Mãe

Meu post hoje fala do grande amor da minha vida. A mulher que sempre esteve ao meu lado e que tenho toda certeza que continuará ao meu lado a vida toda dela (ou a minha). Falo da minha mãe. Minha mãe é o meu maior exemplo de mulher, sempre falo que quero ter a mesma fibra que ela teve toda a sua vida!

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Tattoo que fiz em 2010 em homenagem a ela.

Lembro como se fosse ontem, quando minha mãe se divorciou, que foi com a cara e a coragem morar sozinha, com duas filhas crianças. Mesmo sabendo que sua família não era muito de acordo, ela foi em busca de sua felicidade, que já não era mais ao lado de meu pai. Minha mãe trabalhava tanto! Por um certo tempo, ela foi mãe e pai, até conhecer meu padrasto, um homem que apoiou e esteve ao lado dela em todas as suas lutas diárias.

Foi nesse casamento que compreendi o valor do companheirismo, da amizade e da divisão de tarefas entre um casal! Meu padrasto sempre cuidou e muito bem da gente, enquanto minha mãe trabalhava e fazia faculdade, meu padrasto apenas trabalhava, então, presenciei várias cenas incomuns na década de 90: Meu padrasto cozinhava, colocava a gente pra dormir, levava a gente para passear todos os fins de semana que minha mãe precisava de paz para estudar. Foi nesse núcleo familiar que aprendi a ser feminista. E foi vendo minha mãe vivendo como profissional, escolhendo realizar seus sonhos, sempre olhando como a preocupação, o cuidado e o amor desse casal era provado a cada dia que minha mãe chegava tarde da faculdade e estávamos na cama dormindo, de barriga cheia e felizes.

Lia, eu e minha mãe no último natal

Lia, eu e minha mãe no último natal

Foi também com a minha mãe que aprendi a ser e me assumir negra. Sou filha de pai negro e mãe branca, na minha casa não tinha “alisar cabelo das meninas!”, teve quando foi de nosso desejo, na adolescência, e meio que a contragosto da minha mãe. Foi naquele núcleo familiar que ouvi, pela primeira vez, quando sofri bullying, que era linda, que minha cor e meu cabelo eram bonitos e que não deveria nunca pensar diferente! Foi com a minha mãe que aprendi a me impor, não deixar racismo nenhum me diminuir! De quantas lojas nós já saímos de cabeça erguida? Se mexesse com filha dela, mexia com ela! Quer ser racista? Não espere que a gente aceite!

Essa mesma mulher nunca se se sentiu envergonhada de nenhuma atitude minha, debate comigo e com minha irmã sobre racismo, homofobia, machismo, planos profissionais. Se ela ou eu temos alguns preconceitos enraizados, não é por conformismo, é por ainda estarmos todas nós (as 3) em desconstrução. Mas fico sempre feliz ao ver minha mãe, uma mulher branca, heterossexual, de família católica e nascida na década de 60 falar com mais naturalidade que muita gente de 20 e poucos anos sobre assuntos que, na época dela, eram tabus, era feio, era errado. Com ela eu aprendi a afirmar meus direitos, todos os dias.

Amanhã, essa mulher maravilhosa faz 54 anos, queria falar que me sinto feliz todos os dias por ser sua filha, por aprender com ela tantas coisas! Tenho muita sorte, noto isso todas as vezes que vejo que posso contar com ela, que ela me compreende, me apoia e, as vezes, me dá umas broncas também, coisas de mãe preocupada. Feliz aniversário, minha melhor amiga!

Annie Walker

Eu vivo assistindo seriados, acabo me apaixonando por alguns em especial. A menina dos meus olhos de agora é o seriado Covert Affairs. O motivo, bem, sempre fui louca por séries policiais e por enredos que trabalhassem com FBI e a CIA, com agentes infiltrados. Mas, sempre faltou uma personagem forte, que não fosse frágil e secundária, que fosse uma protagonista a altura. A agente Annie Walker (Piper Perabo) fez eu me identificar com ela.

