Sexo sem…

sexo sem...

sexo sem…

Pinto. Pau. Caralho. Pênis. Caráleo. Parte fálica avolumada por entre as pernas. Penetrante, intenso, jocoso, duro. Gostoso. Esperma, jorro, gozo, penetração. Encaixe profundo, remelexo por dentro. Uma boa biscate sabe o gosto bom disso tudo e sabe, sobretudo, desfrutar as boas sensações que podemos experimentar sem pudores e sem medo do universo fálico.

Mas o que quero falar aqui, neste espaço de hoje, é das delícias e possibilidades do sexo sem. Sem o falo. Sem o pau de carne e osso no meio das pernas. Sem a protuberância que é considerada tao relacionada ao homem, macho, que às vezes a gente esquece que tem homem sem pau. Eu quero falar sobre a possibilidade escolhida e, sim, nada temerosa, do sexo sem. E do sexo sem que navega pelo universo feminino, que mora ali entre duas (ou mais) pessoas, geralmente mulheres cis que, juntas, descobrem outros portos para o desejo e o para o prazer.

Já perdi as contas de quantas vezes ouvi a infeliz e machista frase: “ah, fala sério, o que duas mulheres fazem na cama?”. Ou pior: “ah, duvido que vocês não sintam falta de um pinto, vai! Impossível”. Ou, na versão mais repugnante de todas, a pérola: “ah, essas aí não foram bem comidas!”. Pobres pessoas sem imaginação!

O sexo entre mulheres, apesar de tão comum e tão praticado desde os primórdios da história grega, é tão incompreendido nesse nosso mundo de tabus e moralismos enrustidos. Talvez pelo fato de vivermos numa sociedade machista que não concebe, e não consegue conceber, a possibilidade de felicidade sexual sem um falo, o sexo entre mulheres é assunto velado. É tema camuflado que transita entre a fantasia erótica masculina, as aventuras sexuais de casais entediados (e outros nem tanto), os sustos das carolas sentadas no banco da praça, o receio de pais controladores, o medo masculino de perder a supremacia fálica para dar prazer, a curiosidade de olhos femininos.

Biscatemente, claro, vamos ao que interessa. E partimos direto para o nosso querido e saudoso Rauzito. Raul Seixas, ícone que tanto respeito, cantou e escreveu o famoso “rock das aranhas”. Ele sobe lá no muro do quintal e vê uma transa que “não era normal”. Duas mulheres “botando a aranha pra brigar”. Surpreso e nada delicado, proclama: “vem cá mulher deixa de manha minha cobra quer comer sua aranha”.

Pobre Raul, não entendeu nada. As aranhas não querem sua cobra, meu amigo! Elas estão lá felizes e aquilo que você viu, com espanto e indignação, não era uma briga: era amor, tesão, sexo. Simples assim. E um sexo que não quer, e não precisa, do seu pinto para ter prazer.

Mas não tenha medo Rauzito. Se você olhar com um pouquinho de cuidado, vai perceber que sexo está além, muito além, da penetração pinto-buceta, essa fórmula básica e tão boa de ser desfrutada. Sempre se pode experimentar algo mais, ou andar por outros rumos, para se ter prazer. Mesmo em relações heterossexuais esse encaixe não é requisito ou passaporte da alegria. Nem garantia de nada. Pode-se tudo, sempre. Pode ser bom e pode ser mais, com ou sem pinto. Porque a descoberta do prazer é um território vasto e sem demarcações. Um território sempre a ser reinventado, e redescoberto.

Meu amigo Raul, você e tantos outros masculinos desolados, acalmem-se: vocês não perderam as suas importâncias sexuais, e nem deixarão de serem desejados por outras mulheres. É fácil de entender: mulheres que fazem sexo com mulheres apenas desejam outros territórios e outros sabores, apenas sentem tesão em outros lugares. E elas podem, sim e sempre, serem penetradas por outras mulheres (de vários e inimagináveis jeitos), serem satisfeitas por outras mulheres, serem desejadas por outras mulheres, sem que isso signifique a derrota masculina. Tem espaço para todo mundo. Vamos lá no dicionário, só para um exemplo?

Significado de Orgasmo. s.m. O mais alto grau de satisfação sexual, quando se atinge a plenitude das sensações.

Sim senhores, orgasmo e satisfação sexual acontece de tantos jeitos e não depende de um pinto. Cada um, e cada uma, alcança a plenitude das sensações, ou busca essa plenitude, em lugares diversos e distintos. E que bom. Duas mulheres (ou mais se formos ainda mais criativos) podem se explorar livremente e com possibilidades múltiplas de satisfação. Pernas firmes, encaixes muitos, dedos, línguas, quadris, seios, pele. Combinações diversas e incontáveis. Para mais.

E garanto-lhes, por fim, que elas não são “mau comidas” (muitos antes pelo contrário), ou tem algum tipo de trauma com o masculino (pode ser que a violência de gênero – infelizmente ainda tão usual – tenha deixado marcas fortes, mas estamos aqui em outra janela). Apenas tem outra busca, nem mais nem menos. Essas mulheres apenas descobriram novas possibilidades de gozo e prazer. E tá tão bom ali, mas tão bom, que não cabe mais. Ou quem sabe um dia.

Vocês podem ir para casa cantando outra música. Sempre existirão aranhas para as suas cobras. Agora deixem em paz as que estão brincando com outra aranha no fundo do quintal. Tem lugar para toda troca e todo espaço é pouco para o desejo. Machismo, homofobia e violência é que estão por fora, seu Raul! Essa é a transa que não é normal e que aqui, nesse clube, a gente repudia e deixa de fora. Porque de resto, pode tudo. E tudo é normal quando se trata de ter prazer.

