Marielle, Anderson e o Brasil com “s”

Há, no assassinato de Marielle e de Anderson, uma dimensão que não podemos esquecer.

As duas mortes simbolizam, acima de tudo, a morte de um Brasil, com “ s “. Um Brasil negro, periférico, pobre, que luta, sorri, cria filho, trabalha, dança, faz política.

Esse Brasil é odiado por um outro Brazil, com “ z “. Um país vassalo, aculturado, branco, iludido com a concessão ao café da manhã. Mas este Brazil com “ z “ odeia também admitir que odeia o Brasil com “ s “. E finge ser. Finge que a empregada doméstica é da família, finge que “office boy” tem a oportunidade e que não a aproveita por responsabilidade própria, finge que não se incomoda com o FGTS do empregado doméstico, finge que os vestibulares selecionam os mais aptos, independentemente do trajeto anterior. Finge, porque no fundo no fundo tem vergonha.

Odeiam, outros, este Brasil com “ s “ por sadismo. Uma estranha máquina de ato reflexo o faz ter um gozo com a desgraça de quem não consegue, considerando que conseguiu algo por ser melhor que o outro. Num mundo onde haja flanelinha no farol há sempre aquela satisfação do ego: eu venci e ele, não. Independentemente da miséria que é este “vencer”.

Odeiam, outros e muitos, porque tem medo. O medo, sabemos, é uma praga que se prolifera na água: medo do gozo, medo do amor, medo da entrega, medo do torpor, medo de perder o emprego, medo de ser igual. Nasce deste medo o fascista. O fascista odeia o Brasil com “ s “.

Sugiro, sempre e sempre, que essa gente que odeia o Brasil, com “ s” , que ouça Argemiro Patrocínio, Nélson Sargento, que beba cachaça, que ame sem roupas, que leia Machado, Ferrez, Mano Brown, que coma dobradinha, que cheire loló. Que saiba de Grande Otelo, de Pele, Garrincha e Didi. De Zumbi. De Milton Santos. De Dona Menininha. De Clementina. De Abdias. De Luiz Gama.

Sugiro, sempre e sempre, que dê chance ao samba, ao choro, ao Pixinguinha e à mandioca. E que tome banho pelado em rio. Que ande pelado.

Este Brasil com “ s “ é nossa única chance civilizatória. É ele que nos molda, nos aponta, nos sapienta.

Esse Brasil morreu mais um pouco. Foi executado. Assassinado. Nosso silêncio é gatilho também.

O assassino não é só quem deu os disparos. Este Brazil com “ z “, arrogante, subalterno, mesquinho, covarde e medroso alimentou esse gatilho.

Basta. Não à toa, palavra que tem o “ s “ bem ali, ao centro de tudo.

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Marielle Franco

“Sentimos que nunca acaba
de caber mais dor no coração”

É difícil, pra mim, neste momento, falar sobre Marielle, sobre seu assassinato, sobre sua ausência. Eu não a conhecia pessoalmente. Sequer sou do Rio de Janeiro. Mas eu conheço e amo gente que a conhecia e a amava. E ainda, conheço e amo as idéias que ela defendia e, suponho, amava também. Acompanhei sua campanha, acompanhava seu trabalho como vereadora. Admirava, encantada, como ela conseguia ser o que parece impossível. A perda de Marielle cala fundo, mas o blog não podia silenciar sobre. Escrevo.

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Pra começar, dizer que penso que não devemos abrir mão de uma leitura interseccional do mundo, das violências, das vivências – incluindo esta execução. A execução de Marielle Franco. Por exemplo, entendo que ser negra e socialista tem relação indissociável neste assassinato. Acho bem fácil uma outra figura negra proeminente, porém não ativista, ser vítima de racismo, incluindo danos decorrentes de ações da policia, por exemplo – ignorantes da sua identidade. Mas acho bem difícil essa pessoa vir a ser executada, da forma como Marielle foi, por ordem de quem foi (tão mais parecido, o crime, com o assassinato da juíza Patrícia Acioli) sem defender as idéias que ela defendia, sem lutar como ela lutava, sem se posicionar quando e como ela se posicionava: a partir das bandeiras do seu partido, o PSOL.

