esse outro dia

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Um tambor toca ao longe. Não sei a mirada do que me espera. Desejo. Desenho traços que não conheço. A morada dos meus olhos repousa longe. O que será que virá? Traço rotas impossíveis de serem tocadas por minhas mãos. Agora.

Não agora. Adivinho. O futuro repousa suave nas asas que me assombram. Faz vento sobre meus olhos. Repouso as sombras que minhas mãos não alcançam. Sobrevoo. Não será agora que toco o que não sei. Espero. Suspenso. Entrelinhas que se abrem sobre os impossíveis de minhas mãos. Trêmulas. Acendo os cigarros que não fumo mais. Nessa fumaça que se ergue, nuvem suspensa, deixo-me guiar pelo destino improvável que me abraça.

Abraço, sem braços possíveis para tocar minha intensidade. Viva, por dentre os dedos. Te toco. Lembrança imaginária da pele que me habita. Habito. Um hálito que se foi, de ontem, da lembrança de ti sobre meu corpo que não alcanço.

Um dia, que será logo. Logo mais. Promessa. Prometo. Derramo-me em linhas longilíneas que percorrem meu corpo. Adormeço como alguém que escapa no que há de vir. É logo mais, meu amor. O pouso que se esparrama em hipóteses. Seguro. Aperto. Sou eu em mim, é você em ti. Pode ser. É. Quantos verbos. Quantas ações e equações desse ser que se conjuga. Conjugo. Nós, terceira pessoa do plural.

É tudo muito. Como os soluços do choro que não se derrama porque não tem água para banhar tudo. E a chuva que não para de cair desse céu de novembro, o sol em sagitário que solta todos os cavalos selvagens do meu peito. Cavalgo por entre planícies e quedas de cachoeiras imaginárias. Deixo correr. A garganta seca dessa sede que não passa e não se faz dezembro. Vou sonhar contigo, quando o sono vier. Outro dia. É o que desejo. Esse outro dia.

Revolução

Que ninguém nunca mais tenha que cortar a si mesma para caber dentro de um nome, uma caixa, um relacionamento, uma diretriz, uma norma. Que nossos erros sejam nossos, sejam pulverizadores, sejam construção. Que saibamos que todas somos faltantes, todos, que os certos e errados são nossos e de mais ninguém. que saibamos perdoar as mágoas, que possamos renascer em dias felizes, que possamos aprender que amar é verbo expansivo, que possamos florescer nas tempestades e rios cheios, que possamos ir além do evangelho. 

Que possamos transgredir a mentira do outro para ele mesmo, que possamos diluir a ideia que fazem de nós. Que possamos ser a mentira que quisermos, que possamos calar, individualizar e virar manto coletivo, que consigamos adentrar os julgamentos com a cara limpa de quem é, de quem ultrapassa as sentenças condenatórias para apenas voar para além do gesso dos dedos que nos apontam. 
 
Que se quebrem os gessos, todos, um por um, que se calem as maledicências de quem não olha pra si mesmo, que se rompam os silêncios e caras feias de fome de vida. Que os sofrimentos sejam cada dia mais desnecessários, porque viver, viver nos ultrapassa em ventos abertos de horizontes farto. Que a leveza possa ser uma escolha, que a vida renasça a cada ciclo acolhida pelo jardim, que as mãos estejam sempre sujas de realidade. E que saibamos sempre viver a vida possível. Está tudo bem do jeito que está. Embora haja tanto mar e tantos novos e melhores mundos para serem construídos. 
 
Que ninguém mais precise rimar amor com dor, que se soltem as selas e os cavalos selvagens possa correr e ter para onde voltar, que a água seja límpida, aquela que vem de dentro da nossa sede, que amar possa finalmente ser um verbo expansivo, que as travessias penosas nos ensinem a sermos flor de vento que sorri nos redemoinhos. 
 
axé. eparrei. correnteza, chão de terra, trovão, clarão. 
 

revolução.

