Um rio que chora a sua morte

rio5Tentei escrever um texto que não saiu. Nada poderia dizer a respeito de tudo que vi, em sangue e lama, nas semanas que seguiram por cima de mim. Afoguei-me. Tentei dar nome as coisas que me assaltavam os olhos. Mas as lágrimas engoliram-me a voz. Tenho os olhos duros de quem não consegue ver. E as mãos em prece de espanto.
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Um crime ambiental de proporções inigualáveis. Tantas mortes. Um rio que não existe mais. Pessoas que não existem mais. Peixes boiando na água que virou lama. Cavalos, cachorros, pescadores sem barco nem sustento. Esperanças em preto carvão. Uma terra que não é mais. Mulheres, crianças, árvores, toda aquela vida que sumiu nos excessos e dejetos da ganância dos homens. As casas que se cobriram pela lama dos tantos dinheiros de alguém que nunca aparece. Uma Vale que não é verde. Uma empresa que devora nossos bens comuns com sede de poder. Uma água que não se bebe mais. Um rio que carrega a sua morte, cortejando a devastação até conseguir chorar no mar.
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Choramos. Não tem acalento nem música para embalar a tristeza. O som que se ouve é o grito do Rio. Deito minha cabeça no leito imaginário de uma cidade que se transformou em lama. Sinto a covardia. Sinto suas entranhas reviradas e o gosto de morte nos lábios. Sinto que não tem justiça que seja capaz de reparar a perda que não foi evitada por quem podia. Negligência é uma palavra dura demais para se ouvir quando ela mata mais do que nossos lábios conseguem dizer. Não digo. Calo. Repito para mim mesma um mantra que não tem letra. Sinto-me pequena diante da estupidez humana.

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Subo no lombo do meu cavalo. É preciso seguir. É preciso ajudar, é preciso poder gritar. É preciso ter voz para poder gritar as injustiças e a dor desse mundo que nos massacra com seus dinheiros sujos de lama e seus homens com tantas mortes acumuladas nos ombros.

Eu ainda quero poder sonhar um mundo melhor.

Pelo tempo de envelhecer

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Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

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Dessas intimidades

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Estiro-me. Lentamente vou sentindo seu corpo no meu. Cada pedaço se enroscando nos meus poros. Dormir junto é intimidade dessas poucas. Depois do sexo os corpos se afagam. Sol na areia depois do banho de mar. Mais um pouco. Seus seios nos meus. Sua língua cansada com meu gosto. O sabor dos nossos gozos. O cheiro de sexo que esfumaça o ambiente, junto com as taças de vinho vazias do lado da cama.
Depois. Ainda tem mais. Eu sonho com água e meu corpo relaxado se deixa levar pelas ondas. A gente flutua. Sinto sua respiração profunda de inconscientes diversos. Você acorda assustada e diz que sonhou algo ruim. Eu te abraço sem abrir os olhos e enrosco minha perna na sua. O silêncio da madrugada e a lua na janela. Pouca luz e não ser a lâmpada que ficou acesa na sala. Sem querer adormecemos. Nessa nossa rotina de sono e amor até mais tarde.
Partilhar o sono é intimidade dessas poucas. A madrugada é longa e o sono é uma entrega. Entrego-me fazendo casa no seu colo. A entrega é macia. Minha pele na sua. Arrepio. Você acaricia meus cabelos, me embalo de preguiça. Aconchego. Mexo-me quase sem querer, nessa dança que vamos tecendo pelas horas dormentes. Você fala coisas que eu não entendo. Sempre cabe mais.
Partilhar os sonhos é intimidade de entrega. Conversa de corpos em correnteza que não se governa. Redemoinho adentro. Coração afora. Embarcação quente que parece proteger tudo dos pingos lá de fora. Você puxas as cobertas. Eu me aperto no seu corpo nu. As mãos dentro do peito. Mais um dia que vem.
O despertador toca sorrateiro. Sempre é de repente. Só mais cinco minutos. Beijo sua boca com gosto de sono. Os travesseiros caídos no chão. Um abraço que me engole e me espreguiça. Bom dia meu amor.

