Plural!

Escrevi esse post na minha volta do Tour Biscate SC 2013 em Beagá. Foi um momento em que me dei conta de como meu coração anda biscate. Sempre fui livre, mas não conhecia esse tipo de liberdade, liberdade de se permitir se apaixonar a cada cidade/porto/local que se passa. Em duas semanas viajei muito, além do tour Biscate, tive festival de teatro. E quando fui viajar para o festival fui com coração cheio de uma paixão inesperada e muito calma. De uma beleza única, que aconteceu rápido e forte. Voltei desse festival com a cabeça confusa, jurava comigo que não estava apaixonada, mas eu tinha apaixonado, apaixonei e a paixão antiga não foi embora, se manteve.

Tava confusa, achei que Beagá me faria sair dessa confusão, achava que longe descobriria de quem eu mais gostava. Descobri que estava tão apaixonada por umx quanto por outrx, no fim me apareceu um terceiro sentimento. Independente disso, saí de lá com nova visão de tudo que está acontecendo. Eu posso estar apaixonada por quantas pessoas eu quiser. Saí de Beagá apaixonada, um sentimento que sem eu procurar apareceu a primeira vista e só cresceu no passar dos dias. O melhor desse sentimento foi que eu não me cobrei futuro, não planejei nada, se for continuar é leve, sem medo e com calma, como desejo que seja com tudo que tenho sentido.

Eu posso querer de formas diferentes pessoas diferentes. Saí de Beagá entendendo que não se apaixonar por uma única pessoa não me faz menos feliz. Cabe apenas a mim decidir me entregar a umx ou a todxs. Sou corajosa o bastante pra peitar isso de verdade, mesmo sabendo que o medo anda multiplicado por 3, a insegurança também, sou mulher de enfrentar e aproveitar tudo de bom que possa vir.

Me acostumei tanto a viver para uma pessoa, planejar minha vida e meu futuro com esse alguém ao lado, é a priimeira vez que tento não planejar nada, só viver. Claro que eu quero um futuro, mas quero descompromissado e divertido. Seja o que for que vá acontecer, que seja bom e sem planejamentos. Estou no clima de deixar rolar, já planejei demais e sofri ao ver planos que não aconteceram, vamos tentar de outro jeito, vai que funciona! ;)

