Seja coronel, seja herói

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Seja coronel, seja herói.

As lutas das minorias todas continuam deixando capturar-se pelos seus senhores. Ainda estamos a repetir as velhas histórias do patriarca de Gilberto Freyre, ainda estamos a acreditar em coronéis. Os coronéis de toda uma literatura dos rincões do Brasil. Uma literatura Amadiana.

Tornamo-os heróis.

Temos dificuldade de produzir políticas outras que não passem por estes heroísmos. Precisamos deles, dos grandes revolucionários da elite-branca-cis-hetero-normativa a nos dizer que caminhos seguir. A nos dizer que rumos serão os melhores para a nossa consciência.

Para a nossa inclusão.

Não é só o lugar fascista do atropelamento vil dos direitos. São também esses que oprimem sorrateiramente, a delícia (com dor) que ativa o fascismo em cada uma e em cada um de nós.

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Sem tempo: Como Hélio Oiticica, gostaria que fossem mais margens e menos centros. Como Grada Kilomba (e seus projetos para os desejos) quero, mais que me zangar e me ressentir, re-sentir as heranças coloniais. É tarefa minha (nossa) dar conta desta herança maldita/gostosa (copiando Cleber Braga e seu cabaré decolonialista).

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

 

Por que Universidades ocupadas incomodam tanto?

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Tantas Universidades públicas ocupadas, já perdi até a conta! E a onda tende a aumentar nos próximos dias. A pauta principal, que une tantas e tantos estudantes, é a PEC 241, que congela (sim, é congelamento) os investimentos em Saúde e Educação por vinte anos, coibindo, inclusive, concursos públicos e gastos “extras”, exigindo cortes.

Talvez estas ocupações, sozinhas, como a pauta da educação pública em geral, não tenha, até o momento, incomodado tanto a oligarquia do poder estabelecido, por conta de diversas estratégias que este grupo utiliza, disseminando apenas informações positivas e a “necessidade” de “refrear os gastos públicos” na mídia, ainda o próprio fato de a Universidade ser um espaço de passagem, pouco relacionada com o seu próprio entorno e também porque as pessoas já se acostumaram a greves nas Universidades Públicas, por motivos de redução de direitos de docentes e servidores.

De toda forma, o que me chama a atenção, desta vez, é que as ocupações, com a paralisação das atividades na Universidade, incomoda uma quantidade enorme de docentes. Nós, que perdemos direitos trabalhistas nas últimas décadas, que sempre tivemos dificuldade de adesão a greves e paralisações, e que, quase sempre, saímos perdendo na luta pela manutenção de nossas pautas. As últimas greves têm sido terríveis! Um cansaço tremendo e resultados ínfimos, nos obrigando a repor aulas, cancelar períodos, muitas vezes recebendo questionamentos (justos!) de estudantes pelos desdobramentos destes processos.

Tenho, infelizmente, que admitir que estas ocupações incomodam tanto a uma quantidade razoável de docentes porque a Universidade sempre foi ocupada por pessoas mais favorecidas da sociedade e a maioria de nós, professoras e professores delas, tivemos nossas boas formações em Universidades públicas, devidamente elitizadas. Somos pessoas brancas. Pudemos fazer a proficiência em Inglês para o Mestrado e para o Doutorado, usufruímos talvez não da melhor estrutura, mas de uma estrutura pública.

As pessoas mais pobres, as pessoas pretas, as pessoas indígenas, as pessoas travestis, as pessoas trans*, as pessoas com deficiência que não puderam sequer chegar às aulas do Cursinho de Inglês, estas há muito pouco tempo estão na Universidade pública. Isto aconteceu por conta das ações afirmativas, por esforços coletivos, por esforços pessoais e  pelo aumento de vagas nas universidades, especialmente no interior do país. É óbvio que este processo foi complicado, pois há problemas sérios de estrutura, mas, este mesmo processo, também empregou muitas e muitos de nós, estudantes de uma Pós Graduação que também se expandiu. Mas, sabemos, a maioria de nós, docentes, não veio de lares vulneráveis economicamente.

Muitas pessoas estão, agora, sendo as primeiras de suas famílias a chegarem ao Ensino Superior. E público. E só podem permanecer nele porque há políticas de assistência que, na minha época de graduação, nem existiam direito. Ouvi de uma colega, há uns dois anos, num curso, que “depois das cotas, o curso de Medicina perdeu muito a qualidade”. Há diversos estudos que dão conta exatamente do contrário, mas, infelizmente, acho a fala da colega emblemática para entender o que se passa agora.

Tenho assistido, presencialmente e nas redes, ou por meio de relatos de pessoas que presenciaram, a situações de desqualificação, por parte de colegas professores e professoras, do movimento de ocupação das Universidades. Estas desqualificações são as piores possíveis: chamam estudantes de “pobres vagabundos que vivem de bolsas”, “analfabetos funcionais”, “delinquentes vândalos” e “massa de manobra”. Não se dão conta que, elas e eles, docentes, realizaram seu Estágio de Pós Doutorado no Exterior com financiamento público, por exemplo. Mas, óbvio, é melhor pensar que foi a sua genialidade que o levou a esta “conquista”.

Sim, a “conquista” é individual e não coletiva. Nós, imbuídos de nossos Currículos bem recheados, disputamos Bolsas de Produtividade, formamos “equipes vencedoras”, reproduzimos em nossos Congressos de Associações Científicas as Menções Honrosas pelos melhores trabalhos, personalizamos o processo, reiteramos a meritocracia. E publicamos papers em grupo, obviamente! Por isso as ocupações incomodam tanto. Sim, estas pessoas que menosprezamos no cotidiano da Universidade se organizam coletivamente, trocam saberes, constroem estratégias de luta e, mais, de aprendizagem mútua e colaborativa.

