Sobre Vanessa Rodrigues

Jornalista e contadora de causo.

#KDMulheres: questionamento e ocupação

Foto de arquivo da página do "Kd Mulheres?"

Foto de arquivo da página do “Kd Mulheres?”

Vi o “KD Mullheres?” nascer. Estive com Laura Folgueira e Martha Lopes, suas criadoras, na praça da Matriz de Paraty no ano passado, questionando por que tão poucas escritoras participavam das mesas principais da Flip-Feira Literária Internacional de Paraty. Em 2014, apenas 15% dos debates na Tenda dos Autores contavam com mulheres. De todas as edições da Flip, apenas uma escritora brasileira foi homenageada até hoje: Clarice Lispector.

E, mais uma vez, estive com elas esse ano fazendo a mesma pergunta. Dessa vez, na Flip Zona (destinada a um público mais jovem), quando Laura e Martha participaram de um debate, junto com a cantora Karina Buhr, sobre a presença da mulher na literatura.

Que lógica é essa que faz com que menos mulheres sejam publicadas, resenhadas e premiadas? Por que o perfil do autor mais publicado no Brasil é homem, branco, que mora nas grandes cidades? Por que isso não nos surpreende? Por que mulheres são mais inseguras pra mostrar seus escritos e se assumirem escritoras? A representatividade importa?

Que lógica é essa que faz com que, ano após ano, menos de 20% das mesas principais de um evento como a Flip sejam ocupadas por mulheres, mesmo quando o próprio evento abre sua programação pra discutir o assunto?

Sigo com a provocação de Martha Lopes martelando na cabeça: quantos livros de homens e quantos de mulheres você tem em sua estante? E fico com a constatação de Laura Folgueira: quanto mais a hierarquia sobe, menos mulheres ocupam postos de comando. Isso em praticamente qualquer indústria. Na do mercado editorial parece não ser diferente.

Portanto, é preciso mais mulheres liderando editoras e curadorias de feiras literárias, é preciso mais mulheres selecionando “livros do ano” em jornais e revistas (ou o que venha depois disso, quando os jornais e revistas deixarem de existir). Quem sabe, assim, as coisas começam a se ajustar.

Falo mais sobre o debate, aqui, no Blogueiras Feministas.

Abaixo, prosa minha publicada no zine do “KD Mulheres?”, que abriu um concurso para autoras e ilustradoras participarem da publicação que elas produziram pra Flip 2015. Foram selecionados 16 contos e poesias e três ilustrações, incluindo essa sereia maravilhosa da capa, gorda e com mamilos! <3

Prado

E tem essa agonia. Esse desejo, essa pulsão. Palavras a eleger. E essa malquerença da escolha. O que é de certeza, o que é passageiro, o que morre. E esse medo (da morte) sem transcendência. E se ninguém gostar, se ninguém quiser, se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Bate como eco. Badalando na cabeça, naquele barulho seco e contínuo. Tum, tum, tum. Se ninguém quiser. Tum, tum, tum. Se ninguém lembrar. A vontade de não ser apenas pó. Falo nem de vaidade. Mentira. Falo, sim. Que tanto transitórias somos. Que são palavras se não plasmadas? Se guardadas, existem? E soltas por aí. Emprestadas. Se em fuga. São nossas? E se me canso antes mesmo de sabê-las. E chupá-las. Com limão e tequila. No ácido da casca. Lá, onde se pode chorar. Lambendo o que escorre pelo punho até o cotovelo. Aff. Quem alcança o cotovelo? E a palavra ali, do cotovelo pingando pro chão. E eu querendo prendê-la na axila. Apelando pra mesóclise, dar-lhe-ando perfumes embaixo do sovaco. Mas, a palavra, essa malina, corre ali pro canto da mesa. ‘Inda me precipito por ela e bato o dedinho na quina da cadeira. E paro no meu desassossego. Merda. Que sei eu sobre dor virar poesia? Se nem de clichê a encontro. A palavra me acena de longe. Debochada. E me mostra a língua. Mal educada. Faz orelha de burro e tatibiteia lá-lá-lá-lá-lá. Desgraçada. Quantas vezes não quis que fossem minhas “Mulher é desdobrável. Eu sou.” Quanto já não quis ser Adélia. Que ainda quero. Acendo vela pra ela, faço reza pra ela. Promessa. Sinal da cruz. Ajoelho nos pés dela. Sã Adélia. Te devoto minha sanha. A palavra volta. Sirirca. Falsa! Mas. Deixa-me usá-la. Numa ênclise. Adélia, minha santinha. O milagre!

Amém.

Vestida de onça pintada

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Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no sertão de Minas Gerais. Conhecida como “Mulher-Tigre”, na verdade, ela é mesmo uma onça! Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, “inclusive nas peças íntimas”, me contou safadinha, da vez que conversamos.

“Me vestir assim é minha missão de vida”, disse, sem entrar em detalhes e me deixando mais atiçada ainda. A lenda que corre é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Belo dia, esse homem, metido a caçador, teria saído pela mata e sido engolido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Até tentei confirmar isso que me parece uma história pra lá de instigante. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando “personagens curiosos” da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e “piada” homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o “mais adequado” a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

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E por mais que eu fique tentada a dessa história escrever um conto, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte de alguns? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Ainda que seja amada na cidade, porque é, nem sempre as pessoas se abstêm da ironia ao se referir ao seu estilo.

