Dessas intimidades

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Estiro-me. Lentamente vou sentindo seu corpo no meu. Cada pedaço se enroscando nos meus poros. Dormir junto é intimidade dessas poucas. Depois do sexo os corpos se afagam. Sol na areia depois do banho de mar. Mais um pouco. Seus seios nos meus. Sua língua cansada com meu gosto. O sabor dos nossos gozos. O cheiro de sexo que esfumaça o ambiente, junto com as taças de vinho vazias do lado da cama.
Depois. Ainda tem mais. Eu sonho com água e meu corpo relaxado se deixa levar pelas ondas. A gente flutua. Sinto sua respiração profunda de inconscientes diversos. Você acorda assustada e diz que sonhou algo ruim. Eu te abraço sem abrir os olhos e enrosco minha perna na sua. O silêncio da madrugada e a lua na janela. Pouca luz e não ser a lâmpada que ficou acesa na sala. Sem querer adormecemos. Nessa nossa rotina de sono e amor até mais tarde.
Partilhar o sono é intimidade dessas poucas. A madrugada é longa e o sono é uma entrega. Entrego-me fazendo casa no seu colo. A entrega é macia. Minha pele na sua. Arrepio. Você acaricia meus cabelos, me embalo de preguiça. Aconchego. Mexo-me quase sem querer, nessa dança que vamos tecendo pelas horas dormentes. Você fala coisas que eu não entendo. Sempre cabe mais.
Partilhar os sonhos é intimidade de entrega. Conversa de corpos em correnteza que não se governa. Redemoinho adentro. Coração afora. Embarcação quente que parece proteger tudo dos pingos lá de fora. Você puxas as cobertas. Eu me aperto no seu corpo nu. As mãos dentro do peito. Mais um dia que vem.
O despertador toca sorrateiro. Sempre é de repente. Só mais cinco minutos. Beijo sua boca com gosto de sono. Os travesseiros caídos no chão. Um abraço que me engole e me espreguiça. Bom dia meu amor.

Tempestade de Sol

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Rir-se. Rirmos. Nosso riso. Essas nossas risadas que sempre tomaram conta do quarto nas noites mais simples de meio de semana. Naquela quarta-feira qualquer. Mesmo sem cerveja, mesmo sem graça. Era bom. Rirmos. Risos de doer a barriga e soluçar de amor. Esse seu riso fácil que tomava conta dos meus olhos pequenos. Que me embalava o sono do seu colo grande, sempre cansada de tanto. Eu sempre tanto. Você sempre suavidade. Sempre esteio para meus pulos sem chão. Toda riso farto de braços abertos. Toda para me receber tanto.

Eu tive que acostumar com as suas lágrimas, que vieram de repente. Uma a uma, rio de espanto. A vida é de repente. E é de repente que. Aprendi a lamber o seu sal na ponta dos dedos. A enxugar a ponta de seus lábios com a minha língua. A dar colo para a sua dor. A ficarmos mudas de mãos dadas diante do espanto. Aprendi, enfim, que o amor também é triste. E que no riso tem um bocado de coisas não ditas que cheiram a lágrimas. E que é bom mesmo assim.

Aprendo. Com o tempo que não vem ligeiro para nos contar que é tudo mentira. Com a reinvenção desse riso mudo de dor. Com a impermanência de nossos respiros. Com uma serenidade estranha diante do que não se controla. A vida é sempre. E é nunca mais. Os dias passam e descolorem a memória de quem ainda somos. E a cada pincelada a nossa eternidade que não se apaga.

Na maquiagem borrada de nossos espelhos invertidos, reinventamo-nos. Amamo-nos. Adormecemos na brisa mansa de um riso que ainda vem. Como naquela noite em que você ria sozinha, sem saber porque. Aquele riso solto, tão nosso, tão sem motivo. Riso dos nossos desejos. Da nossa intimidade musical traçada nos pés sobre as cobertas. “Vai doer mas depois vai passar”, eu canto. Você sorri generosa, tecendo futuros nos meus cabelos afagados. E a gente floresce, na tempestade de sol desses dias de outubro. Um outubro qualquer a se perder no tempo das belezas, dessas que as retinas não filtram.

Despedir-se é sempre

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Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

Visibilidade lésbica. Porque nós nos recusamos a sermos invisíveis.

