Eu tô cansada dessa merda

Eu tô cansada dessa merda
Da violência que desmede tudo
Da minha liberdade clandestina
De ta no meio dessa briga, Chega!*

Porque tem dias em que eu me canso. Chego em casa rouca, as pernas cansadas, a voz brigando por resultado nenhum. Não, é mentira. A gente tem resultados. E é assim que eles germinam: baixinho, em silêncio, crescendo rasteiros na grama do jardim. Em cada olhar sensibilizado, em cada pequena iniciativa de proteção à mulher, à diversidade, à fala da população que é sempre calada pela mídia de massa e pela política perversa de exclusão.

Eles estão sempre lá, os donos do poder. Os Sarneys da vida. Os “macho” usurpadores da liberdade feminina. Os machistas agressores. Os homofóbicos. A voz dominante da opressão aos pobres. Aos negros. A grana suja do tráfico lá no Congresso, e todo mundo fazendo de conta que tá tudo bem, que as drogas devem continuar todas ilegais porque “fazem mal”.

As campanhas financiadas pelas grandes empresas que querem grana, e mais grana, seus whiskys importados no iate na praia, suas mulheres plastificadas de silicone, sua viagem para a Europa arrotando caviar e degustando a elite soberba que sempre cagou na nossa cabeça brasileira. É essa grana mesmo, que cresce e destrói coisas belas. Se ao menos as mães fossem felizes. Mas nem isso. Essa vida consumista é vazia. E a violência contra a mulher existe lá também, no paraíso de praias artificiais com grama sintética e champanhe francês.

Eita!
Que o sangue pinga nas notícias
Vendidas como coisa bela
A merda já tá no pescoço
E a gente acostumou com ela

Aqui embaixo tá foda. Todo dia é uma notícia nova de corrupção, de violência, de morte. Mulheres morrem por abortos clandestinos às pencas, enquanto a grana cala e paga o preço da hipocrisia. Porque lá em cima, na montanha, mulher que aborta não morre e ninguém fica sabendo. Aborto de rica é só uma solução para um problema. Aborto de pobre é crime.

Negrxs apanham por coisa nenhuma. Lésbicas são agredidas por amarem. Gays são espancados por não “falarem como homens”. Trans são agredidas até dentro do próprio movimento feminista! Xs militantes do SUS estão esgoelando que a saúde vem sendo sucateada e vendida à preço de banana e ninguém fala nada. Não, minto de novo. Falar a gente fala, mas a todo momento temos nossos microfones cortados nas grandes arenas decisórias.

A máquina acordou com fome
Vem detonando tudo em sua frente
Comendo ferro, carne e pano
Bebendo sangue e gasolina

Mas eu acredito. Que temos que gritar contra as violências e injustiças. Que temos que nos mobilizar. Que temos que brigar por um mundo melhor. Que temos que denunciar. Que não podemos nos calar. Que temos que juntar nossas forças, parar de atacarmos os aliados, os movimentos tantos que estão despontando com causas diversas de luta, e lutarmos com essa grande lógica perversa capitalista e excludente, branca, machista, homofóbica, elitizada e concentradora de renda, riqueza, bens e outras parafernálias tantas que nos fazem consumidores vazios e desumanos.

É que hoje eu cansei. Vou dormir um sono bom, e voltar com mais energia para as brigas tantas.

*versos da banda Eddie. Eu tô cansado dessa merda. 

Dos escuros

Dos escuros que me contam

1

Está escuro. O brilho da noite se desfaz em estrelas opacas, ofuscadas por grossas nuvens. Meus olhos tateiam impossíveis respostas, enquanto a noite cai em silêncio. Silencio. As batidas do meu coração se fazem ouvir em lampejos e lamentos que deixo escorrer pela janela. As poucas luzes vizinhas me contam que a existência permeia meus arredores, vagas sombras humanas.

Conto-me baixinho. Para mim mesma. Histórias de desejos que me fazem o hoje que respiro. Entre fumaças que trago, expiro ar viciado dos pulmões, fazendo-me dispersa em parca racionalidade.

