Sobre Renata Lins

A única da família que não recebe peru do Dr. Roberto.

Uma situação intolerável

Eu odiava esse corpo que procurava me ditar sua vontade, que não era a minha. Era igualmente deprimente ter que agir sem nenhuma informação, sem auxílio médico, reduzida às receitas de bruxas, aos remédios das comadres, alguns dos quais datando da Antiguidade: o aborto era o ato mais secreto, porém o mais disseminado da história das mulheres.
(Benoîte Groult, Minha Fuga)

O relato de Benoîte Groult se passa na França do pós-guerra, quando o aborto ainda era proibido por lá. Mas bem poderia ser no Brasil de hoje. Na França, comemoram-se este ano 40 anos de aborto legal, como conta esse texto da professora Lena Lavinas:

Dentre as maiores conquistas do pós-68 na França, sem dúvida o direito ao aborto livre e seguro foi das mais extraordinárias e incontestes. Contemplou a todas as mulheres que puderam, assim, romper a solidão e a clandestinidade, o medo e a vergonha, para expressar seu direito individual e inalienável de escolha.

As duas citações deixam claro o componente de direito envolvido na questão: como dizer, de verdade, que as mulheres são iguais aos homens, sem anticoncepcionais, sem a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez e sem estruturas de apoio à criação das crianças (creches e escolas integrais e públicas)? Direito ao aborto seguro, direito a creches e escolas públicas para as crianças: parecem antitéticos, e no entanto são duas pontas do mesmo quadro. Duas pontas fundamentais para garantir às mulheres o mesmo direito que têm os homens. E, portanto, fundamentais para a estruturação de uma democracia substantiva.

Enquanto na França se comemoram os 40 anos da Lei Veil, no Brasil, a situação é cada vez mais grave: mulheres continuam morrendo todo dia por abortos malfeitos. E, se sobreviverem, são criminalizadas. Não há números confiáveis, mas uma certeza: são muitas. São demais. Mortes desnecessárias. Mortes por descaso. Por indiferença. Pela hipocrisia que salva supostas “vidas” abstratas e, concretamente, mata gente. Porque o Estado supostamente laico não leva sua laicidade até a defesa da vida das mulheres. Porque a presidenta, a nossa primeira presidenta mulher, recuou o quanto pôde na pauta “sensível”. Porque existe (ainda) uma Secretaria de Políticas para a Mulher cuja titular defendia, como cidadã, o direito das mulheres ao aborto , mas não consegue fazê-lo como representante do governo.

Esse estado das coisas mantém a mulher no Brasil como cidadã de segunda categoria, não importa o que digam. E, evidentemente, a mulher pobre é a que sofre mais com essa situação, já que para quem tem dinheiro acaba sempre existindo algum “jeitinho”. É lamentável que, tanto tempo depois do final da ditadura, a gente continue vivendo a situação que tão bem descreve Benôite Groult: a das mulheres aprisionadas em seus próprios corpos. Reféns dos corpos e dos desejos. Correndo risco, todo dia.

Por trás de uma piada tem alguém descascando as batatas

Não acho a menor graça em piadas que mostram a mulher como a única pessoa que sabe o que se deve fazer na casa, e o marido como aquele bobalhão que precisa de instruções detalhadas e ainda se engana.

Isso me ocorreu por conta de uma imagem supostamente “engraçadinha”, que tratava do tema e circulou pelo meu feicebuque há um tempinho:

Cara, que cansaço me deu isso. A mulher pede para o sujeito descascar as batatas e colocar no fogo “para mim”. Claro, né. Ela é que faz a comida, sempre. Naquele dia, pede um favor para o marido. Algo que não faz parte das suas tarefas habituais: afinal, quem faz a comida é ela. Mesmo assim, o cara não tem ideia do que está fazendo, como fica óbvio pela imagem.

Qual é a graça mesmo? Um homem adulto, com as faculdades mentais perfeitas, não ter ideia do que faz quando entra na cozinha é engraçado? Cês juram? A mim me dá uma certa pena. Não ter ideia do que fazer na cozinha significa que você jamais precisou fazer comida para si mesmo. OK, você pode comprar comida pronta. Sempre. Se (pequeno “se”) tiver dinheiro para isso. Mas fica parecendo “bonito” um homem que não sabe nem por onde começar. Reafirma espaços: à rainha do lar – que tantas vezes só faz dar ordens para outra que não é rainha daquele lar ali -, o saber da cozinha; ao homem da casa, o provedor, o cuidador, o espaço lá fora. O trabalho duro, o dinheiro que traz para casa.

