Por uma educação não heteronormativa

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Sim, é possível. Esses dias tive certeza de que é possível educarmos crianças de uma forma não heteronormativa. Mesmo que o mundo esteja repleto de preconceitos e que a escola, infelizmente, ainda seja um ambiente onde pouco, ou quase nada, se discute sobre heteronormatividade. Mesmo que haja tanta resistência em se tocar no assunto, e um simples beijo entre duas atrizes na novela causem pânico nos mais conservadores, que querem tirar as crianças correndo da sala. Mesmo que. É possível se mudarmos as nossas posturas com as crianças que criamos ou convivemos. É possível se o diálogo for aberto, se não houverem barreiras, mentiras, nem nada escondido. Se a sexualidade for tema a ser transitado com cuidado e com os braços abertos para as possibilidades. Porque sexualidade é isso aí: possibilidades.

Esse final de semana meu filho e sua inseparável amiga Sol conversavam conosco. Papo vai, papo vem, domingo quente, todo mundo se preparando para nadar no lago. Amenidades de uma manhã de claridades. No meio da prosa ela fala: “Be, quando você tiver um namorado ou uma namorada você vai …..”. Segue o assunto. Ele responde: “Não Sol, quando eu tiver um namorado ou uma namorada eu não vou….”. Elxs terminam o sorvete e saem correndo em outras brincadeiras despreocupadas. Um detalhe tão fundamental passou totalmente desapercebido por suas meninices, mas fez a mãe aqui abrir um sorriso maior que o sol que brilhava lá fora.

Elxs, aos 8 anos, conversam sem saber que não fazem mais distinção de gênero nem sexualidade nas suas projeções de futuro. Que, aos 8 anos, naturalizaram algo que nós, criadxs em tempos repressores, demoramos tanto tempo para desconstruir: que a sexualidade é livre. Que elxs, quando crescerem,  poderão namorar quem quiserem, como quiserem, sem que ser hétero ou ser qualquer coisa seja uma exigência ou um padrão a ser seguido, que os machucará caso queiram seguir o não padrão. Claro que terão que enfrentar também o preconceito, caso escolham o caminho homo. Ou o caminho bi. Ou o caminho trans. Ou qualquer outro caminho que não podemos ainda nominar. Mas, ao menos, terão base e apoio para serem mais seguros e amados em suas escolhas. Inclusive por elxs mesmos.

 Sim, é possível, basta coragem. Basta ousarmos. Sairmos do discurso e colocarmos as mãos na massa. Nós, pais, cuidadores, mães, avós, madrinhas, tias, tios, podemos mudar as nossas condutas em relação à educação sexual e afetiva dessas crianças. Educarmos abertamente, assumindo-nos como seres possíveis. E elxs também, sem essa de menino e menina, “com quem será que o Bernardo vai casar? ah, claro, com a Rosinha. Nunca pode ser com o Pedrinho. Ou quem sabe com o Pedrinho e a Rosinha também?.” As pessoas homoafetivas não são aquelas lá longe, elas estão perto. E podem ser qualquer umx de nós, a qualquer tempo. Pode ser ela ou ele, pode ser a gente mesmo. As crianças assim criadas e educadas não vão necessariamente viver uma vida homoafetiva. Elas terão a possibilidade, a escolha mais ampla, os caminhos sem tantas nuvens e obstáculos consigo mesmas. E os braços abertos para aceitar a diversidade de amor, sexo e afeto, venha de onde vier. Bora desconstruir?

