais livres do que os dos filhos – e isso, atualmente, acontece bastante – se assustam ao ouvir seus pimpolhos recriminando o comportamento das “biscates”, a roupa das “periguetes”, as atitudes das “vadias”, isso pode ter a ver com uma leniência com essas falas de pequenos. Em algum lugar, lá atrás, perdeu-se a oportunidade de parar, de conversar, de refletir juntos.

Bebel

Oh, baby, baby, it’s a wild world, cantava o lindo do Cat Stevens. E é mesmo. É um mundo estranho e mau, não dá para dizer que não. A gente está nele, fazer o que. A gente tá mergulhada nele, a gente é parte dele, a gente é ele. A gente faz o mundo, a cada dia (não, não vou reverter para autoajuda). O fato de ser um mundo difícil torna a responsabilidade de quem cuida de crianças maior ainda. Se o pai, se a mãe acreditam que o mundo seria melhor se as pessoas não fossem julgadas pela roupa que vestem, pelo número de parceiros sexuais que têm, pelas escolhas que fazem, a hora de transmitir isso para os filhos é agora.

Não importa que idade tenham os filhos: o começo é agora. Não através de palestras: um pouquinho a cada dia, aproveitando a propaganda, a novela, as conversas ouvidas na praia ou na fila do cinema. Numa linguagem adequada à idade da criança ou do adolescente, por suposto. Problematizando, confrontando visões, ouvindo. Ouvindo muito, acolhendo dúvidas, colocando as suas (que os pais e as mães não têm tudo pronto e acabado – muita coisa se aprende conversando sobre dúvidas e hesitações), contando histórias.

Em todo canto tem exemplos possíveis. O das senhorinhas que eram um casal naquela cidade do interior, que chegaram até a adotar uma criança, e todo mundo achava bonito de ver. O da moça que era prostituta e adotou um bando de meninos de rua da vizinhança, dando casa, comida, carinho muito. O daquela que todo mundo chamava de periguete, que pegava geral, usava decote e roupa muito curta, batom vermelhão, olho pintado, unhas e… e pronto, não é isso, ela tinha nome e sobrenome, sonhos, vontades na vida amigos, isso é o que importa, meu filho, esquece esse papo de vadia, de periguete, isso não tá com nada, olha como ela é gente boa, olha como ela tá feliz, deixa ela viver a vida do jeito dela… não precisa ser o seu, cada um tem um: eu tenho o meu, você o seu, mas a gente é tudo gente, no final das contas, e acaba tudo tendo “por cima uma laje, embaixo a escuridão“. É fogo, irmão.

O mundo é machista que só a porra. O mundo, com todo mundo dentro. É briga de foice, é briga de todo dia, é nadar contra a corrente até não poder resistir. É dar murro em ponta de faca, muitas vezes. Dizer de novo, e de novo, e de novo. Ter paciência, sentar, mostrar, explicar. Pegar filmes na locadora, lembrar de gente que se conhece ou que se conheceu, mostrar os lados B do mundo. Que só é mundo porque tem os lados B. O seu confiável gerente é homossexual. A vizinha de baixo, aquela que usa aquele decotão e os brincos de argola, sustenta a mãe velhinha no interior de Minas.
E tem a parte mais geral da coisa, que também tem a ver com aquilo de que estou falando aqui: o porteiro, o lixeiro, o faxineiro – olhar nos olhos, cumprimentar todo dia: bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, obrigado. Cabelo crespo, nariz chato, boca grossa: tanta gente linda, deus do céu. Olha o Lázaro, olha o Zózimo, olha a Taís, a Camila, a Zezé. Quem disse que era feio, que era menos, ah, fala sério: não olhou direito.
Não tem dia pra começar. É hoje.

P.S. Deixo com vocês a linda borboleta Luciana, falando sobre isso de ser periguete melhor do que eu saberia.

Carnaval em letras e desejos

ReJu2013Bola

Carnaval.
Escrita automática.
Carnaval, desengano
Manhã, tão bonita manhã….

Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça
a chuva tá caindo e quando a chuva começa eu acabo de perder a cabeça.

Carnaval.
Transgressão.
Ponta-cabeça.
Bunda-canastra.
Tudo pelo avesso.
Leme. Oriente. Caminho.

Carnaval.
Metáfora.

Tudo o que a gente queria ser.
Tudo o que a gente poderá ser.
A gente sendo aquilo que quer ser.

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar. E ele há de chegar.
Quem me vê sempre parado, distante garante que.
E no entanto.

Carnaval. Sem corda no meu bloco. Sem carro-chefe. Sem ordem ao pessoal.
Sem lema nem divisa.
A gente não precisa que organizem nosso carnaval.

 

Por um bloco que derrube este coreto
por passistas à vontade que não dancem o minueto
por um bloco sem bandeira ou fingimento
que balance e abagunce o desfile e o julgamento
por um bloco que aumente o movimento
que sacuda e arrebente
o cordão de isolamento.

É o meu desejo pra nós nesse carnaval. Nos outros carnavais. Em todos os carnavais.

E não se engane: você vai saber de mim. No palco, na praça, no circo, num banco de jardim.
Você vai saber de mim.

 

 

Um livro como uma mulher

Tinha dito à Niara que não ia mais escrever sobre o livro. Afinal, a Fal (a Fal!) já tinha escrito o que precisava, aqui. E eu fico até meio sem graça de escrever depois dela. Mas aí bem tava com vontade. Porque o texto já tava meio andado na cabeça, sabe? Meio escrito. Gestado pela metade. Então vou.

O texto falava do livro da Rita, da Lu, da Joana, Contos do Poente, como uma mulher. Era esse o mote. Um livro como uma mulher. Que é meu jeito de ver o livro.

Uma mulher de cabelos soltos: cabelos livres. Cabelos se espalhando pra todo lado. Cabelos como a imagem da liberdade dessa mulher, talvez mais pra calada, às vezes meio contida: cabelos que desfiam histórias, que desenrolam novelos-vida. Cachos. Debaixo dos caracóis. Ah, Roberto. Tanta história pra contar. Mundos distantes. Soluços. Vontades.

A mulher é pintada em cores fortes, como os textos da Lu. E as cores não vou escolher, deixo pra vocês que estão lendo e imaginando. Cores de olhos, de cabelos, cores de braços, de tornozelos. Só digo uma coisa: o vestido dela era azul. Azul da cor do mar, azul da cor do céu. Azul é a rainha que nós vamos coroar. Contra-mestra. Azul.

No pescoço, um fino colar. Pérolas pequenas, quem sabe. Ou ainda um camafeu, preso com uma tira de veludo. Delicado e precioso como os textos da Rita. Precisas miçangas. Sutilezas. Bordados. Semeaduras. Doçuras. Como só a Rita sabe.

Mulher com brinco de pérola

Mulher com brinco de pérola

Depois tem as mãos, que se movimentam à medida em que ela conta histórias, que ela dança… as mãos que dançam também, que cantam. Os cabelos. Os olhos. Os meandros. Como os desenhos-riachos da Joana. Que acompanham a melodia, que complementam, que fazem parte do contar. Contar de rodas, de cirandas, de cantigas.

Um desenho da Joana, pescado no mar virtual

E essa história da mulher que era um livro, um livro de mulheres que se encontraram nesse mar virtual e que escreveram e desenharam esse livro de histórias de mulheres, acaba com um convite que é o meu. Porque já teve lançamento do livro em Fortaleza, em Floripa, vai ter em Sampa e, logo depois, aqui. No Rio. Na Livraria Folha Seca que é do amigo Rodrigo Ferrari mas é também patrimônio de todo mundo que gosta de livro. Uma livraria de quem gosta de livros: não tem lugar melhor pra lançar esse livro. Eu, pelo menos, acho que não tem. Do alto de toda minha isenção.
A Rita e a Lu vão estar lá, a Niara vai também, eu não perco por nada, e um monte de biscos e biscas tão chegando pra aparecer no lançamento que é festa. O Dodô prometeu aparecer pra contar umas histórias do livro, daquele jeito Dodô de ser que se vocês ainda não viram tem que ver. É lançamento, e encontro, é festa. É sábado que vem. Vai ser bem lindo, eu acho. Vocês, é claro, tão todos convidados. Por mim, que nem sou dona da festa, mas já me sinto. É da Rita, é da Lu, é da Joana que eu nem conheço mas já: é da gente, né? Bora lá?

