Esse tempo presente

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É tempo de plantar

Baixinho, pra dentro, sem alarde

É tempo de deixar escorrer o rio

De transbordar pelas margens

E sonhar com flor

 

É tempo manso, sorrateiro, arredio

Da chuva que se derrama escandalosa

Das poças de lama nos pés

Do teu amor batendo na janela

E crescendo por entre as frestas, portas fechadas

Por todos os cômodos escuros

Por todos os campos vastos

Por todas as perguntas sem resposta

 

É tempo de trovão, clarão, braveza do céu fevereiro

De acalentar as rachaduras por baixo da pele

De festejar os ventos desavisados

De sorrir para a desordem nos sentidos, latentes,

Procurando caminhos de costurar a terra

 

É tempo de amor, bonita

De mãos dadas na memória do corpo

De gozo na memória do corpo

De desejo na memória do corpo

De encontro nas distâncias que somem quanto te penso,

Quanto te sinto,

Quando te vejo no inverso de mim.

 

Revoluciono-me,

Em todas as hipóteses que já joguei fora

E em todas as certezas que já não tenho mais

Em todos os escuros que me percorrem

E me contam que o medo

pode ser um impulso,

para dentro de mim.

 

Teu nome brilha

E eu acredito.

Acredito.

Desenho teu nome

Um par de asas

Um coração com flores

e um caminho até o mar.

 

Assim te espero.

E eu sei

Que você chega

O eu que eu não fui

O eu que eu não fui é uma entidade que me acompanha. Uma sombra fugidia. Quase uma lembrança. Alguma melancolia. Um breve piscar de olhos. Que de repente, pronto, passou.

Mas está ali e segue estando, esse eu que eu não fui. Que teria estudado – claro – letras. Teria pegado o ônibus por quatro anos para o fundão, ou, quem sabe, aprendido a dirigir.

Letras, para fazer pós-graduação em linguística. Lembrar do amigo Saussure, aquele da “lettre de De Saussure à sa femme” em que eu tinha achado tanta graça, vista em um museu perto de casa, quando eu nem sabia quem era De Saussure. Antes de ler o tratado dele como se fosse romance e receber olhares esquisitos dos mais-velhos em volta.

O eu que eu não fui iria morar fora, é certo. Morar fora de novo, reencontrar-se com a forasteira que mora dentro de mim e do eu que eu sou. Fora – na Europa, em Paris, provavelmente. Em um quartinho daqueles lá no alto, com montes de escada até chegar lá em cima. Em Paris, os cafés. A beira do Sena. Os livros usados. As praças e os parques. A rua. O cheiro de castanhas quentes no inverno. As crêpes. O eu que eu não fui teria gostado de morar em Paris, embora a saudade do Brasil não fosse embora nunca.

paris-cafeE, depois da pós, teria se demorado por lá, teria, quem sabe, conseguido dar aulas em uma universidade. O eu que eu não fui seria muito dedicada à carreira.

O eu que eu não fui não teria casado, não teria tido filhos: não exatamente por decisão, mas porque namorar é trabalhoso e difícil, estudar ocupa tempo, ter filhos…. Não teria acontecido, apenas.

Uma ponta de tristeza, talvez, mas rapidamente afastada: afinal, haveria amigos, viagens tantas, um trabalho cansativo mas recompensador. Os alunos, os colegas. Uma vida cheia de cores e de gentes. Uma vida gostosa, essa do eu que eu não fui.

Às vezes, a sensação do eu que eu não fui é tão forte que me pergunto o que estaria acontecendo agora com ela, que imagino que ela deve estar vivendo de verdade essa vida que eu não vivi em alguma realidade paralela.
A garganta aperta um pouco, mas sorrio de leve.

A eu que eu sou é tão diferente desta que eu tinha certeza que ia ser.
E nem fui.