Por partos e mulheres livres


Recentemente temos assistido uma grande polêmica envolvendo o parto domiciliar. Casos de partos fora do ambiente hospitalar que tem motivado uma série de debates sobre a liberdade da mulher parir onde bem entender, e como bem entender. Médicxs, juízes, juízas, promotores de justiça, gente da medicina e do direito vem se debatendo para barrar, tolher, regulamentar esse tipo de parto. Para entender até onde a mulher pode ser livre para dispor do seu corpo e da sua gravidez como quiser.
É preciso que se diga que esse é um debate um tanto elitista, pois se resume àqueles casos de partos domiciliares daquelas mulheres e famílias que puderam arcar com o que significa ter um parto domiciliar bem assistido hoje em dia: pagar umx médicx ou uma parteira, uma doula, umx neonatologista para ir em casa. Não estamos falando as mulheres pobres que pariram em casa por falta de opção ou por morarem num lugar inacessível a qualquer Hospital. Dessas não se fala, nem se preocupam os doutos magistrados e médicos. Essas são as invisíveis, excluídas, e não aparecem na mídia vendendo notícia. Estamos falando do parto domiciliar que não é para todas. É para quem tem acesso, muitas vezes, a círculos privilegiados e com dinheiro em estoque para arcar com isso. É para quem pode pagar. Mas, ainda assim: é um direito de quem pode. Como é um direito privilegiado de quem pode pagar um plano de saúde ter seu parto na suíte master do Hospital estrela mais mais. Ou daquelas que pagam um plano de saúde com muito custo e acabam nos protocolos de hospitais que, nem sempre, ou melhor, quase nunca, garantem seus direitos na hora de parir.
Infelizmente, a saúde capitalizada em nosso país como um bem de consumo. Temos o SUS para nos salvar e para continuarmos brigando por um sistema universal de saúde que reverta essa lógica. Mas ainda temos muito chão pela frente. O SUS tem incentivado a criação de casas de parto e a realização de partos naturais e humanizados, mas estamos longe de termos respeito às mulheres na hora de parir nos hospitais públicos. Basta que ver na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde para avaliar a Rede Cegonha, seu programa integrado de promoção do parto humanizado, 62% de mulheres não conseguem sequer terem um acompanhante na hora do parto, direito legalmente garantido e que deveria pressuposto básico de todos os partos. Mas não é.
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Queria ressaltar, com todas as ênfases, que esse tipo de parto domiciliar não é a mesma coisa que um parto desassistido. O parto domiciliar é um parto onde existe uma equipe de saúde que atende à mulher, mas uma equipe que foge da lógica medicalizada e centrada no poder biomédico que existe nas instituições de saúde. Uma equipe que vai acolher a mulher no melhor lugar do mundo para que sua cria venha ao mundo: na sua casa. Parto que pode ter todo mundo peladx na banheira, parto com massagem, parto com a avó passando um café na cozinha, parto com respeito ao momento e a hora de parir, parto com música, parto com beijo, parto com amor. Mas, e se der algo errado? Bom, nos partos domiciliares existe sempre um plano B e um hospital de referência para seguir caso algo não saia como o esperado. Porque sempre é possível que algo não saia como o esperado, em hospitais ou em casa. Com ou sem médico. A vida sempre escapa de certezas. Mas o mito de que o parto domiciliar é menos seguro é o que querem vender como certeza.
Não temos estatísticas para evidenciar o número de partos domiciliares com qualquer tipo de intercorrência, mas sabe-se que são muito poucas, pois quando um caso surge, contra-hegemônico, cai o mundo na imprensa e nos fóruns de debates médicos e jurídicos, como assistimos nessas últimas semanas aqui no Distrito Federal. Um único caso. E o que temos do outro lado? Sabemos que a mortalidade materna no Brasil é enorme nos ambientes tão “seguros” dos hospitais. A Pesquisa “Nascer no Brasil” feita pela Fundação Oswaldo Cruz em 2014 trouxe o alarmantes dado de que a mortalidade materna no Brasil atinge o patamar de 69 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos. É. Isso tudo. Temos ainda o Relatório da CPI da Mortalidade Materna de 2000 que apurou que 68% da mortalidade materna ocorre durante os partos e que em 98%  dos casos as mortes são evitáveis. Hum. Será que sair de casa e ir parir no Hospital é mais seguro mesmo?
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Mas aí vem algo que aprendi e vivenciei durante um Fórum sobre Parto que participei como debatedora pela Artemis na Associação Médica de Brasília: a mulher não é o foco de preocupação dos médicxs. Dane-se a mulher. O que importa é se o bebê vem ao mundo vivo e saudável. Não importa se a mulher pariu na posição de frango assado, se ela foi cortada sem necessidade por episiotomia ou numa cesárea desnecessária, se rasparam seus pelos pubianos para ficar “mais fácil” e “mais higiênico”, se ela passou horas desconfortável e sem a menor assistência.
O mundo machista acostumou-se a usar o corpo feminino e dele dispor sempre em benefício de outrem. Ou em prol da “família” ou em prol dos desejos do homem ou, ainda, para facilitar o serviço médico. Não é dado à mulher falar, reclamar, argumentar, não querer. “O que importa é a criança que carregas em teu ventre, mulher!. Fica quieta e aguenta”. Aguenta a violência, tão real e tão simbólica, e tão naturalizada na sociedade. Como nos mostra o Dossiê da Parto do Princípio é “normal” as mulheres passarem por violências das mais diversas ao parir, desde físicas até morais. Falas como: “na hora de fazer você não reclamou né? agora fica quieta” são corriqueiras, assim como cortes e invasões desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher. Marcas que ficam, e seguem, no corpo e na mente de tantas de nós. Sim, eu também fui vítima de violência obstétrica.

Sabemos que o Brasil é campeão de cesarianas. Na rede pública vamos para um número parecido com 52% desse tipo de parto, enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Na rede privada, pasmem, o índice sobe para 83%, podendo até chegar a mais de 90% em algumas maternidades. A cesárea, obviamente, pode salvar vidas. Como é bom poder ter esse recurso. Mas, como toda cirurgia, devia ser usada para casos de necessidade. Tem que ter indicação correta. o que não acontece, por certo, nos 80% dos casos de cesárea de uma maternidade.

Ademais, se formos ainda olhar pelo “bem do bebê”, as cesarianas fora de hora podem acarretar males bem preocupantes para os bebês, como diz Melânia Amorim: “diversos estudos apontam que taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto”.

Mas não, é o parto domiciliar, com sua liberdade e não enquadramento no poder médico e machista que querem tolher e problematizar. É o parto da mulher protagonista que querem apagar com falsos medos, é o parto onde a mulher tem voz e que tem vez que querem calar e abafar em uma dita normatividade científica e biomédica que de dados científicos não tem nada. É o parto da mulher que não se curva, que não se deixa deitar como é melhor para o outro, que não fica quieta e que assume as rédeas de seu corpo que querem culpar e colocar cabresto.

O que tem nesse falso problema é um monte de medo da mulher fora da curva, da mulher que teve seu parto como quis, que deu uma banana para os senhores de jaleco branco e foi ter seu filho com outra mulher que lhe afagou os cabelos e lhe olhou nos olhos sem bisturi nem injeção em punho. Se querem culpabilizar a mulher pelo parto domiciliar que resultou em qualquer dano para o bebê, que culpabilizem também a mulher que escolheu uma cesárea eletiva que resultou em danos para o bebê. Mas de preferência que não culpabilizem ninguém. Que as mulheres possam dispor sobre seus corpos como quiserem. E que tenham suporte de saúde, de direito, e informações claras para decidir.

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Romântico cru

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Gosto de colecionar pedaços. Pedaços caídos das conversas cotidianas, da tentativa de colocar o real entre nossas pernas. Retalhos. Desenho bonito de ser vida vivida sem planos perfeitos. Costuras. O possível, tão extraordinário, colhido do que não se compreende.

Revés. Tosse rouca de peito cheio, ar inspirado no pulso dos nossos dias. Cinzas, também. Pretos, de tão azuis que já foram. Nuvens que se desfazem em água, sol que clareia tudo de novo. Ciclo de crescer e expandir, retrair, morrer, renascer. Impermanência. Mutação de nós.