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Lésbica, sapata, fancha. Sapatão. Butch. Gobi, para xs baianxs. Somos, não importa o nome, mulheres que amam mulheres. Mulheres cis e trans que se relacionam com mulheres. Mulheres que fazem sexo com mulheres. Somos, assim, sapatonicamente, inteiras em nossas sexualidades e desejos. Femininos. Ou nem tanto. Não importa a classificação que se queira dar, não somos enquadráveis. Somos muitas. De todos os jeitos, cores, trejeitos, números, vestimentas. Amamos. Desejamos. Pulamos nesse mar, para nadar a perder de vista.
Nós existimos. Temos amores, famílias, trabalhos, dores, delícias. Temos corpo, temos rostos, temos história. Andamos pelo mundo, estamos nos bares, nos ônibus, em um lugar bem perto de você. Até dentro da sua casa, mesmo que você não queira ver. E já é hora de não nos escondermos mais. De transitarmos por aí como somos. De amarmos livremente, sem estarmos confinadas em guetos ou armários empoeirados. Porque já basta.
Foto: Coletivo lesbitoca

Foto: Coletivo lesbitoca

Essa é a semana de visibilidade lésbica e o dia 29 de agosto representa uma importante data de luta contra a lesbofobia. Essa data foi criada no 1º Seminário Nacional de Lésbicas em 1996, é um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados por sua orientação sexual no Brasil.

Nessa semana de visibilidade lésbica estamos aqui para pedir respeito, para lutarmos pelos nossos direitos civis, sexuais e de liberdade individual. Nossa Constituição nos garante proteção e a opressão, qualquer opressão, física ou moral, é totalmente ilegal. E nós estamos aqui e resistimos. Nosso amor é resistência. Nosso amor é luta. É tesão. É parceria. É tudo junto. É humano como qualquer outra forma de amor que, como já tanto se cantou: sempre vale a pena.

Guarde seu preconceito no bolso, para ser educada. Não importa a sua crença religiosa, seu recalque, sua mentalidade. Vivemos num Estado de Direito que optou por respeitar os direitos humanos  (graças às deusas) e nos garantir liberdade e direitos plenos para vivermos como somos. Afinal, ninguém paga nossas contas e a moral é problema de cada umx. Moral não confere o direito de ninguém nos julgar ou ofender ou tolher. Beijo no ombro.

Coletivo lesbitoca

Coletivo lesbitoca

E estamos aqui para dizermos que não seremos mais invisíveis. Como afirma o coletivo lesbitoca: não queremos mais viver na invisibilidade. Ou melhor, como bem dizem as meninas lesbitoqueiras, nós nos recusamos a sermos invisíveis. Existimos e exigimos respeito. Essa é a nossa luta e essa é a nossa vida. E não pararemos até que nenhuma mulher mais sofra violência por ser quem é.

Acostumem-se conosco, porque nós não voltaremos, nunca mais, para a invisibilidade. Os armários estão de portas abertas e a gente continuará a existir e a resistir. Pela vida das mulheres, pela liberdade das mulheres, pela sexualidade livre das mulheres. Keep calm and respeita as sapatão!

Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Dos dias que seguem

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Deitadas juntas observamos o vazio. A incógnita dos nossos dias. O amor talvez seja isso: uma grande contemplação das incógnitas, em colo macio. Um abraço onde esquecemos das impermanências e pertencemos, um pouquinho, a algum lugar. Deixo-me.

Envoltas nos desafios tantos dos dias que seguem, temos a sorte de nos lembramos a tempo de não nos perdemos. Faço retratos imaginários da boca dela enquanto fala. Uma coleção de retratos que guardo nas retinas. A beleza dos tempos das partilhas. O antes e o hoje. E o porvir que nossas mãos não seguram. Deixamo-nos.

A doença que tomou seu corpo já não nos derruba tanto. Vamos aprendendo a conviver com a pergunta. E assim descemos o rio das correntezas, esse rio da vida que não avisa desvios. Nessa pequenina embarcação não tem espaço para muito. Só as miudezas e generosidades que não carecem embalagens. Existimos nos detalhes. Nos respiros. Nas pequenas e extraordinárias coisas que nos contam.