Tá foda…

Tão difícil escrever… Tem sido assim: começa, apaga, rascunha, apaga, soletra, borracha, não sei. E volta para a página em branco, para o tempo em branco, para a ideia vazia. Tem sido assim e me pergunto e pergunto e pergunto: Por que?

Estamos todos fodidos. Mas, dito assim, fodidos em jeito negativo, “desexplica”. Porque no fundo no fundo estamos é não fodendo. Não há mais a foda, como a arte da troca, dos corpos, das salivas, dos sussurros, dos gemidos, dos palavrões em boa hora, dos suores – aaaaaahhhhh, os suores…. – das mãos nos seios, na bunda, no caralho, na buceta, no rego. Dos cheiros, do gosto de porra, do gosto de gozo, do melecado, do encharcado, dos lábios, do lábio…. dos láaaabios. A foda, sabemos, é sempre a primeira a sofrer: por causa da importância crucial em se controlar os corpos, querem sempre e sempre fiscalizar a foda. E surgem fiscais de sexo, de buracos, de cus, de xoxotas, de paus: sempre com pedras.

A faceta mais nociva dos autoritarismos é esta: o controle das fodas. Não, não de trata de imaginar que um mundo onde haja gente trepando ao ar livre em esquinas do mundo. Se trata, sim e sim, de dizer que a foda é tão humanamente importante… Perfume, sabor, dor, sim. É mais fácil colocar a foda como pecado. Porque assim controlamos a única coisa que, de fato, é nossa: o corpo. E podemos, então, garantir a ordem das coisas, o domínio das coisas, as coisas outras.

Não é a toa… nada é. Não falo de sexo, falo de fodas.

Um governo de gente branca, masculina, de ternos escuros. Que fode às escondidas. Que usa meias pretas enquanto trepa. E que lavam as mãos ato contínuo ao esporro, higiene na hora das trocas…. A imagem é esta…

E tem sido difícil escrever. Cada vez mais… porque faltam desesperadamente boas fodas….

 

 

 

Um Final Tranquilo

Por Mariana Varella, Biscate Convidada

Uma amiga terminou um relacionamento afetivo meio casual que já durava um tempo. Perguntei: “O que houve?”

Com a maior calma do mundo, ela me respondeu: “Eu me apaixonei por ele e ele queria outra coisa, então decidi que era melhor me afastar. Tô triste, mas tô bem”.

Uau! Nenhuma frase questionando seu valor, nenhuma tentativa de justificar a falta de envolvimento dele, zero manifestação de vontade de mudar o cara ou a situação.

Fiquei pensando no motivo da minha supresa. Não precisei ir longe: mulheres aprendem a avaliar seu valor com base na atenção e nos olhares masculinos que despertam ou deixam de despertar.

Somos criadas para sermos maternais, bondosas e compreensivas com homens que presumidamente não sabem externar sentimentos e precisam de acolhimento, a insistir e não desistir dos relacionamentos (não apenas amorosos, diga-se), por mais capengas que estejam.

Assim, uma suposta rejeição não é apenas dolorida, é sinal de que fizemos algo errado, de que não fomos ou somos boas o suficiente (não à toa, há quem saiba explorar isso com maestria).

Ver uma mulher incrível viver um término de relacionamento com tristeza, mas sem duvidar de si, colocando limites e compreendendo que tem relação que não rola e que não há motivos para romantizar desamor nem para valorizar a persistência que só serve para abalar a autoestima é maravilhoso. E, acreditem, era coisa rara até bem pouco tempo atrás.Fico muito contente em notar que cada vez mais mulheres estão compreendendo que tem hora que é preciso bancar a Elsa de “Frozen” e mandar um “Let it go”.

Assim, sem grandes implicações.

FotoMarianaMariana é formada em Ciências Sociais. Trabalha como jornalista da área de saúde, com foco em saúde da mulher. Editora do site Drauzio Varella e escritora do blog Chorumelas, é ativista feminista.