São movidas pelo desejo de instituírem um fazer coletivo. Nessas sociabilidades colocam em xeque as nossas formas de ver o mundo. Sabe o que somos? Somos pessoas mesquinhas, vivemos em gabinetes, em torres de marfim, não entendemos nada mesmo de luta, de resistência, de sociedade. Sim, a Universidade vem sendo ocupada por pessoas que se integram mais num processo coletivo, e mais, que não precisam de nós, pessoas donas do conhecimento, para pautar sua luta, isso mexe com o nosso brio, porque não faremos o cronograma e nem diremos qual a leitura obrigatória. No máximo, faríamos uma mesa de discussão ou escreveríamos um manifesto!

Sim, a Universidade precisa destas ocupações porque também é preciso mostrar a nós, professoras e professores, que muitas vezes não passamos de reprodutores da colonização do saber, porque somos atravessadas por ela. Isso não quer dizer que não haja espaços maravilhosos na Universidade, e é por isso mesmo que estas pessoas estudantes a querem ocupar! Isso não quer dizer que não há professoras e professores que tiveram e têm dias difíceis. E que não há também gente que está na Universidade descolonizando (e muito!). O problema todo é que uma boa parte de nós, docentes, não vai mesmo se solidarizar.

Que esta primavera tenha o tempo que for e, para além de espantar todo o mal que essas medidas de austeridade trazem, nos ensine a pensar outras Universidades possíveis. Que nos junte a elas e eles contra projetos encaixotados de Educação, que nos ajude a lutar contra a “Universidade Operacional”, como denomina Marilena Chauí a Universidade da gestão racionalizada que muitas de nossas Universidades públicas estão paulatinamente se tornando, exatamente a serviço deste sistema elitista que se construiu no status universitário.

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

“Eu tenho direito de não gostar de criança” é a fralda cagada do meu filho na sua cara

Por Tâmara Freire, Biscate Convidada

Já começo pedindo desculpas pela exaltação.

Ontem, antes de dormir eu tinha planejado começar esse texto comentando que já xinguei muito no Twitter, já tretei muito no Facebook, portanto, no blog, eu seria polida.

Mas não vai estar sendo possível.

Então antes de mais nada, aí vão os trigger warnings:

  • ESSE TEXTO FALA SOBRE CRIANÇAS
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE MÃES
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE UMA MÃE MUITO ESPECÍFICA E MUITO EMPUTECIDA COM AS MERDAS QUE VOCÊS ANDAM FALANDO SOBRE CRIANÇAS E MÃES

Achei conveniente alertar porque essas três coisas andam ofendendo muitíssimo as pessoas esclarecidas da internet ultimamente. Se você é uma delas, fique à vontade para se retirar, ou continue conforme suas próprias intenções. Eu não sou do tipo que bota plaquinhas com proibições por aí. Sigamos.

Desde que a treta sobre o restaurante proibindo a entrada de crianças explodiu há alguns dias, eu já li todo tipo de argumento em defesa da iniciativa: “os estabelecimentos têm direito de definir seu nicho de mercado”, “muitos pais não sabem educar seus filhos”, “há lugares apropriados para as crianças frequentarem”, “as pessoas têm direito de pagar para ter tranquilidade”, “ninguém é obrigado a aturar a birra do filho alheio”. E hoje eu descobri que quero ter a liberdade de escolher onde vou com meu filho porque não transo, e quero deixar o mundo todo enervado com a bagunça dele, por inveja, para que as outras pessoas não transem também. Puxado, né?

Me parece que todos giram ao redor de três pontos: 1) a responsabilidade exclusiva dos pais pelo que acontece a seus filhos 2) o direito de se isolar de grupos sociais que causem incômodo 3) o direito de pagar – e consequentemente de oferecer – por qualquer serviço demandado por alguém.

Então, eu vou propor que a gente extraia os conceitos que sustentam esses argumentos para saber se vocês continuam achando que eles são tão válidos assim.

1. Uma criança é responsabilidade exclusiva de seus pais.

É isso que você está dizendo quando defende que não é obrigada a aturar choro de uma criança que não é sua. É esse também o pensamento que sustenta a ideia de que os pais devem ficar em casa, para evitar que outros “sofram” com o comportamento de seus filhos, ou devem se limitar a lugares frequentados por outros pais ou outras crianças. Afinal de contas, apenas quem escolheu ter filhos deve lidar com as consequências absolutamente normais de existir uma criança em um espaço. Você está dizendo que só precisa conviver, se sensibilizar ou se responsabilizar pelas vulnerabilidades ou necessidades de outros seres humanos que tenham uma relação direta inalienável com você. Você está dizendo que só precisa suportar ou respeitar as reações normais de um outro ser humano se ele estiver sob sua responsabilidade legal. Você está dizendo que só é capaz de ter empatia em uma situação de conflito caso as pessoas envolvidas sejam semelhantes a você. É isso que você está dizendo?

2. As pessoas têm direito de se isolarem em locais onde não há crianças, porque se sentem incomodadas por elas

Quando alguém reivindica o direito de ter um jantar romântico, ou uma temporada tranquila em estabelecimentos que proíbam a entrada de crianças, essa pessoa está dizendo que tem o direito de se isolar em um local, onde todo um grupo social não é aceito. E não porque esse local é inadequado, ofensivo ou perigoso para crianças, mas para garantir o seu próprio conforto, já que o barulho ou a atividade de crianças podem incomodá-la em seu programa. Defende, portanto, que grupos sociais possam ser impedidos de frequentar e se comportar naturalmente em lugares, para preservar os outros frequentadores do que eles são e como agem. Normalmente, usa-se o argumento dos excessos, como se não fosse possível admoestá-los sem restringir a circulação de todo o grupo. Parece familiar? Você realmente acredita que pessoas de um determinado grupo devem ser banidas de espaços abertos ao público, só pela potencialidade que têm – construída em cima de generalizações e estereótipos – de incomodar outras pessoas?

