Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Quem tem medo de buceta?

Eu sei, eu não deveria dar IBOPE para essxs colunistas machistas, misóginos, e sem graça. Eu sei que não deveria nem comentar as atrocidades que a Folha de São Paulo anda publicando através dos Pondés da vida, mas essa eu não aguentei. Não, não foi nem o Pondé dizendo que não come mulher, foi a tal da Tati Bernardi, essa pseudo-qualquer-coisa, que ganha para escrever atrocidades que além de não terem a mínima graça, nem a menor técnica literária, são preconceituosas e de um machismo agressivo e arrebatador.

Dessa vez Tati resolveu destilar seu veneno às fotos de parto natural que circulam na internet (veja aqui). Não, ela não problematizou o acesso ao parto, nem a cultura da cesárea no Brasil, nem sequer defendeu o direito da mulher ter uma cesárea caso seja da sua vontade (o que eu esperaria de alguém que começa um texto dizendo que gosta mesmo é de luxo e conforto no hospital e nos estabelecimentos de saúde). O problema da moça é ver a xota. A buceta. O que incomoda a pobre pessoa é exatamente ver a buceta das mulheres ao parir.

Buceta. Repete comigo e com a Renata Lima que já escreveu aqui sobre ressignificar a buceta? BU-CE-TA. Quem tem medo de buceta? Buceta pelada, buceta peluda, buceta descabelada. Buceta. Nossa, da outra, de tantas mulheres que as tem. Porque também tem mulher sem buceta. Qual o problema de mostrarmos, e de vermos, bucetas por aí? Não é uma parte do corpo tão importante e tão cheia de bons significados? Porque o horror, o medo, a aversão a buceta ou a xota ou que nome queiramos dar para nossa genitália que tanto pode nos dar prazer?

Vivemos numa sociedade estruturalmente machista. E, nessa sociedade, aprendemos a esconder as nossas bucetas. Buceta é tímida e arredia. Não se mostra. Nem sequer podemos ver as nossas próprias. Nem sequer é autorizado a mulher saber-se, tocar-se e ter prazer. O exercício de pegar o espelho e olhar, intimamente, para as nossas bucetas, é um exercício e tanto. Olhar para dentro e para fora. Olhar os contornos, tocar, ir sabendo-se ali, ir sentindo aonde é bom, aonde tem curvas, aonde tem pelos, aonde tem tesão, aonde tem arrepio. Sentindo seu próprio cheiro, sua própria textura.

Não, não é pecado nem é feio, como dita o moralismo cristão que nos condena. Não, não é ameaçador, como reza o machismo que quer nos dobrar. Nem nojento, como brada Tati Bernardi ao ver uma buceta parindo. É nosso e é, acredite, um terreno cheio de boas possibilidades de prazer.

Acho engraçado que escuto de muitas mulheres ao argumentarem porque não gostam de trepar com outras mulheres: “ah, eu não gosto de buceta, eca”. Ora, não gosta da sua própria? Não teria você também uma buceta cheia de possibilidades para você mesma? Qual o problema da buceta? Não é porque você não tem tesão numa mulher que a buceta é algo repugnante. Não seria, de alguma forma, uma repugnância a você mesma?

Façamos as pazes com as bucetas. Deixemos as mulheres parirem com suas bucetas fotografadas e assumidas. Deixemos as bucetas respirarem livres, olhemos, experimentemos, contestemos o machismo que impede de nos olharmos e sentirmos prazer. Bucetemo-nos!

E Tati Bernardi, beijinho no ombro pro recalque passar longe!

buceta

Do depois

Do Depois, em silêncio de quase amanhã. 

cafe

Então eu te abracei forte, e o quente se fez suspiro. Lá de dentro um sopro cresceu desavisado, e eu só conseguia dizer: fique. Dizer assim meio sem voz, sussurrando aos teus ouvidos colados aos meus, beijando teu corpo nu que dormia no cansaço bom de depois. Fique para amanhã, para ver o sol nascer de mansinho, para ver a chuva cair na janela. Para ver a madrugada romper em silêncio gelado de quase inverno.

Fique para algum dia rirmos do que nunca fomos, para vermos o filme que já saiu do cinema, para desconcertamos os acertos de agora, para criarmos novas e impossíveis metas. Fique para o feijão e arroz do almoço, para o cigarro na beira da janela, para a poesia imprevista do menino correndo pela casa. Por aquela viagem que a gente nunca fez, pelo livro fechado na estante, pelas promessas não formuladas que nunca poderemos cumprir.

Fique para pintarmos as paredes de vermelho, para jogarmos dominó no chão, para comermos pipoca e falarmos do Truffault que nunca vimos, para sorrirmos das besteiras que não cansamos de falar. Para enchermos a cara como se não houvesse amanhã, para nos amarmos de novos e impossíveis jeitos, para tocarmos o intangível que mora ao lado da realidade. E, claro, para cozinharmos a nova receita de panquecas.

Fique para dividirmos essas dores que nos assolam e a gente não consegue dizer por que, para somarmos incompreensões, para nos divertimos na segunda-feira de canal aberto na Tevê. Fique assim meio sem jeito, como quando seguro com medo as tuas mãos, tuas mãos de unhas roídas e cheias de não saber, nossas mãos longas de coragem, nosso desejo vivo por entre os dedos.

