Das tantas mortes

“…Depois de tanto verbo a pessoa morre. A pessoa morre”.
(Karina Buhr)

pedra-na-agua

Coragem, para as pequenas mortes. Pequenas mortes que antecedem a grande passagem do ego. Pequenos lutos de grandes mortes. Grandes lutos de pequenas mortes. A gente morre. Depois de tanta vida, depois de tanta aspiração, depois de tanto amor, depois de tanto verbo, depois de tanto gozo, depois de tanta dor, como diz Karina Buhr lá em cima, a pessoa morre.

E a gente morre. Viver é estar permeado de morte, com os olhos assombrados pelo escape do tempo, e de nós mesmos. Morrer assusta, mas é bonito. É fluxo de vida, é vida de rio cheio, é vida que vai e não volta, é vida pulsante de tantos tempos que ainda virão. É possibilidade de reinventar-se, de se deixar ir, de deixar ir o que não podemos segurar com as mãos, de ser nada diante do segredo maior de estar vivo. E de ser tudo que se pode ser neste respiro de tempo presente.

A sinceridade – nua e crua, é que a gente morre. E aceitar a morte é aceitar que somos finitos neste instante em que tudo é. Em que os olhos veem e a gente existe. Em que a gente já não é mais, e nunca mais poderá ser.

E tem tanta gente tentando (em vão) segurar a areia que escorre incontida para o outro lado da ampulheta. Tentando se segurar nas certezas expiradas, que já evaporam no ar. Tentando se proteger com bens e seguranças materiais, cercar-se da materialidade e do conforto possível diante da sensação nada segura de estar vivo.

E de nada adianta tanta concretude, não conseguimos conter o tempo. A gente morre. E é melhor morrer vivendo, seguir nadando na correnteza, do que morrer cercado de concretos armados e vazios de ar viciado. De vazios de tudo que podíamos ser, e não fomos. De tudo que não experimentamos, dos vastos mares que não nadamos dentro de nós mesmos. E dentro do mundo, do outro, dos outros, das matas e das florestas verdes ou cinzas. E de tudo não seremos ali, no morto-vivo que não morre e não vive. Que está pela metade se costurando com linha que não junta os pedaços desconexos. Tem tanta vida lá fora. Vida que só tocamos quando paramos de nos proteger do fluxo de ser. E de ser qualquer coisa, qualquer coisa que surge quando paramos de nos proteger das nossas inevitáveis mortes.

E enquanto escrevo digo isso a mim mesma, aos meus próprios medos e inseguranças de vida e morte, bradando aos ventos que me levem.

É verdade: viver dói. Nascer dói, e morrer pode ser alívio. Tem dor, e na dor tem matéria prima do que somos feitos. Tem gozo que antecede a felicidade de estar vivo. Felicidade que não precisa de nada a não ser o pulso. Que se sabe fluída e sempre presente nos intervalos das marés. Que sabe da dor da impermanência. E da beleza das ondas que levam e trazem substâncias vitais. E a gente se refaz ali na beira do mar, que lambe nossa pernas e apaga as marcas na areia. Que molda novos e impossíveis desenhos. Até o último respiro de olhos abertos.

E não adianta se esconder do mar, porque a gente morre. Porque viver é mutabilidade. Caem as unhas, os dentes, os cabelos mudam, a pele enruga, as nossas células gritam e a gente muda por dentro. As sensações mudam, os desejos mudam, a gente morre e renasce em diferentes instâncias de nós mesmos. Até que um dia a gente se desfaz em poeira cósmica e beija as estrelas. Desculpem-me mais uma vez: de nada adianta nosso ego. Ele vira poeira.

E nesse nosso falso mundo de seguranças jurídicas e investimentos no que dá lucro, de pequenezas materiais e mesquinharias aos montes, só me resta rasgar os rótulos e tentar dissipar o medo. E que a gente seja. E viva com sede, biscateando impossíveis desejos e vivências, até a última gota.

De pulos e desordens

De pulos e desordens.

Poema incógnita rachado por dentro. Porque o querer é cheio de desordem.

pulos

De pulos e desordens

E eu que nada sei
Como posso juntar-me a ti?
Ergo os braços
Rendida de mim
Adormeço
Entre escombros e feridas
Ungida
Recolho-me
Como posso juntar-me a ti?

