Sobre ” Bela, Recatada e do Lar” e a participação masculina

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

É apoio. Eu acredito em movimentos e campanhas capazes de mobilizar o maior número de agentes de luta. Não é o mesmo de ridicularizar e nem é o mesmo de se apropriar. Creio que possa haver um sentido político na participação de homens nesta campanha, que seja o do reconhecimento do seu papel na construção deste estereótipo, de um papel subalterno para a mulher, de um papel decorativo e passivo.

Bela, Recatada e do Lar é ironia de luta. Não estou minimamente preocupada em dizer quem deve ou não postar fotos, de verdade. Gostaria mesmo que percebessemos que alguns discursos constroem uma vilanização de Marcela ou de Dilma ( por comparação), como se houvesse nela qualquer responsabilidade pelos discursos que tentam enquadrá-la. Essa violência é muito mais importante de ser discutida.

Mulheres não estão deixando de postar fotos porque homens estão postando. A luta não está sendo enfraquecida porque homens estão postando. A visibilidade não deixa de ser feminina porque homens estão postando.

Eu acharia terrível a participação masculina, se ela minasse ou ofuscasse a participação feminina. Isso não está ocorrendo.

” Ah, mas o homem não lida com este estereótipo”, sim, todos sabem disso e ele postar uma foto com esta legenda não fará com que achemos que ele sofra.

” Não quero homens falando por mim”, gente… Postar foto não é falar por mim, mesmo. Querer falar por mim é dizer como eu devo agir, pensar e me posicionar.

Espero que os homens possam conhecer os mecanismos de produção destes estereótipos e que hajam no sentido de combatê-los, pra além disso, não me parece bom motivo pra briga, né não?

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Comunitariamente Cuidar

Sim, a gente tá bem ali no zóio do furacão da História. Dessa com H maiúsculo, que falaremos em breve nas escolas, que em breve ficará no passado, que em breve falaremos “naquele tempo, eu vivi naquele tempo!”. E daí? Me parece e posso estar bem enganada disso, que há por um lado uma necessidade de se falar sobre tudo, haja vista o imediatismo e a relação em tempo real que nos apresenta as redes sociais, por outro muitas vezes um discurso que reivindica a todo momento que tomemos posição. E aí muitas vezes agimos por impulso, por ausência de reflexão. Isso não é em si necessariamente ruim, mas permite que muitas vezes deixemos passar coisas e reproduzimos situações que precisam ser criticadas.

Recentemente uma foto circulou nas redes sociais expondo um casal, dois cachorros, uma babá que empurrava dois bebês  num carrinho indo para uma manifestação. Não entrarei nas críticas à marcha X, Y, Z e tals. Não é sobre isso. Também quero deixar que critico toda forma de exposição não consentida, havia ali uma mulher negra trabalhadora que foi chamada a falar publicamente, que se sentiu violada e exposta. Haviam ali crianças, cuja proteção é dever de toda sociedade. Se queremos criticar formas de vida, escolhas, privilégios, é perigoso que nos valhamos de recursos que expõem mulheres negras trabalhadoras e crianças. Se mulheres negras que realizam trabalho doméstico são exploradas no Brasil, muito em razão de uma herança escravocrata, cabe a nós lutar para que essas mulheres tenham trabalho digno, defender a regulamentação, formalização, garantia de direitos, e não reproduzirmos discursos paternalistas. Como se mulheres fossem incapaz de se organizar politicamente, como se domésticas fossem desprovidas de conteúdo político, como se fossem incapazes de lutar por vida digna. A PEC das Domésticas é resultado da militância de mulheres negras trabalhadoras domésticas organizadas, elas não precisam de nosso discurso paroquial, elas precisam que respeitemos sua luta, sua autonomia, e sua força. Isso não quer dizer que não reconheço que há desigualdade, abusos, violações relativas ao trabalho doméstico, mas apenas que não é pela via pater/maternalista que travaremos um enfrentamento à tudo isso.

Bom, dito isso, tomo o rumo do que quero escrever. Sim, to atrasadinha no debate, sou dessas. Voltando a foto, e apesar de lamentar a exposição, quer eu goste quer não, isso promoveu um debate, li e ouvi muitas pessoas criticando o casal sob o argumento de que “Se não quer cuidar nem no domingo porquê tiveram filhos?”. E acho esse argumento bem temerário, tão temerário quanto culpabilizar a mulher que aborta porque não se preveniu antes de engravidar.

A maternidade, ainda que seja uma escolha nem sempre é simples de se sustentar. Existe um ideal de maternidade, e existe a maternidade que se apresenta na sua vida, muitas vezes diametralmente oposta daquilo que se idealizou. A maternidade ainda que uma escolha nem sempre é feita com liberdade e autonomia, existe um sem fim de mecanismos discursivos de controle sobre o corpo da mulher que operam o desejo, são um sem fim de familiares perguntando quando vem o bebê, é um circulo de amizades de baby boom, é o companheiro, é a ginecologista, amigos e amigas, vizinhos. A maternidade compulsória é algo presente e sistemático na nossa sociedade. Ai me parece perverso colocar a questão nesses termos “se não quer cuidar porque teve”. Conheço muitas mulheres que ingressaram em profunda depressão tão logo foram mães, e cuidar muitas vezes exige energia da qual não dispomos, ainda que essa maternidade tenha sido desejada, e habite amor nela. Eu mesma tenho uma dificuldade imensa em cuidar, acolho essa dificuldade, ela diz muito de mim, reconheço essa minha limitação. É nesse exercício que consigo elaborar o cuidado.

