Sobre Vanessa Rodrigues

Jornalista e contadora de causo.

Por duas: sobre mulheres e nós

dança

Dia dessas ela me ligou. E como sempre faz quando nos falamos ao telefone, me disse que me ama muito e que eu sou ela amanhã, multiplicada por duas ou três. Ser como ela, em dobro ainda por cima, significa mais que tudo “sacanagem”.

Ela tem esse dom delicioso de colocar duplo sentido nas coisas. E demonstrar desejo. Que eu imito, como não?! Ela abaixa até o chão na boquinha da garrafa. Já eu, nunca. Mas, ela. Ah, ela consegue. Ela canta em qualquer idioma, porque é boa de prosódia, mesmo que tenha que inventar palavras pra caber na métrica. E quem se importa com a letra quando se sabe o ritmo?! E compõe proibidões, que, olha. Ela compõe proibidões, até em cima de proibidões já feitos.

E cantou no rádio, quase foi famosa, quando preferiu casar. Foi até mesmo pressionada. Que saída tinha ela na época?

E vejo que se posso ser ela multiplicada por duas é porque posso ir mais além, quando ela não pôde. Porque não tive que escolher entre cantar e casar. Nem canto. Mas, se me fosse possível, não haveria escolha. Haveria soma. E, se houvesse, casar não seria a alternativa correta default.

E me conta de dores da vida em comum. E sei que somente sou eu ela em dobro porque calhei de nascer uns anos depois. Quando permanecer não é sempre uma obrigação. Aguentar não é imperioso. Que sair não é desamparo. Não sempre. Não o tempo todo.

E come pimenta malagueta pura enquanto passa roupa e toma cerveja. E dança, riscando o salão. Vai de bolero, vai de forró, a hora que for.

Ah, quem me dera ser nisso como ela. Ainda mais em dobro!

Mas, se ela diz, vou seguindo uma parte dos seus passos. Pensando que essa alegria e gulodice não são ingênuas. Têm amarguras também. E sublimação. E vontades e também frustração. E o que nos parece apenas uma história curiosa das reminiscências da tia divertida, tem tantos sonhos interrompidos pelo meio.

E desejos de voltar atrás, num tempo que a alegria era por si. Ao mesmo tempo, de seguir em frente, quando cantar, casar e dançar até o chão são coisas que mulher pode fazer, afinal.

E ela enche os encontros de humor e riso. E invejas e ciúmes quando diz que eu, euzinha aqui, sou como ela em dobro. E um pouco de aflição também. E no churrasco de família ensina a irmã mais nova a “chupar um pau”.  Diz que é pra agradar o homem. Mas, ela se agrada também. Ela tem isso. O riso que contradiz o discurso. Ela gosta de ensinar. E gosta do resto todo. Porque ela gosta disso tudo. Me disse. “Eu gosto!”

E vou me lembrando que eu sou ela. Em progressão geométrica. E gosto também.

Mas, ela também anda triste. E, às vezes, o riso vacila. Também me disse ao telefone “que levaram a outra banda do colchete”. A banda que a completava. Que se encaixava. Com quem ela formava um todo de amor e cumplicidade e festa. E choro.

De longe, fico pensando se ela se recupera mais dessa. E são tantas. Têm sido tantas! Aquele momento na existência quando passamos a contabilizar perdas e esperar a próxima. De amores. De parentes. De irmãs. O encaixe do colchete, o amor da sua vida, a companheira, a irmã.

Ela repete que me ama ao telefone. Que somos iguais. E, fico ali, pensando se teremos a mesma intensidade no sentir. Assim, em dobro.

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

Captura de Tela 2015-12-20 às 21.49.11

Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

Captura de Tela 2015-12-20 às 21.32.11

E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

elzasoares

Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

marcha

Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Toca Sebastiana!

Captura de Tela 2015-12-05 às 11.13.37

Na semana passada li um artigo publicado na BBC Brasil sobre masturbação feminina e no quanto isso ainda é tabu na sociedade. Na Suécia até lançaram, em junho, uma campanha para inventar um novo nome para a “autoestimulação genital feminina” (ufa!). O escolhido foi “Klittra”, fusão das palavras “clitóris” e “glitter”, escolhido entre 200 sugestões recebidas pela Associação Sueca para a Educação Sexual.

A ideia da campanha é estimular a igualdade de gêneros. “Segundo um relatório da educadora sexual americana Debby Herbenick, 44% dos homens se masturbavam duas ou três vezes por semana. Entre as mulheres, essa proporção era de apenas 13%. Já um estudo espanhol, realizado em 2009, indicou que era muito maior a parcela dos homens que dizia ter se masturbado no mês anterior à pesquisa do que a de mulheres (46,9% deles contra 4% delas).”

O texto ainda destaca a influência da religião na busca do prazer feminino: “Nascemos com o corpo organizado para sentir, há funções específicas que são ativadas no momento de receber um estímulo agradável (…), mas as normas culturais e religiosas não permitem que as mulheres desfrutem de sua sexualidade na plenitude.”