Annie Walker

Annie Walker

Uma mulher inteligente, com seus vinte e poucos anos, que tem um emprego “masculino”, agente da CIA que trabalha em campo, sem parceiro para ajudar. Sei que é uma realidade longe da minha, ou de muitas outras mulheres, mas me sinto feliz ao ver uma mulher na posição de protagonista em uma série desse tipo. Todas as outras séries atuais com personagens mulheres que são agentes têm uma fragilidade, têm parceiros, não vejo uma protagonista tão forte e presente quanto ela desde o seriado Cold Case.

Annie é uma mulher inteligente, vive na casa de hóspedes de sua irmã, trabalha como agente secreta, então sua família não sabe. Todos acreditam que ela é curadora de um Museu. Interessante que sempre que assisto lembro do 007, uma agente secreta que trabalha sozinha.

Annie, sua chefe, Joan  e Auggie, seu colega de trabalho.

Annie, sua chefe, Joan e Auggie.

Sua irmã se preocupa por ela trabalhar demais e não conhecer caras interessantes: mal sabe ela que Annie tem vários casos rápidos, afinal, são em suas missões. Diferente de sua irmã, ela é mais solitária. O que, na série, não é melhor nem pior que ser casada e mãe, só é diferente. E a escolha de uma não atrapalha a vida da outra, são companheiras e irmãs.

Além de Annie e sua irmã temos muitas personagens femininas: sua chefe, Joan Campbell, também é uma personagem interessante, uma chefe um tanto quanto mandona, mas no fim das contas, ela age assim para reforçar que ela não é apenas “esposa do seu chefe”. São personagens mais profundas e muito maiores que mulheres indefesas de séries comuns. Na verdade, todxs xs personagens da trama são complexxs. Por isso gosto tanto de Covert Affairs. Estou cada dia mais apaixonada pela série.

Se eu for embora?

Now there’s gravel in our voices
Glass is shattered from the fight
In this tug of war, you’ll always win
Even when I’m right
‘Cause you feed me fables from your hand
With violent words and empty threats
And it’s sick that all these battles

                                                          Rihanna – Love The Way You Lie

Aprendi, com um relacionamento meu e com alguns relacionamentos de conhecidas minhas, que certos homens não sabem lidar com a separação tão bem. Não estou falando do medo de perder, nem da fossa, nem da tristeza ou da vontade de se afastar para não sofrer que muitos homens e muitas mulheres sentem; falo daquela sensação machista que muitos homens têm de que SUAS (pronome possessivo) companheiras são posse e só podem ir quando eles desejam uma nova namorada/esposa/noiva.
Eu sofri com isso no meu primeiro namoro, onde eu sofria humilhação, era maltratada, mas não podia deixá-lo, afinal, ELE escolhia quando iria me abandonar. Quando decidi ir embora, fui com medo, fui perseguida, perdi minha paz. Falo por mim, eu consegui tomar a decisão de ir embora. Largar de um homem assim é difícil, algumas querem mas não conseguem. Têm filhxs, trabalham junto com ele, as ameaças de ¨tirar xs filhxs¨ou de ¨destruir sua profissão¨.
A violência, em muitos casos, não é física, então não é fácil de enxergar, se estamos de fora, alguns homens parecem homens acima de qualquer suspeita, companheiros, que apoiam o emprego de suas companheiras. Muitos são “perfeitos cavalheiros”, quando a companheira decide brigar, gritar e mandá-lo embora, aparecem com presentes, cartões carinhosos, mensagens no ZapZap, pedindo pra voltar, que não vivem sem elas. Exato, não vivem, então preferem morrer e matar a viver sem ela, ou ela viver com outro!

Vá embora!

Vá embora!

Me assusta muito isso, me pergunto como estive com uma pessoa tão doentia no passado. Vejo mulheres que passaram por isso, independente de lutas por direitos das mulheres, quando é com a gente, o buraco é mais embaixo. Dói, nos sentimos culpadas pelos acessos de raiva, pela brutalidade. O medo só cresce, a vergonha de “causar” isso em um homem também cresce. Mas, entendam, minhas queridas, a culpa não é nossa. Somos vítimas, vítimas de seres com uma doença social chamada machismo.
Ninguém é obrigadx a ficar com ninguém, somos livres para ir e vir. Amar e estar junto é ser companheirx sem cobrar a presença eterna dx outrx em sua vida. Amar é deixar ir quando x outrx quiser ir, por mais que doa, por mais que machuque a falta, sabemos que é uma dor que passa, uma falta que pode ser preenchida por outra pessoa. Sem perseguição, sem medo de ir embora. Que seja bom, que você lembre com carinho do passado, não que se pense no alívio de partir!