Você me abraça forte, quase sem esforço. Corpo que vibra e me alcança em reverberações. Dança, remelexo, decorrência. Todo esse mar. Mergulho em ti, olhos vidrados, aconchego, maresia. Respiro de água salgada.

União. Ofereço-lhe minhas palavras como alimento. Levo a sua boca, uma por uma, desenhando imagens improváveis ao redor dos lábios. Contorno seu sorriso, seu cheiro, seus dentes. Saliva adentro. Você me lambe, língua desperta por todas as sílabas. Degustamos cada pedacinho, cada desajeito, cada incongruência. Navegamos nesse nosso beijo de roçar a alma. De tentar construir casa na areia do mar. Ventania. Reconhecimento.

Você me recebe assim, quase inteira, na busca sagrada dos meus avessos. Você acaricia meus olhos, e minha teimosia obstinada em perguntar a vida. Suspiramos. Eu te ofereço flores, você me devolve as mãos apertadas. Meu romântico cru, nudez rasgada, conta aberta, palpitação. Beleza de se pegar no colo com raiz. Plantio. Só é bom assim, com lama nos pés. E as mãos sujas de realidade.

 

 

Tá tendo beijo

oafetoteafetaRecentemente assistimos um grande levante da chamada “família tradicional brasileira”, que rechaçou e propôs boicote à nova novela das 9 da rede Globo, Babilônia, porque,  pasmem, duas senhoras, interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, casadas na trama novelística, se beijaram em horário nobre. Sim, um beijo, apenas um beijo, de afeto, amor e beleza, docemente embalado pelo som de Maria Bethânia.

Digna cena de arrancar suspiros românticos, de inspirar amantes, de exaltar o amor. Mas não. A cena provocou a ira e o ódio desgovernado daqueles que acreditam que pessoas homoafetivas não são pessoas dignas de viver livremente em sociedade, devendo ser escondidas debaixo do tapete. Tirem as crianças da sala, tapem os olhos, finjam que não estão vendo, saiam correndo, que horror: o amor entre pessoas do mesmo sexo está passando sem cortinas.  O nome disso é homofobia. E, não, você não está pensando nas crianças. Garanto-lhe, por experiência própria, que as crianças convivem bem com todas as formas de amor, como já contei aqui. O preconceito e a estupidez são coisas suas mesmo, as crianças não tem nada a ver com isso.

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o beijo

No levante desenfreado, o lesbianismo foi equiparado a coisas como assassinatos, intrigas e criminalidade. A “família de bem”, em nome da moral e dos bons costumes, que de bom não tem nada, decidiu que já era demais. Até nota de repúdio de Deputados evangélicos teve. Correntes de whatsApp, mensagens mil, condenações cruéis às duas senhoras “do mal” e a emissora responsável por tal disparate. E, olha, nem tinha sido a primeira vez que essas criaturas assistiram beijo gay na telinha.

A rede Globo, em espantosa mudança de seus roteiros, passou a incluir casais gays nas novelas. Já tinha sido a Giovanna Antoneli e a Tainá Muller como par lésbico, o Zé Mayer com o Kleber Toledo como par gay, já tinha acontecido beijo homo no plim plim. Mas duas senhoras na casa dos 80 anos foi demais para o moralismo condenatório. Porque né? Além do “pecado” da homossexualidade, duas senhoras não podem ser sexualmente ativas, não podem desejar e serem desejadas. Delas se espera apenas o papel de avó no fogão, e a sexualidade morta de algum dia. Mais moralismos que atormentam a sociedade, que castram alegrias e impõem barreiras a algo tão valioso e tão inofensivo quanto a felicidade e satisfação sexual de cada umx.

Essa sociedade acostumada a violências das mais diversas não pode conviver com o amor entre mulheres? Porque, pergunto-me, porque é tão difícil que esse amor seja aceito e recebido com alegria? Porque traçar regras para a vida afetiva e sexual alheia, porque machucar alguém que não faz mal a você a não ser….amar? Não, também não me fale em Deus. Nem na Bíblia. Já é hora dos homofóbicos pararem de mascarar seus preconceitos em nome de Deus. Como já assistimos de forma muito bem fundamentada no filme “Orações para Bobby”, as passagens da Bíblia devem ser revistas ao contexto atual, e não interpretadas literalmente. Ou os religiosos bíblicos pregam que devemos matar as pessoas adúlteras e as crianças que desobedecem os pais?

Ademais, seu Deus é apenas um Deus dentre tantos outros possíveis. Ou até Deus nenhum. Deveria uma sociedade laica ter uma frente Parlamentar evangélica e tentar impor suas crenças religiosas a todas as demais pessoas que tem crenças diferentes?  Se sim, pergunto-me de novo, é possível um Deus que prega exatamente o amor, ser contra uma família homoafetiva, ou qualquer forma de amor entre duas pessoas? Se seu Deus é contra, ele não me representa, e nem a milhões de pessoas que vivem na mesma sociedade que a sua.

Aí temos a tendência de falar em tolerância. Tolere o diferente. O ideal para mim não seria nem tolerância, seria respeito e aceitação de que as pessoas são diferentes e livres em suas individualidades, sexualidades e vontades. Que a liberdade do outro não lhe diz respeito. Que seu direito de opinar socialmente não inclui o que as pessoas fazem com seus corpos e com suas sexualidades. Mas tolerância já seria um bom começo.