Cigana

Beija-me os olhos, meu amor. Faz-me adormecer. Meu corpo, saciado de teu corpo, encanta-se no perfume da tua presença. Beija-me as pernas, abertas para a vida que vem. Lambe-me, enquanto desfruto. Meus medos caídos das árvores que plantei no jardim de outrora. Maduros. Mastigo-os no furor da língua. Felpudos, carne entre os dentes. Líquido escorrendo por entre os dedos. Degusto cada pedaço, semente, germino. Estou pronta.

Beija-me a boca. Devagar, por cada sentença não dita. Coloca a língua leve, a me penetrar os lábios. Toma-me. Escorre água pelo meus seios, suor pelas minhas entranhas. Percorre meus pelos, sussurra-me aos ouvidos gemidos trêmulos de nós. Derrama-me. Faz colo nos meus ombros nus. Cola teus quadris nos meus, femininos, textura, gosto. Gosto. Encaixa-me em ti, vermelha, ardendo, presente em cada toque que se faz novelo. Deito-me inteira nas tuas mãos abertas. Contorna meu sexo pungente pela tua saliva. Morde-me. Minhas costas eretas a espera do teu arrepio.

Ecoa, é madrugada, a lua banha nossos corpos estirados de espanto. Despe-me, a alma que guardo nas entrelinhas. Aguça-me a poesia. Desagua teu gozo em mim, e tanto, torpor. Enamora-me, mais, à espreita dos grandes saltos. Salto. Cachoeira, rio cheio, corredeira. Lagoa calma depois da chuva. Mergulho, escuro, profundo, revelação muda de um lugar que ainda vem.

Penetra-me, de novo, cigana. Sou tua.

 A imagem pode conter: nuvem, céu, oceano, atividades ao ar livre, água e natureza

Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

carreira

Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

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Vento

Por Liliane Gusmão*, Biscate Convidada

No fim de um dia cinza, quente e abafado de inesperados mormaços recifenses, ele surgiu sutil e silencioso como surge o desejo. Derramando-se em carícias atrás das orelhas, em lambidas na nuca que arrepiam a pele, atiçam os bicos dos peitos arrebitados sedentos de outros carinhos.

Desejo que invade, e se aloja naquele canto obscuro no baixo ventre. Começa lá como uma pontada, um peso, uma angustia discreta que se expande, se espalha em ondas descendo por entre as pernas umedecendo languidamente a espera dolorida da incompletude.

Desejo que se fortalece, transborda e se despeja em arrepios pelo corpo em busca de consolo, de satisfação, de gozo. E seja em mãos hábeis, bocas quentes com línguas atrevidas, em brinquedos deliciosos ou na delícia quente de outros corpos. O desejo nos transforma de maré mansa em mar bravio, em maré cheia, em ressacas estrondosas, em ondas explodindo com penachos de água e espuma rasgando o ar ao chocar-se com as pedras do litoral.

E ontem ele chegou assim, de doce brisa quente embalando as folhas nos galhos das árvores transformou-se em trovão e tempestade e caiu sobre nós para aplacar os calores febris de excitação do verão. Caiu em chuva gelada e barulhenta na calha do telhado. Amanheceu em rajadas violentas assobiando sobre as copas das árvores que se dobram, mas teimosas resistem suas ferozes investidas. Afrontam-no como os peitos empinados e mamilos rijos que crescem mais e mais a cada toque.

O vento hoje trouxe com ele a antecipação, como o desejo doce. Trouxe a lembrança e o vislumbre do que vem por aí, e que já está ali dobrando a esquina. Lembrou-me de promessas de delícias envoltas em sombras, texturas cores e cheiros.

Lembrou-me que frente a ele, como ao desejo, podemos nos encolher com medo e esperar que passe, ou podemos impetuosamente desafiá-lo e nos entregar de braços abertos na busca do nosso gozo, nos deixar envolver pelo seu turbulento e poderoso abraço.