Profissional

Sempre fui o tipo de profissional impecável em todos os empregos (poucos) que tive, é um dos ensinamentos que minha mãe me passou. Mas, pra mim, existe diferença entre ser uma profissional de respeito e se prender para se adaptar a um perfil “aceitável”. E foi assim que decidi assumir minha orientação sexual entre colegas de trabalho…policia-civil-mulher-370x290
Não é sobre isso que queria falar, mas passa por aí! Tem rolado por aqui, em Juiz de Fora, um vídeo de uma policial civil transando com seu marido e alguns outros homens. O que isso me diz respeito? Nada, na verdade, pra mim, é indiferente o que uma policial faz com o marido e com quem mais quiser fazer no quesito sexo consensual. Desejo que ela apenas, como uma policial, seja justa, não aja de forma preconceituosa com negrxs, não ignore crimes contra mulheres cometidos por motivos machistas e torpes.
O que me assustou foi a reação da maioria das pessoas que ouvi falar sobre o ocorrido. O desrespeito à uma mulher profissional por causa de sua vida privada e sexual. Não considero que o número de parceirxs sexuais de uma policial a faça menos capaz de exercer sua profissão. Sinto-me enojada quando falam de bons modos de advogadas, juizas, promotoras e policiais mulheres. Pelo simples motivo de considerar essa história de bons modos machista e reaça. Liberdade sexual não impede mulheres de ser profissionais excelentes. O que acontece é que em certas profissões o tal “se dar ao respeito” é muito mais hardcore. Já é difícil ser atriz ou vendedora, imagine só profissões onde sua “moral” é quesito para o grupo reaça e machista te considerar “incapaz de dar lição de moral ou exercer sua profissão de forma correta”?
Quem sou eu para apontar dedo para uma policial e falar ” quem é você pra me prender? Você é uma vadia!” Sério mesmo? Que pessoa de cabeça pequena pode pensar isso? A maioria dxs conhecidxs que tenho em meu emprego atual. Cada dia tenho mais certeza que não sou desse mundo! Pessoas que ouvem Valesca Popozuda mas não compreendem o recado que ela quer passar!
Nesse momento agradeço a educação que tive em casa, aprendi que a obrigação de umx profissional é exercer seu trabalho de forma impecável, da porta pra fora é problema seu!

Violências

Nessas ultimas semanas, alguns acontecimentos me fizeram testar minha militância. Ser feminista não é apenas defender amigas que desejam ser defendidas da violência machista. Assim é muito fácil,  ser feminista é defender até quem comete bullying, nos magoa no dia a dia. Tive que auxiliar uma colega de trabalho que sofreu violência machista esse mês,  o curioso foi notar que, apesar de todas as grosserias e de como ela e suas amigas sempre me trataram, eu fui madura para deixar tudo isso pra lá e ajudá-la.

Também foi nesses dias que assisti uma pessoa especial receber grosserias por defender uma familiar de sofrer violência e se envolver com um homem machista e mau caráter. Como lidar com essa situação?  Mulheres que defendem seus agressores,  como mostrar o erro e a dependência dessa relação?  É justo deixar uma mulher sofrer violência por escolha própria?  Isso é livre arbítrio ou é ser conivente com o machismo?

Conseguir defender uma pessoa por quem não tenho carinho nenhum reafirmou minha luta por direitos. Mas, assistir alguem próximo a mim tentar levar um ente querido a cair na real sobre o que sofre e não conseguir, me fez me sentir tão confusa. Forçar, proibir, são essas as atitudes que é preciso tomar. Ou deixo “quebrar a cara sozinha”? Não sou conivente e ruim se fizer? Até que ponto posso intervir? Quantas mulheres, conhecidas e familiares, vejo sofrendo violência caladas. Eu assisto tudo isso e sou tão machista quanto quem fala “em briga de marido e mulher…”? Elas se calam porque elas acham que merecem, ou porque o amam demais, mas eu não deveria me calar. Algumas entram em defesa de seus carrascos, o que só faz reafirmar o poder que eles têm sobre elas, aumentando a violência,  em muitos casos.

