Das nossas faltas

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Vou escrevendo esse texto conversando comigo mesma. Tentando entender. Desentender. Sem pretensão de ser ou dizer nada que faça muito sentido. Sem teorias ou rotas explicativas. Coisas de que apenas desconfio.

– corta –

Somos falantes. Todxs nós, humanos. Humanas. Faltamos. Sempre faltamos conosco e com os outros que nos relacionamos. Em nossas complexidades de existir resolvemos tantas vezes existir juntos. Juntas. Casamos, namoramos, nos relacionamos. Fazemos casa, criamos laços, amamos, trepamos, enredamos umas às outras em afetos. Somas. Talvez seja da natureza humana criarmos famílias, relações afetivas, casas. Talvez seja uma convenção social ou uma imposição cultural. Ou talvez não seja nada disso. O fato é que somos inclinados aos laços. Eu sou.

Nos damos uns aos outros. Abrimos espaços em nós para que nos ocupem. Criamos juntos espaços comuns. Como já cantou o poeta, “a vida só se dá pra quem se deu”. E assim vamos nos dando, nos amando, nos penetrando em nós e nos que nos cercam.

As relações conjugais são dessas. Mergulhamos. Namoramos, nos apaixonamos, casamos, queremos. Eu quero. Vou nadando até chegar no fundo. Até que a ilusão de não sermos sós tome conta do espaço vazio de quando as luzes se apagam. Mas. Por mais que nos abracemos embaixo das cobertas e grudemos nossos corpos, a solitude é igualmente humana. Somos nosso próprio universo, cada qual, um ser separado do outro com toda sua complexidade individual. Ou, como diria Rilke sobre o amor, somos em casal duas solidões que se inclinam uma para a outra.

E dentre essas tantas coisas que nos desafiam a dois (ou a três, quatro, em relações poliamorosas), está o limite da individualidade. Quando nos amamos umas às outras, sempre queremos mais daquela que está conosco. Como já dizia Freud, procuramos de alguma maneira a incompletude. Um motor para que a outra pessoas nos prenda e nos encante em conquistas diárias. Um algo intangível da eterna imperfeição que nos encanta, na mesma medida que nos aterroriza. Será que nos encanta um ser sem surpresas e sem contradições às nossas expectativas? Perguntas…..

Pois é, temos expectativas. Cada qual. Cada um. De como o outro deveria agir, de como a outra deveria se posicionar frente a uma e outra coisa, de como o outro deveria demonstrar seu amor, de como a outra deveria se interessar pelas coisas que ela não se interessa. Expectativas sobre coisas cotidianas, expectativas sobre coisas grandes.  De como a outra irá lidar com seu desejo, de como conjuga o trabalho com a vida cotidiana, de como o outro vai lembrar que seu companheiro gosta de receber flores no dia do aniversário. De como ele não gosta. De como ela gostaria que fosse. Somos um eterno jogo dos sete erros, onde vamos marcando com X as faltas do outro na figura que imaginamos ser aquela do relacionamento desejado.

E nessas expectativas reside um grande motor para a desilusão,  e para a quebra do encanto romântico de que o outro irá nos completar, e nos corresponder. Sim, a exatamente aquilo tudo que pintamos em nós quando nos apaixonamos.

A verdade é que sempre será faltante. A outra pessoa não suprirá nossas lacunas. Não corresponderá a tudo que projetamos. Não será o que esperamos. Não, nem sempre. Sempre haverá figuras fora do lugar. E ainda bem.

Mas. Como faz para acomodar as faltas que o outro nos traz? Como acomodar o que você espera que a outra pessoa seja e que – talvez – mesmo que ela tente ela não consiga ser?

Sim, o bom de relacionar – se é que as coisas se conjugam, se ajeitam, se adequam. Ninguém precisa estar feliz com o que lhe falta e ignorar suas frustrações. Mas. Será que precisamos dar tanta ênfase às faltas? Será que não podemos reinventar um relacionar – se onde as faltas existem e, desde que não nos violentem, podemos conviver com elas? Até porque né? Amor romântico só é bom em velas e poesias. Na projeção da completude e do que o outro deveria ser é que a coisa complica.

