Construir mosaicos

One chance
To keep it together when
Things fall apart
One sign
To make us believe it’s true
What do you see,
Where do we go?
One sign: How do we grow?
By letting your lifelines show
What if we do, what now?
What do you say?
How do I know?
Don’t let your lifeline go

Lifelines – A-Ha

Sempre fui do tipo que vivia remoendo o passado, as mágoas, as culpas. Não sou muito acostumada a me perdoar ou a esquecer. Quando erro, fico remoendo a culpa por dias, meses e anos, as vezes, a pessoa com quem errei já cansou de me perdoar e eu continuo me martirizando. E “se elx perdeu a confiança em mim?”, “será que eu mereço sua/seu amizade/amor depois do que fiz?!”. Essa é a Sara, aquela que perdoa qualquer pessoa, mas não se perdoa!Mosaico-de-Azulejos-Passo-a-Passo-3

Essa Sara está tentando mudar, parar de me responsabilizar por tudo que acontece, não entender fins de relacionamentos e de amizades, me sentir destruída e culpada por qualquer erro que cometo. Passei muito tempo catando cacos quebrados e tentando reconstruir exatamente o que existia antes, sem compreender que nada se mantém intacto. As coisas são mutáveis, os cacos de um relacionamento pode virar lixo ou pode virar um mosaico. Posso, sozinha ou acompanhada da pessoa do relacionamento, catar meus (ou nossos) cacos e tentar construir algo novo, tão bonito quanto, ou mais bonito ainda.

Sou apaixonada por mosaicos, acho lindo como restos de azulejos poderiam virar algo tão belo, eram restos, rebarbas, quebras que viravam pedaços de cor, uma nova forma colorida e desenhada. Quero levar isso para a minha vida, transformar a dor e os finais em novos risos, começos, choros de emoção e, porque não, continuações.untitled

Quero ser menos rígida comigo mesma, quero me perdoar do mesmo jeito que perdoo amigxs, familiares e companheirxs. Não quero viver carregando peso demais em minhas costas, faz mal a coluna. Quero poder ficar em paz, compreender que, mesmo quando algo não dá certo ou quando eu faço algo que magoa alguém, eu posso ver que eu fiz o possível e me perdoar. Não porque estou certa, mas porque errar faz parte e meus erros também constroem a mulher que sou e que, pra ser feliz, não preciso ser infalível, só preciso viver.

Viver é sofrer, chorar, quebrar amizades e reconstruí-las novamente, jogar amores no chão e montar mosaicos com seus cacos, é rir, é me permitir e permitir axs outrxs o erro e compreender que o erro, muitas vezes é o melhor dos acertos!

Talvez se nunca mais tentar

Viver o cara da TV

Que vence a briga sem suar

E ganha aplausos sem querer

Faz parte desse jogo

Dizer ao mundo todo

Que só conhece o seu quinhão ruim

É simples desse jeito

Quando se encolhe o peito

E finge não haver competição

É a solução de quem não quer

Perder aquilo que já tem

E fecha a mão pro que há de vir

Rotina

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Chico Buarque – Cotidiano

Acostumei com o meu todo dia, acostumei a ser sempre comum. Todos os dias eu estou ali, pronta pra trabalhar, pra estudar ou ir malhar. Parei de me questionar, de me perguntar se essa rotina me faz bem. Parei de ser quem eu deveria ser, uma pessoa incomodada. Costume.

rotina1

Quando alguns acontecimentos me fizeram acordar. Comecei a não suportar o costume, não suportar o meu lugar comum de todos os dias, o trabalho enfadonho, o estudo estilo “comer livros”, sem pensamento crítico, sem vontade alguma. Comecei a me cansar das unhas feitas com decorações, grandes e chamativas, cansei do cabelo comprido. Não que eu tenha decidido mudar tudo de uma vez, mas comecei a mudar aos poucos. Depois que adoecemos, nos compreendemos frágeis, incertxs. Não me via mais ali, não me achava e eu precisava muito de mim.