A matéria não fala especificamente do Brasil, mas sabemos que não é muito diferente. Com a diferença que lá estão lançando campanha. Aqui, a gente continua sem nem falar muito sobre o assunto. Mesmo em grupos de discussão e rodas de conversa, masturbação feminina não costuma ser tema dos mais corriqueiros. Falamos pouco disso, inclusive com nossas melhores amigas.

Pois dialoguemos aqui. E minha maneira de falar sobre o assunto é começando por revelar que, sim, minha gente, eu me masturbo! Antes, preciso dizer que glitter na xoxota não é exatamente meu ideal de estimulação genital. Embora, sei lá, seja até bonitinho. Mas, tô mais é pruma licka licka, mesmo.

Ilustração de "Garota Sirirca"

Ilustração de “Garota Siririca”

E isso não tem nada a ver com insatisfação sexual. Tem a ver comigo e comigo mesma. E não sou muito dos brinquedinhos, não. Me regalo mesmo é com minhas mãos. E com os meus dedos. Principalmente de manhã.

Estímulos eróticos, como contos, me excitam bastante. Em geral, basta um tiquinho de putaria na web pra me deixar ligada. E, não, não tenho 15 anos. Tenho bem mais. Mas, é isso. Continuo facinha, facinha pra me excitar com bobagem sacana da internet. Ai, se meu google falasse! Estamos aí, tocando campainha desde a mais tenra idade. Poderia dizer que me masturbar me acalma, e é verdade. Me desestressa. Também é. Mas, faço é porque é gostoso mesmo. E dá-lhe tocar sanfona de manhã!

Aliás, concordemos que os suecos pensando que inventaram um neologismo com essa “Klittra” e a gente nem precisou de campanha pra criar a siririca! Até fui atrás da origem do nome. Vasculhei por aí e descobri no primeiro blog recomendado que “siririca” poderia ser, na verdade, “um termo técnico usado inicialmente por médicos pesquisadores do assunto, no qual siririca é sigla para Sistema Individual de Recreação Íntima ao Rostir o Indicador no Clitóris e Adjacências.”

Curioso. Mas, né. Rostir. Sei nem como conjugar na primeira pessoa.

Segundo esse mesmo blog, outra explicação é que siririca seria uma onomatopeia, já que o clitóris é conhecido por alguns como “grilo ou grilinho”. “Algumas pessoas acreditam que o som que o grilo (inseto) faz é resultado de um esfregar de patas. Logo, a siririca seria então uma onomatopéia ao som do grilo esfregando.”

Vai ver é por isso que curto tanto. Vivo atrás do cri-cri-cri da roçadinha!

Me dei por satisfeita com essas explicações e nem segui com a busca. Preferi fazer outras coisas com a inspiração. E dá-lhe lapidar a safira! Só discordo do blog quando fala que a palavra siririca é vulgar prum ato que não é. Mas, gente. Não acho uma coisa nem outra. Antes pelo contrário. É até fofa. E, puxa. Que mal tem se a siririca é vulgar? Será que aqui também teremos que criar um neologismo chique pra boa e velha masturbação?

Tem mesmo que chipar duas palavras pras pessoas se livrarem de seus tabus? Qual seria, no caso, usando a sugestão dos suecos? Glitóris?

:-/

Até a siririca precisa ser sexy?! Pois defendo a ideia de deixá-la o mais natural possível. Isso posto, que não seja extraordinária. Que seja mesmo ordinária. Cotidiana. Feliz. Livre.

Porque aqui, nesse blog, a siririca é a verdadeira sororidade!

Conheça mais de Garota Siririca

Feminicídio: #nãofoiciúme

machismomata_red

Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

#OcupaEscola: pra periferia, estamos olhando?

Acredito que quem é de mídias sociais deve estar acompanhando, mesmo que de soslaio, a ocupação das escolas estaduais em São Paulo que estão na lista das 94 que serão fechadas pelo governador Geraldo Alckmin. Com isso, já em 2016, ao menos 1 milhão de alunos poderão ser transferidos para outras escolas, espalhadas pela cidade. O caso é que essa decisão foi tomada sem consulta pública, sem conversas com a comunidade, com associações de professores e pais, com os alunos. Tudo é muito nebuloso e pouco transparente e mesmo a publicidade do governo do Estado explica bem pouco.

Em protesto, estudantes se organizaram e resolveram ocupá-las. Até a finalização desse texto, 16 escolas estão ocupadas, espalhadas entre as zonas oeste, sul, leste, Embu e Osasco, estas duas na grande São Paulo. O governador deu entrevista dizendo que há interesses políticos por trás dessas ocupações. Ora, pois, mas não é justamente política o que esses estudantes estão fazendo? E isso não é fantástico?! Realizando coisas realmente lindas por lá, como saraus, shows e muito debate?

Obviamente que um governo como o de Alckmin, pouco acostumado ao diálogo, a reação não poderia ser diferente do que foi. Nesse processo, o estado se fez presente na sua face mais truculenta: pela polícia. O governo enviou a polícia armada contra estudantes munidos apenas com tambores, reivindicações e desejos! Na 4a feira (11), saiu uma liminar de reintegração de posse das escolas Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, e Escola Estadual Diadema, que deveria ser cumprida 24h após a notificação na escola, mesmo que de “maneira coercitiva”. Isso deixou o clima mais tenso ainda.