Temos medo. Mas a nudez da vida também acalenta. Uma certa liberdade atinge-nos quando, de repente, não temos mais chão de afundar os pés. A vida é aqui e agora. Sentimos vertigem. Pulamos. Onda vai, onda vem. Estico a corda. O amor é que me enlaça. E a rede de proteção é o afeto.

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Um afago no cansaço

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“O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço*”

Porque tem dias que a gente cansa. Assim, de repente, sem mais explicações ou porquês pontuados em frases certas e bem escritas. A gente cansa em reticências, em exclamações, em pontos usados de forma errada. A gente cansa em travessões sem fala e aspas sem sentenças. A gente cansa.

Há uma exigência quase brutal nos dias de hoje. Uma exigência do sorriso, da maquiagem sempre retocada, da palavra certa. As redes sociais são campeãs disso. Sorria. A foto do instagram mostra a dona feliz carregando flores. Os filtros são bonitos, o dia era cinza mas o toque pro x II fez tudo azul cristalino e inequívoco. A gente sorri e posta frases de efeito. A gente tem que vencer.

Diante de tanta beleza a gente não tem nem coragem de mostrar a nossa dor. Ela não pode desfilar na sociedade virtual de pompas e memes falsos da Clarice Lispector feliz. Clarice também era triste. Caio Fernando Abreu também era louco. Mas, por algum motivo, os trechos escolhidos desses autores para quadrinhos são sempre felizes e otimistas e, claro, não foram eles que escreveram. Porque a gente tem tanto medo de falar de dor e cansaço? De loucura e desacerto? De ir a fundo, por exemplo, na obra de Clarice e Caio com toda sua angústia e beleza e incerteza?

São muitos os padrões da vitória. Fale a coisa certa. Aja da forma correta. Não espante. Não falhe. O mundo contemporâneo é cheio de metas de sucesso. Até nos movimentos sociais, militâncias e grupos de apoio. Seja guerreira. Seja mulher forte. Fale a coisa certa, pondere, reescreva vinte vezes antes de mandar. Veja se está de acordo com o esperado, se o grupo para o qual você se dirige, seja de amigxs, seja de militância te receberá bem. Veja se terá probabilidades de “like”, e palavras de apoio.

Sei que os tempos virtuais são de uma agressividade ímpar, veja lá o que aconteceu com Bela Gil, sua cúrcuma e lancheira saudável: pedrada. São tempos de intolerância. E sei também que a gente não precisa partilhar tudo (ufa!). Então a gente escolhe o bom, as palavras de ânimo, a frase “certa” que não existe. Tem o lado bom, claro, a gente quer se nutrir de esperança. Mas. E o outro lado? Não tem identificação?

Até quando tem doença, você não pode esmorecer. Tem que ser guerreira, tem que vencer. As pessoas parecem querem ver sempre a vitória, o acerto. E a gente, claro, quer ser a vitória a ser vista. E vamos assim ficando com a falsa impressão, que vai se alastrando por dentro, que temos que dar conta de tudo. Né? Tá todo mundo tão feliz e tão colorido, eu também tenho que, eu não posso decepcionar ao outro e a mim mesma. E, ao mesmo tempo, é curioso que a depressão aumenta como uma das doenças mais presentes nesse século. Não é contraditório?

Não, nem sempre. Como uma vez disse uma amiga, aquele super-herói ou super-heroína também tem um ponto fraco. E saber do seu ponto fraco, é o que faz elx ficar mais forte. Eu, que não pretendo ser super-heroína de nada nem de ninguém, venho aprendendo que acolher meus medos, falhas, loucuras e indefinições, me fazem mais inteira em quem sou, ou busco ser, ou acho que estou sendo. Me fazem mais humana. Fazem até as minhas crises de pânico – acalmadas depois de anos de análise nas profundezas bem enrugadas e assustadoras de mim – fazerem mais sentido. Me fazem mais, acreditem, feliz. Porque ser feliz, desconfio eu, é essa coisa toda complexa que somos. Mas essa sou eu. E assim me exponho louca e arrepiada, como também sou.

A gente tem dor e cansaço, medo e confusão, e olhar pra isso tudo é olhar pra quem somos. Ou acho eu, me permito a dúvida, também me permito ser questionada e errada, e transitória e nem sempre fazer sentido. Então eu acolho. Eu, e xs outrxs nas suas dores, nas suas confusões. Pedir colo, colocar no colo. Acolher o imperfeito, a loucura, a dualidade de tudo que vive. Porque ninguém é uma coisa só, e sempre me interessam as metades que se juntam ou se escapam, e não apenas o lado de flor. Flor é bom. Eu tenho, eu gosto. Mas também teve espinho e um monte de colheita vazia.