Como diria Regina Navarro Lins “você idealiza, você inventa uma pessoa. O amor romântico existe mesmo no Ocidente, a pessoa se apaixona pela paixão. Aos poucos você começa  a perceber aspectos nas pessoas que não lhe agradam. Mandar flores, jantar à luz de velas, tudo isso é ótimo. Minha crítica é você inventar uma pessoa”.

Aí vem o famoso “abrir mão” em nome do outro. O que é bem diferente de achar caminhos comuns de conviver com as diferenças e com as individualidades. Tanta dor por não conseguir ser o que se espera. Aí.  Tantos relacionamentos bacanas desfeitos. Tantas mágoas. Tantas tristezas desnecessárias. Tanto choro. Tanto drama. Tantas noites em claro. Tanto sofrimento. Tanto amor bonito desperdiçado em nome de uma busca frenética por uma satisfação que não existe.

Lembro sempre de um conto da Clarice Lispector chamado “Perdoando Deus”, onde ela humildemente reconhece : “… É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é”.

Será que um dia nós, ocidentais, capitalistas, possessivos de propriedades e de quereres nossos sobre o mundo, conseguiremos amar o que é?

 

Balanço

Canta o Geraldo Azevedo: “quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente…”. Ou muito antes pelo contrário, esse clube gosta de colocar tudo de pernas pro ar (#segundasintençõesfeelings).

Pouco mais de quatro anos de clube, de posts, convidados, lutas, farras, gozos, encontros, reflexões, biscatagem. Neste fevereiro, além de cair na esbórnia, os biscates escreventes vão também tomar fôlego.

Este mês não teremos novos posts. Eu sei, vai todo mundo sentir saudades. Nós, inclusive. Mas o clubinho está precisando de tempo pra dar uma espanada na casa – e nas idéias. Como na canção: “a chama continua no ar, o fogo vai deixar semente”.

Em março, estaremos aqui. Nós, os posts e, esperamos, vocês, leitores. No por enquanto, ô balancê, balancê, quero dançar com você….

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A decisão mais sensata

Tinha tomado a decisão mais sensata e sentia um certo orgulho disso. Não sabia bem o que isso queria dizer nem no que consistia ser sensata, mas tinha decidido. Pensou, refletiu, pesou. Botou na balança, fumou maconha, foi pro mar. Riu, chorou, pensou em outros caminhos, mas decidiu por aquele. Não tinha como voltar atrás.

Tomou coragem e colocou o coração numa bandeja. Mostrou para o moço das mãos grandes o corte que abrira no peito. Nunca havia se rasgado tanto, não tinha muita ideia de como se fazia isso, foi pela intuição. Cada incisão trazia um paradoxo: era dor e alívio ao mesmo tempo. Deixou que ele visse o peito aberto, as lacerações, o coração palpitando em cima da mesa. Doeu abrir aquele buraco, mas sentiu-se leve depois.

O que o moço pensava sobre o peito aberto, o coração, o sangue nas suas mãos e o sorriso no rosto já não interessava tanto. Estava feliz por ele ter apenas visto, conhecido a matéria da qual era feita. A exposição das suas entranhas não era para convencê-lo a ficar, a acolher e nem mesmo gostar, até porque nem era espetáculo tão bonito assim de se ver. Decidiu mostrar-se porque era uma forma de também se olhar, enxergar o que passou muito tempo escondido, camuflado.

Permitir que alguém a visse tão intimamente, fez com que também se tornasse íntima da sua dor, das suas angústias, seus anseios e desejos. Ao se mostrar, revelava para si mesma sentimentos que nunca pôde manusear e, apesar de assustada se deleitava com as novas descobertas sobre o mar que levava dentro do peito.

Apaixonou-se pelo moço da boca macia por muitas razões. A principal delas é que ele lhe mostrava coisas que ela já não vislumbrava mais em si. Coragem, doçura, beleza já não faziam parte do que via no espelho. O homem barbudo – que deixou a barba crescer a pedido dela – despertava umas coisas adormecidas ali dentro e que foram parar tão fundo que já não imaginava ser possível resgatá-las. Queria agradecer o feito de trazê-la à tona para mais perto de quem queria ser.