Rainha Lilith

Lilith

Rainha Lilith, seu nome vem da criação do mundo cristão, a mulher que deus fez em igualdade com o homem e não aceitou ser submissa a Adão. Seu trabalho um tanto quanto polêmico, prostituta, mas não da forma que estamos acostumadas a ver por aí. Ela não faz qualquer sexo por dinheiro, ela trabalha com inversão e tortura, uma dominatrix. Aí começa minha dúvida, antes de conhecê-la via a profissão como algo que subjuga a mulher, fazendo-a menor e inferior aos homens que a pagam, mas, nessa história, vejo uma relação de homens inseguros, sem coragem de se mostrar como são realmente. Seus desejos são errados ao olhar de suas companheiras, como é difícil falar de sexo abertamente hoje em dia. O que sei é que a prostituição ainda é um assunto muito complexo, uma bandeira que não sei se levanto é pela profissionalização, mas há necessidade de se falar de segurança, de como essas mulheres são tratadas por seus cafetões. Vamos ler as histórias da Rainha Lilith, essas histórias nos fazem rever o clichê da prostituta, repensar em muitos preconceitos jogados nessa profissão. Ela conta que começou a fazer inversão para ganhar dinheiro por falta de grana, já gostava de inversão e sadismo no sexo, então decidiu usar disso para ganhar dinheiro. “Um dia, encontrando um cara que conheci na internet, contei que andava sem emprego, no final do sexo, o cara me deu um dinheiro de presente. Me perguntei se pessoas pagariam para esse tipo de serviço.” Ela trabalhou por pouco tempo com cafetão, por mais ou menos 6 meses, o cafetão era um safado, de acordo com Lilith, o dinheiro cresceu os olhos do cafetão, querendo que ela trabalhasse como louca, sem descanso, horário para almoço, atendendo mais de 5 clientes por dia. “Pode não parecer, pois não ‘dava’ para ninguém, mas me cansava muito, então não podia atender tantos clientes quanto ele desejava.” Mas como ela era a única dominatrix de Juiz de Fora, o cafetão queria conseguir o máximo possível de dinheiro com ela, muita procura e muito dinheiro em jogo. Dinheiro de vereadores, juízes, médicos, pessoas públicas e conhecidas na cidade, ela atendia pessoas vistas como acima de qualquer suspeita, pessoas que nunca a população imaginaria que procure esse tipo de serviço. A procura vinha graças a casamentos tradicionais com mulheres que não entenderiam seus desejos como apenas uma forma alternativa de prazer. Muitos clientes inclusive conversavam no final da sessão sobre a vida, conselhos e inseguranças, procuravam além da inversão a comunicação, não ter conversa com suas esposas também era frustrante. Apesar de existir o clichê de que prostitutas usam drogas, ela nunca usou drogas, conheceu muitas outras prostitutas que não usavam, mulheres que nem fumar cigarro fumavam. Então é necessário falar que não são todas mulheres perdidas em vícios, alimentando esse vício com dinheiro de prostituição. Lilith fala que essa ligação é um preconceito, muitas mulheres tem a prostituição como um emprego, igual ser manicure, diarista ou qualquer outra profissão. Queria deixar aberto esse espaço para diálogo entre a Rainha Lilith e xs leitorxs do BSC, assim como eu, sei que todo mundo tem a curiosidade de entender a realidade da prostituição, falada por quem realmente vivencia toda essa realidade. Estaremos disponíveis a responder perguntas sempre que possível via comentário e pelo meu e-mail.

Quando perco o equilíbrio!

Amanhã é um dia importante para pessoas que lutam contra a pedofilia! Esse assunto me tira de.órbita, me faz perder o equilíbrio. Sou uma mulher sexualmente ativa, feliz, mas fui uma criança vítima do abuso sexual. Fui também uma adolescente vítima do abuso, cantadas, passadas de mão. Mas, meu trauma vem de infância, desse primeiro abuso, numa idade tão inocente, onde nada deveria me fazer mal, onde deveria ser protegida. Proteção essa negada por uma das pessoas que deveria fazê-lo para proteger o abusador das acusações!

http://www.comitenacional.org.br/o-que-e-18-maio-000.php

http://www.comitenacional.org.br/o-que-e-18-maio-000.php

Essa semana discuti com os colegas de trabalho, chefe, uma psicóloga e advogado sobre o ECA, maioridade penal e violência sexual contra crianças e adolescentes. No momento em que falavam sobre violência sexual infantil, sobre a vítimas e x abusadorxs eu me encolhia, bambeavam as pernas, via tudo tremido. Como profissional, eu fiquei, fui mais forte, mas o assunto me faz mal, sou frágil a essa sensação de dor alheia, pois se assemelha a minha.

Apesar da vida ativa de Biscate sexual e politicamente, tenho traumas que nunca entendi mas são desencadeados pelo abuso na infância. Tenho um certo incômodo com visualizar sexo, filmes pornográficos, em sua maioria, me brocham, a voz muito próxima ao timbre da voz do abusador me incomoda. E o pior dos traumas, não consigo falar sobre o acontecido com a parte da família que fingiu que nada ocorreu. Demorei para perdoar esse grupo de pessoas, como um ser humano passível de erros, eu comecei a minha jornada de perdão.

O curioso é que eu me sinto menos mal com o fato do abuso do que com o fato desse abuso ter sido encoberto por pessoas que deveriam me amar. Não pergunte o motivo, só sei que passei muito tempo lutando contra a ideia autodestrutiva que não era digna de ser amada, que meu abusador merecia mais ser amado que eu.

Fui uma adolescente incomodada com o amor, demorei a amar. Sentia que se me liberasse para amar seria abandonada, preterida a qualquer outrx indivídux, não tinha valor para mim mesma, era o lixo do lixo! Como acreditar no amor se eu mesma não sabia me amar?

