O Estado e a vida das mulheres

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Postei isso achando graça. Poliamor e sensualidade subversiva? Tá lindo! Anarcos de grande inteligência? Cheguem mais. Mas fiz a ressalva: não seguirei a recomendação sobre a descriminalização do aborto. Esta defendo todo dia. Com tristeza, com tenacidade. Há tanto tempo que a gente já poderia ter conseguido isso. Portugal, país católico, descriminalizou o aborto por referendo em 2007. Lá, a interrupção voluntária da gravidez é permitida até a décima semana, independente do motivo.  Desde então, os resultados são notáveis: de 2012 até 2016, nenhuma mulher morreu em decorrência de aborto. O número de abortos também caiu, como se pode ver neste texto aqui.

Portugal legalizou o aborto tarde – na França, a legalização ocorreu em 1975, há mais de 40 anos. Na Inglaterra, Escócia e País de Gales, antes ainda,  em 1967.

Mas o primeiro país em que se legalizou o aborto foi a União Soviética, em 1920. Segundo a wikipedia, “[p]ela lei soviética, os abortos seriam gratuitos e sem restrições para qualquer mulher que estivesse em seu primeiro trimestre de gravidez.”

Possibilidade de interrupção da gravidez. E, com isso, preservação da vida das mulheres. Da dignidade das mulheres. Dos direitos iguais das mulheres.

Parece evidente, para mim, como já disse em outro texto, que a outra ponta desta questão consiste no apoio do Estado à criação dos filhos, com creches e escolas gratuitas integrais e de qualidade, com saúde pública universal, com a possibilidade de flexibilização de horários no trabalho para mães e pais. Estas duas pontas não se opõem, mas se complementam no reforço aos direitos das mulheres. De ter filhos, quando querem tê-los; de não tê-los, quando não for o caso.

De novo, a URSS foi pioneira e implementou uma política de construção de creches públicas: “De 14 creches com número de vagas desconhecido, antes de 1917, a Rússia passou a ter mais de 365 mil vagas em 1932 nas cidades” (aqui). Com foco no direito das mulheres, aborto legalizado e creches públicas passavam a constituir partes integrantes da política de Estado para as mulheres.

Um século depois, o Brasil ainda patina e retrocede: a ofensiva religiosa e reacionária busca destruir até o direito já adquirido de abortar em caso de estupro, anencefalia do feto ou de risco de vida para a gestante. Todos os outros casos são considerados “crimes contra a vida”.

O que já era um direito limitadíssimo, que não atendia às mulheres, periga se transformar em direito nenhum, já que a PEC 181, que originalmente tratava da extensão do direito à licença-maternidade para mães de prematuros, foi alterada de forma a incluir no texto os termos “dignidade da pessoa humana desde a concepção” e “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção“. Ou seja, como no famigerado “Estatuto do Nascituro”, busca-se, através de uma gambiarra, igualar os direitos de um feto em formação aos direitos da mulher viva que o carrega em seu ventre. Um escândalo, um absurdo, algo que faz da mulher grávida uma incubadora sem vida própria e autônoma.

Enquanto isso, as mulheres continuam morrendo.  

Dois anos

Ainda não falei sobre esses últimos dois anos sem postar no Biscate Social Club, essa semana o Facebook me lembrou de coisas importantes nesses últimos dois anos, mudanças que fizeram de mim quem sou agora, em dezembro de 2017.

#poledancenation #polelover

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Em 2015, em novembro, decidi ir fazer uma aula experimental de pole dance, me apaixonei, mesmo com todas as dificuldades que passei e passo pra vencer minha ansiedade em aprender os movimentos, pra vencer minhas fraquezas físicas e encurtamentos musculares devido a uma péssima relação com a musculação e com o padrão de corpo feminino, o Pole Dance me fez uma mulher mais empoderada, mais apaixonada pelo meu corpo, mais ativa, menos preocupada em emagrecer e me adaptar ao padrão de beleza que me é imposto desde a adolescência.

#poledance #tbt #coreografia #dançasensual

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Conhecer o Pole Dance, o Chair Dance e toda a sensualidade desses estilos me mostraram que beleza e sensualidade existe em qualquer pessoa, não há padrão pra isso! E não, não estou interessada nas acrobacias, eu curto mesmo é dançar, sensualizar, desconstruir esse padrão de que belo no pole é fazer movimentos, bonito é se sentir sensual, gostosa, arrasante, não pra agradar alguém, apenas pra se agradar e se amar. Sem nenhuma pressão, apenas por amor próprio. Viver dentro de um estúdio de Pole me fez amar meu corpo e pensar em tentar ser modelo.