Coração selvagem

o meu coração selvagem tem essa pressa de viver

“Meu bem,

Guarde uma frase pra mim dentro da sua canção

Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão

Eu quero um gole de cerveja no seu copo no seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja

Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja

Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver ”

Essa semana passamos cá eu e o Belchior, e a Márcia Castro cantando seus versos na minha cabeça. Frases que se aninharam no meu peito e no meu coração selvagem, com toda pressa de viver que exala pelos poros de quem, como eu, não tem mãos fortes o suficiente para conter os desejos e as vontades de amor.

É sempre muito. E o muito é vermelho e tem pressa, pressa de vida e morte, pressa de respirar e exalar ar puro, de viver tudo que se tem para viver dos encontros que pulsam, e das pessoas que cruzam nosso caminho mexendo por dentro e nos contando que a existência pode ser partilhada em curiosidades e vivências diversas. Em sentimentos bons de trocar e agregar. Em sensações quentes e aberturas de novos mundos. Em mundos divididos pelo que vem do fluxo de ser.   

A gente tem pressa, Belchior me confirma que essa gente existe. Essa gente nossa que quer crescer a cada encontro, que quer somar, extravasar e ir além dos corpos, além do prazer, que quer desbravar os universos que se encontram por puro mistério do destino. A gente quer riso e gozo, quer se jogar na correnteza mais forte de estar viva, quer navegar junto quando os rios se cruzam e os segredos despontam em carne e ossos.

 “Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente

Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem

Tem essa pressa de viver”

E a gente tá aqui fitando o horizonte e abrindo os braços para o que vem. Acolhendo o que não sabemos, e o que sentimos arder por dentro. Vontades ainda sem nome. Coração selvagem, anseios sem endereço. Possibilidades que se multiplicam com o amor que aquece e invade as aberturas rasgadas com a coragem de quem vai.

Estrada imensa, curvas e descidas, subidas de montanhas e penhascos, praias nas margens, mar à vista, verde e concreto. A gente vai e leva o que consegue na bagagem de mão que nos acompanha. Poucas malas, o peito nu, fotografias nas retinas. Pouco peso, e muito chão. Para mais.  

Mas… nem sempre. Não, nem sempre os tempos batem, e os amores nos acompanham nessa jornada de quem tem pressa de vida. É preciso mais, além de um encontro forte e uma possibilidade de amor. Não, não é fácil embarcar assim, junto. Com disposição e sem medo. Com os mesmos tempos de viver. Com encontro de intensidades, com a vida aberta sem complicação para pular no vagão do trem e apenas ir, junto, porque junto tem brasa e vulcão que explode. Tem engrenagem que funciona, tem coração que bate e faz sentido. Não, não é sempre.

Tem muita coisa que precisa afinar para acontecer o tempo de ser junto. É tão simples quando é, mas tem tanto. Pode ter tanto desencontro dentro de um encontro bom. Pode ter tanto não. E quase nunca um coração selvagem está preparado para o não.

É, não é tarefa fácil acolher o não do encontro possível. Para quem tem pressa e está lá, descendo a ladeira sem freio, sem pouco, sem miséria, sem dublê, sem maquiagem, sem reserva… o breque é violento. Como, como acolher o não? Quem não pula, não pode, não dá? Quem não tem como, não tem esteio, não tem tempo, tem distância geográfica, tem história difícil, tem outra história, tem medo, tem falta?

“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão,

O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver

E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza

E arriscar tudo de novo com paixão

Andar caminho errado pela simples alegria de ser

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo.

 Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem”.

 A gente canta com o Belchior, e chora e grita e se lastima e pula e faz barulho e morre um pouco por dentro. E morre de novo para renascer e ir em frente com essa mesma pressa de viver. Porque uma hora, em alguma curva do caminho, a gente acerta. E aí, sim, experimenta o que é viver e dividir todo esse algo mais que não se conta na canção, e em lugar algum.

A gente experimenta o indizível.

 

Do muito

la-solitude-

Foi, sim, foi muito. Muito mais do que se podia prever, muito mais do que podíamos imaginar. Muito mais do que as palavras podem tecer. Tecido fino de cores invisíveis, manto que nos cobriu em um espaço inventado de tanta materialidade. Nosso, submerso, escondido. E tão declarado. Nada precisou ser, porque tudo era. Estava tudo ali, foi só abrir a porta, foi só entrar por aquela porta grande de luzes opacas, adentrar o espaço iluminado por velas inventadas e músicas de ouvir com a alma. Um espaço sem tempo, um tempo que se abriu em tempos passados e tempos futuros, que parou o relógio e nos contou segredos de permanência fluída, de existências tantas e possíveis, de reinvenções e possibilidades. Tempo contingência onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente.

A porta grande se abriu e a chave era nossa. Minha e sua. Era nossa e estava tudo lá, como se sempre tivesse existido a pele nua em contato uma com a outra, as falas mansas, os risos, as coincidências, as identidades, as diferenças, a força. Sim, a força. Desejo vulcão. Mansidão de mares profundos. Claridade de revelações. Sentidos aguçados para o que vem de dentro. Comunhão. Quente e frio. Doce, salgado, pimenta, açúcar, vinho nos lábios. Choros e risos. Nós duas ali, nuas e inteiras em nossos espelhos invertidos. Foi muito, e ainda mais.