Tempestade de Sol

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Rir-se. Rirmos. Nosso riso. Essas nossas risadas que sempre tomaram conta do quarto nas noites mais simples de meio de semana. Naquela quarta-feira qualquer. Mesmo sem cerveja, mesmo sem graça. Era bom. Rirmos. Risos de doer a barriga e soluçar de amor. Esse seu riso fácil que tomava conta dos meus olhos pequenos. Que me embalava o sono do seu colo grande, sempre cansada de tanto. Eu sempre tanto. Você sempre suavidade. Sempre esteio para meus pulos sem chão. Toda riso farto de braços abertos. Toda para me receber tanto.

Eu tive que acostumar com as suas lágrimas, que vieram de repente. Uma a uma, rio de espanto. A vida é de repente. E é de repente que. Aprendi a lamber o seu sal na ponta dos dedos. A enxugar a ponta de seus lábios com a minha língua. A dar colo para a sua dor. A ficarmos mudas de mãos dadas diante do espanto. Aprendi, enfim, que o amor também é triste. E que no riso tem um bocado de coisas não ditas que cheiram a lágrimas. E que é bom mesmo assim.

Aprendo. Com o tempo que não vem ligeiro para nos contar que é tudo mentira. Com a reinvenção desse riso mudo de dor. Com a impermanência de nossos respiros. Com uma serenidade estranha diante do que não se controla. A vida é sempre. E é nunca mais. Os dias passam e descolorem a memória de quem ainda somos. E a cada pincelada a nossa eternidade que não se apaga.

Na maquiagem borrada de nossos espelhos invertidos, reinventamo-nos. Amamo-nos. Adormecemos na brisa mansa de um riso que ainda vem. Como naquela noite em que você ria sozinha, sem saber porque. Aquele riso solto, tão nosso, tão sem motivo. Riso dos nossos desejos. Da nossa intimidade musical traçada nos pés sobre as cobertas. “Vai doer mas depois vai passar”, eu canto. Você sorri generosa, tecendo futuros nos meus cabelos afagados. E a gente floresce, na tempestade de sol desses dias de outubro. Um outubro qualquer a se perder no tempo das belezas, dessas que as retinas não filtram.

Despedir-se é sempre

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Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

Visibilidade lésbica. Porque nós nos recusamos a sermos invisíveis.

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Lésbica, sapata, fancha. Sapatão. Butch. Gobi, para xs baianxs. Somos, não importa o nome, mulheres que amam mulheres. Mulheres cis e trans que se relacionam com mulheres. Mulheres que fazem sexo com mulheres. Somos, assim, sapatonicamente, inteiras em nossas sexualidades e desejos. Femininos. Ou nem tanto. Não importa a classificação que se queira dar, não somos enquadráveis. Somos muitas. De todos os jeitos, cores, trejeitos, números, vestimentas. Amamos. Desejamos. Pulamos nesse mar, para nadar a perder de vista.
Nós existimos. Temos amores, famílias, trabalhos, dores, delícias. Temos corpo, temos rostos, temos história. Andamos pelo mundo, estamos nos bares, nos ônibus, em um lugar bem perto de você. Até dentro da sua casa, mesmo que você não queira ver. E já é hora de não nos escondermos mais. De transitarmos por aí como somos. De amarmos livremente, sem estarmos confinadas em guetos ou armários empoeirados. Porque já basta.
Foto: Coletivo lesbitoca

Foto: Coletivo lesbitoca

Essa é a semana de visibilidade lésbica e o dia 29 de agosto representa uma importante data de luta contra a lesbofobia. Essa data foi criada no 1º Seminário Nacional de Lésbicas em 1996, é um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados por sua orientação sexual no Brasil.

Nessa semana de visibilidade lésbica estamos aqui para pedir respeito, para lutarmos pelos nossos direitos civis, sexuais e de liberdade individual. Nossa Constituição nos garante proteção e a opressão, qualquer opressão, física ou moral, é totalmente ilegal. E nós estamos aqui e resistimos. Nosso amor é resistência. Nosso amor é luta. É tesão. É parceria. É tudo junto. É humano como qualquer outra forma de amor que, como já tanto se cantou: sempre vale a pena.

Guarde seu preconceito no bolso, para ser educada. Não importa a sua crença religiosa, seu recalque, sua mentalidade. Vivemos num Estado de Direito que optou por respeitar os direitos humanos  (graças às deusas) e nos garantir liberdade e direitos plenos para vivermos como somos. Afinal, ninguém paga nossas contas e a moral é problema de cada umx. Moral não confere o direito de ninguém nos julgar ou ofender ou tolher. Beijo no ombro.