O que me consola, nesse caso, é que ela não parece se importar nadinha com a opinião alheia. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse machista e do texto barato e continua se mantendo fiel às suas escolhas de moda.Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da “Mulher-tigre” ou ‘mulher onça”. Qualquer um sabe.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares do mundo. Em um desses livros, me disse, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada.

“Mais valente que o leão!”

Do respiro preciso

Tem sido mesmo dias difíceis pra gente. Notícias arrasadoras, desassossegos, essa sensação que a gente anda mais retrocedendo que avançando. E amigues se estapeando nas redes sociais. E amigo que apela pra agressão pra te calar.  E debates arrogantes, fulanizadores, sem empatia.

E fica todo o mundo contando com o meteoro pra acabar com a bagaça e ver se a gente ressurge melhor. Ou nem ressurge. Que venham outros nós, outros eus, outros eles e elas. Conversa vai, conversa vem, a vontade é de pegar ali o bonde da Mafalda e descer do mundo. Fui.

Mas, aí. Na última terça (9), num colégio particular, de origem bem conservadora e ainda com proposta pedagógica bem convencional, estava eu. Com mais duas companheiras e amigas da Casa de Lua pra realizar uma roda de conversa sobre gênero com alunos do fundamental.

No começo, foi estranho. Calado. Até levamos uns vídeos de youtube, meio que pra animar, mas ninguém fazia perguntas. Ai, as perguntas! Pressão de professor. Nervoso de aluno. E a gente, nem uma coisa nem outra, ficava ali esperando… o meteoro, talvez?

E, de repente, ela levanta a mão e chama atenção pro tratamento que certas mídias estão dando pra Caitlyn Jenner. E foi um comentário tão acurado, sensível, com tantos cuidados no uso dos pronomes e dos artigos, tantos cuidados em não apelar pro fácil e transfóbico “era homem e virou mulher”, que já me empertiguei na cadeira.

Opa! Pensei. Vem lindeza por aí. E veio mesmo.

De onde veio essa vieram outras. Colocações interessadas, pertinentes e, principalmente, empáticas sobre pessoas trans. Sobre a equivocada e desonesta expressão “feminazi”. Sobre assedio. E o menino que quis entender por que mais pessoas não se assumem feministas. E se mudássemos o sufixo? Propôs. Sim, o sufixo. Ismo. Não o prefixo. Achei fofo. Não entendi nadinha, verdade. Mas, achei interessado. De quem anda pensando no assunto.

E saí da escola mais felizinha. Menos desalentada. Fiquei pensando em projetos e conversas que podemos desenvolver nas salas, nos pátios, parques e pistas de skates. Ainda que tenha gente que não queira deixar. Porque coisas boas vão acontecer, e já acontecem, a despeito das almas sebosas. Eu vi. Que tem gente linda e interessada. Que quero ser amiga deles.

cabelonomundo

E tem a Diane Lima (que conheci no TEDx Women) e a avó dela, que respondia pra mãe de Diane quando esta queria usar o cabelo solto, “se a menina quer usar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo!”

Ô gente. Tem coisa mais sabida que isso? Avós. As amo.

#deixaocabelodameninanomundo

E, de repente, descubro que Elza Soares quer retocar a fênix que tatuou na batata da perna “porque sou uma delas, estou sempre renascendo de alguma coisa.” Ela simplesmente vai lançar um disco (justo com este nome!): “A Mulher do Fim do Mundo”, com músicas sobre sexo, morte e negritude.

Essa mulher, gente.

Essa mulher que decidiu que seu momento é se resolver com ela mesma. “Estava no quarto, sozinha, escutando Chet Baker, e falei: ‘Elza, quer casar comigo?’ A Soares disse: ‘Por enquanto, não.’”

Desculpa. Permaneço por aqui até saber de cor todas as músicas do novo CD. É que Diane, a avó de Diane, as meninas e os meninos do colégio ainda fazem essa bagaça valer a pena. Sei que a vida real anda ingrata. Mas, fico me apegando ao fato de que essas pequenas histórias também são vida real.

E ainda tem Elza. Elza existe. Elza renasce. Elza está aqui. Estou com ela.

 

Do que precisa ser dito. E do quanto doi.

Imagem da campanha "Jovem Negro Vivo", da Anistia Internacional

Imagem da campanha “Jovem Negro Vivo”, da Anistia Internacional

Acho que o fato mais inusitado que me aconteceu essa semana foi falar num TEDx. De repente, depois de um convite nos últimos minutos do segundo tempo, me vi em cima do palco desse evento badalado, que corre o mundo, no qual você tem que mandar sua mensagem em alguns minutos, agradecer e implorar internamente para que sua fala tenha sido suficientemente inspiradora pra receber alguns aplausos e, quem sabe, até tocar as pessoas.

Dessa experiência, poderia discorrer sobre vários aspectos. Sobre o que é falar num TEDx, ainda mais nesse, com recorte de gênero: TEDxSãoPaulo Women, que acontece no mesmo dia em vários países. Poderia falar do que é palestrar no auditório lotado do Masp (Museu de São Paulo), onde você põe aí umas 500 pessoas sentadas.

Poderia falar do quanto foi emocionante ouvir e conhecer mulheres tão bacanas, generosas, engraçadas… Poderia até contar do conteúdo da minha palestra.