Na 5a (12), durante a Marcha das Mulheres contra o Cunha, gritamos várias palavras de ordem contra essa atitude absurda e tresloucada do governo do estado. O movimento feminista parou em frente à Secretaria de Educação pra denunciar o autoritarismo do governo com o fechamento de escolas e a militarização para reprimir os estudantes. Além disso, um grupo foi em direção à Fernão Dias assim que terminou a Marcha, permanecendo em vigília madrugada adentro.

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

Na 6a feira (13), quando seria feita a reintegração na Fernão Dias, fui pra porta da escola. Encontrei PMs postados em frente ao portão, o Choque numa rua lateral, mais “discretos”, e várias pessoas acampadas. Havia também muita imprensa, além das presenças de padre Júlio Lancelotti e do advogado e especialista em Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves. Pude ouvir uma fala muito contundente de padre Júlio, que tento reproduzir abaixo:

“A ordem é que o estado não use o Choque conta os estudantes. Mas, quem vê essa escola cercada por PMs e o Choque deve pensar: ‘que país é esse que cerca uma escola contra alunos, contra pessoas que não são criminosas?’ Eles sempre ouviram ‘vão pra escola!’ Agora, estão ouvindo ‘saíam da escola que a polícia vai entrar’. Isso é uma vergonha! Uma vergonha pro país. Uma vergonha pra qualquer educador. Quem devia estar negociando com eles não é a polícia!”

Saí da porta da Fernão ao redor das 21:00. E, ainda na estação do metrô, recebi mensagem de uma amiga que também estava lá contando que a liminar de reintegração tinha sido suspensa e que os estudantes estavam em festa. Fui pra casa um pouco mais aliviada, acreditando que, ao menos naquela noite, as coisas ficariam relativamente tranquilas. No caminho, comecei a pensar mais intensamente nas outras escolas. Naquelas que, ao contrário da Fernão, estão longe das zonas mais nobres.

A EE Fernão Dias se localiza próxima de uma estação de metrô, num bairro de classe média alta de São Paulo. Além de ter sido uma das primeiras a ser ocupada, não se pode negar que sua localização contribui para que seus alunos chamem mais atenção da mídia e causem tanta comoção. Além disso, qualquer atitude mais truculenta contra adolescentes desarmados, muitos deles brancos e de classe média, poderia gerar uma profusão de imagens que, certamente, iria circular bastante. O desgaste que isso poderia causar ao próprio governo, mesmo um tão blindado como o de Alckmin, cobraria um preço, presumo.

Mas, e as outras escolas? As da periferia? Aquelas que, longe dos holofotes e de parte do apoio presencial popular (e nisso me incluo), estão muito mais vulneráveis à violência do estado? O que aconteceria com elas? Obviamente, o que aconteceu.

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página "Não fechem minha escola"

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página “Não fechem minha escola”

Segundo relatos das páginas que estão acompanhando as ocupações, na EE Ana Rosa, no Butantã (zona Oeste), com a justificativa de verificar a integridade do espaço físico, a polícia entrou junto com a diretoria. Sem violência, felizmente. Entraram e saíram, e os alunos permaneceram.

Foi numa escola do Jardim Ângela, na zona sul, que o meu temor se confirmou. De acordo as mesmas páginas, no domingo (15), a PM invadiu e tentou retirar à força estudantes e apoiadores da ocupação da escola estadual José Lins Rego. Como tem sido lugar comum na gestão de Alckmin, educadores foram brutalmente agredidos. Um professor foi espancado e está com o rosto coberto de hematomas. Em vídeo, uma professora conta aos Jornalistas Livres como foi agredida por PMs.

“Eles abriram minha boca e jogaram spray de pimenta dentro da minha boca.”

O potente é que, mesmo com tudo isso, a escola continua ocupada

Os estudantes resistem e temos notícias de que estão precisando de alimentos de fácil consumo, lanches, água, etc. Entendo que para aqueles que moram em outras regiões da cidade não seja tão fácil se dirigir a essas escolas. Mas, quem puder apoiar, estar lá, levar mantimentos, levar sua presença, acho imprescindível. E que compartilhemos conteúdos, que as visibilizemos. Recomendo as páginas O mal educado e Não fechem minha escola, no Facebook, e o perfil @Ocupaescola, no twitter, que também tem uma hashtag.

Penso que uma unidade de ensino capitalizando tanta visibilidade e amplificando o protesto e os desmandos do governo do estado, como a Fernão pode fazer, é muito importante pra todo o processo de ocupação. Mas, que não deixemos de olhar, de proteger e de apoiar aquelas mais distantes do centro expandido. Que as lideranças e associações de defesa dos direitos humanos também estejam lá. Que a mídia mainstream e alternativa também cubram o que acontece lá. Que nós estejamos lá.

Que a truculência do estado não alcance mais ainda esses adolescentes enquanto a sociedade cochila.