Compreendo que Marielle foi assassinada por ser quem era. Isso inclui sua negritude. Inclui suas idéias socialistas. Inclui sua atuação parlamentar. Inclui sua personalidade vibrante. Inclui o tipo de família que formou. Inclui as pautas que abraçava, os trabalhos que fazia, os lugares que frequentava. Inclui seus sorriso luminoso, sua presença hipnótica, sua clareza de argumentação. Inclui o fato de ela se definir e se alinhar com pessoas vistas como esquerda. Sabe aquela frase do Montaigne sobre o amor: “porque era ele, porque era eu”? Ela foi assassinada, penso, para não ser mais. Porque ela era imensa. E acho triste (e improdutivo), depois de termos perdido tanto, perder um aspecto que seja dessa mulher tão grande.

Essa dolorida compreensão me faz lembrar e afirmar sua existência única e irrepetível. Por mais bonito e confortador que seja a idéia de transformar este momento de perda e dor em inspiração e resistência, eu recordo e reafirmo a vida própria de Marielle. Ser um símbolo não é melhor que seguir vivendo. Vejo esta tirinha abaixo e me dói.

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Quando eu tinha 16 anos e participava de grupos de Pastoral da Juventude do Meio Popular, me comovia com a frase de Dom Oscar Romero: “se me matarem, ressuscitarei nas lutas de meu povo”. Eu era jovem e boba, desconhecia que isso não basta. Não devíamos ter ou ser mártires, devíamos ter e ser companheiros. Vivos.

Porque por mais que se insista na permanência dela em nossa própria vida, a vida que era dela, a vida que era ela, não mais. A vida dela. Dela. A filha dela, a namorada dela, os desejos, sonhos, o mestrado, as cervejas dela. A fome dela, as roupas dela, a risada dela, o abraço dela. As dores dela, as dúvidas dela, as alegrias e conquistas dela. Dela. Ela. E nunca mais. Nunca mais nada disso. Ah, luciana, mas é no aspecto político. Pois também não. Quanto tempo leva pra surgir um quadro como Marielle? quantas mulheres são eleitas? quantas mulheres negras? quantas mulheres negras, de esquerda? quantas mulheres negras, de esquerda, bissexual ou lésbica?

Que lutemos as lutas de Marielle. Que apoiemos outras mulheres negras na política. Que não esqueçamos sua morte. Que balancemos suas bandeiras. Que sonhemos, juntos, seus sonhos. Mas Marielle, mesmo, nunca mais. Por mais presente que ela esteja na vida de quem a amou, de quem sonhou com ela, de quem lutou com ela, por mais presente que esteja em quem a respeitava, admirava, quem compartilhava pautas e utopias, Marielle, mesmo, nunca mais.

Não podemos, acho, não devemos, penso, esquecer disso: a perda é insuperável.

É essa vida que não vai ser vivida que dói tanto que não deve ser esquecida. Que a morte de Marielle seja inspiradora me parece muito triste. Não quero inspiração, quero-nos vivas.

Um bombom no 8 de Março

Por Mary W, Biscate Convidada

Sempre há uma confusão no Dia Internacional da Mulher. Porque, nós, feministas, reclamamos das rosas, bombons, parabéns. E isso parece antipático. E as pessoas não entendem mesmo (ou fingem nao entender).

Não queremos mimos porque não é o caso. Mais do que isso, reforça que nós, mulheres, temos que ser mimadas e cuidadas. E essa visão é machista e hipócrita.

O mundo não “cuida” da gente. Antes, nos exclui de tomada de decisões importantes. A luta pela autonomia econômica e psicológica da mulher é fundamental para que ela não se sinta dependente e inútil quando o casamento acaba, por exemplo.

São inúmeros os casos de mulheres que ficam completamente perdidas na meia-idade com o fim do casamento.

Não gosto também das mensagens publicitárias. Que nos chamam de “guerreiras”. Não quero ser guerreira. Quero viver minha vida com igualdade de direitos. A “guerreira” é aquela que tem dois empregos porque cria os filhos sozinha. Cadê o pai? Tá devendo pensão alimentícia, muito provavelmente. Maternidade como sacrifício é algo a ser combatido. A “guerreira” só existe porque o mundo é desigual.

Da maternidade vêm também as mensagens que contribuem para demonizar nosso direito ao próprio corpo. A gravidez da mulher é assunto coletivo. E o direito ao aborto nosso maior tabu. Essas mensagens visam manter a gente nesse sacrossanto lugar. Da mãe que abre mão de si mesma.