E assim vou soltando ao ao seu encontro esse amor com um quê de trágico, com pitadas de exagero sentidas nos ossos, com um quê de riso por trás do choro, com um quê de verde e de fundo de mar. Com os pés fincados na terra fértil, na colheita de algum dia, no porvir das nuvens e das poeiras de agora. E que seja. Até quando ventar e existir sede.

Estupro, violência doméstica e ignorância machista

nenhumamulher

É, a recente pesquisa do IPEA tem causado reações fortes da sociedade brasileira, que têm percorrido redes sociais e provocado debates acalorados. De um lado, pessoas indignadas por constatarem numericamente o que temos falado e lutado há tanto tempo aqui neste clube (vejam aqui): vivemos numa sociedade machista onde as mulheres são violadas sexualmente, e essa violência é imputada à mulher pelo seu “comportamento”, sua roupa, ou sua liberdade sexual. Culpabilizamos a mulher pelo estupro. E esse absurdo ficou claro como o sol do meio dia. Estamos tirando o véu que mascara a hipocrisia machista. Resta-nos encarar de frente essa merda toda.

E parece óbvio dizer, mas não é: nenhuma mulher merece ser estuprada. O tamanho da minha saia ou do meu decote não é um convite ao seu olhar e a sua violência machista. Ao seu comentário nojento, ao seu assédio, ao seu toque não consentido, à sua moléstia, à sua agressão, ao seu pau ereto em busca de um prazer que não quer ser compartilhado.cCom roupa ou sem roupa, como nos diz a diva Valeska Popozuda, um estupro NUNCA pode ser justificado pelo comportamento da mulher. Parece óbvio, mas está comprovado que não é.

popozuda

E essa comprovação causa revolta e gerou um movimento grande no facebook, que se espalhou até internacionalmente e ganhou o apoio da Presidente Dilma: #EuNãoMereçoSerEstuprada. Nesta página milhares de mulheres começaram a se manifestar, contando casos de abusos sexuais e estupros, e postando fotos com cartazes de protesto: NÓS NÃO MERECEMOS SER ESTUPRADAS. NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA. E por aí vai.

E então veio o outro lado, feroz, babando, emanando ódio. Homens e mulheres entraram no evento para defender e propagar seu machismo devastador. Fiquei chocada com os comentários que recebi na minha foto, e que li em tantas e tantas postagens. Vejam um exemplo, prendam e respiração e cuidado com o enjoo:

nojo

Não que eu não os soubesse. Mas vê-los ali tão perto, e tão enfáticos, me fizeram crer que a nossa luta é ainda maior do que eu imaginava. Chamaram-me de puta, perguntaram quanto era o programa, teceram comentários nojentos e assediadores. Como se uma puta não merecesse todo respeito. Como se uma puta pudesse ser violada sexualmente. Não senhores machistas e criminosos, não pode. NENHUMA MULHER PODE.

O show de horror percorreu todas as postagens e cantos da página. Comentários machistas, assédios, julgamentos e incitações ao estupro. Culpabilização da mulher pela violência que sofre. Tentativa machista e tolher a mulher e poder violá-la se ela foge de seus padrões. Uma foto que me chocou foi a foto abaixo, dizendo que nenhuma mulher é estuprada lavando louça.

louça

Ora senhores, que machismo desinformado e ignorante! Nunca ouviram falar em violência doméstica? Não sabem que vivemos um feminicídio sem precedentes, onde a cada duas horas uma mulher é morta vítima da violência de gênero no Brasil e que a violência que a mulher sofre dentro de suas casas pelos seus maridos, companheiros ou namorados é a principal causa disso?

Em 2012, dos atendimentos no SUS categorizados como Violência Contra a Mulher (que sabemos que é subnotificado) 65,4% dos casos se enquadram na categoria Violência Doméstica e/ou Sexual e, pasmem, em 80% dos casos reportados o agressor é o próprio parceiro/marido/ou namorado. Então, por favor, não me venham com esse argumento falacioso! Porque nem as mulheres em casa, lavando louça, e se submetendo aos padrões de “bom comportamento” que o patriarcado nos quer impor, estão livres da violência de gênero, incluindo a violência sexual (fonte: mapa de violência contra a mulher, aqui).

Citando o referido mapa, temos: “71,8% dos incidentes acontecendo na própria residência da vítima, permite entender que é no âmbito doméstico onde se gera a maior parte das situações de violência vividas pelas mulheres”.

Mulheres são estupradas, agredidas e mortas dentro de suas casas. Mulheres são estupradas lavando louça, de burca, de calça comprida, de roupa de inverno, coberta até a cabeça. Mulheres são estupradas com roupas decotadas, de biquíni, sem blusa, seminuas, nuas. Mulheres são estupradas de todos os jeitos, de todas as formas, em becos escuros ou dentro de suas casas, na saída da escola, no metrô, no banheiro cheio do bar. Não há desculpa para a violência de gênero a não ser o seu machismo. A culpa do estupro é sempre do agressor.