—-
E no salto
Esse nada que me acolhe
Em incertezas e clarezas
Rangidos distantes
Corte no pé
Que cintila vermelho
Na sombra que reflete
Os teus olhos profundos

Colada a tua desordem
O meu corpo nu
As minhas pernas bambas
Inseguras
Firmes de mim
Digo: tenha silêncios
E braços largos
Para o susto veemente
De estarmos vivas
No pulsar constante
Desse querer vasto que nos une

Flor de Inverno

flor

 

Teus medos passeiam pelos percursos do meu corpo

Deslizam suaves através dos pelos que me vestem

Fazem eco nos poros, sussurro aos ouvidos

Gemido, gozo, flor de inverno

 

Amor despido

No ombro onde deitas

No peito que repousas

Na coragem que te brilha quando choras

E quando no escuro te procuro

E nossos olhos mergulham em mar aberto

 

Calmaria, revolução,

Silêncio branco de nuvens que desenham o céu

Galopes tremidos no chão onde repousa o futuro

No porvir onde deitamos,

Sentimos

A embriaguez dos nossos passos largos

A delicadeza do possível

O tempo manso que nos acaricia o cabelo

 

Aqui, presente

Verbo que se faz vivo

Extravasado da vida partilhada que brota vermelha

Colorindo a terra rachada do cerrado

Entre ossos e saliva

Desejo bruto

Trampolim

Nós.

Sobre tempos e maresias

sobre tempos e maresias.

para minha mãe. e meu filho. 

arquivo pessoal

arquivo pessoal

O dia estava cheio como cabia na minha memória. A praia, a mesma praia de tantos dias que formaram meus anos até meados dos vinte.

A vó e o neto adentram o mar de mãos dadas. Adentram as ondas mansas rumo ao horizonte dos navios e do desconhecido da minha infância. A mesma praia que me lavou os cabelos e me embalou pelos anos. Praia de ventos mornos e areia escura. O tempo lavado pelo mar, e pelo salgado que me lambeu as feridas.

Sorrio emocionada por entre os vendedores que anunciam pipas, milhos, mates e tantas alegorias de verão. A multidão de sol me faz zunido aos ouvidos, junto com o embalo bom do mar. A música me penetra e alcança as incógnitas vivas naquele resto de natureza. O vento incansável do tempo me convida a dançar. E eu danço, ensaiando perguntas que me escapam. Dançar as perguntas é mergulhar no mar, esse mesmo mar que me corre por dentro.

O menino pula e a avó sorri, inebriados de maresia. Eles que me formam, eles que me tocam com as ondas que beijam meus pés. Eles que me marcam ciclos, e me brindam com amores que não explico. Um amor casa, e um amor trapézio. Amores estranhos que se misturam nos ossos, que fazem parte da carne que envelhece e se regenera com o correr da vida.

Moldada pela lama de onde venho sigo a travessia, rumo as novas rotas de espuma branca. O menino se cobre de lama, enraizado a beira mar. Mãos que cavam e constroem castelos sempre inacabados, rodeados pelo buraco que será, em pouco tempo, maré cheia. Olho o horizonte de onde parti. E parto, a cada dia. Para até onde correr o mar que nunca começa. E nunca termina.

arquivo pessoal

arquivo pessoal

Domingando

“Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra”*.

 pina2

Então eu te olhei com os olhos livres de teorias. O dia em Brasília se punha com aquela onda vermelha que iluminava o céu, deixando seus últimos rastros de respirar luz. Era luz de quase noite, e o rosa avermelhado embalava nossas horas porvir. O entardecer em Brasília é sempre uma experiência. Daquelas que a gente só consegue explicar com os sentidos, esses mesmos que aguçamos em nossas conversas tão racionais quanto impossíveis.

Eu sorria sua fala demorada, e o papo seguia a rota inebriante dos nossos cigarros. De repente, já era noite. E a gente não sabia. Mansamente eu admirava seu jeito, suas perguntas, sua passionalidade em discursar sobre as incertezas da vida. Suas angústias que já foram tão minhas. E ainda são, vestidas com roupas mais frescas de ventilar a mente. De aceitar a não resposta como a resposta possível. De abraçar o não saber e o não precisar saber como um bálsamo que alivia e refresca a alma.

Não, nem a ciência, nem a religião, eu não tinha mais lastros explicativos. Deixei escorrer pelos dedos os tantos discursos que já foram meus. No momento, a escuta. O assombro. A pequeneza diante do mundo que você tentava laçar com perguntas perspicazes. As nossas mãos estendidas. E a certeza do instante em que seus olhos se voltavam para mim, e os meus para ti, e eu existia quente naquele espaço. A sua boca que eu desejo. O seu corpo vivo no meu. O vento. A vida que invadia a janela e corria para além de nós.