Hoje vi se desenhando um presságio deliciosamente dolorido, como o pulsante desejo no ventre. Hoje, escutando as rajadas do vento refrescante e implacável, vi em suas asas a silhueta das sombras e do frescor colorido do outono.

Hoje, sentindo o vento no rosto enquanto olhava as nuvens de chumbo passando apressadas senti a pontada daquela dor feliz e escutei nos sussurros das folhas o canto que não sei se ousarei dizer… Não sei se digo, mas, sinto meus olhos brilhando com a felicidade do reconhecimento, não sei se ousarei dizer essas palavras que jamais imaginei ser capaz de proferir e de reconhecer que, sim, outono querido você vem e está quase aqui, e, sim, senti tanto a sua falta e que, sim, estou com tantas saudades de você!

Liliane*Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 44 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna.

“Um público feminino tão grande” – Mulheres nas Olimpíadas

Por Cynthia Semíramis*, Biscate Convidada

“A gente não esperava um público feminino tão grande”, disse o organizador da fila pras mulheres passarem pelo detector de metais. Ouvi isso ontem enquanto tentava entrar no Mineirão para o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália.

Eu estava com todas as mulheres e crianças num espaço pequeno e cercado. Ouvimos hino nacional, ouvimos o início do jogo e não saíamos do lugar. A multidão só aumentava. Começaram os empurrões, tanto pra ir em direção à entrada quanto para voltar: quem chegou na frente descobriu que não havia gente para revistar e liberar a entrada, e aí queria voltar e achar outro caminho (a alternativa era ser esmagada na grade). Do outro lado, os homens gritavam pra nos liberarem. Todo mundo desesperado. Foi tão tenso que pensei que seria pisoteada ou esmagada.

Finalmente perceberam os riscos e abriram várias grades para entrada das mulheres. Não conferiram ingressos, não passaram detector de metais. Não sei se eu, que comprei ingressos para este jogo em junho, fui computada como uma das 52 mil pessoas pagantes no estádio. Só cheguei ao meu lugar no estádio às 22:25, depois de perguntar várias vezes e não conseguir informação correta de localização.

Foi um jogo memorável, mesmo tendo perdido parte dele por conta da desorganização. As filas anteriores também foram ruins. Não havia placas, não sabiam informar nada, só apontavam pra multidão: vai andando, segue o fluxo que uma hora você encontra o início da fila.

O que sei é que, num ano em que tanto se fala do bom desempenho das mulheres nos esportes, fica nítido o descaso com as mulheres, sejam elas atletas ou público. Como assim não esperam público feminino no jogo de futebol feminino da seleção brasileira? Como assim não têm um plano B para dar conta do público “inesperado”? Por que submeter crianças a aglomerações perigosas até para adultos? Por que dificultar a entrada das mulheres que querem assistir a um jogo?

Mulheres frequentam estádios, e cada vez em maior número. Nós sempre vamos aos jogos masculinos. Queremos ir também aos jogos femininos. Não somos “inesperadas”. Seria bom se a organização dos jogos percebesse o óbvio e nos tratasse com respeito.

CynthiaSemiramisCynthia Semíramis pesquisa história dos direitos das mulheres e tem blog em hibernação. Quando não está escrevendo tese vai dançar forró e correr. Só gosta de assistir futebol em estádio.

 

Mosaico

Imagens

Fico observando as formas ora geométricas ora orgânicas em peles e  sombras. Você não sabe dos pequenos retratos que guardo de seus pedaços. Na noite enfeitada pela luz amarela, uma moldura de ilusão macia pra tudo que nos enche os olhos. O sol não sabe de nós.

Retalhos

Enquanto a sua pele morna e escorregadia desliza sob a minha, temo que minhas costuras cedam e, por fim, arrebentem. Foi com muito cuidado e atenção que dei todos esses pontos, cerzi as partes mais frágeis, preguei pequenos retalhos achados pelo chão pra cobrir todos os rasgos. Quando escuto a linha ser forçada e atingir a tensão máxima, um leve desespero me retrai. Temo pelo tecido que me cobre, que me protege do frio e me dá abrigo. Temo ter que lidar novamente com agulhas e tesouras pra conter as vul.ne.ra.bi.li.da.des.