Muito amor próprio envolvido! #modeloeatriz #plussize #amorpróprio #tolinda

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Foi o próximo passo! O passo certo, existe um nicho (meio controverso e que eu critico muito quando noto certos preconceitos) no mundo da moda em que me encaixo, o Plus Size, me vi descoberta por uma agência, fiz alguns desfiles, fiquei em segundo lugar em um concurso Plus Size, acompanhei um processo lindo de uma coleção de roupa de praia feita apenas pra mulheres gordas e baseada nas Pinups, uma imagem muito pouco compreendida por muitas mulheres. A sensualidade das Pinups, a beleza nas dobrinhas, nas gordurinhas, as lingeries e a liberdade sexual delas se encaixa muito bem com minha nova fase… Pole Dance, assumir e amar meu próprio corpo, me conhecer além do que me dizem que devo ser.

De sábado #poledancer #polelover

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Fechei o ano de 2016 com um desfile onde usei dois modelos dessa coleção, no meio daquele ano fiz uma sessão de fotos com um dos primeiros modelos da coleção, tenho dois modelos até hoje, um deles usei numa coreografia de pole dance no final do ano de 2016. Me encontrei e comecei 2017 fazendo fotos sensuais, foram três sessões com duas fotógrafas diferentes e várias selfies minhas, me amando, amando meu corpo, amando a minha imagem, enfrentando o fato de que não ser padrão não me faz feia, que o que nos dizem é mentira. Somos todas lindas, cada uma com suas características!

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Também foi no início de 2017 que dei início ao fim de uma relação que me prendia, me segurava, me sufocava, um relacionamento conturbado e traumatizante, eu responsabilizo toda essa mudança na minha auto imagem e na minha auto estima, se não fosse tudo isso, talvez ainda fosse parte daquele relacionamento, que ouvi de tantas pessoas que era abusivo, que me fazia mal, que me machucava e me tirava todo o amor próprio. Em abril de 2018, faz um ano que saí por completo dessa relação. Agora estou aprendendo a me amar, a ser feliz, a me conhecer novamente, a me ver sem depender de uma muleta de um relacionamento falido.

#gordaegstosa #plussize #loveyoursalf #photoshoot

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Esse mês de dezembro veio com várias alegrias, me encontrar novamente em ativismos, militâncias, ser atuante em tudo que acredito, o ano de 2017 me fez ser eu, ser ativa, ter voz, ter fala, protagonizar minha própria vida, mas foi um processo de 2 anos de muitas mudanças. Espero ansiosamente pelo ano de 2018 e tudo de novo e incrível que ele possa me trazer.

#selflove #bald #plussize

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Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

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Tirando o Atraso

São tempos difíceis, Brasil. Verás que uma filha biscate não foge à luta. Combatemos com risos, riscos, tesão, lascívia, luxúria. Levamos para a rua nossa coragem de tentar ser quem queremos ser. De abrir estradas com mais perguntas que certezas. De não saber exatamente aonde chegaremos, mas seguindo em boa companhia.

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Estivemos longe. Fizemos poesia, bebemos cerveja, marchamos em passeatas, dormimos (ocasionalmente sozinhas), vadiamos, gestamos, amamos, lamentamos, bradamos. Fizemos e acontecemos.

Sentimos falta. Falta de sermos biscates aqui, juntas, com vocês. Estivemos longe, voltamos. Aqui, escrevemos. Partilhamos sonhos, desejos, planos, memórias, constatações, anseios, esperanças. Convites.

Sintam-se em casa, cheguem mais e fiquem à vontade! Vai aqui um aceno para retornar ao nosso clube, (re)conhecer a gente. Pois somos e não somos as mesmas biscas de antes, somos em mudança, belas biscates, únicas no hoje, no ontem e no amanhã (nosso clube tem homens também e, também eles, belas, únicas e poderosas biscates).

Permanecemos biscates em linhas, entrelinhas, intervalos, recomeços. Nosso blog é de pouca vergonha. Na verdade, de vergonha nenhuma. Gostamos de palavras que deslizam na língua: esbórnia. Que rodopiam no salão: gandaia. Que colorem manhãs: encontros. Que alegram o corpo: gozo. Que inquietam, que perturbam, que fazem pensar: madrugadas.

Apetecem-nos sabores ácidos, frissons, arrepios. Reviravoltas, piruetas, rodopios. O caminho reto nem sempre é o mais prazeroso. Nas curvas encontram-se anseios, suspiros, tentações.

Então, é isso, estamos aqui com água na boca, com coceirinha nos dedos, com frivião no corpo, na vontade de tirar o atraso. Voltamos. Estamos. Somos: Biscate Social Club.

biscate

PS. Somos espalhadas, audaciosas e espaçosas, temos página no FB e um tumblr delicioso, com as mais irreverentes e gostosas postagens. Você também pode nos seguir no twitter: @BiscateSC. Aproveite.

Seja coronel, seja herói

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Seja coronel, seja herói.