E até vai ser um pouco isso. Mas, também é outra coisa. Mais particular. Em resumo, o meu relato foi assim: contei da minha autoidentificação étnica, da epifania que representou uma experiência específica de racismo que vivi com o meu filho mais velho e finalizei falando do genocídio de nossos jovens negros.

Segundo dados da Anistia Internacional, todos os anos morrem 30 mil jovens no Brasil. Desses, 77% são negros. O que dá mais de 23 mil jovens negros assassinados anualmente.

São 64 por dia. Mais de dois por hora.

Por que permanecemos em silêncio diante desse genocídio? Por que não estamos protestando, nas ruas, com indignação? Como podemos deixar de ser cúmplices desse extermínio? O que podemos fazer pra criar uma sociedade mais acolhedora, amorosa e livre de preconceitos para nossos jovens negros?

E aí, na noite de quarta-feira (27), véspera do TEDx, fui conversar com o meu filho mais velho sobre o evento, o que ia falar, etc e tal. Afinal, ele tem sido minha inspiração quando abordo esse tema.

Pois durante a conversa, me dei conta que falar essas coisas pra 500 pessoas (além daquelas que acompanham na transmissão online) é até fácil. Difícil mesmo é falar com o meu filho.

Como dizer a um adolescente que, todos os dias, ao sair de casa, ele está vulnerável e exposto a diversas formas de violência, incluindo o risco de morte, já que a despeito de sua condição social, o racismo não poupa ninguém?!

Quando vi, estava minimizando meu conteúdo ou usando mil eufemismos pra narrá-lo. Parecia que eu estava guardando minha assertividade apenas pra plateia do TEDx. Com ele, falei tranquilamente da primeira parte até o episódio de racismo que vivemos juntos (quando o segurança de uma doceria famosa aqui em São Paulo o retirou pelo braço do local), mas, fui ficando mais genérica, sem entrar em muitos detalhes sobre o extermínio.

É muito, muito duro mesmo dizer isso. Terminei a conversa reiterando o quanto adoro e tenho orgulho de seu cabelo black e que ele é lindo. Porque, de fato, é. Mas, naquele momento, talvez pelas emoções já afloradas pela tensão da palestra, não consegui ser mais específica. Não é fácil.

Perguntei se estava tudo bem pra ele que eu contasse a história da doceria publicamente, nesse contexto. Ele me devolveu um sorriso orgulhoso e cúmplice, respondendo:

“Só não divulga a minha foto!” Vontade, bem que eu tive. 😉

Aproveita e acesse a campanha da Anistia Internacional “Jovem Negro Vivo”. Assine o manifesto!

A música é porque ele pediu!

História de vó

Quando eu era criança, tinha tanto medo de que ela morresse que, todas as noites, antes de dormir, pedia pra ir antes, porque do contrário eu não ia aguentar. Minha avó Maria sempre foi uma das pessoas que mais amei na vida. Doce, divertida, carinhosa, tímida. E, ao mesmo tempo, firme, debochada, capaz de bons ardis pra conseguir o que queria.

Das histórias que adoro, uma das preferidas é a de seu voto escondido no PT do final dos anos 80, ainda que meu avô, fundador do Arena (!!!)  em Pirapora, minha cidade natal, estivesse crente que podia escolher por ela. Não podia. Ela sorria e aquiescia, mas na urna, sozinha, foi soberana e autônoma em sua escolha.

Não era especialmente quituteira. Não era dessas. Mas, sempre fez o melhor pão de queijo de todos! E um pavê de abacaxi maravilhoso, para ocasiões especiais. E nas vezes que não tinha nada em casa pra oferecer pras visitas, aparecia com uma jarra de limonada e bolacha de água e sal.

Uma vez, tentou me ensinar a fazer crochê. Tadinha. Tarefa insana e inútil. Nunca aprendi. Que nem ela era boa na função. Minha avó não era exatamente uma mulher prendada. Mas, me ensinou outras coisas. Coisas da vida. Reflexões atávicas sobre o racismo que sofreu, de tantas maneiras perversas, e que muitas vezes ela nem sabia bem o que era, embora soubesse que machucava. Que humilhava. Disso, ela nunca teve dúvida.

Lembro de histórias soltas, frases cruéis, que não repito porque não consigo. Lembro de algumas coisas…

E me lembro também de quando ela se juntava com seu irmão, meu tio Gino, e contava casos e cantava canções de antepassados que viveram em senzalas. Histórias que ela ouvia da própria avó, que foi quem a criou e a seus irmãos. E eu, tão criança, nem sabia direito o quão solene era aquele momento. O quão fundamental seria para a escrita da minha própria história.

Dizia-me “intiligente” e me mandava ler em voz alta os livrinhos das edições Paulinas, que ela assinava desde sempre. Achava bonitinho me ver pequena “lendo tudo certinho”. Não me catequizou. Mas, certamente, ajudou muito em minha oratória.

E me levava para o asilo público da cidade toda semana pra conversar com as velhinhas. Dando-me, do jeito dela, uma aula de generosidade, gentileza, entrega e um pouco de porvir. Tinha uma que colecionava bonecas. E aquilo me assustava. E me fascinava. Ficava pensando naquela senhorinha brincando com elas, e parecia não combinar. Realmente, eu não sabia de nada.