É hora de gritar ainda mais alto, e se fortalecer ainda mais para a luta: Não passarão! A missão vai ser cumprida! Basta de estupro, basta de feminicídio, basta de violência contra a mulher!

naopassarao

Sobre crianças e preconceitos

Sobre crianças e preconceitos. Arquivo pessoal

 Uma das poucas certezas que tenho nessa jornada nada objetiva que é ser mãe, é que quero ser sincera com meu filho. Quero sinceridade nessa troca de vida, nessa relação que se convencionou chamar de mãe e filho (aqui conto mais sobre). Quero poder ser quem eu sou, quem busco ser, ou ainda o que não sei, do lado dele. Sou mãe faltante, mãe-avó, mãe que chora, mãe que trepa, mãe que ama, mãe que ri, mãe que não sabe. E acima de tudo – e antes de ser mãe – sou mulher que se quer livre para ser o que quiser. E dentre essas tantas coisas, sou mulher que se relaciona com mulheres. Afetiva e sexualmente.

E sim, meu filho sabe, claro que sabe. Sim, tenho uma namorada que convive em casa conosco. E sim, está tudo bem. Acho engraçado porque escuto, com muita frequência, a seguinte pergunta: “Nossa, mas como seu filho lida com isso?”. Ou, ainda: “Como é para ele? Ele aceita?”. Acho curioso que as pessoas pressupõe, sempre, que eu ter uma namorada é uma questão para ele. Um problema. E não, não é. Temos alguns, mas esse não é um deles.

Quando as perguntas chegam, nós olhamos juntos. Seguramos na mão um do outro, muitas vezes, para dar conta do preconceito que a sociedade nos obriga a passar. E vai ficando cada dia mais fácil, porque vivemos com naturalidade essa estrutura familiar que somos, dentro e fora de casa. Percebo que ele cresce seguro, porque tem amor. E amor nunca dói, ou fere, ou traz problemas. O que dói é o preconceito e a homofobia que a estupidez humana insiste em cultivar e espalhar aos ventos. E que já sentimos cravada na pele, com medo de agressões e violências que pessoas mal resolvidas e criminosas podem cometer.

Mas seguimos, com força e esperança. Ele, aos 7 anos, já sabe que o amor é livre para ser vivido como for. E que a gente pode ser o que quiser, com quem quiser. Desde cedo fomos desconstruindo imposições sociais como: “menina tem que namorar menino”, “família é uma mulher e um homem, mulher com mulher é errado”, “homem que é homem faz isso ou aquilo”, “rosa é cor de menina”. E fomos aprendendo a sorrir para o apontar de dedos. Jogamos o problema para quem aponta.

Vivemos o que é bonito com confiança, e ele segue com a alegria de acompanhar pessoas que se amam partilharem esse amor. Tenho algumas histórias boas desse nosso pequeno militante e sua amiga-irmã Sol, vamos ouvir algumas?

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Almoço em família no fim do ano. Estávamos eu, minha mãe, minha sobrinha e Bernardo, conversando sobre coisa nenhuma. No meio da conversa Bernardo conta algo que envolve a Cláudia, minha namorada, na mesa do almoço. Minha sobrinha de 5 anos logo pergunta: “tia, quem é Cláudia?”. Minha mãe se apressa em responder: “É uma amiga da sua Tia Sil”. Bernardo olha feio para a avó. A avó não entende. “O que foi Be?”. Ele não pensa duas vezes: “Vó, a Cláudia não é amiga da minha mãe. Ela é NAMORADA da minha mãe tá? E tudo bem!”. Fim de papo Vó. Vamos para a sobremesa?

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 Fila do supermercado, carrinhos cheios, a noite chegando com seu cansaço de fim de dia. Atrás da gente uma senhora folheia a revista Caras, com a Daniela Mercury anunciando casamento com a namorada. Indignada, tenta puxar papo com a mãe e seu filho na frente da fila. No caso a mãe – eu. O filho Bernardo, que corre por entre os atrativos deixados nas proximidades dos caixas. “Olha só, agora isso é um casamento, onde já-se-viu! Que absurdo”, segue a Senhora. A coisa ia piorar quando Bernardo surge do meio dos chocolates, olha para a Dona Carola e diz: “moça, é igual uma homem e uma mulher. Só que é uma mulher e uma mulher”. Eu só acenei e sorri. E, claro, deixei o Be levar os 3 chocolates que carregava nas mãos.

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Sol e Be correm pelas mesas do bar. Amigos desde sempre, tem aquela boa intimidade de quem cresce junto. Brigam, se amam, inventam jogos e brincadeiras, descobrem o mundo um pouco a cada dia. Uma pessoa dita adulta, querendo fazer graça, pergunta pra Sol: “Sol, o Be é seu namorado?”. O olhar da menina, então com 5 anos, espanta-se. “Nãaaaao, o Be é meu melhor amigo. Minha namorada é a Betina”. Vamos tomar mais cerveja para descer a heteronormatividade chata da pergunta?

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Um dia por curiosidade pergunto: “Be, o que você falaria para alguém que perguntasse para você o que você acha da sua mãe namorar uma mulher?”. Ele pensa, sorri, e diz: “Ah mãe, eu falo que a minha mãe é que decide. Que eu não sou a minha mãe, e ela que sabe. E que ter duas mães é bem legal!”. É, ganhei meu dia. Talvez o ano todo.