Eu te abracei forte e o existir compartilhado se fez grande, bonito, e eu me calei. Você dizia: “diga”, e eu não tinha palavras. Eu sentia, na exaustão das coisas que complexificamos e perdemos em levezas. Eu descansava no conforto do amor que era nosso chão naquela noite de domingo. Um amor de duas, tão despidas e tão inteiras em nossas faltas. Um amor plantado ali, no meio da sala, que floresce em coloridos que nos escapam. Nós, tão presentes e tão intangíveis, crescendo juntas sem saber para onde.

Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada”*.

*mortal loucura. música de Zé Miguel Wisnik.

música que o grupo corpo (abaixo) faz aterrar em todos os poros da nossa pele.

Sem palavras

 

Mulher vento ventania vendaval

 

Sem palavras, para recordar. Porque hoje me deu saudades, saudades dela: Kiara Terra, minha amiga, minha irmã, minha querida que voa comigo pelas tantas incógnitas e sentimentos que nos assolam. Com quem partilho perguntas, belezas, poesias, dores, e os mais diversos percursos de dentro e fora de mim. Com quem tento arrumar o inarrumável. Com quem não sei de nada, com quem rio de mim mesma horas a fio, com quem reinvento-me despida de certezas. E com quem, vez em quando, escrevo palavras e desenho silêncios para abraçar o pensamento e dançar a vida.

Então, deixo aqui algumas de nossas danças. Daquelas que a gente se solta, e rebola, e busca  mais caminhos para o amor e para dar vazão ao pulso que vem de dentro.

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Se a vida toda coubesse em palavras eu escreveria. Sem preguiça cada letra. Frases inteiras, sentenças feitas, espaços vazios preservados. Nelas o intervalo entre nossos olhos. Se coubesse, se fosse o suficiente, eu teria feito. Mas não. A vida escapou-me do controle. A dança enlaçou-me a cintura, fluindo em seu ritmo intenso, requebrando e levando-me para além de mim.
Um sol bonito ensurdeceu meus ouvidos, e encharcou minhas mãos. Tomou pra si minha boca e meu pensamento e, ao invés de escrever, eu vivi. Sem vírgula, cada momento. Vida enchente, vida humana do aqui-e-agora. Vida corredeira, que me surpreende a cada passo em que não penso, e não escrevo. Em que simplesmente sinto, com todos os sentidos despertos para o que corre em sangue e vísceras, em realidades que me escapam às palavras. A vida me ocupa de viver.
Aconteceu e não me lembro quando. Um arrebate sem tempo. Um vento que me levou sem que eu pudesse entender o que me levava. Foi então que eu senti, com o peito aquecido pela luz: sem tocar o chão não há como escrever. Sem pisar a terra não há como fazer poesia tangível. No voo palavra é vento transpassando a pele. No chão palavra é vida possível. Vento sem frio. Mergulho acolhido e quente.
Amor não pode rimar com guerra, pois amor é sorte. Amor não pode ser reticência em espera sem solo. Depois de tocar a pele presente do outro, não há retrocesso possível. Depois de acessar o caminho secreto, viver é flor que desabrocha sem tempo. É perfume que adoça a alma e aumenta a fome. E eu tenho fome de vermelho. Vivo e vivido em desejos de ondas de mar.
Eu rio a brincadeira bonita. Rio da sorte de querer viver. Secretamente antes, agora num declarar de janelas. Agora em vida de correr descalço, sentindo cada folha verde. O tempo das esperas havia terminado. Agora é deslize de apenas ser, nua, sem subterfúgios poéticos de algum dia. Joguei fora minhas réguas que nunca soube usar direito. Sempre foram pequenas para os meus desmedidos.
Estiquei palavra pra cobrir javali. Dobrei lavei e quarei ao sol, e nenhuma frase podia salvar-me de mim. Era nado em direção à correnteza mais forte de estar viva. Estava diante do salto. Cachoeira colossal. Saltei. Corpo na correnteza. O tempo lavou meus cadernos, molhou cada folha, desperdiçou os dias ainda não vividos e li: vá correr  sem medo.
Você nasceu agora, aqui de dentro de mim, e diante disso tudo tem música e sol.
Kiara Terra e Silvia Badim

Kiara Terra e Silvia Badim

 

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Eu sei, eu não deveria dar IBOPE para essxs colunistas machistas, misóginos, e sem graça. Eu sei que não deveria nem comentar as atrocidades que a Folha de São Paulo anda publicando através dos Pondés da vida, mas essa eu não aguentei. Não, não foi nem o Pondé dizendo que não come mulher, foi a tal da Tati Bernardi, essa pseudo-qualquer-coisa, que ganha para escrever atrocidades que além de não terem a mínima graça, nem a menor técnica literária, são preconceituosas e de um machismo agressivo e arrebatador.