Tudo bem falhar. Tudo bem não estar disponível e linda às sete da manhã depois da insônia. Tudo bem não ter saco às vezes para nada. Tudo bem falar sobre isso. Para transformar o temporal em poesia a gente tem que olhar pra ele. Navegar, surfar, tomar caldo. Enquanto isso, vou ouvindo a Bethânia recitando cântico negro do José Régio, porque né? Tem dias que só a Bethânia salva. E, não, eu não vou por aí.

“Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…”

(José Régio)

*trechos do Poema Cansaço, de Fernando Pessoa.

 

Uma carta de quase vento

gatoAqui os dias estão calmos amiga, você bem sabe o que isso quer dizer. A calmaria faz vento nos meus ouvidos. Meu cavalo canta uma cantiga que ainda não sei decifrar. Ele olha tudo com estranheza e paz na beira da lagoa. As patas molhadas de lama fresca, uma saciedade de barriga cheia e uma ansiedade sobre o que vem depois. O que vem depois da saciedade? Acho que gosto de sentir fome, invento a fome, mesmo quando não cabe mais nada dentro. Tenho que esvaziar. Então vou me esvaziando sem abrir as mãos, tentando fazer vento e tempestade sem mexer nas águas plácidas em que me banho sem pressa, tentando mergulhar sem fazer onda nem desarranjo.

O que vem depois da desse lugar calmo onde nada escapa? Não sei amiga, tenho fracassado em buscar conflitos. Respiro nos exercícios de yoga e acompanho o gato na beira da janela. Deixo ele perigosamente se acomodar no parapeito, ali, no risco, no vão do quase pulo. Ele se derrama tão macio no espaço do quase, namorando a vertigem lá fora.  Observo o gato, os olhos atentos, a paixão de querer ir sem sair do lugar. As horas passam, ele não se mexe, eu corro o risco com ele, eu contemplo o risco. Ele não pula, aqui dentro é quente e ele tem medo. Eu vou lá e o abraço por trás, tiro seu corpo com cuidado, e num consolo suspiramos juntos, de volta a calmaria.

Podia ter machucado, podia ter morte, podia ter nunca mais, podia ser tudo diferente. Tava tão vivo. Mas a gente contempla da janela de novo, aliso seus pelos e ele me lambe, ele é um gato que lambe com vontade de sal. Essa vontade que corre sempre por dentro, essa vontade de mar que a gente tem dentro e que nunca cessa. E essa sede de mar é uma sede pra sempre amiga, é uma sede da gente toda. Olho o gato de novo, é ele que me ensina, é ele que me conta das belezas desse tempo de contemplar e aprender a ficar no quente. De fazer pouca onda e pouco barulho, de deslizar pequena sem grandes alardes. O tempo é de uma paz estranha que me rasga por dentro e eu não sei.

Escuto a Angela Rorô, ela toca de novo e de novo, e eu vou me deixando embriagar pela cena do escândalo, às vezes no quente faz frio, é estranho fazer frio em tanto conforto. “o grande escândalo sou eu, aqui, só”. Vou rompendo as manhãs amiga, vou vivendo essa vida tão certa de que amanhã é mais um dia de chá quente com aquele bolo que parece casa de mãe, aqueles dias que meus conflitos se reinventam e não encontram vazão, não tenho mais explosões para me ferir, não acho mais os fósforos, eu tento, risco faíscas, mas nada amiga, não sai fogo. E que bom que não sai fogo, porque eu já cansei de tanto joelho ralado, eu só preciso aprender. E então eu vou indo, eu vou tentando reinventar, eu tenho que aprender a reinventar. Sempre.

Menos régua individual e mais política

Nesses dias nosso ativismo feminista cibernético anda revirado de debates pouco profícuos. Uma onda de discussões sobre relacionamentos alheios e até lancheiras de merenda escolares tem sido alvo de ataques e problematizações pela rede afora. O que vejo é uma crítica muito mais às mulheres do que aos discursos. Levantar a bandeira de que o “pessoal é político” parece se arvorar do direito de adentrar às vidas alheias com a régua medidora de comportamentos, em nome, claro, da proteção às mulheres.