Minha avó também me deixava comer uva verde da parreira do quintal. Com sal. E depois me dava uma colher de ruibarbo, pros vermes. Era tão ruim, que chegava a ser bom. No final, virou um ritual nosso, só amargo no sabor na colherada. Remédio pros vermes também era carinho.

Uma vez, comentei que gostava de doce de figo. Coisa que só descobri grande, porque figo não era fruta comum em Pirapora na minha infância. E ela passou a me esperar com uma compota quando eu ia de férias. Às vezes, uma compota pequenininha, que cabia numa xícara, porque ela nem encontrava tanto figo assim. Mas, estava lá. Me esperando.

Com ela aprendi a palavra “malinar”. Dizia “menina malina!”, sem saber que ralhando fazia poesia.

Se estivesse viva, teria feito 93 anos no dia 9 de maio. Morreu tem quase 1 ano. Já eu, fico aqui, lembrando dos últimos anos, quando ela foi deixando a memória de lado, mas permitindo aflorar aquela rebeldia incubada, de quem sublimou tanto, por tantos anos. Os palavrões. Ah.

Acabei de voltar de Minas. A primeira vez, depois que a enterramos. E também a primeira vez que estive lá e não fui em sua casa, vê-la. Porque. E nessa vontade constante de contar historias de mulheres, quis falar um pouco sobre a minha avó.

 A música é porque ela adorava!!!

Abuso não será discurso

Foto de Miroslav Tichy

Foto de Miroslav Tichy

E foi noite dessas, num restaurante com meus dois filhos, que entabulei uma conversa simpática com uma mulher (porque tudo foi dito na simpatia e no bom humor) que acabou me derrubando ao final: “você só tem meninos, né? Eu também. Três meninos. E ainda quero adotar mais um…”

“Outro menino?”, perguntei, educada.

“Ah, sim. Menina dá muito trabalho. Vejo por aquelas que aparecem batendo no meu portão…” E, se virando para o meu filho de 13 anos, completou: “Por isso, abusa, viu?! Abusa mesmo das meninas porque tá sobrando!”

Nada disse. Saímos de lá, conversei rapidamente com o Mateus sobre o ocorrido, mas, só pensava mesmo naquilo que continua latente, na base de tantos discursos e atos de violência contra mulher que sabemos, presenciamos e vivemos.

Por favor, eu pensei, que venham tempos que meninas não sejam consideradas um fardo. Que os estereótipos de gênero que fundamentam as proibições sobre elas e as permissões a eles caiam.

Que meninas possam buscar amigos, namorados ou flertes sem que isso legitime abuso. Que elas possam fazer isso sem constrangimento, com segurança e bom humor e que sejam recebidas com respeito.

Que a palavra abuso não seja trivializada numa anedota debochada. Que eu sequer precise explicar ao meu filho que a gente não abusa das pessoas, em hipótese alguma, porque essa possibilidade sequer será considerada. Não será parte de um conselho.

Porque ninguém mais será educado a acreditar que algumas pessoas merecem.

Nunca.

(Não) sendo feminina

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Tem aquela coisa de ser delicada, ne? ~ Feminina ~. Nunca fui. Especialmente nos gestos. Quer dizer, acho até que correspondo a alguns estereótipos, mas sempre no exagero, na retumbância: um batom vermelho aqui, uma unha roxa acolá, um cabelão cacheado todos os dias…

Mas, gestual contido e fino não esperem de mim. Falo alto, rio alto, piso forte, sou desajeitada e desastrada (“tímida e espalhafatosa…”), torço o pé até de chinelo havaiana parada na fila do banco e ainda quebro copos, derramo bebida na roupa alheia (sem-pre!). E, bom, de vez em quando, cometo gafes.

Daí que quando eu tinha 10 anos minha mãe resolveu me matricular no balé pra ver se eu ficava mais “delicada”. E com minhas coxas grossas tinha eu que me esforçar pra fazer o pliê sem deixar uma roçar na outra e ainda fazer de conta que era magra.

Não fiquei mais de dois anos por lá. Menos pela compleição física e mais por não conseguir dançar em conjunto mesmo. Eu simplesmente não consigo fazer passo marcado, coreografado.

Não sei dançar em bloco.

Mas,  sem querer desistir da dança, sai do balé e fui pro jazz. O desajeitamento não mudou muito, mas com o passo rápido dava pra me embolar no meio da muvuca e enganar. Cheguei a me apresentar na 2a fila. Só no carão. E na coxona. Yes!

Até que um dia…

Dancei. Sai do palco, fui pra trás do cenário, subi numa mesa pra ver melhor a coreô seguinte e… fomos eu, a mesa, o cenário, a minha cara… tudo pro chão! Morri de vergonha. Muita mesmo. Quis morrer. Mas, ao mesmo tempo, me dei conta que eu não tenho jeito. Tipo isso: não sou jeitosa.

Aí, sim, comecei a me saber de verdade.  O impacto disso só percebi bem mais tarde, mas ao menos comecei a me entender melhor…

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

E quando teve aquela entrevista de trabalho amarrei tudo de uma vez. Encontrei uma conhecida na recepção e nos cumprimentamos com entusiasmo.