A redação do ENEM e a neutralidade ‘nkali’

Um vídeo que sempre me inspira é o da apresentação para o TEDx da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, sobre múltiplas histórias. Ali, pelo minuto 9′:42″, ela diz o seguinte:

“É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo. E a palavra é Nkali. É um substantivo que livremente traduzido é ‘ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômicos e políticos, historias também são definidas pelo principio do nkali. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

E aí, fiquei pensando na grita relacionada ao tema proposto na redação do ENEM deste ano – sobre as razões da persistência da violência contra mulher – e o questionamento se essa revisão não acabaria calcada num viés ideológico. Realmente, fiquei mesmo intrigada sobre a cobrança dessa suposta ~ neutralidade ~ na correção. De que neutralidade estamos falando, afinal? Da neutralidade hegemônica, à qual estamos submetidos, inclusive e especialmente, na educação e nos processos de aprendizagem formal de história, geografia, língua etc.? Em que lugar de fala esta neutralidade mora?

Não imagino como essa redação poderia ser escrita sem pautar-se em alguma perspectiva ideológica, uma vez que desde o seu cabeçalho já se anunciava que textos que ferissem os direitos humanos não seriam considerados. O que nos ensinam nos livros didáticos passa pelo apagamento da mulher na história; a maneira como aprendemos sobre a nossa colonização; sobre o tráfico de pessoas escravizadas; sobre os indígenas; até a língua… tudo isso não está submetido a um viés ideológico? Não são as pessoas que narram os eventos? E quem detem o poder não tem a primazia na narrativa?

provaenem

Ora, nós também queremos ser ouvidas!

A narrativa tradicional de nossa sociedade é normatizada pelo viés patriarcal, branco, cisgênero e heternormativo, no qual o espaço para a participação mais efetiva de minorias, e nesse grupo nos encontramos, ainda é limitado. Neste sentido, a prova do ENEM tem minimamente o mérito de obrigar os estudantes a pensarem sobre o tema da violência contra a mulher. Sem duvida que virão muitas respostas fora do contexto ou até ofensivas. Mas o fato é que pela primeira vez um conjunto tão grande de estudantes teve de se debruçar sobre um tema que não tem sido objeto profundo de discussões em sala de aula e, provavelmente, em suas casas.

Para reagir a redação, muitas pessoas, homens em sua maioria, passaram a compartilhar um meme que traz dados mostrando que eles são as maiores vitimas de violência, relativizando, assim, aquela vivida pelas mulheres e tentando retirar a importância dessa reflexão. O subtexto é que as mulheres deveriam até meio que estar felizes por não sofrerem na mesma medida que os homens. A desonestidade intelectual deste argumento salta aos olhos na medida em que geralmente a violência contra a mulher atende a um machismo tão profundamente arraigado na sociedade, que nos impede de ver o óbvio.

Não podemos perder de vista que as mulheres fazem parte de uma minoria que sofre violência e opressão justamente por serem mulheres. Ainda que encontremos depoimentos de assédio e estupro de homens, são as mulheres as maiores vítimas desse tipo de violência, por exemplo.

Será interessante ver os resultados de correção da redação. Especialmente para entender a visão das mulheres em comparação com a perspectiva masculina sobre o tema. Possivelmente, veremos muitos relatos pessoais, seja sobre violência sofrida pelas próprias estudantes seja por familiares. De certa forma, a redação da ENEM pode transformar-se num grande estudo sobre a percepção dos jovens, maioria esmagadora no exame, em um assunto tão urgente. Só isso já justificaria o tema da redação.

Depois dessa redação e do incômodo (pra dizer o mínimo) causado pela questão sobre a filósofa feminista Simone de Beauvoir e algumas outras perguntas que nos entusiasmaram bastante, para os próximos anos esperamos temas igualmente fundamentais, como o genocídio da juventude negra ou das comunidades originais (indígenas, quilombolas), por exemplo.

A cultura do ranking escolar, cada vez mais questionada, pode pelo menos prestar este serviço à sociedade. Afinal, mesmo o ENEM, com todas as suas críticas e idiossincrasias, também é um espaço de disputa. Quem sabe, assim, vamos ampliando mais ainda nosso repertório de múltiplas histórias, em todos os cantos onde isso seja possível.

fabiokacbral

Professor não é sacerdote

Minha mãe é professora. Já não atua em sala de aula há algum tempo, mas ainda trabalha na biblioteca da mesma escola municipal onde começou sua carreira mais de 30 anos atrás. Minha mãe sofre do mal de muitos professores, que já foi até chamado de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Já há um tempo, não consegue mais levantar o braço pra alcançar o giz no alto no quadro. Passou por várias cirurgias e perícias médicas que a tiraram da sala, até que foi lotada na biblioteca pra poder se aposentar.

Os problemas mais comuns relacionados às doenças ocupacionais dos docentes estão ligados à voz e à audição, ao aparelho respiratório, ao sistema muscular e aos problemas psíquicos relacionados a estresses na sala da aula.

Minha mãe não foi poupada de alguns deles:  os musculares, como já disse, os de voz e os alérgicos. Lembro-me de vários episódios de rouquidão, por exemplo, e de rinites por respirar o pó de giz, ano após ano. Felizmente, não desenvolveu problemas psíquicos, também comuns numa categoria tão desvalorizada, na qual muitos profissionais começam sua carreira com tantas expectativas e vão observando e constatando uma trajetória de desrespeito e quase abandono pelo Poder Público. Incluindo também episódios de assédio moral por parte de alguns gestores ou pais de alunos. Sem falar de situações horríveis com os próprios alunos, em sala de aula.