Cuidar requer abertura, requer estar à merce, requer diálogo, requer um olhar para o outro que diz muito de nós, e muitas vezes não queremos saber sobre esse dizer. Muitas vezes cuidar é um processo dolorido. Cuidar é comunicação, não à toa encaminhamos ofícios, cartas, encomendas, etc., aos cuidados de Fulano. Cuidar também é pensamento “Ela cuidou do que iria dizer”. Cuidar é de uma grande complexidade, e é para além do trocar fralda, dar banho, ver lição de casa e realizar a manutenção da vida. Reduzir o debate ao “se não quer cuidar porque teve” é uma grande falha.

Muitos pais e mães ricos e pais e mães pobres não dão conta de cuidar de seus filhos, o que nem sempre é indiferença e rejeição. Aos ricos há a possibilidade de ter uma babá, a criança é amparada de alguma forma, ainda que boa parte das babás deixem seus filhos muitas vezes desamparados. Aos pobres o caminho é mais perverso, basta pesquisar acerca dos abrigos e a quantidade de crianças inadotáveis abandonadas. E isso não quer dizer que todo mundo que tem babá não cuida, rejeita e é indiferente, muito menos que o casal da foto abandonou os filhos.

Porque eu falei tudo isso, porque o fenômeno de não suportar a insustentável leveza do cuidado não é algo do casal x ou y, coxinha ou esquerda, marchante ou não marchante, do Pinheiros ou Pinheirinho, é algo presente em todas as classes, ideologias, religiões. Abandonamos crianças a todo momento, escolas particulares de renome estão abarrotadas delas, abrigos também, nas casas, em todos os lugares.  Acredito que a possibilidade de mudança e a responsabilidade pelas crianças precisa caminhar para relações comunitárias de cuidado, esvaziar o conteúdo dos papeis de pai e mãe, esvaziar a idealização e a cristalização desses papéis. Não olhar os filhos dos outros nem aos seus como propriedade, para que a responsabilidade não se limite e se reduza aos pais, e seja sobretudo de todos nós. Para que todas as crianças sejam acolhidas e amadas, independente de quem as gerou, de quem as pariu. Eu gosto muito de uma estrofe de uma poesia que se chama Amor do Maiacoviski:

Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.”

xênia

 

*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Um Beijo do Asfalto

Por Patrícia Valim*, Biscate Convidada

Texto publicado originalmente na Revista Artigo 5o

8 de março de 2016: durante os idos de 2006-2008, um grupo de delegados da polícia federal, ligados ao Protógenes, me convidou para escrever sobre feminismos na revista cultural deles: Artigo 5º. Um dos textos publicados me rendeu alguma apurrinhação dos machistas de plantão e um telefonema da prostituta Gabriela Leite. Conversamos durante um tempo e no final ela me agradeceu pela resenha que publiquei do livro dela e por não ter perguntado o que ela faria se suas filhas decidissem ser prostitutas. Dois anos depois ela faleceu. Aos que tiverem tempo e paciência:

Um Beijo do Asfalto

Jean-Paul Sartre escreveu, em A Náusea, que para o acontecimento mais banal virar uma aventura, é preciso começar a contá-lo: é o que faz Gabriela Leite em seu livro de memórias Filha, Mãe, Avó e Puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta, lançado recentemente pela editora Objetiva. Não que sua trajetória seja banal. Muito pelo contrário, pois Gabriela Leite, 57 anos, fundadora da ONG Davida, de onde saiu a simpática e badalada grife Daspu, dedica-se há mais de duas décadas à causa da profissão que ela decidiu exercer desde os idos finais da década de 60, quando trabalhava em uma grande empresa e à noite cursava Ciências Sociais na USP. Escolheu ser prostituta não porque precisasse. Filha de uma dona de casa interiorana e conservadora, e de um crupiê afetuoso de família aristocrática, após a separação de seus pais, Gabriela mudou-se com sua mãe e irmãs para a periferia de São Paulo e foi criada para casar-se virgem, ter filhos, uma cozinha planejada e ser feliz para sempre. Destino reservado para a maioria das boas moças de sua geração, que Gabriela decidiu subverter porque queria fazer a sua revolução pessoal, lutando contra o conservadorismo da família e da sociedade paulista através da grande obsessão da contracultura: o sexo.