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Por fim, deixo um recado para você, homofóbico:

Não use crianças como desculpa para mascarar seu preconceito. Garanto-lhe que as crianças enxergam e convivem com o amor de forma livre e bonita, como for. A estupidez é sua.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Dos extermínios

Dos extermínios

Dos extermínios

Pátria amada

O que oferece a teus filhos, sofridos

Dignidade ou jazigos?”*

Pois então. Vivemos num Estado Democrático e Social de Direito. Um Estado que garante, já no seu primeiro artigo constitucional, incisos II e III, respectivamente, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Dignidade, esse conceito amplo, que tentamos diariamente alocar para dentro do Direito. De que tentamos nos apropriar para agir e lutar diante das atrocidades que vemos todos os dias estampadas em jornais, revistas, mídias sociais e nas ruas deste país. É, esse mesmo país.

De quem é essa dignidade? Quem é essa “pessoa humana” que tem direito à dignidade? E mais, quem tem direito à vida? Essas perguntas ecoam diante do extermínio que assistimos, cotidianamente, da população negra e pobre. (Sem contar o feminicídio e as mortes de homossexuais por homofobia).

Abre parênteses = “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Fecha parênteses.

Não, não somos. Não temos todos o mesmo direito à vida e à liberdade. A essa famosa dignidade. Pelo contrário. Esses direitos, na prática, são relativos e pertencentes a uma minoria branca e abonada. Para a maioria sobra assistir, em mornas rebeldias, o extermínio consentido e declarado do “resto” da sociedade.

“Vamos às atividades do dia:

Lavar os corpos, contar os corpos,

E sorrir,

A essa morna rebeldia…”*

Essa semana foi a vez da Cláudia. Mulher, negra, pobre, executada cruelmente pela polícia carioca (aqui). Cláudia foi comprar pão, num dia como outro qualquer. E nesse trajeto foi baleada erroneamente pela Polícia. Para se livrar do “corpo estendido no chão”, a polícia arrastou Cláudia, ainda viva, com seu corpo batendo fora da viatura em movimento. Como um saco, um objeto que não serve mais, um dejeto que não merece sequer um lugar para ser depositado.

Essa cena hedionda me fez chorar tanto. Essa mesma cena hedionda que é cotidiana nas favelas e em tantas comunidades periféricas. Tantas mortes protagonizadas pela Polícia que deveria, em tese, garantir exatamente a segurança de todos nós, cidadãos brasileiros, independente de etnia, condição social, gênero, sexualidade ou cor da pele.  É o Estado exterminando gente que não interessa para a elite. Gente que atrapalha porque ameaça a segurança das posses e propriedades capitalistas e higienistas. Das tradições cristãs desse Estado machista e homofóbico.

Cláudia é mais uma mulher exterminada pela polícia. Mais uma negra. Mais uma vítima do nosso pretenso Estado de Direito. Mais um corpo jogado fora pelos nossos “donos do poder”, que são os únicos nesse país que podem bater no peito e fazer valer seus direitos de cidadania, vida, segurança e dignidade.

E andam ressaltando pelas notícias internet afora que Cláudia era mãe de 4 filhos, casada, e cuidava de mais 4 sobrinhos. Uma mulher de “respeito”. Uma mulher “correta”. Preocupa-me esse argumento porque não importa se Cláudia era mãe, auxiliar de enfermagem, prostituta, traficante, dona de loja, se tinha ou não filhos, se dava pra todo mundo, dançava até o chão no baile funk ou era casada. Cláudia era um ser humano que merecia respeito. Não porque era casada ou tinha filhos. Mas porque era uma cidadã deste país, que deveria zelar pela sua integridade e dignidade.

É, vivemos em uma sociedade que executa seus cidadãos pobres e negros, bem como suas mulheres, sob o manto de um Estado Democrático e Social de Direito. Já é hora de destruirmos esse véu, de desnudarmos a realidade, e de fazermos valer esse Estado que no papel é de todos.

Vamos ao Criolo?

*Versos da música Lion Man, do Criolo

A delicadeza do amor possível

Porque eu descubro a cada dia,

Com os olhos fundos de agradecimento

Que ainda melhor que o sonho

É a vida possível.

A delicadeza do amor possível

A delicadeza do amor possível

O cheiro do café invade a casa no sábado de manhã, cheiro morno de aconchego saindo pelas frestas da janela que nos guarda da chuva. A casa desarrumada e nossos restos de ontem espalhados pelo chão. As crianças brincando no quarto, o pão quase queimado, a louça desordenada na pia que a gente não lavou. Você.

Nossos pés enlaçados enquanto você devora o livro comprado na mesa do bar. Em meio aos nossos copos sempre cheios de risadas e indagações sobre a vida. Você me beija e volta os olhos curiosos para os mistérios de Philip Roth, perdida nas letras e em outros tantos lugares. Aí eu te abraço forte e deito sobre seu corpo, perdida em outras paragens. Tão lá e tão aqui, tão junto, tão. Tão bom. Tão eu.