3. As pessoas têm o direito de oferecer serviços discriminatórios e têm o direito de adquiri-los desde que possam pagar por isso

Restaurantes e hotéis não são serviços públicos, mas negócios privados. Quem oferece cobra para que os interessados tenham acesso. São, portanto, regidos pela lei do mercado, pelo lucro, e como qualquer empreendimento, têm seu público alvo e suas maneiras de atraí-lo. Você pode criar um menu exclusivo para casais românticos. Você pode estender seu horário de funcionamento e recomendar às pessoas que querem maior tranquilidade, quais os melhores horários pra isso. Você pode criar um ambiente mais intimista, que vai naturalmente repelir pessoas que precisem de espaço e luminosidade. Mas você não pode simplesmente proibir as crianças de frequentá-lo. Parece muito claro para mim quem faz segmentação e quem faz discriminação. Sejam honestos: quantas vezes vocês foram a um restaurante chique, à noite, e o encontraram abarrotado de crianças barulhentas impedindo os clientes de terem seus momentos de intimidade? Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda: vocês realmente acham válido esse argumento de que todo e qualquer serviço pode ser oferecido desde que exista alguém disposto a pagar por ele? De que os prestadores de serviço devem ter todo o poder de definir onde cada grupo pode transitar? De que a sociedade ideal se define pelo máximo possível de exclusividades relacionadas a desejos e repulsas particulares pelas quais se possa pagar?

O pior desses conceitos é que eles estão contribuindo para construir um mundo segmentado, cheio de pessoas ignorantes sobre o básico da interação social: todos nós dividimos um mundo com outras pessoas, que possuem suas próprias maneiras de viver, e elas algumas vezes são incômodas. É absurdo que estejamos discutindo a sério como se isolar ou restringir a circulação de todo um grupo social, por características perfeitamente naturais que ele manifesta, especialmente quando esse grupo é o que tem menor capacidade de mobilidade e poder de mobilização, e maior potencialidade de ser vítima de uma série de opressões e violências.

Sem contar o efeito nefasto que a construção social sobre as crianças, como seres eminentemente incômodos, chatos, carentes e ignorantes tem sobre as cuidadoras dessas crianças, condenadas a uma vida social restrita ou a serem julgadas publicamente por se insurgir

Eu sou avessa a carteiradas, mas vou abrir uma exceção porque o assunto merece: eu falo desta questão com bastante emotividade e interesse porque eu sou uma mãe solo. Que vive sozinha com seu filho, distante a muitos quilômetros do pai desta criança e de qualquer outro familiar. Eu faço compras com o meu filho, eu vou a museus com o meu filho, eu vou a restaurantes e a bares com o meu filho, e tento me restringir apenas pelas limitações impostas por ele mesmo e pelo meu julgamento a respeito do seu bem estar. Porque na maior parte do tempo, eu não posso fazer nenhuma dessas coisas, se ele não puder estar presente. Mas principalmente porque eu e o meu filho somos cidadãos dessa cidade e temos todo o direito de desfrutá-la.

No mais:

É SÓ A PORRA DE UM JANTAR NUM RESTAURANTE.

Se o grande problema da sua vida é não ter tido todo o silêncio desejado na sua tão sonhada estadia com o mozão em Jericoacoara, talvez eu deveria estar fazendo um texto sobre o conceito de “problema”.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

O tchauzinho de Mariana

Por Stela Guedes Caputo, Biscate Convidada

Quem viu o debate na terça-feira (18), entre os candidatos à prefeitura do Rio, Freixo e Crivella, teve a oportunidade de presenciar um protesto brilhante. Bem no finzinho, a jornalista Mariana Godoy reage ao comentário do bispo com um simples gesto: fez um “tchau de miss”.

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O protesto de Mariana aconteceu quando, ao se despedir, a apresentadora disse que a transmissão ao vivo do debate era a mais vista no Facebook. “Eu quero agradecer a você, Mariana, Ana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, disse Crivella, refereindo-se às duas apresentadoras.

Por que o gesto, visível para milhões de pessoas na TV, nas redes sociais e multiplicado em memes, gifs e todo tipo de sátira é tão importante? Todas nós mulheres já vivemos essa situação. Preparamos uma aula, uma palestra, um texto, fizemos um cálculo, fabricamos um motor, desenvolvemos uma fórmula, varremos uma rua, lavamos e passamos, tocamos piano, falamos idiomas, publicamos livros, legislamos, ensinamos, aprendemos em aulas. Ao fim, somos vistas por nossos olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos. A depender de como os padrões dessa sociedade machista definem olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos, somos qualificadas e classificadas. Quantas vezes sufocamos diante de uma atitude machista (de todo tipo) quando gostaríamos de devolver a agressão? Quanto mais a relação de poder é apertada, mais sentimos a forca em nosso pescoço e bebemos internas lágrimas, silenciosos desesperos submetidas pelo assédio moral e sexual.

O gesto de Crivella foi bizarro, como foram e são bizarras as condições colonizadoras e patriarcais de nosso país. O colonizador primeiro escravizou mulheres, usando seus corpos, muitas vezes até a morte. O colonizador queria a buceta da mulher e seu útero. A primeira para o gozo sexual. O segundo para o gozo do capital já que era do útero da mulher negra que nascia mais mão de obra escrava para o colonizador branco crescer e multiplicar dinheiro e fúria. Em função desse mesmo patriarcado, as mulheres não podiam ser alfabetizadas, depois não podiam trabalhar, andar na rua sem estar acompanhada, votar, ocupar posições socialmente desenhadas para homens, receber salário igual. A luta para fazer o patriarcado colonial recuar foi imensa e custou a vida de muitas mulheres, sobretudo, a vida de mulheres negras.