Não consigo me sentir bem quando estou de pés e mãos atadas. Se não há como provar a violência machista como eu reajo ao que assisto e que me contam? Queria falar “estou te forçando a largar esse homem que apenas te faz mal”. Ou “seu marido não tem direito de te prender aqui, mas eu tenho o direito de te tirar daqui a força! ”

E é mais um dia de preocupação com essa mulher que recusou ajuda e ainda maltratou quem estendeu a mão. É também mais um dia em que afirmo a certeza de amigas e familiares que vivem um romance com um “príncipe” que apenas tem medo de perdê-la. É também mais um dia em que vejo uma mulher que enfrentou a violência que sofreu e seguiu adiante, me agradeceu pela ajuda. Sonho com o dia em que todas as mulheres se revoltem contra homens que tentam ter relações abusivas e machistas com elas. Qualquer relação,  desde pai e filha, mãe e filho até namorada e namorado,  ou qualquer outra relação que for.

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sempre fui assim, meio soltinha, sempre gostei de ser amiga de homens, sempre gostei de andar de roupas confortáveis e sempre gostei de sexo. Mas, uma coisa que posso dizer, nunca fui capaz de fazer mal a ninguém, fazer qualquer tipo de violência com ninguém, sempre me chamaram de trouxa pois não sabia tratar ninguém mal, mesmo que me tratassem mal.

Mas o que você quer dizer com isso? Bem, o que desejo dizer é que usar roupas curtas, ser livre não é desvio de caráter, não me faz uma pessoa ruim, então porque eu ou qualquer mulher que usa uma roupa curta mereceria ser estuprada? Na verdade, minha pergunta é mais séria ainda: O que faz com que qualquer ( boa ou ruim, independente do caráter! ) mulher mereça sofrer uma violência dessas? Queria entender O porquê de uma mulher que decide ficar confortável, não morrer de calor ou, até mesmo, se sentir sexy e bonita (ela tem o direito sim de usar qualquer roupa por qualquer motivo!) faz com que ela mereça passar por qualquer violência,?  Além disso, que tipo de castigo é esse? Desde quando violência é uma forma de punir alguém? Para mim é machismo sim essa visão.

Não sei ver diferença entre uma mulher e outra por sua vestimenta ou atitudes, não vejo diferença entre nenhuma pessoa por nenhum motivo assim. Sei que rotular pessoas é um costume muito comum no nosso dia a dia, mesmo sem querer, precisamos nos policiar todos os dias para não o fazer e não acho justo apontarmos pessoas ou colocarmos em caixinhas, mulheres que merecem violência e mulheres que não merecem. É muito parecido com a tão irritante história da “mulher de malandro”, não existe quem goste de sofrer violência doméstica, existem pessoas que dependem financeira ou psicologicamente de alguém ou que estão num relacionamento por medo de como serão vistas se pedirem divórcio. É muito difícil rotular uma pessoa por suas atitudes.

Me sinto todos os dias, acuada ao sair na rua, a noite ou não, de roupas curtas, quando bebo ou quando respondo um homem que me canta. Mas, se eu não tomar uma postura, quem sou eu? Preciso lutar contra o preconceito. Viver em cárcere, sendo que sou eu a vítima, é afirmar que a sociedade deve continuar como está! É colocando a boca no mundo que faço minha parte: é saindo para beber, é rindo alto e escancarado e é também brigando de forma justa pelos meus direitos e de outras mulheres.

Não Mereço Ser Estuprada

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sou as minhas lutas, eu sou quem mostro no dia a dia, eu sou mulher e indivíduo com vontades e voz. Não posso me calar, já existem muitas outras mulheres caladas por aí, sofrendo escondidas. Tomamos a iniciativa para puxar outras a fazer o mesmo. A reação é em cadeia, sempre!