Lançamento Rio

Visitando colônias em Marte, longe do casal blindado

Eu devia estar em Marte, possivelmente. Visitando as novas colônias. Só isso pode explicar o fato de que apenas ontem eu tenha sido apresentada ao casal que dá conselhos para “blindar o casamento”.

Ainda não me recuperei de todo.

Soube, depois, que o Casal Blindado é conhecido, que já virou (no singular, né, porque é “o casal”) celebridade, que tem um programa na TV.
Gente. Gente. Gente. Não só eles dizem essas coisas aí que eles dizem, mas tem pessoas pagando a eles para dizerem. O livro, parece, é um sucesso. Gente.

O Casal Blindado recomenda compartilhar o feicebúqui, excluir todos os ex, dar a senha para a “outra metade da laranja” – com o perdão da má palavra. Assegura que o ideal é que todos os amigos sejam amigos em comum. Vai o trecho, melhor do que qualquer paráfrase: “Obviamente, não é preciso abrir mão da liberdade, e todo casal que vive bem tem amigos — o ideal, porém, é que não sejam amigos exclusivos, mas sim amigos em comum, a fim de não gerar desconfianças.”

 A primeira observação, evidente, é que esse povo deve ter uma noção de liberdade no mínimo esdrúxula. Mais do que isso: a palavra “liberdade” entra aí como Pilatos no Credo. (aproveitando pra usar a expressão, que acho divertida. fecha parêntesis). Pega mal dizer que as pessoas têm que abrir mão da liberdade: mas é exatamente isso que os blindados tão dizendo, não é não? Num nível assustador de tão fusional? Dar senhas, compartilhar página em rede social, não ter amigos próprios? E quem decide quais são os amigos que permanecem? Quer dizer, quando você conhece alguém, se apaixona e tal, você já tem lá seu lote de amigos, não é verdade? A outra pessoa também. Aí o que é que faz? Cada um fica amigo de todos os amigos do outro (e quem disse que eles vão querer, não é mesmo)? Um dos dois joga seu lote de amigos no lixo? Os dois abandonam os “amigos prévios” e adquirem, a preço módico, um novo lote de amigos talhadinhos para serem amigos do casal? Só perguntando.

E o motivo? “A fim de não gerar desconfianças”. Acuma? Quer dizer que se você tem amigos próprios, se você não quer compartilhar suas senhas ou sua página em rede social, isso é motivo para desconfianças? Desconfiança de que? Ah, sim. Claro. Ela. Ela, a famigerada. Aquela-que-não-deve-ser-nomeada. Já escrevi sobre ela aqui, neste biscablog mesmo. Ali, eu, ingenuamente, dizia que “Amigo a gente compartilha, a gente apresenta aos outros amigos e torce pra que eles também fiquem amigos: entre amigos a gente confraterniza, se abraça, se agarra, se beija ladeira abaixo. Dança junto, bebe junto. Nas dores dos amigos, a gente chora junto. Amigos a gente ama. Ama, de verdade.” Foi mal, galera. Eu ainda não era possuidora da sabedoria blindada: achava que amigo a gente podia ter. Mas parece que não. Risco de desconfiança. Ah, tá.