Ao ironizar a fala machista de Crivella, Mariana, do seu modo, dentro de gigantescos limites, devolveu, com um gesto, o que todas nós, mulheres, devolvemos com luta na rua, com protestos, com internos prantos, com prantos expostos, com tapas, com processos judiciais, com ampliação de conquistas, direitos. E ainda mandou um “porra”, diante de milhões de pessoas. Sim, nós mulheres podemos dizer palavrões. Mariana rompeu um aprisionamento midiático. Com seu “tchauzinho de miss” mostrou que o projeto colonizador não conseguiu e não conseguirá domesticar nossos corpos. Mariana, do seu modo, se arriscou e, como dizem as novas linguagens facebookeanas: Mariana “mitou”.

Nos chamam feminazis toda vez que enfrentamos homens como Crivella. Não importa. Lutamos porque ainda estão de pé as estruturas patriarcais que sustentam o mundo em que vivemos. E até que essas estruturas sejam demolidas, continuaremos lutando, cada uma de nós a seu modo.

Crivella podia ter agradecido a inteligência e competência das duas apresentadoras. Não fez. Não faria. Um machista não vai além de si mesmo e de seu machismo. Nós, mulheres, vamos além das amarras, da submissão e da misoginia. Não se trata “apenas” de uma eleição municipal. Há MUITO em jogo. #ForaCrivella #ForaMachista#FreixoeLuciana50

14519817_1216963518376464_3496738441427865901_nStela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.

PEC 241: O buraco é mais fundo

Por Luiz Antonio Simas*, Biscate Convidado

O buraco é mais fundo e exige análises não apenas conjunturais (essas são importantes, mas aqui vou me ater a outros aspectos). Baterei de novo numa tecla que me parece uma das chaves do problema brasileiro: a exclusão social no Brasil é um projeto de estado inscrito na nossa História como o mais consistente. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É assim que o racismo opera no campo simbólico.

O problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador e civilizatório das elites do Brasil, continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

Nós somos um país que não conseguiu, como contraponto a isso, universalizar os direitos à educação e saúde públicas como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

O que a PEC 241 faz não é apenas desmontar o estado social brasileiro (ele mal foi montado, afinal). O que ela faz é consolidar o projeto que identifiquei no primeiro parágrafo deste texto e inviabilizar o Brasil como uma possibilidade de país que não seja o fundamentado na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual nunca saímos de fato.

O Brasil não tem exatamente deputados: tem, com exceções que confirmam a regra, senhores de engenho, bandeirantes apresadores, capatazes e capitães do mato que nunca saíram do século XVI e acabam de dizer o que seremos no século XXI.

fotosimas*Luiz Antonio Simas é historiador de formação, macumbeiro por vocação e contador de causos por ofício.

 

O dia que fui crucificada: A migalha, o desserviço e a necessidade de maturidade política nos ativismos identitários

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

No ano passado, escrevi a matéria da capa da Revista Galileu de Novembro, sobre gênero. Aquela foi a primeira vez que uma pessoa trans havia escrito, para uma revista de circulação nacional, uma matéria de capa. E foi também uma das poucas matérias a abordar a questão da transexualidade fora do viés patológico, trazendo relatos e vivências e pensando nisso como uma questão identitária.

O texto saiu com inúmeros problemas: a revisão modificou meu texto, termos foram imensamente simplificados pra atender ao pública da revista ( que, imaginávamos, nunca havia tido contato com as teorias de gênero ou com o ativismo trans) – o resultado? Um texto útil, porém falho em muitos sentidos. Tudo bem. Recebi uma imensidão de críticas: enquanto eu era atacada por religiosos, por pastores, por todo tipo de gente que veio ao meu perfil me ofender, era, igualmente atacada por outras ativistas, algumas, que nem haviam lido o texto, atacaram a partir da narrativa de outras pessoas.

Aquela situação me deixou imensamente chateada. Eu realmente achei que havia feito um ” desserviço” pra ” causa trans”. Isso até que comecei a receber relatos de pessoas trans do país inteiro que tiveram contato com o a Revista. Professores que utilizaram o texto em sala de aula, e principalmente, o relato de um rapaz, do interior do Pará, que não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa trans e que não sabia como explicar a sua transgeneridade para seus pais: ele dialogou com pais e amigos a partir do texto da revista.

Naquele momento, percebi que, ainda que meu texto não fosse ” ideal”, que não estivesse conceitualmente perfeito, ele teve efeitos positivos, pôde ser usado como instrumento de conscientização e de luta. Houve que lesse e pensasse: ” Meu filho não é doente”. O texto não foi um desserviço. Eu falei em ” sexo biológico”, mas aquilo não foi um desserviço. Então, porque eu fui tão criticada? Porque meu texto foi chamado de “transfóbico” e de “um desserviço a causa trans”?

As razões que consigo pensar são as que enumero agora:

1) Profissionalismo linguístico: É a exigência de que tudo, absolutamente tudo, seja sempre narrado de uma única forma; é o detalhismo, o cuidado que nos impede de ser “simples”. O desprezo da eficácia do processo de comunicação e seu aprisionamento em moldes linguísticos inacessíveis pra muita gente. Um termo ” fora do lugar” e todo o texto perde valor.

2) Migalhismo: Chamo de ” migalhismo” nomear “migalha” todo e qualquer avanço que não tenha ocorrido como no plano ideal. É uma migalha de representação escrever um texto, mas ter de se adequar a exigências da norma. É uma migalha que a Universal fale das pessoas trans, mas use um ator cisgênero. O migalhismo recusa tudo. Desculpe, aos que consideram migalha qualquer avanço que não seja ideal, mas é uma postura bastante privilegiada optar pelo “nada”. As lutas sociais, a política, ocorrem sempre no plano da negociação, e a gente precisa aprender a ceder, assujeitar-se é também uma forma de resistência.