Não importa que a mulher trabalhe fora de casa também, que ela volte para a segunda jornada enquanto o homem-supostamente-provedor vai se sentar na frente da TV, tomar a merecida cervejinha, descansar das agruras do dia de serviço.  Não importa que, no Brasil, o percentual de mulheres chefes de família já chegue a quase 40%: entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda. Mantenha-se a piada. Junto com o que está nos bastidores da piada: quem cuida da casa é a mulher, quem provê para a casa é o homem, segundo a regra desse jogo. No  caso raro em que o homem vai se atrever a fazer tarefas domésticas, mete os pés pelas mãos. Fica tudo como está, pois. Tadinho, ele nem sabe fazer, ou ele faz errado, ou faz devagar, ou não faz do meu jeito. Deixa que eu cuido disso: de arrumar as crianças, de preparar a comida da família. O jogo tá mantido, assim como o futebol aos domingos. Às mulheres, as batatas.

A quem pertence a história

Aí o moço olhou pra mim meio de lado e disse: “eu estou me sentindo responsável por você ter terminado com ele”.

Eu tomei um susto. Como assim “responsável”?

Amigo, isso não tá na sua conta. Isso não tem nada a ver com você. Você, por acaso, passou por ali na hora em que isso estava acontecendo. “Isso”: aquela história, minha e do outro cara, estar acabando. A história era minha e do cara, não sua. Onde é que você podia ter alguma responsabilidade nela?

Ah, porque eu olhei pra você, porque me interessei por você? Mas isso é outra história, não vê? Essa é – ou seria – a minha com você. Que nem é história, vai: é um encanto. Como é que algo assim tão aleatório poderia me fazer terminar uma relação de anos? Claro que não. Sinto informar, seu ego talvez sofra um baque: você não é tão importante assim.

Ninguém é tão importante assim. As histórias acabam porque acabam, e às vezes a gente acha mais confortável responsabilizar um terceiro pelo fim delas. Mas nunca é verdade: no máximo, é coincidência.

As histórias pertencem única e exclusivamente aos envolvidos na história: e se há histórias com mais de duas pessoas, é que há relações que envolvem mais de duas pessoas. Caso contrário, ora, não. A história é das duas pessoas que nela estão. E, se acabar, é por motivos que dizem respeito exclusivamente a elas.

Ou você acha mesmo que foi a sua aparição loira-de-olhos-azuis que virou minha vida pelo avesso? Isso aí se chama catalisador, não vê? Apenas algo que acelera a velocidade de uma reação. A reação, ela, já iria acontecer de qualquer forma. Tava previsto. Tava contado. Tava escrito na própria história. E nem é que “não tenha dado certo” a história: deu, ué. Deu certo pelo tempo que deu. Esse era o tempinho dela. Encontro-coreografia-afastamento: no compasso. Ao som da cuíca.

Você? Ah, gostei de te encontrar também. Até porque me ajudou a ver algumas coisas mais claro. Até porque me mostrou que eu já devia ter pegado a mochila e seguido caminho. Mas “responsável”? Sinceramente, não mesmo. Pode ficar tranquilo. Relaxado. Aliviado. Não teve nada a ver com você. Era minha a história. Minha e do cara lá. Era e continua sendo, até seu final.

Mesmo que pra alguém seja mais confortável acreditar que tudo teve a ver com uma aparição loira e um encantamento.

 FimdeCaso

Eu daria pra você

Cara leitora, vim aqui contar de  uma ideia antiga, à espera de execução, que tem a forma de um cartão de visitas. Um cartão de visitas bonito, em que estaria escrito apenas:

Eu daria para você.
Fulana – contato: xxx@xxxx/tel: xxxxxxxx

Só isso. Ou, melhor ainda, sem e-mail ou telefone. Apenas a afirmação de que, se algum dia acontecesse, se pintasse, se rolasse a oportunidade, a ocasião, os dois assim de bobeira, um tempo conveniente… bem, eu daria pra você. Não precisa perguntar, não precisa ficar na dúvida, não precisa hesitar.

O que, cara leitora, parece pouco romântico? Bem, não é para ser romântico mesmo. Tenho pra mim que a disseminada ideia de que qualquer relação digna desse nome deva ter algum toque disso aí que chamam de “romantismo” (atenção às aspas) é mais furada do que secador de macarrão. Mais esquisita do que botar o dito secador na cabeça e fundar uma seita. E a fonte de tantos desnecessários sofrimentos. Uma confusão sem fim. Um equívoco da cabeça aos pés.