Rotinas

I’ll write hit songs about you

No matter how we’ll get through

I’ll  keep singing for a living

but I wanna be in love

And  I wanna be with you

Lady Gaga – I Wanna Be With You

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Existem pessoas que detestam a rotina de todo o dia, a mesmice. Eu já fui dessas pessoas, que fugia o máximo possível do comum, sempre queria novidades. Hoje aprendi a amar as pequenas rotinas!

A rapidinha no banho, a transa matinal, até mesmo ele me esperar quando chego de viagem ou quando é ele quem viaja e eu fico esperando para voltarmos junto para casa. Ele deita na minha cama, joga no celular, deito com a cabeça nele e acho divertido simplesmente estar ali. Tive medo dessas rotinas destruírem meu namoro, não entendi que elas mostram a maturidade do nosso relacionamento.

Perguntei a ele se havia se cansado de mim, boba eu, mal entendi que ele chegar na minha casa e deitar ao meu lado depois do banho para jogar, sem fazer sala ou cerimonia era a prova que estamos cada dia mais perto um do outro.

Sou sincera, é a primeira vez que a rotina vem com as borboletas no estômago, que o todo dia se transformou na melhor de todas surpresas! Ele me ensinou a gostar das pequenas coisas. De comprar um pedaço de carne, cerveja e preparar um churrasco a 2, ou 3 sem baderna. Só a família (eu, ele e minha irmã). De parar numa praça e tomar sorvete, rindo de teorias sobre sabor de sorvete e maturidade e entendendo que esse percurso não é linear, não é uma “evolução”, é a cumplicidade, a intimidade que fomos construindo, a cara que fomos dando a este relacionamento. Entendendo que essa é a é a maturidade dessa relação específica, nesse momento que vivemos, não necessariamente todas as relações maduras são com rotina ou nem todas as relações com rotina são maduras e, nem mesmo, há garantias de que nós dois sejamos sempre nessa toada. Mas o nosso relacionamento, nesse momento, desse jeitinho, é o que está me fazendo feliz agora.

Agora sou amante das pequenas rotinas, me divirto com o dia a dia e com esse sentimento gostoso de que enquanto for assim, não tenho que ter medo da mesmice.

Decepções e a dor de confiar

Sempre fui uma pessoa que acredita demais nxs outrxs. Algumxs amigxs me falam que isso é um defeito, outrxs amigxs dizem que é uma qualidade. Considero isso uma característica da minha criação, fui educada para não duvidar ou ver maldade nas pessoas a minha volta. Essa minha característica me fez passar por momentos ruins, no final do ano passado e no início desse ano, isso me fez repensar muito minhas relações.

Acredito que amar seja algo livre, você se doa, faz de tudo por alguém (não só sux companheirx amorosx, qualquer amigx) sem desejar nada em troca. Também já fui acusada de perdoar pessoas com facilidade, não me considero uma boa pessoa por isso, apenas espero que, quando errar, me perdoem pelo meu erro. Tento sempre fazer por outra pessoa o que desejo que façam por mim, uma das coisas que desejo que façam por mim é que não me cobrem amor. Amor não se cobra, se dá de graça.

Mas, voltando as minhas últimas decepções, analiso a cada dia os últimos acontecimentos, sei que amar é saber que há 50% de chance de sentir dor, de chorar, sofrer e de não compreender o motivo de alguém machucar de propósito uma pessoa que nunca maltrataria outra pessoa. Pessoas são diferentes, valorizam e acreditam em coisas diferentes. Sempre abri minha casa a qualquer pessoa, quando abro minha casa abro meu coração, minha alma junto. Fico em situações onde facilmente terei meu coração ferido.200px-O_Grito

Por ser tão dada a ponto de abrir minha vida a qualquer pessoa, tive a sorte de conhecer meu namorado, dei a chance de uma ficada de internet virar amor. Mas também foi por me abrir que minha segunda decepção aconteceu. Vi uma pessoa que, apesar dos pensamentos diferentes, história diferente de vida, parecia ser sincera e companheira. Deixei entrar na minha vida, virar minha amiga, com quem dividia minhas alegrias e angústias, essa pessoa, no primeiro momento que se contrariou comigo, usou coisas que eu contava a ela para me magoar, me causar dor. Se eu falar que não guardo mágoa de alguém que faz isso, seria mentirosa. Guardo, infelizmente não sei ser tão boa a ponto de passar por cima da dor e da mágoa.