Na hora da entrevista, a recrutadora me disse, algumas vezes, em tom de reprovação, que eu falo muito alto. E foi tudo ladeira abaixo a partir disso. Falar com vocês que nem me esforcei muito em mudar a impressão. Seria mentira. E, de posse do meu entendimento sobre mim, senti um cansaço enorme.

Porque é isso, né. Temos que falar baixo, não gargalhar, não falar palavrão, não nos embebedar, não arrotar, não peidar… A vida resumida aos “bons modos”, à “classe” e sorrisos doces e simpáticos, de preferência.

E vai ficando pior quando saímos dos trejeitos engraçadinhos e entramos mesmo nas características que fazem com o que seja visto como positivo num homem seja altamente criticado numa mulher. Autoconfiança x arrogância. Firmeza x grosseria. Liderança x centralização. E por aí.

Inclusive, me pergunto, fosse eu um homem cumprimentando de maneira entusiasmada e expansiva um amigo que encontrasse por acaso, seria meu tom de voz um dado percebido? E, se fosse, visto como negativo?

(Pausa prum suspiro)

Falar com vocês que este texto ainda tinha mais coisa e eu cortei pra não virar (mais) textão (ainda). Mas, nem só por isso. Tô aqui me perguntando quantas vezes eu mesma já li textos sobre estereótipos de gênero antes.

E quantos mais ainda lerei pela vida. Tantos, né?!

Às vezes, não sei. Me canso disso tudo e quero só assistir novela. Mas, aí, me lembro que na das nove mulher que gosta de sexo é patologizada e vira “ninfomaníaca”. E depois desvira.

E rio de minha ingenuidade. Tem como ficar alheia? Vamos nessa, então, sendo a chliquenta monotemática!

Pelo gozo

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Da série “Osmosis”, de Alvin Booth

Entrei no vagão cheio e me encostei na primeira barra que vi pela frente. Do meu lado, um casal de trelelê. Ao menos, assim entendi. Ele, mais alto, com os braços levantados se segurando na barra de cima. Ela, baixinha assim que nem eu, meio que encostada na outra barra vertical. Ou não. Pensando melhor, acho que ela se equilibrava nas duas pernas mesmo, pra não ficar muito longe dele.

E nesse meu voyeurismo diário, fiquei por ali, fingindo devaneio, mas ligada na conversa. Não era nada. Era de futebol, algo assim. Mas, não importava. Era o tom. Era a voz. Era o jogo de corpo. Era o olhar, o sorriso, o jeito como ele ia pra frente e pra trás, seguindo o meneio do trem enquanto falava com ela. E o jeito como ela levantava os ombros e olhava pra ele, daquele, aquecido.

E era tanto clima, tanta vontade de se tocar, tantas desculpas pra isso, pro roçar no braço, pras mãos no abdômen do outro pra não cair, e tantos olhares e línguas molhando os lábios, secos decerto, e eu ligada, sentindo eu mesma coisas minhas, doidinha com aquilo lá.

Que situação mais saborosa! Se pra mim, imagina pra eles.  Até que ficou assim:

“Você nunca me viu jogar…”, ele disse.
“Você nunca me convidou!”, disse ela.
“Você iria?”
E ela, sorrindo:
“Você nunca me convidou quando a gente namorava. Naquela época, valia mais!”

E ele riu de volta e reforçou o convite e eu quase vi um roçar de dedos na pele. Ou quis ver. Ou fiz uma prece. Pode ser. E me afastei, entendendo que aquilo era um prenúncio de um revival. Não um revival sentimental. Mas, o do outro amor. O da pica. O da buceta. Aquele que não passa, o que fica, aquele que dizem.

E sorri eu internamente, fantasiando que eles iriam sair dali e se pegar, que aquele clima não podia ficar só no vai-e-vem do trem, e que ia ser delicioso, porque já estava sendo.

Fiquei pensando se eles se encontraram por acaso na estação ou se marcaram pelo whatsapp. Se trabalhavam juntos ou perto ou se tinham desviado o caminho apenas pra viver a coincidência. Pensando se seria a primeira vez depois do rompimento.

Que eles estavam conversando também com doçura e amizade, o que, pra mim, indicava uma cumplicidade sem mágoas, sem necessidade de DRs, só aquilo lá mesmo. Um beijo, um sarro, uma trepada. Uma vontade. Ou não. Ou aquilo mesmo era que bastava: o desejo não realizado no vagão do metrô, que também pode ser bom, que também dá prazer, de um jeito assim, que quase doi. Mas, que doi bom. Na quentura do meio das pernas.

E que iriam continuar no dia seguinte.

E fiquei pensando naquela sábia que acumula amores, e que acumular amores e desejos nos oferece esses momentos assim, de pele pura no metrô, provocando quem assiste.

Que lembranças, que historias, que paixões podem ser relembradas, revividas, por apenas. Por elas. Pelo gozo.

Mulher, de histórias e existências

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

De repente me perdi e me achei no site do Museu da Pessoa, que criou um especial somente com historias de mulheres. Segundo o próprio site, “Mulheres guerreiras que com amor, fé, esperança, determinação e muita luta triunfaram sobre os mais diversos obstáculos impostos pela vida.” Puro encantamento, saberes tradicionais, conhecimento ancestral, orgulho, altivez, picardia, liderança, charme e sabedoria.