Sinto. Pulso que me inebria e me desce pela garganta os nós que não sei desfazer. Esse eu que não sei como encaminha as perguntas que faço nessa ausência de claridade. Escureço.

Meu corpo vibra,  o tesão me sobe pelas orelhas e alcança a nuca que sente frio. Estou viva. A eternidade desse momento me consome. Quero correr mas os passos não chegam. Quero chorar mas as lágrimas não me alcançam. Quero gozar mas não acho os dedos que me acariciam.

Mais uma taça de vinho, vermelho entre os lábios, grito surdo que me sufoca. Travo a língua entre os dentes, arrepio na espinha, conjugo verbos impossíveis como dormir. O sono é um deserto com águas abundantes que não consigo beber. A madrugada me acalenta, escuto a música que vem de dentro em versos ritmados que não cantam meu querer.

Queria. Um tanto. A felicidade fugidia por entre os dedos. Uma casa de acasos que se molda solta sem perder o chão. Afundo a cabeça no travesseiro. Permeio-me de mim, perdida no espaço-tempo de agora. Voo sem tirar os pés do chão, tenho peso que me carrega, tenho voz que me ouve, batidas estancadas e secas que me acordam os sentidos.

Sinto o muito que me desperta e me cala. Rodopio. Não te acordo, deixo que durmas sua noite sem mim. Deixo que vá ao encontro de seus processos que não me cabem. Deixo-te densa e seguro sua mão que sua e procura respostas que não tenho. Deixo-te livre para que sofras a dor que não se partilha. Partilho com o escuro as minhas dores, rezo para um deus que não tenho, procuro-me para aguentar a noite que não me acalenta.

Somos sós, nesse emaranhado de descobertas conjuntas. Somos cada qual sua própria incógnita e universo, procurando desesperadamente aquilo que se chama amor. Ou o que chamamos, com algum descuido, de amor.

Meu peito minhas regras

10574405_4516683731695_2689474560294656867_n

 Seios. Peitos. Começo esse texto dizendo que admiro a beleza dos seios femininos. Seios que devem ser deixados livres para respirar, e para serem como forem. Seios fartos, seios discretos, seios de qualquer forma. São bonitos e são, cada qual, pertencentes às respectivas mulheres que os carregam. A elas, só elas, e mais ninguém.

Custamos muito nessa sociedade machista a aceitar o fato de que o corpo da mulher pertence somente à mulher. E não importa se ele está exposto ou coberto até o pescoço, nosso corpo é nosso e de mais ninguém. E temos o direito de dispor desse corpo como quisermos. Onde e como quisermos.

E não, não quer dizer que isso é um convite ao macho e aos olhares cheios de fetiche se os peitos estão descobertos, desnudos, ou aparecendo debaixo da blusa. Com decotes. Cobertos ou tapados. Não, não se trata de outra pessoa, não se trata de sedução, não é sobre você que está olhando, que está passando, que está convivendo. Trata-se do direito da mulher dispor sobre seu corpo, andar com seu corpo pelas ruas, fazer dele o que bem entender sem que outra pessoa se aproprie, interfira, ou invada esse corpo. Mesmo que com olhares avessados.

E dentre essa liberdade dos peitos e do corpo da mulher, tem um tema que sempre aparece: a amamentação. Essa fase em que algumas mulheres cis experimentam alimentarem seus bebês com algo incrível que eles podem receber: o leite materno. Colo, leite, peito, boca. Tudo ali, numa relação que é cotidiana e faz parte das paisagens do dia-a-dia.

Mas não é assim tão fácil. As mulheres cis que amamentam passam por diversas situações de constrangimento e restrição aos seus peitos de fora. Locais apropriados para amamentar. Expulsão de lugares públicos. Convites a amamentarem seus filhos em banheiros ou salinhas “apropriadas”. As restrições moralistas ao “local” da mulher amamentar, e como ela deve amamentar, são absurdos mascarados de “boas regras de convivência”. Machismo camuflado em cada olhar julgador do peito de fora amamentando uma criança.