Do que mais me lembro são dos planos de aula sobre a mesa e que tanto me ajudaram em minha própria alfabetização. Lembro também de um milhão de provas para corrigir e de ajudá-la nisso, com um gabarito do lado fornecido por ela mesma. E das noites viradas com boletins para atualizar, quase todos de capa azul.

Minha mãe, essa linda do canto à direita, em sua formatura no magistério ou Escola Normal (foto do baú da família)

Minha mãe, essa linda do canto à direita, em sua formatura no magistério ou Escola Normal (foto do baú da família)

Mas, o mais emblemático pra mim foi o seu ativismo como presidente do sindicato dos professores em minha cidade, nos anos 80. Sindicato que ela ajudou a fundar, inclusive.

O que era ser professor nos anos 80? Quem beira a minha idade ou um pouco menos deve se lembrar. Vivíamos ainda os suspiros da ditadura, mas já com uma certa abertura, a categoria intensificava mais ainda sua luta pela defesa de uma educação pública de qualidade e de melhorias salariais. Muitas greves eram realizadas pelo país.

Minha mãe participou disso.

Ela saia de Pirapora, pegava um ônibus e andava uns 300 km até Belo Horizonte pra protestar na capital. O risco de apanhar da polícia era real. O medo disso também. E como não? Se o é até hoje?! O risco de ouvir que “professora não é mal paga, é mal casada” também era real. Não foi apenas Maluf quem disse isso. Lá pelas bandas de Minas, minha mãe e suas companheiras ouviram também

Pior é que, assim como acontece com a violência policial, uma frase dessas poderia tranquilamente ser repetida hoje em dia novamente. Vai me dizer que você não consegue enxergar certos políticos despejando uma provocação machista desse nível pra cima de professoras em protesto?!

Foi com ela, da voz dela, que aprendi que educação não é sacerdócio. Foi com ela que ouvi pela primeira vez que professor é profissional, que investe em sua formação e que merece e precisa ser bem remunerado, inclusive para manter-se atualizado. E que ele vive disso. Paga contas, cria filhos. Come.

E fazendo um recorte de gênero, ela sempre repetia que a maioria de suas colegas era as “chefes” de suas famílias. Numa das greves, quando o governo cortou o ponto, elas ficaram meses fazendo mutirão de comida, porque sem os salários de suas mães, crianças não tinham alimentos em casa. Já naquela época.

Aprendi com ela, lá pelos 80s. E sempre fico pasma quando, hoje, mais de 30 anos depois, ainda seja preciso reafirmar tudo isso. O tempo todo. Repetindo os argumentos, o discurso, as demandas.

Minha mãe sempre foi uma inspiração. Sua trajetória, sua paixão, seu comprometimento com a profissão me orgulham enormemente. De um jeito que nem sei se ela sabe tão bem assim. Como talvez ela nem saiba tão bem, embora sei que desconfia, o quanto ela foi fundamental em minha formação como mulher. Em minha identificação com o feminismo. Acho que já lhe disse. Sei que sim. Mas, por via das dúvidas, reafirmo aqui, publicamente.

E sei que ela foi uma inspiração para muitas alunas e alunos também. Volta e meia ela mesma me conta uma história de ex aluno confessando sua importância na vida dele. Ela se envaidece disso. Eu também.

Hoje, em seus perfis nas redes sociais ou posts em blogs, muita gente deve estar contando histórias de professores que fizeram diferença em sua vida. Pois minha mãe, Alice, que nem minha professora foi, fez na minha.

Não faça e tenha sexo explosivo!

Beijo-Grego-Allison-Williams-Marnie-Michaels-

Amiga leitora Biscate,

da buceta peluda ao “que não fazer na frente do bofe”, a receita de sucesso de um relacionamento prazeroso parece não ter mudado muita coisa. Continuamos recebendo as boas e ~ infalíveis ~ receitas do bem viver, baseadas nos princípios do “não pode. Não deve. Não faça.”

Até dá pra fazer de conta que as dicas são democráticas, pra elas e pra eles. Mas, no fim do dia, as regras, amiga leitora, parecem existir só pra gente mesmo.  Pensemos aqui nas revistas, sites e colunas, na perspectiva da heteronormatividade.

Não deixe ele perceber suas dobrinhas.
Não deixe ele notar suas celulites.
Não deixe a depilação vencer.
Não seja tímida.
Mas, não desinibida demais. Deixe pro mistério.
Não seja muda. Fale palavrão, mas não muitos.
Seja lady. Seja puta. Mas, não muito.
Se solte. Mas, não seja mandona.
Assuma o comando, mas não deixe ele perceber.
Deixe ele perceber, mas finja.
Finja, mas goze.
Não seja tímida, mas não fale demais.
Fale palavrão, mas não deixe ele por baixo.
Seja bem resolvida com seu corpo, mas não deixe ele notar suas celulites.
Tenha orgulho das suas dobrinhas, mas não fique por cima.
Seja sexy. Não seja vulgar.