Coletivo lesbitoca

Coletivo lesbitoca

E estamos aqui para dizermos que não seremos mais invisíveis. Como afirma o coletivo lesbitoca: não queremos mais viver na invisibilidade. Ou melhor, como bem dizem as meninas lesbitoqueiras, nós nos recusamos a sermos invisíveis. Existimos e exigimos respeito. Essa é a nossa luta e essa é a nossa vida. E não pararemos até que nenhuma mulher mais sofra violência por ser quem é.

Acostumem-se conosco, porque nós não voltaremos, nunca mais, para a invisibilidade. Os armários estão de portas abertas e a gente continuará a existir e a resistir. Pela vida das mulheres, pela liberdade das mulheres, pela sexualidade livre das mulheres. Keep calm and respeita as sapatão!

Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Dos dias que seguem

duas-mulheres-passeiam-pela-praia-de-la-zurriola-em-san-sebastian-na-espanha-1332779034586_956x500Então ela me abraça e eu deito a cabeça macio. Sinto cansaço e deixo o sono cair pelos meus olhos, nessa estranha sensação de pertencimento a outro corpo. Enrosco-me. Cada buraquinho fazendo curva nos meus pelos, o sabor da pele nos meus lábios. Seu sotaque baiano contando-me histórias de mar. Eu balanço.

Deitadas juntas observamos o vazio. A incógnita dos nossos dias. O amor talvez seja isso: uma grande contemplação das incógnitas, em colo macio. Um abraço onde esquecemos das impermanências e pertencemos, um pouquinho, a algum lugar. Deixo-me.

Envoltas nos desafios tantos dos dias que seguem, temos a sorte de nos lembramos a tempo de não nos perdemos. Faço retratos imaginários da boca dela enquanto fala. Uma coleção de retratos que guardo nas retinas. A beleza dos tempos das partilhas. O antes e o hoje. E o porvir que nossas mãos não seguram. Deixamo-nos.

A doença que tomou seu corpo já não nos derruba tanto. Vamos aprendendo a conviver com a pergunta. E assim descemos o rio das correntezas, esse rio da vida que não avisa desvios. Nessa pequenina embarcação não tem espaço para muito. Só as miudezas e generosidades que não carecem embalagens. Existimos nos detalhes. Nos respiros. Nas pequenas e extraordinárias coisas que nos contam.

Temos medo. Mas a nudez da vida também acalenta. Uma certa liberdade atinge-nos quando, de repente, não temos mais chão de afundar os pés. A vida é aqui e agora. Sentimos vertigem. Pulamos. Onda vai, onda vem. Estico a corda. O amor é que me enlaça. E a rede de proteção é o afeto.

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Um afago no cansaço

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“O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço*”

Porque tem dias que a gente cansa. Assim, de repente, sem mais explicações ou porquês pontuados em frases certas e bem escritas. A gente cansa em reticências, em exclamações, em pontos usados de forma errada. A gente cansa em travessões sem fala e aspas sem sentenças. A gente cansa.

Há uma exigência quase brutal nos dias de hoje. Uma exigência do sorriso, da maquiagem sempre retocada, da palavra certa. As redes sociais são campeãs disso. Sorria. A foto do instagram mostra a dona feliz carregando flores. Os filtros são bonitos, o dia era cinza mas o toque pro x II fez tudo azul cristalino e inequívoco. A gente sorri e posta frases de efeito. A gente tem que vencer.

Diante de tanta beleza a gente não tem nem coragem de mostrar a nossa dor. Ela não pode desfilar na sociedade virtual de pompas e memes falsos da Clarice Lispector feliz. Clarice também era triste. Caio Fernando Abreu também era louco. Mas, por algum motivo, os trechos escolhidos desses autores para quadrinhos são sempre felizes e otimistas e, claro, não foram eles que escreveram. Porque a gente tem tanto medo de falar de dor e cansaço? De loucura e desacerto? De ir a fundo, por exemplo, na obra de Clarice e Caio com toda sua angústia e beleza e incerteza?