Precisei me ver doente, sem um monte de coisas pra fazer pra compreender que faltava eu acordar e me perguntar: tá tudo do jeito que eu quero? Minha vida tá indo na direção que desejo? Será que tô protelando coisas necessárias em minha vida por medo de mudar? Porque não tentar algo no susto, no chute? Fiquei sem emprego, porque não trabalhar de freelance? E o mestrado? Porque não voltar aos planos de estudo de antigamente, de antes desse emprego louco que tive?

Chegou a hora de sair da rotina, antes que ela me engula e eu vire mais um número. A rotina é gostosa, mas, pra mim, tem que ser moderada. Tem que ser a rotina do dormir de conchinha, do tomar uma cerveja toda sexta, de tirar uma hora do dia pra fazer nada, de estudar por amor e pra absorver coisas novas. Rotina sem pensar, pra mim, não dá.

You are only coming through in waves
Your lips move but I can’t hear what you’re saying
When I was a child I had a fever
My hands felt just like two balloons

Now I’ve got that feeling once again
I can’t explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb

Pink Floyd – Comfortably Numb

Teve um dia que me chamaram de puta…

I’m a bitch, I’m a lover
I’m a child, I’m a mother
I’m a sinner, I’m a saint
I do not feel ashamed
I’m your hell, I’m your dream
I’m nothing in between
You know you wouldn’t want it any other way

Meredith Brooks – Bitch

E esse dia não foi o único, mas foi uma ocasião diferente das inúmeras vezes em que fui chamada de puta no dia a dia. A diferença estava na importância que a pessoa tinha na vida do meu companheiro na época. Sim, fui chamada de puta por umx familiar de um namorado, mas também não foi x primeirx membrx da família de um namorado meu que me chamou de puta. O que diferenciou é que, nas outras vezes, eu ainda não estava empoderada e, dessa vez, já era Biscate assumida.

Mas, pensemos: Porque me chamar de puta? Bem, a pessoa usou esse nome pra mostrar que desaprovava meu relacionamento com esse namorado. Afinal, um homem como ele não deveria namorar uma mulher como eu. Mas, como sou eu? Bem, sou ex-professora, formada e pós graduada, com meu emprego próprio, me mato de estudar todos os dias pra passar em um concurso público e apaixonada pela minha mãe. Se eu fosse uma mãe, tia, avó, irmã, eu adoraria uma mocinha dessas como namorada de umx membro da minha família. O que incomodou tanto essa pessoa, afinal? Ah, eu esqueci, sou daquelas mulheres que transa no primeiro encontro, não frequenta igrejas, bebe muito, mora fora da casa de sua mãe e seu pai, foi criada em um “lar desfeito” (ah, o medo de mulheres divorciadas criarem pequenos monstros que não fazem as tarefas de casa sozinha!) e tem suas opiniões muito fortes. Sim, eu sou uma biscate!

Meus companheiros não precisam ir a casa de minha mãe e meu pai me pedir em namoro, na verdade, se ninguém por lá aceitar o namorado ou namorada, eu nem ligo. Sou carinhosa, gosto de cuidar de quem amo, cozinho e faço agrados, mas espero agrados de volta, como me ajudar com a louça que acumulou em minha pia por causa de minha tendinite (afinal, divisão de tarefas vem também de cuidar e amar). Não sou muito simpática com pessoas que me impõem coisas como religião, comportamentos e atitudes. Não quero e nem preciso ser recatada ou delicada, falo alto, rio alto, durmo pelada na casa do namorado. E apesar de adorar namorar, tenho uma lista beeeeeem extensa de parceirxs sexuais em meu passado.

Foto da Marcha das Vadias de Brasília em 2013.

Foto da Marcha das Vadias de Brasília em 2013.

Biscate, piranha, vagabunda, puta, palavras que pra mim são tão comuns (resignifiquei todas para não julgar as coleguinhas) que fiquei em dúvida se deveria me defender ou não, mas, no calor da discussão, me defendi, me magoei. Afinal, praquela pessoa, ser puta é ser indigna. Não ser mulher praquele cara especial (bastante, como todos os caras que não separam mulheres pra transar e pra casar) era ser puta, ele não me buscou na casa de mamãe e pediu minha mão em casamento, eu não cheguei virgem até ele. Então eu não era mulher que a “família” escolheria pra ele.