Linguagem

Toco seus cabelos lentamente, com todos os dedos, que se dobram de modo preguiçoso enquanto se conectam a você, numa tentativa de que eles, secretamente, lhe falem o que meus lábios não dizem. Respiro fundo, com o rosto muito colado ao seu, em uma brecha muito pequena onde posso concentrar o cheiro da sua pele em pouco ar, em busca de mensagens ocultas que se transmitam instantaneamente, sem o desperdício de palavras. Por que queremos dizer tanto quando se pede tão pouco? Por que anseio por símbolos quando o silêncio se mostra tão gentil? Por que quero tanto falar sobre o que eu nem mesmo sem o nome?

Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

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Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

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Jane Eyre e o Sr.Rochester

Um chapéu rosa e uma escova de princesa

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A verdade é que não era nem rosa, o chapéu. Ele apenas tinha uma fita rosa. Mas o menino abriu no choro quando a mãe tentou colocá-lo em sua cabeça. Não queria, aquele chapéu não, de jeito nenhum. A mãe foi tentar entender o que estava acontecendo e depois de muita conversa conseguiu uma resposta: o menino, tão pequenino ainda, tinha sido alvo de piadinhas dos colegas porque usava um apontador cor-de-rosa.

A outra história envolve outro menino: esse estava recebendo um amiguinho em casa, e ganhou do pai uma escova de dentes nova. O pai tinha prestado atenção ao tamanho da escova, e não atentou para o desenho no cabo: pois bem, de novo. O choro, a recusa enfática. De jeito nenhum, essa não. Escova de princesa. Ainda mais com o amigo em casa: uma vergonha dupla.

Ser menino: aprender, desde muito pequeno, que existe “a linha de demarcação”. Que certas roupas não pode, que certas brincadeiras não pode, que sentar assim não pode, falar daquele jeito, nem pensar, mexer a mão, balançar o quadril, dançar muito solto…. Não pode usar apontador rosa, chapéu com fita rosa, escova de princesa. Não pode. Não é de menino.

Vejam bem: contrariando o senso comum, menina até que pode. Um dia não pôde: hoje pode. Pode usar calça, pode brincar de carrinho, pode jogar bola. Tudo por conquista das meninas, das mulheres que um dia foram meninas. Nada foi dado, é certo: precisou de muita briga e ainda há muito caminho a ser feito. Mas a força do oprimido é saber que é oprimido. E quanto aos meninos? Aí a gente entra em terreno delicado, porque, justamente, aos meninos cabe ocupar o lugar de opressores. Há, nas entrelinhas, a insinuação de que ser menino é, de alguma forma, “melhor”. Se é supostamente melhor, como reclamar de tantos “não pode”? Os “não pode”, dizem as vozes que não dizem, mas insinuam, são necessários para obter a titulação do seleto grupo, o dos vencedores, dos bacanas: o grupo dos homens hétero. Dos homens-que-são-homens. Ser mulher seria “meio menos”. E gostar de fazer “coisa de mulher” é querer ser meio menos: quase um pecado, pois. Não pode. O que significa que, no fim das contas, sob o pretexto de que é para “ser mais”, ser “melhor”, sacrifica-se, sem dó nem piedade, o que se é e o que se pode ser.

É desde muito pequenos que eles aprendem isso. Aprendem por que se lhes ensina. Tem sempre alguém dizendo, repetindo, mostrando: o pai, a mãe, os avós, os professores, os colegas. Sempre alguém afirmando que aquele menino não está sendo menino do jeito certo.

E tantas dores. E tantas repressões. E tanto choro contido, porque afinal, “menino não chora”. E tantas vontades deixadas de lado, porque isso não é coisa de menino. A linha de demarcação é violenta e é o tempo todo. Nas grandes como nas pequenas coisas.