A despedida se fez em silêncio duro, em uma morte brutal para quem acabou de nascer. E nascer assim, com tanta vida. Com tanta luz. Com tanta beleza. Com tanto presente florido e cheiro de mato. Com tanta vontade e espaço para crescer. E para ser qualquer coisa: vento, perfume, roupas coloridas, abrigo, casa, poeira, árvore com fruta madura, rio cheio. Só não podia ser assim: corpo morto. Não, não podia. Era muito.

Onde se guarda o desejo que não se vive? Em que porão a gente coloca a vontade que arde por dentro? Qual o baú que tem tampa grande o suficiente para abafar a intensidade de um encontro? Com que racionalidade se enterra o sentimento?

De novo calço as minhas botas e me nutro de coragem. Sim, a vida tem vida própria. E é preciso saber ouvi-la com a voz que vem de dentro. Porque essa vida pulsa e tem caminhos vastos. Tem escolhas e conformidades. Tem revoluções e resignações. Tem agigantamentos e pequenezas. Tem muito, e tanto. E tem a gente lá, no meio disso tudo, remando, se equilibrando na canoa, tentando controlar o fluxo das águas, tentando não afogar, achando meios de se nos mantermos vivos e despertos. Tentando vestir a coragem de poder, sim, ser feliz. Felicidade de inteirezas e de vontades saciadas. Poder ser feliz nas marolas e nos improváveis. Aprendendo que, por vezes, é preciso colocar o salva vidas primeiro na gente para poder salvar o outro. Aprendendo que, vez em quando, a gente afoga mas não perde o ar. E nem a vontade de ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas. E se cair em chuva, eu quero que me banhe. Eu quero lamber a chuva de pingos grossos.

É também porque não adianta,é preciso preencher-se de si mesmo. É preciso aceitar as contradições, os acasos, os erros, os desacertos, as mudanças, o nosso parco controle. Ir deixando a bagagem pelo caminho, ir transformando o que temos em coisas novas e mais leves de carregar. Ir colocando dentro o que temos fora. Beber um mar fértil que alimenta. Menos, e mais. E sempre.

Extravasamentos

Extravasamentos, assim, como correntes quebradas. Eu fiquei buscando um modo de extravasar aquela intensidade, aquela intensidade que queimava desde a semana passada, aquela intensidade que surgiu de algum lugar da memória do corpo, eu busquei sem trégua e com algum pesar, eu busquei.

E nessa busca eu fui assim, devagarinho, acostumando-me com as minhas novas roupas, com aquele novo jeito que eu não sabia que tinha, com a velha nova face desconhecida, eu fui. Fui direta e profunda, sem medo de mergulhar, fui seguindo as pistas que aquela noite me deixara assim, sem mais, junto com a ausência vazia do dia corrido que se seguiu a tudo aquilo, eu fui.

Não era você, não era só você, era eu no meio de tudo aquilo, era eu assim despida depois de tanto tempo de dor, era eu assim enfrentando os novos tempos de estar à flor da pele sem escudos, era eu sem saber dosar mais nada, era eu no meio da correnteza de mim mesma. Sim, também teve você, a gente dançou junto, teve você mas não foi só isso, foi algum destempero de estar assim: latente, sem controle de racionalidade, pessoa de lembranças de outras pessoas cravadas no peito e sem porto de chegada, pessoa de anos de acúmulo, pessoa assim latejada.

Depois de tanto tempo construindo barreiras e muros intransponíveis, arquitetando proteções para conter as águas, as minhas águas sempre tão fartas de sentires, eu quebrei tudo, simplesmente, quebrei sem olhar para trás, joguei tudo fora, todo o amontoado de proteções, joguei tudo de uma vez só, e tudo se perdeu para nunca mais. E que frio percorria a espinha. Era muita vida, era muita água, e eu a nadar no meio da correnteza sem bóia nem nada, sem barco, sem esteio, sem uma mísera máscara, nada. Era eu e toda aquela vida.

Aí teve você, aquele encontro bom, teve você e eu no meio daquelas águas revoltas. Teve você e eu sem saber mais nada. Eu não soube mesmo, não soube dizer ou explicar, e eu não queria palavras concatenadas, eu só queria sentir. E eu senti. Senti a mim mesma, senti o feminino sem reservas, senti a veia pulsando por algo mais, senti seu corpo tão quente e tão branco junto ao meu, senti seu sorriso tímido e tão pulsante, senti tudo de uma só vez e eu não soube.

Eu estava mergulhada e assim eu fui quando a semana seguiu, assim eu te procurei quando nada fazia sentido, assim eu te escrevi só para extravasar o muito que queimava a pele. Queimou e eu segui, eu enfrentei o fogo, e foi tão bom. Foi bom andar tão cheia de vida, foi bom olhar para mim só e despida, foi bom.

Tudo vem acontecendo muito rápido nesses tempos de 2013, faz apenas uma semana e já faz tanto tempo. Foram tantos cigarros, tantos copos cheios e vazios, tanta gente que passou por mim e eu andei. Andei até chegar a meses, percorri até fazerem-se anos e eu ainda estou aqui de pé e tão viva. E tudo tão bom apesar do fogo que ainda arde, apesar de não saber o que fazer com tanta vida, é tudo tão livre e tão bom.

Alguns confetes coloridos me enfeitaram a face, e sucederam-se mais tantas coisas sem voz e sem quaisquer explicações que eu vou me acostumando a andar assim e não saber, apenas deixar-me guiar pelos sentidos que assolam a racionalidade. Agora eu já não me perco tanto, a minha velha nova face me é mais familiar, eu equilibro um pouco o destempero, eu estou firme.