Foi com análise, arte, amor e muita vontade de amadurecer que aprendi que não era a culpada disso tudo. Aceitando a realidade, de que uma pessoa sou admirável, mas que, infelizmente, tenho alguns familiares machistas! Vivi por anos muito bem, até quase passar por isso novamente. Sim, passei pela tentativa de abuso sexual de um parceiro, que não viu, em momento algum, motivos para eu chorar, para eu pedir para que ele parasse. Eu estava distorcendo o amor dele, vendo tudo errado! Esse indivíduo, na minha opinião, tinha características de pedófilo, por histórias que me contou. Complicado saber quando um homem não vê diferença de idade como impedimento ou quando sua atracão por mulheres mais novas beira a pedofilia. Sem contar a possessividade, controle da vida de sua parceira, como se você fosse um cachorrinho preso em um canil. Incapaz de compreender o coração, a opinião e a decisão de sua parceira. Qual o motivo de ficar com uma pessoa assim? Fraqueza, talvez. Fui fraca, não reparei nos detalhes? Sei lá. O que sei é que meu corpo viu de novo aquele filme passar na frente dos meus olhos, enxergava ambos abusadores tão parecidos ao olhar seus rostos e eram fisicamente tipos opostos!

Estou convivendo, sobrevivendo com os traumas, que me fazem me sentir cada dia mais forte! Abuso sexual na infância, abuso sexual de um parceiro e assédio sexual, fantasmas meus que estou exorcizando. Acho válido falar disso por aqui, mesmo sendo um Blog divertido e irreverente! Nunca é demais falar sobre esse tipo de trauma!

Crianças: elxs estão mais preparadxs que nós!

Capa do livro Toda Forma de Amor

Capa do livro Toda Forma de Amor

Essa semana falei com minhas crianças e adolescentes sobre o casamento de pessoas do mesmo gênero. Utilizei um livro ótimo, feito pela lei de Incentivo a Cultura daqui de Juiz de Fora, chamado Toda Forma de Amor. Com a turma mais nova, falei sobre todos os tipos de família e que a única coisa que não pode faltar numa família é o amor, podem ter um ou 2 pais, uma ou 2 mães, ser feita só de tios, tias, avós, avos. Com a turma intermediária e de adolescentes falei sobre homossexualidade, respeito, amor e preconceito.

O que me surpreendeu foi a aceitação, a maioria dos adolescentes aceitaram bem, vi que meus adolescentes estão muito pra frente, da melhor forma possível dessa expressão! Ouvir que “cada pessoa merece o direito de ser feliz com quem quiser, porque se preocupar com a vida alheia se ela não me atrapalha?” é revigorante! Ver um dos meus alunos falar que fez um colega ir pedir desculpas para o cara homossexual que xingou.

O que me deixou mais feliz foi que essa maturidade veio de onde e de quem eu menos esperava! Os meninos que eu achava mais crianças, que ano passado estavam em um momento de deboche excessivo, foram justamente eles que mostraram a maior maturidade. A melhor coisa do mundo é ver crescimento nas minhas crianças e adolescentes, são quase adultxs! E tem gente que acha que “só são adultxs na hora da pegação”, “que só sabem fazer movimentos de funk com conotação sexual” (como se isso fosse ruim… Affe!)

Pois é meus amigos e minhas amigas, essas crianças estão muito mais preparadas pras mudanças que muitxs de nós! E eu me sinto orgulhosa de saber que faço parte dessa mudança, finalmente entendi o que é fazer a diferença! Difícil sempre será, mas me sinto recompensada, como se conseguisse enxergar esperança, luz no fim do túnel! Acredito que estamos caminhando em direção a um futuro sem intolerância e sem preconceito. Um futuro bem feliz e colorido!

Mudança, chocolate, amizades e muito rum!