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Será que o “pessoal é político” transformou-se num passaporte para invadir a janela das casas e ir lá, com um padrão construído pelas próprias julgadoras, dizer que aquela individualidade, circunscrita a uma casa e contexto específicos, representa algo prejudicial a todo um coletivo de mulheres? Me pergunto: isso é ético?

“O pessoal é político” é uma frase muito inspiradora nas minhas militâncias feministas e lésbicas do dia-a-dia, nas quais questiono o cara que assobia quando eu passo na rua, me assumo lésbica onde eu estiver, fazendo da minha luta política também uma luta cotidiana. Mas será que ela me dá o direito de julgar outra mulher? E pior, expô-la? Classificando seu comportamento e julgando seu relacionamento quando essa pessoa, no seu trânsito cotidiano, está simplesmente vivendo? E está vivendo sem que seu comportamento fira ninguém, quiça ela mesma?

Em primeiro lugar, o pessoal é político sim, sempre será, mas expor uma mulher apenas para fazer inferências sobre sua vida pessoal é desconsiderar qualquer forma de respeito à sua individualidade. Às suas escolhas, inclusive. Mesmo mulheres que sofrem agressão muitas vezes não conseguem se expor, por isso prevemos uma série de proteções a essas mulheres, que devem ser acolhidas e preservadas. O pessoal ser político não significa que você pode decidir a vida da outra como se fosse a sua, muito menos presumir o que ela vive.

Pensar o político significa pensar o estrutural e não o pessoal, caso a caso. A vida sempre escapará às normas. Sempre haverá exceções, sempre haverá casos não previstos, sempre haverá pessoas e situações que nos farão interpretar tudo diferente.

Porém, estruturalmente como podemos ajudar e amparar mulheres que sofrem violência? Podemos repensar a Lei Maria da Penha e sua aplicabilidade. Como se caracteriza uma agressão? Como ampliamos a proteção e o acesso da mulher a justiça? Tem tanto para melhorar. Mas, conformem-se: tem mulher que não será e não quer ser salva pelo feminismo. Assim como há outra mulher que está bem feliz numa relação que você pode considerar abusiva apenas por ser com um homem mais velho.

Porque não adianta bater nos machos todos e querer traçar normas para os relacionamentos: homem mais velho abusa de menina mais nova. Mas né? Homem mais novo abusa de mulher mais velha? Sim. Homem de todas as idades pode abusar de mulher de todas as idades e de todas as formas? Sim, infelizmente. E há também mulheres abusadoras. A agressão sexual a crianças é algo que precisa ser pautado, bem como a dificuldade de se punir homens pela Lei Maria da Penha em casos de violência moral e patrimonial, tão difícil de ser comprovada. Também precisamos pensar em outras soluções para a questão da violência contra a mulher, que foquem em mais educação e menos punitivismo. Essa pauta feminista anda tão apagada.

O pessoal pode ser político, mas discutir o político não é discutir a vida alheia em sua intimidade quando a pessoa alvo da discussão claramente não quer ser pauta de ninguém.

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Sede

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Texto escrito em suruba literária com Kiara Terra.

Aquilo que não sabemos nos protege. O instante delicioso e cheio de pergunta. Será? Reticência leve seguida de um sim-mergulho.Um sim-vôo. Um sim-abrir-se, estar no colo. A leveza tranqüila de brincar com segredos, medos e desejos preservados.

Um sim que sorri e nos conta que não há pouso seguro. Um sim-vento, que sopra sem bússolas ou rotas programadas. Um sim vivo que se delicia com as possibilidades. Abrigo sem teto, horizonte aberto de quem ganha as estrelas.

E se o mar fosse um colo? Eu quero o mar. Inteiro para nadar toda na falta de margem e beira. Solta em flutuação florescente de quase noite. Algas que resplandecem sob a lua cheia. Eu quero a lua imensa e amarela, a me contar segredos de luz sobre as águas escuras. Boiar no fluxo das correntezas sem bater os braços e as pernas, sentindo o gozo fértil de estar permeada de mar.