Oração para Leveza

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Ilustração de Beatriz Vivanco

Com a cabeça no chão, para ouvir as entranhas do terra:

Abrir espaço. Arejar . Tornar-se senhora da dança que vem de dentro. Um pé depois do outro. Trocar os sapatos. Esparramar-se. Ouvir a batida do coração. Permitir o ritmo dos quadris. Decantar. Colocar-se no colo. Nascer um pouco a cada dia. Reiventar o passo. Aprender a ter olhos limpos para o horizonte. Cada dia uma cor. Não reter : abrir as mãos para a impermanência. Corpo leve na correnteza. Admirar o fluxo. Acolher a dor. Espalhar o perfume no vento. Soltar o cavalo da sela. Dar-se flores. Traçar as rotas sem bússola e pretensão de acerto. Lembrar-se de sorrir para as miudezas. Tomar banho de chuva depois da seca. Passar os dedos nas rachaduras do sol. Sentir a pele queimada com gosto de sal. Tocar-se. Poder abrir o peito quando o choro vem. Permitir-se a dúvida. Enterrar as culpas no jardim. Afofar a terra. Olhar os buracos sem medo do fundo. Abracar-se no correr do dia. Comer a ansiedade aos pouquinhos. Desenrolar-se no chão de cimento. Espinha ereta. Batom vermelho. Gozar com os próprios dedos. Deixar a porta aberta para o acaso. Experimentar-se. Deixar vir o amanhã sem medo das perdas. Reconstruir-se. Rasgar as máscaras. Flertar com a solidão como lugar de pertencimento. Dar comida aos pássaros interiores. Navegar-se em mar aberto. Deitar no sol. Sentir a areia por entre os dedos. Procurar abrigo nas tempestades. Saber receber. Poder amar com os pedaços que faltam. Permitir-se ser lagoa calma nas estiagens. Despir-se. Mergulhar nas águas interiores. Sentir o escuro. Travessia. Uma onda depois da outra.

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Navegante

Naquele fim de tarde a tristeza era uma velha conhecida, visitando-me com roupas novas de um novo inverno. O frio me abraçava os pés gelados, colados no chão de cimento do quintal da casa. Assim como eu gostava de costurar minhas – meias – verdades, sempre cheias de perguntas sem resposta. Nua no chão de cimento, sentindo o gelado percorrer minha espinha, soltando ar frio pelos pulmões, tão presente quanto meus assombros.

De novo estava só em meus pensamentos de quase noite. Pensei em ti ali do lado, tão perto e tão longe, envolva em dores que eu não conseguia segurar, nem ao menos partilhar – como tanto se espera. Assustada com minha fragilidade diante dos sustos da vida. Eu menina contorcida no canto do quarto, revisitando lugares, tecendo dores nas minhas cobertas esvaziadas de afeto.

O amor é estranho. Um bicho arredio de penas longas, macias, que se assusta fácil. Afugentado por anos de posses e certezas sobre como se ama. Nós, pobres tentantes, tão cheios de sentenças feitas que não cabem no espanto de sentir. Coisas da nossa cultura positivista. Seja nos livros acadêmicos, seja nas religiões cristãs que explicam tudo. A gente precisa saber como. Mesmo quando não é possível somar equação alguma. Quando os ponteiros desorientam-se na tempestade de ventos e areia de mar revolto. Mesmo quando a vida pede calma e um tempo de espera em suspenso.

Não sabemos contemplar o horizonte tomado de ondas e esperas à beira mar. Temos que finalizar a tese com conclusões, com respostas que nos levam sem ao menos termos maturado o tempo de estio. Esse tempo que não podemos perder e que nos perde, o tempo todo, nessa costura estranha e espessa de calos e mágoas. Nossos relacionamentos sem paciência para o tempo de plantar a desconstrução de nós mesmos. E de colher a nudez, sem regras, réguas e exigências estranhas ao sentir do amor. Sem vestir, logo e com voracidade, essa roupa pequena que nos sufoca e nos aperta a vista, cega para o que de fato somos e queremos em nossas solidões partilhadas.

O nosso amor padrão capitalista, superestimado em poesias de Vinícius e contas correntes conjuntas, acalentado em vasos curtos e caros comprados nos shoppings que vendem à prazo no cartão, uma conta que nunca terminamos de pagar. Todas essas alegorias tão frágeis e tão pequenas diante de tudo que se sente com o peito aberto. Toda essa dor de não caber no comercial de margarina onde o outro não nos falta, onde não tem vazio nem dúvida nem medo nem nada entrecortado por espaços em branco. Onde o amor é tão fácil e completo como o kit colorido que vem junto com a carta de princípios e o conjunto de regras morais. É só achar a pessoa que. Ou não é a pessoa porque isso, aquilo, aquilo outro que.