A gente não precisa mesmo de rosa e bombom. Eu compro meus bombons (ou ganho da minha namorada). Não preciso de mimo num dia que é de luta.

Eu quero que chefes parem de me assediar ou de alisar meu ombro em eventos profissionais. Quero poder andar na rua sozinha sem medo de homem. Quero que minha orientação sexual seja respeitada. Quero interromper uma gravidez indesejada. Quero ganhar um salário equivalente aos homens. Quero que as profissões femininas sejam respeitadas. Quero deixar de confundir abuso e ciume com amor.

Quero tudo isso. O bombom pode comer você. Já almocei.

28870551_10156096082799259_6061432163104980992_nMary W é feminista e se isso não é tudo, é tanto. Um jeito de ver, dizer e sentir o mundo. E mudá-lo. Dá pra ler o que ela pensa, no seu blog: link aqui. E pode-se ansiar por uma conversa no bar – é sucesso.

8 de Março é dia de quê?

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Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil.

38% dos assassinatos de mulheres são cometidos por seus parceiros, estando as mulheres negras mais sujeitas à agressão por cônjuges e ex-cônjuges do que as mulheres brancas;

1 em cada 3 mulheres no mundo sofreram violência física e/ou sexual ao longo da vida;

No Brasil, mulheres recebem salários 30% inferiores aos dos homens;

O salário mensal médio de uma mulher negra é cerca de R$ 1,5 mil menor do que o salário médio de um homem branco, tendência que se manteve inalterada nos últimos 20 anos;

Mulheres e meninas fazem cerca de 2,5 mais tarefas domésticas que homens e meninos, além de continuarem responsáveis pela maior parte dos cuidados não remunerados;

O Brasil é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo, a expectativa de vida delas é de apenas 35 anos – menos da metade da média brasileira.

No Brasil, 4 mulheres morrem, por dia, em hospitais, por complicações de interrupção da gravidez porque aborto é criminalizado.

Entre 2014 e 2017, no Brasil, 126 mulheres foram mortas por serem lésbicas.

Em Portugal, apenas 15% das ruas com nomes próprios apresentam nomes de mulheres, isso é um reflexo do apagamento das mulheres na História. No Brasil de uma amostra de 389 rodovias, apenas 8 (2%) têm seus nomes dedicados a mulheres. Seguindo a lista, homens ainda dão nome à maior parte das viadutos (88,2%), avenidas (87,1%), parques (86,9%) e praças (85,4%). Enquanto nomes femininos têm participação um pouco melhor, sem nunca chegar a 30%, em vilas (29,6%), passagens (27,2%), escadarias (24,3%) e vielas (24,0%).

No mundo, 8 mil mulheres estão em risco de sofrer mutilação genital diariamente.

A previsão é de que demore 217 anos (de mudança contínua, se tiver retrocessos, piora) até que a igualdade laboral entre homens e mulheres seja uma realidade.

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Por isso, termino com o que disse a Rita Paschoalin:

“As iranianas que querem decidir se usam ou não seu véu; as paquistanesas que querem ir à escola; as brasileiras que querem andar sozinhas na rua sem serem importunadas; as tantas brasileiras que querem andar no ônibus e no metrô sem serem assediadas; as mulheres de qualquer parte que não querem ser culpadas pelo estupro que sofreram; as mulheres que não querem morrer porque não querem permanecer em um relacionamento; as grávidas que não querem perder seus empregos; as mulheres de qualquer parte que querem decidir se serão ou não mães; as meninas que querem brincar de qualquer coisa; as engajadas que querem disputar espaços políticos sem serem julgadas por sua aparência; as mulheres trans que querem sua identidade de gênero respeitada; as amigas que rejeitam a piada machista; as mulheres que amam outras mulheres; as feministas que nos mostram todas elas. Cada uma delas luta todo dia. Força, queridas. E obrigada.”