Acabei passando horas ouvindo os relatos dessas mulheres e lendo as informações mais detalhadas publicadas na própria página, num link logo abaixo. Como a historia de dona Raiumunda Nascimento, rezadeira, curandeira, descendente dos povos Tremembé, mas também reconhecida como uma liderança do povo Tapeba. “Não tenho vergonha da minha historia.” Também me perdi e me achei com a de Valdenice Santos, lavadeira, que embalava sua lida entoando cantigas que aprendeu dos mais velhos e, hoje, integra o grupo “As lavadeiras de Almenara”.

Pra mim, esse coral é uma escola e cantar no palco, no meio dos colegas, é como uma formatura. Hoje em dia eu dou valor a tudo o que eu fiz. Porque o que eu fiz não é nada perdido: trabalhar na roça, ser cozinheira, bom, graças a deus. Voltar a passar a ser lavadeira (…). Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique.

Ou mesmo a de Maria José Carvalho, liderança que se destacou na ocupação de terrenos vazios no bairro onde mora, de Vila Maria, em São Paulo. Ela narra o processo de organização das ocupações e de negociação do movimento. “Não há cidadania sem luta”.

E dona Maria da Paz da Silva, que saiu de um relacionamento abusivo e se apaixonou outra vez? “Pretendo viver o resto da minha vida com ele.”

Coisa linda pra mim é mulher contando sua própria historia. Mulher se reconhecendo também como protgonista de suas conquistas e perdas e dores e afetos. Pra mim, toda historia é formidável e toda vida é uma biblioteca inteira de sentimentos, de amor, de terror, de frases transcendentes, de finais felizes ou inquietantes, de vários epílogos que se misturam, viram prólogos e ressignificam narrativas.

Foi bem nessa toada que me lembrei do MAMU – Mapa de coletivos de mulheres. Criado por Maria Carolina Machado, é um projeto de mapeamento de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos brasileiros que têm como foco as mulheres, o feminino, o feminismo, nossos ciclos, ritmos, reivindicações e lugares na sociedade.

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Em seis meses de existência, o MAMU tem cerca de 190 pontos mapeados. “É fundamental perceber que ele nunca estará completo, não é a sua função”, me conta Carol. “A ideia é que o mapa seja dinâmico, aberto e vivo, pronto para incluir cada coletivo e projeto formado e encontrado.”

O foco é a mulher e suas demandas, seja a de um coletivo, um movimento social, um projeto, um espaço ou uma iniciativa individual. Carol recebe vários pedidos de inclusão, no entanto, como ainda executa e desenvolve o MAMU sozinha, reconhece que pode ser um processo lento. “O desejo é que, num futuro próximo, esse mapeamento seja participativo e, com apoio e incentivo, possamos contar também com uma equipe para que esse processo de pesquisa, mapeamento e inclusão seja mais rápido e acessível.”

A expectativa é que o MAMU não seja apenas uma plataforma de visualização de pontos. “Queremos que esses grupos, ao se reconhecerem espacialmente, percebam suas afinidades, diversidade e façam conexões entre si.” Por isso, ela prevê a criação de campanhas de sensibilização, articulação, encontros e cursos que fomentem discussões, redes de troca de serviços, escambos e desenvolvimento de projetos.

“Desejo também que seja inspirador e motivador para o encontro de mais e mais mulheres, e a formação de mais e mais grupos.”

Se você conhece e quer indicar algum coletivo, movimento etc, é só ir no Cadastro do site e preencher os dados. Eles servirão de base para o mapeamento.

Música de molhar a calcinha

Ensaio "Beleza Real". Foto de Bárbara Heckler.

Ensaio “Beleza Real”. Foto de Bárbara Heckler.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E nessa polêmica toda de “50 Tons de Cinza” estava era me lembrando que os livros têm trilha sonora. Se não me engano, fãs compilaram tudo, numa seleção clichê que inclui até “I’m on fire”, do Bruce Springsteen. Claro!

Mas, ó, nem critico, não. Provavelmente, é a menor das questões da trilogia. Sem falar que, né, este texto aqui também está beeem provido de lugar-comum. Inclusive, minha dúvida no momento é: tem como música de molhar a calcinha fugir tanto assim do obvio? Mesmo que você me apresente aquela canção delicinha de uma banda indie norueguesa, pode mesmo ser melhor que “Lets get it on”?

Ouquei. Admito que estou falando de trilha sonora de motel, que já provoca formigamentos pelas obvias ilações que sugere. Bota aí as de Sade, Nina Simone, Marvin Gaye, Al Jarreau, Billy Paul, que molho a calcinha com todas as versões algo meio cafonas de “Your song“. E seguindo o fluxo, há quem molhe com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan e outros com Bryan Ferry, por quê, não?

E há quem alucine com “Besame Mucho“. Adoro demais “Samba para ti“, do Santana, mas, piro mesmo é com “Fogueira“, de Rô Rô. E o que dizer de “Tatuagem“, especificamente com Elis? Ou “Ne me quitte pas“, com Maysa, que é de fossa, mas pra mim de sexo?

Cartas de amor são ridículas. Será o tesão igual?

Eu tinha muito siricutico sublimado quando dançava música lenta nos bailinhos da turma do colégio. E aquele negócio de o menino passar a mão nas costas, a dança inteira, só no alise, e a gente ir se chegando, esbarrando os quadris e a parte de baixo de quando em quando?