E é amor também esse tanto que nos escapa nas entrelinhas, esse tanto que nos falta em respostas, em caminhos, essa falta tamanha, sem contornos e sem rédeas. Esse tanto misturado, cheio de surpresas e avessos que não conhecemos. Esse vento que não precisa parar de soprar nem quando a rota se desvia e a vida nos derruba. Isso que a gente não controla como quer e como manda o roteiro. Porque – penso eu – não se faz inteiro o que não vem dessas descobertas de fundo de rio e de mares profundos. Cada qual o seu próprio, e as mãos estendidas para alguém cheio de si mesmo, tão faltante quanto real. E que sejamos insatisfeitos atravessantes, porque as marés nos levam sempre para além de nós. E que bom poder navegar no que não se sabe.

Das nossas faltas

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Vou escrevendo esse texto conversando comigo mesma. Tentando entender. Desentender. Sem pretensão de ser ou dizer nada que faça muito sentido. Sem teorias ou rotas explicativas. Coisas de que apenas desconfio.

– corta –

Somos falantes. Todxs nós, humanos. Humanas. Faltamos. Sempre faltamos conosco e com os outros que nos relacionamos. Em nossas complexidades de existir resolvemos tantas vezes existir juntos. Juntas. Casamos, namoramos, nos relacionamos. Fazemos casa, criamos laços, amamos, trepamos, enredamos umas às outras em afetos. Somas. Talvez seja da natureza humana criarmos famílias, relações afetivas, casas. Talvez seja uma convenção social ou uma imposição cultural. Ou talvez não seja nada disso. O fato é que somos inclinados aos laços. Eu sou.

Nos damos uns aos outros. Abrimos espaços em nós para que nos ocupem. Criamos juntos espaços comuns. Como já cantou o poeta, “a vida só se dá pra quem se deu”. E assim vamos nos dando, nos amando, nos penetrando em nós e nos que nos cercam.

As relações conjugais são dessas. Mergulhamos. Namoramos, nos apaixonamos, casamos, queremos. Eu quero. Vou nadando até chegar no fundo. Até que a ilusão de não sermos sós tome conta do espaço vazio de quando as luzes se apagam. Mas. Por mais que nos abracemos embaixo das cobertas e grudemos nossos corpos, a solitude é igualmente humana. Somos nosso próprio universo, cada qual, um ser separado do outro com toda sua complexidade individual. Ou, como diria Rilke sobre o amor, somos em casal duas solidões que se inclinam uma para a outra.

E dentre essas tantas coisas que nos desafiam a dois (ou a três, quatro, em relações poliamorosas), está o limite da individualidade. Quando nos amamos umas às outras, sempre queremos mais daquela que está conosco. Como já dizia Freud, procuramos de alguma maneira a incompletude. Um motor para que a outra pessoas nos prenda e nos encante em conquistas diárias. Um algo intangível da eterna imperfeição que nos encanta, na mesma medida que nos aterroriza. Será que nos encanta um ser sem surpresas e sem contradições às nossas expectativas? Perguntas…..

Pois é, temos expectativas. Cada qual. Cada um. De como o outro deveria agir, de como a outra deveria se posicionar frente a uma e outra coisa, de como o outro deveria demonstrar seu amor, de como a outra deveria se interessar pelas coisas que ela não se interessa. Expectativas sobre coisas cotidianas, expectativas sobre coisas grandes.  De como a outra irá lidar com seu desejo, de como conjuga o trabalho com a vida cotidiana, de como o outro vai lembrar que seu companheiro gosta de receber flores no dia do aniversário. De como ele não gosta. De como ela gostaria que fosse. Somos um eterno jogo dos sete erros, onde vamos marcando com X as faltas do outro na figura que imaginamos ser aquela do relacionamento desejado.

E nessas expectativas reside um grande motor para a desilusão,  e para a quebra do encanto romântico de que o outro irá nos completar, e nos corresponder. Sim, a exatamente aquilo tudo que pintamos em nós quando nos apaixonamos.

A verdade é que sempre será faltante. A outra pessoa não suprirá nossas lacunas. Não corresponderá a tudo que projetamos. Não será o que esperamos. Não, nem sempre. Sempre haverá figuras fora do lugar. E ainda bem.