Minha primeira e maior decepção veio de uma pessoa que tinha, pelo menos, 3 anos de amizade. Caminhamos por 3 anos, umx ajudando x outrx, juntxs até o momento em que me senti bem em dizer “essa pessoa é o mais próximo que tenho de umx companheirx, é praticamente meu marido. Vou passar a vida toda ao seu lado.” Sempre vi essa minha amizade como aqueles casamentos que, apesar de todas as diferenças, estresse da rotina, duravam até uma das duas pessoas morrer. Acreditava que teria umx companheirx de vida.

Quando essa pessoa se foi, fiquei sem chão, não por ter ido embora, mas pela forma como foi embora, me mostrando que eu x amava mas elx não, apesar de todas as vezes que disse que me amava, nunca me amou. Foi deixado claro que tudo que essa pessoa disse foi apenas para que eu abrisse minha vida a ela. Sinto muita vontade de ser superior a isso, sinto muita vontade de saber perdoar, mas não consigo. A quem achava que eu podia perdoar qualquer pessoa, estava tão erradx quanto eu, não sou capaz de perdoar qualquer pessoa.

Esse texto é apenas um desabafo que precisava fazer há algum tempo. Já chorei demais, já analisei demais, espero que escrevendo eu possa passar pra próxima etapa. Quando escrevo consigo assimilar melhor meus sentimentos.

Eu? Trans?

contra a transfobiaOutro dia, um conhecido do trabalho me perguntou se eu era travesti. De acordo com ele, eu tinha “tipo de travesti”. Quando respondi que não, ele até se pareceu meio desconfortável, como se tivesse me ofendido. Não fiquei em momento algum ofendida. Diferente de algumas mulheres cis, não me sinto mal em ser confundida com uma trans ou uma travesti. A única coisa que REALMENTE me incomoda é saber que ainda existem clichês que diferenciam mulheres cis de mulheres trans. Como se essa diferença fosse necessária para “defender” os homens do “engano”. Eu, como mulher cisgênero, não vejo diferença alguma entre homens ou mulheres trans e cis. Apenas enxergo diferença entre pessoas que, sem querer ou de propósito, separam e diferenciam pessoas por motivos de seu gênero social não ser seu sexo biológico.

Tinha uma amiga do coral, na ala das contraltos, que tinha a voz tão grave que chegava a ter gogó. Eu sempre achei minha voz muito grave, mas não havia conhecido uma mulher com pomo de adão, quando falo que conheci uma mulher, heterossexual e cisgênero, que tinha voz grave e pomo de adão me perguntam se “eu tinha certeza que era mulher de verdade”. Peraí, ser mulher de verdade é nascer no sexo biológico feminino?????

Lidar com essa questão sempre me intrigou, quem diz para nós que estamos erradxs ao afirmar o que somos? A sociedade, deus, a religião? O que faz de nós homens e mulheres? Hormônios, sexo biológico, cirurgias? Não consigo me sentir bem ao ver rótulos sobre ser homem e ser mulher. Não existem rótulos que afirmem que alguém é ou não do gênero que afirma ser!

Ano passado e retrasado, dei aula a uma criança que afirmava ser mulher, mas seu sexo biológico era masculino. Uma criança de 6 anos de idade que dizia para mim que queria ser mamãe quando crescesse, que ia deixar seu cabelo comprido igual a personagem da novela. Essa criança era tolhida por outras pessoas que educavam-a, com medo de virar homossexual. Como se reprimir fizesse qualquer pessoa deixar de ser o que é, infelizmente essas pessoas só conseguem machucar pessoas que não se encaixam ao formato que a sociedade exige.