Pois sim, está tendo beijo. Está tendo beijo todos os dias, e terão beijos e mais beijos de pessoas que se amam. Mulheres que amam mulheres, homens que amam homens. Homens que amam mulheres. Mulheres que amam homens, sejam elas e eles cis ou trans. Nosso beijo lésbico não será mais escondido, não será desprezado, não será menos relevante e nem motivo de vergonha. Nosso beijo lésbico é um beijo como outro qualquer, um beijo que estará cada dia mais presente, mais latente e mais corajoso. Um beijo que em breve ocupará sem medo as ruas, os bares, as casas, as famílias e terá forças para vencer o preconceito. Vem beijar também, que a vida é bem mais bonita com beijo na boca!

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Direito ao próprio corpo

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

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O corpo. Nossa vestimenta. Matéria da qual somos feitas. Um corpo com bunda, seios, sem seios, vaginas, coxas, quadris, barriga, pernas, pés. Corpo.
Nós mulheres temos corpo. Algumas tem útero, outras não. Algumas tem ovários, outras não. Algumas tem pênis. Outras não. Mulheres de todos os tipos em todos os corpos de transitar no mundo. Mulheres héteros, mulheres lésbicas, mulheres trans, mulheres gordas, mulheres magras, mulheres. Corpos que devem ser respeitados como são, na liberdade de poder ser, viver e existir no mundo como se deseja.
Mas não, não é assim tão fácil. O corpo da mulher não é um corpo livre, é um corpo cerceado por grossas paredes morais, por violências de diversas formas e tamanhos. As mulheres não podem dispor dos seus corpos como bem entendem. Não podem mostrar seus corpos como querem. Não podem trepar como querem. Não podem acessar a sua saúde como querem. Não podem viver seus corpos como desejam.
Recai sobre o corpo da mulher um carga pesada, machista, castradora e interventora. Regras morais. Intervenções morais. Intervenções físicas. Punições. Estupros. Violências domésticas. Violências psicológicas. Feminicídio. Violência obstétrica. Criminalização do aborto.
Agressões morais a mulher biscate. Vadias. Piriguetes. Elas merecem a punição. A sociedade que intervém na sexualidade da mulher e diz a todo tempo: não pode. Suba o decote, você vai sair com essa roupa?. Ela pediu. Controlam o tamanho das nossas saias como controlam como dispomos do nosso corpo. O corpo da mulher é um corpo coletivo, que pode ser invadido a qualquer tempo, seja no metrô lotado, seja no Hospital quando ela está parindo.
O corpo da mulher ainda pertence a sociedade patriarcal. Ainda é sujeito a controles estatais e morais dos mais diversos. Ainda é objeto de consumo, estampado nos mais diversos comerciais como mercadoria a ser levada pra casa. Um convite feito para que olhem, invadam, venham. Mas não, a mulher não pode querer. Não pode gostar. Não pode desejar.  Contradições.
A mulher ainda deve conter-se, flagelar-se, esconder-se para não provocar os homens. A mulher deve deixar que façam o que bem quiserem de seu corpo quando ela entrar num Hospital parindo, ou for a uma consulta ginecológica, ou estiver em situação de abortamento, provocado ou não, ou engravidar e ser obrigada a levar a gestação adiante. Ou ainda quando for abordada por um homem cujos desejos sexuais devem ser satisfeitos em seu corpo, queira ela ou não.
Violências escancaradas, violências sutis, violências a um corpo feminino cheio de desejos e cheio de vida a ser vivida. Mas que deve conter-se. Ser usado quando for procurado. E ser escondido para não ser violado.
Já basta! Já é hora de termos direito aos nossos corpos, direito amplo e irrestrito aos nossos corpos. Por isso estamos aqui, gritando para o mundo que é preciso revolucionar o corpo feminino, para que possamos, quem sabe um dia, comemorar o dia da mulher como um dia de libertação e luta. Como deveria ser.
Avante, biscates!

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Câncer, amor e delicadezas

Para Nanda

amor3Câncer, é, câncer. Palavra que assusta, doença que nos assola e nos tira o ar. Mistérios, medos, falta de controle. A morte presente no correr dos dias, a vida que muda sem pedir licença. Um diagnóstico que transforma e empurra a gente pra tantos fundos e tantos afogamentos.

Mas não. Não precisa ser assim. Foi ela que me ensinou que não precisa ser assim. Ela que viveu a doença e dançou em seus braços, flertou com a morte, agarrou a espada e foi em frente. E venceu. Venceu com vida nos olhos e vontade de amor. Com o brilho renascido de quem já viu os avessos da vida. De quem conseguiu driblar os escuros das adversidades e emergir com cheiro de flor. Com sorriso nos lábios e ainda mais gentileza para o mundo que vem.

Não, não foi fácil. Por vezes ela ainda chora ao contar dos dias de quimioterapia, dos remédios, das fraquezas, das dores, dos furos na pele, dos hospitais, das incertezas. Às vezes ela ainda chora os seios que não são mais como antes, as cicatrizes e marcas de reconstrução das mamas. Os cabelos que caíram nas suas mãos, os cílios vazios de cores no espelho de outrora. O medo de passar por tudo de novo a cada exame e a cada dor de cabeça. Ela ainda chora a justa tristeza de quem passou pela tempestade e caiu no meio das ondas.

Mas não, não é só isso. Foi ela que me ensinou que não é só isso. Que no meio do processo ela aprendeu tanto e teve tanta coisa bonita. Que estar com câncer não te resume, nem te traduz. Que tem tanto carinho e tanta gente especial que aparece, e que a emoção de estar viva pode ser todo dia e toda hora. Que os laços se fortalecem e a gente se aprende só e tão cheio de gente.

Foi ela que me mostrou que tem sorriso e aprendizado e leveza. Sim, que pode ser leve. Que também pode ser leve. Que o caminho é a gente que escolhe, mesmo quando se tem uma doença grave. E que aceitar quem se é, e quem se esta sendo, é semear delicadezas. Foi ela que me ensinou, beijando meus olhos, que cada segundo é cheio de presentes de estar viva. E que aceitar os limites, tão finitos e tão humanos, é ser gentil consigo mesma.