Porque, veja bem, cara leitora, não estou falando de nada que vá além de uma relação sexual. Limita? Ué, por quê? Caso você goste, caso a outra pessoa goste, não seria possível repetir, de novo e de novo, até que isso aí se chame uma relação? Podendo inclusive prosseguir até que alguém abra a gaveta da cozinha e encontre ali um descaroçador de azeitonas – quando então se descobrirá casado?

Por outro lado, caso seja ótimo mas seja isso mesmo, tá tudo certo: cada um vai pro seu lado, saciado, satisfeito, sem demandas fora de hora, sem incertezas incômodas. Era isso, foi isso. Foi ótimo. Eu daria pra você, eu dei pra você. Que delícia. Que alívio.

(suspiro)

Ah, o cartão de visitas? Por que não no feice, por que não no tuíter, no zap e coisa e tal? Ora, cada um com seu jeito, né? Eu sou assim, antiquada. Gosto da imagem do cartão de visitas. Porque é físico, em primeiro lugar: papel, textura, cor, impressão, fonte. Uns envelopinhos, talvez? Escritos à mão e depois impressos, com sua própria letra? Pode ser, tem tantas possibilidades. Lindezas. Só de pensar, já fico com água na boca. Adoro artigos de papelaria desde que me entendo por gente.

Tem também outro motivo, porém: é que desobriga. Você nem precisa entregar pessoalmente: pede pro garçom. Deixa na caixa postal, e acrescenta a lápis: “Fulana, do 702”. Larga em cima da mesa da pessoa, no trabalho. E pronto. Tá dito. Acabou. Não precisa mais ter angústia quanto a isso: daria. Daria, mas talvez não dê, porque sua situação tá complicada, porque a minha é, porque agora a gente tá sem tempo, nunca apareceu uma chance, um momento bom pra introduzir, por assim dizer, o assunto…. mas caso role, se acontecer, quando a gente puder, quem sabe um dia: daria.

E não é nem um “a bola agora está no teu campo”: não tem bola em jogo, não nessa hora. A bola tá no ar, flutua, vagueia, desliza. Não é questão de bola. Porque não precisa ser agora, não tem urgência nem ansiedade, essa a beleza da coisa. É assim, se um dia… eu daria.

CartaoVisita

“Amores Livres”: escolhas possíveis

Woodstock, 1970

Woodstock, 1970

O GNT começou a passar, esta semana, uma série documental sobre arranjos não-convencionais de relacionamentos, chamada “Amores Livres”, com direção de João Jardim. Mais especificamente, sobre o chamado poliamor: relacionamentos amorosos em que estão envolvidas mais de duas pessoas.

É um sopro de ar fresco na mesmice dessas conversas: quase 50 anos depois de Woodstock e seus eflúvios, parece que o mundo entrou em uma espiral de convencionalismo em que tudo a que se aspira é casar com aliança no dedo.

(Parêntesis necessário: aqui não vai nenhuma crítica à reivindicação justa do movimento LGBT pelo direito ao casamento “de papel passado”: direitos iguais é ponto de partida e condição sine qua non para qualquer conversa.)

Dá certa preguiça o recrudescimento dos casamentos com pompa e circunstância, e até da quase moribunda instituição do noivado. Noivado? Juram? No tempo da minha mãe, tinha uma utilidade clara: noivos podiam sair juntos sem uma irmã ou prima “de vela”, supervisionando o casal. Era um avanço, sem dúvida nenhuma. Mas hoje? Pra que noivado, minha gente? Não consigo nem começar a imaginar. Sério.

E casamento? Gosto de festa, gosto de cerimônias e até choro em casamentos alheios. De verdade. Mas a instituição…. eu preferia que caminhasse para o seu fim. Para que a gente já tivesse avançado (ou retrocedido) para um mundo mais tribal, em que crianças fossem cuidadas pela comunidade e não só pelo núcleo familiar mínimo, em que os idosos também fizessem parte de um todo, em que as relações amorosas estivessem menos permeadas de contratos de propriedade.

É claro que, dentro desse contexto de capitalismo cada vez mais agudo, cada vez mais selvagem, não ia acontecer. Claro. Os usos e costumes não são independentes do contexto geral, e o contexto geral é de individualismo avassalador. Dois já é muito, imagina vários? Imagina a comunidade em Mauá ou em São Miguel do Gostoso?  Imagina o todo-mundo-com-todo-mundo, quando for, quando rolar, e por que não, e talvez quem sabe…? Ah, mas aí não dá. Pra quem vou deixar meu apê, meu carro, minhas aplicações? Quem serão meus herdeiros, quem carregará meu nome, quem lustrará o brasão da família? Muita bagunça isso aí. Vamos namorar, noivar, casar, tudo comme il faut que fica mais organizado. Mais fácil de administrar. Peixoto, o contador, agradece.