Estou em um período de mudança, fechou um ciclo da minha vida. Um ciclo marcado por ceticismo, inconstância, medo e coisas que me assombravam me rondando. Assédio, desconfiança, depressão e insônia e eu tentando me mostrar uma muralha forte, um porto seguro, não incomodava ninguém com os meus problemas. A pior dor é a dor da solidão que nós mesmxs escolhemos e causamos. O medo de sofrer, nos afasta do mundo real, “gato escaldado tem medo” de todo mundo à sua volta! Me proibi de amar e confiar no fim desse ciclo e, desde o início desse ciclo, me proibi de crer.

Fui cética do mundo, da bondade, de Deus, de pessoas que merecem a minha confiança. Tive uma melhora significativa e depois piorei. Euforia demais após um momento de extrema depressão pode nos matar por dentro, se for seguida de decepção aí é que mata mesmo! Amigxs decepcionam, familiares também, o mundo todo nos machuca, seu coração te decepciona todos os dias.

Mas, um dia, um golpe do destino, uma irmã passando no mestrado com um projeto digno de orgulho, um ovo de páscoa de quem menos esperamos e casa nova nascendo regada a rum e, agora, protegida por cristais, quando você nota, pessoas que precisam de você e estão por perto quando você mais precisa vem e complementam sua família, te agregam a família delxs. Você vira mãe, irmã, companheira, melhor amiga, você vira você! Você tem ombro para chorar, você dá seu ombro para que chorem. Você cresce,você volta a acreditar nas pessoas, em Deusxs, numa força que modifica você e o mundo a sua volta. Você volta ao normal, sem excessos, sem euforia e sem depressão, só você de antes, de sempre, aquela Sara conhecida pelo otimismo, o copo sempre esteve meio cheio e eu nem notei!

Agora vou construir devagar meu alicerce, sem exagero, pois eu sei melhor que ninguém que construir tudo rápido e na euforia só faz desmoronar na primeira brisa.

mudança

Rum, felicidade, amigxs!

De Sexo Não Pode!

Todos os dias, meu facebook é bombardeado por piadinhas machistas, racistas, que fazem graça da situação financeira e social de pessoas menos favorecidas e homofóbicas. Um amigo meu me mostrou uma quadrinista muito promissora, que fala abertamente sobre sexo. Aí, quando menos se espera, tem uma pessoa, uma pessoinha que decide fazer o que muitas pessoas puritanas fazem reclamar de uma página de quadrinhos, dizendo que ela faz apologia ao erotismo e não é adequada ao facebook. O que não é adequado ao facebook? Sexo? Ofensas, maus tratos, preconceito é adequado, sexo puro e divertido não é? Realmente me indignou ver isso acontecer!

Ótima tirinha falando de como mulher não gosta de homem com dinheiro!

Ótima tirinha falando de como mulher não gosta de homem com dinheiro!

Eu sempre fui da seguinte filosofia: se eu não gosto e não me ofende, eu não leio. Até onde eu sei, sexo não ofende a ninguém (sexo é tudo que é feito com consentimento de ambos os lados). Falar de forma pejorativa de seres humanos por causa de atitudes, orientação sexual, gênero,cor de pele, roupa que usa ou por gostar excessivamente de sexo, isso sim ofende. Esse post de hoje é mais um post de desabafo, um post de pedido de apoio pra Bianca, compartilhamento em massa, comentários nas redes sociais. Se tem puritano que não aguenta a liberdade do outro, vai ter que engolir a liberdade a seco, goela abaixo!!!!!!

Um dia o Tesão fugiu e foi o melhor dia da minha vida!

Um dia o Tesão fugiu e foi o melhor dia da minha vida!

Em um mês em que assisti minhas meninas falarem com voz sobre discriminação durante rodas de conversa, que plantei uma sementinha de mudança na cabecinha dos meus meninos, também nesse mês onde vemos algo tão ruim se transformar em uma comoção geral, esse mês é mês de luta (não que os outros 11 meses do ano não sejam!), é mês de fazer valer nossos direitos, de escolher como, com quem, com quantxs, onde e em qual posição vamos gozar. Sexo é liberdade, gente! Não é só quando é sexo feito de forma forçada, é também quando é sexo proibido, guardado a sete chaves, enrustido, não feito por moralismo! Violência sexual tá em qualquer atitude que nos força a fazer o que não desejamos, pra mais ou pra menos.