Volto ao café, preparo o filme na Tevê, enrosco-me no tesão que me sobe o corpo quando você levanta meio dormindo, enche a xícara e acende o cigarro. Então eu te digo algo sobre as minhas pirações existenciais, o papo vai da preguiça de fazer o almoço até a falta de qualquer definição sobre sexualidade, de Foucault até a fofoca que a gente leu no facebook. Filosofamos e rimos das nossas maluquices acolhidas, falamos besteiras, o dia passa, a manhã se vai.

Sorrio de repente ao estar feliz, tão feliz no possível que me invade o coração. Semeio os grãos, coloco os pés na terra com um prazer indescritível de sentir o molhado, vivo, por entre os dedos. E oscilo como sempre, visito a tristeza da finitude, olho de longe a angústia da vida que vai e nunca mais volta a mesma. Dessas que eu te falo, e te choro em silêncio quando a noite vem e eu não sei.

Então abro as mãos e deixo ser. Na beira dos meus abismos, flerto o escuro e a vertigem me acorda. Não, eu já não pulo. Escolho as trilhas que me levam para o alto da montanha, para a beira da praia, para o meio do caos da cidade que a gente passeia com vontade de mais. Para a felicidade possível de se apalpar em suspiros. Para a coragem de poder, e ser permitir, ser feliz no que tocamos com os olhos admirados de encanto. O possível que nos enche de pequenas e extraordinárias grandezas.

E mesmo aqui a gente continua não sabendo, a gente tem medo, a gente fraqueja em nossas humanidades e contradições de ser. E a gente também é forte (ou quase) para seguir em frente assim, como for, na reinvenção sempre constante de ser quem se é. E quem se é mesmo?

Olhamos a pergunta e nos perguntamos. Alto, consentido. Aqui onde o amor invade e as perguntas podem ser feitas. Onde a gente não é nada e pode ser tudo ao mesmo tempo. Onde não temos definições, apenas mais querer e não saber. E que assim cresça, com nós duas tão despidas de certezas e tão vivas no presente. Aqui, e agora. E que.

Corpo Coletivo

Corpo coletivo de carnaval

Corpo coletivo de carnaval

“cada um por si não faz um carnaval”

 Acordo, terça-feira, a ressaca no meio da cama, embalando nossos corpos grudados com purpurina e cerveja. A gente se beija ainda dormindo, os restos de cigarro pela casa, o cheiro da bagunça boa de carnaval. Nosso, também, o carnaval junto dos blocos, das fantasias, e de ser quem se é ali, no meio da multidão e de tantos outros corpos. Corpos que se juntam na rua, nas serpentinas, risadas, confetes, e na música alta que nem sempre se ouve. Braços, abraços, suor, saliva, cheiros, gostos. Corpos vivos, corpos que se misturam em prazer.

Encanta-me o corpo coletivo do carnaval. Os encontros no meio da folia, a alegria exacerbada de rasgar-se em outros corpos. A liberdade de poder, simplesmente, se misturar sem pudores, sem padrões, sem reservas. Poder ser mais de um, poder ser muitxs, poder ser nada e tudo ao mesmo tempo.

Claro que não falo da violência mascarada contra as mulheres, que a Renata Lima escreveu aqui, em beijos forçados e agarrações de violência não consentida. Falo do consentimento de seguir as marchas de carnaval dentro e fora da gente. A gente que se embola e rebola querendo e gozando o momento conjunto. Corpos coletivos que se amam sem amanhã, no agora de seguir o fluxo ladeira abaixo, ladeira acima, ruas e salões, passarelas, corredores, vida-vivida no aqui e agora.

Esse é meu prazer de carnaval. Coletivo. Livre. Vivido. Libido, desejo, amizade, beijo, conjunto harmônico e desorganizado da bateria do coração.

E que o ano todo possa ser um pouco carnaval. Que a gente possa ser coletivo sempre que se quiser, e como se quiser. E que o amor e a alegria sejam nossos a cada dia.

 

Coletivo de biscate é amor!

Niara e Luciana

Niara e Luciana

Sim, biscate já pressupõe um coletivo, e um coletivo de amor. Porque nós gostamos mesmo é de nos misturarmos uns nos outros. Da possibilidade de encher os olhos e o peito de amor e de transbordar sem medo, sem receio, sem pudor. E a gente transborda.

Luciana e Silvia

Luciana e Silvia

Luciana e Renata Lima

Luciana e Renata Lima

Biscate se junta para espalhar amor. Para somar. Para se divertir na mesa cheia do bar, por entre os olhares curiosos para o coletivo esparramado de risadas e cumplicidades. Biscate tem as mãos cheias, a disposição farta, o riso solto, grande, abrindo os braços para a vida. Para o que vem, e quem vem.

Não nos interessa o pouco. O contido. O padrão. O padrão nosso a gente mesmo desconstrói, sambando em melodias rasgadas e fora do compasso. Samba de biscate é samba de liberdade, que não obedece à cadência da bateria nem ao passo da comissão de frente. É samba vasto de cantar abraçado e sentir o corpo do outro, e o seu próprio, no ritmo do pulso que vem de dentro.