Nesse mundo de escolha única, que bom que tem o programa do GNT, mostrando com um olhar generoso, deixando que as pessoas contem sua história, suas alegrias, que tragam à baila seus conflitos e suas dúvidas com essa escolha não-convencional que é de se relacionar a vários.

E como isso incomoda, parece. No primeiro programa, várias vezes se fala disso: da repreensão alheia, das brigas com pais, das gentes que se acham no direito de se meter e de dar palpite onde não foram chamadas. As escolhas alheias perturbam. Mostram possibilidades que tantas vezes seria mais cômodo achar que não existem. Abrem espaço para o novo, para o diferente, para o inesperado. Deixam perguntas sem respostas, vislumbres de caminhos que, por serem menos percorridos, nem por isso deixam de estar aí, à espera. De quem queira. De quem ouse. De quem procure.

http://gnt.globo.com/series/amores-livres/videos/4273134.htm

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

gato-de-alice

Tia Sônia e o tio Alzha

É tia Sônia primeiro: irmã do meu pai e também minha madrinha. Tia Sônia de luta: presa e torturada pela ditadura. Tem um video da Comissão de Anistia em que ela dá depoimento, e assim fala sobre a cadeia e a tortura: “Eu dizia: eu não vou morrer. Eu nasci para ser feliz e é assim que eu vou viver.”

E assim foi. Tia Sônia de olhos verdes brilhantes, de risada pronta. De ideias incríveis e inusitadas. Ela me ensinou a comer comida japonesa, a usar os pauzinhos. E a olhar pro mundo de outro jeito. Um jeito mais aberto, mais solidário, mais generoso. Um jeito que eu tento guardar e manter. Um jeito que foi presente da minha tia-fada madrinha.

Elas (minha tia e Pilar, sua companheira da vida toda) tinham um laboratório de fotografia em um banheiro, certa época. Fotos: muito parte da vida. E a gente, criança, ia para lá e se encantava ao ver as imagens aparecendo, se formando, se fixando à medida em que o papel era mergulhado nos diferentes líquidos da revelação. Fotos, viagens. Outras formas de olhar.

Paris na casa delas, nos tempos da ditadura. Primos, risadas, bagunça. A gente podia. A gente falava, a gente fazia com elas. A gente era sujeito, e assim se sentia. Tia Sônia de tanta vida. De tanta vida feliz, como ela tinha dito que seria.

O tio Alzha. Insidioso, foi chegando. A gente reconheceu bastante rápido, porque minha avó já tinha sido visitada por ele. E, embora fosse diferente, era a mesma coisa. O tio Alzha – essa doença cruel que é o Alzheimer, que eu chamo assim na minha cabeça pra tirar as garras dele – chegou pra ficar, como de hábito. E hoje, dez anos depois, reina absoluto. Os olhos brilhantes permanecem, a risada. Mas não há mais sentido nem nexo nas conversas. As conversas são como rios: a gente entra no fluxo e vai indo.

 Vou lá duas vezes por semana, há mais de um ano. Nosso trajeto é sempre o mesmo: a gente sai da casa delas, passeia pelo calçadão e vai até a casa da minha mãe. Lá a gente fica, a gente conversa, vê TV, lancha. E volta caminhando. E conversando.

De vez em quando, me dá vontade de gravar uma das nossas conversas. Pra dar ideia. Porque a gente conversa mesmo, o tempo todo: não é porque as palavras não fazem mais nexo que não há nexo na conversa. Quem já conversou com bebê pequeno (e eu adoro fazer isso) sabe: há nexo na emoção, na intenção. Assim é com tia Sônia. Ela come algo de que gosta, dá um sorriso e diz: “lindo!”. E a gente entende que ela gostou.

Às vezes, começa a contar uma coisa e vai se irritando sozinha: “então eles vieram e fizeram e foi tudo uma merda e eu mandei para a puta que pariu”…. (os palavrões sempre estiveram no vocabulário: não são da doença. São dela mesma). Eu escuto, concordo com a cabeça e arremato: “mas aí você explicou para eles, não foi? E resolveu?”. Em geral ela aceita. Foi isso mesmo. Ela explicou, e no final deu tudo certo. Se acalma.

Aprendo com tia Sônia, ainda e de novo, a olhar o mundo de um jeito diferente. A entender que o tio Alzha está aí, mas minha tia, aquela da vida toda, também está. O desafio é a gente conseguir estar juntas sem o suporte tão confortável da lógica racional. Puta desafio. Mas a gente vai navegando.