23ago2013---ha-dois-anos-a-imagem-de-uma-mae-amamentando-enquanto-praticava-ioga-se-tornou-um-viral-na-internet-muitos-pensaram-que-a-foto-foi-produzida-mas-a-mae-amy-uma-das-protagonistas-da-imagem-1377263099440_300x420

Não, a mulher não tem que usar paninho para esconder o peito. Não, não tem que amamentar no banheiro ou em salinhas escondidas. Ela não tem que nada. O lugar da amamentação é onde e quando a mãe e a criança quiserem.  E você que está em volta não tem nada a ver com isso. Acostume-se que a mulher tem um corpo, e que esse corpo pode ser usado como e quando ela quiser, da forma como quiser, e você não tem o direito de tolher ou esconder ou abusar desse corpo. Bem como você não tem o direito de interferir nessa relação: deixa a mulher dar o peito para o bebê, ou não dar o peito para o bebê, pelo tempo que quiser ou não quiser. Para a criança grande demais para mamar ou para a criança pequena demais para ser desmamada. Você não tem nada a ver com isso.

Venho discordando de posturas que praticamente obrigam ou julgam a mulher que hoje escolhe não amamentar. Ou escolhe, no cansaço do seu dia ou da sua noite, dar um complemento para o bebê. Dar um danoninho, uma chupeta. Um leite artificial. Sim, não tenho dúvidas acerca da importância da amamentação. Meu filho mamou até os 3 anos (essa foi a minha escolha e a minha história, que não se aplica a outra pessoa). Bem como não tenho dúvidas de que existe pouco apoio à amamentação, que as mulheres não são orientadas corretamente a amamentar, tirar leite para xs filhxs tomarem enquanto não estão perto etc, e que a indústria do leite artificial é poderosa em seus artifícios capitalistas e suas estratégias para vender leite e desqualificar a força e importância do leite materno, atingindo inclusive diversos profissionais de saúde que atendem essas mulheres.

Sim. Mundo capitalista, indústrias lucrativas em cima das mães e seus bebês, várias estratégias para minar a amamentação e aumentar o lucro das empresas de alimentos. E amamentar é de graça. E está tudo ali. Eu adorava a praticidade da amamentação. Não precisa lavar mamadeira, não precisa esterilizar, não precisa comprar lata de leite, nada. É só colocar o peito pra fora e pronto, você sabe que a criança está bem alimentada. Mas, e a mulher que não quer? Que não gosta? Que não consegue buscar apoio? Que trabalha e não aguenta a criança acordando de madrugada? Que tá cansada? Que tem sono? Ou que simplesmente não quer? Já ouvi absurdos julgadores que não tenho coragem de reproduzir. Não, essa mulher não é obrigada pelo bem do seu bebê. Não, essa mulher não precisa nada. O corpo é dela, o seio é dela, e na minha opinião isso sempre estará acima do que “é melhor para o bebê”. Recentemente vimos o caso absurdo e criminoso de uma mulher ser levada para uma cesárea contra sua vontade pelo argumento falacioso de que “era melhor para o bebê” (veja mais  aqui). Quem sabe o que é melhor para o bebê?

Quando aprenderemos a respeitar a escolha das mulheres, seja ela qual for? Mesmo que consideremos – no caso da amamentação – que essa escolha não totalmente é livre, pelo fato da mulher estar influenciada pela indústria do consumo, vamos respeitar e não intervir na amamentação ou não amamentação alheia? Vamos deixar de lado julgamentos às mulheres e nos concentrarmos na militância contra o sistema? Ademais, já é tempo de garantirmos às mulheres o direito amplo e irrestrito ao próprio corpo.

 1 a 1 a a a a a a ame marcha das vadias meu corpo minhas regras

* texto inspirado em uma discussão no facebook, principalmente nos meus diálogos com Deborah Leão, a quem agradeço a contribuição e as partilhas!

 

 

 

Maré cheia

De tempos e maré cheia.