Foi uma dor aguda anunciar que não podia mais continuar navegando com ele naquelas águas macias. Decidiu sair daquele barco que nunca iria atracar no porto que agora desejava. No início da travessia tinham acordado seguir juntos, sem norte, sem destino, sem futuro. Mas com o tempo foi aparecendo uma vontade de parar num lugar, sentir terra firme, caminhar distâncias, ver o sol nascer do outro lado. E sabia que isso não teria com ele, o moço da tatuagem de âncora.

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A decisão sensata não se referia somente a voltar ao seu barco e seguir seu caminho sozinha, ou na companhia de outros que fossem aparecendo. Sentia estima por si mesma por ter compreendido que não havia escolha sem perdas, sem faltas. Sair do barco do moço bronzeado doeu um tanto que nem imaginava que existia; porém continuar a jornada sem bússola já não lhe fazia tão mais feliz.

Ia voltar ao mar sem o sorriso do moço, com o peito remendado e um coração exposto. Coisas que a aterrorizavam há algum tempo e agora lhe traziam serenidade, uma certeza de que não podia ter feito diferente. E gostava de pensar que essa nova mulher em que se transformava era mais inteira e gostava de se ver assim: cheia de coragem, doçura e beleza.

Fragmentos líquidos

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Sentiu o cheiro de vida líquida.

Inebriada, seguiu a rota que se abria pela mata. Coração guia, quase sem consciência do terreno por onde pisava seus anseios sem nome. Sentia apenas a intuição aguçar-lhe as bússolas interiores, em busca de alento. Em busca de elevar-se pelas mãos da natureza.

A mata se abriu em água. Floriu em quedas que rompiam os arredores em suspiros de cascatas. Fazia frio. E ela às voltas com a sua resistência encolhida de bicho ferido. Tinha dor, e lambia a ferida exposta em local secreto – com a língua a tocar o gosto ocre do sangue parado. Sua toca era feita de medos e de ousadias.

Contemplou a força que corria diante de seus olhos. E deixou-se vencer, num só impulso de voracidade. Curvou-se às águas que saltavam vibrantes da cachoeira, impulsionadas pelo volume das chuvas que resolveram desabar sobre o cerrado. Águas bruscas do primeiro mês do ano.

Não se lembrava exatamente como chegara ali. Lembrava-se apenas de estar deitada, nua, sob a água corrente. Cabeça baixa, a reverenciar a mãe deusa que se escondia no manto cristalino que lhe inundava a alma. Líquido gelado sob o corpo quente. Sentia o descontrole das pernas bambas, e ria sozinha de sua pequena estrutura lavada pelas águas. Finalmente ela estava ali.

O gelado penetrava-lhe os ossos, escurecia-lhe a vista, ensurdecia. A correnteza era capaz de lhe levar para outras paragens, sem que ela pudesse oferecer controle. Sim, ela estava vencida – e estar vencida era bom. Rendia-se ao inusitado que lhe flutuava sem trégua. Ela tremia. E o medo escorria pela pele arrepiada, a se misturar com o fluxo que descia rio abaixo.

Para onde ia? Parou por um momento, acordada de susto. Agarrou os galhos de árvore, e fincou os pés na pedra que lhe servia de abrigo. Seus dedos misturaram-se com as folhas verdes que se nutriam de vida liquida. A água não tinha descanso. Fluía livre, próspera, a lhe contar segredos de beira de rio. Sim, ela não sabia. E não saber era bom. Desconhecidamente bom. Era liberdade de força desmedida.

Sentiu sede de grandes goles. Embebedou-se. Ela queria a paz das águas livres. Águas que lavariam os vestígios da métrica de amor e dor, tão arraigada aos seus versos. Que a fariam perseguir outras rimas de amor, mais doces e simples como o canto da corredeira. Desejou com o peito aberto, os olhos brilhando, o sorriso amplo de sinceridades.

Ela então se aqueceu – enrolada em leveza e tranqüilidade. A correnteza ainda percorria-lhe o corpo. Reverberava. E ela queria continuar ali, fitando as margens e sentindo a força liquida lhe penetrar as entranhas. Admirando o fluxo da vida que lhe carregava com generosidade de incógnitas.