8 DE MARÇO É DIA DE LUTA.

Fontes:

[1] https://www.publico.pt/2018/03/08/sociedade/noticia/santas-maes-rainhas-so-15-das-ruas-com-nomes-proprios-sao-de-mulheres- 1805679[2] http://www.observatoriodegenero.gov.br/…/homens-recebem-sa…/
[3] http://g1.globo.com/…/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travest…[4] https://economia.uol.com.br/…/mulher-negra-continua-com-men…
[5] http://www.redebrasilatual.com.br/…/mais-tempo-gasto-com-tr…
[6] https://www.nexojornal.com.br/especial/2016/02/15/Nomes-de-ruas-dizem-mais-sobre-o-Brasil-do-que-voc%C3%AA-pensa
[7] http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/…/IPEA_DossieMulher…
[8] http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs239/en/
[9] http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,diariamente-4-mulheres-morrem-nos-hospitais-por-complicacoes-do-aborto,10000095281

Os bons são maioria, e daí?

Os bons são maioria. De vez em quando passa essa frase pela minha TL, geralmente associada a uma reportagem ou imagem de algum gesto generoso, de cuidado, de solidariedade. Eu mesma já devo ter reproduzido. É tentador em vários aspectos, destaco dois: o primeiro é achar que é uma questão de amplitude da visão, que os bons estão em algum lugar, fazendo coisas boas, a mídia é que não conta, tal como a dor da gente, a bondade não sai no jornal. Nesta perspectiva a bondade da maioria silenciosa redimiria a humanidade. O segundo, e de maior impacto, é dividir de forma binária as pessoas em bons e maus. E, claro, colocarmo-nos alinhados do lado dos bons. Do Bem. Faz bem pra autoestima, né.

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Depois de um tempo, desisti. Os bons não são maioria. Nem minoria. Não divido mais o mundo em bons e maus. As pessoas vivem, interage, fazem coisas. Algumas delas, boas. Consideradas boas. Alguém recolhe animais na rua, cuida deles e é um escroto com os vizinhos. Outro é excelente amigo e bate na mulher. Gente que mantém projetos sociais e não paga a pensão alimentícia dos filhos. Pessoa que, num impulso, diante de um acidente, arrisca sua vida pela dos outros mas no dia a dia é mesquinho e homofóbico.  Mulheres valentes que lutam por creches e dizem que mulheres trans são homens disfarçados e podem morrer que não fazem falta. Somos caleidoscópio. Dependendo de onde o raio de sol bata, refletimos diferenças.

Conecta-se com o que a Renata disse: “a casca: o que se faz. Como se age. Não quero saber daquilo que se chama “alma”: das intenções, dos propósitos ocultos, dos sentimentos nos bastidores. De uma suposta essência, enfim. Se a gente abandonar a ideia de alma, o que resta é ação. Atitude. São gestos. E, afinal, esse é que é o ponto mesmo, não? Não quero saber se você ama seus filhos, lá no fundo. Se tem afeto pelos seus amigos. Se você, em pensamento, lá dentro do seu coração, é bacana, bom caráter, bem intencionado. Se tem vontade mesmo de fazer “o bem”.  Não é essa a questão aqui. O propósito não é julgar “o bem”, “o mal”. A questão, de novo, é o que se faz.” 

Conecta-se, disse eu, mas queria dizer mais uma coisa: as coisas boas que se faz não são assinatura em folha em branco. Não legitima nem minimiza o resto do que somos e fazemos. Nem o contrário. Não é porque se comete um erro, uma escrotice ou um crime que as bondades outras não valem mais. Quando meu pai fez vestibular era assim: uma questão errada anulava uma certa. Não é assim na vida real. Um erro é um erro. Um acerto é um acerto. Uma bondade é uma bondade que não apaga, compensa ou justifica mais nada além dela mesma. E vice-versa.

A bondade não é a essência de alguém ou alguéns. É relacional. Processual. Circunstancial. Construída e sustentada pelo olhar de outrem. Não são raros os casos em que identificado algum tipo de “monstro” se sucedam os depoimentos de “mas ele era ótimo pai”, “nunca pensei, um vizinho tão bom”, “imagina isso, sempre tão gentil com as crianças”. É do humano a plasticidade, somos múltiplos, capazes de atos de generosidade e mesquinharia. De enormes gentilezas e da mais aguçada crueldade. Avançaremos quando deixarmos a bondade de lado, como forma de dar estrelinha pros que confirmam nossas idéias e aspirações. Avançaremos quando abarcamos nossa complexidade. Avançaremos quando pararmos de nos desligar dos erros alheios, quando pararmos de apontar dedos, de cobrar coerências, de insistir em uma pureza, retidão e bondade absolutas. Avançaremos quando entendermos o que já afirmava o filósofo: nada do que é humano me é estranho.