Mulher_nua,_semi-nua_(Imagem_sensual)_(23)

E então eu fiquei vendo aquela bola alaranjada desaparecer no horizonte. O vento zunia forte uma melodia que me desconcertava os ouvidos. Eu estava feliz. Estranha, e intensamente, feliz. As cores do dia coloriam o que eu não sabia. E eu abraçava quente o presente. O que tinha era bom. Bom de doer os olhos, cheios de areia e brisa de mar. O mesmo mar que me corria por dentro, em medos e incógnitas, e em deslumbramento de poder fluir. No mar o chão é lodo, e também é água. Um chão que suporta o improvável e imprevisível dos dias.

Eu voei. Até onde eu não sabia que podia chegar. Até onde eu me dobrei sobre o controle que não tinha. Vento, gota salgada sob o corpo quente. Beleza que me arrancava lágrimas e silêncios de contemplar a morte. Seu corpo, meu corpo, nossas vidas ali, em mistério de existência conjunta. Docemente enlaçadas, em dança de encher o peito. Sim, o momento era cheio, robusto, vivo. E ele morria secretamente, com o dia que caia no mar.

Assim é, um tempo sempre a escapar. Um porvir de reticências. A terra movediça que nunca vira chão de fincar os pés. O susto do amor, a alegria do respiro, a rota incansável do tempo que lambe a areia e reconstrói paisagens. As dunas móveis, as lagoas de chuva e seca, segredos de vida líquida. Arrepio, calafrio, rumba a beira-mar a cantar o incontido. E as ondas, mansas, sem pressa, fugidias, riem de mim: pequena concha na imensidão submersa. A ida. Para onde não há seta. O destino que nos guarda, buraco frouxo, refluxo, renascença, dúvida, maré que nos cobre, cega, vermelho, escuro, fim.

Das tantas mortes

“…Depois de tanto verbo a pessoa morre. A pessoa morre”.
(Karina Buhr)

pedra-na-agua

Coragem, para as pequenas mortes. Pequenas mortes que antecedem a grande passagem do ego. Pequenos lutos de grandes mortes. Grandes lutos de pequenas mortes. A gente morre. Depois de tanta vida, depois de tanta aspiração, depois de tanto amor, depois de tanto verbo, depois de tanto gozo, depois de tanta dor, como diz Karina Buhr lá em cima, a pessoa morre.

E a gente morre. Viver é estar permeado de morte, com os olhos assombrados pelo escape do tempo, e de nós mesmos. Morrer assusta, mas é bonito. É fluxo de vida, é vida de rio cheio, é vida que vai e não volta, é vida pulsante de tantos tempos que ainda virão. É possibilidade de reinventar-se, de se deixar ir, de deixar ir o que não podemos segurar com as mãos, de ser nada diante do segredo maior de estar vivo. E de ser tudo que se pode ser neste respiro de tempo presente.

A sinceridade – nua e crua, é que a gente morre. E aceitar a morte é aceitar que somos finitos neste instante em que tudo é. Em que os olhos veem e a gente existe. Em que a gente já não é mais, e nunca mais poderá ser.

E tem tanta gente tentando (em vão) segurar a areia que escorre incontida para o outro lado da ampulheta. Tentando se segurar nas certezas expiradas, que já evaporam no ar. Tentando se proteger com bens e seguranças materiais, cercar-se da materialidade e do conforto possível diante da sensação nada segura de estar vivo.

E de nada adianta tanta concretude, não conseguimos conter o tempo. A gente morre. E é melhor morrer vivendo, seguir nadando na correnteza, do que morrer cercado de concretos armados e vazios de ar viciado. De vazios de tudo que podíamos ser, e não fomos. De tudo que não experimentamos, dos vastos mares que não nadamos dentro de nós mesmos. E dentro do mundo, do outro, dos outros, das matas e das florestas verdes ou cinzas. E de tudo não seremos ali, no morto-vivo que não morre e não vive. Que está pela metade se costurando com linha que não junta os pedaços desconexos. Tem tanta vida lá fora. Vida que só tocamos quando paramos de nos proteger do fluxo de ser. E de ser qualquer coisa, qualquer coisa que surge quando paramos de nos proteger das nossas inevitáveis mortes.

E enquanto escrevo digo isso a mim mesma, aos meus próprios medos e inseguranças de vida e morte, bradando aos ventos que me levem.