O tempo brinca de ser grande quando corre tão pequeno pelos dias, e eu estou aqui tão repleta de gente e tão repleta de mim, tão fluída nesse meio do caminho embolado e intenso. Intensa assim eu sigo com mais coragem, com mais vontade, com mais vida e te falo que está tudo bem, está tudo cheio e ainda restam muitos cigarros com sabor de amor pelo desconhecido.

Do desejo

Eu não desejo nem preciso de navio. Depois de navegar com embarcação pesada, âncoras firmes e trajetos de bússola reta, eu não preciso mais. Navio pesado de muita carga enfrenta o mar com escudo. Adentra o desconhecido com certezas enraizadas, olhos vendados para o horizonte do acaso. Navio pesado quer ser terra no meio do mar. Quer levar para o mar bagagem densa de construção inabalável. Coitado do navio, ele também afunda. Diante do mar navio também é pequeno, porque o mar engole. O mar é desejo. Imensidão de ondas improváveis e arrebatadoras. O mar é susto. Impermanências e desafios de não saber onde se pisa o chão novamente. Beber o mar alimenta.

Fotografia de Simone Elias

Ir no navio de guarda-chuva, bússolas e máquinas de controle do tempo? Não, eu não quero o navio. Lá fora tem o mar, e diante do mar não tem controle. Diante do mar tem mergulho e desaviso. Tem imensidão disforme e vento de liberdade. Tem a gente refletido onde não se enxerga com os olhos. Eu quero o mar. Sentir inebriada o cheiro de maresia fértil de vida. A nuvem que se ergue sem aviso e faz sombra e voo cego. O escuro azul que só se toca com os sentidos. Onde se guarda o desejo que não se vive?

Sim, eu quero o mar. Uma canoa com direito a mergulhar em mar aberto é bonito. Uma canoa leve com remendos e a vastidão de poder ser. O acolhimento de depois é o vento. O vento quente, o mar e a pequenina embarcação consideram a precariedade bonita do amor. O espaço vazio. E nele tem dança. Danças de ondas e improváveis. Ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas.

Às vezes a gente afoga, mas não perde o ar. Quando a canoa vira a gente reinventa a travessia. Acha ar dentro d´água. No navio tem pouco ar. Oxigênio em lata. Como viver sem o ar puro e livre do desejo? Na canoa tem fome mas tem peixe fresco. Peixe que a gente pesca com as mãos. Não precisa de abridor de lata porque a gente pode colher fruta das gotas salgadas. E o horizonte, sim, o horizonte. Na canoa tem horizonte rosa que se toca com a pele. Tem frio gelado que pede uma toalha seca que não tem. Tem lábio rachado sem protetor solar. Tem dor de escamas. E tem a gente inteiro, ali, inteiro em contradições, dores, desacertos e humanidades. Em feio e bonito. Em tudo que é. Poder desejar e ser brisa de mar. Poder parar em qualquer lugar. Na canoa a gente pode acolher o próprio desejo.

  * com carinho especial para as minhas irmãs de travessia na canoa: Kiara Terra, que me ajudou com algumas letrinhas aqui, Suzana Siqueira, Raquel Stanick, Karoline Alves, Sandra Cordeiro Molina e Luciana Baptista. Vocês me inspiram, sempre e mais, a ter coragem para a vida. Admiração de ondas.

Assombros e escombros

porque toda separação
é uma coragem

Talvez você não saiba nunca, porque fui eu quem quis. Fui eu que andei, fui eu que rompi, fui eu que tomei a iniciativa de irmos para qualquer canto além do nosso – esse nosso canto por tanto anos protegido das tempestades lá de fora. Esse canto inventado que tanto nos abrigou, escondido embaixo da sombra da árvore que cresceu enquanto dormíamos. A árvore que cresceu em silêncio e cobriu a casa, que invadiu o teto e deixou suas folhas espalhadas pelos nossos cômodos apertados, por entre roupas e tapetes amarrotados com pêlos de cachorro e barulhos de criança.

E foi assim de repente que tudo ruiu, foi de repente e durou tanto. Foi naquele dia, naquele instante, naquele ano em que não mais chegou a primavera e a gente viveu um outono sem fim. O longo outono não fazia inverno, não havia frio gelado e depois primavera, não havia mais ciclo de flor. O outono era cinza e a gente dormia tanto, eram tantos sonhos e realidades, tantos pesadelos de vida e morte, tantas metades desconjuntadas. Noites imensas que não se faziam dias.

Eu fechava os olhos e no escuro procurava os seus pés junto aos meus, que me beijavam macios. Eles estavam lá, quase inertes, e respondiam ao meu medo. Eles também tremiam. E eu desejava com ardor um acordar que não vinha, um acordar de cores vibrantes e frutas maduras. Mas não tinha primavera, nem sequer inverno. Não havia cheiro de flor nem vento nem jardim colorido. A vida não renascia, não passava o tempo gestado, não havia proximidade de parto possível. Era seco e doía, doía, comprimindo o coração por entre as paredes de uma passagem que não se abria.

Foi então que o meu despertador que tocou. Sim, ele sempre toca, com aquela música que você tanto conhece. E eu sempre alerta aos toques de despertar. Era sempre eu que lhe tirava da cama com beijos corridos, resistindo ao seu abraço que me convidava para afundar a cabeça nos lençóis e perder a hora. Mas eu acordei, eu tinha que levantar, as rachaduras cresciam nas paredes e pingavam água armazenada, estava úmido e faziam-se fungos doentes. Verde musgo que entrava pelo nariz e alcançava o corpo dormente, que subia numa tontura circular que asfixiava e sussurrava aos meus ouvidos: acorde.