O desejo mordido com a língua salgada. Vivo por entre os dentes, saliva quente com gosto de mais. Permitir-se ser só desejo. Poder ser movimento sem palavras. Desejo vivo e vivido em ondas de mar. Diante do mar não tem palavra. Diante do mar só tem mergulho e pele arrepiada, em poros abertos para que o vem.

Eu quero o colo  inteiro. Ser minuscula em sua boca grande e dormir sentindo pulsar o peito. As mãos firmes em minhas costas, selar o espaço quase inexistente de não sermos nunca a mesma pessoa. Rir do descompasso de ser, das diferenças humanas de quem é. E tudo só um encontro em que não se precise de mais nada.

Só as águas fartas e o céu em constelação silenciosa. O tudo que se esconde onde nada se diz, a contemplação muda da força. O corpo saciado  a vontade renascida do fluxo branco das espumas. Não há mais palavra porque tudo meu está nos olhos. Num além daqui aqui mesmo. E qualquer outro lugar onde se esqueça a morte. Onde a gente se lembre muito pouco de tudo antes, e traga junto toda qualidade de segredos engendrados nos músculos, seios e ossos. E nada que seja minha dor se despeje, nada que seja meu desamparo se espalhe. Só a pele macia tocada em dança ágil, onde toda dor vira perfume .

Estou nua e o que não sabemos nos protege. O abismo tem poesia e só venta por que derramei toda previsibilidade. Então vem, brinca comigo de ser o mar que talvez chova. Que talvez vente e faça sol quente de arder as vísceras. Que talvez da terra fecundada nasçam flores vermelhas para enfeitar nossos cabelos. Que talvez apareçam pássaros nos nossos ombros que cantem belas cantigas. E que a gente esteja e seja até quando ventar e existir sede.

Por uma educação não heteronormativa

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Sim, é possível. Esses dias tive certeza de que é possível educarmos crianças de uma forma não heteronormativa. Mesmo que o mundo esteja repleto de preconceitos e que a escola, infelizmente, ainda seja um ambiente onde pouco, ou quase nada, se discute sobre heteronormatividade. Mesmo que haja tanta resistência em se tocar no assunto, e um simples beijo entre duas atrizes na novela causem pânico nos mais conservadores, que querem tirar as crianças correndo da sala. Mesmo que. É possível se mudarmos as nossas posturas com as crianças que criamos ou convivemos. É possível se o diálogo for aberto, se não houverem barreiras, mentiras, nem nada escondido. Se a sexualidade for tema a ser transitado com cuidado e com os braços abertos para as possibilidades. Porque sexualidade é isso aí: possibilidades.

Esse final de semana meu filho e sua inseparável amiga Sol conversavam conosco. Papo vai, papo vem, domingo quente, todo mundo se preparando para nadar no lago. Amenidades de uma manhã de claridades. No meio da prosa ela fala: “Be, quando você tiver um namorado ou uma namorada você vai …..”. Segue o assunto. Ele responde: “Não Sol, quando eu tiver um namorado ou uma namorada eu não vou….”. Elxs terminam o sorvete e saem correndo em outras brincadeiras despreocupadas. Um detalhe tão fundamental passou totalmente desapercebido por suas meninices, mas fez a mãe aqui abrir um sorriso maior que o sol que brilhava lá fora.

Elxs, aos 8 anos, conversam sem saber que não fazem mais distinção de gênero nem sexualidade nas suas projeções de futuro. Que, aos 8 anos, naturalizaram algo que nós, criadxs em tempos repressores, demoramos tanto tempo para desconstruir: que a sexualidade é livre. Que elxs, quando crescerem,  poderão namorar quem quiserem, como quiserem, sem que ser hétero ou ser qualquer coisa seja uma exigência ou um padrão a ser seguido, que os machucará caso queiram seguir o não padrão. Claro que terão que enfrentar também o preconceito, caso escolham o caminho homo. Ou o caminho bi. Ou o caminho trans. Ou qualquer outro caminho que não podemos ainda nominar. Mas, ao menos, terão base e apoio para serem mais seguros e amados em suas escolhas. Inclusive por elxs mesmos.