Agora, se você está pensando que só tem regra pra cama, amiga leitora Biscate, devo te informar que você é uma ingênua. Ouvimos rumores que tem pro chuveiro também. E se você quer a extensão da trepada lá no quadradinho do box, prestenção no índex. Mesmo que seja só pro banho mesmo.

Não pode fazer xixi.
Não pode soltar pum.
Não pode olhar pra ele.
Não pode deixar o sabonete entrar na buceta.
E o mais intrigante de todos: “água não é lubrificante. Portanto, nem tente.”

Aqui, suspeito que tem o mistério do inominável. Do sexo que não se pode dizer o nome. Mas, pelo que entendi, é sobre anal, né? É disso que se trata.

Não pode sabonete na buceta. Não pode água no cu.

Portanto, amiga, leitora Biscate, nem tente. Nem tente a buceta peluda. Nem tente dar pum. Nem tente não depilar. Nem tente fazer xixi! Nem tente olhar pro cara. Nem tente não olhar. Nem tente o chuveirinho. Nem tente querer transar. Nem tente dar o cu à secas. Ou à molhadas. Que agora fiquei confusa.

E viva a constipação e a colite! Que se dane. Apenas, finja que a ducha é uma cachoeira e sensualize enquanto lava o cabelo. É o que te cabe. É o que se espera. Deixe a mangueirinha pra ele. Fique no canto. Não seja espaçosa.

Esteja. Mas, não seja

E que tal nos anteciparmos, querida leitora Biscate, e irmos pra cozinha, então? Saiu do chuveiro, pensou em fazer uma boquinha e aproveitar pra dividir com seu boy esse pecado da madrugada. Obviamente, nada é tão simples quanto parece.

Listemos, pois, as regras pra cozinha.

Não pode objetos cortantes.
Não pode pepino gelado.
Não pode lavar a louça e trepar.
Não pode sujar a mesa.
Não se suje.
Não roube o sanduiche dele.
Não coma demais.
Não arrote.
Melhor nem coma.
Não beba água.
Não faça xixi (lembra?).

Geleia não é lubrificante.

Na próxima semana, querida leitora Biscate, falemos da lavanderia. Por via das dúvidas, já sabe. Ao contrário do que dizem, não pode na máquina de lavar. Ah, mas nem pense.

Ciranda

Há um mês perdi uma tia muito querida, de maneira inesperada. Embora até já tenha adquirido um pouco de casca, essa morte me pegou de um jeito muito profundo, me deixando essa tristeza que ainda não consegui elaborar. Aí, me lembrei deste texto, que escrevi um ano atrás e que ainda não tinha publicado. Publico hoje, porque quero deixar registrado o quanto cresci cercada de mulheres incríveis! <3

tranca1

Minha família materna é enorme. Entre dois casamentos, meu avô teve 30 filhos! E, desse total, mulheres, muitas, muitas mulheres. Lindas, valentes, amorosas, debochadas, desbocadas, contraditórias (ô), gentis e com muito senso de humor. Mais que tudo, humanas.

Sob muitos aspectos, mulheres muito inspiradoras para todas nós, filhas e sobrinhas. Ainda que a figura do meu avô-que-mais-parece-personagem-de-livro seja mitificada entre a gente, sempre penso na minha como uma família na qual as protagonistas são elas e, mesmo em suas próprias famílias, elas parecem ser o centro no qual todo o mundo orbita.

Nos fins de semanas, essas irmãs costumavam se juntar para um lanche, hábito que ainda persiste, embora já com alguns desfalques (mortes e mudanças…) e, agora, pode ser em qualquer dia. E na prosa iam coando café e cosendo comidas, confissões, bolos, queixas, beiju, mágoas, cuscuz, conquistas, belezas e um levar-não-levar muito a sério a vida toda. Das gostosuras, só podíamos lamber o cheiro, com permissão pra comer depois, no rescaldo do fim da tarde.

Aquele era o momento delas. Quando muito, um prato nos era passado pelo buraco da fechadura. Ficávamos pelo quintal, brincando e espichando a orelha, porque nossa fome mesmo era do confessado. A minha, pelo menos, que sempre fui criança de curiar conversa de adulto.

Não me aguentava de vontade de me esgueirar pela fresta da porta, mas só me cabia mesmo imaginar o que elas tanto falavam naquelas confabulações vespertinas. O que me era impossível, obviamente. O que eu sabia da vida naquele então pra imaginar algo mais além que os dramas de “Pollyana”?

O “lanche das tias” era misterioso e meio intangível…

Um dia sai de lá e o evento virou um folclore delicado em mim. Até que, anos depois, numas férias na casa da minha mãe, elas apareceram, se enfiaram na cozinha, me convidaram e fecharam a porta. E, entre um causo e outro, em algum momento me distanciei da situação.

Foi quando me veio aquela compreensão quase das veias.

As minhas tias e a minha mãe me estavam dando a credencial para o mundo delas! O mundo das mulheres adultas da família. Naquele instante, naquele lanche, virei uma delas. Claro que em minha lógica de mulher sabida e estudada, que se outorga emancipada e senhora de si, eu já me tinha feito há bem mais tempo. Mas, estar no “lanche das tias”, falando de assuntos de tantas de nós, sendo acolhida por elas como uma igual, me emocionou um bocado. Agigantou-me.