É verdade: viver dói. Nascer dói, e morrer pode ser alívio. Tem dor, e na dor tem matéria prima do que somos feitos. Tem gozo que antecede a felicidade de estar vivo. Felicidade que não precisa de nada a não ser o pulso. Que se sabe fluída e sempre presente nos intervalos das marés. Que sabe da dor da impermanência. E da beleza das ondas que levam e trazem substâncias vitais. E a gente se refaz ali na beira do mar, que lambe nossa pernas e apaga as marcas na areia. Que molda novos e impossíveis desenhos. Até o último respiro de olhos abertos.

E não adianta se esconder do mar, porque a gente morre. Porque viver é mutabilidade. Caem as unhas, os dentes, os cabelos mudam, a pele enruga, as nossas células gritam e a gente muda por dentro. As sensações mudam, os desejos mudam, a gente morre e renasce em diferentes instâncias de nós mesmos. Até que um dia a gente se desfaz em poeira cósmica e beija as estrelas. Desculpem-me mais uma vez: de nada adianta nosso ego. Ele vira poeira.

E nesse nosso falso mundo de seguranças jurídicas e investimentos no que dá lucro, de pequenezas materiais e mesquinharias aos montes, só me resta rasgar os rótulos e tentar dissipar o medo. E que a gente seja. E viva com sede, biscateando impossíveis desejos e vivências, até a última gota.

De pulos e desordens

De pulos e desordens.

Poema incógnita rachado por dentro. Porque o querer é cheio de desordem.

pulos

De pulos e desordens

E eu que nada sei
Como posso juntar-me a ti?
Ergo os braços
Rendida de mim
Adormeço
Entre escombros e feridas
Ungida
Recolho-me
Como posso juntar-me a ti?

—-
E no salto
Esse nada que me acolhe
Em incertezas e clarezas
Rangidos distantes
Corte no pé
Que cintila vermelho
Na sombra que reflete
Os teus olhos profundos

Colada a tua desordem
O meu corpo nu
As minhas pernas bambas
Inseguras
Firmes de mim
Digo: tenha silêncios
E braços largos
Para o susto veemente
De estarmos vivas
No pulsar constante
Desse querer vasto que nos une

Flor de Inverno

flor

 

Teus medos passeiam pelos percursos do meu corpo

Deslizam suaves através dos pelos que me vestem

Fazem eco nos poros, sussurro aos ouvidos

Gemido, gozo, flor de inverno

 

Amor despido

No ombro onde deitas

No peito que repousas

Na coragem que te brilha quando choras

E quando no escuro te procuro

E nossos olhos mergulham em mar aberto

 

Calmaria, revolução,

Silêncio branco de nuvens que desenham o céu

Galopes tremidos no chão onde repousa o futuro

No porvir onde deitamos,

Sentimos

A embriaguez dos nossos passos largos

A delicadeza do possível

O tempo manso que nos acaricia o cabelo

 

Aqui, presente

Verbo que se faz vivo

Extravasado da vida partilhada que brota vermelha

Colorindo a terra rachada do cerrado

Entre ossos e saliva

Desejo bruto

Trampolim

Nós.

Sobre tempos e maresias

sobre tempos e maresias.

para minha mãe. e meu filho. 

arquivo pessoal

arquivo pessoal

O dia estava cheio como cabia na minha memória. A praia, a mesma praia de tantos dias que formaram meus anos até meados dos vinte.

A vó e o neto adentram o mar de mãos dadas. Adentram as ondas mansas rumo ao horizonte dos navios e do desconhecido da minha infância. A mesma praia que me lavou os cabelos e me embalou pelos anos. Praia de ventos mornos e areia escura. O tempo lavado pelo mar, e pelo salgado que me lambeu as feridas.

Sorrio emocionada por entre os vendedores que anunciam pipas, milhos, mates e tantas alegorias de verão. A multidão de sol me faz zunido aos ouvidos, junto com o embalo bom do mar. A música me penetra e alcança as incógnitas vivas naquele resto de natureza. O vento incansável do tempo me convida a dançar. E eu danço, ensaiando perguntas que me escapam. Dançar as perguntas é mergulhar no mar, esse mesmo mar que me corre por dentro.