Mas. Como faz para acomodar as faltas que o outro nos traz? Como acomodar o que você espera que a outra pessoa seja e que – talvez – mesmo que ela tente ela não consiga ser?

Sim, o bom de relacionar – se é que as coisas se conjugam, se ajeitam, se adequam. Ninguém precisa estar feliz com o que lhe falta e ignorar suas frustrações. Mas. Será que precisamos dar tanta ênfase às faltas? Será que não podemos reinventar um relacionar – se onde as faltas existem e, desde que não nos violentem, podemos conviver com elas? Até porque né? Amor romântico só é bom em velas e poesias. Na projeção da completude e do que o outro deveria ser é que a coisa complica.

Como diria Regina Navarro Lins “você idealiza, você inventa uma pessoa. O amor romântico existe mesmo no Ocidente, a pessoa se apaixona pela paixão. Aos poucos você começa  a perceber aspectos nas pessoas que não lhe agradam. Mandar flores, jantar à luz de velas, tudo isso é ótimo. Minha crítica é você inventar uma pessoa”.

Aí vem o famoso “abrir mão” em nome do outro. O que é bem diferente de achar caminhos comuns de conviver com as diferenças e com as individualidades. Tanta dor por não conseguir ser o que se espera. Aí.  Tantos relacionamentos bacanas desfeitos. Tantas mágoas. Tantas tristezas desnecessárias. Tanto choro. Tanto drama. Tantas noites em claro. Tanto sofrimento. Tanto amor bonito desperdiçado em nome de uma busca frenética por uma satisfação que não existe.

Lembro sempre de um conto da Clarice Lispector chamado “Perdoando Deus”, onde ela humildemente reconhece : “… É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é”.

Será que um dia nós, ocidentais, capitalistas, possessivos de propriedades e de quereres nossos sobre o mundo, conseguiremos amar o que é?

 

Fragmentos líquidos

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Sentiu o cheiro de vida líquida.

Inebriada, seguiu a rota que se abria pela mata. Coração guia, quase sem consciência do terreno por onde pisava seus anseios sem nome. Sentia apenas a intuição aguçar-lhe as bússolas interiores, em busca de alento. Em busca de elevar-se pelas mãos da natureza.

A mata se abriu em água. Floriu em quedas que rompiam os arredores em suspiros de cascatas. Fazia frio. E ela às voltas com a sua resistência encolhida de bicho ferido. Tinha dor, e lambia a ferida exposta em local secreto – com a língua a tocar o gosto ocre do sangue parado. Sua toca era feita de medos e de ousadias.

Contemplou a força que corria diante de seus olhos. E deixou-se vencer, num só impulso de voracidade. Curvou-se às águas que saltavam vibrantes da cachoeira, impulsionadas pelo volume das chuvas que resolveram desabar sobre o cerrado. Águas bruscas do primeiro mês do ano.

Não se lembrava exatamente como chegara ali. Lembrava-se apenas de estar deitada, nua, sob a água corrente. Cabeça baixa, a reverenciar a mãe deusa que se escondia no manto cristalino que lhe inundava a alma. Líquido gelado sob o corpo quente. Sentia o descontrole das pernas bambas, e ria sozinha de sua pequena estrutura lavada pelas águas. Finalmente ela estava ali.

O gelado penetrava-lhe os ossos, escurecia-lhe a vista, ensurdecia. A correnteza era capaz de lhe levar para outras paragens, sem que ela pudesse oferecer controle. Sim, ela estava vencida – e estar vencida era bom. Rendia-se ao inusitado que lhe flutuava sem trégua. Ela tremia. E o medo escorria pela pele arrepiada, a se misturar com o fluxo que descia rio abaixo.

Para onde ia? Parou por um momento, acordada de susto. Agarrou os galhos de árvore, e fincou os pés na pedra que lhe servia de abrigo. Seus dedos misturaram-se com as folhas verdes que se nutriam de vida liquida. A água não tinha descanso. Fluía livre, próspera, a lhe contar segredos de beira de rio. Sim, ela não sabia. E não saber era bom. Desconhecidamente bom. Era liberdade de força desmedida.