Foi um encontro com aquela parte de mim torneada pelas histórias de vida daquelas mulheres tão formidáveis. Seus anseios, frustrações, dúvidas, desejos, renúncias, conquistas, crenças também diziam respeito a mim. Porque de mim dizem.

Numa metáfora bem obvia e super clichê, mas tão precisa, foi como se elas estivessem me entregando um retalhinho pra que eu também fosse aumentando o quadrado da colcha que sempre as manteve unidas e fortalecidas ao largo das dificuldades, agruras, quebrantos e bem-aventuranças. Foi um momento de muita alegria!

Lá estava eu, naquela espécie de maçonaria às avessas, na qual somente mulheres são bem vindas, sem grandes segredos seculares para esconder, mas ao mesmo tempo, sim. Algo só delas. Algo só nosso.

#KDMulheres: questionamento e ocupação

Foto de arquivo da página do "Kd Mulheres?"

Foto de arquivo da página do “Kd Mulheres?”

Vi o “KD Mullheres?” nascer. Estive com Laura Folgueira e Martha Lopes, suas criadoras, na praça da Matriz de Paraty no ano passado, questionando por que tão poucas escritoras participavam das mesas principais da Flip-Feira Literária Internacional de Paraty. Em 2014, apenas 15% dos debates na Tenda dos Autores contavam com mulheres. De todas as edições da Flip, apenas uma escritora brasileira foi homenageada até hoje: Clarice Lispector.

E, mais uma vez, estive com elas esse ano fazendo a mesma pergunta. Dessa vez, na Flip Zona (destinada a um público mais jovem), quando Laura e Martha participaram de um debate, junto com a cantora Karina Buhr, sobre a presença da mulher na literatura.

Que lógica é essa que faz com que menos mulheres sejam publicadas, resenhadas e premiadas? Por que o perfil do autor mais publicado no Brasil é homem, branco, que mora nas grandes cidades? Por que isso não nos surpreende? Por que mulheres são mais inseguras pra mostrar seus escritos e se assumirem escritoras? A representatividade importa?

Que lógica é essa que faz com que, ano após ano, menos de 20% das mesas principais de um evento como a Flip sejam ocupadas por mulheres, mesmo quando o próprio evento abre sua programação pra discutir o assunto?

Sigo com a provocação de Martha Lopes martelando na cabeça: quantos livros de homens e quantos de mulheres você tem em sua estante? E fico com a constatação de Laura Folgueira: quanto mais a hierarquia sobe, menos mulheres ocupam postos de comando. Isso em praticamente qualquer indústria. Na do mercado editorial parece não ser diferente.

Portanto, é preciso mais mulheres liderando editoras e curadorias de feiras literárias, é preciso mais mulheres selecionando “livros do ano” em jornais e revistas (ou o que venha depois disso, quando os jornais e revistas deixarem de existir). Quem sabe, assim, as coisas começam a se ajustar.

Falo mais sobre o debate, aqui, no Blogueiras Feministas.

Abaixo, prosa minha publicada no zine do “KD Mulheres?”, que abriu um concurso para autoras e ilustradoras participarem da publicação que elas produziram pra Flip 2015. Foram selecionados 16 contos e poesias e três ilustrações, incluindo essa sereia maravilhosa da capa, gorda e com mamilos! <3

Prado

E tem essa agonia. Esse desejo, essa pulsão. Palavras a eleger. E essa malquerença da escolha. O que é de certeza, o que é passageiro, o que morre. E esse medo (da morte) sem transcendência. E se ninguém gostar, se ninguém quiser, se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Bate como eco. Badalando na cabeça, naquele barulho seco e contínuo. Tum, tum, tum. Se ninguém quiser. Tum, tum, tum. Se ninguém lembrar. A vontade de não ser apenas pó. Falo nem de vaidade. Mentira. Falo, sim. Que tanto transitórias somos. Que são palavras se não plasmadas? Se guardadas, existem? E soltas por aí. Emprestadas. Se em fuga. São nossas? E se me canso antes mesmo de sabê-las. E chupá-las. Com limão e tequila. No ácido da casca. Lá, onde se pode chorar. Lambendo o que escorre pelo punho até o cotovelo. Aff. Quem alcança o cotovelo? E a palavra ali, do cotovelo pingando pro chão. E eu querendo prendê-la na axila. Apelando pra mesóclise, dar-lhe-ando perfumes embaixo do sovaco. Mas, a palavra, essa malina, corre ali pro canto da mesa. ‘Inda me precipito por ela e bato o dedinho na quina da cadeira. E paro no meu desassossego. Merda. Que sei eu sobre dor virar poesia? Se nem de clichê a encontro. A palavra me acena de longe. Debochada. E me mostra a língua. Mal educada. Faz orelha de burro e tatibiteia lá-lá-lá-lá-lá. Desgraçada. Quantas vezes não quis que fossem minhas “Mulher é desdobrável. Eu sou.” Quanto já não quis ser Adélia. Que ainda quero. Acendo vela pra ela, faço reza pra ela. Promessa. Sinal da cruz. Ajoelho nos pés dela. Sã Adélia. Te devoto minha sanha. A palavra volta. Sirirca. Falsa! Mas. Deixa-me usá-la. Numa ênclise. Adélia, minha santinha. O milagre!