Lembrou de uma frase lida que incorporou aos seus cadernos de poética. “Perto de muita água tudo é feliz”. Sim senhor. Ela tinha sede de muita água.

Apenas, 2016

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foto: arquivo pessoal

Hoje eu apenas queria escrever um texto-sopro. Um texto sereno de beira de mar. O último de 2015. Esse ano em que tudo me cortou e me rompeu. Em que me costurei de novo com linhas imaginárias, tecendo novos sentidos.

O ano. Ritual. Gosto das passagens. Voo ao teu encontro querendo deitar a cabeça no mar. O mar é um colo. Deixo-me chorar o encanto do mar. É que a gente também tem um mar por dentro.

Hoje eu queria apenas ser doce. Lavar o sal da pele no rio. Deitar na rede que me embala o pensamento. Sentir a grama verde nos pés de areia, me penetrando os dedos. Gozar. Dormir exausta de cansaço com o corpo quente, sentindo o gosto de vinho nos lábios. Apenas.

Delicadezas. Dessas que a vida ganha cores. Sabores. Leveza de sentir amor no vai e vem das ondas. Acalento na impermanência do mar. Saudação. Hoje eu queria apenas o silêncio diante da enormidade de não saber, que se ergue indefinido em frente aos olhos. Deixar-me levar sem porto de chegada.

Despida de tudo que me cabe, despeço-me de 2015. Não lamento, nem agradeço. Sinto em mim os ecos das vivências. O sabor das dores. A grandeza dos amores. As incompreensões que me moldaram novas formas de existir. E assim reverencio a vida que me arrebata sem começo nem fim, flutuando na corrente do rio.

Feliz 2016, ano novo. Recebo-te com o espanto de uma criança diante do mar. Nem mais nem menos. Apenas.

“ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

Há alguns breves dias, vi em vários espaços na internet o meme “Já acabou Jéssica?” e não entendia de onde havia saído a frase, muito menos, o contexto dela. Também não dei muita importância, e, particularmente, não tenho muito apreço por memes, uma vez que muitos são produzidos com o intuito de rir da dor do outro.

E com esse, o da Jéssica, não foi diferente.

Eis que uma aluna minha me mostrou o afamado vídeo. Em pouco mais que dez segundos, uma briga de duas adolescentes é filmada, na saída de uma escola. Uma delas está no chão e é socada e chutada fortemente. Jovens fazem um círculo pra apreciar melhor o “espetáculo” que ali se desenrola na frente deles. Elas, as meninas, brigam em público, se machucam, se expõem; a cena é de uma tristeza e violência só. As pessoas à volta gritam animadamente e se mostram excitadas diante da ocorrência da agressão. Ninguém separa. Ninguém ampara. Ninguém as acolhe. Apenas filmam, observam de um jeito mórbido e, mais à frente, compartilham o vídeo de quinze segundos com o que consideram uma briga “engraçada e cotidiana” de duas adolescentes.

Daí em diante já conhecemos bem o script: o vídeo viraliza em poucos dias, se torna o assunto mais comentado da internet e a fala de uma das garotas se torna um bordão, executado a torto e a direito com o único objetivo: ridicularizar e rir da dor de outra pessoa.

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Não, pra mim não dá. Não consigo achar que se possa fazer humor diante da desgraça alheia, da violência, de algo que deveríamos firmemente repudiar e combater. Fiquei consternada quando vi o vídeo. Por tantos motivos, porque sou mulher, porque já fui supervisora escolar e já apartei brigas (de meninos e meninas), porque sei o quanto é triste estar no meio do escracho público, porque sei o quanto isso violenta a dignidade de um ser humano.

A adolescente que apanha, tentando ainda mostrar que não foi vencida, querendo não se sentir tão humilhada e violentada por uma plateia sedenta, diz pra se defender: “já acabou?”. Puro mecanismo de defesa da adolescente pra tentar se proteger e resguardar ainda alguma dignidade. E é justamente esse dolorido ato final do qual milhares de pessoas riem. Ninguém se solidariza. Mais importante do que se preocupar com a menina que apanhou, é promover o riso cúmplice.