O menino pula e a avó sorri, inebriados de maresia. Eles que me formam, eles que me tocam com as ondas que beijam meus pés. Eles que me marcam ciclos, e me brindam com amores que não explico. Um amor casa, e um amor trapézio. Amores estranhos que se misturam nos ossos, que fazem parte da carne que envelhece e se regenera com o correr da vida.

Moldada pela lama de onde venho sigo a travessia, rumo as novas rotas de espuma branca. O menino se cobre de lama, enraizado a beira mar. Mãos que cavam e constroem castelos sempre inacabados, rodeados pelo buraco que será, em pouco tempo, maré cheia. Olho o horizonte de onde parti. E parto, a cada dia. Para até onde correr o mar que nunca começa. E nunca termina.

arquivo pessoal

arquivo pessoal

Domingando

“Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra”*.

 pina2

Então eu te olhei com os olhos livres de teorias. O dia em Brasília se punha com aquela onda vermelha que iluminava o céu, deixando seus últimos rastros de respirar luz. Era luz de quase noite, e o rosa avermelhado embalava nossas horas porvir. O entardecer em Brasília é sempre uma experiência. Daquelas que a gente só consegue explicar com os sentidos, esses mesmos que aguçamos em nossas conversas tão racionais quanto impossíveis.

Eu sorria sua fala demorada, e o papo seguia a rota inebriante dos nossos cigarros. De repente, já era noite. E a gente não sabia. Mansamente eu admirava seu jeito, suas perguntas, sua passionalidade em discursar sobre as incertezas da vida. Suas angústias que já foram tão minhas. E ainda são, vestidas com roupas mais frescas de ventilar a mente. De aceitar a não resposta como a resposta possível. De abraçar o não saber e o não precisar saber como um bálsamo que alivia e refresca a alma.

Não, nem a ciência, nem a religião, eu não tinha mais lastros explicativos. Deixei escorrer pelos dedos os tantos discursos que já foram meus. No momento, a escuta. O assombro. A pequeneza diante do mundo que você tentava laçar com perguntas perspicazes. As nossas mãos estendidas. E a certeza do instante em que seus olhos se voltavam para mim, e os meus para ti, e eu existia quente naquele espaço. A sua boca que eu desejo. O seu corpo vivo no meu. O vento. A vida que invadia a janela e corria para além de nós.

Eu te abracei forte e o existir compartilhado se fez grande, bonito, e eu me calei. Você dizia: “diga”, e eu não tinha palavras. Eu sentia, na exaustão das coisas que complexificamos e perdemos em levezas. Eu descansava no conforto do amor que era nosso chão naquela noite de domingo. Um amor de duas, tão despidas e tão inteiras em nossas faltas. Um amor plantado ali, no meio da sala, que floresce em coloridos que nos escapam. Nós, tão presentes e tão intangíveis, crescendo juntas sem saber para onde.

Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada”*.

*mortal loucura. música de Zé Miguel Wisnik.

música que o grupo corpo (abaixo) faz aterrar em todos os poros da nossa pele.

Sem palavras

 

Mulher vento ventania vendaval

 

Sem palavras, para recordar. Porque hoje me deu saudades, saudades dela: Kiara Terra, minha amiga, minha irmã, minha querida que voa comigo pelas tantas incógnitas e sentimentos que nos assolam. Com quem partilho perguntas, belezas, poesias, dores, e os mais diversos percursos de dentro e fora de mim. Com quem tento arrumar o inarrumável. Com quem não sei de nada, com quem rio de mim mesma horas a fio, com quem reinvento-me despida de certezas. E com quem, vez em quando, escrevo palavras e desenho silêncios para abraçar o pensamento e dançar a vida.

Então, deixo aqui algumas de nossas danças. Daquelas que a gente se solta, e rebola, e busca  mais caminhos para o amor e para dar vazão ao pulso que vem de dentro.