Renata Lins e Augusto

Renata Lins e Augusto

Renata Lins e Luciana

Renata Lins e Luciana

Augusto e Jeane

Augusto e Jeane

E o que importa se formos alvo do apontar de dedos? Biscate não precisa de compreensão, porque biscatear já é nadar contra a corrente dos julgamentos sociais. E trazer em si, para semear aos ventos, o espírito livre do amor, o lirismo dos bêbados, a lucidez dos loucos, a incoerência dos filósofos, a falta de senso comum, a individualidade acolhida, o remelexo nos quadris, a possibilidade de ser o que se quiser ser.

Augusto e Niara

Augusto e Niara

 

Augusto e Silvia

Augusto e Silvia

 

Luciana e Raquel

Luciana e Raquel

 E assim a gente vai se acolhendo nesse amor indefinido e vasto, nessa família que se expande pelo Brasil afora, que se quer junto, que suporta o peso das injustiças sociais e políticas com cheiro de perfume, buscando a revolução que se faça pelo amor e pela liberdade. Pela voz das minorias travestidas em respeito e igualdade. Pelo direito de dispormos sobre os nossos corpos como bem quisermos, com quem quisermos e seja lá como inventarmos. Pela luta contra o machismo e a opressão sexual. Contra a homofobia, a transfobia, a gordofobia, e  quaisquer padrões engessados impostos aos nossos corpos.

E assim segue a nossa luta para que todos tenham liberdade sexual e afetiva garantida  pelo Estado e respeitada pela sociedade. E a nossa luta é assim, cheia de amor e tesão, porque de outro jeito a gente não sabe.

Jeane e Luciana

Jeane e Luciana

Silvia e Renata

Silvia e Renata

Vem junto pra caravana biscate!

 

O contratempo da dança

O Contratempo da dança.
Cena do filme de Win Wenders sobre a bailarina Pina Bausch

 

O contratempo da dança. Um contratempo de saudade escrito a quatro mãos com a amiga-poeta-contadora de histórias e dançarina do inimaginável, Kiara Terra.

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A saudade é minha. A saudade é uma prece.

A saudade é minha. Um vazio de muitas vozes. Canto silencioso. Um lamento divino sem palavras. Um côncavo onde mora o impulso da dança. A saudade é o contratempo da dança, o segundo estático antes do movimento. Que pode durar muitos dias, que pode durar um tempo sem tempo. A dança é de dois e a saudade é só. Uma saudade inteira de estar partilhada, e tão cheia de si.

Às vezes eu queria vedar, aplacar, deixar de sentir. O vento corta a pele branca, arranha os poros abertos. Conta segredos de dor e traz nas mãos a falta gelada. Às vezes sinto que não posso mais. Preciso descansar embalada em um colo quente. Eu sou pequena ainda. Mas é certo que eu não estaria viva com tudo fechado. A dança não acontece sem ar. Diante da musica não há nada o que se possa fazer, e então eu danço. A dança também sou eu.

E depois de tudo aplacado, o que vem? Ninguém mais mora ali na terra sem vento. As janelas não esperam mais pela brisa morna. Não anoitece ali. Os olhos esperam exaustos por sono nenhum. Não há sono possível. E eu deixo escorrer pelos dedos o que não me cabe mais.

Só há então seguir o pulso, ir de encontro à saudade: a mais bela e friorenta jornada. A mais verdadeira dança, marcada pelo corpo que se move pelo que vem de dentro. Um corpo nu habitado de seu próprio desejo, correndo no vento dos dias de ser. Só ser em silencio imenso e fundo de si mesmo. Encontro que revigora a força motriz. Que me importa se não sei o que vira? Que me importa não saber? Que seja. Que seja o voo improvável. Eu desejo. Estou livre.

E o sangue corre na falta. Quente escarlate que aquece a pele fria. No desequilíbrio o salto se forma e é leve, improviso que compõe a estética estranha de ser o que se é. Na saudade muda do desejo, a mágica floresce. Enlace harmônico em segredo.

O segredo da utopia palpável, ainda viva na memória do corpo. A utopia de caber no teu amor guardado, sem força nem esforço, respirando a alegria de estar ali. O movimento conjunto que desliza no improviso, que voa e aterriza suave, que cabe exato no ajuste do espaço da partilha. A utopia de uma proximidade de encaixe perfeito. A utopia da delicadeza possível. De se entender sem falar. Da escuta plena, de caber no que há de sublime dentro de nós. E de lá sair para caber no sublime do tempo que você me deu. A utopia de diante do medo, sorrir em segredo de presença partilhada. Onde toda força não assusta. Onde o movimento é um sim que floresce em terra boa.

Fecho os olhos e de todas as possibilidades desejo o mais bonito, o indizível. Desejo deixar ser, deixar vir. Desejo espaço para vir a sua força. Não reluto: entrego, digo e calo. Aceito. Desejo ausência por que nela há vento, e o vento alimenta. O alimento do vento é perfume. Acolho a saudades, e agradeço a ausência que me deixa habitada de desejo. Na falta que me habita sou uma, sou muitas, e ali estou incandescente. Minha falta também sou eu.