Acordada de pé e desperta eu morria, olhando a vida que amanhecia com a dor de não caber mais em lugar algum. Com a claridade quase insuportável aos meus olhos tanto tempo incapazes de ver. E foi então que eu vi. A árvore havia crescido torta, e agora eu enxergava a sua postura envergada, consumida pela força dos ventos. Ela balançava de um lado para o outro, suplicando para ir ao chão e descansar para nunca mais.

Parei em frente à árvore, carcaça da beleza que se esvaia no tempo martelado de poeira. Fraca, com os galhos magros, ela me olhava com olhos pedintes, chorando sua seiva já escassa. Eu nunca dantes tinha ouvido a língua das árvores, a língua direta e inebriante das árvores. Abracei seu tronco áspero e, emocionada, entendi o seu suplício. Ela queria ir. Era hora de deixar o que não se podia mais sustentar.

E eu tive que ajudá-la a ir, fui eu que cortei seus galhos e arranquei as poucas raízes que ainda se agarravam ao solo. Sim, foram as minhas unhas que ficaram cobertas de barro vermelho, fui eu que chorei a dor de cortá-la com as minhas próprias mãos assombradas diante da morte. Fui eu que juntei os pedaços e caminhei pelos escombros, fui eu que destrocei e me perdi no meio de tantos pedaços disformes. Foram as minhas pernas lascadas de farpas de pingaram sangue, foi assim, fui eu que usei o machado e eu não sabia.

E sem saber eu carreguei a dor como um fardo pesado, um fardo tão meu e tão nosso, um fardo que eu haveria de carregar para o resto dos dias. Fui eu que matei árvore, sim, fui eu que cortei a nossa árvore em meio ao sangue e as lágrimas de seiva. E fui eu que tive que te dar a notícia da morte, fui eu que te contei e ouvi seu choro surdo de tristeza. Fui eu que segurei seu corpo cambaleante e te abracei no vazio, desejando que não houvesse mais morte nem fim nem nada que te fizesse sentir aquela dor grave alastrada por dentro.

Mas havia a morte, grande e volumosa como fato consumado. E era preciso força para velar o corpo morto, para fazer o rito de passagem. Era preciso seguir em frente sem a sombra da árvore, sem o canto escondido, sem o que era de nós enquanto dormíamos. Sem tudo que já havia sido e não mais poderia ser.

Juntos derrubamos os muros e acendemos a fogueira, queimamos tudo em pó e tudo se foi, tudo que era. A gente mergulhou no desconhecido, sim, vertiginosamente, cada qual cumprindo a sua coragem. Sobrou apenas o pó cinza e o horizonte aberto que se seguiu a tudo aquilo, o pó mágico que guardamos para os novos tempos, fértil de amor desabrigado.

E foi amor tudo que sobrou, um amor grande e tão nosso, pronto para ser espalhado em busca de novas primaveras. E que se façam flores, renascidas, vivas, coloridas.

Até que.

Deu ruim

* texto especial para minha querida irmã de todas as horas, Luciana Baptista

 

Esses dias estive em Santos, transitando pelos meus laços familiares. Regresso que abriga, casca de ovo, gestações.

Coisas bonitas que a gente sente quando volta para o lugar de onde veio.

Lá estava eu nos percursos dos meus avessos, quando Luciana me diz, no meio de suas intermináveis e fascinantes histórias: “ih, deu ruim!”

“Deu ruim Lú?” Risos, cervejas, e mais risos. “É, deu ruim”.

 - Luciana, Luciana Baptista, melhor amiga desde sempre. Passamos juntas os treze, os quinze, os vinte. Trinta e dois. Quase quarenta. Montamos comunidades e baladas inacreditáveis. Vivemos alegrias e desafios aos montes, aventuras, histórias partilhadas que nunca tem fim. Irmãs de alma e festa. De dor e de ruim. Pau pra toda obra -

“Deu ruim”, contava a Lú. Simples e reto. Direto. Porque tem coisas que dão ruim. Simples assim.

A gente tenta e tenta e tenta. A gente chora, se descabela, vai até o fundo do poço e a verdade é uma só, uma frasezinha curta com um soco no nariz: deu ruim.

É, é simples. Tem plantas que não vingam. Tem projetos que não vão pra frente. Tem amores que não se transformam e não andam. Tem finais que não são felizes, e tudo bem. Porque, é fato, tem vezes que não dá para ser diferente. Tem coisas que tem seu ciclo assim, meio curto, ou curto-longo que dá nó e curto-circuito. Que nascem fadadas ao insucesso, e sua função é exatamente essa: fazer a gente acolher o que dá ruim. Às vezes a gente não tem mais nada pra aprender ali a não ser olhar e aceitar: é, deu. e deu ruim. O que foi bom no caminho, o sonho, a vontade, a tentativa, a paixão, o esforço, o gosto…acabou dando ruim. Gosto ocre, vômito, labirinto, perdição de espinhos. Lá na encruzilhada deu ruim pra cacete. Deu, e deu.

Porque dá, às vezes dá. Faz parte da vida. Todo sucesso tem um bocado de insucesso. Toda tentativa tem uma porção de erro. Para tantas coisas que desabrocham, outras tantas murcham e se despedaçam, jogando suas cores no vento e nos contando que tá bem ruim. E quando tá ruim assim a gente enterra, a gente faz a passagem, a gente dá em erro e segue adiante. O que dá ruim nem sempre tá no nosso controle e nas nossas mãos. Tem muita vontade genuína de dar certo que não encontra caminho. Tem muito caminho que não cresce. Às vezes é coisa de solo. Às vezes é falta de sorte. Às vezes é tudo isso, e nada disso.