O fato é, não existe isso de você não é homem ou mulher pra alguém. Relacionamentos deveriam ser construídos longe de preconceitos e caixinhas de “par ideal”. E, quando conseguimos construir fora de caixinhas esse relacionamento entre duas pessoas (ou 3 ou 4, a escolha é das pessoas envolvidas), vem uma pessoa de fora querendo se meter no que tá dando certo por puro preconceito. Então, familiares, acho que se um homem namora uma puta, biscate, vadia ou o que for, isso só diz respeito a ele. Deixe que ele seja feliz, pois, se escolheu aquela pessoa é porque é com ela que quer dividir aquele momento de sua vida. Seja por uma noite, seja por meses ou anos.

This labeling
This pointing
This sensitive’s unraveling
This sting I’ve been ignoring
I feel it way down
Way down

These versions of violence
Sometimes subtle, sometimes clear
And the ones that go unnoticed
Still leave their mark once disappeared

Alanis Morissette – Versions of Violence

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

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Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

Gorda

Everyday I fight a war against the mirror
I can’t take the person starin’ back at me
I’m a hazard to myself

Don’t let me get me
I’m my own worst enemy
Its bad when you annoy yourself
So irritating
Don’t wanna be my friend no more
I wanna be somebody else

Pink – Don’t Let Me Get Me

Me sinto incomodada com o meu corpo, estou passando por uma transição de mentalidade, preciso compreender porque não aceito meu peso, sou obcecada por emagrecer. Esse sentimento estranho, antes eu utilizava a desculpa de “fui magra a adolescência toda, esse não é o meu corpo natural”. Mas, se eu fui magra 17 anos da minha vida, sendo nesses 17 anos, apenas em 4 deles meu corpo já era adulto, como poderia assumir meu corpo de infância como o corpo real? Sim, meu corpo da maior parte da minha vida adulta é um corpo em sobrepeso. Não sei se sou gorda de verdade ou se apenas não sou do manequim 40. Mas, vestir 48 foi um problema dos meus 18 até hoje, são quase 12 anos nessa tortura de “emagrecer por saúde”. O que me incomoda não são os olhares de outras pessoas, é o meu próprio olhar, é o incomodo ao enxergar as dobras, a barriga, o rosto redondo.

Na infância, ainda era magra

Na infância

Ser saudável eu já sou, de acordo com uma cardiologista que ia quando tinha uns 90 e tantos quilos, meus exames são de dar inveja em muitx esportista, então qual é a minha doença? Probabilidade de infarto? Problemas de coluna? Acho que minha doença é um preconceito que tenho sobre o meu corpo. Minha felicidade depende de eu vestir 40? Serei mais realizada se isso acontecer? Realmente, entre meus planos de futuro, sempre esteve o manequim 40, o mestrado e o doutorado, a casa própria. Coisas de uma menina de classe média, que, sem querer, aprendeu que ser feliz é poder usar biquini sem gorduras pulando por cima da calcinha do biquini.

Final da adolescência, 17 ou 16 anos, ainda era magra

Final da adolescência, 17 ou 16 anos

Estou começando a me aceitar, afinal, é doentio eu olhar mulheres e homens gordxs a minha volta, considerar todxs lindxs, mas não me aceitar linda. O que falta para que eu seja linda? Falta autoestima, falta empoderamento? Talvez seja só isso, o manequim 48 seja parte de mim, uma parte que eu TENHO  que amar também. Não por conformismo, mas por liberdade! Me libertei de tantos preconceitos, mas esse é o mais difícil de todos de libertar, talvez por aprender a vida toda que gordura é sinonimo doença, falta de saúde, preguiça, baixa auto estima.

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Eu nunca enxerguei pessoas gordas como muitxs enxergam, pessoas solitárias, infelizes, sem companheirxs, sem vida sexual. Até porque eu sempre tive vida sexual ativa, estando gorda ou magra. Não tenho e nunca alimentei o preconceito que mulheres gordas não arrumam alguém, nunca foi minha preocupação. Não só por não viver pra ter um marido/namoradx/esposa, mas por ser educada pra viver por mim apenas. Entendam, não tenho medo de ser solitária, na verdade, ser solitária às vezes pode ser libertador. Meu medo é diferente do medo de não ter ninguém que me deseje ou me ame.