 Sim, é possível, basta coragem. Basta ousarmos. Sairmos do discurso e colocarmos as mãos na massa. Nós, pais, cuidadores, mães, avós, madrinhas, tias, tios, podemos mudar as nossas condutas em relação à educação sexual e afetiva dessas crianças. Educarmos abertamente, assumindo-nos como seres possíveis. E elxs também, sem essa de menino e menina, “com quem será que o Bernardo vai casar? ah, claro, com a Rosinha. Nunca pode ser com o Pedrinho. Ou quem sabe com o Pedrinho e a Rosinha também?.” As pessoas homoafetivas não são aquelas lá longe, elas estão perto. E podem ser qualquer umx de nós, a qualquer tempo. Pode ser ela ou ele, pode ser a gente mesmo. As crianças assim criadas e educadas não vão necessariamente viver uma vida homoafetiva. Elas terão a possibilidade, a escolha mais ampla, os caminhos sem tantas nuvens e obstáculos consigo mesmas. E os braços abertos para aceitar a diversidade de amor, sexo e afeto, venha de onde vier. Bora desconstruir?

Por partos e mulheres livres


Recentemente temos assistido uma grande polêmica envolvendo o parto domiciliar. Casos de partos fora do ambiente hospitalar que tem motivado uma série de debates sobre a liberdade da mulher parir onde bem entender, e como bem entender. Médicxs, juízes, juízas, promotores de justiça, gente da medicina e do direito vem se debatendo para barrar, tolher, regulamentar esse tipo de parto. Para entender até onde a mulher pode ser livre para dispor do seu corpo e da sua gravidez como quiser.
É preciso que se diga que esse é um debate um tanto elitista, pois se resume àqueles casos de partos domiciliares daquelas mulheres e famílias que puderam arcar com o que significa ter um parto domiciliar bem assistido hoje em dia: pagar umx médicx ou uma parteira, uma doula, umx neonatologista para ir em casa. Não estamos falando as mulheres pobres que pariram em casa por falta de opção ou por morarem num lugar inacessível a qualquer Hospital. Dessas não se fala, nem se preocupam os doutos magistrados e médicos. Essas são as invisíveis, excluídas, e não aparecem na mídia vendendo notícia. Estamos falando do parto domiciliar que não é para todas. É para quem tem acesso, muitas vezes, a círculos privilegiados e com dinheiro em estoque para arcar com isso. É para quem pode pagar. Mas, ainda assim: é um direito de quem pode. Como é um direito privilegiado de quem pode pagar um plano de saúde ter seu parto na suíte master do Hospital estrela mais mais. Ou daquelas que pagam um plano de saúde com muito custo e acabam nos protocolos de hospitais que, nem sempre, ou melhor, quase nunca, garantem seus direitos na hora de parir.
Infelizmente, a saúde capitalizada em nosso país como um bem de consumo. Temos o SUS para nos salvar e para continuarmos brigando por um sistema universal de saúde que reverta essa lógica. Mas ainda temos muito chão pela frente. O SUS tem incentivado a criação de casas de parto e a realização de partos naturais e humanizados, mas estamos longe de termos respeito às mulheres na hora de parir nos hospitais públicos. Basta que ver na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde para avaliar a Rede Cegonha, seu programa integrado de promoção do parto humanizado, 62% de mulheres não conseguem sequer terem um acompanhante na hora do parto, direito legalmente garantido e que deveria pressuposto básico de todos os partos. Mas não é.
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Queria ressaltar, com todas as ênfases, que esse tipo de parto domiciliar não é a mesma coisa que um parto desassistido. O parto domiciliar é um parto onde existe uma equipe de saúde que atende à mulher, mas uma equipe que foge da lógica medicalizada e centrada no poder biomédico que existe nas instituições de saúde. Uma equipe que vai acolher a mulher no melhor lugar do mundo para que sua cria venha ao mundo: na sua casa. Parto que pode ter todo mundo peladx na banheira, parto com massagem, parto com a avó passando um café na cozinha, parto com respeito ao momento e a hora de parir, parto com música, parto com beijo, parto com amor. Mas, e se der algo errado? Bom, nos partos domiciliares existe sempre um plano B e um hospital de referência para seguir caso algo não saia como o esperado. Porque sempre é possível que algo não saia como o esperado, em hospitais ou em casa. Com ou sem médico. A vida sempre escapa de certezas. Mas o mito de que o parto domiciliar é menos seguro é o que querem vender como certeza.
Não temos estatísticas para evidenciar o número de partos domiciliares com qualquer tipo de intercorrência, mas sabe-se que são muito poucas, pois quando um caso surge, contra-hegemônico, cai o mundo na imprensa e nos fóruns de debates médicos e jurídicos, como assistimos nessas últimas semanas aqui no Distrito Federal. Um único caso. E o que temos do outro lado? Sabemos que a mortalidade materna no Brasil é enorme nos ambientes tão “seguros” dos hospitais. A Pesquisa “Nascer no Brasil” feita pela Fundação Oswaldo Cruz em 2014 trouxe o alarmantes dado de que a mortalidade materna no Brasil atinge o patamar de 69 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos. É. Isso tudo. Temos ainda o Relatório da CPI da Mortalidade Materna de 2000 que apurou que 68% da mortalidade materna ocorre durante os partos e que em 98%  dos casos as mortes são evitáveis. Hum. Será que sair de casa e ir parir no Hospital é mais seguro mesmo?
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Mas aí vem algo que aprendi e vivenciei durante um Fórum sobre Parto que participei como debatedora pela Artemis na Associação Médica de Brasília: a mulher não é o foco de preocupação dos médicxs. Dane-se a mulher. O que importa é se o bebê vem ao mundo vivo e saudável. Não importa se a mulher pariu na posição de frango assado, se ela foi cortada sem necessidade por episiotomia ou numa cesárea desnecessária, se rasparam seus pelos pubianos para ficar “mais fácil” e “mais higiênico”, se ela passou horas desconfortável e sem a menor assistência.
O mundo machista acostumou-se a usar o corpo feminino e dele dispor sempre em benefício de outrem. Ou em prol da “família” ou em prol dos desejos do homem ou, ainda, para facilitar o serviço médico. Não é dado à mulher falar, reclamar, argumentar, não querer. “O que importa é a criança que carregas em teu ventre, mulher!. Fica quieta e aguenta”. Aguenta a violência, tão real e tão simbólica, e tão naturalizada na sociedade. Como nos mostra o Dossiê da Parto do Princípio é “normal” as mulheres passarem por violências das mais diversas ao parir, desde físicas até morais. Falas como: “na hora de fazer você não reclamou né? agora fica quieta” são corriqueiras, assim como cortes e invasões desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher. Marcas que ficam, e seguem, no corpo e na mente de tantas de nós. Sim, eu também fui vítima de violência obstétrica.