As lutas das minorias todas continuam deixando capturar-se pelos seus senhores. Ainda estamos a repetir as velhas histórias do patriarca de Gilberto Freyre, ainda estamos a acreditar em coronéis. Os coronéis de toda uma literatura dos rincões do Brasil. Uma literatura Amadiana.

Tornamo-os heróis.

Temos dificuldade de produzir políticas outras que não passem por estes heroísmos. Precisamos deles, dos grandes revolucionários da elite-branca-cis-hetero-normativa a nos dizer que caminhos seguir. A nos dizer que rumos serão os melhores para a nossa consciência.

Para a nossa inclusão.

Não é só o lugar fascista do atropelamento vil dos direitos. São também esses que oprimem sorrateiramente, a delícia (com dor) que ativa o fascismo em cada uma e em cada um de nós.

seja-coronel-seja-heroi-2

Sem tempo: Como Hélio Oiticica, gostaria que fossem mais margens e menos centros. Como Grada Kilomba (e seus projetos para os desejos) quero, mais que me zangar e me ressentir, re-sentir as heranças coloniais. É tarefa minha (nossa) dar conta desta herança maldita/gostosa (copiando Cleber Braga e seu cabaré decolonialista).

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

 

Por que Universidades ocupadas incomodam tanto?

Por Rafael Siqueira de Guimarães*, Biscate Convidado

Tantas Universidades públicas ocupadas, já perdi até a conta! E a onda tende a aumentar nos próximos dias. A pauta principal, que une tantas e tantos estudantes, é a PEC 241, que congela (sim, é congelamento) os investimentos em Saúde e Educação por vinte anos, coibindo, inclusive, concursos públicos e gastos “extras”, exigindo cortes.

Talvez estas ocupações, sozinhas, como a pauta da educação pública em geral, não tenha, até o momento, incomodado tanto a oligarquia do poder estabelecido, por conta de diversas estratégias que este grupo utiliza, disseminando apenas informações positivas e a “necessidade” de “refrear os gastos públicos” na mídia, ainda o próprio fato de a Universidade ser um espaço de passagem, pouco relacionada com o seu próprio entorno e também porque as pessoas já se acostumaram a greves nas Universidades Públicas, por motivos de redução de direitos de docentes e servidores.

De toda forma, o que me chama a atenção, desta vez, é que as ocupações, com a paralisação das atividades na Universidade, incomoda uma quantidade enorme de docentes. Nós, que perdemos direitos trabalhistas nas últimas décadas, que sempre tivemos dificuldade de adesão a greves e paralisações, e que, quase sempre, saímos perdendo na luta pela manutenção de nossas pautas. As últimas greves têm sido terríveis! Um cansaço tremendo e resultados ínfimos, nos obrigando a repor aulas, cancelar períodos, muitas vezes recebendo questionamentos (justos!) de estudantes pelos desdobramentos destes processos.

Tenho, infelizmente, que admitir que estas ocupações incomodam tanto a uma quantidade razoável de docentes porque a Universidade sempre foi ocupada por pessoas mais favorecidas da sociedade e a maioria de nós, professoras e professores delas, tivemos nossas boas formações em Universidades públicas, devidamente elitizadas. Somos pessoas brancas. Pudemos fazer a proficiência em Inglês para o Mestrado e para o Doutorado, usufruímos talvez não da melhor estrutura, mas de uma estrutura pública.

As pessoas mais pobres, as pessoas pretas, as pessoas indígenas, as pessoas travestis, as pessoas trans*, as pessoas com deficiência que não puderam sequer chegar às aulas do Cursinho de Inglês, estas há muito pouco tempo estão na Universidade pública. Isto aconteceu por conta das ações afirmativas, por esforços coletivos, por esforços pessoais e  pelo aumento de vagas nas universidades, especialmente no interior do país. É óbvio que este processo foi complicado, pois há problemas sérios de estrutura, mas, este mesmo processo, também empregou muitas e muitos de nós, estudantes de uma Pós Graduação que também se expandiu. Mas, sabemos, a maioria de nós, docentes, não veio de lares vulneráveis economicamente.

Muitas pessoas estão, agora, sendo as primeiras de suas famílias a chegarem ao Ensino Superior. E público. E só podem permanecer nele porque há políticas de assistência que, na minha época de graduação, nem existiam direito. Ouvi de uma colega, há uns dois anos, num curso, que “depois das cotas, o curso de Medicina perdeu muito a qualidade”. Há diversos estudos que dão conta exatamente do contrário, mas, infelizmente, acho a fala da colega emblemática para entender o que se passa agora.

Tenho assistido, presencialmente e nas redes, ou por meio de relatos de pessoas que presenciaram, a situações de desqualificação, por parte de colegas professores e professoras, do movimento de ocupação das Universidades. Estas desqualificações são as piores possíveis: chamam estudantes de “pobres vagabundos que vivem de bolsas”, “analfabetos funcionais”, “delinquentes vândalos” e “massa de manobra”. Não se dão conta que, elas e eles, docentes, realizaram seu Estágio de Pós Doutorado no Exterior com financiamento público, por exemplo. Mas, óbvio, é melhor pensar que foi a sua genialidade que o levou a esta “conquista”.