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Em um momento vertiginoso e caótico dos anos difíceis da ditadura militar no Brasil, após as aulas na universidade, Gabriela freqüentava o bar Redondo, na Praça Roosevelt, porque se sentia deslocada tanto entre os que pegavam em armas para lutar contra a ditadura, militantes da esquerda, como entre os que radicalizavam na ponta inversa desse processo: os CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e os militantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade), em sua maioria estudantes do Mackenzie na Maria Antônia. Foi em busca de sua identidade no reduto dos que teorizavam a revolução sexual, que Gabriela conheceu um diretor teatral engajado com quem ela deixou de sentir o fardo de “ser virgem no meio dos modernos”. Gabriela perdeu o fardo, a virgindade e ganhou uma enorme frustração ao constatar o limite da modernidade possível de seu primeiro parceiro sexual, que além de desdenhar de sua virgindade, contou o episódio para todos os convivas do Redondo.

A frustração dessa experiência, no entanto, foi decisiva para que Gabriela procurasse outros caminhos e outras possibilidades de fazer a sua revolução pessoal. Mudou de ares. Passou a freqüentar o reduto do samba em São Paulo. Apaixonou-se por um sambista – “o primeiro homem que a tratou como uma verdadeira mulher” -, engravidou quando a pílula já significava liberdade feminina e decidiu que seria mãe solteira. Depois de quase um ano do nascimento de sua primeira filha, trabalhando no ABC paulista e morando com a mãe cada vez mais repressora, Gabriela largou tudo para dedicar-se à prostituição na boca do lixo de São Paulo. A partir desse momento, Gabriela Leite nos brinda como uma narrativa generosa, inteligente e extremamente esclarecedora sobre o cotidiano da vida de uma prostituta do baixo meretrício em algumas capitais do Brasil.

Diferentemente do que se costuma imaginar, o cotidiano dessas mulheres retratado no livro é muito mais complexo do que os dois pólos opostos com os quais até hoje se enxergam as prostitutas: a romantização, como no filme Uma linda mulher, no qual a prostituta espera pelo príncipe encantado que irá redimi-la de seu passado por suposto obscuro, e o discurso da vitimização, cuja relação de dominação lhe é subjacente.

Como diria Caetano Veloso: nem uma coisa, nem outra, ou muito pelo contrário, pois Gabriela Leite quebra tabus ao nos mostrar sem pudor que a profissão pode ser sim alegre, divertida e prazerosa. Trata-se, no entanto, de uma profissão que embora não seja regulamentada, tem um código de ética cujo ponto de partida é o “não se apaixonarás por seu cliente”. Gabriela Leite hoje em dia é uma prostituta aposentada, casada com o jornalista Flávio Lenz, irmão da poeta precocemente falecida Ana Cristina César.

A relação do casal começou em uma ONG onde ele trabalhava desenvolvendo parcerias ligadas aos direitos das prostitutas; causa que Gabriela milita desde os anos oitenta. Flávio nunca foi um cliente. Tampouco o pai de sua segunda filha, que é fruto de uma outra paixão, quando Gabriela ainda estava em São Paulo. Flávio foi o amigo que se transformou no companheiro de vida e de militância porque nunca demonstrou preconceito com as escolhas de Gabriela.

No entanto, o casal sofreu com a reação de algumas pessoas próximas, que militavam com eles na ONG. Como diz Pedro Juan Gutiérrez, a realidade não tem obrigação de ser convincente, ela pode ser dar a certos luxos, como, por exemplo, o relacionamento entre uma prostituta do baixo meretrício e um intelectual do baixo Gávea, que à época era casado com Regina, amiga de ambos até hoje.

A esse respeito Gabriela afirma “é claro que eu estava de novo quebrando um tabu. Estava namorando o ex-marido da minha amiga, sem brigar com ela e tampouco a traindo. Isso incomodava muita gente, especialmente as mulheres”. Nesse ponto da narrativa Gabriela trata do preconceito das mulheres com as próprias mulheres, que às vezes são tão ou mais conservadoras que certos homens ao lidar com a sexualidade e o clássico fetiche em torno das prostitutas.

Esse é um livro que vale quanto pesa, porque Gabriela Leite quebra outros tantos tabus ao mostrar que não é e nem nunca quis ser a Júlia Roberts. Também não é a Gabriela de Jorge Amado, eternizada nos versos de Caymmi “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim … Gabriela”. Gabriela Leite é única, porque subverteu seu destino manifesto e fez sua revolução pessoal fazendo sexo e militando na causa da prostituição para que muitas outras mulheres possam cantar seus nomes próprios em alto e bom som: Alessandras, Luizas, Terezas, Marinas, Mathildes, Júlias, Reginas, Fernandas, Simones, Ritas, Cidas, Veras, Patrícias, Marias, Anas, Amélias … Pode-se até discordar dos métodos com os quais ela fez sua revolução pessoal, mas é preciso respeitá-la por sua trajetória. Afinal, o Brasil já pode dizer que a Gabriela Leite também é mulher de verdade.