Então, Luciana, se perdoa tudo? Nopes. Não se perdoa nada. Ou ainda: não é matéria de perdão, mas de reconhecimento. Somos humanos e isso não é um dado natural, mas uma condição, uma possibilidade, somos candidatos à humanidade. O que é transformador não é a bondade, é o compromisso – individual, mas não só, também coletivo – ético, deliberado, insistente e intencional com um projeto de humanidade, de relações, de sociedade. De existência.

Tá foda…

Tão difícil escrever… Tem sido assim: começa, apaga, rascunha, apaga, soletra, borracha, não sei. E volta para a página em branco, para o tempo em branco, para a ideia vazia. Tem sido assim e me pergunto e pergunto e pergunto: Por que?

Estamos todos fodidos. Mas, dito assim, fodidos em jeito negativo, “desexplica”. Porque no fundo no fundo estamos é não fodendo. Não há mais a foda, como a arte da troca, dos corpos, das salivas, dos sussurros, dos gemidos, dos palavrões em boa hora, dos suores – aaaaaahhhhh, os suores…. – das mãos nos seios, na bunda, no caralho, na buceta, no rego. Dos cheiros, do gosto de porra, do gosto de gozo, do melecado, do encharcado, dos lábios, do lábio…. dos láaaabios. A foda, sabemos, é sempre a primeira a sofrer: por causa da importância crucial em se controlar os corpos, querem sempre e sempre fiscalizar a foda. E surgem fiscais de sexo, de buracos, de cus, de xoxotas, de paus: sempre com pedras.

A faceta mais nociva dos autoritarismos é esta: o controle das fodas. Não, não de trata de imaginar que um mundo onde haja gente trepando ao ar livre em esquinas do mundo. Se trata, sim e sim, de dizer que a foda é tão humanamente importante… Perfume, sabor, dor, sim. É mais fácil colocar a foda como pecado. Porque assim controlamos a única coisa que, de fato, é nossa: o corpo. E podemos, então, garantir a ordem das coisas, o domínio das coisas, as coisas outras.

Não é a toa… nada é. Não falo de sexo, falo de fodas.

Um governo de gente branca, masculina, de ternos escuros. Que fode às escondidas. Que usa meias pretas enquanto trepa. E que lavam as mãos ato contínuo ao esporro, higiene na hora das trocas…. A imagem é esta…

E tem sido difícil escrever. Cada vez mais… porque faltam desesperadamente boas fodas….

 

 

 

Quem beija a boca do meu filho, a minha adoça

Chorei muito vendo esse vídeo.

Um tempo atrás, eu estava na Arezzo do shopping Eldorado, experimentando sapatos, quando o Mateus, meu filho adolescente, chegou pra me encontrar. Quando saímos da loja, ele me contou que, ao entrar, ainda na porta, notou que todos os vendedores e o que acreditamos ser o gerente se puseram alertas. O jeito como o gerente olhou pra ele foi agressivo. No susto, ele apenas disse “minha mãe esta ali” e apontou pra mim. E aí sim se sentiu a vontade pra entrar, com os olhares sobre ele até confirmarem que a mãe daquele mocinho preto de black estava mesmo ali, com vistas a gastar dinheiro naquela loja que, sabemos, não é barata.

Eu nada notei, confesso. Estava conversando com a moça que me atendia e nem vi quando ele entrou. Não houve agressão verbal, não houve agressão física. Houve a percepção pessoal dele, que pode ser tão concreta e contundente quanto um ato ofensivo. Houve a percepção porque quem sofre racismo sabe quando acontece. Apenas sabe. Mesmo quando aquele que praticou não tenha aberto a boca.

Conversamos sobre isso depois (e continuamos conversando até hoje, inclusive porque ele tinha acabado de passar por outra situação semelhante, quando foi extremamente mal atendido num quiosque de açaí. Duas, minha gente, em menos de meia hora!).

O que posso dizer é que o depoimento de um dos pais deste vídeo que começa o post (esse educador maravilhoso), dizendo que só de nomear racismo para definir o que o filho viveu já doi, é a mais pura verdade.

Filho pré-adolescente e a hora “daquela” conversa

Semana passada a série Grey’s Anatomy tratou de vários temas relevantes como violência contra a mulher e racismo. Um dos momentos que mais chamou a atenção foi o diálogo de Miranda Bailey e seu marido (médicos, de classe média alta) com seu filho, sobre como se comportar durante uma abordagem policial.