Sim, a “conquista” é individual e não coletiva. Nós, imbuídos de nossos Currículos bem recheados, disputamos Bolsas de Produtividade, formamos “equipes vencedoras”, reproduzimos em nossos Congressos de Associações Científicas as Menções Honrosas pelos melhores trabalhos, personalizamos o processo, reiteramos a meritocracia. E publicamos papers em grupo, obviamente! Por isso as ocupações incomodam tanto. Sim, estas pessoas que menosprezamos no cotidiano da Universidade se organizam coletivamente, trocam saberes, constroem estratégias de luta e, mais, de aprendizagem mútua e colaborativa.

São movidas pelo desejo de instituírem um fazer coletivo. Nessas sociabilidades colocam em xeque as nossas formas de ver o mundo. Sabe o que somos? Somos pessoas mesquinhas, vivemos em gabinetes, em torres de marfim, não entendemos nada mesmo de luta, de resistência, de sociedade. Sim, a Universidade vem sendo ocupada por pessoas que se integram mais num processo coletivo, e mais, que não precisam de nós, pessoas donas do conhecimento, para pautar sua luta, isso mexe com o nosso brio, porque não faremos o cronograma e nem diremos qual a leitura obrigatória. No máximo, faríamos uma mesa de discussão ou escreveríamos um manifesto!

Sim, a Universidade precisa destas ocupações porque também é preciso mostrar a nós, professoras e professores, que muitas vezes não passamos de reprodutores da colonização do saber, porque somos atravessadas por ela. Isso não quer dizer que não haja espaços maravilhosos na Universidade, e é por isso mesmo que estas pessoas estudantes a querem ocupar! Isso não quer dizer que não há professoras e professores que tiveram e têm dias difíceis. E que não há também gente que está na Universidade descolonizando (e muito!). O problema todo é que uma boa parte de nós, docentes, não vai mesmo se solidarizar.

Que esta primavera tenha o tempo que for e, para além de espantar todo o mal que essas medidas de austeridade trazem, nos ensine a pensar outras Universidades possíveis. Que nos junte a elas e eles contra projetos encaixotados de Educação, que nos ajude a lutar contra a “Universidade Operacional”, como denomina Marilena Chauí a Universidade da gestão racionalizada que muitas de nossas Universidades públicas estão paulatinamente se tornando, exatamente a serviço deste sistema elitista que se construiu no status universitário.

foto-biscate*Rafael Siqueira de Guimarães é cozinheiro performático de rua, pisciano e viajante inveterado.

“Eu tenho direito de não gostar de criança” é a fralda cagada do meu filho na sua cara

Por Tâmara Freire, Biscate Convidada

Já começo pedindo desculpas pela exaltação.

Ontem, antes de dormir eu tinha planejado começar esse texto comentando que já xinguei muito no Twitter, já tretei muito no Facebook, portanto, no blog, eu seria polida.

Mas não vai estar sendo possível.

Então antes de mais nada, aí vão os trigger warnings:

  • ESSE TEXTO FALA SOBRE CRIANÇAS
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE MÃES
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE UMA MÃE MUITO ESPECÍFICA E MUITO EMPUTECIDA COM AS MERDAS QUE VOCÊS ANDAM FALANDO SOBRE CRIANÇAS E MÃES

Achei conveniente alertar porque essas três coisas andam ofendendo muitíssimo as pessoas esclarecidas da internet ultimamente. Se você é uma delas, fique à vontade para se retirar, ou continue conforme suas próprias intenções. Eu não sou do tipo que bota plaquinhas com proibições por aí. Sigamos.

Desde que a treta sobre o restaurante proibindo a entrada de crianças explodiu há alguns dias, eu já li todo tipo de argumento em defesa da iniciativa: “os estabelecimentos têm direito de definir seu nicho de mercado”, “muitos pais não sabem educar seus filhos”, “há lugares apropriados para as crianças frequentarem”, “as pessoas têm direito de pagar para ter tranquilidade”, “ninguém é obrigado a aturar a birra do filho alheio”. E hoje eu descobri que quero ter a liberdade de escolher onde vou com meu filho porque não transo, e quero deixar o mundo todo enervado com a bagunça dele, por inveja, para que as outras pessoas não transem também. Puxado, né?

Me parece que todos giram ao redor de três pontos: 1) a responsabilidade exclusiva dos pais pelo que acontece a seus filhos 2) o direito de se isolar de grupos sociais que causem incômodo 3) o direito de pagar – e consequentemente de oferecer – por qualquer serviço demandado por alguém.

Então, eu vou propor que a gente extraia os conceitos que sustentam esses argumentos para saber se vocês continuam achando que eles são tão válidos assim.