E, de vez em quando, ela dá aquele sorrisão, segura na minha mão e diz, confiante: “você é minha.” Sou mesmo, tia. Tá certo. Bora lá. Convivendo com o tio Alzha, como dá. O amor insiste e resiste. Fresta. E quem disse que era racional?

SoniaPilar

Sônia e Pilar. Vida.

Sete Vidas e o estreito lugar do masculino

Acabou ontem uma das melhores novelas dos últimos tempos: Sete Vidas, que contava a história de sete irmãos biológicos e do seu pai, o doador anônimo que acabou sendo descoberto e vendo ser construída, em torno de si, uma improvável família.

Na esteira do final da novela, Nilson Xavier publicou um comentário elogioso, falando da produção, dos temas delicados abordados, dos personagens bem construídos. Mas fez a seguinte ressalva:

Aqui cabe apenas uma crítica à autora, algo já percebido em “A Vida da Gente”. Seus dramas são universais e acometem todos os gêneros, mas percebe-se um maior afinco de Lícia ao retratar personagens femininas em detrimento aos masculinos, em sua maioria reconhecidos como fracos, emocionalmente imaturos e/ou dependentes, ou mesmo “bananas”.

Bem, para quem não viu a novela, a primeira observação é que não é da falta de personagens masculinos que ele está falando. Dos sete personagens que acreditavam ser filhos de Miguel  – uma, Julia, depois descobre que na verdade não era -, cinco são homens. Some-se a isso o próprio Miguel, Lauro, seu melhor amigo, Vicente, namorado de Lígia, e seu irmão Arthur, Eriberto e, agora perto do final, Renan. Uma profusão de personagens homens. Do que será que estaria falando Nilson então?

Ele menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? O personagem de Eriberto ainda vai, porque afinal se debate com a própria ideia de masculinidade tradicional, e, a partir de conversas e reflexões sobre si próprio,  acaba se declarando a Renan, mas os outros?

Aliás, assistindo a novela e antes de me deixar encantar completamente pelo Eriberto, me incomodei foi com esse clichezão mais uma vez repetido: se o homem é frágil, sensível, gosta de música clássica, de arte, bem… não é um homem-masculino. E há de ter uma orientação sexual compatível com esses gostos tão pouco de “homem-homem”. (É verdade que à luz desse critério poucos parisienses passariam no teste de homem-homem, mas fazer o quê, é outra cultura. Eles são diferentes, lá pode. E lá vai clichezão. Mas isso é outra conversa ainda. Voltemos).

Nilson Xavier ainda complementa:

Entende-se que a audiência da novela das seis é – em teoria – predominantemente feminina. Mas já que o estilo da autora é naturalista, uma melhor dosagem caberia bem, sem desmerecer nenhum gênero.

Atenção para o termo usado: sem “desmerecer” nenhum gênero, diz o autor. Quer dizer, novamente: personagens masculinos sensíveis, confusos, complexos seriam uma forma de “desmerecer” o gênero, que, afinal, deve ser merecedor de respeito.

Parece um comentário tão pequeno, quase à toa. Mas enganchou na minha cabeça, de tanto que reflete bem a estreita caixinha onde se guarda o que é considerado masculino. Em outro texto, já falei disso. Como é difícil se manter dentro desses limites do que é aceito como masculino. Como  características de homem-homem. O texto era sobre o feminino, mas lá pelo meio tem esse parágrafo:

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

 Em outro canto ainda, falando de ter filhos meninos, e das dificuldades com que me deparava, escrevi sobre a construção dessa imagem do masculino ainda na infância, da preparação dos meninos para serem homens-homens e do que isso implicava:

Porque é aí que começa tudo: as meninas sonham com vestidos de princesas e com o beijo do príncipe. Os meninos…tadinhos. Dão pra eles bolas, armas, carros. Carros. Caraca. Que coisa mais sem graça. Eu acho. Armas. Aqui em casa era vetado. Mas é comum, né. Bolas. Ok. Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Por que não? Por que não a gente pensar em educar meninos diferente, em abrir espaços novos, em deixá-los ser, e brincar de boneca, de panelinha, do que quiserem? Por que não entender que personagens masculinos angustiados, sofridos, confusos, inseguros são, sim, homens-homens, não precisam ser uma desvalorização dos homens e talvez sejam, ao contrário, uma revalorização? Um mostrar que é possível ser homem e sair um pouco daquele molde futebol-cerveja-coçar o saco, é possível ser homem e artista, ser homem e usar saia, ser homem e gostar de se arrumar, de se enfeitar, ser homem e preferir cuidar dos filhos, ser homem e botar no colo, e – mais difícil ainda – ser botado no colo… relaxar, chorar, dançar solto, rir desbragadamente, ser homem e sair do molde em que prenderam os homens, em que os próprios homens se prenderam há tanto tempo atrás que não sabem mais o caminho de volta e se obrigam a, permanentemente, vigiar outros homens. Porque todos têm que estar lá, dentro da caixinha. A estreita caixinha dos homens-homens. Tão apertadinha. Gestos, entonações, jeito de corpo: coreografia permanente dos homens-homens. Certos, fortes, musculosos, ousados, corajosos: aí, sim. Aí, talvez, o Nilson Xavier ficasse satisfeito e não considerasse que a novela tinha “desmerecido” os personagens homens.