Você testemunha a minha falta, você me testemunha à distância. Esse eu tão cheio de pequenas grandezas, de forças e fraquezas perdidas no espaço. Ali onde não estamos, também estamos por completo. Grandes, sólidos, inventados. Na falta que pode ser leve, que também pode voar. E que voa. A gente brinca e pode rir dela, espalhada e disforme em nós mesmos. Ela também é amor. Amor dividido de olhos fechados. Ou quando no escuro te procuro e teus olhos mergulham em mar aberto.

Você vem, me toma, e no momento seguinte me devolve para mim. E essa é a coisa mais triste e linda que seu amor me dá de presente. Amor de generosidades. Que nada retém, tudo é pertencimento. Que me penetra e me devolve inteira para eu ser eu mesma.

E então sobra um sorriso besta no canto da boca, um sol na nuca que me aquece os ombros. A coluna acesa pelo toque sutil do seu dorso. Sobra a presença silenciosa dos teus olhos negros, a utopia de caber no seu abraço e de sentir tudo aquecido por dentro.

Sim, a saudade é minha.

Pina Bausch

Pina Bausch

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Pois parece que, na nossa sociedade marcada por consumismos vazios e padrões de beleza engessados, existe um limite, uma validade imposta à mulher pelos anos que correm no calendário. A beleza plastificada é quase um imperativo para as mulheres mais velhas, uma máscara para esconder o tempo e vedar as rugas e marcas da idade. Nada contra as plásticas, cada um decide como quer envelhecer. Mas é o padrão, e o julgamento, que me incomodam. E o quanto são normativos, e condicionam comportamentos. A beleza rotulada em peles lisas, em falsas perfeições, em estampas de revistas cheias de photoshop. Padrões inalcançáveis, a pirâmide sempre intangível do consumo. E o olhar social, esse perverso, que tolhe as mulheres tanto pela sua condição feminina, quanto pela idade.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei a seguinte frase: “nossa, sério que você tem 37 anos? Não parece, está tão bem, bonita, para a sua idade”. Ou ainda: “Nossa, você tem tanta energia, gosta tanto de festa na sua idade né?”. Eu apenas sorrio, distante, e penso nos tantos equívocos que estas frases contém. Como se a mulher fosse chegando aos 40, beirando os 50, 50 e tantos, anos adentro, e não pudesse mais ser considerada bonita, desejável, ter um corpo gostoso, ter vontade de sexo, vontade de vida. Como se a mulher tivesse um prazo de validade para estar no mundo, solta em seus pensamentos e em suas construções de liberdade.

 Se, em qualquer idade, a mulher é tolhida pelos julgamentos morais que afrontam sua liberdade, alongam a sua saia, sobem seu decote, e enquadram as que fogem dessas normas em categorias como “vadia” e “biscate”, a mulher mais velha sofre um fardo maior, por estar fora do “tempo” de ousar qualquer coisa. Uma mulher que não segue convenções sociais machistas, que descasou ou não casou nunca, que trepa com quem quer, como quer e a hora que quer, que sai como quer sair, que dança, que bebe, que descabela os outros e a si própria, não pode –  nem é concebível nessa hipocrisia social que vivemos – que ela tenha mais de 40. Tá certo, não é concebível nunca, mas as mulheres até os 30 ainda podem ser “perdoadas”, ou minimamente compreendidas por algumas almas menos conservadoras, por estarem experimentando. “Ah, a juventude”, dizem por aí. Ela vai se “regenerar”, arrumar um marido, ainda vai ter filhos e se comportar, afinal, a maturidade traz essas coisas.

Mas eis que você não se enquadra. A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida. Isso tudo com o corpo marcado pelo tempo, com o rosto banhado por aquelas rugas que já viram tanto, os cabelos coloridos ou brancos enfeitados de flores. E eles que estão bonitos de dar gosto, e cheios de tesão pela frente.

Essa beleza não normativa, esse comportamento não padronizado por uma mulher de quem espera-se, no mínimo, exemplo e disciplina, incomodam ainda mais o apontar de dedos. Ela está, duplamente, afrontando a nossa sociedade conservadora por ser quem é. Porque envelhecer deve ser conformar-se, ainda mais, aos padrões vigentes.

Aí, bom, chegam os 60, 70, 80, quem sabe, e uma mulher, nessa fase da vida, deve se conter ao quadrado da “terceira idade”, onde só se espera que ela vá fazer tricô e cuidar dos netos, esperando vagarosa a morte que ninguém quer ver. Ou dançando em bailes da terceira idade, onde podem ensaiar passos e, quem sabe, dar as mãos e um selinho tímido em alguém do mesmo quadrado. Mas eis que a vó faz sexo, e quer é mais. Eis que a avó é desejada e é gostosa e quer é trepar noite adentro. Pode, não pode? Mas é claro que pode. É só tirar as lentes da mediocridade moralista que tolhe as mulheres e corta suas possibilidades de sentir prazer.

Ademais, as mulheres mais velhas expõem o que a gente não gostaria de ver: que somos perecíveis. Que não somos imortais em nossas belezas padronizadas. Que o padrão é falho. Que a vida é breve. E que a idade vem, com ou sem plástica, com ou sem maquiagem. E, nesse momento, nossa inserção social como mulheres desejáveis e sexualmente ativas, está destinada a mornidão dos sonhos, à fantasia de um dia, ao olhar triste para o que se foi.