1. Uma criança é responsabilidade exclusiva de seus pais.

É isso que você está dizendo quando defende que não é obrigada a aturar choro de uma criança que não é sua. É esse também o pensamento que sustenta a ideia de que os pais devem ficar em casa, para evitar que outros “sofram” com o comportamento de seus filhos, ou devem se limitar a lugares frequentados por outros pais ou outras crianças. Afinal de contas, apenas quem escolheu ter filhos deve lidar com as consequências absolutamente normais de existir uma criança em um espaço. Você está dizendo que só precisa conviver, se sensibilizar ou se responsabilizar pelas vulnerabilidades ou necessidades de outros seres humanos que tenham uma relação direta inalienável com você. Você está dizendo que só precisa suportar ou respeitar as reações normais de um outro ser humano se ele estiver sob sua responsabilidade legal. Você está dizendo que só é capaz de ter empatia em uma situação de conflito caso as pessoas envolvidas sejam semelhantes a você. É isso que você está dizendo?

2. As pessoas têm direito de se isolarem em locais onde não há crianças, porque se sentem incomodadas por elas

Quando alguém reivindica o direito de ter um jantar romântico, ou uma temporada tranquila em estabelecimentos que proíbam a entrada de crianças, essa pessoa está dizendo que tem o direito de se isolar em um local, onde todo um grupo social não é aceito. E não porque esse local é inadequado, ofensivo ou perigoso para crianças, mas para garantir o seu próprio conforto, já que o barulho ou a atividade de crianças podem incomodá-la em seu programa. Defende, portanto, que grupos sociais possam ser impedidos de frequentar e se comportar naturalmente em lugares, para preservar os outros frequentadores do que eles são e como agem. Normalmente, usa-se o argumento dos excessos, como se não fosse possível admoestá-los sem restringir a circulação de todo o grupo. Parece familiar? Você realmente acredita que pessoas de um determinado grupo devem ser banidas de espaços abertos ao público, só pela potencialidade que têm – construída em cima de generalizações e estereótipos – de incomodar outras pessoas?

3. As pessoas têm o direito de oferecer serviços discriminatórios e têm o direito de adquiri-los desde que possam pagar por isso

Restaurantes e hotéis não são serviços públicos, mas negócios privados. Quem oferece cobra para que os interessados tenham acesso. São, portanto, regidos pela lei do mercado, pelo lucro, e como qualquer empreendimento, têm seu público alvo e suas maneiras de atraí-lo. Você pode criar um menu exclusivo para casais românticos. Você pode estender seu horário de funcionamento e recomendar às pessoas que querem maior tranquilidade, quais os melhores horários pra isso. Você pode criar um ambiente mais intimista, que vai naturalmente repelir pessoas que precisem de espaço e luminosidade. Mas você não pode simplesmente proibir as crianças de frequentá-lo. Parece muito claro para mim quem faz segmentação e quem faz discriminação. Sejam honestos: quantas vezes vocês foram a um restaurante chique, à noite, e o encontraram abarrotado de crianças barulhentas impedindo os clientes de terem seus momentos de intimidade? Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda: vocês realmente acham válido esse argumento de que todo e qualquer serviço pode ser oferecido desde que exista alguém disposto a pagar por ele? De que os prestadores de serviço devem ter todo o poder de definir onde cada grupo pode transitar? De que a sociedade ideal se define pelo máximo possível de exclusividades relacionadas a desejos e repulsas particulares pelas quais se possa pagar?

O pior desses conceitos é que eles estão contribuindo para construir um mundo segmentado, cheio de pessoas ignorantes sobre o básico da interação social: todos nós dividimos um mundo com outras pessoas, que possuem suas próprias maneiras de viver, e elas algumas vezes são incômodas. É absurdo que estejamos discutindo a sério como se isolar ou restringir a circulação de todo um grupo social, por características perfeitamente naturais que ele manifesta, especialmente quando esse grupo é o que tem menor capacidade de mobilidade e poder de mobilização, e maior potencialidade de ser vítima de uma série de opressões e violências.

Sem contar o efeito nefasto que a construção social sobre as crianças, como seres eminentemente incômodos, chatos, carentes e ignorantes tem sobre as cuidadoras dessas crianças, condenadas a uma vida social restrita ou a serem julgadas publicamente por se insurgir

Eu sou avessa a carteiradas, mas vou abrir uma exceção porque o assunto merece: eu falo desta questão com bastante emotividade e interesse porque eu sou uma mãe solo. Que vive sozinha com seu filho, distante a muitos quilômetros do pai desta criança e de qualquer outro familiar. Eu faço compras com o meu filho, eu vou a museus com o meu filho, eu vou a restaurantes e a bares com o meu filho, e tento me restringir apenas pelas limitações impostas por ele mesmo e pelo meu julgamento a respeito do seu bem estar. Porque na maior parte do tempo, eu não posso fazer nenhuma dessas coisas, se ele não puder estar presente. Mas principalmente porque eu e o meu filho somos cidadãos dessa cidade e temos todo o direito de desfrutá-la.