E isso diz muito sobre nós. De como nossas formas de convívio são pautadas pela violência já banalizada e introjetada como um patrimônio imaterial no DNA brasileiro. De como nos portamos (mal) diante da dor dos outros. De como na iminência de ajudar, socorrer, dar apoio, preferimos com frieza lançar o aparelho de celular e filmar. De como optamos compartilhar e espalhar às expensas o riso obtido do infortúnio alheio.

Impressiona também que a cobertura sobre o caso não tenha desencadeado nenhum tipo de reflexão sobre a cultura violenta a qual vivemos. Ao procurar saber mais da briga das duas adolescentes, li que houve a atuação do Conselho Tutelar e que ambas já “fizeram as pazes”. De acordo com a matéria, a briga foi motivada por ciúmes de um rapaz, namorado de uma das meninas (e sabemos muito bem que somos culturalmente educadas pra odiarmos umas às outras, pra nos vermos como rivais que disputam homens, beleza e juventude). Ao que consta na reportagem, a mãe da adolescente que apanhou não está nada bem devido a forma como a filha foi superexposta e ridicularizada perante, apenas de… todo o mundo cibernético.

Eu entendo a dor dessa mãe, sabe? O que não compreendo e não aceito, é essa falta de alteridade e empatia que se apossa de espectadores sedentos por grandes e pequenas tragédias da vida real. Uma sociedade que se ouriça e que se excita em consumir e compartilhar violência em seu estado puro, é uma sociedade que me deixa desesperançosa por dias melhores.

Daí que ninguém reflete sobre a responsabilidade da pessoa que espalhou o vídeo. Ou das pessoas que compartilharam e estão ainda, bovinamente compartilhando o dito cujo. Ninguém pensa que poderá ter contribuído pra arruinar uma vida com essa atitude, prenhe de violência simbólica.

Afinal de contas, não sou eu que estou no meio daquela briga, não é mesmo? Pra que ter empatia e alteridade? O que significa isso? Não se sabe.

E com a pontinha de otimismo que ainda me resta, espero que um dia nós tenhamos mais pessoas que apartam brigas, pacificam conflitos, resolvam pendências na base do diálogo do que pessoas que saiam por aí dando porradas a esmo e outras filmando, debochando e compartilhando agressões com a insensibilidade e a banalidade de quem ao mesmo tempo come pipoca e consome a dor alheia.

A gente vai se esquecendo

E​squeci seu cheiro ou como é sua barba no meu pescoço. Já não sei se nos conhecemos numa sexta ou numa quinta. Se chovia ou se só fazia frio. Quando me esforço ​muito, ​lembro q​ue​ era sexta, chovia e que eu estava no café da livraria. Isso. Foi assim. Mas a lembrança vem meio turva. Já não recordo o cheiro dos livros, tampouco o que estava lendo quando ​te​ vi. Tocava jazz​, eu acho.

A gente foi comer pizza e não lembro se foi você quem pegou na minha mão ou eu que toquei seu braço sem querer. Quando saímos, tremia de frio e você me abraçou. Me convidou pra ir pra sua casa com a desculpa de nos esquentar e eu só saí de lá três dias depois.

​Antes eu conseguia repassar na minha cabeça cada um ​dos nossos gozos, dos nossos beijos, dos nossos abraços. Conseguia lembrar quantas vezes gozei na sua mão, no seu pau e na sua boca. Quantas vezes teus lábios precorreram meu corpo enquanto íamos despertando naquela sonolência preguiçosa. Lembro como era bom dormir com você – ah, isso eu lembro.

​Até uns dias atrás, eu lembrava quantas vezes rimos das piadas sem graça, todas as nossas conversas madrugada adentro, e que sempre aquecia meu nariz no seu pescoço e que você me levava pela mão. ​Lembrava todos os nossos programas em ordem cro-no-ló-gi-ca. Todas as vezes que puxou meu cabelo e cravou os dentes na minha bunda. Agora, mal me lembro se tomamos cerveja ou vinho.

​Hoje, quando fecho os olhos e tento me lembrar do seu rosto, ele foge. ​Já não sei que dia foi aquele em que a brincadeira era você me masturbar enquanto eu continuava a contar uma história e não podia parar até gozar. Era assim mesmo, né? Ou tinha que cantar uma música? Não lembro direito. Estou esquecendo o quanto era bom sua boca nos meus peitos e minha mão fazendo cafuné em você.