Sentiu sede de grandes goles. Embebedou-se. Ela queria a paz das águas livres. Águas que lavariam os vestígios da métrica de amor e dor, tão arraigada aos seus versos. Que a fariam perseguir outras rimas de amor, mais doces e simples como o canto da corredeira. Desejou com o peito aberto, os olhos brilhando, o sorriso amplo de sinceridades.

Ela então se aqueceu – enrolada em leveza e tranqüilidade. A correnteza ainda percorria-lhe o corpo. Reverberava. E ela queria continuar ali, fitando as margens e sentindo a força liquida lhe penetrar as entranhas. Admirando o fluxo da vida que lhe carregava com generosidade de incógnitas.

Lembrou de uma frase lida que incorporou aos seus cadernos de poética. “Perto de muita água tudo é feliz”. Sim senhor. Ela tinha sede de muita água.

Apenas, 2016

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foto: arquivo pessoal

Hoje eu apenas queria escrever um texto-sopro. Um texto sereno de beira de mar. O último de 2015. Esse ano em que tudo me cortou e me rompeu. Em que me costurei de novo com linhas imaginárias, tecendo novos sentidos.

O ano. Ritual. Gosto das passagens. Voo ao teu encontro querendo deitar a cabeça no mar. O mar é um colo. Deixo-me chorar o encanto do mar. É que a gente também tem um mar por dentro.

Hoje eu queria apenas ser doce. Lavar o sal da pele no rio. Deitar na rede que me embala o pensamento. Sentir a grama verde nos pés de areia, me penetrando os dedos. Gozar. Dormir exausta de cansaço com o corpo quente, sentindo o gosto de vinho nos lábios. Apenas.

Delicadezas. Dessas que a vida ganha cores. Sabores. Leveza de sentir amor no vai e vem das ondas. Acalento na impermanência do mar. Saudação. Hoje eu queria apenas o silêncio diante da enormidade de não saber, que se ergue indefinido em frente aos olhos. Deixar-me levar sem porto de chegada.

Despida de tudo que me cabe, despeço-me de 2015. Não lamento, nem agradeço. Sinto em mim os ecos das vivências. O sabor das dores. A grandeza dos amores. As incompreensões que me moldaram novas formas de existir. E assim reverencio a vida que me arrebata sem começo nem fim, flutuando na corrente do rio.

Feliz 2016, ano novo. Recebo-te com o espanto de uma criança diante do mar. Nem mais nem menos. Apenas.

Um rio que chora a sua morte

rio5Tentei escrever um texto que não saiu. Nada poderia dizer a respeito de tudo que vi, em sangue e lama, nas semanas que seguiram por cima de mim. Afoguei-me. Tentei dar nome as coisas que me assaltavam os olhos. Mas as lágrimas engoliram-me a voz. Tenho os olhos duros de quem não consegue ver. E as mãos em prece de espanto.
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Um crime ambiental de proporções inigualáveis. Tantas mortes. Um rio que não existe mais. Pessoas que não existem mais. Peixes boiando na água que virou lama. Cavalos, cachorros, pescadores sem barco nem sustento. Esperanças em preto carvão. Uma terra que não é mais. Mulheres, crianças, árvores, toda aquela vida que sumiu nos excessos e dejetos da ganância dos homens. As casas que se cobriram pela lama dos tantos dinheiros de alguém que nunca aparece. Uma Vale que não é verde. Uma empresa que devora nossos bens comuns com sede de poder. Uma água que não se bebe mais. Um rio que carrega a sua morte, cortejando a devastação até conseguir chorar no mar.
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Choramos. Não tem acalento nem música para embalar a tristeza. O som que se ouve é o grito do Rio. Deito minha cabeça no leito imaginário de uma cidade que se transformou em lama. Sinto a covardia. Sinto suas entranhas reviradas e o gosto de morte nos lábios. Sinto que não tem justiça que seja capaz de reparar a perda que não foi evitada por quem podia. Negligência é uma palavra dura demais para se ouvir quando ela mata mais do que nossos lábios conseguem dizer. Não digo. Calo. Repito para mim mesma um mantra que não tem letra. Sinto-me pequena diante da estupidez humana.

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Subo no lombo do meu cavalo. É preciso seguir. É preciso ajudar, é preciso poder gritar. É preciso ter voz para poder gritar as injustiças e a dor desse mundo que nos massacra com seus dinheiros sujos de lama e seus homens com tantas mortes acumuladas nos ombros.