E aí, vem a pergunta: depois de tudo isso, o que fica? Você foi lá, seguiu todas as regras, se desfez dos seus amigos exclusivos, compartilha redes e senhas, e o que sobrou? O que sobrou, não sei: sei o que não sobrou. Você. Você pessoa. Você com gostos, com vontades, com quereres só seus. Com dores, com história, com vida vivida. Com anseios, com dúvidas, com zonas cinzentas. Você, por quem a outra pessoa se apaixonou lá no começo da história. Se você seguir todas as dicas do casal blindado, uma coisa, acredito, é segura: você vai se perder de você. E não quero vaticinar nada, mas é possível que um dia você olhe para a outra pessoa e também não reconheça a pessoa por quem você se apaixonou. Que era uma. Que era única. Que era ela. Lindamente ela. Com todos os seus riscos e desafios. Com todo seu encanto de não ser você.

O que o casal blindado propõe, na sua distopia fusional, é a morte do eu e do você, nada menos do que isso. Só que não nota que essa morte acarreta, necessariamente, outra morte: a da paixão, do amor que é, necessariamente, amor ao diferente. Ao não-eu. Imprevisto, fugidio, doloroso às vezes. Aventura. E, sobre isso, sigo a sugestão da Fernanda M., que lembrou do preciso texto da Flávia Cera no Sopro n°94:

“Ama-se de corpo inteiro, mas esse corpo inteiro nunca é acessível porque é justamente no inapreensível do ser que está o amor. O amor nunca é completude e plenitude, a “sorte do amor tranqüilo” nunca chega. Ele não preenche, ao contrário, é a forma mais intensa de descobrir o vazio que nos estrutura. Amar não assegura nada, amando perde-se toda a consistência. Longe de toda posse e de qualquer idéia de fusão, o amor pode ser compreendido na soma e nunca na subtração ou na supressão das singularidades. Amar é projetar-se ao mundo, e não no outro. A tentativa de identificação máxima para justificar um encontro, que é sempre inesperado, é o que pode fazer desse amor uma burocracia tediosa. Quando se diz: “somos um só”, anula-se toda a diferença que sustenta o amor.”

Uma burocracia tediosa, diz a Flávia. E essa parece ser, sem tirar nem por, a proposta vendida a peso de ouro pelo casal blindado. Em palestras. Em livros. Em textos. Por cima, uma fina camada de chocolate-sabor-amor-verdadeiro: mas não se enganem. À primeira mordida, o miolo se revela. Em toda a plenitude do seu bolor. Que isso possa ser apresentado como sonho a ser conquistado, como meta de felicidade, me deixa sem palavras (ou quase, como se vê).  E, já que este post acaba sendo uma continuação, na ciranda, do anterior, fecho com o convite final daquele, que também serve para este aqui:

“Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.”

Caso, acaso, casal: espaços

Casa, caso, casal. Acasos. Casal, de novo. Casal há um tempo. E aí? Qual é a diferença? Dizia eu ontem que não gosto do começo de histórias amorosas: esse sufocar, essa taquicardia permanente, esse foco no outro que não cessa, essa febre. Essa doença. Vivo e mergulho, como febre, como doença. Mas espero ansiosa a hora de passar. De solidificar. De virar algo que dure. Que seja um namoro. Que seja uma amizade. Algo em geral vira, na minha história. Há, decerto, febres que dão e passam, deixando só uma lembrança, um leve sorriso no canto da boca. Mas são raras. Em geral se transformam. Desenevoam. Digievoluem. E viram o que hão de ser, o que estavam destinadas a ser. O que dura. O que fica. O que faz, de verdade, a matéria-vida.

Casal há um tempo: casa, casamento. E aí, me dizia alguém outro dia, num dos centros de filosofia de boteco que abundam pelas cariocas plagas: casamento é espaço. Relacionamento é espaço. E essa definição enganchou. Ficou na minha cabeça. Desde então ela vem e volta, ajudada pelos tempos passados à beira-mar. Espaço. Isso que a gente busca, isso que a gente almeja, isso pelo que a gente anseia, isso que é tão primordial e tão fugidio. Espaço. O meu, o seu, o nosso. Sempre disse que invejava essas personagens da Agatha Christie que moram em casarões onde há duas alas, a do marido e a da esposa. Eles se encontram à mesa do café, se encontram eventualmente no quarto de um, de outra. Mas têm seu espaço, sua sala de estar, seu banheiro separado (não sei se os da Agatha tinham mesmo banheiro separado, mas os do meu sonho têm, é claro. Banheiro separado é tudo).