Auge do meu emagrecimento, menos 15 kg

Auge do meu emagrecimento, menos 10 kg

Meu drama com o peso e com o manequim sempre foi muito “classe média”, eu queria comprar roupas pra mim e, ao invés de lutar pra que as roupas se adaptassem a meu tamanho, eu lutava pra me adaptar a ditadura magra e alta que sempre fui imposta. E, quando aprendemos que saúde é diretamente relacionada com esporte e alimentação, você se acostuma a achar que todx gordx é doente, não faz esporte e não controla a boca. Eu era a primeira a me cobrar.

Foto de quando estacionei meu emagrecimento

Houve uma época em que malhava todos os dias, contava calorias das refeições, fazia capoeira,hap ki do. Estava chegando aos 70kg, esses 70kg foi o menor peso que tive de forma “saudável”, menos que isso só quando tomei inibidor de apetite e ansiolítico. Depois desses 70kg, só emagreci passando fome. Comecei a enlouquecer comigo mesma, eu estava fazendo algo errado, tinha que ter algo errado. Entrei em depressão, engordei um bocado de novo, troca de hormônios, tudo misturado.

Foto atual

Foto atual

Não sei se voltarei aos 70kg, não acredito que isso seja importante, preciso trabalhar outra área da minha saúde, a psicológica, a aceitação do meu peso. Pois, agora, acordei para um medo muito maior que ser gorda, que é ter um distúrbio alimentar por acreditar que “preciso emagrecer”. Essa luta é muito mais importante, já que sei que meus exames estão todos em taxas super saudáveis, o peso não interfere em minha saúde. Estou começando a me aceitar, usar roupas curtas e justas, sem raiva do espelho, mas tem dias que não consigo me sentir feliz com o que enxergo.

Now and then, I get insecure
From all the pain, I’m so ashamed

I am beautiful no matter what they say
Words can’t bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can’t bring me down
So don’t you bring me down today

Christina Aguilera – Beautiful

Vazio

Take a walk outside your mind
Tell me how it feels to be
The one who turns the knife inside of me
Take a look and you will find there’s nothing there girl
Yeah I swear, I’m telling you girl yeah ’cause

There’s a hole in my soul that’s been killing me forever
It’s a place where a garden never grows

There’s a hole in my soul, yeah I should have known better
‘Cause your love’s like a thorn without a rose

Aerosmith – Hole in My Soul

Esse sentimento tão falado em todas as artes é algo que não me abandona. Algumas pessoas culpam algo, alguém ou algum acontecimento para a sua existência, eu culpo sua existência e, somente ela, por tudo que sinto. É como se eu olhasse por um óculos pessimista todas as rasteiras, infelicidades, falecimentos, notícias ruins e abandonos que me aconteceram.

Sim, tem um buraco em minha alma, um vazio que não consigo preencher, que puxa tudo pra dentro dele, como um evento astronômico, tão conhecido como Buraco Negro. Não sei o porquê dessa falta, dessa dor. Não consigo nomeá-la como um coração partido, nem como a falta de um ente querido, não é apenas isso,tá muito além de momentos infelizes. Mesmo em dias maravilhosos, ela aparece: está feliz com seu (sua) queridx, ela te chama apenas para te fazer compreender que, mesmo na sua maior alegria, ela não some; está em volta dos que ama, ela passa só pra dar um oi; um belíssimo dia de sol, lá está ela, se mostrando faceira, pra que você não se esqueça de sua presença.

vazio

Não são apenas em dias sombrios que o vazio aparece, ele se sente convidado pro seu dia a dia . Depressão, tristeza, seja como queira chamar. É o criador de minha dor, mas é o ingrediente que me impulsiona também, pois é com o sonho de não sentir novamente esse vazio que acabo indo atrás de meus sonhos, meus ideais, tento realizar minhas vontades. Esse vazio, me impulsiona e dizer adeus, a partir em busca de novos desejos. Estranhamente animador, esse medo do buraco que tenho em mim, me faz ir onde eu jamais imaginaria ir. Alcanço coisas que nem sabia que poderia alcançar, mas o vazio insiste, ele não parte.