Eu, aqui do meu cantinho, gostei foi muito. Que venham mais. Tá pouco ainda.

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Um cipreste triste e dois amores de tia Agatha

Este texto contém spoiler, caso exista alguém no mundo que ainda não leu Agatha Christie.

Tia Agatha, como um socorro. Como uma pedra de fundação. Como um galho em que me seguro. Como uma rede, que sempre me embala.
Todo mundo acha que eu estou brincando, menos quem me conhece mais de perto: volto aos mesmos livros, sempre e toda vez. Comfort-livros. Durante muito tempo foi Monteiro Lobato. Depois, Agatha Christie e alguns outros.

O livro no formato “whodunit” (quem matou?) é redondo. Fechado. Acaba de volta no começo, quando a pergunta ganha uma resposta. Querem algo mais reconfortante? Quando a sensação é de caos e de angústia demais da conta, deito na rede da tia Agatha e embalo-me em suas certezas.

Vento que balança as palhas do coqueiro….

Balançando na rede, lembro de recente conversa sobre amor. Tia Agatha fala muito de amor. De um jeito bem peculiar, e não consigo não associar a forma como ela fala de amor à sua própria história: o primeiro casamento com  o belo Archibald Christie, a separação violenta, o segundo casamento com o arqueólogo Max Mallowan, bem mais jovem que ela.

Cipreste Triste é o livro em que tenho a sensação que ela fala desses dois maridos. Nunca vi isso escrito em lugar nenhum: é uma impressão apenas. A personagem principal de Cipreste Triste é Elinor Carlisle, apaixonada a vida toda pelo primo distante, Roddy. Estão noivos.

O sentimento que Elinor tem por Roddy é intenso, ardente. Mas ela disfarça. Sabe que ele não sente dessa forma: é mais contido, mais distante, todo postura ereta, fleuma e jogos de palavras. Extremamente britânico. E Elinor sabe que o assustaria, caso exibisse seus sentimentos reais: Roddy acharia indecente, e sem dúvida deselegante. Algo feito para o povo, não para um pretendente a aristocrata como ele.

Até que aparece Mary Gerrard, filha da caseira da mansão da tia, e Roddy se encanta por ela à primeira vista. Desfaz o noivado. Elinor o flagra olhando para a moça, e imediatamente percebe tudo. Tem vontade de matá-la, a tal ponto que quando ela de fato aparece morta, deixa-se acusar e levar a julgamento. Quem sabe a vontade, de tão forte, não matou Mary de verdade?

E aí é que entra em ação o outro personagem masculino do livro, antípoda de Roddy – e, na minha interpretação, a representação de Max Mallowan: o médico da tia, dr. Peter Lord. Jovem, ruivo, desajeitado. Grande. Reconfortante. Seguro. Confiável. É a ele que Elinor recorre. É ele que chama Poirot para ajudá-la a sair da confusão em que está metida. E, no final do livro, ela acaba dando a entender que o que sentia por Roddy era demais: intenso demais, sangrento demais, violento demais. Portador de sofrimento. E acrescenta que talvez com Peter Lord consiga encontrar alguma felicidade. Uma felicidade tranquila, feita de pequenas coisas, de miudezas do dia-a-dia. Mas nem por isso menos real, justamente porque sólida, porque estável. O contrário dos amores de romance, das paixões desbragadas. Do que sentia por Roddy Welman.

Max Mallowan era arqueólogo, e Agatha Christe não só o acompanhou, mas trabalhou como ajudante em diversas das escavações que ele coordenou. Existe uma frase atribuída a ela que diz que o bom de ser casada com um arqueólogo é que, quanto mais a pessoa envelhece, mas ele a acha interessante.

Tia Agatha tinha humor. E sabedoria tanta.

tia Agatha

Uma onda colorida

Foi bonita a festa, pá. O tapete multicolorido em que se transformou minha TL do feicebuque ontem. Um a um, meus amigos iam ficando cobertos pelo arco-íris. E eu me alegrava, “curtia” até ficar com o dedo doendo, sorria e, ocasionalmente, ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Voltava aos meus afazeres e, quando ia lá de novo, mais uma ruma de amigos tinha se transformado e entrado debaixo do arco-íris.