Dessa vez Tati resolveu destilar seu veneno às fotos de parto natural que circulam na internet. Não, ela não problematizou o acesso ao parto, nem a cultura da cesárea no Brasil, nem sequer defendeu o direito da mulher ter uma cesárea caso seja da sua vontade (o que eu esperaria de alguém que começa um texto dizendo que gosta mesmo é de luxo e conforto no hospital e nos estabelecimentos de saúde). O problema da moça é ver a xota. A buceta. O que incomoda a pobre pessoa é exatamente ver a buceta das mulheres ao parir.

Buceta. Repete comigo e com a Renata Lima que já escreveu aqui sobre ressignificar a buceta? BU-CE-TA. Quem tem medo de buceta? Buceta pelada, buceta peluda, buceta descabelada. Buceta. Nossa, da outra, de tantas mulheres que as tem. Porque também tem mulher sem buceta. Qual o problema de mostrarmos, e de vermos, bucetas por aí? Não é uma parte do corpo tão importante e tão cheia de bons significados? Porque o horror, o medo, a aversão a buceta ou a xota ou que nome queiramos dar para nossa genitália que tanto pode nos dar prazer?

Vivemos numa sociedade estruturalmente machista. E, nessa sociedade, aprendemos a esconder as nossas bucetas. Buceta é tímida e arredia. Não se mostra. Nem sequer podemos ver as nossas próprias. Nem sequer é autorizado a mulher saber-se, tocar-se e ter prazer. O exercício de pegar o espelho e olhar, intimamente, para as nossas bucetas, é um exercício e tanto. Olhar para dentro e para fora. Olhar os contornos, tocar, ir sabendo-se ali, ir sentindo aonde é bom, aonde tem curvas, aonde tem pelos, aonde tem tesão, aonde tem arrepio. Sentindo seu próprio cheiro, sua própria textura.

Não, não é pecado nem é feio, como dita o moralismo cristão que nos condena. Não, não é ameaçador, como reza o machismo que quer nos dobrar. Nem nojento, como brada Tati Bernardi ao ver uma buceta parindo. É nosso e é, acredite, um terreno cheio de boas possibilidades de prazer.

Acho engraçado que escuto de muitas mulheres ao argumentarem porque não gostam de trepar com outras mulheres: “ah, eu não gosto de buceta, eca”. Ora, não gosta da sua própria? Não teria você também uma buceta cheia de possibilidades para você mesma? Qual o problema da buceta? Não é porque você não tem tesão numa mulher que a buceta é algo repugnante. Não seria, de alguma forma, uma repugnância a você mesma?

Façamos as pazes com as bucetas. Deixemos as mulheres parirem com suas bucetas fotografadas e assumidas. Deixemos as bucetas respirarem livres, olhemos, experimentemos, contestemos o machismo que impede de nos olharmos e sentirmos prazer. Bucetemo-nos!

E Tati Bernardi, beijinho no ombro pro recalque passar longe!

buceta

Do depois

Do Depois, em silêncio de quase amanhã. 

cafe

Então eu te abracei forte, e o quente se fez suspiro. Lá de dentro um sopro cresceu desavisado, e eu só conseguia dizer: fique. Dizer assim meio sem voz, sussurrando aos teus ouvidos colados aos meus, beijando teu corpo nu que dormia no cansaço bom de depois. Fique para amanhã, para ver o sol nascer de mansinho, para ver a chuva cair na janela. Para ver a madrugada romper em silêncio gelado de quase inverno.

Fique para algum dia rirmos do que nunca fomos, para vermos o filme que já saiu do cinema, para desconcertamos os acertos de agora, para criarmos novas e impossíveis metas. Fique para o feijão e arroz do almoço, para o cigarro na beira da janela, para a poesia imprevista do menino correndo pela casa. Por aquela viagem que a gente nunca fez, pelo livro fechado na estante, pelas promessas não formuladas que nunca poderemos cumprir.

Fique para pintarmos as paredes de vermelho, para jogarmos dominó no chão, para comermos pipoca e falarmos do Truffault que nunca vimos, para sorrirmos das besteiras que não cansamos de falar. Para enchermos a cara como se não houvesse amanhã, para nos amarmos de novos e impossíveis jeitos, para tocarmos o intangível que mora ao lado da realidade. E, claro, para cozinharmos a nova receita de panquecas.