Um parêntesis necessário: não é de orientação sexual que a gente está falando ainda, não é mesmo? Apenas da possibilidade de ser como se é ou como se quer. Porque afinal nada impede que alguém sinta tesão por meninas e vontade de usar um boá violeta. O que uma coisa teria a ver com a outra? Não consigo nem começar a perceber.

Ah, mas se gosta de “coisa de menina” deve gostar de fazer sexo com meninos, não é mesmo? E tome violência vinda do preconceito. Em cima de meninos que, no mais das vezes, nem pensaram nisso ainda. Sexo? Pegar na mão e dar beijinho, correr junto e abraçar, abrir um sorrisão quando vê o outro, sentir o coração bater… assim é o mundo sentimental dos meninos. E pode ser com meninos. Com meninas. Assim é também o mundo sentimental das meninas. Mas menina acaba podendo, né? Pegar na mão, deitar no colo, fazer carinho no cabelo, dormir na mesma cama… tomar banho juntas, andar de braço dado. Menina pode. Não deixa de ser menina. Afinal, ser menina é a base, o ponto mais baixo da escala: aquele lugar em que quem não está lá não deveria querer estar. Os outros, os que estão em cima, é que precisam se cuidar, sob o risco de… se aproximarem do jeito de ser das meninas. Que horror. Como alguém que recebe ao nascer a graça e a glória de nascer menino poderia desejar tamanha queda no abismo.

Então, desde muito pequeno, veste-se a criança com a armadura fechada, restrita ao espaço estreito concedido ao “ser menino”. Não vá ele passar dos limites, pintar fora do pontilhado, dançar fora de esquadro, virar a mão, rebolar, puxar as vogais, inclinar a cabeça…. Alguns pequeninos espaços já foram conquistados, deve-se dizer. Já que um dia, não podia brinco. Um dia, não podia cabelo comprido. Isso já pode, embora não em qualquer canto: mas na cidade grande, na classe média descolada, já pode usar brinco e cabelo comprido sem que haja perguntas, sem que isso seja reprimido. Aos homens héteros, no ano da graça de 2016, já é permitido usar cabelo comprido e brinco.

Mas é tão pouquinho. Uma migalha, diante de todo o universo de engessamento. Diante das possibilidades. Se vestir como quiser. Afrouxar, se soltar. O corpo. O jeito. Sem precisar se perguntar. Ser doce, ser delicado, brincar de boneca, pular corda. Abraçar, beijar. Ter medo e chorar e pedir arrego. Se permitir ser frágil. Sem ter sua sexualidade questionada. Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?

Vou encerrar esse começo de conversa, que não pretende ser mais do que um começo, com uma terceira historinha que deixo aqui, pra gente continuar a pensar.  Esta não está mencionada no título e  envolve uma calça de malha lilás. Me foi contada por um homem já adulto, que explicava – a sério – o motivo de ter  desistido de fazer ioga na juventude. Tinha entrado na academia para pedir informações e a moça detalhara: para a turma de iniciantes, a roupa era lilás. Pronto. Ali se encerrou a carreira de iogue do meu amigo. Aí não, dizia ele. Eu com vinte anos, vestindo roupa lilás? Como é que eu ia explicar pro pessoal lá do bairro?

BallonRouge

Frio na barriga

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Lembro da primeira viagem que fiz sozinha depois do fim do casamento de dez anos. Nas férias, peguei um avião pra Fernando de Noronha. Levava na mala uma dor de cotovelo tão grande que eu não conseguia nem sentir – e a vontade de grandes aventuras. O tempo fechou (literalmente), o avião não pôde descer e teve que voltar pro Recife. Eu e mais cem pessoas fomos levadas pro hotel onde passaríamos a noite pra embarcar no dia seguinte. Pense numa reversão de expectativa.