E, em meus momentos mais tristes, eu entendo o que os artistas tanto contam em suas obras, a dor da falta, do buraco, nunca vai embora. E, quando começa a partir, você procura um novo motivo pra que ele volte, pois sem o amor impossível, sem o luto, sem o medo da tristeza, você não se impulsiona a crescer. E, é desse jeito que sobrevivo e crio.

I don’t want to fall again
I don’t wanna know this pain
I don’t want another friend
I don’t wanna try again
Don’t want to see you hurt
Don’t let me see you hurt
I don’t wanna cry again
I’ll never see your face again

How can you say that I didn’t try?
You know I did
You see things in the depths of my eyes
That my love’s run dry
(I don’t wanna cry again)

So I read to myself
A chance of a lifetime to see new horizons

A-Ha – Manhattan Skyline

Amar

Não existe saudade mais cortante
Que a de um grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente…
(Zé Ramalho)

A vida é curiosa, passo tanto tempo tentando entender como funcionam os sentimentos, quando na verdade, só preciso sentir. Eles não são para se racionalizar, pelo menos, não pra mim.

Estou em casa!

Estou em casa!

Essa sexta e esse sábado que passaram, me dei conta do que é ser puro sentimento, sem racionalidade, um simples passeio ao centro do Rio de Janeiro, encontrar pessoas que me marcaram num passado distante e voltar a um local que, até hoje, enxergo como minha casa. Esses momentos me fizeram ver que o tempo não apaga sentimentos, eles ficam latentes, esquecidos no cantinho do meu coração, até a pessoa ou um local reaparecer, aí tudo volta com força!

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

Amar é tão simples, é tão fácil e é tão surpreendente. Eu me surpreendo com os meus sentimentos todos os dias. Me surpreendo com como posso amar tanto, num tamanho sem fim, às vezes, um amor que dói, às vezes, um amor que cura. Dói quando vemos o sofrimento de quem amamos, sem poder fazer nada para ajudar. Cura minhas tristezas quando vejo minhxs amadxs felizes.

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Tem amor que me surpreende, recebo uma notícia, a pessoa cheia de dedos, achando que pode me magoar, me conta algo que só faz amar mais e se sentir orgulhosa por amar essa pessoa. Pessoas que nem esperava compreensão, me auxiliando quando mais preciso! Amigxs antigxs voltando para a minha vida com toda força e importância.

Sou feita desses sentimentos, amar é o que faz de mim tudo o que sou, da cabeça aos pés, sou puro amor.

How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here
(Pink Floyd)

Mãe

Meu post hoje fala do grande amor da minha vida. A mulher que sempre esteve ao meu lado e que tenho toda certeza que continuará ao meu lado a vida toda dela (ou a minha). Falo da minha mãe. Minha mãe é o meu maior exemplo de mulher, sempre falo que quero ter a mesma fibra que ela teve toda a sua vida!

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Lembro como se fosse ontem, quando minha mãe se divorciou, que foi com a cara e a coragem morar sozinha, com duas filhas crianças. Mesmo sabendo que sua família não era muito de acordo, ela foi em busca de sua felicidade, que já não era mais ao lado de meu pai. Minha mãe trabalhava tanto! Por um certo tempo, ela foi mãe e pai, até conhecer meu padrasto, um homem que apoiou e esteve ao lado dela em todas as suas lutas diárias.

Foi nesse casamento que compreendi o valor do companheirismo, da amizade e da divisão de tarefas entre um casal! Meu padrasto sempre cuidou e muito bem da gente, enquanto minha mãe trabalhava e fazia faculdade, meu padrasto apenas trabalhava, então, presenciei várias cenas incomuns na década de 90: Meu padrasto cozinhava, colocava a gente pra dormir, levava a gente para passear todos os fins de semana que minha mãe precisava de paz para estudar. Foi nesse núcleo familiar que aprendi a ser feminista. E foi vendo minha mãe vivendo como profissional, escolhendo realizar seus sonhos, sempre olhando como a preocupação, o cuidado e o amor desse casal era provado a cada dia que minha mãe chegava tarde da faculdade e estávamos na cama dormindo, de barriga cheia e felizes.