Fique para dividirmos essas dores que nos assolam e a gente não consegue dizer por que, para somarmos incompreensões, para nos divertimos na segunda-feira de canal aberto na Tevê. Fique assim meio sem jeito, como quando seguro com medo as tuas mãos, tuas mãos de unhas roídas e cheias de não saber, nossas mãos longas de coragem, nosso desejo vivo por entre os dedos.

E assim vou soltando ao ao seu encontro esse amor com um quê de trágico, com pitadas de exagero sentidas nos ossos, com um quê de riso por trás do choro, com um quê de verde e de fundo de mar. Com os pés fincados na terra fértil, na colheita de algum dia, no porvir das nuvens e das poeiras de agora. E que seja. Até quando ventar e existir sede.

Estupro, violência doméstica e ignorância machista

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É, a recente pesquisa do IPEA tem causado reações fortes da sociedade brasileira, que têm percorrido redes sociais e provocado debates acalorados. De um lado, pessoas indignadas por constatarem numericamente o que temos falado e lutado há tanto tempo aqui neste clube (vejam aqui): vivemos numa sociedade machista onde as mulheres são violadas sexualmente, e essa violência é imputada à mulher pelo seu “comportamento”, sua roupa, ou sua liberdade sexual. Culpabilizamos a mulher pelo estupro. E esse absurdo ficou claro como o sol do meio dia. Estamos tirando o véu que mascara a hipocrisia machista. Resta-nos encarar de frente essa merda toda.

E parece óbvio dizer, mas não é: nenhuma mulher merece ser estuprada. O tamanho da minha saia ou do meu decote não é um convite ao seu olhar e a sua violência machista. Ao seu comentário nojento, ao seu assédio, ao seu toque não consentido, à sua moléstia, à sua agressão, ao seu pau ereto em busca de um prazer que não quer ser compartilhado.cCom roupa ou sem roupa, como nos diz a diva Valeska Popozuda, um estupro NUNCA pode ser justificado pelo comportamento da mulher. Parece óbvio, mas está comprovado que não é.

popozuda

E essa comprovação causa revolta e gerou um movimento grande no facebook, que se espalhou até internacionalmente e ganhou o apoio da Presidente Dilma: #EuNãoMereçoSerEstuprada. Nesta página milhares de mulheres começaram a se manifestar, contando casos de abusos sexuais e estupros, e postando fotos com cartazes de protesto: NÓS NÃO MERECEMOS SER ESTUPRADAS. NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA. E por aí vai.

E então veio o outro lado, feroz, babando, emanando ódio. Homens e mulheres entraram no evento para defender e propagar seu machismo devastador. Fiquei chocada com os comentários que recebi na minha foto, e que li em tantas e tantas postagens. Vejam um exemplo, prendam e respiração e cuidado com o enjoo:

nojo

Não que eu não os soubesse. Mas vê-los ali tão perto, e tão enfáticos, me fizeram crer que a nossa luta é ainda maior do que eu imaginava. Chamaram-me de puta, perguntaram quanto era o programa, teceram comentários nojentos e assediadores. Como se uma puta não merecesse todo respeito. Como se uma puta pudesse ser violada sexualmente. Não senhores machistas e criminosos, não pode. NENHUMA MULHER PODE.

O show de horror percorreu todas as postagens e cantos da página. Comentários machistas, assédios, julgamentos e incitações ao estupro. Culpabilização da mulher pela violência que sofre. Tentativa machista e tolher a mulher e poder violá-la se ela foge de seus padrões. Uma foto que me chocou foi a foto abaixo, dizendo que nenhuma mulher é estuprada lavando louça.

louça

Ora senhores, que machismo desinformado e ignorante! Nunca ouviram falar em violência doméstica? Não sabem que vivemos um feminicídio sem precedentes, onde a cada duas horas uma mulher é morta vítima da violência de gênero no Brasil e que a violência que a mulher sofre dentro de suas casas pelos seus maridos, companheiros ou namorados é a principal causa disso?

Em 2012, dos atendimentos no SUS categorizados como Violência Contra a Mulher (que sabemos que é subnotificado) 65,4% dos casos se enquadram na categoria Violência Doméstica e/ou Sexual e, pasmem, em 80% dos casos reportados o agressor é o próprio parceiro/marido/ou namorado. Então, por favor, não me venham com esse argumento falacioso! Porque nem as mulheres em casa, lavando louça, e se submetendo aos padrões de “bom comportamento” que o patriarcado nos quer impor, estão livres da violência de gênero, incluindo a violência sexual (fonte: mapa de violência contra a mulher, aqui).