Mas, calma! Não, não é por aí. O sexo não tem idade, não tem limite, e a beleza é mutável como a vida. Não tem prazo de validade, só termina quando formos de vez dessa existência, para quem sabe onde. Ou para lugar algum. Sempre é tempo de viver e se deliciar em possibilidades de prazer e desfrute da vida. E nóis, aqui da biscatagi, continuaremos gritando e biscateando idade adentro, sambando na cara da hipocrisia, e nos assumindo livres para sermos o que quisermos ser.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

De ventos e partidas

De ventos e partidas

De ventos e partidas

Ela não sabia muito bem como havia se dado o partir. De repente, como num susto, ela já havia ido.

Não conseguia explicar em que momento partira-se, esparramando seus pequenos pedaços pelos tantos anos impregnados nas paredes que descascavam tinta branca. Num gesto brusco, arrancava com as unhas o branco que já fora inteiro. Não havia sobrado nada de pé, em que pudesse se firmar para o seguir dos dias. Ela estava ida, com os rastros da sua presença rarefeita a habitar a velha casa. Sua velha casa. Esvaziada, com as molduras preenchidas pelo vazio dos tempos futuros.

Ela partira assim, sem aviso, como um vaso adornado que se quebra em cacos disformes, empurrado da estante pelo sopro dos ventos. A janela, pelo desgaste dos fechos, estava aberta. E o acaso pode varrer as certezas que ela não sabia mais se tinha.

Despida de certezas e em pedaços que não mais se juntavam, ela se foi. Ainda confusa com o sentir-se tão só e tão povoada de si. Ainda com o gelado que lhe tomou o corpo, atônita por não saber mais onde era o chão. O vento-furação veio sem pedir licença. Ou talvez tivesse pedido, baixinho, em língua estranha, suplicando-lhe o movimento. Ela também era filha dos ventos.

Gostava de sentir o vento bater no seu rosto, e de saber-se portadora de asas inventadas capazes de levá-la a céus imensos. Fazia tempo que não ventava. Ela havido se encolhido, no conforto quente das janelas fechadas. Ali, carangueja, na concha emprestada, guardada dos arroubos de suas asas.

E então chegou o tempo, perspicaz, arrancando-lhe as raízes que não mais se fincavam no solo. O vento inundou a janela – a grande janela da sala da qual via o jardim vivo. Ventou, e ela se abriu para receber os ventos. Sua saia voava, e ela espalhava-se pelo ar leve do dia de sol.

Rodopio, vento-arrepio. Ela também estava viva.

Até quando?

E então chegou 2014! Um novo ano, um novo ciclo, em que me deparo com as mesmas velhas questões, e sigo com a certeza de que nossa luta e militância biscate ainda tem muito por onde seguir, e o que conquistar. Que vivemos numa velha sociedade preconceituosa, onde os valores morais que julgam comportamentos ainda nos ferem, nos agridem, nos tolhem. Mas, como uma boa biscate, eu continuo sambando na cara da sociedade, porque não posso mais aceitar julgamentos hipócritas que interfiram na minha vida, e no meu modo de amar.

 Tenho cá para mim que a coisa mais importante da vida é viver, onde for, e como for, o que se sente. E nesses dias, de novo, deparo-me com o velho apontar de dedos para as minhas manifestações de amor. Os mesmos medos, e as mesmas tradições empoeiradas e preconceituosas. De novo sou abordada, e viro notícia e assunto de mesa de bar. E essa manchete de jornal provinciano aconteceu, simplesmente, por eu estar….amando. Por estar vivendo um dia feliz com a minha namorada, onde não nos privamos de dar as mãos, e manifestarmos o amor que nos envolve – e que é bonito, livre, leve, e gostoso de viver – onde for.

 O que mais me assustou, foi ouvir frases como: “As pessoas não precisam passar por isso. Nesse lugar tem idosos e crianças, e eles não precisam passar por isso”. Oi? Não precisam passar pelo amor? Não precisam ver uma manifestação de amor entre duas pessoas? Onde isso as agride, ou fere? O amor fere? Não, não posso mais aceitar que isso possa ser um obstáculo para que as pessoas vivam seus afetos, onde e como for. E depois, escuto frases de apoio e frases de repúdio, como se um beijo, ou um abraço entre duas pessoas do mesmo sexo, fosse algo vindo de outro mundo, e fosse passível de ser julgado, interpelado e, por fim, sentenciado: não pode.

Até quando será uma questão viver o amor? Até quando terei que ser notícia? Até quando duas pessoas do mesmo sexo, ou sem qualquer sexo ou gênero ou definição (ainda acredito que um dia vamos transcender esse negócio de homem-mulher, masculino-feminino), terão que ser notícia por serem e viverem como são?

Não, não vou me privar de viver. A despeito de qualquer julgamento. Mesmo sem qualquer intenção, viver o amor virou um ato político. Porque quando beijo minha namorada em público eu estou apenas vivendo, sem pensar politicamente. Nesses momentos não quero afirmar nada nem provocar ninguém, estou apenas sendo livre para viver meu amor.

Mas já sei que, sim, é sempre um ato político nesta sociedade que insiste em me julgar e me tolher. E eu continuarei vivendo, beijando, amando, e sambando.

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