3) Ausência de estratégia política: Como assim? Criticar os problemas do texto não é uma atitude política? Certamente, porém criticar um avanço mínimo sem no entanto pensar o que podemos fazer com este avanço é um problema. Precisamos pensar a realidade a partir dos recursos de luta que ela nos oferece. Não adianta dizer: ” Só aceito se for do jeito que eu quero”, não é assim. Existem uma demanda do real que está alem de nós mesmos.

4) Imaturidade: As temáticas trans estão entrando na agenda agora. Os meios de comunicação, respondendo à nossa pressão, vão buscar formas de acomodar a presença trans nestes espaços. Essa acomodação exige maturação de pauta, de abordagem. Hoje traz-se o tema, amanhã avançamos na abordagem e, assim, incrementalmente, vamos construindo e acessando outros espaços. Infelizmente, a luta não se dá no plano ideal, como gostaríamos. Existe um tempo e uma ação no tempo: compreender o que fazer em cada momento para agir com mais vigor em seguida é fundamental. Numa escritura budista, creio que chamada Kaimoku Sho, diziam que “compreender o tempo é o primeiro passo”. Concordo em absoluto.

Eu sou ativista e absolutamente compromissada com a causa trans, mas isso não me faz absolutamente compromissada com esta ou aquela estratégia em específico.

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

O debate de gênero nas escolas é necessário

Por Matheus Rodrigues*, Biscate Convidado

Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, estudava num colégio católico tradicional aqui de Niterói, me chamaram de gay na sala de aula. A professora, que ouviu, foi mais rápida que eu para esboçar uma reação e disparou em alto e bom tom: e se ele for? o que que tem?

Num primeiro momento não só estranhei, como não gostei da resposta dela. Afinal, como a maioria dos adolescentes gays, eu próprio reprimia a minha sexualidade. Era algo ruim, algo de que eu deveria me envergonhar. Foi assim que aprendi. Hoje essa professora, Mônica Mançur, é uma das pessoas a quem mais sou grato, por ter me ajudado a perceber que eu não tenho que ter vergonha nenhuma de quem eu sou, que quem tem que ter vergonha são aqueles que destilam ódio.

No dia 8 de junho aconteceu a primeira audiência pública na Câmara de Niterói sobre o Plano Municipal de Educação (PME). Se eu disser que foi um show de horrores, vou estar usando um eufemismo muito fraco. Ódio atrás de ódio por parte dos defensores da exclusão, do PME, das metas referentes ao debate de gênero, identidade de gênero e orientação sexual nas escolas.

E por que uso a palavra “ódio”? Porque o PME não vai ensinar as crianças a serem gays. Não vai estimulá-las a mudar de sexo. Não vai ensinar uma criança a chupar o pau de outra, como certo vereador afirmou uma vez. Não vai destruir as famílias. Não vai induzir as crianças à promiscuidade nem acabar com sua inocência. Ao insistirem nessas mentiras, os defensores do combate à tal da “ideologia de gênero” (que sequer existe, o termo nunca foi usado em nenhum documento oficial) deixam bem claro que não é racional a sua objeção à discussão de gênero, diversidade sexual e identidade de gênero nas escolas. Deixam claro que é ódio. Puro e simples. Ódio ao diferente, ao que ousam fugir do padrão do que eles interpretam da leitura de livros de milhares de anos.

O que o PME propõe, e qualquer um que pegar o projeto pra ler vai constatar, é que as escolas comecem a ensinar que não é certo xingar ou bater em uma pessoa só porque ela é diferente. Que todos são iguais em dignidade e direitos. Que as mulheres não são menos capazes que os homens, e muito menos objetos deles. Que não se deve excluir ou ofender alguém só porque essa pessoa é uma mulher que gosta de mulheres ou um homem que gosta de um homem, ou uma mulher que gosta de homens e mulheres, ou um homem que gosta de homens e mulheres, ou ainda uma pessoa que simplesmente não se identifica com o seu sexo biológico. Que o mais importante é o respeito à diversidade, às diferenças. O PME quer que mais professores e professoras façam o que a Mônica fez comigo anos atrás. Nada mais que isso. Tá lá escrito, é só ler.

Mas se mesmo assim vocês continuam a ser contra a discussão de gênero, de diversidade sexual e de identidade de gênero nas escolas, se mesmo assim vocês acham que isso tudo não passa de “doutrinação”, eu gostaria de fazer um pedido: sendo parente, “amigo” ou o que for, me excluam. Não só do Facebook, mas de qualquer relação social ou pessoal que porventura tenhamos.

Vocês também atiraram as pedras que mataram Alexandre João Batista Santiago aos 32 anos em Santa Catarina. Também participaram do estupro coletivo da garota de 16 anos na Praça Seca. Vocês têm nas mãos o sangue do Alexandre Ivo, torturado até a morte aos 14 anos em São Gonçalo por ser gay. Vocês têm nas mãos o sangue do Alex André, espancado até a morte aos 8 anos pelo próprio pai no Rio para aprender a “andar como homem”. Da Amanda Araújo, travesti de 17 anos morta a facadas no Maranhão. Da Elivane Santos de Almeida, morta aos 32 anos pelo marido na frente da filha no Mato Grosso. Do Luís Antônio Martinez Corrêa, morto com nada menos que 107 facadas em 1987. E, se continuar assim, vão ter também o meu. Eu quero é distância de vocês, da sua intolerância, do seu ódio. O que me traz alento é a certeza de que vocês não passarão.

MatheusRodrMatheus Rodrigues é gay, ateu e comunista: só não foi para o inferno ainda porque não acredita no tinhoso. Avesso a todo tipo de grades e muros, acredita que com força e com vontade a felicidade há de se espalhar com toda intensidade.

Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

quem tem medo 5

Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

Nota de Apoio a Monique Prada e às Trabalhadoras Sexuais

Publicado originalmente no
Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros

Nós, que abaixo assinamos, manifestamos nosso apoio a Monique Prada, militante feminista, trabalhadora sexual e presidenta da Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS). Monique tem sido atacada por grupos que se posicionam contra a garantia de direitos trabalhistas para profissionais do sexo.

Como Monique Prada, inúmeras outras trabalhadoras sexuais e militantes feministas que a elas se aliam nessa luta vêm sendo frequentemente expostas por grupos defensores de políticas de erradicação da prostituição que não só se mostraram ineficazes ao longo da história, como também refletem os projetos políticos dos setores mais conservadores da sociedade. Basta dizer que, no caso brasileiro, o argumento de que prostituição e exploração sexual são indissociáveis já foi publicamente defendido pelo deputado Wilton Acosta (PRB/MS), pastor da Igreja Sara Nossa Terra; e que o relator que propôs a rejeição do projeto de regulamentação das atividades de profissionais do sexo, submetido pelo deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ), foi o deputado pastor Eurico (PHS/PE), da Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

Reiteramos que a regulamentação das atividades de profissionais do sexo representaria um avanço significativo no combate à cultura do estupro, uma vez que asseguraria melhores condições de trabalho e segurança para trabalhadoras e trabalhadores sexuais, fortalecendo também a luta contra a exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes.

Assinam esta Nota:

Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros / Uerj

Anis – Instituto de Bioética

Biscate Social Club

Blogueiras Feministas

Centro de Referência em Direitos Humanos, Relações de Gênero, Diversidade Sexual e Raça (CRDH/Nupsex)

Coletivo Davida

Coletivo Não Me Kahlo

Edis – Núcleo de Estudos em Diversidades / UFAL

Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas

Geni – Grupo de Estudos de Gênero, Sexualidade e/m Interseccionalidades / Uerj

Grupo Identidade, Campinas

LADIH – Laboratório de Direitos Humanos / UFRJ

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Mulheres Guerreiras

Nudes – Núcleo de Estudos em Discursos e Sociedade / Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada / UFRJ

Nupsex – Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero

Observatório da Prostituição / Laboratório de Etnografia Metropolitana-LeMetro – IFCS / UFRJ

Nusex – Núcleo de Estudos em Corpos, Gênero e Sexualidade do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ

Roda Feminista / Uerj

Transgride – Núcleo Transdisciplinar de Estudos em Gêneros, Sexualidades, Cultura e Relações Étnico-Raciais, FND / UFRJ

TransRevolução
Amara Moira, travesti, putafeminista

Aricelina Gomes,  APROSPI – Associação das Profissionais do Sexo do Piauí

Aurilene Soares, AMUPS – Associação de Mulheres Profissionais do Sexo, Queimados/PB

Carmem Costa, Grupo Liberdade/PR

Cida Vieira, APROSMIG – Associação de Profissionais do Sexo de Minas Gerais

David Soares, Doutores da Prevenção – Campina Grande/PB

Diana Soares, ASPRORN – Associação de Profissionais do Sexo do Rio Grande do Norte

Eliane de Castro Melo, coordenadora do CIPMAC – Centro Informativo de Prevenção, Mobilização aos Profissionais do Sexo

Elizabeth Pereira, APROCE –  Associação de Prostitutas do Ceará

Fátima Medeiros, APROSBA – Associação de Profissionais do Sexo da Bahia

Georgina Orellano, AMMAR – Asociación de Mujeres Meretrices de la Argentina

Indianara Alves Siqueira, TransRevolução

Ivanete Bezerra, DASSC – Dignidade, Ação, Saúde, Sexualidade e Cidadania- Corumbá/MS

Irene dos Santos, Articuladora das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe

Jacqueline Brasil, ATREVIDA – Associação de Travestis Reencontrando a Vida/RN

Juma Santos, Tulipas do Cerrado, DF

Leonisia Santo, APROSEP- Associação de Profissionais do Sexo de Picos/PI

Roberta Torres, Movimento TransLegau, Nova Floresta-PB

Sebastiana dos Santos, APAM – Associação das Prostitutas do Amazonas

 

Adriane Pereira, estudante de psicologia, RJ

Alline de Souza Pedrotti, tradutora, RJ

Amana Mattos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenadora do Degenera/Uerj

Amanda Rastelli, psicóloga e pesquisadora do Gepesp (Iav/Uerj)

Barbara Gomes Pires, doutoranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Carolina Bertol, doutoranda em psicologia social (PUC-SP)

Carolina Maia de Aguiar, mestranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Caroline Cavassa, jornalista, Roma, Itália

Caroline G., publicitária e ativista, RJ

Clarissa Godoy, educadora, RJ

Claudielle Pavão, professora de história do município do Rio de Janeiro

Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Erika Natasha Cardoso, doutoranda em História (PPGH/UFF), pesquisadora-bolsista na FBN (PNAP), com ênfase em estudo sobre o sexo e suas representações

Fátima Lima, Nudes/PP

Gabrielle Sales Ferreira, estudante, RJ

Geisa Ferreira do Nascimento, pedagoga, RJ

Giovana Xavier, professora de Ensino de História, UFRJ

Heloisa Melino, advogada ativista, feminista interseccional, doutoranda em Direitos Humanos, Sociedade e Arte (PPGD/UFRJ)

Henrique Marques Samyn, professor da Uerj e colaborador do MundoInvisivel.org

Iasmin Rocha da Luz Araruna de Oliveira, historiadora, RJ

Isabella de Mendonça Nunes, RJ

Izabel L. Ramos Moreno, publicitária, RJ

Jacqueline Ribeiro, historiadora, Degenera/Uerj

Joyce Costa Barbosa, analista socioambiental, RJ

Kathleen Feitosa, militante feminista e antiproibicionista, RJ

Laila Queiroz de Souza, pós-graduanda em Violência Doméstica (PUC-RJ)