Citando o referido mapa, temos: “71,8% dos incidentes acontecendo na própria residência da vítima, permite entender que é no âmbito doméstico onde se gera a maior parte das situações de violência vividas pelas mulheres”.

Mulheres são estupradas, agredidas e mortas dentro de suas casas. Mulheres são estupradas lavando louça, de burca, de calça comprida, de roupa de inverno, coberta até a cabeça. Mulheres são estupradas com roupas decotadas, de biquíni, sem blusa, seminuas, nuas. Mulheres são estupradas de todos os jeitos, de todas as formas, em becos escuros ou dentro de suas casas, na saída da escola, no metrô, no banheiro cheio do bar. Não há desculpa para a violência de gênero a não ser o seu machismo. A culpa do estupro é sempre do agressor.

É hora de gritar ainda mais alto, e se fortalecer ainda mais para a luta: Não passarão! A missão vai ser cumprida! Basta de estupro, basta de feminicídio, basta de violência contra a mulher!

naopassarao

Sobre crianças e preconceitos

Sobre crianças e preconceitos. Arquivo pessoal

 Uma das poucas certezas que tenho nessa jornada nada objetiva que é ser mãe, é que quero ser sincera com meu filho. Quero sinceridade nessa troca de vida, nessa relação que se convencionou chamar de mãe e filho (aqui conto mais sobre). Quero poder ser quem eu sou, quem busco ser, ou ainda o que não sei, do lado dele. Sou mãe faltante, mãe-avó, mãe que chora, mãe que trepa, mãe que ama, mãe que ri, mãe que não sabe. E acima de tudo – e antes de ser mãe – sou mulher que se quer livre para ser o que quiser. E dentre essas tantas coisas, sou mulher que se relaciona com mulheres. Afetiva e sexualmente.

E sim, meu filho sabe, claro que sabe. Sim, tenho uma namorada que convive em casa conosco. E sim, está tudo bem. Acho engraçado porque escuto, com muita frequência, a seguinte pergunta: “Nossa, mas como seu filho lida com isso?”. Ou, ainda: “Como é para ele? Ele aceita?”. Acho curioso que as pessoas pressupõe, sempre, que eu ter uma namorada é uma questão para ele. Um problema. E não, não é. Temos alguns, mas esse não é um deles.

Quando as perguntas chegam, nós olhamos juntos. Seguramos na mão um do outro, muitas vezes, para dar conta do preconceito que a sociedade nos obriga a passar. E vai ficando cada dia mais fácil, porque vivemos com naturalidade essa estrutura familiar que somos, dentro e fora de casa. Percebo que ele cresce seguro, porque tem amor. E amor nunca dói, ou fere, ou traz problemas. O que dói é o preconceito e a homofobia que a estupidez humana insiste em cultivar e espalhar aos ventos. E que já sentimos cravada na pele, com medo de agressões e violências que pessoas mal resolvidas e criminosas podem cometer.

Mas seguimos, com força e esperança. Ele, aos 7 anos, já sabe que o amor é livre para ser vivido como for. E que a gente pode ser o que quiser, com quem quiser. Desde cedo fomos desconstruindo imposições sociais como: “menina tem que namorar menino”, “família é uma mulher e um homem, mulher com mulher é errado”, “homem que é homem faz isso ou aquilo”, “rosa é cor de menina”. E fomos aprendendo a sorrir para o apontar de dedos. Jogamos o problema para quem aponta.

Vivemos o que é bonito com confiança, e ele segue com a alegria de acompanhar pessoas que se amam partilharem esse amor. Tenho algumas histórias boas desse nosso pequeno militante e sua amiga-irmã Sol, vamos ouvir algumas?

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Almoço em família no fim do ano. Estávamos eu, minha mãe, minha sobrinha e Bernardo, conversando sobre coisa nenhuma. No meio da conversa Bernardo conta algo que envolve a Cláudia, minha namorada, na mesa do almoço. Minha sobrinha de 5 anos logo pergunta: “tia, quem é Cláudia?”. Minha mãe se apressa em responder: “É uma amiga da sua Tia Sil”. Bernardo olha feio para a avó. A avó não entende. “O que foi Be?”. Ele não pensa duas vezes: “Vó, a Cláudia não é amiga da minha mãe. Ela é NAMORADA da minha mãe tá? E tudo bem!”. Fim de papo Vó. Vamos para a sobremesa?