E então ela segue, e eu sigo com ela. Ela segue sua travessia com ainda mais coragem para viver as suas belezas. E eu ando com ela pelas ruas, pelas águas, pelo amor sempre amanhecido das nossas intensidades. Com o sol reluzindo nos cabelos que nascem mais fortes do que caíram. Com a intensidade de mulher feita e refeita de vento, de mar, de dias claros e águas profundas. Nós duas em pedaços desconexos e tão juntas, tão inteiras em nossas metades.

E foi juntas que nos desnudamos, que olhamos as cicatrizes e fizemos do sexo um ato sublime de prazer e liberdade. Porque ser mulher é muito mais que ter os seios, esse falso e pesado padrão enfrentado pelas mulheres mastectomizadas. Doloroso olhar social que encolhe e esconde essas mulheres. Essas, que podem ser qualquer uma de nós, a qualquer momento.

E fui eu que a ajudei a enxergar que não precisava ser assim. Porque a beleza está nos olhos do amor e do encanto, e não tem padrão capaz de engessar a beleza reinventada de poder ser, e viver como se é. De nos impedir de abraçar nossos corpos nus e bonitos como são. Nós, juntas, rompemos as amarras, e ela pode ver, através dos meus suspiros, que ela é uma das mulheres mais lindas e mais cheias de feminilidade que já conheci. Uma mulher que me transborda os olhos, e me penetra os ossos.

Ela, que me ensinou a “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”.

Eu. E ela.

Eu. E ela.

Porto de chegada

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Então eu amanhecia, no colo do amor que me deitava o peito. Esse amor trazido pelo rio da vida, pelas águas que me banharam o tempo. Pelos gostos que senti, pelos caldos que levei, por todas as faltas de ar que me calaram a voz. Corredeiras. Tempos submersos, tempos de sol, tempos de medo, tempos de plantio. Meus tempos. O tempo do amor plantado no meus pés quando tudo era água, e tudo escorregava. O tempo da desova. Rio que encontra o mar. Águas salobras. Terra fértil fecundada pela maré dos meus anos.

 O rio me trazia o merecimento de um porto de chegada.E eu chegava, onda por onda, vento por vento, até sentir-me inteira em solo firme. Corpo de areia, pés fincados à beira mar. Com as mãos abertas e o coração leve, eu chamei por ti. Ali, onde me via terra, onde sentia a liberdade de poder voltar para mim, eu te procurei. Chamados de vento que te balançaram os cabelos.
Ecos, reverberações. Envolta nas marolas que embalavam os sonhos tão despertos de nós, você chegava. Seu rosto reconhecia o meu, seu corpo fazia morada no gozo das nossas bocas unidas. Nossos corpos fincados na terra do tempo presente. Nosso amor lavado pelas águas da vida, forte de batalhas vencidas e coragem de seguir em frente. Nós, juntas, nesse porto de abrigar o tempo porvir.
Esse nosso tempo.

Delicadezas matinais

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Sua pele me toca logo de manhã. Cheiro no cangote, suspiro, preguiça. Um beijo meio dormindo. Um sussurro. Eu te amo. Os olhos ainda cerrados, abraço seu corpo agarrando seus quadris. Pernas enlaçadas, vejo o relógio, ainda tem tempo. Só mais pouquinho.

Cochilo de novo sentindo pulsar o peito. Sua boca grande perto da minha, tudo quente no aconchego de depois. As cobertas enlaçam nossos corpos nus. Acordo com o tesão que me arrebata quando te sinto. Sexo, pele, ossos, desvarios ainda em sonho. Você aperta meus seios como eu gosto. Subo a língua pelo seu pescoço, agarro seus cabelos, arrepios. Já é hora de levantar.

O banho. Morno. Esfumaçado. Como o café sendo passado na cozinha. Pão quente. O seu perfume misturado com o cheiro de café que invade a casa. Te beijo doce, carinho, massagem na nuca para o dia que vem.

As roupas. Deito de novo, cama amarrotada. Você ri da minha preguiça, a gente fala uma besteira qualquer, o riso solto embala o dia porvir. Você vem se despedir e eu te laço para mais um pouco. Beijos. Pasta de dente. As tarefas concretas que nos esperam lá fora. Sua presença que eu adoro. Desejo. Daqui a pouco nos vemos. Gosto de mais. Bom dia.

Por um verão sem padrão

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Aqui vem o verão. E com o verão, exacerba-se o padrão.

O padrão. Os padrões, ah, os padrões. As mulheres são bombardeadas cotidianamente com milhares deles. Padrões de comportamento de “boas moças”. Padrões sexuais. Padrões estéticos. Até padrão para as nossas respectivas bucetas, sim, eles existem , e machucam as mulheres que fogem deles. Machucam tanto, que muitas buscam cirurgias doloridas para modificá-las (veja aqui), para se enquadrarem nos padrões de beleza vaginal. Não, não é culpa da mulher que faz. Não, não vou julgá-la. Sei que dói. Dói estar sendo apontada como diferente. Dói a sensação de não ser aceita. De não ser “bonita”, “desejável”, ou coisa que o valha, perante a sociedade de corpos padrão e beleza consumível em revistas e propagandas de iogurte.

Até as propagandas de cerveja, claro, elas, as piores. Bebam. Eu bebo. Mas mulheres que são desejadas pelos homens cervejeiros não são aquelas que sentam na mesa do bar com eles e se divertem noite adentro, bebendo e gozando a vida. São aquelas do corpo padrão academia-barriga-de-tanquinho e bumbum durinho, que provavelmente sofrem ao tomar o terceiro copo, porque né?