Celebrando. Celebrando o quê? Celebrando o fato de que uma pá de gente no mundo passou a ter seus direitos garantidos, num país pro qual todo mundo olha, que exporta seus jeitos e suas modas pro mundo todo, ou pelo menos pra boa parte do mundo.

Celebrando a solidariedade, o fato de que gente é pra brilhar, celebrando a alegria do outro, a festa do outro, comemorando junto com o outro, junto com a outra.

Dia do Orgulho Alheio, disse a Lena, e eu pego emprestado: orgulho e alegria dos amigos que não precisam ser gays para saber que isso muda a vida, a deles, a nossa que passamos a viver num mundo melhor e mais justo.

Casamento? É besteira, você diz? Intromissão do Estado nas relações privadas? Tinha que acabar, é? Ué, mas quem está discutindo casamento? A gente tá celebrando é a conquista do direito. Pra que os gays, as sapatas também possam dizer que é besteira, que não querem casar. Não querem, mas podem. Ou querem, e também podem.

Well done, tio Zucka. O arco-íris foi bem sacado que só.

E quando a gente celebra e faz festa junto por mais um direito adquirido, que já existia aqui, mas não lá, quando os juízes da Suprema Corte lá garantem o direito porque reconhecem que é um direito constitucional, isso muda coisas. Não é mera burocracia. Não é a mera permissão para os estados de celebrar o casamento gay: é a obrigação, visto que é direito constitucional, e o embasamento é a 14ª emenda, que fala da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. Entendeu-se, pois – em votação apertada, 5 a 4 – que isso abrange o direito dos cidadãos de casar. A discussão toda faz diferença, do ponto de vista dos direitos. E vai bem além dos Estados Unidos.

Abraços, risos, lágrimas: foi dia de festa, em meio a tantas dores de todo dia. E meu coração se alegra com os amigos e amigas de cujos sofrimentos sei tão pouco, de que só ouço ecos: o de sair do armário (ou não), o de contar para os pais, para os irmãos, para a família toda, o de ser apontado como “aquele ou aquela que….” . E é tão lindo e tão raro quando a reação é “eu quero que minha filha seja feliz” e ponto. Tantas vezes é dor, é incompreensão, é um “não criei filho meu para…”, é choro e ranger de dentes, apenas porque o desejo da gente é o que é e a gente não tem controle disso. Não sei dessa dor que deve ser você ser motivo de tristeza para seus pais, simplesmente por ser quem é. A dor de escolher não contar, por ser mais fácil, para não confrontar. O dia-a-dia de quem assume, o dia-a-dia de quem disfarça: dores que não conheço, eu, cis e hétero.

Então quando tem um dia assim, em que a linha do tempo do fêice se transforma em tapete multicolorido, meus olhos se enchem de lágrimas e, sem achar que a revolução foi feita, permito-me acreditar que um passo foi dado na direção certa. A da gente juntos. A da gente gente. Em direção ao dia em que isso não será mais questão nem motivo de sofrimento: Ana namora Luciana, Claudio namora Ricardo, Mariana namora Paulo, Fábia namora Stella. Mônica namora Max. Fabi namora Rita. Dodô namora todo mundo, claro. E a gente vai dançar ciranda, todo mundo junto, rodar até perder o fôlego e cair na areia da praia.

cores

Motes Publicitários

Tenho um amigo que usa uma expressão engraçada pro tempo em que está no processo de tentar conquistar uma garota: ele chama isso de “campanha de lançamento”. A campanha de lançamento é tudo o que se faz pra ver se a moça (ou o rapaz) te acha interessante e decide ir adiante.

Me lembrou um livro que eu tenho sobre feitura de CVs: o sujeito garante que, se você fizer o CV segundo suas recomendações, chega na entrevista. Aí é por sua conta.

Mas só que esse é que é o ponto, não é mesmo: serve pra CVs, não tanto para relações afetivas. Quer dizer, caso o objetivo da história seja que aquilo vire uma relação, ou pelo menos um projeto de, o que você vai ser depois, além de você mesmo? Como é que vai passar da campanha de lançamento para o dia-a-dia de você normalzão sem causar impacto?