Sabemos que o Brasil é campeão de cesarianas. Na rede pública vamos para um número parecido com 52% desse tipo de parto, enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Na rede privada, pasmem, o índice sobe para 83%, podendo até chegar a mais de 90% em algumas maternidades. A cesárea, obviamente, pode salvar vidas. Como é bom poder ter esse recurso. Mas, como toda cirurgia, devia ser usada para casos de necessidade. Tem que ter indicação correta. o que não acontece, por certo, nos 80% dos casos de cesárea de uma maternidade.

Ademais, se formos ainda olhar pelo “bem do bebê”, as cesarianas fora de hora podem acarretar males bem preocupantes para os bebês, como diz Melânia Amorim: “diversos estudos apontam que taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto”.

Mas não, é o parto domiciliar, com sua liberdade e não enquadramento no poder médico e machista que querem tolher e problematizar. É o parto da mulher protagonista que querem apagar com falsos medos, é o parto onde a mulher tem voz e que tem vez que querem calar e abafar em uma dita normatividade científica e biomédica que de dados científicos não tem nada. É o parto da mulher que não se curva, que não se deixa deitar como é melhor para o outro, que não fica quieta e que assume as rédeas de seu corpo que querem culpar e colocar cabresto.

O que tem nesse falso problema é um monte de medo da mulher fora da curva, da mulher que teve seu parto como quis, que deu uma banana para os senhores de jaleco branco e foi ter seu filho com outra mulher que lhe afagou os cabelos e lhe olhou nos olhos sem bisturi nem injeção em punho. Se querem culpabilizar a mulher pelo parto domiciliar que resultou em qualquer dano para o bebê, que culpabilizem também a mulher que escolheu uma cesárea eletiva que resultou em danos para o bebê. Mas de preferência que não culpabilizem ninguém. Que as mulheres possam dispor sobre seus corpos como quiserem. E que tenham suporte de saúde, de direito, e informações claras para decidir.

feminista

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