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Barriga de cerveja é algo repugnante. Mulheres que vendem cerveja não são aquelas que bebem cerveja sem culpa, com prazer, degustando e sentindo-se feliz com sua barriga saliente de mesa de bar. Não. Não pega nem bem. Porque mulheres são objetos de desejo. E nessa sociedade consumista e padronizada, mulher desejável não pode ser feliz como é. Ela tem que se enquadrar, o tempo todo, no peso “certo”, no corpo “bonito”, no cabelo de revista, na pele sem manchas e sem olheiras, na vagina “certinha”, no bumbum malhado, na barriga delineada, no comportamento adequado, nisso, naquilo e naquilo outro. Padrão machista. Fetiche machista. É isso que a gente vê  por aí.

Auto estima babe. E auto estima não é algo fácil. Nós, mulheres, estamos a todo tempo enfrentando esse grande espelho social que nos tolhe e nos oprime. E temos que quebrar esse espelho. Não, não é fácil. Mas é possível. Porque não podemos mais aceitar esse espaço comprimido de beleza. Essa saia justa para nossas pernas grossas. Esse espartilho que sufoca nossa respiração. Saúde e bem estar não pode ser confundido com o manequim 38. E nós temos que brigar, sempre, pelo direito ao prazer. Para sermos felizes como somos. Pelas nossas barrigas serem sinônimo de desfrute, degustes, alegrias, e não choros escondidos e vômitos provocados no silêncio de depois.

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Não é fácil estar acima do peso, olhar as rugas, ver pular os cabelos brancos, ouvir as fofocas: “nossa como ela engordou”. E eu me coloco dentre essas tantas mulheres que, sim, vez por outra também sofre. Sofre o olhar social, o julgamento, o não enquadramento como “bela”. Outro dia ouvi, num ato falho da minha própria mãe: “é que filha, você ERA tão linda”. É, uma mulher acima do peso não é linda. Ela, né? Pode até ter sido, ou vir a ser. Mas não é. Ou, a pior frase: “ela é uma gordinha bonita, tem o rosto bonito!”. Essa me dá vontade de agredir de volta. Mas me contenho, e milito. Militemos por esse processo de desconstrução.

É, sim, é preciso um processo de desconstrução, começando por nós mesmas. É ver-se por dentro. Olhar a saúde de outra forma, mais associada ao bem estar e à felicidade. É ver que o padrão é falho. Que está todo mundo atrás de algo que nunca se alcança. Que a beleza imposta à mulher é capitalista, cheia de produtos, plásticas, malhações infinitas, estéticas de consumo. Que é machista, que escraviza, que nos enche de culpa e que ofusca os olhos da alma, que são aqueles que nos enchem de sorrisos por dentro, independe de. Já dizia Vinicius: “uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. Eu digo: uma mulher não tem que ter nada. Ser, viver, ser feliz é essa beleza toda. A beleza de existir, cada qual no seu universo.

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Ano passado eu, que tenho um problema crônico de tireoide, fiquei hiper, com hormônios a mais. Meses de insônia, taquicardia, tremedeiras, ansiedade. Emagreci muito, 7 kilos em 2 meses. As pessoas me falavam: “nossa, como você está bem!”. E eu pensava: “Não, eu não estou bem, estou doente”. Regulados os hormônios, engordei tudo de novo, e mais um tanto. Voltei a comer, a dormir, a estar bem. Kilos e sorrisos a mais, saúde em dia e felicidade de poder ficar onde existe prazer. Magreza não é sinônimo de saúde. A cultura da magreza é a cultura dos padrões e metas, ditadura da estética, nem sempre feliz.

Corpo perfeito é o que a gente tem. E eu sempre prefiro a felicidade. Por menos imposições, e mais prazer…sigamos!

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Aborto e retrocesso social: não!

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

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O aborto clandestino mata mulheres. Essa é uma realidade incontestável. Uma realidade triste, diante da qual a sociedade brasileira se cala. Sem luto. Aceitando o destino de milhares de mulheres que, diariamente, submetem-se às mais diversas situações para poderem dispor sobre seu corpo. A média anual estimada pelo Ministério da Saúde é que cerca de um milhão de mulheres (sim, UM MILHÃO!) submetam-se a esse procedimento no Brasil, isso o Brasil registra, ao ano, 250 mil internações de mulheres por complicações decorrentes de abortos ilegais.

É muito, não? É muita condenação às mulheres, mulheres que não engravidam sozinhas mas que sofrem sozinhas, jogadas à sua própria sorte. E, claro, quanto menos dinheiro a mulher tem, menos chances ela tem que ter um procedimento seguro. Sim, porque o aborto também é uma questão de desigualdade social. Não são só mulheres pobres que abortam. Mas são mulheres pobres e negras que sofrem as piores consequências do aborto. E também é sempre bom lembrar a Pesquisa Nacional sobre Aborto feita por Débora Diniz e Marcelo Medeiros: as mulheres católicas e evangélicas abortam, e as mulheres casadas, com outros filhos, também. São o maior número, inclusive, de mulheres que se submetem ao aborto no Brasil. Todas as mulheres abortam. Eu, você, sua amiga, sua avó, quem você nunca pensou que tivesse. Clandestinas, somos todas nós.

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Claro, queremos a legalização do aborto. Queremos que qualquer mulher, enquadrada em diretrizes legais e em procedimentos determinados e regulados pelo Ministério da Saúde, possa se submeter, se assim for da sua vontade, a um aborto seguro e legal.

Hoje, no Brasil, existem possibilidades de aborto legal. Pelo artigo 128 do Código Penal, as mulheres podem se submeter ao aborto de forma segura e legal nos casos de: risco à vida da mulher e violência sexual. A ADPF 54 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamenta), julgada pelo Supremo Tribunal Federal em 2012, determina que nos casos de anencefalia as mulheres que gestam um feto anencéfalo também tem esse direito, caso optem pela interrupção da gravidez. Isso porque considera inconstitucional qualquer interpretação que enquadre uma mulher que se submeta ao aborto nos crimes de aborto tipificados no código penal (artigos 124 e seguintes). Um avanço na nossa legislação retrógrada e retalhadora de mulheres.