Fiquei pensando nisso porque minha abordagem é basicamente o oposto disso: a minha “campanha de lançamento” tem como mote “não espere nada de mim além de mim mesma”. Me lembro daquele dia em que fui encontrar um cara em quem estava bem interessada, e ele nem sabia: a roupa? Uma camiseta de que eu gostava e minha calça jeans meio rasgada. Não é que eu não tenha me preocupado com o assunto, entendam. Me preocupei, e essa foi a escolha para aquele momento. Uma “eu” do jeito que eu sou mesmo, calça velha e rasgada e tal. Era, sim, uma calça de que gostava, entre outras coisas, porque achava que vestia bem. Mas não poderia ser nunca uma roupa “arrumada”. Não sou arrumada no cotidiano (embora me arrume um monte, mas isso é outra conversa); logo, não poderia sair pela primeira vez com o cara usando uma das minhas – poucas – roupas “arrumadas”. Essas são pra eventos tipo casamentos, cerimônias. Não pra encontrar um sujeito que eu quero que se interesse por mim.

Do mesmo jeito, já vi gente tentar se interessar por assuntos aleatórios para ver se conseguia chegar perto da pessoa no foco. Acho bem esquisito, já que amanhã ou depois ela vai descobrir que você não se interessa de verdade por aquilo. O que não quer dizer, claro, que não possa vir a se interessar: apenas não é a sua praia naquele momento. Depois da relação começada, a pessoa pode te apresentar àquele universo até então estranho, e você, ao ver o que a encanta ali, também pode se encantar, por que não? Só que o movimento é ao contrário. Primeiro, você chega como você mesmo: aí é que você vai – se tudo for adiante – conhecer o universo do outro, e, quem sabe, se encantar por alguma das suas paixões.

Tive um namorado que dizia que “amar é comer e comer de novo, e de novo”…. acho graça nessa formulação e entendo o que ela quer dizer. Dia após dia se constrói uma história. E talvez seja isso: não consigo olhar para além do próximo dia. Que de repente será seguido de outro dia. E quando se olha pra trás, em algum momento, nota que ali já tem uma pá de dias enfileirados: será que aquilo já virou uma história? Pera… melhor deixar passar mais uns dias.

em qualquer caso, cuidar das roupas de baixo

Mães dançando, filhos envergonhados

Alguém (que eu não conheço, é amiga de amigos) postou no feicebuque uma foto de mulheres dançando, com a legenda: “mães dançando, filhos envergonhados”.
E isso apenas deu o mote para um texto que já tava se escrevendo por aqui há um tempo. Porque tanta gente reconhece essa legenda. Tanta gente se identifica com ela. E acho que pouca gente para pra pensar no que está por trás.

“Filhos envergonhados” de quê? Mulheres dançando. Ué, os filhos dessas mulheres não dançam, será isso? Não gostam de dança? São contra a dança? Só gostam de contradanças?

Será?

Pois bem, até pode ser. Quem sabe. Até pode ser, às vezes. Mas não me parece que seja isso na maioria das vezes. Para a maioria dos “envergonhados”. Eles dançam, sim. Eles balançam seus corpos jovens, esguios, elegantes, modernos na pista de dança. Nas ruas durante o carnaval.
Eles dançam. Dançam porque podem.

Podem porque são jovens. Basicamente isso: porque são jovens. Aos jovens, tudo. Aos jovens, holofotes. Brilhos, fotografias, legendas aprovando. Jovens: corpos com selo de aprovação.

As “mães” da história: erradas. Erradas, já que não tão jovens. Motivo de vergonha para os filhos.

Sim, sim, claro que sei: era uma mezzo brincadeira. Os filhos só ficam meio com vergonha, nem reprimem, de fato. Mas não queria, mesmo, deixar passar. Não queria, mesmo, deixar pra lá. Queria fazer aquele papel de insuportável grilo falante, a enfiar dedos em feridas que se preferiria ignorar. Adiante.

E então. Essa sociedade, a nossa, tem uma hipervalorização da carne fresca. Carne jovem. Linda, elegante e sincera. De começo de era. E isso, como tantas vezes, subentende o lado B. O desprezo pelos não-jovens. Mulheres, então…. tão melhor quando se comportam de forma compatível com a idade. Tão sem-noção isso de se exibir assim, na pista de dança. De usar saia curta. Decote. Não se enxerga não? Será que tá faltando espelho em casa? Quem pensa que é, a sair por aí expondo-se aos olhares dos outros como se isso fosse aceitável? Um xale, talvez. A saia um pouco mais baixa, certamente. Um pouco mais de compostura, sem dúvida. É de senhoras que estamos falando. Onde está o comportamento compatível com a idade?
Coitados dos filhos delas. Todo mundo olhando. Na frente dos colegas todos. O que será que vão pensar.
Aff.

Cristina Hoyos, a maravilhosa

Cristina Hoyos, a maravilhosa

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