Na corda bamba!

O post de hoje fala sobre minha vida de Biscate-equilibrista. Ando na corda bamba desde que o assunto em meus planejamentos se transformaram em Dia 8 de março. Como explicar que não quero fazer flores de artesanato para presentear as mulheres? Então estou tentando ser o máximo política, pode poesia, pode flor, mas a poesia passa pelo meu crivo e a flor vem com uma mensagem de luta colada em seu caule.

Sou chata? De acordo com meus alunos adolescentes eu sou! De acordo com minhas alunas adolescentes eu sou justa e correta! É incrível ver como ainda vemos educadores resistentes. Enquanto as educadoras dão ideias para mostrar que a luta vale a pena, os educadores falam de florzinha e bombom. Enquanto minhas alunas falam de divisão de tarefas, meus alunos falam que mulher só serve pra cozinhar!

Porque é tão difícil sair do lugar confortável de homem machista para alguns homens? Seria tão melhor e mais simples a vida se todxs lutassem pela liberdade… Como abrir a mente de pessoas conformadas? Preciso de muita força de vontade e amor a minha profissão para continuar tentando modificá-los.

Sei que ser educadora e feminista é ser a Biscate da corda bamba, como na música do Bêbado e o Equilibrista, o show tem que continuar, eu não posso nem pensar em parar. E assim continuo o meu caminho na corda bamba, equilibrando as obrigações do serviço de lembrancinhas com as mensagens que falam de nunca deixar delutar, de manifestação pacífica (afinal, sou pacifista) e conhecimento de como se defender e ser independente!

corda-bamba

Ah, o funk!

Já tem um tempo que as pessoas em minha timeline tem atacado sem dó nem piedade o funk, fazendo comparações com outros estilos musicais, principalmente o rock. Sou rockeira, por muito tempo me recusava a ouvir funk, pagode, axé. Sim, eu tinha essa atitude preconceituosa e me achava super culta de falar mal de músicas que não me pareciam inteligentes. Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes eram músicas brasileiras dignas de se ouvir. Ouvia rock e pop internacional mas nem olhava para o pop nacional ou para o rock nacional pós anos 90.

Grande sensação da música POP para as minhas alunas MC Beyoncé

Grande sensação da música POP para as minhas alunas: MC Beyoncé

Precisei conviver com adolescentes para rever esse meu conceito, eu adorava Walesca Popozuda por ser um ícone, não por cantar funk. Com a convivência com meus alunxs adolescentes, conheci Naldo, MC Koringa, MC Beyoncé. Por algum motivo eu fiquei apaixonada pelas músicas da Beyoncé e do Koringa, vou à academia pra fazer aula de Jump só porque o professor coloca MC Koringa, uma a duas músicas por aula! Sim, agora eu amo Funk!

Gosto de como o Naldo fala da sexualidade, com naturalidade, um sexo de verdade, entre duas pessoas que se gostam. Acaba com o clichê que música romântica é sempre feita para mulheres virginais. Ele fala de romance, de amor, de sexo. O machismo nos faz acreditar que falar da sexualidade de uma mulher a denigre, o que vemos são mulheres que fingem não ter sexualidade, não usam decote, não usam short curtinho, não rebolam até o chão, não fazem sexo casual. Essas coisas diminuem a mulher, transformando-a em biscate, galinha, vadia, puta! É aí que o Naldo, casado com uma dançarina, que fala da vida sexual dele em suas músicas românticas, entra. Ele não fala da amante, ele fala da mulher da vida dele. A mulher que faz sexo gostoso pode e deve amar e ser amada, quebra de preconceito total!