Lia, eu e minha mãe no último natal

Lia, eu e minha mãe no último natal

Foi também com a minha mãe que aprendi a ser e me assumir negra. Sou filha de pai negro e mãe branca, na minha casa não tinha “alisar cabelo das meninas!”, teve quando foi de nosso desejo, na adolescência, e meio que a contragosto da minha mãe. Foi naquele núcleo familiar que ouvi, pela primeira vez, quando sofri bullying, que era linda, que minha cor e meu cabelo eram bonitos e que não deveria nunca pensar diferente! Foi com a minha mãe que aprendi a me impor, não deixar racismo nenhum me diminuir! De quantas lojas nós já saímos de cabeça erguida? Se mexesse com filha dela, mexia com ela! Quer ser racista? Não espere que a gente aceite!

Essa mesma mulher nunca se se sentiu envergonhada de nenhuma atitude minha, debate comigo e com minha irmã sobre racismo, homofobia, machismo, planos profissionais. Se ela ou eu temos alguns preconceitos enraizados, não é por conformismo, é por ainda estarmos todas nós (as 3) em desconstrução. Mas fico sempre feliz ao ver minha mãe, uma mulher branca, heterossexual, de família católica e nascida na década de 60 falar com mais naturalidade que muita gente de 20 e poucos anos sobre assuntos que, na época dela, eram tabus, era feio, era errado. Com ela eu aprendi a afirmar meus direitos, todos os dias.

Amanhã, essa mulher maravilhosa faz 54 anos, queria falar que me sinto feliz todos os dias por ser sua filha, por aprender com ela tantas coisas! Tenho muita sorte, noto isso todas as vezes que vejo que posso contar com ela, que ela me compreende, me apoia e, as vezes, me dá umas broncas também, coisas de mãe preocupada. Feliz aniversário, minha melhor amiga!

Annie Walker

Eu vivo assistindo seriados, acabo me apaixonando por alguns em especial. A menina dos meus olhos de agora é o seriado Covert Affairs. O motivo, bem, sempre fui louca por séries policiais e por enredos que trabalhassem com FBI e a CIA, com agentes infiltrados. Mas, sempre faltou uma personagem forte, que não fosse frágil e secundária, que fosse uma protagonista a altura. A agente Annie Walker (Piper Perabo) fez eu me identificar com ela.

Annie Walker

Annie Walker

Uma mulher inteligente, com seus vinte e poucos anos, que tem um emprego “masculino”, agente da CIA que trabalha em campo, sem parceiro para ajudar. Sei que é uma realidade longe da minha, ou de muitas outras mulheres, mas me sinto feliz ao ver uma mulher na posição de protagonista em uma série desse tipo. Todas as outras séries atuais com personagens mulheres que são agentes têm uma fragilidade, têm parceiros, não vejo uma protagonista tão forte e presente quanto ela desde o seriado Cold Case.

Annie é uma mulher inteligente, vive na casa de hóspedes de sua irmã, trabalha como agente secreta, então sua família não sabe. Todos acreditam que ela é curadora de um Museu. Interessante que sempre que assisto lembro do 007, uma agente secreta que trabalha sozinha.

Annie, sua chefe, Joan  e Auggie, seu colega de trabalho.

Annie, sua chefe, Joan e Auggie.

Sua irmã se preocupa por ela trabalhar demais e não conhecer caras interessantes: mal sabe ela que Annie tem vários casos rápidos, afinal, são em suas missões. Diferente de sua irmã, ela é mais solitária. O que, na série, não é melhor nem pior que ser casada e mãe, só é diferente. E a escolha de uma não atrapalha a vida da outra, são companheiras e irmãs.