Esta cena motivou a conversa abaixo, entre nossa bisca Vanessa e o biscate-sempre-convidado Maycon:

Vanessa: Uma das características mais marcantes do Mateus, meu filho de 16 anos, além da beleza (hohoho), é a altivez. Ele tem uma desenvoltura pro mundo, uma segurança do seu lugar no mundo, que me emociona de ver. Ele resolve coisas, fala com as pessoas, é seguro, é afetuoso. E anda sempre olhando pra frente. Daí eu vejo o vídeo de Grey’s  (temporada 14, episódio 10)  e fico pensando na contradição que vivemos diariamente, de estimular a auto estima de nossos filhos negros, criando pessoas que não se vergam, com o medo diuturno de que essa altivez os coloque em situações de risco. Porque quanto mais um negro é potente, mais forte é a necessidade de quebrá-lo ao meio, né? É um temor constante que essa mesma segurança que ele demonstra seja não só o que o fortalece, mas também um fator de risco.

Maycon: Oi, eu sou como seu filho. Eu sou essa pessoa segura e afetuosa aí e graças as orixás fui poucas vezes abordado pela polícia e quando fui foi tranquilo até porque eu mantive e calma, falei devagar, não questionei , etc, mas eu tenho sorte, muita sorte e sei disso. Até hoje sinto o incômodo alheio quando chego numa loja ou numa banca pra comprar alguma coisa. Daí eu respiro, fico calmo, falo normalmente. Sou um homem negro, de 1, 85 de altura e como minha mãe diz com ar meio “maloqueiro” , puxei meu pai segundo minha irmã, ando sem camisa na rua, de chinelo, camisa no ombro, etc… Eu sinto um olhar, aquele olhar que não tem como explicar,uma mistura de “será que ele vai me assaltar” com “o que esse cara quer?” e um pouco de “ele é perigoso”. E, de novo, eu respiro, fico calmo, e faço o que tenho que fazer. Em outros espaços, como na universidade, na escola, a minha inteligência me “protegeu” até certo ponto porque sempre fui estudioso, sempre tirei notas, era um dos melhores alunos, mas isso não impede aquela sensação de que você não pertence aquele lugar, algo que só entendi melhor agora – e claro não te protege do bullying que eu sofri durante um bom tempo e que escondi da minha família porque não queria que eles soubessem, porque tinha vergonha e na escola ninguém fez nada. E essas coisas meio que fui descobrindo sozinho, na intuição, dando murro em ponto de faca, porque quando entrei na universidade pela primeira vez foi 12 anos atrás, fui o primeiro da família, não se discutia racismo como se discute hoje e minha família não tinha repertório pra me ajudar a passar pelo o que passei – nunca um racismo implícito, sempre mais sutil – , mas o amor da minha família, o carinho deles é o que me manteve e me mantém firme e forte. É daí que tiro minha segurança. O que quero dizer é ame teu menino, fale mesmo “eu te amo, você é lindo, inteligente” e faça ele se sentir amado e querido porque isso vai ficar nele pelo resto da vida e é daí que ele vai tirar força pra ficar firme e forte porque ele vai encarar um mundo bem cruel e pergunte se está tudo bem na escola ou onde ele for. Deixe claro que ele pode sempre pedir ajuda e que não tem nada errado com ele. Espero que ele, assim como eu, consiga escapar de uma situação mais perigosa com a polícia, que ele não tenha que lidar com os olhares que deixam claro que não é bem-vindo ali e que seja feliz, muito feliz e livre pra ser quem ele queira ser.

O Estado e a vida das mulheres

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Postei isso achando graça. Poliamor e sensualidade subversiva? Tá lindo! Anarcos de grande inteligência? Cheguem mais. Mas fiz a ressalva: não seguirei a recomendação sobre a descriminalização do aborto. Esta defendo todo dia. Com tristeza, com tenacidade. Há tanto tempo que a gente já poderia ter conseguido isso. Portugal, país católico, descriminalizou o aborto por referendo em 2007. Lá, a interrupção voluntária da gravidez é permitida até a décima semana, independente do motivo.  Desde então, os resultados são notáveis: de 2012 até 2016, nenhuma mulher morreu em decorrência de aborto. O número de abortos também caiu, como se pode ver neste texto aqui.