São muitos os padrões da vitória. Fale a coisa certa. Aja da forma correta. Não espante. Não falhe. O mundo contemporâneo é cheio de metas de sucesso. Até nos movimentos sociais, militâncias e grupos de apoio. Seja guerreira. Seja mulher forte. Fale a coisa certa, pondere, reescreva vinte vezes antes de mandar. Veja se está de acordo com o esperado, se o grupo para o qual você se dirige, seja de amigxs, seja de militância te receberá bem. Veja se terá probabilidades de “like”, e palavras de apoio.

Sei que os tempos virtuais são de uma agressividade ímpar, veja lá o que aconteceu com Bela Gil, sua cúrcuma e lancheira saudável: pedrada. São tempos de intolerância. E sei também que a gente não precisa partilhar tudo (ufa!). Então a gente escolhe o bom, as palavras de ânimo, a frase “certa” que não existe. Tem o lado bom, claro, a gente quer se nutrir de esperança. Mas. E o outro lado? Não tem identificação?

Até quando tem doença, você não pode esmorecer. Tem que ser guerreira, tem que vencer. As pessoas parecem querem ver sempre a vitória, o acerto. E a gente, claro, quer ser a vitória a ser vista. E vamos assim ficando com a falsa impressão, que vai se alastrando por dentro, que temos que dar conta de tudo. Né? Tá todo mundo tão feliz e tão colorido, eu também tenho que, eu não posso decepcionar ao outro e a mim mesma. E, ao mesmo tempo, é curioso que a depressão aumenta como uma das doenças mais presentes nesse século. Não é contraditório?

Não, nem sempre. Como uma vez disse uma amiga, aquele super-herói ou super-heroína também tem um ponto fraco. E saber do seu ponto fraco, é o que faz elx ficar mais forte. Eu, que não pretendo ser super-heroína de nada nem de ninguém, venho aprendendo que acolher meus medos, falhas, loucuras e indefinições, me fazem mais inteira em quem sou, ou busco ser, ou acho que estou sendo. Me fazem mais humana. Fazem até as minhas crises de pânico – acalmadas depois de anos de análise nas profundezas bem enrugadas e assustadoras de mim – fazerem mais sentido. Me fazem mais, acreditem, feliz. Porque ser feliz, desconfio eu, é essa coisa toda complexa que somos. Mas essa sou eu. E assim me exponho louca e arrepiada, como também sou.

A gente tem dor e cansaço, medo e confusão, e olhar pra isso tudo é olhar pra quem somos. Ou acho eu, me permito a dúvida, também me permito ser questionada e errada, e transitória e nem sempre fazer sentido. Então eu acolho. Eu, e xs outrxs nas suas dores, nas suas confusões. Pedir colo, colocar no colo. Acolher o imperfeito, a loucura, a dualidade de tudo que vive. Porque ninguém é uma coisa só, e sempre me interessam as metades que se juntam ou se escapam, e não apenas o lado de flor. Flor é bom. Eu tenho, eu gosto. Mas também teve espinho e um monte de colheita vazia.

Tudo bem falhar. Tudo bem não estar disponível e linda às sete da manhã depois da insônia. Tudo bem não ter saco às vezes para nada. Tudo bem falar sobre isso. Para transformar o temporal em poesia a gente tem que olhar pra ele. Navegar, surfar, tomar caldo. Enquanto isso, vou ouvindo a Bethânia recitando cântico negro do José Régio, porque né? Tem dias que só a Bethânia salva. E, não, eu não vou por aí.

“Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…”

(José Régio)

*trechos do Poema Cansaço, de Fernando Pessoa.

 

Uma carta de quase vento

gatoAqui os dias estão calmos amiga, você bem sabe o que isso quer dizer. A calmaria faz vento nos meus ouvidos. Meu cavalo canta uma cantiga que ainda não sei decifrar. Ele olha tudo com estranheza e paz na beira da lagoa. As patas molhadas de lama fresca, uma saciedade de barriga cheia e uma ansiedade sobre o que vem depois. O que vem depois da saciedade? Acho que gosto de sentir fome, invento a fome, mesmo quando não cabe mais nada dentro. Tenho que esvaziar. Então vou me esvaziando sem abrir as mãos, tentando fazer vento e tempestade sem mexer nas águas plácidas em que me banho sem pressa, tentando mergulhar sem fazer onda nem desarranjo.