E não, não é resignação não meu povo, porque resignar-se não é do nosso vocabulário. É questão de constatar e aprender com o que não vai. É querer enterrar e ser feliz em outras paragens, onde dá.  É saber perder e dar em ruim.

Diante do quadro, claro, a gente chora e se joga na lama. Nada na poça, se chafurda, olhos borrados de preto, cachaça na mão e Maysa no karaokê. Dignidade nenhuma diante da dor do desacerto. Deu ruim. Biscatemente, a gente vai. E desce mais uma dose porque depois da Maysa vem sempre a Maria Bethânia cantando Vanzolini: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”!

 

Para você, Borboleta!

borboleta

“Teu olhar tem manjar de coco tem

Pena de caboclo tem

Brisa Tropicana também”

Porque hoje é seu dia Borboleta. Porque hoje há tantos anos você nasceu com um sorriso grande, dizendo ao mundo que ia perseguir-se até o fim. Porque você nasceu com os peitos fartos de amor, as mãos cheias de carinho, os olhos cheios de vontade. Porque você nasceu, e nasce a cada ano mais inteira. Mais livre. Mais mulher. Mais biscate.

Nasce – renasce – Borboleta fazendo vento, pousando nos jardins de surpresa, voando alto para nos ensinar que o amor se multiplica, se expande, se semeia pelos ventos para que sejam colhidos novos tempos. Tempos mais respeitosos com o feminino. Tempos de delicadeza e tolerância. Tempos de liberdade sexual e respeito à diversidade. Tempos que um dia colheremos juntas, a gente e todo mundo aqui desse clube que você ajudou a trazer ao mundo, esse clube nosso que nos brinda com alegrias e possibilidades de encontros e fortalecimentos de nossas lutas cotidianas. Esse clube onde a gente se diverte e fala sério, onde a gente se derrama e quer mais. E quer mais junto. Porque junto é sempre mais gostoso.

Porque hoje é o seu dia Borboleta e você merece toda a felicidade do mundo. Músicas, brindes, sexo gostoso, amor quente, amigos aos montes, cervejas, papos, rotas, viagens, trajetos, vida pulsante de dar gosto. Porque você nos inspira, porque você é Luciana Nepomuceno, porque você é alegria e amor da cabeça aos pés.

Que a gente goze a vida, que a gente viva e vibre além das pequenezas. Que a gente voe com você Borboleta!

Deixo para você bailar uma música da Andrea Dias. Presente de aniversário para sua comemoração. Para a gente cantar junto, e junto com todo mundo que que te ama e quer essa alegria toda de leveza e liberdade. 

“Batuque bailado gostoso

Rosto colado no rosto

Que a gente se mete e encasquete se mire

Nos olhos e se complete

Tinindo tremendo trincando

Cóccix quadril encaixando

Que a gente se bole

Rebole se pegue de jeito e se devore”. 

Das sobrevivências

a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o samba é meu

Porque tem a dor.

Junto com quem mergulha, junto com o gozo, no fundo do copo, a dor. Por vezes corpulenta, densa, gelo sólido para lamber aos poucos. Por vezes fluída, cachaça que se toma num gole só.

Inebriante. Abre os poros e toma conta de tudo por dentro.

Dói, imobiliza, e a gente chora. Choro biscate é um choro aos rebentos: soluços vistos e vergonha nenhuma. Quando dói a gente grita. Um grito lá do fundo da garganta, sentido no fígado, no estômago, no coração aos pedaços. Um grito de alma.

Porque o revés do amor é a dor. O revés da busca da liberdade, a incompreensão. O revés da intensidade, a depressão. O revés da alegria nossa de sorrisos largos, o choro desesperado, sem rumo e sem descanso. O revés é nosso e a gente o recebe. Ele faz parte da busca.

 A gente busca, e a gente sobrevive. A bisca Raquel Stanick já me disse, no desconsolo de uma noite longa de lágrimas: nós somos sobreviventes. As biscates são sobreviventes.

É minha amiga, a gente segue sobrevivendo. Porque se há de seguir e acreditar que a luz do sol aparece por entre as nuvens. Aquela luz que a gente já viu tanto, que já nos cegou de claridades, que já nos aqueceu e nos nutriu para ir além.

Porque a gente quer o além. Biscate quer o além de si mesmo, refletido nos olhos dos outros. Quer o que está por trás. Os avessos bonitos de doer a vista. A gente inteiro cheio da gente mesmo. O amor para além dos falseamentos. O sexo para além do gozo. Ou como disse Clarice: o extraordinário tão simples de ser encontrado nas coisas comuns.

 Mas quem se busca, e busca algo mais que os protocolos e padrões engessados, os “sins” do altar dos noivos, o comprometimento de conta conjunta, as certezas do mundo concreto, já sabe que tem a dor. Quem vê para além do que a vista alcança tem dor de cabeça, por vezes, e cansaço de pernas estiradas. Quem busca o grande salto já sabe que tem que colher os espinhos das pequenezas e das tristezas dos lagos rasos. A gente se machuca, com a ingenuidade incansável de acreditar.

 Biscate tem ingenuidade, acreditem, ingenuidade de acreditar que a felicidade funda existe, de que é possível somar, de que alegria verdadeira é verdade. A gente já esteve lá, a gente já provou, a gente já viu, tá lá e é possível tangenciar um mundo livre para se ser feliz. Feliz e contingente, onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente. Feliz com as escolhas que vem do fundo do coração. Feliz com as aberturas, com os finitos, com o humanamente rico de possibilidades. Feliz e comprometido com o bem estar maior de se estar vivo.