E quando a dança deixava de ser dança e virava mesmo um abraço e uma carícia entre o cabelo e o pescoço, ainda mais com salão escuro, segundos antes do beijo, que nem sempre vinha, as vezes era só o sarrinho acanhando e um cheiro no cangote? E era bom. Bom mesmo.

Duvidar, sou capaz de sorrir safada até hoje se ouvir “We’ve got tonight“, que fez parte da trilha sonora da novela mais bafo do meu comecinho de adolescência. E a vozinha atrevida que soltava aos 11, 12 anos, quando cantarolava, me fazendo de distraída, sussurrando no ouvido do coleguinha “wo-ho, let me see…”, que só anos mais tarde descobri que era mesmo “from all that we see”?

Porque, né. A gente entende o que dá conta de entender. E fala o que convém na ocasião, fazendo o maior virundum malicioso dentro daquela ingenuidade toda. Eu nem sabia direito o que queria “see”, mas o “let me” saia assim, com sorrisinho nervoso de canto de boca, num pedido espertinho escondido no verso equivocado da música. Sim, amigues, sou das antigas. Já molhava a calcinha antes mesmo de vocês terem nascido.

Enfim, a maioria disso tem um cenário, uma lembrança, uma pessoa no meio ou várias. Mas, também tem aquela música que a gente se arrepia só de ouvir, do nada, não porque lembre alguém ou alguma situação, mas pela canção em si. Não tem?

Tem uma que me enlouquece, pela música mesmo, por essa interpretação maravilhosa. Tesão absoluto. Nem tenho memória específica de nada com ela, de primeiro namorado ou transa épica. É que acho a música fodástica (ui!) de verdade. Bom, se bem que tem esses dois juntos, lindos, tesudos, cúmplices, se querendo. É. Tem isso.

Como não gosto de complicar e posso ser bem evidente nas historias, e esse texto aqui é sobre obviedades, afinal de contas, minha melhor música de molhar a calcinha é esta! A de sempre. A de muitxs. Porque nessa vida, minha gente, tudo o que é gostoso começa mesmo é com Chico Buarque de Hollanda.

Segura essa, Christian Grey!

O pentelho branco

O primeiro veio ao redor dos 30. Estava eu com um filho pequeno, morando em outro país, sendo a “mulher de alguém”, a “mãe de alguém”. Longe daquela com cartão de visitas com o nome impresso sobre um cargo qualquer que eu achava que merecia. Apenas partes de mim, pensava. E o tanto que eu achava que o cartão de visita me definia naquela época? E as outras coisas, não? E a cobrança sobre “ser estudada e não estar fazendo nada’”? Nem vou falar que fiz. Coisas. Tantas. Porque, né. A questão nem é essa.

Mas, era como se me começasse a faltar o frescor da juventude sem as benesses da maturidade. Sempre uma falta. Uma ausência. Uma perda. De ganho, metros de “senhora” pra cá e pra lá. Em mais frases do que eu estava preparada pra ouvir, por exemplo. E ainda vinha aquele pentelho branco me lembrando que até as bucetas ficam grisalhas!

Bom, mas, aí, chegaram os 40. Não que tenha sido assim, um despertar de um belo dia. Foi um indo, um acontecendo, que acontece ainda. Vai ver eu sou mesmo meio outonal… Mas, foi um olhar pro espelho e perceber que, obviamente, eu não era mais aquela. Aquela lá.  Aquela de antes. Em mais aspectos que na pele. Era eu e mais um pouco de mim. Era eu e um outro eu. E passei a não mais renegar o batom vermelho, que já tinha sido de mim antes. Parece pouco. Mas, né, não. Vou nem explicar, é um simbólico meu. Ficamos assim, ok?

bocaperfil

E teve mais coisa. Junto com o batom, veio um me gostar do jeitinho mesmo que era eu. Com altos e baixos, não nego. Que ainda rondam. Às vezes, só na espreita. Às vezes, na cara dura! Ou até em velhos hábitos. Mas, foi pensar que o rosto aquele, com linhas de expressão, rugas, olheiras e o famigerado bigode chinês eram irremediavelmente meus. Eram o agora. O porvir. Ah, a inevitabilidade do envelhecer! Quem não envelhece morre, é o que dizem. E gostei de me saber aqui.

Fazer 40 foi uma hecatombe. Mas, coisa boa foi explodir por dentro e me refazer por fora. No batom colorido! No corpo que pariu 2 filhos, na boca com as linhas todas da vida grafadas nela. Nessa boca que beija, morde, chupa, de um jeito agora que não era assim antes. Na pele, no corpo que me cabe.

Justamente nesse momento em que por aí poderiam dizer que não sou. Pois foi justamente nesse então que mais me senti. E, finalmente, o inexorável me acalmou.

Escrevo esse texto dois dias antes de completar 43 e o publico nesse 13, dois dias depois do meu aniversario. Sei lá o que estarei pensando hoje, nesse hoje que nem me chegou ainda. Mas, se for parecido com o que senti na virada dos 40, olha. Nem te conto.

Bom, no final das contas, acho que agora posso fazer metáforas um tanto infames: porque aí vi que o pentelho branco, já no plural, dividindo irmanamente o espaço com os outros, é como o tempo. Não há muito que se possa fazer com ele a não ser abraçá-lo. Não se disfarça, não se tinge (ou sim? Consigo nem imaginar…). Pode até arrancar, mas ele insiste.