———–

Se a vida toda coubesse em palavras eu escreveria. Sem preguiça cada letra. Frases inteiras, sentenças feitas, espaços vazios preservados. Nelas o intervalo entre nossos olhos. Se coubesse, se fosse o suficiente, eu teria feito. Mas não. A vida escapou-me do controle. A dança enlaçou-me a cintura, fluindo em seu ritmo intenso, requebrando e levando-me para além de mim.
Um sol bonito ensurdeceu meus ouvidos, e encharcou minhas mãos. Tomou pra si minha boca e meu pensamento e, ao invés de escrever, eu vivi. Sem vírgula, cada momento. Vida enchente, vida humana do aqui-e-agora. Vida corredeira, que me surpreende a cada passo em que não penso, e não escrevo. Em que simplesmente sinto, com todos os sentidos despertos para o que corre em sangue e vísceras, em realidades que me escapam às palavras. A vida me ocupa de viver.
Aconteceu e não me lembro quando. Um arrebate sem tempo. Um vento que me levou sem que eu pudesse entender o que me levava. Foi então que eu senti, com o peito aquecido pela luz: sem tocar o chão não há como escrever. Sem pisar a terra não há como fazer poesia tangível. No voo palavra é vento transpassando a pele. No chão palavra é vida possível. Vento sem frio. Mergulho acolhido e quente.
Amor não pode rimar com guerra, pois amor é sorte. Amor não pode ser reticência em espera sem solo. Depois de tocar a pele presente do outro, não há retrocesso possível. Depois de acessar o caminho secreto, viver é flor que desabrocha sem tempo. É perfume que adoça a alma e aumenta a fome. E eu tenho fome de vermelho. Vivo e vivido em desejos de ondas de mar.
Eu rio a brincadeira bonita. Rio da sorte de querer viver. Secretamente antes, agora num declarar de janelas. Agora em vida de correr descalço, sentindo cada folha verde. O tempo das esperas havia terminado. Agora é deslize de apenas ser, nua, sem subterfúgios poéticos de algum dia. Joguei fora minhas réguas que nunca soube usar direito. Sempre foram pequenas para os meus desmedidos.
Estiquei palavra pra cobrir javali. Dobrei lavei e quarei ao sol, e nenhuma frase podia salvar-me de mim. Era nado em direção à correnteza mais forte de estar viva. Estava diante do salto. Cachoeira colossal. Saltei. Corpo na correnteza. O tempo lavou meus cadernos, molhou cada folha, desperdiçou os dias ainda não vividos e li: vá correr  sem medo.
Você nasceu agora, aqui de dentro de mim, e diante disso tudo tem música e sol.
Kiara Terra e Silvia Badim

Kiara Terra e Silvia Badim

 

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Eu sei, eu não deveria dar IBOPE para essxs colunistas machistas, misóginos, e sem graça. Eu sei que não deveria nem comentar as atrocidades que a Folha de São Paulo anda publicando através dos Pondés da vida, mas essa eu não aguentei. Não, não foi nem o Pondé dizendo que não come mulher, foi a tal da Tati Bernardi, essa pseudo-qualquer-coisa, que ganha para escrever atrocidades que além de não terem a mínima graça, nem a menor técnica literária, são preconceituosas e de um machismo agressivo e arrebatador.

Dessa vez Tati resolveu destilar seu veneno às fotos de parto natural que circulam na internet. Não, ela não problematizou o acesso ao parto, nem a cultura da cesárea no Brasil, nem sequer defendeu o direito da mulher ter uma cesárea caso seja da sua vontade (o que eu esperaria de alguém que começa um texto dizendo que gosta mesmo é de luxo e conforto no hospital e nos estabelecimentos de saúde). O problema da moça é ver a xota. A buceta. O que incomoda a pobre pessoa é exatamente ver a buceta das mulheres ao parir.

Buceta. Repete comigo e com a Renata Lima que já escreveu aqui sobre ressignificar a buceta? BU-CE-TA. Quem tem medo de buceta? Buceta pelada, buceta peluda, buceta descabelada. Buceta. Nossa, da outra, de tantas mulheres que as tem. Porque também tem mulher sem buceta. Qual o problema de mostrarmos, e de vermos, bucetas por aí? Não é uma parte do corpo tão importante e tão cheia de bons significados? Porque o horror, o medo, a aversão a buceta ou a xota ou que nome queiramos dar para nossa genitália que tanto pode nos dar prazer?