Portugal legalizou o aborto tarde – na França, a legalização ocorreu em 1975, há mais de 40 anos. Na Inglaterra, Escócia e País de Gales, antes ainda,  em 1967.

Mas o primeiro país em que se legalizou o aborto foi a União Soviética, em 1920. Segundo a wikipedia, “[p]ela lei soviética, os abortos seriam gratuitos e sem restrições para qualquer mulher que estivesse em seu primeiro trimestre de gravidez.”

Possibilidade de interrupção da gravidez. E, com isso, preservação da vida das mulheres. Da dignidade das mulheres. Dos direitos iguais das mulheres.

Parece evidente, para mim, como já disse em outro texto, que a outra ponta desta questão consiste no apoio do Estado à criação dos filhos, com creches e escolas gratuitas integrais e de qualidade, com saúde pública universal, com a possibilidade de flexibilização de horários no trabalho para mães e pais. Estas duas pontas não se opõem, mas se complementam no reforço aos direitos das mulheres. De ter filhos, quando querem tê-los; de não tê-los, quando não for o caso.

De novo, a URSS foi pioneira e implementou uma política de construção de creches públicas: “De 14 creches com número de vagas desconhecido, antes de 1917, a Rússia passou a ter mais de 365 mil vagas em 1932 nas cidades” (aqui). Com foco no direito das mulheres, aborto legalizado e creches públicas passavam a constituir partes integrantes da política de Estado para as mulheres.

Um século depois, o Brasil ainda patina e retrocede: a ofensiva religiosa e reacionária busca destruir até o direito já adquirido de abortar em caso de estupro, anencefalia do feto ou de risco de vida para a gestante. Todos os outros casos são considerados “crimes contra a vida”.

O que já era um direito limitadíssimo, que não atendia às mulheres, periga se transformar em direito nenhum, já que a PEC 181, que originalmente tratava da extensão do direito à licença-maternidade para mães de prematuros, foi alterada de forma a incluir no texto os termos “dignidade da pessoa humana desde a concepção” e “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção“. Ou seja, como no famigerado “Estatuto do Nascituro”, busca-se, através de uma gambiarra, igualar os direitos de um feto em formação aos direitos da mulher viva que o carrega em seu ventre. Um escândalo, um absurdo, algo que faz da mulher grávida uma incubadora sem vida própria e autônoma.

Enquanto isso, as mulheres continuam morrendo.  

Dois anos

Ainda não falei sobre esses últimos dois anos sem postar no Biscate Social Club, essa semana o Facebook me lembrou de coisas importantes nesses últimos dois anos, mudanças que fizeram de mim quem sou agora, em dezembro de 2017.

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#poledancenation #polelover

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Em 2015, em novembro, decidi ir fazer uma aula experimental de pole dance, me apaixonei, mesmo com todas as dificuldades que passei e passo pra vencer minha ansiedade em aprender os movimentos, pra vencer minhas fraquezas físicas e encurtamentos musculares devido a uma péssima relação com a musculação e com o padrão de corpo feminino, o Pole Dance me fez uma mulher mais empoderada, mais apaixonada pelo meu corpo, mais ativa, menos preocupada em emagrecer e me adaptar ao padrão de beleza que me é imposto desde a adolescência.

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#poledance #tbt #coreografia #dançasensual

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Conhecer o Pole Dance, o Chair Dance e toda a sensualidade desses estilos me mostraram que beleza e sensualidade existe em qualquer pessoa, não há padrão pra isso! E não, não estou interessada nas acrobacias, eu curto mesmo é dançar, sensualizar, desconstruir esse padrão de que belo no pole é fazer movimentos, bonito é se sentir sensual, gostosa, arrasante, não pra agradar alguém, apenas pra se agradar e se amar. Sem nenhuma pressão, apenas por amor próprio. Viver dentro de um estúdio de Pole me fez amar meu corpo e pensar em tentar ser modelo.