Ora, meu pentelho branco me representa. Resistente. Resiliente em seu renascimento, em como se multiplica, se mistura, se esparrama e vai se impondo. E, como tal, serei chupada, lambida, lambuzada, ora raspada, ora enroscada, aqui, acolá, em outro… Assim, diferente. Sem cor perto dos outros que ainda resistem. Na cor que a idade tem. O pentelho branco existe. Está. É.

Bunda que abunda ou qualquer outro trocadilho besta

Com a inenarrável,  imprescindível e indefectível coautoria de Bianca Cardoso

Em meio a estupores políticos e tremenda crise hídrica na cidade de São Paulo, incluindo ameaça de racionamento 5×2, foi a bunda da atriz Paolla Oliveira que quase quebrou as internetez na semana passada. Trending topic por dias, seja lá o que isso realmente signifique, o certo é que a bunda de Paolla desbancou até mesmo o eterno Luan Santana do topo do Twitter. Um bunda apenas. Não. Melhor me corrijo. Uma bunda nunca é apenas. Ou mesmo “uma”. É um conjunto, afinal vem com duas band…. Não, pera! Que srta. Bia me pediu pra superar as piadas do tio do pavê, que isso aqui é coisa séria. A bunda que reposiciona carreiras e eleva a status de estrela devassa e abundante a mocinha chata e insossa das novelas globais tem que ser tratada como a celebridade que merece. Transcendente. Até parece que nunca se viu bunda igual e nem Drummond faria melhor.

bundapaola

Tentei entrevistar a bunda de Paolla pra entender melhor esse fenômeno e saber se ela estava confortável nesse papel de musa. Mas, com toda a fama, ela nem tchuns pra mim e pra minha bunda comum e corriqueira. Acabei pegando mesmo a primeira que passou na minha frente. Uma bunda anônima, da voz rouca das ruas, mas que também almeja fama e sucesso. Enquanto espera convites e que reconheçam o talento das suas formas e meneios, resolveu expor sua posição (ui!) e suas opiniões sobre o bundalelê que tomou a TV brasileira nos últimos dias.

Algumas pessoas comentaram que a cortina fez toda a diferença para a atuação da bunda. Você concorda com isso?

Bunda: Acredito que a cortina seja uma boa parceira nas cenas diurnas. Ela traz aconchego quando a bunda precisa de calor e ao mesmo tempo evoca a transparência que está super na moda.

Quando a bunda sai de cena, ela continua presente no imaginário. Qual deveria ser o foco de Paolla em seu próximo papel?

Ah, o foco sempre deve ser no meio, ne? Pra respeitar o protagonismo das duas bandas da bunda. É importante que todo o conjunto se sinta confortável no papel, que a calcinha seja macia, que as partes da bunda e o cu sintam-se incluídos no processo. Afinal, uma bunda não faz sucesso sozinha, é um trabalho de equipe.

Você, enquanto bunda anônima, se sentiu mais representada na mídia?

Há muito tempo há bundas na mídia. Especialmente nessa época de carnaval. Não me sinto representada, pois a maioria das bundas anônimas não é tão perfeita como os filtros da mídia mostram. Nossa beleza está nos detalhes, no rebolado e na esperteza de muitas vezes ter um cu guloso.

A bunda anônima tem uma vida tranquila nas grandes cidades ou pensa em mudar-se para o interior?

A bunda, por mais anônima que seja, por mais pequena ou grande que seja, geralmente não tem muita paz. Porque no Brasil existe essa cultura de passar a mão na bunda, até sem querer, apesar de Gonzaguinha já ter dito que ninguém tá com ela exposta na janela. Então, não é fácil viver nas grandes cidades com todo assédio e os péssimos assentos do transporte público. Também não é fácil viver em eventos familiares com todas as piadinhas envolvendo legumes fálicos. Cada bunda sabe a dor e a delícia de ser o que é.

O cu diz que muito do sucesso da bunda, deve-se a ele. Como você vê essa crítica?

A história e a Anaconda de Nicki Minaj não me deixam mentir. Por mais que eu e o cu sejamos uma dupla infalível, há segredos profundos envolvendo essa parceria. Como ele tem fama de gostoso, só precisa fazer mistério para ter sucesso. Eu tive que me expor, ir a luta, dançar muito o É o Tchan para ser plenamente reconhecida.

A bunda que vai é a mesma bunda que vem? Ou todos os dias há novas experiências?

A bunda que vai e vem nunca é a mesma. A cada movimento, a cada requebrada, a cada rebolation, surge um novo hit do axé. Numa sociedade capitalista a bunda nunca deixa de ser explorada em toda sua solidez e liquidez. Como diz Zigmunt Bauman: “Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis […] um é segurança e o outro é liberdade”. Para uma bunda, tudo depende da cueca e da calcinha. Apesar de nos darem segurança, apenas sem elas há a verdadeira liberdade.

Qual a maior dificuldade que uma bunda enfrenta pra mostrar o seu talento?

Olha, pra mim, nossa maior dificuldade é segurar o cu. A gente tem visto tanta coisa esquisita ultimamente, que ele cai toda hora, ne? Pra botar no lugar depois dá o maior trabalhão.

 

 

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