Claro que existem músicas tipicamente machistas no funk, como existe no rock, no pop e no pagode. Até na antiga MPB existiam cantores machistas, que denigriam a imagem da mulher como indivíduo. Pra mim denigrir a imagem da mulher está muito além de falar explicitamente de sexo, falar de submissão é denigrir a imagem da mulher, pra mim. Falar de estupro, de proibição, forçar uma imagem que transforme mulheres em objetos dos homens, isso sim é denigrir a mulher. Fazer sexo e rebolar até o chão não denigre ninguém!

Robin

*cuidado: esse post pode conter spoilers*

O seriado How I Met Your Mother tem uma personagem com quem eu me identifico, a Robin. Uma mulher que corre atrás de sua carreira, colocando-a em frente de planos como filh@s e casamento. O interessante é ver como ela se opõe a outra protagonista do seriado, Lilly. Enquanto temos dois homens que sonham com casamento e filh@s para um homem que não quer saber de relacionamento sério, só curtição, temos uma mulher de cada tipo. Ou seja, temos mais homens “família” no seriado que mulheres “família”.

Barney e Robin

Barney e Robin – Fonte IMDB

Outro fato interessante é ver que, enquanto a situação do personagem Barney é um chiste, Robin é vista de forma séria. Inclusive em um episódio da sétima temporada, ela descobre que realmente não pode ter filh@s e começa a se questionar qual diferença entre não querer e não poder. (Mas isso é um outro assunto, qualquer impossibilidade de escolha nos incomoda.)

Mas o que mais faz eu me identificar com ela é o fato dela priorizar sua profissão, sempre senti falta de ver personagens que não se derretem por anéis de noivado. Que não querem mesmo ter filh@s e que desistem de um relacionamento amoroso com alguém como o Ted pois sabe que ele vai se magoar com ela por ela querer só curtir a relação, sem planos e sem pressão. Também foi surpreendente quando ela desistiu do namoro com o Barney pois viu o quanto estava frustrada e como ela se transformou em alguém infeliz e mau humorada, graças a estar sufocada no relacionamento.

E gostos dela por bebidas, esportes e armas a faz uma bela contradição ambulante, como eu. Não, eu não gosto de esportes ou armas. Mas sou entusiasta de lutas e acho que rotular coisas como “de mulheres” ou “de homens” ridículo, no seriado vemos a Robin e o Ted como opostos, ela é bruta e ele delicado. Mas, sua contradição é sua aparência inicialmente delicada com sua personalidade forte. Como acontece comigo, aparento o que não sou realmente.

Porque falar dela? Decidi falar de uma das poucas personagens mulheres que admiro (além dela, também admiro a Olivia Benson do Law & Order SVU) nos seriados americanos. Acho que deveria existir mais personagens femininas desse estilo nos seriados de TV americana, nas novelas brasileiras e nos filmes. Sinto muita falta de enxergar menos generalização na personalidade feminina. É por isso que ando tão entusiasmada com a novela das 6h, Lado a Lado, que está mostrando mulheres diferentes do tipinho de sempre, mas esse é assunto pra outro post. Por hoje recomendo que assistam How I Met Your Mother e vejam que, apesar de algumas falhas que eu enxergo, é um seriado bem estruturado e que não mantém um clichê de homens sempre fogem de casamentos e mulheres sempre se desesperam por um anel de noivado. A prova disso é o protagonista ser um homem que passa sua juventude toda em busca de uma futura esposa e mãe para seus filh@s.

Antropofagia – ou: “Tudo anda tão diferente por aqui…”

Por aqui, por ali e por todos os lugares que passo e passei desde quando me tornei Biscate! Ultimamente vejo o mundo com novo olhar, olhar amplo e passível de mudança. Algo que meu Eu-não-Biscate nunca tinha feito, mudar e questionar suas visões de mundo.

Houve uma época em que, na faculdadeo, tinha total ódio ao senso comum, tão falado na academia como algo 100% nocivo ao pensador que deve questioná-lo sempre. Nessa época eu era cabeça dura demais para ver defeitos para o pensamento “acadêmico”. Mas quem questiona o acadêmico que também é criador de preconceitos e clichês?

Abaporu de Tarsila Amaral - Trecho do Manifesto Antropófago – Oswald de Andrade “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.”