O que vem depois da desse lugar calmo onde nada escapa? Não sei amiga, tenho fracassado em buscar conflitos. Respiro nos exercícios de yoga e acompanho o gato na beira da janela. Deixo ele perigosamente se acomodar no parapeito, ali, no risco, no vão do quase pulo. Ele se derrama tão macio no espaço do quase, namorando a vertigem lá fora.  Observo o gato, os olhos atentos, a paixão de querer ir sem sair do lugar. As horas passam, ele não se mexe, eu corro o risco com ele, eu contemplo o risco. Ele não pula, aqui dentro é quente e ele tem medo. Eu vou lá e o abraço por trás, tiro seu corpo com cuidado, e num consolo suspiramos juntos, de volta a calmaria.

Podia ter machucado, podia ter morte, podia ter nunca mais, podia ser tudo diferente. Tava tão vivo. Mas a gente contempla da janela de novo, aliso seus pelos e ele me lambe, ele é um gato que lambe com vontade de sal. Essa vontade que corre sempre por dentro, essa vontade de mar que a gente tem dentro e que nunca cessa. E essa sede de mar é uma sede pra sempre amiga, é uma sede da gente toda. Olho o gato de novo, é ele que me ensina, é ele que me conta das belezas desse tempo de contemplar e aprender a ficar no quente. De fazer pouca onda e pouco barulho, de deslizar pequena sem grandes alardes. O tempo é de uma paz estranha que me rasga por dentro e eu não sei.

Escuto a Angela Rorô, ela toca de novo e de novo, e eu vou me deixando embriagar pela cena do escândalo, às vezes no quente faz frio, é estranho fazer frio em tanto conforto. “o grande escândalo sou eu, aqui, só”. Vou rompendo as manhãs amiga, vou vivendo essa vida tão certa de que amanhã é mais um dia de chá quente com aquele bolo que parece casa de mãe, aqueles dias que meus conflitos se reinventam e não encontram vazão, não tenho mais explosões para me ferir, não acho mais os fósforos, eu tento, risco faíscas, mas nada amiga, não sai fogo. E que bom que não sai fogo, porque eu já cansei de tanto joelho ralado, eu só preciso aprender. E então eu vou indo, eu vou tentando reinventar, eu tenho que aprender a reinventar. Sempre.

Menos régua individual e mais política

Nesses dias nosso ativismo feminista cibernético anda revirado de debates pouco profícuos. Uma onda de discussões sobre relacionamentos alheios e até lancheiras de merenda escolares tem sido alvo de ataques e problematizações pela rede afora. O que vejo é uma crítica muito mais às mulheres do que aos discursos. Levantar a bandeira de que o “pessoal é político” parece se arvorar do direito de adentrar às vidas alheias com a régua medidora de comportamentos, em nome, claro, da proteção às mulheres.

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Será que o “pessoal é político” transformou-se num passaporte para invadir a janela das casas e ir lá, com um padrão construído pelas próprias julgadoras, dizer que aquela individualidade, circunscrita a uma casa e contexto específicos, representa algo prejudicial a todo um coletivo de mulheres? Me pergunto: isso é ético?

“O pessoal é político” é uma frase muito inspiradora nas minhas militâncias feministas e lésbicas do dia-a-dia, nas quais questiono o cara que assobia quando eu passo na rua, me assumo lésbica onde eu estiver, fazendo da minha luta política também uma luta cotidiana. Mas será que ela me dá o direito de julgar outra mulher? E pior, expô-la? Classificando seu comportamento e julgando seu relacionamento quando essa pessoa, no seu trânsito cotidiano, está simplesmente vivendo? E está vivendo sem que seu comportamento fira ninguém, quiça ela mesma?

Em primeiro lugar, o pessoal é político sim, sempre será, mas expor uma mulher apenas para fazer inferências sobre sua vida pessoal é desconsiderar qualquer forma de respeito à sua individualidade. Às suas escolhas, inclusive. Mesmo mulheres que sofrem agressão muitas vezes não conseguem se expor, por isso prevemos uma série de proteções a essas mulheres, que devem ser acolhidas e preservadas. O pessoal ser político não significa que você pode decidir a vida da outra como se fosse a sua, muito menos presumir o que ela vive.