No saguão, a moça da recepção, atordoada, chamava cada um pra ir alojando nos quartos. Na minha vez gritou meu nome e, antes que eu conseguisse ultrapassar a montanha de gente amontoada no balcão, berrou ainda mais alto: É single, né? Eu demorei a entender a pergunta. Ela repetiu, com uma voz estridente: Tu é single, né? Só um? Tá sozinha? Todos os olhares se viraram pra mim. E eu, com um sorriso amarelo, confirmei as três coisas: single, só um, sozinha.

Ali caiu a ficha e de lá pra cá foi uma longa jornada. Daria um seriado, com temporadas e trilhas sonoras bem diferentes uma da outra.

Mas tem um sentimento que é constante de lá até aqui. Ser ou estar solteira é sentir um friozinho na barriga. Não é que a vida seja emocionante e esteja sempre acontecendo alguma coisa. Muitas vezes é como barriga de novela, não acontece porra nenhuma. Mas aí a gente liga o som, sozinha no carro, naquela altura que chega a vibrar no coração e canta aos berros a música do Arnaldo: “Socorro, eu não estou sentindo nada…”. E chora. E já fica melhor, sabendo que em algum momento algo vai acontecer, e que o frio na barriga vai voltar imediatamente.

Além das coisas que realmente acontecem, ou que quase acontecem, tem a cabeça que taí pra gente inventar coisa. E quem disse que coisa inventada não dá frio na barriga? O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba… peço licença pra mudar o resto da música… a gente guarda no caderninho de histórias que poderiam ter sido, mas não foram. Há que se ter histórias nessa vida, inventadas ou vividas. Cada uma ensina uma coisinha pra gente, ou várias. Histórias eu tenho. E tenho carinho por cada beijo na boca. Ah…. os beijos. A esta altura podia fazer um tratado sobre beijos (nota mental para um próximo post).

Além das coisas que a gente inventa de querer, assim, de uma hora pra outra e que podem crescer numa velocidade exponencial, tem o que os outros querem. Os outros às vezes inventam de querer a gente. Há muito desencontro nesse caminho, como já dizia o mano Vinicius: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Mas nos desencontros também há poesia. Um ser humano olhar pra você e dizer que tá a fim não é pouca coisa não. Não dá pra desprezar um gostar. E ser gostada dá frio na barriga também, como não? Sabe-se lá se o gostar do outro vai acabar te conquistando? Como boa biscate, você vai lá e vê se rola da invenção da pessoa virar a sua invenção por algum tempo. Se não rolar, você sai fora. Tem gente que tem mais dificuldade de sair. Mas sair quando não interessa, acho que já aprendi. Meu método é meio abrupto. Não indico pra ninguém, mas funciona pra mim. O método é… sair sem explicar mesmo. Eu sumo. Com sorte, depois de algum tempo, passados os efeitos colaterais do desencontro, a gente pode virar (ou voltar a ser) amigo. Há quem diga que é falta de respeito tomar um doril. Talvez seja mesmo, mas é o que sei fazer. A minha desculpa é que não tenho uma explicação boa em palavras pra dizer que não tô a fim de alguém. Nada me parece bom, claro e respeitoso o bastante pra eu conseguir falar. Daí prefiro o não-dito. Meu não dizer já diz tudo – sem o constrangimento.

Mas além dos desencontros e das invenções, tem também aquele momento em que você percebe que determinado frio na barriga é recíproco. Que a sua vontade é a vontade do outro. E calhou de ser na mesma hora. Se, ainda por cima, vocês dois estiverem na pista e querendo sentir coisas… Bom, se isso tudo acontecer o frio na barriga é giga.

Aí, alminhas, é soltar o corpo, que não tem muito pra quê freio. Soltar o corpo sabendo que pode se estabacar ali na frente. Sabendo que pode não ser. Sabendo que o frio da barriga pode virar medo. E que o medo pode virar história.

A vida, feito novela, é uma obra em aberto.

Ju_foto

*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

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