12346530_10208354620448331_192542302382295802_nPatrícia Valim, mãe de Ana, Maria e Bento e avó de Maria Antônia. Professora de História da UFBA

Vamos Falar Sobre Gênero

Por Andrea Moraes, Biscate Convidada

“Professora, meu marido rasgou meu trabalho”; “Professora, se meu tio me agride eu posso dar queixa dele na Maria da Penha?”; “Ih, professora Andrea, essa coisa de aborto legal é lenda, bem tenho eu duas sobrinhas morando lá em casa, gêmeas, minha irmã foi estuprada e a gente nunca conseguiu tirar. Agora estão aí… Eu amo as minhas sobrinhas, mas a história fica, né?” “Quando eu era criança, vi um cara abusar da minha irmã mais velha, eu nunca mais esqueci.” “Andrea, mas e se eu não quiser ser homossexual? O que eu faço? Se alguém na minha Igreja souber?”

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No curso de graduação onde eu trabalho como professora, a disciplina que trata das relações de gênero no Brasil é obrigatória. Há alguns anos eu sou uma das docentes responsáveis pelo curso. Desde o meu doutorado, concluído em 2003, eu pesquiso o tema, por isso acabei ministrando a disciplina e gosto muito de fazer isso. Algo que desde sempre me chama a atenção são as conversas que acontecem ao final das aulas. A turma é dispensada e sempre chega uma aluna – são as moças em sua maioria quem me procuram e o curso tem muitas mulheres, embora um ou outro menino também se aproxime, usualmente com questões sobre homossexualidade – chegam como quem não quer nada, um sorriso no rosto: “Posso falar com você?” “Tem um minutinho?” E aí os papos começam e as revelações, às vezes o choro, a vergonha, o suspiro, o nó no peito. Já terminei muita aula com abraços e afagos, tentando confortar e orientar na medida do possível. Não sou advogada, nem terapeuta, mas também não creio que elas me procurem com essa expectativa. Sou alguém que fica ali na frente delas por algumas horas na semana, dizendo basicamente que gênero é uma construção cultural e que as desigualdades baseadas no sexo devem ser compreendidas e confrontadas, recito a cartilha toda das políticas públicas de gênero e sua evolução no Brasil, falamos do feminismo como movimento político e ao final do dia, eu me deparo com isso que é a matéria prima da vida mesmo: os conflitos, a dor, o interdito, a fala embargada e o abraço. Em nenhuma outra disciplina eu fui colocada nessa situação. Mas, sei que não sou a única, já troquei experiências com outros colegas de profissão que lidam com coisas parecidas em seu cotidiano de trabalho.

Ministrar um curso como o de relações de gênero é um desafio. Por um lado, a gente tem uma ementa a cumprir, a disciplina justifica-se dentro de um currículo, há leituras a serem feitas, conceitos a serem discutidos, tudo muito dentro do protocolo do que é ensinar para a graduação e despertar minimamente a curiosidade investigativa dos estudantes. Por outro, o tema mesmo do curso pulsa imediatamente na vida das pessoas, e pulsa cada vez mais com maior velocidade. Feminismo, gênero são assuntos que estão na ordem do dia. É algo que está ali tão perto, tão ao alcance da mão e tão escondido ao mesmo tempo.

Nesses anos todos de trabalho, eu já me embananei nessa função, quem nunca? Lembro que no início, os relatos me assustavam e eu ficava achando que eu devia estar fazendo alguma coisa errada, não estava dando o “tom certo” à disciplina. Ficava com medo do curso se transformar em consultório ou muro das lamentações e eu um arremedo de ajuda. Depois fui me entendendo melhor nesse lugar e mais, vendo que eu também tinha as minhas histórias pessoais. Através da confiança que as alunas depositaram em mim, eu aprendi a confiar em mim mesma e a me enxergar como não muito distante das histórias que eu ouvia. Foi só aí que eu deixei de me apavorar com esse lugar de professora que escuta e a conferir uma maior simetria a minha relação com essas alunas. Aprendi a ver que talvez fosse ali mesmo, no final da aula, que as histórias faziam seu sentido e longe de confundirem o conteúdo da matéria com a emoção, tornavam esse conteúdo vivo.  Esse exercício me fez perceber que os caminhos para o conhecimento são múltiplos e não concorrentes. A gente estuda, lê os autores, pensa com eles e a gente sente, vive, chafurda nos sentimentos e toma distância deles pra continuar tudo novamente, mais uma vez.

Numa das últimas aulas desse ano, uma aluna perguntou por que o direito ao aborto era um tema tão persistente na agenda das discussões do feminismo. Claro que a resposta pra isso pode estar em 100 laudas, espaço 1,5 com notas de pé de página e 50 referências bibliográficas recentes. Mas, a única coisa que eu pude responder na hora foi o seguinte: é persistente porque nos afeta, e a gente persiste naquilo que nos afeta.

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Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Diversidade, Visibilidade e Tolerância

Admitir que o preconceito está na gente. Exatamente isso, falar em diversidade e tolerância é admitir que o preconceito está em nós. Nós mesmo, frutos de processos de socialização e educativo, que recebemos por anos uma chuva de padrões de comportamento, pensamento e atitude, somo a primeira barreira para a promoção da diversidade. Então, primeiro passo na promoção da tolerância é descer do pedestal.