Abaporu de Tarsila Amaral – Trecho do Manifesto Antropófago – Oswald de Andrade “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.”

Foi quando conheci pessoas plurais ao meu mundinho superior de pessoa que não assiste novela e reality show; que não ouve música do gosto popular, que não pula atrás do trio eléctrico; que ignora a própria saúde e não pratica exercícios físicos pois o intelecto é a única coisa que importa; e que ignora culturas religiosas de seus ancestrais. Nesse momento entendi como era preconceituosa e cheia de certezas vazias. Entendi que não só poderia como deveria absorver conhecimentos de todas as pessoas a minha volta sem julgá-las, assim como pessoas que eram doutoras e mestras se interessavam por minhas opiniões, sem me julgar inferior.

Me dei conta do quanto eu precisava aprender e esses aprendizados não estavam apenas em livros, monografias, teses e artigos científicos. Eu precisava aprender sobre gente com quem é gente também! Gente que tem doutorado. Gente que não sabe escrever seu próprio nome mas conhece contos e histórias do folclore, que tem receita do melhor xarope pra dor de garganta que eu já tomei, ou que conhece tão bem de cultura negra, capoeira e da vida de heróis que começaram a luta por igualdade entre brancxs e negrxs que coloca muito historiadorx no chinelo.

E com isso aprendi que achamos racismo, machismo e homofobia dentro do ambiente acadêmico, da mesma forma que cantoras de funk podem ser feministas e que numa família quem vai receber com mais carinho e respeito x seu (sua) parceirx homossexual é o seu avô de 80 anos de idade.

É vivendo e convivendo com a diferença que aprendo, aprender não é absorver tudo como esponja. Devemos engolir e digerir tudo a nossa volta, o que servir fica na gente, o que não servir a gente joga fora!

Biscate desde sempre!

#AlmaBiscate
Por Sara Joker

Quando li pela primeira vez o Blog em 2011 quis postar nele, me reconheci em cada texto que lia. Meu primeiro post aqui foi comemorado, divulgado, compartilhado ao exagero. Sou uma Biscate que gosta de mostrar a todo mundo a minha felicidade!

Mas, minha biscatagi vem de muito tempo atrás, quando eu era adolescente. Sempre fui questionadora, mamãe diz que brigava com meus primos pra ter os mesmos direitos que eles. Quantas vezes dava crise com eles só pra poder sair pra paquerar a vontade? E sempre falei no colégio que não existe profissões tipicamente femininas ou masculinas. Não era presa a amores eternos, não sonhava com príncipes encantados (sempre preferi os sapos, eram mais interessantes). Voltando a falar de mamãe, ela dizia que eu me apaixonava a cada semana por um cara diferente, e era verdade! Paixões avassaladoras, como as de novela, mas que só duravam 1 semana, tudo muito intenso, muita dor, muita felicidade, muito riso e muito choro. Passou a semana e, adivinha só? Tinha outro menino (ou menina) na minha cabeça.

Aos 18 anos, época de cursinho, correria, arrumei um “namoradinho” de 15 anos (mamãe sempre me chamou de “papa-anjo”). Como sou Biscate, assumi o papel que a sociedade entrega pro homem da relação. Levava a porta do colégio, ia a casa dele conhecer a família, levava pra sair e, claro, eu que tentava avançar o sinal durante os beijos! Não me lembro o motivo pra terminarmos, mas lembro que sofri exatamente duas semanas! Lembro de ciúme excessivo da minha parte e um equilíbrio excepcional da parte dele.

Nesse momento passei por uma fase de trevas na minha vida Biscate, meu primeiro relacionamento adulto (foi quando eu finalmente amadureci pra me comprometer sem deixar de gostar na semana seguinte). O relacionamento mais traumatizante na minha vida. Quando saí dele, aí me afirmei Biscate adulta! Essa fase de transição entre Biscatagi adolescente e Biscatagi adulta não houve Biscatagi, só sofrimento, conto isso muito bem nesse post aqui. Depois desse relacionamento, nunca mais fui a mesma, revi muitas coisas em minha vida, minha forma de me tratar, de tratar a outra pessoa ao meu lado, de como me impor como indivíduo de vontades. Acho que o que me fez não me impor foi o medo de nunca mais amar. Afinal, demorei tanto pra amar que, quando amei pela primeira vez acreditei que fosse a única vez que amaria na vida. Mal sabia eu que ainda amaria muito depois20121219-234504.jpg disso. Pessoas muito melhores e que compreendiam mais que ele.