Me dei conta que nem uma foto juntas tiramos, que não existe registro no mundo do nosso encontro.Podia ter gravado cada minuto nosso pra poder ver com detalhes agora, pausando, dando zoom, repetindo as falas, igual dizem que será no juízo final. Estou esquecendo e fico aqui espremendo as lembranças, querendo engarrafá-las e guardar num pote ao lado da cama pra sempre poder olhar pra o que a gente foi.

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Pelo tempo de envelhecer

asilo
Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

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Assédio não pode ser normal, mas é

É assim: assédio não pode ser normal. Mas é. E a gente tem visto isso nesses últimos dias: as denúncias todas geradas pela hashtag #primeiroassédio. O volume. Dá a sensação de que aconteceu com todo mundo que a gente conhece.  Então a gente tem que entender. Não adianta, de novo, dizer que eles são todos pedófilos. Não são. Não são doentes, não são bandidos. São gente como a gente. Os homens que assediam são gente como a gente. criados para serem homens nessa sociedade maluca aí. E é disso que a gente tem que falar. Da porra da sociedade. Do que é chamado de homem nessa porra dessa sociedade. É nisso que a gente tem que mexer. Na cultura, nos hábitos. no “homem não chora”. No “isso é que é coisa de macho”. Ou, e talvez até mais importante, “isso não é”. É dessa porra dessa sociedade que a gente tem que falar.

Não adianta dizer que é “sordidez”, que são “canalhas”. Você não nota, mas quando diz isso está reduzindo o problema. Está desconhecendo que o problema é da sociedade: logo, é de todo mundo.

Acho bem mais inquietante pensar que são pessoas comuns que se sentem no direito de fazer isso. De pegar nas meninas, nas mulheres, de não escutar, de agarrar. Homens que agarram mulheres. E a grave questão é “se sentem no direito de”. Não porque são malucos: porque assim a sociedade lhes ensinou. A cada propaganda de mulher pelada vendendo cerveja ou carro, a cada “prenda suas cabras que meu bode está solto”, a cada “ele tá fazendo isso porque gosta de você”, a sociedade ensina que é assim. Sempre que se espera que as mulheres cuidem da casa, das crianças, e ainda estejam lindas e cheirosas para seu homem, é isso que se ensina. Toda vez que se trata uma mulher como menos, como menor, como sem espaço, toda vez que são os homens que ocupam a sala e relegam as mulheres para a cozinha, toda vez que os assuntos “de mulher” não têm vez na conversa, toda vez que elas não falam… toda vez que se acha que “direitos da mulher” não dizem respeito aos homens. Que, afinal, não abortam. Que, afinal, não engravidam.

Toda vez que se diz que “homem que é homem é que”…. toda vez. Quando às mulheres não se ensina que elas têm querer e voz: também. Quando se lhes pede calma, delicadeza, voz suave, não contrariar, “deixa, ele é assim mesmo”, “é só o jeito dele”….. toda vez que se diz às meninas que elas é que não devem usar saia curta, decote, que são elas que têm que se proteger, que se cuidar, em vez de dizer aos meninos que não, que não pode, que não é pra fazer. 

É de um olhar desassombrado para dentro dessa sociedade que é a nossa que a gente precisa: não de um repúdio horrorizado, como se não tivesse nada a ver com a gente. É da mudança no tratar desde pequenino, desde bebê praticamente: como se tratam os meninos, como se tratam as meninas. O que é ensinado a cada um deles. Isso é que tem que mudar, isso é que cria uma sociedade em que cada menina, cada mulher tem uma história de assédio pra contar. Em que, por trás de cada assédio, há um homem criado “para ser homem”. Desse jeito aí. Achando que pode.

livre

Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

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Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Dessas intimidades