Não é possível começar um debate sobre diversidade, visibilidade e tolerância, se quem fala sobre isso não admite que praticar a diversidade e a tolerância é, antes de tudo, um processo individual de consciência, seguido de uma prática discursiva, de edução e auto-educação e prática social efetiva. Sim, porque é fundamental se livrar da demagogia do discurso (do midiático e o das redes sociais) e partir para ação as afirmativas e as negativas (sim, as negativas, aquela que se resume em não exaltar como “folclore” atos de visibilidade).

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Paula Rego – Branca de Neve engole a maçã envenenada

E a visibilidade, né… Vamos combinar, visibilidade é um ato de quem é diverso! Se você não é diverso, não tente tirar quem é do armário simplesmente pelo fato de que você quer praticar o seu discurso sobre diversidade. É muito bonita a empatia, a fraternidade com as pessoas diversas queridas, mas expô-las como, para o seu bel prazer egóico, não é legal.

E lembre-se que ao convidar um amigo pra uma festa sua, não inclua o adendo: “vai ter um monte de gente legal, gays, lésbicas, trans*, o pessoal do candomblé que vai fazer um batuque, um colega do mestrado que é refugiado sírio e uns ativistas do poliamor”, convide só para a festa… deixe ele descobri que não há nada de diferente em encontrar essas pessoas em uma festa ou em ir a um evento do cerimonial do Itamaraty… NÃO OBJETIFIQUE QUEM É DIVERSO. Quer dizer quem vai, diga os nomes das pessoas, de onde você as conhece, mas não a característica diversa delas.

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Paula Rego – Passos do Coelho

Promover a diversidade por meio da tolerância é romper com o processo de silenciamento, naturalizando a visibilidade de quem quer ser visível, porque tem gente que não quer, ou não quer 24h, ou não quer em certos ambientes, aceite isso. Quer discutir, excelente! Estamos aqui para isso e precisamos disso! Então, dê voz às experiências das pessoas diversas, replique a voz dessas pessoas, difunda os atos públicos dessas pessoas, mas não pense que promover a diversidade é expor a vida privada dessas pessoas, porque não é.

E é isso, promover diversidade é ensinar a tolerar os processos de visibilidade, é naturalizar esse processo, é permitir que a diversidade sexual, de gênero, racial, religiosa, de corpo, de deficiência e quaisquer outras sejam parte do dia a dia. É ensinar que os preconceitos aos diversos são resultados de processos sociais que devem ser rompidos e que depende de nós preconceituosos rompê-los! O mais difícil é sai do discurso para a prática, mas a gente pode começar a qualquer minuto.

Por duas: sobre mulheres e nós

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Dia dessas ela me ligou. E como sempre faz quando nos falamos ao telefone, me disse que me ama muito e que eu sou ela amanhã, multiplicada por duas ou três. Ser como ela, em dobro ainda por cima, significa mais que tudo “sacanagem”.

Ela tem esse dom delicioso de colocar duplo sentido nas coisas. E demonstrar desejo. Que eu imito, como não?! Ela abaixa até o chão na boquinha da garrafa. Já eu, nunca. Mas, ela. Ah, ela consegue. Ela canta em qualquer idioma, porque é boa de prosódia, mesmo que tenha que inventar palavras pra caber na métrica. E quem se importa com a letra quando se sabe o ritmo?! E compõe proibidões, que, olha. Ela compõe proibidões, até em cima de proibidões já feitos.

E cantou no rádio, quase foi famosa, quando preferiu casar. Foi até mesmo pressionada. Que saída tinha ela na época?

E vejo que se posso ser ela multiplicada por duas é porque posso ir mais além, quando ela não pôde. Porque não tive que escolher entre cantar e casar. Nem canto. Mas, se me fosse possível, não haveria escolha. Haveria soma. E, se houvesse, casar não seria a alternativa correta default.

E me conta de dores da vida em comum. E sei que somente sou eu ela em dobro porque calhei de nascer uns anos depois. Quando permanecer não é sempre uma obrigação. Aguentar não é imperioso. Que sair não é desamparo. Não sempre. Não o tempo todo.

E come pimenta malagueta pura enquanto passa roupa e toma cerveja. E dança, riscando o salão. Vai de bolero, vai de forró, a hora que for.

Ah, quem me dera ser nisso como ela. Ainda mais em dobro!

Mas, se ela diz, vou seguindo uma parte dos seus passos. Pensando que essa alegria e gulodice não são ingênuas. Têm amarguras também. E sublimação. E vontades e também frustração. E o que nos parece apenas uma história curiosa das reminiscências da tia divertida, tem tantos sonhos interrompidos pelo meio.

E desejos de voltar atrás, num tempo que a alegria era por si. Ao mesmo tempo, de seguir em frente, quando cantar, casar e dançar até o chão são coisas que mulher pode fazer, afinal.