 Mas enquanto isso a gente também chora e sente dor. Uma dor tão funda que às vezes a gente não respira. Um soluço continuado que parece que a gente não tem teto.

A dor é nossa e a gente chora. Forma rios e se afoga neles, para depois subir ainda mais dispostos a ir em frente. Porque quem quer muito, tem tudo muito. E eu quero o muito, a vida latente, sem roupas apertadas. Eu quero a nudez. Nadar na praia sem roupa e sem medo das ondas grandes e das submersões nos fundos gelados.

Vamos em frente?

Dos Latifúndios Emocionais

Não, não é fidelidade sexual. Não apenas, não desse jeito. Esse texto não pretende trazer letras cruas sobre relações extraconjugais, sexo fora das “mono-relações”, “traição”, nada que se refira ao termo. Até porque, não é isso, não só isso. É algo mais. Embora o tema das famosas “traições” caiba aqui, não é ele que eu quero que seja meu foco. Nossa querida Renata Lins já escreveu, para mim, o texto sobre o tema aqui no nosso clube, texto maravilhoso que vale a leitura e a reflexão, sempre. E, a partir dele, convido-os, leitores biscates, a irmos em frente. Tirem os sapatos, as roupas apertadas, o medo de estar nu, o nó no peito, a tensão, o ciúme, o medo da perda, o medo da liberdade do outro e de si próprio. Pelo menos um pouco. Um descanso. E engatemos a primeira. Adelante!

- corta –

Rainer Maria Rilke, em seus últimos escritos condensados em um livro chamado “O testamento”, anota em seus diários algo rico, que escreve depois de pensar e pensar e se revirar sobre o amor e a solidão:

“E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de mim mesmo. Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para o lugar mais perto de ti – por mais que aí ele seja grande, sensível, jubiloso ou timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração da minha vida. Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me que podias abarcar todos os tipos de amor por mim. Ah,…, resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida, fortalece-me como pode. Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim. Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para a própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado”.

- corta –

Rilke, corajosamente, nos conta um segredo: não podemos escapar de nós mesmos. O caminho individual é uma rica e poderosa jornada. É dentro da gente que temos o abrigo mais precioso, mais confortável e mais acolhedor, um útero que nos gera para o mundo, e para que possamos nos dar ao outro. O outro, o parceiro, a parceira, o namorado, a mulher, a companheira, quem anda junto da gente. Afetivamente, sexualmente, tenha o nome que tiver. Eu te encontro verdadeiramente se posso amar quem eu sou. Se posso ser confortavelmente eu mesmo, se você pode me libertar para eu respirar meu ar, para que eu possa inflar meu peito de meus anseios e minhas vontades. Se eu posso, eu posso ser ao seu lado. Senão, a gente patina em mares gelados de gelo fino, correndo o risco de sermos submergidos nos fundos escuros.

Só poderei amar se dentro do amor eu encontrar a mim mesma. E isso não é egoísmo, ou egocentrismo, pelo contrário. É a nossa jornada. Ego rima mais com ciúme, com possessão, com querer o outro só para si – interpretando-se esse querer em sua forma mais ampla, que vai muito, mas muito além do querer sexual. Porque amor, amor soma. Amor não é abrir mão, não é negar ou abdicar o que trazemos na nossa bagagem, nas nossas vontades, nos nossos silêncios. Amar é verbo expansivo – já me disse uma sábia amiga. Amor é impulso que nos leva além, que nos abre horizontes, que nos dá caminhos vastos e cheios de colheitas fartas. Que nos leva a nós mesmos, nós mesmos divididos nos olhos do outro, nós mesmos compartilhando levezas e transcendências, nós mesmos dividindo a mágica de estar junto, sentindo o calor do outro, conhecendo outro universo, transitando por um deserto de conhecimentos recíprocos.

Libertemo-nos para viver o amor. Sim, por mais paradoxal que possa parecer aos mais conservadores, é preciso amar muito para respeitar a liberdade do outro. É preciso amar verdadeiramente para deixar o outro ser quem ele é, sem que tentemos moldá-lo ao sabor das nossas expectativas, do nosso ciúme, das nossas necessidades de proteção, dos nossos medos. E, puxa, quantos medos! Como cantou Tom Zé: com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Até porque, acreditem, nada disso é amor. Limpemos o terreno, com arado de abrir portas: amor não é negatividade, não é despejar no outro as nossas necessidades. Isso tem outros nomes. Amor é soma. Não é o meu, ou o seu: é o nosso. E o nosso é esse vasto território que ninguém sabe como é, em que a gente caminha sem rede de proteção embaixo, em que a gente compreende o não saber e se solta para o que vier, ao sabor do destino vasto e grande do céu. É onde a gente se solta para o outro, venha ele como vier, e seja ele como for.

Eu te aceito. E tu me aceitas como sou, sem qualquer molde ou plano de linhas traçadas? Tu me aceitas para o que for, comigo mesma cheia de mim? Tu me aceitas para o amor que não é seu, nem meu, e que não tem roteiro com final traçado?

Soltemos o corpo, a mente, o coração. Amor não é posse. Não é compreensão (Como já disse a Clarice: “eu pensava que somando as compreensões, eu amava. Não sabia é que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente”). Amor é incógnita de letras vibrantes, arco colorido e poderoso que nos joga exatamente para aquele ponto sem seta, sem rota ou passos com rastreamento de satélite: o ponto da descoberta. E que, por ser descoberta, não o sabemos. Nós o sentimos, cada qual como for, duas individualidades comungando o que está por vir, assim, para o que for. E com a gente cheio da gente mesmo.