Eu ainda quero poder sonhar um mundo melhor.

Pelo tempo de envelhecer

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Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

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Dessas intimidades

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Estiro-me. Lentamente vou sentindo seu corpo no meu. Cada pedaço se enroscando nos meus poros. Dormir junto é intimidade dessas poucas. Depois do sexo os corpos se afagam. Sol na areia depois do banho de mar. Mais um pouco. Seus seios nos meus. Sua língua cansada com meu gosto. O sabor dos nossos gozos. O cheiro de sexo que esfumaça o ambiente, junto com as taças de vinho vazias do lado da cama.
Depois. Ainda tem mais. Eu sonho com água e meu corpo relaxado se deixa levar pelas ondas. A gente flutua. Sinto sua respiração profunda de inconscientes diversos. Você acorda assustada e diz que sonhou algo ruim. Eu te abraço sem abrir os olhos e enrosco minha perna na sua. O silêncio da madrugada e a lua na janela. Pouca luz e não ser a lâmpada que ficou acesa na sala. Sem querer adormecemos. Nessa nossa rotina de sono e amor até mais tarde.
Partilhar o sono é intimidade dessas poucas. A madrugada é longa e o sono é uma entrega. Entrego-me fazendo casa no seu colo. A entrega é macia. Minha pele na sua. Arrepio. Você acaricia meus cabelos, me embalo de preguiça. Aconchego. Mexo-me quase sem querer, nessa dança que vamos tecendo pelas horas dormentes. Você fala coisas que eu não entendo. Sempre cabe mais.
Partilhar os sonhos é intimidade de entrega. Conversa de corpos em correnteza que não se governa. Redemoinho adentro. Coração afora. Embarcação quente que parece proteger tudo dos pingos lá de fora. Você puxas as cobertas. Eu me aperto no seu corpo nu. As mãos dentro do peito. Mais um dia que vem.
O despertador toca sorrateiro. Sempre é de repente. Só mais cinco minutos. Beijo sua boca com gosto de sono. Os travesseiros caídos no chão. Um abraço que me engole e me espreguiça. Bom dia meu amor.

Tempestade de Sol

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Rir-se. Rirmos. Nosso riso. Essas nossas risadas que sempre tomaram conta do quarto nas noites mais simples de meio de semana. Naquela quarta-feira qualquer. Mesmo sem cerveja, mesmo sem graça. Era bom. Rirmos. Risos de doer a barriga e soluçar de amor. Esse seu riso fácil que tomava conta dos meus olhos pequenos. Que me embalava o sono do seu colo grande, sempre cansada de tanto. Eu sempre tanto. Você sempre suavidade. Sempre esteio para meus pulos sem chão. Toda riso farto de braços abertos. Toda para me receber tanto.

Eu tive que acostumar com as suas lágrimas, que vieram de repente. Uma a uma, rio de espanto. A vida é de repente. E é de repente que. Aprendi a lamber o seu sal na ponta dos dedos. A enxugar a ponta de seus lábios com a minha língua. A dar colo para a sua dor. A ficarmos mudas de mãos dadas diante do espanto. Aprendi, enfim, que o amor também é triste. E que no riso tem um bocado de coisas não ditas que cheiram a lágrimas. E que é bom mesmo assim.

Aprendo. Com o tempo que não vem ligeiro para nos contar que é tudo mentira. Com a reinvenção desse riso mudo de dor. Com a impermanência de nossos respiros. Com uma serenidade estranha diante do que não se controla. A vida é sempre. E é nunca mais. Os dias passam e descolorem a memória de quem ainda somos. E a cada pincelada a nossa eternidade que não se apaga.

Na maquiagem borrada de nossos espelhos invertidos, reinventamo-nos. Amamo-nos. Adormecemos na brisa mansa de um riso que ainda vem. Como naquela noite em que você ria sozinha, sem saber porque. Aquele riso solto, tão nosso, tão sem motivo. Riso dos nossos desejos. Da nossa intimidade musical traçada nos pés sobre as cobertas. “Vai doer mas depois vai passar”, eu canto. Você sorri generosa, tecendo futuros nos meus cabelos afagados. E a gente floresce, na tempestade de sol desses dias de outubro. Um outubro qualquer a se perder no tempo das belezas, dessas que as retinas não filtram.

Despedir-se é sempre

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Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

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