Leticia Calhau Freitas, educadora social, RJ

Leticia Naves, associada da Anis – Instituto de Bioética

Liliane Gusmão, arquiteta, ativista, QC, Canadá

Lina Arao, pós-doutoranda, UFRJ

Luciana Holanda Nepomuceno, Professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, RN

Luisa Dantas Soler, advogada, especialista em gênero e sexualidade, graduanda em ciências sociais IFCS/UFRJ

Luisa Lorena Neto de Oliveira, assistente de DP, RJ

Maíra Rocha, arquiteta, RJ

Maria Clara Drummond, RJ

María Elvira Díaz Benítez – PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

Maria Luiza Rovaris Cidade, psicóloga, RJ

Mariana dos Reis Santos, professora do Instituto Benjamin Constant e doutoranda em Educação, RJ

Mayra Okamura, estudante de psicologia, Uerj

Raisa Ramos, comunicadora da Anis – Instituto de Bioética

Sinara Gumieri, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Valéria de A. M. Forti, psicóloga e professora aposentada, RJ

Vanessa Dios, diretora-executiva da Anis – Instituto de Bioética

Vanessa Oliveira Batista Berner, professora associada da Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ), coordenadora do LADIH/UFRJ

Vanessa Fonseca, doutoranda em psicologia pela UFF, Degenera

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Um Sol Sem Graça

Cara, cês já viram médic@s terem que brigar para afirmar sua profissão como importante? É isso que artistas e (quase) todas as pessoas que trabalham na cadeira produtiva da Cultura (e nisso incluo @s professor@s) tem que fazer todos os dias. TODOS OS DIAS! Para família, amig@s, empregador@s e principalmente, para si mesm@s. É que no Brasil ainda somos considerad@s profissionais substituíveis, sabe? Nas escolas ou somos encarad@s como meros “decorador@s” para festas ou de nós é exigido o domínio (teoria e práxis) de TODAS as especialidades de “nosso” campo (música, teatro, dança e artes visuais), mesmo com cursos universitários e pesquisas na área sendo entendidos como coisa de vagabund@. Da galera que tá fora de sala de aula, a maioria não consegue sequer pagar as contas no final do mês, mesmo produzindo e “vivendo” arte e cultura 24 h por dia…

Então, se isso já era difícil de lidar com um Ministério específico pra nossa área, imagina sem um?

Ah, esqueci… talvez você e eu desaprendamos a imaginar. Porque né? Imaginar não é útil em diante da tal crise que está aí, nem tampouco contribui para o crescimento de nosso País nos ditames da tal “Ordem e Progresso”.

“Olha não tem ninguém na praça/

Só tem um sol sem graça/

Não tem ninguém para ver e contar…”

“Ah, mas só foi uma transferência, Raquel…”

O único só para mim nessa história é que Cultura é um babado do campo simbólico, Brasil. Portanto, atrelar Cultura a Educação é um desserviço que ecoará na produção artística de toda uma geração. Quer praticamente dizer que toda obra ou trabalho terá que ter uma “moral da história”. E no caso desse governo específico, cara, quero nem pensar em qual seria.

Ah, eu imagino sim.  Ainda?

Peças de teatro com conteúdo bíblico? Imitações de “estaltas” gregas com saia abaixo do joelho? Cinema com mensagens edificantes sobre ser “bela, recatada e do lar”?

Num vai “dar bom” isso não…

E (ainda) por falar em Cultura, muitas, muitas mulheres, em sua maioria pobres, fizeram e fazem cultura em nosso país. No intervalo do cuidar dos filhos, da casa, depois da lida na roça, cansando olhos, costas e coração.

Para ajudar num orçamento quase inexistente, insistiram na renda de bilro, no crochê, no ponto cruz. Para continuarem vivas e darem de comer as filhas e filhos a baiana montou seu tabuleiro e a paneleira acendeu seu forno de queima de cerâmica.

Talvez, também, para insistir em belezas cotidianas no meio de tanta dor? Acredito que…

No entanto, apesar disso acontecer desde que fomos “descobertos”, muitas dessas mulheres, até hoje, se envergonham do que produzem e não sabem “botar preço” no próprio trabalho. Porque, talvez, ainda não o entendam como tal?

Aí o “gênio” da moda, o chef estrelado, a loja no shopping se apropriam de suas criações para que a madame e o senhor, que contribuem com essa injustiça e alienação, ao acharem exorbitante pagar R$ 50 num “paninho”, desembolssem contentes R$ 50.000 numa peça que quem produziu jamais conseguiria pagar. Essas mesmas pessoas não sabem porque se chama alta costura a alta costura. Artesanato, senhoras e senhores. E cultura!

O valor do humano ali na sua frente, materializando tempo, paciência e heranças.
No país do quartinho de empregadA ainda temos muito que aprender e deglutir.
Por exemplo: que não há beleza alguma na morte da representatividade (essa morte em vida), não há apaziguamento possível diante da tentativa de nos calarem.

Porque de tantas formas “eles” tentaram, que aprendemos a “falar” e nos fazer entender de formas que sequer imaginam, esses sinhozinhos… mesmo quando parece que estamos servindo. Invisíveis. De joelhos.

Também aprendemos a ver, porque aprendemos na porrada e com o olho roxo, o que é feio e vil. Ainda que chegue-nos disfarçado como suposto respeito e consideração.

Portanto, não é “favor” algum dar-nos, enquanto mulheres, UM cargo de fachada num ministério extinto. Somos metade desse país, porra! Então é isso! Vai ter LUTA, SEUS MERDAS!

E lembrem, somos biscates… “Com a nossa rapa você não é capaz!”