Os casos mais controversos continuam sendo, claro, os casos de violência sexual. Porque né? Na hipocrisia social em que vivemos, a mulher é sempre culpada pela violência que sofre. “Ela provocou”, “ela quis”, e por aí vai. Sem contar que a maior incidência de crimes sexuais contra mulheres acontece dentro de suas próprias casas, ou no âmbito familiar. Como provar os casos de violência sexual numa sociedade que condena mulheres pelo simples fato delas serem…mulheres? Não é tarefa fácil, não.

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Hoje para uma mulher se submeter ao procedimento de abortamento legal, nos casos previstos em Lei, ela deve apenas procurar um serviço de saúde. Existem Centros de Referência e serviços especializados para garantir esse direito das mulheres. Mas, já sabem né? É muito difícil chegar neles: são apenas 65 Centros de Referência em todo país.

E, no caso de mulheres vítimas de violência sexual, NÃO é preciso que a mulher se submeta a exames de corpo delito nem de queixa numa delegacia de polícia para ter acesso ao procedimento. Não. Chega de duvidar da vítima. Chega de obstar seu acesso à saúde!

A Portaria PRT GM n. 485 de 1º de abril de 2014, que redefine o funcionamento do Serviço de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Sexual no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), que determina, dentre outras questões, como deve ser realizado o abortamento nos casos previtos em lei. O artigo 6º desta Portaria dispõe que o serviço de Referência para Interrupção de Gravidez nos Casos Previstos em Lei terá suas ações desenvolvidas em conformidade com a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento do Ministério da Saúde, realizando: I – atendimento clínico, ginecológico, cirúrgico e psicossocial, contando com serviço de apoio laboratorial; II – apoio diagnóstico e assistência farmacêutica; e III – coleta e guarda de material genético.

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Bom, se avançamos um pouquinho nessa Portaria e nessas possibilidades de aborto legal, não podemos relaxar, porque a bancada conservadora do Congresso Nacional, que continua querendo culpabilizar e colocar mulheres em destinos de morte por aborto (e que, infelizmente, aumentou nessa última eleição), não está parada. São diversos projetos de Lei destinados a retroceder o direito ao aborto nos casos legais, e a agravar ainda mais a situação que temos hoje, em relação à punição ao aborto. Como o malfadado e tão comentado estatuto do nascituro (PL 478/2007). Vamos ver alguns que, numa pesquisa rápida, encontrei tramitando na Câmara dos Deputados?

– PL 6115/2013 (Apensado ao PL 1545/2011), de autoria de Salvador Zimbaldi – PDT/SP ,  Alberto Filho – PMDB/MA  – Quer acrescentar um parágrafo único ao art. 128, do Código Penal, para exigir o exame de corpo de delito comprovando estupro para que o médico e o Sistema de Saúde possam realizar o abortamento. E, olhem a justificativa dos ditos doutores deputados!!! “O abuso foi o de dar a gestante o suposto “direito” de abortar sem qualquer prova de que houve estupro, bastando a simples alegação de que foi estuprada”.

– PL 5069/2013, de autoria de Eduardo Cunha – PMDB/RJ, Isaias Silvestre – PSB/MG, João Dado – PDT/SP – Quer acrescentar o art. 127-A ao Código Penal, para tipificar como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto. A justificativa, para chorarmos mais um pouco: “o sistema jurídico brasileiro encontra-se mal aparelhado para enfrentar semelhante ofensiva internacional, contrária aos desejos da maioria esmagadora do povo brasileiro, que repudia a prática do aborto (oi?). A legislação vigente considera o anúncio de meio abortivo como simples contravenção, o que leva a não ser priorizada a atuação a respeito por parte dos órgãos policiais. Por outro lado, a lei não prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática do aborto, mesmo quando se trata de menor”.

– PL 3207/2008 Apensado ao PL 4703/1998, de autoria de Miguel Martini – PHS/MG – Quer acrescentar os incisos VIII, IX e X ao art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990 para incluir induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio (eutanásia) e o aborto provocado nos crimes considerados hediondos! (olha o medo!). Querem ler a justificativa ainda? Lá vai: “Por atentarem gravemente contra a inviolabilidade do direito à vida, tais crimes monstruosos e hediondos estão, por sua vez, a merecer um tratamento penal mais severo a fim de se sancionar de modo mais adequado os infratores e desestimular a sua prática”.

Vale a pena nos cadastrarmos no site da Câmara para acompanharmos o andamento desses projetos, além de tantos outros que existem nesse sentido mórbido e avesso aos nossos direitos ao próprio corpo. É preciso fazermos barulho contra o retrocesso. Infelizmente não basta lutarmos pela legalização do aborto, temos que lutar pelo não retrocesso social a nossas possibilidades de aborto legal, e ao não agravamento da situação já injusta e severa que temos contra as mulheres!

Pela legalização do aborto, pelo direito à vida das mulheres!

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Pequenos Prazeres Biscates: Orais

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates, hoje temos prazeres orais…

#PequenosPrazeres

orais

Boca, língua, dentes. Febres. Calor. Você passeia pelo meu corpo, morde meus lábios, lábios grossos e molhados. Molho-me. Mordo, me mordes, chupo teu pescoço e deslizo pela orelha, labirinto adentro. Labirinto afora.