Pensar o político significa pensar o estrutural e não o pessoal, caso a caso. A vida sempre escapará às normas. Sempre haverá exceções, sempre haverá casos não previstos, sempre haverá pessoas e situações que nos farão interpretar tudo diferente.

Porém, estruturalmente como podemos ajudar e amparar mulheres que sofrem violência? Podemos repensar a Lei Maria da Penha e sua aplicabilidade. Como se caracteriza uma agressão? Como ampliamos a proteção e o acesso da mulher a justiça? Tem tanto para melhorar. Mas, conformem-se: tem mulher que não será e não quer ser salva pelo feminismo. Assim como há outra mulher que está bem feliz numa relação que você pode considerar abusiva apenas por ser com um homem mais velho.

Porque não adianta bater nos machos todos e querer traçar normas para os relacionamentos: homem mais velho abusa de menina mais nova. Mas né? Homem mais novo abusa de mulher mais velha? Sim. Homem de todas as idades pode abusar de mulher de todas as idades e de todas as formas? Sim, infelizmente. E há também mulheres abusadoras. A agressão sexual a crianças é algo que precisa ser pautado, bem como a dificuldade de se punir homens pela Lei Maria da Penha em casos de violência moral e patrimonial, tão difícil de ser comprovada. Também precisamos pensar em outras soluções para a questão da violência contra a mulher, que foquem em mais educação e menos punitivismo. Essa pauta feminista anda tão apagada.

O pessoal pode ser político, mas discutir o político não é discutir a vida alheia em sua intimidade quando a pessoa alvo da discussão claramente não quer ser pauta de ninguém.

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Sede

sede

Texto escrito em suruba literária com Kiara Terra.

Aquilo que não sabemos nos protege. O instante delicioso e cheio de pergunta. Será? Reticência leve seguida de um sim-mergulho.Um sim-vôo. Um sim-abrir-se, estar no colo. A leveza tranqüila de brincar com segredos, medos e desejos preservados.

Um sim que sorri e nos conta que não há pouso seguro. Um sim-vento, que sopra sem bússolas ou rotas programadas. Um sim vivo que se delicia com as possibilidades. Abrigo sem teto, horizonte aberto de quem ganha as estrelas.

E se o mar fosse um colo? Eu quero o mar. Inteiro para nadar toda na falta de margem e beira. Solta em flutuação florescente de quase noite. Algas que resplandecem sob a lua cheia. Eu quero a lua imensa e amarela, a me contar segredos de luz sobre as águas escuras. Boiar no fluxo das correntezas sem bater os braços e as pernas, sentindo o gozo fértil de estar permeada de mar.

O desejo mordido com a língua salgada. Vivo por entre os dentes, saliva quente com gosto de mais. Permitir-se ser só desejo. Poder ser movimento sem palavras. Desejo vivo e vivido em ondas de mar. Diante do mar não tem palavra. Diante do mar só tem mergulho e pele arrepiada, em poros abertos para que o vem.

Eu quero o colo  inteiro. Ser minuscula em sua boca grande e dormir sentindo pulsar o peito. As mãos firmes em minhas costas, selar o espaço quase inexistente de não sermos nunca a mesma pessoa. Rir do descompasso de ser, das diferenças humanas de quem é. E tudo só um encontro em que não se precise de mais nada.

Só as águas fartas e o céu em constelação silenciosa. O tudo que se esconde onde nada se diz, a contemplação muda da força. O corpo saciado  a vontade renascida do fluxo branco das espumas. Não há mais palavra porque tudo meu está nos olhos. Num além daqui aqui mesmo. E qualquer outro lugar onde se esqueça a morte. Onde a gente se lembre muito pouco de tudo antes, e traga junto toda qualidade de segredos engendrados nos músculos, seios e ossos. E nada que seja minha dor se despeje, nada que seja meu desamparo se espalhe. Só a pele macia tocada em dança ágil, onde toda dor vira perfume .

Estou nua e o que não sabemos nos protege. O abismo tem poesia e só venta por que derramei toda previsibilidade. Então vem, brinca comigo de ser o mar que talvez chova. Que talvez vente e faça sol quente de arder as vísceras. Que talvez da terra fecundada nasçam flores vermelhas para enfeitar nossos cabelos. Que talvez apareçam pássaros nos nossos ombros que cantem belas cantigas. E que a gente esteja e seja até quando ventar e existir sede.

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