Além de Annie e sua irmã temos muitas personagens femininas: sua chefe, Joan Campbell, também é uma personagem interessante, uma chefe um tanto quanto mandona, mas no fim das contas, ela age assim para reforçar que ela não é apenas “esposa do seu chefe”. São personagens mais profundas e muito maiores que mulheres indefesas de séries comuns. Na verdade, todxs xs personagens da trama são complexxs. Por isso gosto tanto de Covert Affairs. Estou cada dia mais apaixonada pela série.

Se eu for embora?

Now there’s gravel in our voices
Glass is shattered from the fight
In this tug of war, you’ll always win
Even when I’m right
‘Cause you feed me fables from your hand
With violent words and empty threats
And it’s sick that all these battles

                                                          Rihanna – Love The Way You Lie

Aprendi, com um relacionamento meu e com alguns relacionamentos de conhecidas minhas, que certos homens não sabem lidar com a separação tão bem. Não estou falando do medo de perder, nem da fossa, nem da tristeza ou da vontade de se afastar para não sofrer que muitos homens e muitas mulheres sentem; falo daquela sensação machista que muitos homens têm de que SUAS (pronome possessivo) companheiras são posse e só podem ir quando eles desejam uma nova namorada/esposa/noiva.
Eu sofri com isso no meu primeiro namoro, onde eu sofria humilhação, era maltratada, mas não podia deixá-lo, afinal, ELE escolhia quando iria me abandonar. Quando decidi ir embora, fui com medo, fui perseguida, perdi minha paz. Falo por mim, eu consegui tomar a decisão de ir embora. Largar de um homem assim é difícil, algumas querem mas não conseguem. Têm filhxs, trabalham junto com ele, as ameaças de ¨tirar xs filhxs¨ou de ¨destruir sua profissão¨.
A violência, em muitos casos, não é física, então não é fácil de enxergar, se estamos de fora, alguns homens parecem homens acima de qualquer suspeita, companheiros, que apoiam o emprego de suas companheiras. Muitos são “perfeitos cavalheiros”, quando a companheira decide brigar, gritar e mandá-lo embora, aparecem com presentes, cartões carinhosos, mensagens no ZapZap, pedindo pra voltar, que não vivem sem elas. Exato, não vivem, então preferem morrer e matar a viver sem ela, ou ela viver com outro!

Vá embora!

Vá embora!

Me assusta muito isso, me pergunto como estive com uma pessoa tão doentia no passado. Vejo mulheres que passaram por isso, independente de lutas por direitos das mulheres, quando é com a gente, o buraco é mais embaixo. Dói, nos sentimos culpadas pelos acessos de raiva, pela brutalidade. O medo só cresce, a vergonha de “causar” isso em um homem também cresce. Mas, entendam, minhas queridas, a culpa não é nossa. Somos vítimas, vítimas de seres com uma doença social chamada machismo.
Ninguém é obrigadx a ficar com ninguém, somos livres para ir e vir. Amar e estar junto é ser companheirx sem cobrar a presença eterna dx outrx em sua vida. Amar é deixar ir quando x outrx quiser ir, por mais que doa, por mais que machuque a falta, sabemos que é uma dor que passa, uma falta que pode ser preenchida por outra pessoa. Sem perseguição, sem medo de ir embora. Que seja bom, que você lembre com carinho do passado, não que se pense no alívio de partir!