No mais:

É SÓ A PORRA DE UM JANTAR NUM RESTAURANTE.

Se o grande problema da sua vida é não ter tido todo o silêncio desejado na sua tão sonhada estadia com o mozão em Jericoacoara, talvez eu deveria estar fazendo um texto sobre o conceito de “problema”.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

O tchauzinho de Mariana

Por Stela Guedes Caputo, Biscate Convidada

Quem viu o debate na terça-feira (18), entre os candidatos à prefeitura do Rio, Freixo e Crivella, teve a oportunidade de presenciar um protesto brilhante. Bem no finzinho, a jornalista Mariana Godoy reage ao comentário do bispo com um simples gesto: fez um “tchau de miss”.

tchau

O protesto de Mariana aconteceu quando, ao se despedir, a apresentadora disse que a transmissão ao vivo do debate era a mais vista no Facebook. “Eu quero agradecer a você, Mariana, Ana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, disse Crivella, refereindo-se às duas apresentadoras.

Por que o gesto, visível para milhões de pessoas na TV, nas redes sociais e multiplicado em memes, gifs e todo tipo de sátira é tão importante? Todas nós mulheres já vivemos essa situação. Preparamos uma aula, uma palestra, um texto, fizemos um cálculo, fabricamos um motor, desenvolvemos uma fórmula, varremos uma rua, lavamos e passamos, tocamos piano, falamos idiomas, publicamos livros, legislamos, ensinamos, aprendemos em aulas. Ao fim, somos vistas por nossos olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos. A depender de como os padrões dessa sociedade machista definem olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos, somos qualificadas e classificadas. Quantas vezes sufocamos diante de uma atitude machista (de todo tipo) quando gostaríamos de devolver a agressão? Quanto mais a relação de poder é apertada, mais sentimos a forca em nosso pescoço e bebemos internas lágrimas, silenciosos desesperos submetidas pelo assédio moral e sexual.

O gesto de Crivella foi bizarro, como foram e são bizarras as condições colonizadoras e patriarcais de nosso país. O colonizador primeiro escravizou mulheres, usando seus corpos, muitas vezes até a morte. O colonizador queria a buceta da mulher e seu útero. A primeira para o gozo sexual. O segundo para o gozo do capital já que era do útero da mulher negra que nascia mais mão de obra escrava para o colonizador branco crescer e multiplicar dinheiro e fúria. Em função desse mesmo patriarcado, as mulheres não podiam ser alfabetizadas, depois não podiam trabalhar, andar na rua sem estar acompanhada, votar, ocupar posições socialmente desenhadas para homens, receber salário igual. A luta para fazer o patriarcado colonial recuar foi imensa e custou a vida de muitas mulheres, sobretudo, a vida de mulheres negras.

Ao ironizar a fala machista de Crivella, Mariana, do seu modo, dentro de gigantescos limites, devolveu, com um gesto, o que todas nós, mulheres, devolvemos com luta na rua, com protestos, com internos prantos, com prantos expostos, com tapas, com processos judiciais, com ampliação de conquistas, direitos. E ainda mandou um “porra”, diante de milhões de pessoas. Sim, nós mulheres podemos dizer palavrões. Mariana rompeu um aprisionamento midiático. Com seu “tchauzinho de miss” mostrou que o projeto colonizador não conseguiu e não conseguirá domesticar nossos corpos. Mariana, do seu modo, se arriscou e, como dizem as novas linguagens facebookeanas: Mariana “mitou”.

Nos chamam feminazis toda vez que enfrentamos homens como Crivella. Não importa. Lutamos porque ainda estão de pé as estruturas patriarcais que sustentam o mundo em que vivemos. E até que essas estruturas sejam demolidas, continuaremos lutando, cada uma de nós a seu modo.

Crivella podia ter agradecido a inteligência e competência das duas apresentadoras. Não fez. Não faria. Um machista não vai além de si mesmo e de seu machismo. Nós, mulheres, vamos além das amarras, da submissão e da misoginia. Não se trata “apenas” de uma eleição municipal. Há MUITO em jogo. #ForaCrivella #ForaMachista#FreixoeLuciana50

14519817_1216963518376464_3496738441427865901_nStela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.

PEC 241: O buraco é mais fundo

Por Luiz Antonio Simas*, Biscate Convidado

O buraco é mais fundo e exige análises não apenas conjunturais (essas são importantes, mas aqui vou me ater a outros aspectos). Baterei de novo numa tecla que me parece uma das chaves do problema brasileiro: a exclusão social no Brasil é um projeto de estado inscrito na nossa História como o mais consistente. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É assim que o racismo opera no campo simbólico.

O problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador e civilizatório das elites do Brasil, continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

Nós somos um país que não conseguiu, como contraponto a isso, universalizar os direitos à educação e saúde públicas como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

O que a PEC 241 faz não é apenas desmontar o estado social brasileiro (ele mal foi montado, afinal). O que ela faz é consolidar o projeto que identifiquei no primeiro parágrafo deste texto e inviabilizar o Brasil como uma possibilidade de país que não seja o fundamentado na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual nunca saímos de fato.

O Brasil não tem exatamente deputados: tem, com exceções que confirmam a regra, senhores de engenho, bandeirantes apresadores, capatazes e capitães do mato que nunca saíram do século XVI e acabam de dizer o que seremos no século XXI.

fotosimas*Luiz Antonio Simas é historiador de formação, macumbeiro por vocação e contador de causos por ofício.

 

O dia que fui crucificada: A migalha, o desserviço e a necessidade de maturidade política nos ativismos identitários

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

No ano passado, escrevi a matéria da capa da Revista Galileu de Novembro, sobre gênero. Aquela foi a primeira vez que uma pessoa trans havia escrito, para uma revista de circulação nacional, uma matéria de capa. E foi também uma das poucas matérias a abordar a questão da transexualidade fora do viés patológico, trazendo relatos e vivências e pensando nisso como uma questão identitária.

O texto saiu com inúmeros problemas: a revisão modificou meu texto, termos foram imensamente simplificados pra atender ao pública da revista ( que, imaginávamos, nunca havia tido contato com as teorias de gênero ou com o ativismo trans) – o resultado? Um texto útil, porém falho em muitos sentidos. Tudo bem. Recebi uma imensidão de críticas: enquanto eu era atacada por religiosos, por pastores, por todo tipo de gente que veio ao meu perfil me ofender, era, igualmente atacada por outras ativistas, algumas, que nem haviam lido o texto, atacaram a partir da narrativa de outras pessoas.

Aquela situação me deixou imensamente chateada. Eu realmente achei que havia feito um ” desserviço” pra ” causa trans”. Isso até que comecei a receber relatos de pessoas trans do país inteiro que tiveram contato com o a Revista. Professores que utilizaram o texto em sala de aula, e principalmente, o relato de um rapaz, do interior do Pará, que não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa trans e que não sabia como explicar a sua transgeneridade para seus pais: ele dialogou com pais e amigos a partir do texto da revista.

Naquele momento, percebi que, ainda que meu texto não fosse ” ideal”, que não estivesse conceitualmente perfeito, ele teve efeitos positivos, pôde ser usado como instrumento de conscientização e de luta. Houve que lesse e pensasse: ” Meu filho não é doente”. O texto não foi um desserviço. Eu falei em ” sexo biológico”, mas aquilo não foi um desserviço. Então, porque eu fui tão criticada? Porque meu texto foi chamado de “transfóbico” e de “um desserviço a causa trans”?

As razões que consigo pensar são as que enumero agora:

1) Profissionalismo linguístico: É a exigência de que tudo, absolutamente tudo, seja sempre narrado de uma única forma; é o detalhismo, o cuidado que nos impede de ser “simples”. O desprezo da eficácia do processo de comunicação e seu aprisionamento em moldes linguísticos inacessíveis pra muita gente. Um termo ” fora do lugar” e todo o texto perde valor.

2) Migalhismo: Chamo de ” migalhismo” nomear “migalha” todo e qualquer avanço que não tenha ocorrido como no plano ideal. É uma migalha de representação escrever um texto, mas ter de se adequar a exigências da norma. É uma migalha que a Universal fale das pessoas trans, mas use um ator cisgênero. O migalhismo recusa tudo. Desculpe, aos que consideram migalha qualquer avanço que não seja ideal, mas é uma postura bastante privilegiada optar pelo “nada”. As lutas sociais, a política, ocorrem sempre no plano da negociação, e a gente precisa aprender a ceder, assujeitar-se é também uma forma de resistência.

3) Ausência de estratégia política: Como assim? Criticar os problemas do texto não é uma atitude política? Certamente, porém criticar um avanço mínimo sem no entanto pensar o que podemos fazer com este avanço é um problema. Precisamos pensar a realidade a partir dos recursos de luta que ela nos oferece. Não adianta dizer: ” Só aceito se for do jeito que eu quero”, não é assim. Existem uma demanda do real que está alem de nós mesmos.

4) Imaturidade: As temáticas trans estão entrando na agenda agora. Os meios de comunicação, respondendo à nossa pressão, vão buscar formas de acomodar a presença trans nestes espaços. Essa acomodação exige maturação de pauta, de abordagem. Hoje traz-se o tema, amanhã avançamos na abordagem e, assim, incrementalmente, vamos construindo e acessando outros espaços. Infelizmente, a luta não se dá no plano ideal, como gostaríamos. Existe um tempo e uma ação no tempo: compreender o que fazer em cada momento para agir com mais vigor em seguida é fundamental. Numa escritura budista, creio que chamada Kaimoku Sho, diziam que “compreender o tempo é o primeiro passo”. Concordo em absoluto.