Esse domingo a noite, assisti ao programa Tabu Brasil no NatGeo, falando sobre transexuais. João W. Nery era uma das pessoas que foi entrevistado, duas trans mulheres e ele de trans homem. Ele é uma pessoa que tenho uma admiração tremenda, por ter lutado por seus direitos em um país que, até hoje, não consegue se adaptar a transexuais homens. No meio das entrevistas, conversaram com uma mulher que trabalha há anos na casa dele, que só descobriu que ele era um trans homem vendo-o na TV. Ela falou “ele não parece que não era homem” ou algo parecido, ela não foi preconceituosa com o João em momento algum da entrevista, só me incomodou essa frase. O que me incomodou foi a procura pelo estereótipo. Sofremos com os costumes da nossa sociedade, eu mesma já fui preconceituosa sem querer, com falas ou atitudes que rotulavam fortemente uma pessoa.

Hoje em dia acredito que ser homem ou mulher não tem nada a ver com sexo biológico ou com cirurgia de troca de genitália, retirada de peito, uso de hormônio, quanto mais “ser feminina” ou “ser masculino”. Somos o que sentimos que somos, sem rótulos. Acho que até mesmo que, por isso, não me foi ofensivo a confusão, é pra mim uma pergunta tão comum quanto, “qual é a cor da tinta que você usa em seu cabelo?”

Uma gaiola e um passado nem tão distante

If you were a king up there on your throne
Would you be wise enough to let me go?
For this queen you think you own

Wants to be a hunter again
I want to see the world alone again
To take a chance on life again
So let me go

Ela acreditou que, talvez, o erro estivesse na escolha, homens mais novos eram dependentes. Então, após um término doloroso, ela decidiu tentar a sorte com um homem mais velho, um cara que aparentava ser carinhoso, doce, que faria tudo para ela se sentir feliz e mimada.

“Ele é mais velho, já é pai, não vai pressionar para ter um compromisso, filhxs, nada disso.” pensava ela. “Ele já viveu coisas ruins, tem uma bagagem maior, sabe que nada dura para sempre.” foi seu primeiro julgamento desse relacionamento.

E realmente ele era um cara com uma certa gentileza e cuidado, uma gentileza sufocante, um cuidado que a escravizava a cada “preocupação”. Ela acordava e tudo já estava pronto, ele preparava café, se ela pedisse, até passava suas roupas. Também queria pagar a conta, o táxi, queria saber onde ela tava.gaiola

Sua vida era recheada de decepções amorosas, mas ele acreditava piamente no amor eterno, no “para sempre”. Acreditava também que ela deveria nem se preocupar com camisinha, afinal, ele cerceava sua vida, não a deixava viver, e ele vivia para ela e por ela, que não tinha a possibilidade de acontecer traições. Falando em traições, quer traição maior que prender um passarinho numa gaiola? Mesmo com a porta aberta, alguns não saem por medo, insegurança ou simplesmente por acreditar que, mesmo ruim,é melhor isso que nada.

Ela estava em uma gaiola de porta aberta,uma gaiola feita de pressões psicológicas, onde era um absurdo ela não querer filhxs, onde a camisinha era um assunto que ele queria conversar depois de transar, sem camisinha. Cada pressão pelo uso da camisinha,ele aceitava como se fizesse um favor, afinal, não tinha necessidade usar entre eles, ele a amava de verdade. Era muito mais segurança que qualquer camisinha. E ela se sentindo cerceada, engaiolada. Querendo voar, para uma floresta onde a camisinha não seria um favor para ela, e sim parte da relação saudável de 2 adultxs. Onde não querer ter filhx não fosse uma coisa estranha, onde ela “mudaria de opinião assim que estivesse na idade certa de ser mãe….”  afinal, toda mulher quer ser mãe.

E quando ela voou e se encontrou livre do caçador, eis que, meses depois, ele se sentiu no direito de procurá-la para desejar boas festas. Quando ela o cortou, ele quis discutir relações, sendo que esse “mal entendido” nunca foi um mal entendido, foi um pesadelo. Ela tá livre, não quer ver nem de longe a gaiola!