O sexo pra mim sempre foi coisa fácil de lidar, sou dessas que não se apaixona quando tem uma noite com um@ amig@ ou uma pessoa que conheço a pouco. Amor e paixão são coisas muito diferentes entre si e do sexo. Fazer sexo sem compromisso nunca foi um problema pra mim desde meu início de vida sexual. Isso assustava os meninos a minha volta, o curioso é que não assustava as mulheres com quem convivi. Me relacionei com poucas mulheres, nunca namorei uma mulher, talvez por ter me apaixonado apenas uma vez por uma mulher e não fui correspondida. Defini que desejo era algo que sentia sempre e nem sempre por uma pessoa que eu poderia admirar, paixão era o que sentia na adolescência, que durava uma semana e amor era algo duradouro, que aparecia vindo de uma amizade com desejo ou de uma paixão que consegui fazer durar mais que uma semana.

Na idade adulta, voltei a minha vida de Biscate, conheci a militância feminista através de uma comunidade de Orkut que militava pela legalização do aborto. Mas, só conheci algumas de minhas colegas de blog graças as minhas andanças pela internet quando militava por meus direitos de bissexual assumida, uma coisa levou a outra e conheci o Blogueiras Feministas em 2010. Como não amar essa vida de Biscate atuante?

Um pequeno desabafo

Imagem de divulgação do fiilme Terra Fria com Charlize Theron

Imagem de divulgação do fiilme Terra Fria com Charlize Theron

Aprendi com o tempo que ser Biscate me faz não viver como muitas mulheres vivem: Sempre com medo. Você toma coragem e enfrenta o assédio sexual na rua, no trabalho, na faculdade. Mas, enfrentar o assédio não nos salva completamente dos assediadores, alguns são reincidentes e continuam importunando, outros acreditam que você os desrespeitou ao enfrentar o assédio e aí começam a te maltratar, são grosseiros com você.

Trabalhar com um assediador é terrível, ainda mais se você tem atitude de Biscate e o enfrenta. Estou passando por isso, meu assediador decidiu criar picuinhas no ambiente de trabalho, fazer o possível e o impossível para me deixar desconfortável no local de trabalho. Tudo porque enfrentei de frente o assédio, porque denunciei o assédio. Como reagir a isso? É meu primeiro emprego na minha área e também é a priimeira vez em que sofro assédio sexual no trabalho. Preciso de força, de coragem pois a cada dia ele piora a relação. Sou fria, tenho gelo e não sangue nas veias, o trato educadamente e (por mais que me incomode) falsamente, agindo como se não entendesse os foras e as grosserias dele. O corto educadamente quando me trata mal, mas minha vontade é de falar “tá com raiva porque você me cantou e eu não quis? Tenho uma novidade, não sou objeto, só fico com quem eu quero e eu NUNCA vou te querer!” Essa semana eu quase estourei, foi por um triz, estou tentando agir de forma seca e firme, já que eu sei que fiz o certo até agora.

Não considero que todo homem que fala que se interessa por mim é assediador, mas eu não aceito ser tocada, ser olhada de forma incomoda. Eu educo meus alunos para nunca agirem assim, vou engolir isso de homem adulto? Existe diiferença entre assédo sexual e se aproximar e demonstrar interesse, ninguém precisa encostar pra demonstrar interesse. Ser Biscate é dar pra quem a gente quer, não é dar pra qualquer um@! É a escolha da Biscate dar pra um@, vári@s ou pra tod@s!

Hoje eu precisava desabafar isso, não há como continuar com esse incomodo entalado na garganta!

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