Amém.

Vestida de onça pintada

mulhertigre1

Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no sertão de Minas Gerais. Conhecida como “Mulher-Tigre”, na verdade, ela é mesmo uma onça! Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, “inclusive nas peças íntimas”, me contou safadinha, da vez que conversamos.

“Me vestir assim é minha missão de vida”, disse, sem entrar em detalhes e me deixando mais atiçada ainda. A lenda que corre é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Belo dia, esse homem, metido a caçador, teria saído pela mata e sido engolido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Até tentei confirmar isso que me parece uma história pra lá de instigante. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando “personagens curiosos” da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e “piada” homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o “mais adequado” a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

mulhertigre2

E por mais que eu fique tentada a dessa história escrever um conto, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte de alguns? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Ainda que seja amada na cidade, porque é, nem sempre as pessoas se abstêm da ironia ao se referir ao seu estilo.

O que me consola, nesse caso, é que ela não parece se importar nadinha com a opinião alheia. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse machista e do texto barato e continua se mantendo fiel às suas escolhas de moda.Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da “Mulher-tigre” ou ‘mulher onça”. Qualquer um sabe.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares do mundo. Em um desses livros, me disse, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada.

“Mais valente que o leão!”

Do respiro preciso

Tem sido mesmo dias difíceis pra gente. Notícias arrasadoras, desassossegos, essa sensação que a gente anda mais retrocedendo que avançando. E amigues se estapeando nas redes sociais. E amigo que apela pra agressão pra te calar.  E debates arrogantes, fulanizadores, sem empatia.

E fica todo o mundo contando com o meteoro pra acabar com a bagaça e ver se a gente ressurge melhor. Ou nem ressurge. Que venham outros nós, outros eus, outros eles e elas. Conversa vai, conversa vem, a vontade é de pegar ali o bonde da Mafalda e descer do mundo. Fui.

Mas, aí. Na última terça (9), num colégio particular, de origem bem conservadora e ainda com proposta pedagógica bem convencional, estava eu. Com mais duas companheiras e amigas da Casa de Lua pra realizar uma roda de conversa sobre gênero com alunos do fundamental.

No começo, foi estranho. Calado. Até levamos uns vídeos de youtube, meio que pra animar, mas ninguém fazia perguntas. Ai, as perguntas! Pressão de professor. Nervoso de aluno. E a gente, nem uma coisa nem outra, ficava ali esperando… o meteoro, talvez?

E, de repente, ela levanta a mão e chama atenção pro tratamento que certas mídias estão dando pra Caitlyn Jenner. E foi um comentário tão acurado, sensível, com tantos cuidados no uso dos pronomes e dos artigos, tantos cuidados em não apelar pro fácil e transfóbico “era homem e virou mulher”, que já me empertiguei na cadeira.

Opa! Pensei. Vem lindeza por aí. E veio mesmo.

De onde veio essa vieram outras. Colocações interessadas, pertinentes e, principalmente, empáticas sobre pessoas trans. Sobre a equivocada e desonesta expressão “feminazi”. Sobre assedio. E o menino que quis entender por que mais pessoas não se assumem feministas. E se mudássemos o sufixo? Propôs. Sim, o sufixo. Ismo. Não o prefixo. Achei fofo. Não entendi nadinha, verdade. Mas, achei interessado. De quem anda pensando no assunto.

E saí da escola mais felizinha. Menos desalentada. Fiquei pensando em projetos e conversas que podemos desenvolver nas salas, nos pátios, parques e pistas de skates. Ainda que tenha gente que não queira deixar. Porque coisas boas vão acontecer, e já acontecem, a despeito das almas sebosas. Eu vi. Que tem gente linda e interessada. Que quero ser amiga deles.

cabelonomundo

E tem a Diane Lima (que conheci no TEDx Women) e a avó dela, que respondia pra mãe de Diane quando esta queria usar o cabelo solto, “se a menina quer usar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo!”

Ô gente. Tem coisa mais sabida que isso? Avós. As amo.

#deixaocabelodameninanomundo

E, de repente, descubro que Elza Soares quer retocar a fênix que tatuou na batata da perna “porque sou uma delas, estou sempre renascendo de alguma coisa.” Ela simplesmente vai lançar um disco (justo com este nome!): “A Mulher do Fim do Mundo”, com músicas sobre sexo, morte e negritude.

Essa mulher, gente.

Essa mulher que decidiu que seu momento é se resolver com ela mesma. “Estava no quarto, sozinha, escutando Chet Baker, e falei: ‘Elza, quer casar comigo?’ A Soares disse: ‘Por enquanto, não.’”

Desculpa. Permaneço por aqui até saber de cor todas as músicas do novo CD. É que Diane, a avó de Diane, as meninas e os meninos do colégio ainda fazem essa bagaça valer a pena. Sei que a vida real anda ingrata. Mas, fico me apegando ao fato de que essas pequenas histórias também são vida real.

E ainda tem Elza. Elza existe. Elza renasce. Elza está aqui. Estou com ela.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...