Biscates avante, rumo à reforma agrária de nossos corações tão latifundiários!

Uma biscate de fé

 

Fé.

Fé em qualquer coisa. Em si mesmo, no outro, na poesia, na tarde que cai em nuvens negras, na chuva, no dia que termina e nunca mais amanhece o mesmo, na continuidade, nos ciclos, nas incógnitas.

Fé na vida.

Essa vida que desponta nova com o novo ano. Fé nas tantas possibilidades de recomeços. Fé na gente que nunca amanhece o mesmo, nos mergulhos de quem vai até o fundo para nascer de novo. Fé nessa gente que ri e tem vontade de alegria, nos nossos olhos pequenos diante das perguntas sem resposta, nos seus olhos que me miram a alma e me inspiram ser quem eu ainda não sou.

Fé em qualquer coisa que não tem nome, em tudo aquilo que eu ainda não sei, em tantas verdades partilhadas. Fé em verdade nenhuma de coisa nenhuma. Fé até nos tantos erros cometidos, que fazem a gente ser humano e querer mais, e querer mais e melhor.

2013 é número novo e é preciso fé. Fé de que existe gozo no fim do túnel, de que existe felicidade no fim do gozo, de que existe algo além de nossas mãos dadas e de nossos corpos unidos, de que é possível renovar-se sempre a cada dia. Fé de que existe união, e de que a esperança é verde e está reluzindo no nosso jardim. Fé na próxima ninhada, nos pés descalços sentindo a grama molhada, no carinho impensado, nos beijos roubados, nos porres sem motivo, na gente embriagada de vontade de vida.

Que tudo que foi ruim fique lá atrás, e que o que for ruim venha para ser grandeza. Que as tempestades fortes deixem a terra úmida para próximas e profícuas colheitas. Maçãs vermelhas. Apetites fartos. Sexo aos galopes. Risos largos. Renovações.

Axé!

Das forças

themirror

Cena do filme “o espelho”, de Tarkovsky

Talvez você não saiba nunca, porque a gente nunca pode saber do que não vê. Ou do que não sente. Talvez você não tenha visto, talvez tenha sido tudo um enorme desencontro, talvez nada tenha sido exatamente como a gente gostaria, assim, tudo florido e calmo e pacífico como um dia claro de luz de sol. E a gente que estava lá, no entanto. Talvez tudo tenha sido muito, e a gente tenha ficado sem chão nem nada, no meio daquele amor que nos tirou do lugar e nos levou para outro, totalmente diferente daquele que estávamos acostumadas a morar.

 Não dá para mensurar, ou entender. Mas eu estava lá. Do meu jeito, como você, eu estava lá, desabrigada e nua, reinventando-me no meio de tantas marolas que passavam e faziam ondas no meu barco, eu estava lá, um tanto desnorteada e sem rumo, um tanto opaca no meio de tantas marés, e com uma fome enorme de descanso, eu estava. Meus braços estavam abertos e eu te via, sentia seu corpo arrepiado colado ao meu, seu coração assustado e desconfiado junto do meu, sua vida sorrindo latente e reticente para a minha, eu te via. Eu te acolhi no seu mergulho corajoso e eu mergulhei também, acredite, eu mergulhei no gelado e as minhas pernas enlaçaram-se às suas desde a primeira gota de água.

 E eu vinha com muita bagagem, eu sei, eu vinha com meus lastros que por vezes eram mais do que eu podia carregar. Mas eu estava soltando os pesos ao longo do caminho, eu estava mergulhando cada dia mais leve das vidas passadas que se acoplaram à minha, eu estava sempre e indo, ritmo constante de quem quer. E era você, o tempo todo, desde aquele primeiro beijo, era em você que eu via meu futuro e o meu presente, acredite, sempre foi desde então, a imagem que estava no norte que me guiava, a flor que desabrochava nos meses que brotavam no calendário.

 Não teve mentira em nenhum movimento, não cabiam mentiras ou desvios de querer, não cabiam dúvidas porque a gente não precisava ir para onde não queria. A essa altura da vida não cabiam falseamentos, não cabiam casas em terrenos arenosos, não cabia nada que não fosse nosso. Simplesmente não cabiam desvãos de vontade, não tinha espaço além dos nossos corpos colados e das nossas mãos dadas, não tinham respiros além de nossos amores mergulhados no rio que encontramos escondido entre as árvores das vidas que se cruzaram, ali, por puro mistério do destino.

 Claro, sempre existem os ventos e as tempestades, sempre existem as contingências e os imprevistos, e a gente já não se ilude mais com a certeza da construção que nunca desmorona. Ela pode desmoronar, mas a vida que escolho é a que resiste.

 E é porque eu acredito na força, nessa força que enxergo quando sinto seus olhos mirando profundamente os meus, ou quando nossas bocas conversam para além das palavras. Nessa força capaz de conter os arroubos do caminho, uma força capaz de cercar a casa com flores e quebra-ventos, com patuás contra os quebrantos, com cercas vivas de amor e sossego bom.  É, é preciso perseverança e um tanto de paciência, é preciso acreditar na mágica e na sinastria dos astros, na luz da lua inundando a alma, no canto dos grilos que celebram a felicidade. É preciso ter a ingenuidade de seguir desprevenido, é preciso acreditar no carinho dos pássaros e na voz aguda do vento que sopra poesia, é preciso acreditar em tudo isso e ainda em um pouco mais de beleza.

 Porque o amor é mágico, e dentro do amor estamos nós

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