Foi o próximo passo! O passo certo, existe um nicho (meio controverso e que eu critico muito quando noto certos preconceitos) no mundo da moda em que me encaixo, o Plus Size, me vi descoberta por uma agência, fiz alguns desfiles, fiquei em segundo lugar em um concurso Plus Size, acompanhei um processo lindo de uma coleção de roupa de praia feita apenas pra mulheres gordas e baseada nas Pinups, uma imagem muito pouco compreendida por muitas mulheres. A sensualidade das Pinups, a beleza nas dobrinhas, nas gordurinhas, as lingeries e a liberdade sexual delas se encaixa muito bem com minha nova fase… Pole Dance, assumir e amar meu próprio corpo, me conhecer além do que me dizem que devo ser.

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De sábado #poledancer #polelover

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Fechei o ano de 2016 com um desfile onde usei dois modelos dessa coleção, no meio daquele ano fiz uma sessão de fotos com um dos primeiros modelos da coleção, tenho dois modelos até hoje, um deles usei numa coreografia de pole dance no final do ano de 2016. Me encontrei e comecei 2017 fazendo fotos sensuais, foram três sessões com duas fotógrafas diferentes e várias selfies minhas, me amando, amando meu corpo, amando a minha imagem, enfrentando o fato de que não ser padrão não me faz feia, que o que nos dizem é mentira. Somos todas lindas, cada uma com suas características!

Também foi no início de 2017 que dei início ao fim de uma relação que me prendia, me segurava, me sufocava, um relacionamento conturbado e traumatizante, eu responsabilizo toda essa mudança na minha auto imagem e na minha auto estima, se não fosse tudo isso, talvez ainda fosse parte daquele relacionamento, que ouvi de tantas pessoas que era abusivo, que me fazia mal, que me machucava e me tirava todo o amor próprio. Em abril de 2018, faz um ano que saí por completo dessa relação. Agora estou aprendendo a me amar, a ser feliz, a me conhecer novamente, a me ver sem depender de uma muleta de um relacionamento falido.

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Esse mês de dezembro veio com várias alegrias, me encontrar novamente em ativismos, militâncias, ser atuante em tudo que acredito, o ano de 2017 me fez ser eu, ser ativa, ter voz, ter fala, protagonizar minha própria vida, mas foi um processo de 2 anos de muitas mudanças. Espero ansiosamente pelo ano de 2018 e tudo de novo e incrível que ele possa me trazer.

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Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

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Tirando o Atraso

São tempos difíceis, Brasil. Verás que uma filha biscate não foge à luta. Combatemos com risos, riscos, tesão, lascívia, luxúria. Levamos para a rua nossa coragem de tentar ser quem queremos ser. De abrir estradas com mais perguntas que certezas. De não saber exatamente aonde chegaremos, mas seguindo em boa companhia.

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Estivemos longe. Fizemos poesia, bebemos cerveja, marchamos em passeatas, dormimos (ocasionalmente sozinhas), vadiamos, gestamos, amamos, lamentamos, bradamos. Fizemos e acontecemos.

Sentimos falta. Falta de sermos biscates aqui, juntas, com vocês. Estivemos longe, voltamos. Aqui, escrevemos. Partilhamos sonhos, desejos, planos, memórias, constatações, anseios, esperanças. Convites.

Sintam-se em casa, cheguem mais e fiquem à vontade! Vai aqui um aceno para retornar ao nosso clube, (re)conhecer a gente. Pois somos e não somos as mesmas biscas de antes, somos em mudança, belas biscates, únicas no hoje, no ontem e no amanhã (nosso clube tem homens também e, também eles, belas, únicas e poderosas biscates).

Permanecemos biscates em linhas, entrelinhas, intervalos, recomeços. Nosso blog é de pouca vergonha. Na verdade, de vergonha nenhuma. Gostamos de palavras que deslizam na língua: esbórnia. Que rodopiam no salão: gandaia. Que colorem manhãs: encontros. Que alegram o corpo: gozo. Que inquietam, que perturbam, que fazem pensar: madrugadas.

Apetecem-nos sabores ácidos, frissons, arrepios. Reviravoltas, piruetas, rodopios. O caminho reto nem sempre é o mais prazeroso. Nas curvas encontram-se anseios, suspiros, tentações.

Então, é isso, estamos aqui com água na boca, com coceirinha nos dedos, com frivião no corpo, na vontade de tirar o atraso. Voltamos. Estamos. Somos: Biscate Social Club.

biscate

PS. Somos espalhadas, audaciosas e espaçosas, temos página no FB e um tumblr delicioso, com as mais irreverentes e gostosas postagens. Você também pode nos seguir no twitter: @BiscateSC. Aproveite.

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