Profissional

Sempre fui o tipo de profissional impecável em todos os empregos (poucos) que tive, é um dos ensinamentos que minha mãe me passou. Mas, pra mim, existe diferença entre ser uma profissional de respeito e se prender para se adaptar a um perfil “aceitável”. E foi assim que decidi assumir minha orientação sexual entre colegas de trabalho…policia-civil-mulher-370x290
Não é sobre isso que queria falar, mas passa por aí! Tem rolado por aqui, em Juiz de Fora, um vídeo de uma policial civil transando com seu marido e alguns outros homens. O que isso me diz respeito? Nada, na verdade, pra mim, é indiferente o que uma policial faz com o marido e com quem mais quiser fazer no quesito sexo consensual. Desejo que ela apenas, como uma policial, seja justa, não aja de forma preconceituosa com negrxs, não ignore crimes contra mulheres cometidos por motivos machistas e torpes.
O que me assustou foi a reação da maioria das pessoas que ouvi falar sobre o ocorrido. O desrespeito à uma mulher profissional por causa de sua vida privada e sexual. Não considero que o número de parceirxs sexuais de uma policial a faça menos capaz de exercer sua profissão. Sinto-me enojada quando falam de bons modos de advogadas, juizas, promotoras e policiais mulheres. Pelo simples motivo de considerar essa história de bons modos machista e reaça. Liberdade sexual não impede mulheres de ser profissionais excelentes. O que acontece é que em certas profissões o tal “se dar ao respeito” é muito mais hardcore. Já é difícil ser atriz ou vendedora, imagine só profissões onde sua “moral” é quesito para o grupo reaça e machista te considerar “incapaz de dar lição de moral ou exercer sua profissão de forma correta”?
Quem sou eu para apontar dedo para uma policial e falar ” quem é você pra me prender? Você é uma vadia!” Sério mesmo? Que pessoa de cabeça pequena pode pensar isso? A maioria dxs conhecidxs que tenho em meu emprego atual. Cada dia tenho mais certeza que não sou desse mundo! Pessoas que ouvem Valesca Popozuda mas não compreendem o recado que ela quer passar!
Nesse momento agradeço a educação que tive em casa, aprendi que a obrigação de umx profissional é exercer seu trabalho de forma impecável, da porta pra fora é problema seu!

Violências

Nessas ultimas semanas, alguns acontecimentos me fizeram testar minha militância. Ser feminista não é apenas defender amigas que desejam ser defendidas da violência machista. Assim é muito fácil,  ser feminista é defender até quem comete bullying, nos magoa no dia a dia. Tive que auxiliar uma colega de trabalho que sofreu violência machista esse mês,  o curioso foi notar que, apesar de todas as grosserias e de como ela e suas amigas sempre me trataram, eu fui madura para deixar tudo isso pra lá e ajudá-la.

Também foi nesses dias que assisti uma pessoa especial receber grosserias por defender uma familiar de sofrer violência e se envolver com um homem machista e mau caráter. Como lidar com essa situação?  Mulheres que defendem seus agressores,  como mostrar o erro e a dependência dessa relação?  É justo deixar uma mulher sofrer violência por escolha própria?  Isso é livre arbítrio ou é ser conivente com o machismo?

Conseguir defender uma pessoa por quem não tenho carinho nenhum reafirmou minha luta por direitos. Mas, assistir alguem próximo a mim tentar levar um ente querido a cair na real sobre o que sofre e não conseguir, me fez me sentir tão confusa. Forçar, proibir, são essas as atitudes que é preciso tomar. Ou deixo “quebrar a cara sozinha”? Não sou conivente e ruim se fizer? Até que ponto posso intervir? Quantas mulheres, conhecidas e familiares, vejo sofrendo violência caladas. Eu assisto tudo isso e sou tão machista quanto quem fala “em briga de marido e mulher…”? Elas se calam porque elas acham que merecem, ou porque o amam demais, mas eu não deveria me calar. Algumas entram em defesa de seus carrascos, o que só faz reafirmar o poder que eles têm sobre elas, aumentando a violência,  em muitos casos.

Não consigo me sentir bem quando estou de pés e mãos atadas. Se não há como provar a violência machista como eu reajo ao que assisto e que me contam? Queria falar “estou te forçando a largar esse homem que apenas te faz mal”. Ou “seu marido não tem direito de te prender aqui, mas eu tenho o direito de te tirar daqui a força! ”

E é mais um dia de preocupação com essa mulher que recusou ajuda e ainda maltratou quem estendeu a mão. É também mais um dia em que afirmo a certeza de amigas e familiares que vivem um romance com um “príncipe” que apenas tem medo de perdê-la. É também mais um dia em que vejo uma mulher que enfrentou a violência que sofreu e seguiu adiante, me agradeceu pela ajuda. Sonho com o dia em que todas as mulheres se revoltem contra homens que tentam ter relações abusivas e machistas com elas. Qualquer relação,  desde pai e filha, mãe e filho até namorada e namorado,  ou qualquer outra relação que for.

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