Começa daí. Espaço físico. Espaço de ser sozinho. Não é briga, não é nada: só necessidade de se espalhar sem esbarrar em ninguém. Lembro do Karydakis, saudoso e querido mestre, dizendo com aquele olhar de maio de 68, cigarro nos dedos: “casamento com amor é uma instituição burguesa, e quarto junto foi o jeito que a burguesia encontrou pra fechar as contas. Nos tempos medievais ninguém tinha essa veleidade de misturar casamento com amor: casamento tinha a ver com patrimônio e convenções, amor era outra coisa, amantes faziam parte da vida e da história.” Bom, não foi exatamente assim que ele disse, mas acho que a essência está aí. Eu tinha uns dezesseis anos e sorvia a largos goles tudo o que ele dizia. Essa fala aí encontrou ressonância, me cutucou, me desafiou: nunca mais esqueci. Espaço de ser sozinho, instituição burguesa, conveniência do amor romântico associado ao casamento….

Depois, bem depois, li o psicanalista Jurandir Freire Costa falando disso: “Sem Fraude Nem Favor“, que tem como subtítulo “Estudo sobre o Amor Romântico”. E ressoou de novo. Casamento: “O Submarino”, que é feito pra afundar, embora possa se manter na superfície, na peça do Miguel Falabella e da Maria Carmem Barbosa. Muita pressão, né. Muita demanda. O que tem a ver pagar contas, organizar casa, administrar filhos (não “amar” filhos, atenção: estou falando de administrar mesmo – resolver comida, pagar escola, levar, buscar, dizer não, estipular horários e regras), com amar alguém? Tem a ver? Combina? Faz parte? Está associado? Ou estraga, destrói, dificulta, impede? Ou, ainda, é uma corda bamba permanente, equilibrar-se entre manter o tesão e o afeto e fazer a empresa-casamento funcionar? Balanço, cuidado, um pé na frente do outro, atenção, braços abertos, olhar focado que é pra não despencar lá de cima. Eita, que difícil.

Acaso: aquilo em que a gente tropeça sem querer. “Você, raio humano, caiu na minha cabeça”. E aí? O acaso acasa, casualmente, e a gente embarca ou não. O “ou não” sempre é possibilidade. Ponderação. Mais corda bamba. Ao comer um quilo de sal com alguém, há que se prever a ocorrência de acasos. De eventuais raios humanos. Fazer o quê. É sinal de vida vivida. De que não se está trancado no armário, no tupperware, se deixando enrugar e ressecar. Viva. Viva a vida. Risco. Inevitável. Faz parte. E aí?

Aí é isso. Acho que o “embarcar ou não”, que tem a ver com o que se vai fazer (viver) depois, é quase menos importante. Quase menos importante do que reconhecer. Do que acolher. Do que não se deixar tolher pela culpa, pelo “pecado” de se encantar, de se deixar brilhar, de se enredar e de deixar a alma alçar vôos inesperados. No tempo em que casamentos não se desfaziam, talvez isso fosse mais claro: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Casamento. Paixões. Amores, quiçá. O que não quer dizer, vejam bem, que não haja amor no casamento. Mas quem disse que não acontecia? Que o encanto, que o enlevo, que o embarque… dependia de não haver mais ninguém ali? Sentimento, acho, é generoso: quanto mais tem, mais terá. Agora: isso é diferente do que se faz, e não é disso que eu queria falar. E sim do espaço, de novo. Do espaço pra sentir, do espaço pra sonhar, do espaço de cada um, do respeito. Do respeito. Do respeito. Porque o que me encanta na geografia dos amores-amizades é justamente isso: o não ser dono, o estar aberto e solto ao sempre cabe mais um à beira da fogueira, na roda de violão. Dá pra botar mais água no feijão, encher de novo a cuia de chimarrão, dá pra abrir espaço na roda. Amor bonito esse que abre espaço na roda.

Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.

Dia de memória biscate

#MemóriaBiscate #2anosBiscateSC

Do filme “Colcha de Retalhos”. Um filme biscate.

Hoje é dia de memória biscate. E memórias a gente – já – tem muitas, com apenas dois anos. Dois anos de desconstrução e de ressignificação do termo “biscate”, do seu conteúdo, dois anos de afirmação de luta à base de gargalhadas, de copos, de abraços, de choros também, de dores. Falando de comidas gostosas, que a gente também é disso. De futebol, como não. De sexo, todo dia e sempre. Falando e fazendo, quando dá. Ou não, porque tem períodos em que não. Questionando idéias prontas, transformando idéias feitas, questionando, rediscutindo, mudando de posição (que sempre é bom mudar de posição de vez em quando, já nos ensinava o Kama Sutra). Solidificando afetos, que isso também o biscate faz, todo dia. Nosso clubinho só cresce, e se alegra com seus novos integrantes. Com visitantes ocasionais. Com viajantes que passam pra dar um alô. Biscate acolhe, abraça, dá espaço. Clubinho gostoso esse nosso clubinho.

Saboroso, sacana, moleque, maroto, dançarino. Pairando, saltando, roçando, encostando, sentindo, provando, esfregando, gostando, doendo, chorando, abraçando,  acarinhando, gostando de novo. Lembrando.

Lembrando aqui de tanto caminho desde que a Niara e a Luciana tiveram a idéia de criar um blog pra se contrapor à ideia feita, pronta, difundida de que “mais vale uma mulher “incrível do que uma coleção de biscates”. Um blog que diz ao se apresentar: “Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.”   Parece simples? Parece fácil? Pois é luta de todo dia, nesse mundão de meu deus em que tantas mulheres não conseguem sair de casa sem autorização do marido ou do pai; não conseguem usar a roupa que querem, namorar a pessoa que querem, dançar no passo que desejam, cantar a melodia que lhes apraz. O Biscate é um espaço, que a cada dia reafirma a necessidade de estar e de dizer. De dizer contra quem machuca. Às vezes com palavras que parecem pequenas e simples. Que parecem quase nada. E escondem tanto. A gente precisa dizer muito, dizer sempre, dizer de novo.

Viva o Biscate. Longa vida ao Biscate. Que venham muitos textos, muitas fotos, muitos encontros, que a rede que a gente tece vá ficando cada vez maior, que os fios cheguem em mais lugares, que venha mais gente conversar e pensar junto e gargalhar e cair no choro e dançar com a gente, até que a gente possa, um dia – quem sabe? -, esquecer que o Biscate surgiu porque tinha gente que achava que uma “mulher incrível”  vale mais do que  uma penca de biscates. Um dia em que essa afirmação não faça mais nenhum sentido. Porque, é claro, biscates são mulheres incríveis. Desculpaê. Mas é isso, eu tinha que dizer, né?

 

 

A intimidade de uma lua no ascendente

“Intimidade é bem-vinda, não só de namorados”, disse ela, e foi como um eco dos meus próprios pensamentos. Eu já andava mesmo pensando em escrever algo sobre isso; em outro lugar, disse: “ou é com intimidade ou não será”. Não falava especificamente de relações amorosas – falava da vida. Das relações em geral. De um certo jeito de ser. Traduzia, de certa forma, minha lua ascendente: minha forma de chegar, minha “porta de entrada”, meu caminho nas relações é pelo viés da conquista de intimidade. É nisso que eu acho graça, é disso que gosto de brincar. Desde sempre. É esse meu desafio.