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 Fila do supermercado, carrinhos cheios, a noite chegando com seu cansaço de fim de dia. Atrás da gente uma senhora folheia a revista Caras, com a Daniela Mercury anunciando casamento com a namorada. Indignada, tenta puxar papo com a mãe e seu filho na frente da fila. No caso a mãe – eu. O filho Bernardo, que corre por entre os atrativos deixados nas proximidades dos caixas. “Olha só, agora isso é um casamento, onde já-se-viu! Que absurdo”, segue a Senhora. A coisa ia piorar quando Bernardo surge do meio dos chocolates, olha para a Dona Carola e diz: “moça, é igual uma homem e uma mulher. Só que é uma mulher e uma mulher”. Eu só acenei e sorri. E, claro, deixei o Be levar os 3 chocolates que carregava nas mãos.

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Sol e Be correm pelas mesas do bar. Amigos desde sempre, tem aquela boa intimidade de quem cresce junto. Brigam, se amam, inventam jogos e brincadeiras, descobrem o mundo um pouco a cada dia. Uma pessoa dita adulta, querendo fazer graça, pergunta pra Sol: “Sol, o Be é seu namorado?”. O olhar da menina, então com 5 anos, espanta-se. “Nãaaaao, o Be é meu melhor amigo. Minha namorada é a Betina”. Vamos tomar mais cerveja para descer a heteronormatividade chata da pergunta?

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Um dia por curiosidade pergunto: “Be, o que você falaria para alguém que perguntasse para você o que você acha da sua mãe namorar uma mulher?”. Ele pensa, sorri, e diz: “Ah mãe, eu falo que a minha mãe é que decide. Que eu não sou a minha mãe, e ela que sabe. E que ter duas mães é bem legal!”. É, ganhei meu dia. Talvez o ano todo.

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Por fim, deixo um recado para você, homofóbico:

Não use crianças como desculpa para mascarar seu preconceito. Garanto-lhe que as crianças enxergam e convivem com o amor de forma livre e bonita, como for. A estupidez é sua.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Dos extermínios

Dos extermínios

Dos extermínios

Pátria amada

O que oferece a teus filhos, sofridos

Dignidade ou jazigos?”*

Pois então. Vivemos num Estado Democrático e Social de Direito. Um Estado que garante, já no seu primeiro artigo constitucional, incisos II e III, respectivamente, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Dignidade, esse conceito amplo, que tentamos diariamente alocar para dentro do Direito. De que tentamos nos apropriar para agir e lutar diante das atrocidades que vemos todos os dias estampadas em jornais, revistas, mídias sociais e nas ruas deste país. É, esse mesmo país.

De quem é essa dignidade? Quem é essa “pessoa humana” que tem direito à dignidade? E mais, quem tem direito à vida? Essas perguntas ecoam diante do extermínio que assistimos, cotidianamente, da população negra e pobre. (Sem contar o feminicídio e as mortes de homossexuais por homofobia).

Abre parênteses = “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Fecha parênteses.

Não, não somos. Não temos todos o mesmo direito à vida e à liberdade. A essa famosa dignidade. Pelo contrário. Esses direitos, na prática, são relativos e pertencentes a uma minoria branca e abonada. Para a maioria sobra assistir, em mornas rebeldias, o extermínio consentido e declarado do “resto” da sociedade.

“Vamos às atividades do dia:

Lavar os corpos, contar os corpos,

E sorrir,

A essa morna rebeldia…”*

Essa semana foi a vez da Cláudia. Mulher, negra, pobre, executada cruelmente pela polícia carioca (aqui). Cláudia foi comprar pão, num dia como outro qualquer. E nesse trajeto foi baleada erroneamente pela Polícia. Para se livrar do “corpo estendido no chão”, a polícia arrastou Cláudia, ainda viva, com seu corpo batendo fora da viatura em movimento. Como um saco, um objeto que não serve mais, um dejeto que não merece sequer um lugar para ser depositado.

Essa cena hedionda me fez chorar tanto. Essa mesma cena hedionda que é cotidiana nas favelas e em tantas comunidades periféricas. Tantas mortes protagonizadas pela Polícia que deveria, em tese, garantir exatamente a segurança de todos nós, cidadãos brasileiros, independente de etnia, condição social, gênero, sexualidade ou cor da pele.  É o Estado exterminando gente que não interessa para a elite. Gente que atrapalha porque ameaça a segurança das posses e propriedades capitalistas e higienistas. Das tradições cristãs desse Estado machista e homofóbico.