Vivemos numa sociedade estruturalmente machista. E, nessa sociedade, aprendemos a esconder as nossas bucetas. Buceta é tímida e arredia. Não se mostra. Nem sequer podemos ver as nossas próprias. Nem sequer é autorizado a mulher saber-se, tocar-se e ter prazer. O exercício de pegar o espelho e olhar, intimamente, para as nossas bucetas, é um exercício e tanto. Olhar para dentro e para fora. Olhar os contornos, tocar, ir sabendo-se ali, ir sentindo aonde é bom, aonde tem curvas, aonde tem pelos, aonde tem tesão, aonde tem arrepio. Sentindo seu próprio cheiro, sua própria textura.

Não, não é pecado nem é feio, como dita o moralismo cristão que nos condena. Não, não é ameaçador, como reza o machismo que quer nos dobrar. Nem nojento, como brada Tati Bernardi ao ver uma buceta parindo. É nosso e é, acredite, um terreno cheio de boas possibilidades de prazer.

Acho engraçado que escuto de muitas mulheres ao argumentarem porque não gostam de trepar com outras mulheres: “ah, eu não gosto de buceta, eca”. Ora, não gosta da sua própria? Não teria você também uma buceta cheia de possibilidades para você mesma? Qual o problema da buceta? Não é porque você não tem tesão numa mulher que a buceta é algo repugnante. Não seria, de alguma forma, uma repugnância a você mesma?

Façamos as pazes com as bucetas. Deixemos as mulheres parirem com suas bucetas fotografadas e assumidas. Deixemos as bucetas respirarem livres, olhemos, experimentemos, contestemos o machismo que impede de nos olharmos e sentirmos prazer. Bucetemo-nos!

E Tati Bernardi, beijinho no ombro pro recalque passar longe!

buceta

Do depois

Do Depois, em silêncio de quase amanhã. 

cafe

Então eu te abracei forte, e o quente se fez suspiro. Lá de dentro um sopro cresceu desavisado, e eu só conseguia dizer: fique. Dizer assim meio sem voz, sussurrando aos teus ouvidos colados aos meus, beijando teu corpo nu que dormia no cansaço bom de depois. Fique para amanhã, para ver o sol nascer de mansinho, para ver a chuva cair na janela. Para ver a madrugada romper em silêncio gelado de quase inverno.

Fique para algum dia rirmos do que nunca fomos, para vermos o filme que já saiu do cinema, para desconcertamos os acertos de agora, para criarmos novas e impossíveis metas. Fique para o feijão e arroz do almoço, para o cigarro na beira da janela, para a poesia imprevista do menino correndo pela casa. Por aquela viagem que a gente nunca fez, pelo livro fechado na estante, pelas promessas não formuladas que nunca poderemos cumprir.

Fique para pintarmos as paredes de vermelho, para jogarmos dominó no chão, para comermos pipoca e falarmos do Truffault que nunca vimos, para sorrirmos das besteiras que não cansamos de falar. Para enchermos a cara como se não houvesse amanhã, para nos amarmos de novos e impossíveis jeitos, para tocarmos o intangível que mora ao lado da realidade. E, claro, para cozinharmos a nova receita de panquecas.

Fique para dividirmos essas dores que nos assolam e a gente não consegue dizer por que, para somarmos incompreensões, para nos divertimos na segunda-feira de canal aberto na Tevê. Fique assim meio sem jeito, como quando seguro com medo as tuas mãos, tuas mãos de unhas roídas e cheias de não saber, nossas mãos longas de coragem, nosso desejo vivo por entre os dedos.

E assim vou soltando ao ao seu encontro esse amor com um quê de trágico, com pitadas de exagero sentidas nos ossos, com um quê de riso por trás do choro, com um quê de verde e de fundo de mar. Com os pés fincados na terra fértil, na colheita de algum dia, no porvir das nuvens e das poeiras de agora. E que seja. Até quando ventar e existir sede.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...