Intimidade implica uma certa sem-cerimônia, para além das convenções, e talvez por isso eu tenha ficado amiga de tantos professsores ao longo da vida – a distância protocolar da sala de aula nunca serviu pra mim. Talvez por isso é que eu diga – meio como provocação, mas sem deixar de ser verdade – que não gosto de casais. Gosto de pessoas que formam casais, eventualmente. De um, de outro, dos dois. Mas de um casal não dá pra ser íntimo, não é mesmo? De um casal-entidade, digo. Sabe, daqueles casais-simbiose, daqueles casais fusionais. Sempre juntos, com jeito e opinião coletiva. Dá pra ser íntimo de um, de outro: não do conjunto formado. Intimidade implica olho no olho. Difícil se são mais do que dois pares de olhos.

Intimidade: poder ficar em silêncio sem ficar estranho (e como dizê-lo sem lembrar dessa lindeza aqui?). Intimidade: rir sem precisar explicar, olhar sem precisar explicar – apenas levantando de leve as sobrancelhas. Intimidade: não precisar explicar.

É isso que me encanta, que me atrai, que me dá tesão: o cintilar do deus das pequenas coisas por trás dos gestos cotidianos. Paixão? Arrebatamento? Fogo consumindo? Por certo, como não. Mas o que completa, o que engancha, o que me pega mesmo é o presente que eu sei que foi pra mim, por alguém que tão bem me conhece. É o sentar no chão e compartilhar lembranças e dores, o deitar no colo porque o colo tá ali e fica fácil; é fumar um cigarro juntos, quietamente, cada um imerso em seus próprios submundos, olhando a fumaça traçar desenhos improváveis. É o “vi isso e lembrei de você”, “achei que você ia gostar” de ver, de saber, de provar, de ouvir.

Intimidade: delícia. Suave e envolvente. Cálida e aconchegante. Sopa morninha. Travesseiro. Esteio. Beira de rio. Caminho.
Intimidade: quem me conhece sabe. Ou saberá, quem sabe.

A violência contra a mulher e os homens de bem

“É preciso fazer tudo ao contrário”, diz a Camila Pavanelli neste texto que é sobre outro assunto, mas é também sobre o nosso aqui. O nosso aqui: a violência contra a mulher.
Dados e dados sobre isso: deixo o link de um texto do IPEA. Do qual destaco o seguinte:

No Brasil, no período de 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios, o que equivale a, aproximadamente, 5.000 mortes por ano. Acredita-se que grande parte destes óbitos foram decorrentes de violência doméstica e familiar contra a mulher, uma vez que aproximadamente um terço deles tiveram o domicílio como local de ocorrência.

O mesmo texto ressalta que estima-se em 40% o percentual mundial de assassinatos de mulheres cujo responsável foi alguém próximo. Alguém íntimo. Um namorado, um marido, um irmão, um pai. Não um estranho, um desconhecido, um psicopata: alguém que estava ali, todo dia, que tomava café, que dormia junto, que via a Maria, a Luísa, a Joana no dia-a-dia. Que a via andar, rir, ter vontades. Sair, se arrumar, cuidar dos filhos. Alguém que a conhecia tão de pertinho.

Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.

Gente de bem. Homens de bem. Homens que não acham nada de mais em chamar a própria mulher de “patroa” ou de “dona encrenca”. Que acreditam ser razoável saber onde ela está, a cada minuto. Que, quando são generosos, deixam-nas ir ao salão sozinhas, ou encontrar as amigas no bingo da igreja. Desde que voltem na hora. Desde que deixem a comida pronta, a casa arrumada, a roupa lavada. (“Eu disse SE”, disse a madrasta da Cinderela.). Que podem fazer faculdade, desde que usem roupas decentes.
Que podem até participar da conversa, desde que falem baixo. Desde que se comportem. Desde que não façam muita bagunça.

Os mais avançados até toleram feministas, vejam vocês. Desde que sejam “feministas de fino trato”, na precisa denominação do Paulo Cândido na segunda parte desse post aqui. Que falem, mas sem perder a elegância. Reivindicações? Questionamentos? Ah, tão bonitinhas, elas. Olha que gracinha. Meu benzinho, querida, meu doce de coco, você fica tão fofa falando assim, as bochechas vermelhas, a voz inflamada. Tá, tá bom. Passou, passou. Agora muda o canal aí que tá na hora do jogo. Cê lembrou de botar minha cerveja pra gelar?