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Estiro-me. Lentamente vou sentindo seu corpo no meu. Cada pedaço se enroscando nos meus poros. Dormir junto é intimidade dessas poucas. Depois do sexo os corpos se afagam. Sol na areia depois do banho de mar. Mais um pouco. Seus seios nos meus. Sua língua cansada com meu gosto. O sabor dos nossos gozos. O cheiro de sexo que esfumaça o ambiente, junto com as taças de vinho vazias do lado da cama.
Depois. Ainda tem mais. Eu sonho com água e meu corpo relaxado se deixa levar pelas ondas. A gente flutua. Sinto sua respiração profunda de inconscientes diversos. Você acorda assustada e diz que sonhou algo ruim. Eu te abraço sem abrir os olhos e enrosco minha perna na sua. O silêncio da madrugada e a lua na janela. Pouca luz e não ser a lâmpada que ficou acesa na sala. Sem querer adormecemos. Nessa nossa rotina de sono e amor até mais tarde.
Partilhar o sono é intimidade dessas poucas. A madrugada é longa e o sono é uma entrega. Entrego-me fazendo casa no seu colo. A entrega é macia. Minha pele na sua. Arrepio. Você acaricia meus cabelos, me embalo de preguiça. Aconchego. Mexo-me quase sem querer, nessa dança que vamos tecendo pelas horas dormentes. Você fala coisas que eu não entendo. Sempre cabe mais.
Partilhar os sonhos é intimidade de entrega. Conversa de corpos em correnteza que não se governa. Redemoinho adentro. Coração afora. Embarcação quente que parece proteger tudo dos pingos lá de fora. Você puxas as cobertas. Eu me aperto no seu corpo nu. As mãos dentro do peito. Mais um dia que vem.
O despertador toca sorrateiro. Sempre é de repente. Só mais cinco minutos. Beijo sua boca com gosto de sono. Os travesseiros caídos no chão. Um abraço que me engole e me espreguiça. Bom dia meu amor.

De alma, de corpo

É uma ideia que pode parecer a princípio meio inquietante: abandonar a ideia de alma. De essência. Do que está por trás.

A gente fica só com a “casca”. Ou melhor: a casca é o que há.

A casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.

Se você chuta lanches dos outros e acha que está certo botar uma arma na cabeça de alguém porque disse algo de que você não gostou, sinto muito: pra mim não serve. Se você manda uma diretora de cinema convidada para debate sentar em outro canto e ocupa o espaço dela, não a deixa falar, desrespeita seu trabalho e seu lugar, também não.

Sou a favor dessa ideia de mundo sem alma. No mundo sem alma, ninguém vai escolher pelas intenções ou pela suposta bondade. Que intenções. Que bondade. É de atitudes que se faz esse mundo, o mundo sem alma. É se disse bom dia, boa tarde, boa noite. Se cumprimentou o porteiro. Se falou com a faxineira. Se não enfiou a mão na cara do primeiro que apareceu por algum motivo muito bem elaborado. Enfiar a mão não pode. Botar arma na cabeça, muito menos, e acho que devia ser evidente: a boa intenção dos justiceiros deveria ser substituída por mecanismos legais, já que não estamos no faroeste e que direitos humanos são para todos os humanos, ao contrário do que alguns querem fazer crer.

Mas, em um nível mais sutil,  também não pode ignorar, desprezar, não ouvir, não dar valor. Também não pode usar termos que desqualificam. Tem que tratar como igual, ora. E realmente não quero saber se você acha, lá no fundo, que a outra pessoa é igual mesmo: não conheço seu fundo. Não sei se você tem fundo. Não é relevante pra questão. O que me atinge é o que você faz, não o que você pensa ou sente. Isso aí é do seu foro íntimo. É da sua conversa com Deus, caso você acredite em Deus. A mim não afeta: se você me tratar como igual, isso sim afeta. Isso sim faz diferença.

Se você gosta muito da mulher em quem você bateu, que você destratou ou deixou de ouvir, isso é algo que deve atormentar você, imagino, e que, sim, faz diferença pro seu futuro: mas se gosta ou se não gosta de verdade, se sofre ou se não sofre: não é a questão aqui. A questão é o que fez ou não fez. Bateu? Destratou? Deixou de considerar? De escutar? Que importa se, no fundo, sua alma está cheia de boas intenções. O que a outra pessoa recebe e percebe são suas atitudes. E isso é que tem que mudar. Um esforço pra mudar as atitudes, é o fundamental: o resto pode vir depois. Ou não vir, sei lá.

Porque, na verdade, sua alma não importa: é de corpo que a gente está falando.

asas011

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