E ela enche os encontros de humor e riso. E invejas e ciúmes quando diz que eu, euzinha aqui, sou como ela em dobro. E um pouco de aflição também. E no churrasco de família ensina a irmã mais nova a “chupar um pau”.  Diz que é pra agradar o homem. Mas, ela se agrada também. Ela tem isso. O riso que contradiz o discurso. Ela gosta de ensinar. E gosta do resto todo. Porque ela gosta disso tudo. Me disse. “Eu gosto!”

E vou me lembrando que eu sou ela. Em progressão geométrica. E gosto também.

Mas, ela também anda triste. E, às vezes, o riso vacila. Também me disse ao telefone “que levaram a outra banda do colchete”. A banda que a completava. Que se encaixava. Com quem ela formava um todo de amor e cumplicidade e festa. E choro.

De longe, fico pensando se ela se recupera mais dessa. E são tantas. Têm sido tantas! Aquele momento na existência quando passamos a contabilizar perdas e esperar a próxima. De amores. De parentes. De irmãs. O encaixe do colchete, o amor da sua vida, a companheira, a irmã.

Ela repete que me ama ao telefone. Que somos iguais. E, fico ali, pensando se teremos a mesma intensidade no sentir. Assim, em dobro.

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

marcha

Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Fim de temporada. Repensando questões.

Foi um ano difícil, e esse final de temporada, no Brasil e no mundo, está mais agitado que os 3 seriados da Shonda juntos. E não há nenhum spoiler do final, infelizmente. Adoro a segurança dos spoilers, cresci lendo no jornal da tv o resumo da semana da novela. E apesar dos pesares, dos retrocessos e tudo, foi um grande ano pro feminismo. As campanhas #primeiroassédio, #meuamigosecreto e #AgoraÉQueSãoElas trouxeram o feminismo e a luta das mulheres para a pauta do dia a dia, o feminismo está pop. As meninas liderando o #OcupaEscola (beijo, Marcela, musa) e a Marcha das Mulheres Negras também. O balanço é positivo, mas estou aqui a repensar alguns pontos que a gente anda a debater aí pelas internetz.

A sororidade. Já me posicionei contra ela, não acho que deva ocorrer de forma irrestrita, com passar a mão na cabeça quando se fala ou se comete bobagens. Mas ando pensando que sim, a gente precisa se unir mais pra buscarmos nossas conquistas, focarmos no que concordamos e temos de semelhante do que debatermos infinitamente as divergências. Isso não quer dizer varrer divergências pra debaixo do tapete e não falar sobre elas, mas sim mantermos o foco no que buscamos, nos direitos essenciais que ainda nos faltam. Não acho possível um feminismo interseccional sem …sororidade, ou na verdade, proteção e companhia de umas para com as outras.

Não acredito em vitimização de mulheres, mas como mulher bem sei que somos bem pouco ouvidas, sei que a vida todo dia esfrega o sistema patriarcal nas nossas caras, umas ainda mais que outras pois cor da pele, status social e orientação sexual pesam ainda mais. Mas acredito que a gente precisa de acolhimento e precisa acreditar que nenhuma escolha é feita no vácuo, que há aquele troço chamado caldo de cultura  dentro e misturado. Que nenhuma agência, nem masculina, nem feminina,  por mais madura que pareça é feita no vácuo, há o mundo em que crescemos e vivemos ao redor. A gente precisa uma das outras. Precisa ouvir o que a outra diz, precisa abraçar, botar no colo se precisar, mas também precisa dizer a verdade. Dizer: sai daí, amiga, você não precisa desse homem nem de homem nenhum, nem de ninguém. Não, não dê mais uma chance  a esse cretino. Não, esse ciúme, possessividade, controle, etc. não quer dizer que ele te ama etc e tal.

Não, sua mãe/pai/madrasta/vó/o escambau não estava certo, você é fera. É que a gente foi ensinada a ver o mundo com olhos de contos de fada onde precisamos de um homem do lado, do contrário não seremos ninguém, e eles nos salvarão do sono/tédio eterno e solteiras são pessoas não desejáveis. A gente tem que dizer pras amigas sempre e todo dia pra seguirem seus instintos primitivos, porque se tem algo que te faz sentir desconfortável, tenha certeza, vai piorar, não é para dar uma chance (cada vez mais acho isso mais provável que o oposto), que o cara só é bacana se te faz feliz , se não te diminuiu, se te faz ser melhor, assim como você faz a ele. E , principalmente, que se você está sozinha isso legal, há montes de amigos bacanas por aí, há livros, trabalhos, filmes, tanta coisa pra fazer. Sexo é ótimo mas não é tudo. Amor também, mas também não é tudo.

Sobre os feministos ou esquerdomachos ou uzómi ou, enfim, os homens. Olha, to pensando. Muito. A gente curte falar com eles, debater, curte tomar um suco ou uma cerveja, curte. Mas diante de uma maioria que prima pela falta de bons modos e de compreensão … realmente, caras, o protagonismo é nosso. Beijos.