Eu sou ativista e absolutamente compromissada com a causa trans, mas isso não me faz absolutamente compromissada com esta ou aquela estratégia em específico.

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

O debate de gênero nas escolas é necessário

Por Matheus Rodrigues*, Biscate Convidado

Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, estudava num colégio católico tradicional aqui de Niterói, me chamaram de gay na sala de aula. A professora, que ouviu, foi mais rápida que eu para esboçar uma reação e disparou em alto e bom tom: e se ele for? o que que tem?

Num primeiro momento não só estranhei, como não gostei da resposta dela. Afinal, como a maioria dos adolescentes gays, eu próprio reprimia a minha sexualidade. Era algo ruim, algo de que eu deveria me envergonhar. Foi assim que aprendi. Hoje essa professora, Mônica Mançur, é uma das pessoas a quem mais sou grato, por ter me ajudado a perceber que eu não tenho que ter vergonha nenhuma de quem eu sou, que quem tem que ter vergonha são aqueles que destilam ódio.

No dia 8 de junho aconteceu a primeira audiência pública na Câmara de Niterói sobre o Plano Municipal de Educação (PME). Se eu disser que foi um show de horrores, vou estar usando um eufemismo muito fraco. Ódio atrás de ódio por parte dos defensores da exclusão, do PME, das metas referentes ao debate de gênero, identidade de gênero e orientação sexual nas escolas.

E por que uso a palavra “ódio”? Porque o PME não vai ensinar as crianças a serem gays. Não vai estimulá-las a mudar de sexo. Não vai ensinar uma criança a chupar o pau de outra, como certo vereador afirmou uma vez. Não vai destruir as famílias. Não vai induzir as crianças à promiscuidade nem acabar com sua inocência. Ao insistirem nessas mentiras, os defensores do combate à tal da “ideologia de gênero” (que sequer existe, o termo nunca foi usado em nenhum documento oficial) deixam bem claro que não é racional a sua objeção à discussão de gênero, diversidade sexual e identidade de gênero nas escolas. Deixam claro que é ódio. Puro e simples. Ódio ao diferente, ao que ousam fugir do padrão do que eles interpretam da leitura de livros de milhares de anos.

O que o PME propõe, e qualquer um que pegar o projeto pra ler vai constatar, é que as escolas comecem a ensinar que não é certo xingar ou bater em uma pessoa só porque ela é diferente. Que todos são iguais em dignidade e direitos. Que as mulheres não são menos capazes que os homens, e muito menos objetos deles. Que não se deve excluir ou ofender alguém só porque essa pessoa é uma mulher que gosta de mulheres ou um homem que gosta de um homem, ou uma mulher que gosta de homens e mulheres, ou um homem que gosta de homens e mulheres, ou ainda uma pessoa que simplesmente não se identifica com o seu sexo biológico. Que o mais importante é o respeito à diversidade, às diferenças. O PME quer que mais professores e professoras façam o que a Mônica fez comigo anos atrás. Nada mais que isso. Tá lá escrito, é só ler.

Mas se mesmo assim vocês continuam a ser contra a discussão de gênero, de diversidade sexual e de identidade de gênero nas escolas, se mesmo assim vocês acham que isso tudo não passa de “doutrinação”, eu gostaria de fazer um pedido: sendo parente, “amigo” ou o que for, me excluam. Não só do Facebook, mas de qualquer relação social ou pessoal que porventura tenhamos.

Vocês também atiraram as pedras que mataram Alexandre João Batista Santiago aos 32 anos em Santa Catarina. Também participaram do estupro coletivo da garota de 16 anos na Praça Seca. Vocês têm nas mãos o sangue do Alexandre Ivo, torturado até a morte aos 14 anos em São Gonçalo por ser gay. Vocês têm nas mãos o sangue do Alex André, espancado até a morte aos 8 anos pelo próprio pai no Rio para aprender a “andar como homem”. Da Amanda Araújo, travesti de 17 anos morta a facadas no Maranhão. Da Elivane Santos de Almeida, morta aos 32 anos pelo marido na frente da filha no Mato Grosso. Do Luís Antônio Martinez Corrêa, morto com nada menos que 107 facadas em 1987. E, se continuar assim, vão ter também o meu. Eu quero é distância de vocês, da sua intolerância, do seu ódio. O que me traz alento é a certeza de que vocês não passarão.

MatheusRodrMatheus Rodrigues é gay, ateu e comunista: só não foi para o inferno ainda porque não acredita no tinhoso. Avesso a todo tipo de grades e muros, acredita que com força e com vontade a felicidade há de se espalhar com toda intensidade.

Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

quem tem medo 5

Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

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