“É preciso fazer tudo ao contrário”, diz ela. Digo eu. Desde o começo. Ninguém nasce assassino de mulheres. Essa doença é da sociedade. Começa com um leve desprezo. Começa com um sutil segundo lugar. Começa com um acreditar que se tem direitos sobre o corpo de outrem. Começa com um “prenda suas cabras que meu bode está solto”. Começa com a facilidade de dizer, na hora do sexo, “fica de costas que eu não quero ficar olhando pra tua cara”. Começa com um “se não queria, não era pra ter vindo até aqui”. Não era pra ter sorrido. Não era pra ter me dado bola. Não era pra ter ficado de bunda de fora, usado salto alto de “fuck me”. Não era pra ter ido até o quarto. Não era pra ter namorado comigo, ficado comigo, casado comigo. Não era pra ter desonrado a família, sujado o nome que carrega. Não era pra ter bebido. Não era pra ter olhado pra outro, sorrido pra outro, dado bola pra outro. Não era.

Não, essa história não começa com assassinos: começa com homens de bem. E é deles, é com eles, que a gente tem que falar.

Uma homenagem como uma flor

E, numa semana de tantas discussões, debates e confusões, de tanta energia gerada e dissipada, de tanto grito não-ouvido, eu queria deixar uma homenagem e evocar uma memória. Uma homenagem como uma flor branca à beira mar. Pousada na espuma. A flor branca, como homenagem, vai pra um guerreiro suave. Que já foi pra outras aventuras. Um guerreiro que tava aí na luta, com persistência, com teimosia, com garra sempre. Um guerreiro-caranguejo, como seu signo ascendente, que sabia andar de viés. Sabia parar, sabia ouvir, tentar entender as razões do outro, pra fazer uma pausa e voltar então por outro caminho, com novas palavras que cabiam melhor, que seriam mais bem acolhidas. Que seriam ouvidas, talvez.

Um cara que sabia que esperar não é desistir, se a vontade existe. Se a confiança no caminho existe. Sabia que há adversários e adversários, e que nem sempre a confrontação direta é o melhor jeito. Até porque certos adversários nem sabem que são adversários: muitas vezes crêem, ingenuamente, estar do mesmo lado que a gente. E até querem estar. Só que por força das circunstâncias, pelo olhar sobre o mundo a que foram acostumados, pelo ângulo da janela onde estavam, por tantos motivos, tantos, atrasam a luta em vez de fazê-la avançar.  E aí? O que fazer? Descartar? Confrontar?

“O malandro anda assim de viés”. Come pelas beiradas. Escuta as razões e os sentimentos. Presta atenção na intenção. E na intenção é que foca pra ir além. Porque a resposta pode estar errada, pode não ser a ideal nem a que a gente queria: mas o que era que se estava tentando dizer? Ele recomeçava devagar, argumentava com voz mansa, dava exemplos, movia os dedos longos enquanto tentava explicar da melhor forma, com imagens, com histórias. Generosidade na luta é entender que nem todo mundo chegou onde você chegou, e isso ele tinha de sobra. Tem hora que é preciso parar, dar um calço, botar um apoio pra que os outros venham também. Os outros, e alguns daqueles a quem a gente chama de adversários. Que não o são necessariamente. Há que respirar, há que incorporar olhares e contares, sem perder o foco de vista. É ali que a gente quer chegar: qual é a parte do caminho que dá pra gente fazer juntos? Qual a sua bagagem, quais as suas dores, quais as suas esperanças? Essas as perguntas que importam, que devagar também é pressa.
E ele sabia.

Fica a flor, fica a beira-mar, a saudade dos dedos longos, da fala mansa, da generosidade. Fica a evocação, pra que nos ajude na caminhada. Que ainda é longa. Que ainda será.

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