Por fim, fico sempre pensando nessa cultura, que é do patriarcado, que fica constantemente acirrando os ânimos entre as mulheres, divindindo, opondo solteiras x casadas, gordas x magras, bonitas x feias, libertinas x pudicas e por aí vai, sempre numa dicotomia de santa ou puta. Todas somos santas e putas. Todas somos um monte de coisas várias vezes por dia, amiga, vó, tia, mãe, estudante, namorada, esposa, amante, funcionária… mas o mais importante é que somos mulheres, estamos cansadas e devíamos estar unidas. A união nos fortalece, a divisão dissipa nossa força como conjunto.

E era só isso que eu estava pensando pro ano que vem, que a gente se atacasse menos e se ajudasse mais, fosse mais às ruas porque acho mesmo que o caminho está aberto.

Feliz ano novo e feliz nova vida, mulheres, suas lindas.

 

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ps: a foto do post foi escolhida por mim como uma homenagem do coração a  Marcela, mulher, estudante, negra e minha musa absoluta de 2015. que seu 2016 seja foda como você, garota.

 

#OcupaEstudantes – Revolta das Cadeiras

Hoje, blogs, sites e colunistas estão abrindo seus espaços para que estudantes de São Paulo possam falar, usando suas próprias vozes, sobre a experiência que estão vivendo de se juntar e lutar contra o projeto de reorganização das escolas da rede pública de ensino do Estado de São Paulo. Todos os textos serão reunidos pela hashtag #OcupaEstudantes. Temos a honra de abrir espaço no Biscate Social Club para Lana Lopes do Etec Guaracy Silveira.

Revolta das cadeiras

Rendidos no chão, gritamos por nossas escolas. Encurralados pelas tropas policiais, que invadiram até o céu com seus 10 helicópteros, ocupamos as principais avenidas de São Paulo.

Nossas armas: o grito, lápis e papel. As do governo: bombas de gás lacrimogêneo, de efeito moral, balas de borracha e cassetete pra todos os lados. Contra os estudantes, Alckmin declarou guerra, com todas as letras. Sendo assim, vestindo nossas máscaras, mulheres na linha de frente, seguimos de punho cerrado, sem arrego!

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A luta secundarista ressuscita e reinventa junho de 2013, em um movimento auto organizado, mostrando total capacidade de fazer política. Reconhecemos o avanço na luta contra a reorganização, mas exigimos um real diálogo, no qual possamos debater de forma ampla e pertinente a necessária reforma no ensino.

Deixamos claro o tipo de escola que queremos e o modelo de educação que mais dialoga com a juventude. Queremos uma educação emancipadora em espaços democráticos. Esse é só o começo de uma luta que se perpetua e se nacionaliza.

Nossa força só aumenta, nosso grito se sustenta, e o governo finge que aguenta!

Autora

Lana Lopes – Etec Guaracy Silveira.

Ocupem as escolas, ocupem tudo

Final de ano, me sinto mais ainda cansada que o normal e, convenhamos, 2015 não foi fácil. Cada dia uma porrada diferente, cada dia um 7 x 1 diferente na gente. Nem vou tentar começar a desfiar o festival de desgraças e tristezas pra não correr o risco de fazer competição de catástrofe. Não aguento mais nem me atualizar com as notícias. Tenho vontade de me refugiar só no quentinho das boas lembranças de um passado remoto quando ainda estava tudo mais ou menos bem.

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Mas, pra viver a gente precisa de ajuda para respirar esse ar pesado, para botar a cabeça fora d’água e puxar o ar de novo. E o que tem me animado a não desistir de olhar pra frente são os jovens. Pois é, 43 e já me considero velha. É que gente da minha geração já tem ou casa ou carro ou filhos ou um monte de contas a pagar por causa de algumas dessas coisas ou todas elas juntas e, aí, desiste de sonhar, de tentar mudar a si e ao mundo e aceita as coisas como estão e nos tornamos mais que realistas, nos tornamos pragmáticos, desiludidos e amargos.

Mas quem é que ajuda a impulsionar as mudanças de comportamento aqui e mundo a fora? Quem esteve em Paris 68? Quem foram os jovens que resistiram à Ditadura? Tem um chavão por aí que diz “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Trinta talvez não pra todas as pessoas, mas quarenta… com certeza.

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E hoje chego em casa e me deparo com essas meninas e meninos ocupando as escolas no estado de São Paulo. Nem terminaram o que na minha época a gente chamava de colegial e estão lá, lutando bravamente pelo direito de estudar contra uma reorganização sem objetivos claros, empurrada goela abaixo da comunidade escolar.

Sabem se organizar horizontalmente, distribuir tarefas. Estão arrumando as escolas, ao contrário do que a mídia, fazendo o papel de assessoria de imprensa do Estado e do governador, divulgou e… estão apanhando e sendo presos. Apanhando como se adultos fossem. Apanhando como se não existisse a proteção do ECA ou se como o Judiciário paulista não tivesse impedido a PM de forçar a invasão das escolas.

Dá raiva, nojo, quando ouvimos os áudios ( aqui e aqui )  de gente ligada à Secretaria de Educação e ao governo do Estado chamando para ir para a guerra contra essa molecada. É uma guerra desigual e desonesta da PM invadindo com cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral versus estudantes de camiseta de escola armados de palavras de ordem.