 

Brasil, 12 de Maio de 2016

Por Renata Correa, Biscate Convidada

Filha,

Falta um mês para o seu aniversário de quatro anos. Todos os dias antes de dormir a gente conversa sobre sua festa. Você já quis dinossauro, sereia, bailarina, baleia. Depois você me pede duas histórias e uma música para aceitar fechar os olhos. Daí você pega no sono entrelaçada no meu corpo e eu vou me desvencilhando de você para terminar de trabalhar, conversar com os amigos, tomar banho, ver as notícias.

Nos últimos meses eu tenho pensado muito nas histórias que eu vou te contar. Sua bisavó nasceu em 1930, e não votou para presidente até sua avó nascer. Sua vó nasceu em 1956 e não votou para presidente até depois do meu nascimento. Eu nasci no fim de uma ditadura militar e nas primeiras eleições para presidente eu já tinha sete anos. Já quando você nasceu eu já tinha votado para presidente três vezes e uma mulher era presidente da república.

Eu queria contar para você que, nós, essas quatro mulheres, vimos ano a ano uma democracia se fortalecer e estabelecer. Mas a verdade filha, é que a república do café com leite lá da época do nascimento de sua bisavó ainda está em vigor. E que as instituições que matavam, torturavam e desapareciam com pessoas na época da sua avó nunca foram punidas e continuaram em pleno fucionamento. E é por isso que estamos vivendo o que estamos vivendo hoje.

Imagina que hoje filha, alguns homens conseguiram, sem nenhuma justificativa, retirar uma presidente da república de seu mandato. Uma mulher que desfilou em carro aberto ao lado da sua filha também, quando foi tomar posse. Uma mulher que foi eleita pela maioria do povo brasileiro.

Desculpa filha. Quando eu comecei a pensar em política, achei que democracia era uma coisa dada, inabalável, um direito inalienável. Sua avó já tinha lutado por ela, bastava agora aperfeiçoá-la, incluir nesse sistema aqueles que nunca puderam usufruir plenamente dela. Errei.

Forças conservadoras sempre irão tentar esmagar subjetividades e impor retrocessos se isso representar poder. Queria te dizer para ficar sempre atenta e vigilante quando eu não puder estar. Nada está permanentemente conquistado, tudo está permanentemente em processo.

Eu gostaria de te prometer uma coisa: a mamãe vai continuar, tá? Agora um pouquinho mais calejada. Eu, assim como a sua bisa, e a sua avó, fizeram antes de mim, não vou desistir. De ter um País mas justo, igualitário, onde a disputa política não se converta em ódio, onde o cinismo não seja maior que o amor.

Espero que um dia você possa ler essa cartinha sem medo de ser agredida por suas opiniões. Sem medo de amar e ser amada. Sem medo de lutar as próprias batalhas. E claro, que também possa ter a tranquilidade de estar vivendo um sistema democrático pleno. Quero ter daqui uns anos uma história mais bonita pra te contar, filha. Não sei se vai acontecer. Mas eu prometo tentar.

Beijos da mamain.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Por uma resistência biscate

Há uma proposta tramitando no Congresso Nacional que quer exigir que todo candidato a cargo público tenha diploma de nível superior.

É exatamente isso que é a revolta do pato, em síntese. Porque quem defende o pato e a ideologia do pato pensa exatamente assim: que sem diploma universitário não há como conferir status de cidadão a alguém.

Não adianta, mesmo, a gente querer dourar a pílula, argumentar que a proposta está desconectada da “voz das ruas” que ecoaram na revolta do pato. Não está.

Assim como não é contraditória nesta lógica a proposta que pretende conferir às igrejas a possibilidade de questionarem diretamente ao poder judiciário a constitucionalidade de alguma lei ou outro dispositivo. Outra questão central na ideologia do pato é a figura de deus como norteador do homem de bem. Sim, um deus que confere caridade ao homem comum, à família, aos ideais. A ideologia do pato não é laica: ela pode não ser católica, evangélica ou judia, mas ela tem deus como elemento central da bondade humana.

Há outras propostas que estão na cesta da ideologia do pato amarelo. Uma, das que destaco com mais louvor, é a de que beneficiários de programas sociais não pudessem votar. Meio que de brincadeira tratamos estas pérolas: não devíamos mais. O voto censitário é uma bandeira, sim, da revolta do pato.

É óbvio ululante, também, que todas estas ideias centrais do pato-logismo não vêm à tona todas de uma só vez. Há, sim, um desconforto dos donatários que às vezes os deixa envergonhados, com pequenos pudores. Mas, Cunha está aí para nos esfregar na bunda, as relativizações no pato-logismo são moeda corrente.

Outra bandeira do pato amarelo é a que quer o exorcismo nas escolas, afastando cada vez mais as aulas de história, geografia, sociologia, antropologia dos currículos escolares. Primeiro, através de medidas que visem delimitar o que pode ou não pode um professor ou professora dizer numa sala de aula. Depois, questionando as verbas de pesquisa para temas que não tem “finalidade prática”. Por fim, a gente muda mesmo o currículo e que se dane.

A revolta do pato é – ao cabo de tudo – a tentação dos donatários de querer se manter em seu imenso condomínio, seguro e protegido. De preferência, de carro para ir na padaria da esquina.

É hora de nos melecarmos, como resistência, desconfio. De gozos, suores, palavrões, abraços, gente pelada, beijo, macumbas, bicicletas, famílias de papai e mamãe, de papai e papai, de mamãe e mamãe, de papai mamãe e de mamãe papai. Hora de nos lambuzarmos de mel, de cervejas geladas, de piada, poesia e cataclismas. Mas, sobretudo, é hora de deixarmos a redoma que nos protege do desconforto de ficar esfregando na cara dos amigos, colegas e conhecidos o que eles estão a cumprir ao apoiar a ideologia do pato.

E que os deuses, e sobretudo as deusas, salvem a psicanálise, a desobediência civil, os ateus e o amor.

O pato, senhouras e senhoures, não é só um plágio e uma fraude. Ele também é um vexame. Um imenso vexame.

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