Dois anos de mudanças

Time may change me
But I can’t trace time

Falar sobre como o Biscate Social Club fez a minha vida passar por mudanças é meio difícil. Eu passei a enxergar o mundo de forma diferente desde o momento em que comecei a escrever para o Biscate e o mundo começou a me enxergar diferente. Acho que passei a me preocupar menos com o julgamento das pessoas com o que faço de minha vida. Fiquei mais livre, assumo meus gostos, minhas atitudes, minha vida sexual, meus sentimentos. Parei de ter medo de me mostrar nas redes sociais. Sempre me preocupei em não causar incomodo entre minha mãe e meus familiares, mesmo sabendo que para ela não fazia diferença o que qualquer umx falasse, ficava mais quieta, não retrucava comentários preconceituosos, misóginos, homofóbicos de certas pessoas da família.

Hoje em dia, apostei na postura de me afirmar! Ser sincera, tentar ao máximo não ser artificial. Não preciso afirmar coisas que não são realidade. Fiz isso quando assumi que amava funk aqui no Blog. Foi uma forma de me soltar das amarras de “mulher acadêmica e elitista” que me colocaram sem a minha escolha.

Também fiz isso quando comecei a falar sobre minha vida sexual mais abertamente. Fiz isso pela primeira vez no especial #erotismoemnos, quando falei da minha vida sexual com meu ex. E não foi o único, fiz um sobre minha ligação com o meu atual namorado, Wesley, como o sexo nos traz confiança e companheirismo. Também foi por aqui que me dei o direito de falar sobre liberdade para fazer sexo como quiser e desejar.

Também foi aqui que me senti a vontade de falar sobre problemas no trabalho, assédio sexual, sobre uma amiga que sofreu assédio moral. Meus desabafos aqui sempre foram comuns, assim como também gosto de usar o blog para falar de minhas felicidades dentro e fora do trabalho. Eu comecei a me libertar, a falar da minha vida com mais tranquilidade.

E meus desabafos não foram só sobre trabalho e estudos, também desabafei sobre minha vida amorosa, pois já amei várias pessoas, já amei intensa e platonicamente, já tive um amor inacabado. Falar sobre minha vida faz parte agora da minha militância. Aprendi que ser Biscate é falar o que quiser e sentir, doa a quem doer.imagesForam apenas dois anos, mas consegui amadurecer por décadas, acreditar que sendo eu mesma eu seria muito melhor do que me escondendo em papéis criados para agradar outras pessoas!

#2anosBiscateSC

Até no trabalho

Aprendi que a mulher que trabalha trava uma batalha muito maior que muitos homens. O motivo disso é o famoso assédio moral! Alguns homens não aceitam ter uma mulher ocupando um cargo acima deles. Infelizmente, somos vítimas de uma violência tão sexista e ao mesmo tempo tão “invisível” a alguns olhos – quantos de nós nunca ouviu, sequer, a expressão “teto de vidro” e nunca refletiu sobre o número insignificante de mulheres em cargos executivos, nas capas das revistas de trabalho e negócios, etc. E, no entanto, o problema está presente, acintosamente e há diversos registros das dificuldades encontradas pelas mulheres no trabalho, indo da dificuldade de encontrar um trabalho fora do estereótipo até a dificuldade de ascender na carreira, passando por perguntas invasivas nos processos seletivos referentes à vida pessoal e relacionamentos, passando pela dificuldade de conciliar filhos e trabalho, pela inspeção diária e ofensiva de cabelos, unhas, roupas e seus tamanhos e decotes. Além, claro, das análises e avaliações tendenciosas, a dúvida recorrente sobre a incompetência e piadinhas sobre tpm (quer saber mais, é só colocar no motor de busca: mulher, dificuldades e trabalho e encontrará desde matérias jornalísticas a artigos e pesquisas científicas). Tenho passado nos últimos anos por histórias, ouvido outras mais que me fazem embrulhar o estomago.

E como é difícil abrir os olhos de nossxs colegas para a  violência que sofremos, são poucas as pessoas que entendem a humilhação que passamos quando passamos por cima de estereótipos e clichês na área profissional. Mulheres não são criadas para exercer certas profissões, como a área de vendas, informática, engenharia, policial e militar.

trabalho

Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.

Aprendi que se eu me acovardar sempre serei vítima! A posição de vítima nunca me caiu bem e, não cairá bem dessa vez também.

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