Pelos, cabelos, saliva. Tua língua desenha minhas costas, desce, desce mais, quadris, bunda, adentra. Adentro. Penetra-me com os lábios abertos, sinto-te boca, sinto-te toda. Então me beijas com o gosto que vem de mim,  e eu de ti enlouqueço no furor da língua, exploro o céu da boca, lambida, mergulho. Lambo-te, descubro o gosto que escondes embaixo dos lábios, queixo, seios, dedos, umbigo.

Beijo, beijo de novo, mordida, mordo forte enquanto me lava os braços, língua correnteza,  rio que extravasa os poros, suor meu, suor seu, onda que nos leva, redemoinho.

Prazer de lábios, prazer oral, prazer que bebo com sabor desperto, degusto, deleite. Prazer nosso a ser vivido em cavidades e banhos de mar, esse nosso mar que nos cobre, gozo, desaviso, de novo, vem.

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Preconceito contra rico?

Preconceito contra rico. Isso existe?

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Se tem algo que vem me intrigando nesses tempos de debates e animosidades políticas, é esse papo de que rico sofre preconceito. É o homem branco, hétero, cisgênero, classe média/alta, sentir-se discriminado e ofendido quando chamado de “elite”, “riquinho”, “filhinho de papai”. Se sentir excluído por ser identificado com seu privilégio social. Oras, senhores, por favor: poupem-me. Vamos tentar entender o que é preconceito?

Preconceito existe quando alguém é oprimido socialmente. Quando é discriminado por sua condição social, étnica, por sua orientação sexual, pela sua identificação de gênero. É quem deixa de ter acesso a bens e serviços por isso. Quem sofre agressão e exclusão social por não se enquadrar nos padrões vigentes: branco, heterossexual, cisgênero, machista, com grana no bolso. É quem, por ser identificado com qualquer dessas categorias de exclusão social, sofre violência moral e/ou física. Quem deixa de gozar, ter acesso, participar da vida social – capitalista em seus cargos, ocupações, diversões, porque é pobre. Porque é negrx. Porque é gay, lésbica, mulher, transexual. É ocupar um lugar onde você não é igual para viver na sociedade com seus valores e critérios de inclusão. Quem tem pior. Quem tem mais difícil. Quem tem com muito suor e muito machucado na escalada. Quem sofre discriminações das mais diversas quanto tenta chegar.

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Elite, minha gente, é quem oprime. Chamar de elite é reconhecer que x outrx tem privilégios sociais. Qual o problema de se reconhecer os próprios privilégios? Eu tenho. Por ser branca e classe média. Por ter tido acesso à educação, à saúde, por ter nascido numa família branca, com renda – apesar de pouca, de suada, era suficiente para nos garantir uma vida digna. O que muita gente não tem. Não tem dignidade, não tem o que comer, onde morar, como viver ou sobreviver. Não pode comprar, não pode ocupar, não pode acessar.

Nunca vou sofrer preconceito por ser chamada de “branquela”, de “elite”. Nunca deixei de gozar de nada por isso, nunca sofri por isso, ao contrário: só tive benefícios sociais. Como meus benefícios podem ser a mesma causa de preconceito? Não, não são. Sofro preconceito por ser mulher, e por ser lésbica, isso eu sei o que é. Isso já me causou olhares, violências, exclusões e eu chamo de preconceito. Mas, no resto, aceito meus privilégios e, ao olhá-los, quero entender como posso fazer para que todxs os tenham. Ou para que não exista mais privilégio algum, sejamos todxs de fato iguais e com as mesmas chances, oportunidades e benefícios no viver coletivo.

Não gosto de discursos de ódio. Nenhum deles. Se você é chamado de “elite” e não gosta, às vezes pelo tom de desprezo, de raiva etc, não confunda esse sentir com preconceito. É ruim se sentir agredido, e para mim violência não se paga com violência, apesar de entender o que motiva a revolta daquelxs excluídos socialmente e vítimas de tanta porrada, no sentido metafórico e não metafórico da palavra. Mas reflita. Procure ver o que te incomoda. Procure ver poque x outrx se incomoda. Talvez fique mais fácil compreender se puder olhar através dos olhos dx outrx. Nunca saberá o que é sentir na pele, mas talvez possa se solidarizar com a dor de quem é violentado cotidianamente por ser quem é.

Quando a gente trabalha com políticas sociais de inclusão, quando a gente busca a igualdade, ou viver numa sociedade mais igual, a gente tem que olhar a desigualdade. As tantas desigualdades sociais que nos rodeiam. Tem que ver como, politicamente, podemos redistribuir bens e serviços. Recursos, cargos, salários. Como podemos ter negrxs no poder. Mulheres. Gays, lésbicas, transexuais. Como o pobre fica menos pobre. Como ter padrões menos heteronormativos. Menos machistas. Como se faz para vivermos, todxs, com um pouco mais de dignidade nesse mundo capitalista de grandes selvagerias.

Quem defende políticas sociais e de redistribuição de renda não gosta de “pobre”, nem quer que todo mundo “more na favela”, como temos ouvido recentemente. Ao contrário. Quer que todxs tenham mais. Quer que não tenha favela indigna. Quer que não tenha pobre e excluído por sua etnia. Por sua orientação sexual. Quer que não tenha miséria. E, para isso, você “elite”, terá que perder seus tantos privilégios e exclusividades. Você está prontx para isso? Reconhece primeiro, que  dói menos. E, de forma mais coerente, ou trabalha por um mundo mais igual, ou reluta e busca de qualquer modo manter seus privilégios. Mais coerência é melhor. Mais clareza. Mais sinceridade.

A minha escolha será, sempre, rever privilégios e buscar inclusões. Nem todxs estarão do mesmo lado. Democracia não é consenso, e comporta debates e visões de mundo distintas. Mas o papel de “coitadinho” da elite é, no mínimo, cômico – se não fosse trágico, e totalmente descabido. Dito isso, vamos ao debate? Quanto mais amor, mais humanidade e mais direitos humanos garantidos, melhor.

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