A grande justificativa é o tal do impedimento da via pública. Juro que queria entender qual o amor do paulistano ou do brasileiro em geral ao carro e ao trânsito acima das pessoas. Mas é um amor seletivo pois gente do MBL impediu o trânsito ontem na Av. Paulista e a polícia nem deu o ar da graça para tirar um selfies.

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“Tempos difíceis estão por vir…” , diria Dumbledore. E é por isso que tenho tentando manter nesse espaço o otimismo. E apesar do horror que a violência dos vídeos e fotos me causam, a esperança no futuro que outros vídeos, fotos e relatos de uma gente linda, inclusiva, honesta, elegante e sincera me causam com seus cantos e gritos de guerra.

E porque ninguém velho e amargo como nós é que iria vestir com tanta galhardia uma camiseta escrita à mão: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sigam em frente, a luta é de vocês, e é também nossa, estamos juntos por um mundo melhor. Obrigada por não nos deixarem esquecer que tudo ainda é possível. Força.

Para mais informações sobre o #OcupaEscola clique aqui:

https://www.facebook.com/naofechemminhaescola/?fref=photo

https://www.facebook.com/Ocupa-E-E-Diadema-1505790296409080/?fref=ts 

https://www.facebook.com/ocupacaosalvadorallende/?ref=ts&fref=ts

https://www.facebook.com/brasildefato/posts/998486000199364

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/?fref=ts

Conversas difíceis: AIDS.

Por Bia Cardoso*, Biscate Convidada.

Falamos muito sobre sexo nesse espaço. Porém, as vezes é preciso ter conversas difíceis que envolvem sexo, uma delas é sobre doenças sexualmente transmissíveis, mais especificamente a AIDS. Hoje, primeiro de dezembro é Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, uma das mais perversas doenças que já vimos, porque ataca diretamente algo prazeroso, o sexo.

Por mais que existam campanhas e que falemos sobre a importância do sexo seguro, sabemos que não é fácil praticá-lo. A maioria das pessoas ainda não incorporou produtos de prevenção como a camisinha no jogo lúdico sexual. Nas produções culturais como filmes, livros e músicas, dificilmente vemos descrições de atos sexuais em que o sexo seguro é explicitado. Além disso, desde o surgimento do coquetel anti-HIV e de sua distribuição pelo Ministério da Saúde, há essa impressão falsa de que a epidemia foi controlada e os jovens mostram cada vez menos receio do vírus que foi tão temido nos anos 80 e 90.

A cada hora, cerca de 10 pessoas são infectadas com HIV na América Latina. O Brasil é responsável por quase metade dos casos. E pelo menos um terço dessas novas infecções ocorrem em jovens entre 15 e 24 anos, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres representam mais da metade das pessoas infectadas pelo vírus HIV no mundo inteiro. De todas as mortes causadas pela AIDS no Brasil até 2012, 28,4% ocorreram entre mulheres, de acordo com o Boletim Epidemiológico Aids HIV/Aids 2013. O documento também aponta que a única faixa etária em que o número de casos de aids é maior entre as mulheres é de 13 a 19 anos. A população com mais de 60 anos é uma das faixas etárias em que a ocorrência de casos de Aids mais cresceu na última década — 32% entre 2013 e 2014.

São dados preocupantes. Especialmente num mundo machista em que muitas mulheres não conseguem impor o uso da camisinha a seus parceiros, em que muitas mulheres não se sentem seguras para conversar abertamente sobre sexo, em que muitas mulheres nem imaginam que possam estar expostas ao vírus porque o parceiro não se responsabilizou ao fazer sexo com outras pessoas.

Não existe mais grupo de risco para AIDS. Porém, as campanhas sobre sexo seguro concentram-se muito no período do carnaval ou são as únicas que envolvem prostitutas, estigmatizando-as ainda mais. Como afirma Amara Moira:

As políticas públicas de prevenção estão se cagando pra saúde da profissional do sexo: se nos dão camisinha e gel de graça e insistem pra que os usemos é apenas por medo de que a gente transmita DSTs pro pai de família e, consequentemente, pra sua esposa fiel. Porque sabem que não haverá como discutir a questão do preservativo de forma mais ampla com essas esposas, com esses maridos — o machismo não permitiria. Se sumíssimos todas nós, profissionais do sexo, sem levar junto esses veneráveis representantes da família Doriana, o Estado não derramaria uma lágrima.

A AIDS está presente no cotidiano de muitas pessoas, mas isso não pode virar um estigma. Lutemos para que a informação e o sexo seguro sejam incorporados as práticas sexuais, que o nosso desejo também seja descobrir novas formas de se divertir com segurança.

direitos hiv

[+] Conheça os direitos das pessoas soropositivas.

[+] ‘Eu me sentia perdida’. Professora conta os dramas e a vivência de uma mulher com Aids. Ela coordena o Grupo de Mulheres Positivas, em Londrina, no Paraná.

[+] ‘Não se dizia que uma mulher de idade podia ter Aids’, diz pianista de 88 anos.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Feminicídio: #nãofoiciúme

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Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

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