Cláudia é mais uma mulher exterminada pela polícia. Mais uma negra. Mais uma vítima do nosso pretenso Estado de Direito. Mais um corpo jogado fora pelos nossos “donos do poder”, que são os únicos nesse país que podem bater no peito e fazer valer seus direitos de cidadania, vida, segurança e dignidade.

E andam ressaltando pelas notícias internet afora que Cláudia era mãe de 4 filhos, casada, e cuidava de mais 4 sobrinhos. Uma mulher de “respeito”. Uma mulher “correta”. Preocupa-me esse argumento porque não importa se Cláudia era mãe, auxiliar de enfermagem, prostituta, traficante, dona de loja, se tinha ou não filhos, se dava pra todo mundo, dançava até o chão no baile funk ou era casada. Cláudia era um ser humano que merecia respeito. Não porque era casada ou tinha filhos. Mas porque era uma cidadã deste país, que deveria zelar pela sua integridade e dignidade.

É, vivemos em uma sociedade que executa seus cidadãos pobres e negros, bem como suas mulheres, sob o manto de um Estado Democrático e Social de Direito. Já é hora de destruirmos esse véu, de desnudarmos a realidade, e de fazermos valer esse Estado que no papel é de todos.

Vamos ao Criolo?

*Versos da música Lion Man, do Criolo

A delicadeza do amor possível

Porque eu descubro a cada dia,

Com os olhos fundos de agradecimento

Que ainda melhor que o sonho

É a vida possível.

A delicadeza do amor possível

A delicadeza do amor possível

O cheiro do café invade a casa no sábado de manhã, cheiro morno de aconchego saindo pelas frestas da janela que nos guarda da chuva. A casa desarrumada e nossos restos de ontem espalhados pelo chão. As crianças brincando no quarto, o pão quase queimado, a louça desordenada na pia que a gente não lavou. Você.

Nossos pés enlaçados enquanto você devora o livro comprado na mesa do bar. Em meio aos nossos copos sempre cheios de risadas e indagações sobre a vida. Você me beija e volta os olhos curiosos para os mistérios de Philip Roth, perdida nas letras e em outros tantos lugares. Aí eu te abraço forte e deito sobre seu corpo, perdida em outras paragens. Tão lá e tão aqui, tão junto, tão. Tão bom. Tão eu.

Volto ao café, preparo o filme na Tevê, enrosco-me no tesão que me sobe o corpo quando você levanta meio dormindo, enche a xícara e acende o cigarro. Então eu te digo algo sobre as minhas pirações existenciais, o papo vai da preguiça de fazer o almoço até a falta de qualquer definição sobre sexualidade, de Foucault até a fofoca que a gente leu no facebook. Filosofamos e rimos das nossas maluquices acolhidas, falamos besteiras, o dia passa, a manhã se vai.

Sorrio de repente ao estar feliz, tão feliz no possível que me invade o coração. Semeio os grãos, coloco os pés na terra com um prazer indescritível de sentir o molhado, vivo, por entre os dedos. E oscilo como sempre, visito a tristeza da finitude, olho de longe a angústia da vida que vai e nunca mais volta a mesma. Dessas que eu te falo, e te choro em silêncio quando a noite vem e eu não sei.

Então abro as mãos e deixo ser. Na beira dos meus abismos, flerto o escuro e a vertigem me acorda. Não, eu já não pulo. Escolho as trilhas que me levam para o alto da montanha, para a beira da praia, para o meio do caos da cidade que a gente passeia com vontade de mais. Para a felicidade possível de se apalpar em suspiros. Para a coragem de poder, e ser permitir, ser feliz no que tocamos com os olhos admirados de encanto. O possível que nos enche de pequenas e extraordinárias grandezas.

E mesmo aqui a gente continua não sabendo, a gente tem medo, a gente fraqueja em nossas humanidades e contradições de ser. E a gente também é forte (ou quase) para seguir em frente assim, como for, na reinvenção sempre constante de ser quem se é. E quem se é mesmo?

Olhamos a pergunta e nos perguntamos. Alto, consentido. Aqui onde o amor invade e as perguntas podem ser feitas. Onde a gente não é nada e pode ser tudo ao mesmo tempo. Onde não temos definições, apenas mais querer e não saber. E que assim cresça, com nós duas tão despidas de certezas e tão vivas no presente. Aqui, e agora. E que.

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