Feminicídio: #nãofoiciúme

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Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

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Um rio que chora a sua morte

rio5Tentei escrever um texto que não saiu. Nada poderia dizer a respeito de tudo que vi, em sangue e lama, nas semanas que seguiram por cima de mim. Afoguei-me. Tentei dar nome as coisas que me assaltavam os olhos. Mas as lágrimas engoliram-me a voz. Tenho os olhos duros de quem não consegue ver. E as mãos em prece de espanto.
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Um crime ambiental de proporções inigualáveis. Tantas mortes. Um rio que não existe mais. Pessoas que não existem mais. Peixes boiando na água que virou lama. Cavalos, cachorros, pescadores sem barco nem sustento. Esperanças em preto carvão. Uma terra que não é mais. Mulheres, crianças, árvores, toda aquela vida que sumiu nos excessos e dejetos da ganância dos homens. As casas que se cobriram pela lama dos tantos dinheiros de alguém que nunca aparece. Uma Vale que não é verde. Uma empresa que devora nossos bens comuns com sede de poder. Uma água que não se bebe mais. Um rio que carrega a sua morte, cortejando a devastação até conseguir chorar no mar.
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Choramos. Não tem acalento nem música para embalar a tristeza. O som que se ouve é o grito do Rio. Deito minha cabeça no leito imaginário de uma cidade que se transformou em lama. Sinto a covardia. Sinto suas entranhas reviradas e o gosto de morte nos lábios. Sinto que não tem justiça que seja capaz de reparar a perda que não foi evitada por quem podia. Negligência é uma palavra dura demais para se ouvir quando ela mata mais do que nossos lábios conseguem dizer. Não digo. Calo. Repito para mim mesma um mantra que não tem letra. Sinto-me pequena diante da estupidez humana.

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Subo no lombo do meu cavalo. É preciso seguir. É preciso ajudar, é preciso poder gritar. É preciso ter voz para poder gritar as injustiças e a dor desse mundo que nos massacra com seus dinheiros sujos de lama e seus homens com tantas mortes acumuladas nos ombros.

Eu ainda quero poder sonhar um mundo melhor.

#OcupaEscola: pra periferia, estamos olhando?

Acredito que quem é de mídias sociais deve estar acompanhando, mesmo que de soslaio, a ocupação das escolas estaduais em São Paulo que estão na lista das 94 que serão fechadas pelo governador Geraldo Alckmin. Com isso, já em 2016, ao menos 1 milhão de alunos poderão ser transferidos para outras escolas, espalhadas pela cidade. O caso é que essa decisão foi tomada sem consulta pública, sem conversas com a comunidade, com associações de professores e pais, com os alunos. Tudo é muito nebuloso e pouco transparente e mesmo a publicidade do governo do Estado explica bem pouco.

Em protesto, estudantes se organizaram e resolveram ocupá-las. Até a finalização desse texto, 16 escolas estão ocupadas, espalhadas entre as zonas oeste, sul, leste, Embu e Osasco, estas duas na grande São Paulo. O governador deu entrevista dizendo que há interesses políticos por trás dessas ocupações. Ora, pois, mas não é justamente política o que esses estudantes estão fazendo? E isso não é fantástico?! Realizando coisas realmente lindas por lá, como saraus, shows e muito debate?

Obviamente que um governo como o de Alckmin, pouco acostumado ao diálogo, a reação não poderia ser diferente do que foi. Nesse processo, o estado se fez presente na sua face mais truculenta: pela polícia. O governo enviou a polícia armada contra estudantes munidos apenas com tambores, reivindicações e desejos! Na 4a feira (11), saiu uma liminar de reintegração de posse das escolas Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, e Escola Estadual Diadema, que deveria ser cumprida 24h após a notificação na escola, mesmo que de “maneira coercitiva”. Isso deixou o clima mais tenso ainda.

Na 5a (12), durante a Marcha das Mulheres contra o Cunha, gritamos várias palavras de ordem contra essa atitude absurda e tresloucada do governo do estado. O movimento feminista parou em frente à Secretaria de Educação pra denunciar o autoritarismo do governo com o fechamento de escolas e a militarização para reprimir os estudantes. Além disso, um grupo foi em direção à Fernão Dias assim que terminou a Marcha, permanecendo em vigília madrugada adentro.

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

EE Fernão Dias. Foto: Vanessa Rodrigues

Na 6a feira (13), quando seria feita a reintegração na Fernão Dias, fui pra porta da escola. Encontrei PMs postados em frente ao portão, o Choque numa rua lateral, mais “discretos”, e várias pessoas acampadas. Havia também muita imprensa, além das presenças de padre Júlio Lancelotti e do advogado e especialista em Direitos Humanos, Ariel de Castro Alves. Pude ouvir uma fala muito contundente de padre Júlio, que tento reproduzir abaixo:

“A ordem é que o estado não use o Choque conta os estudantes. Mas, quem vê essa escola cercada por PMs e o Choque deve pensar: ‘que país é esse que cerca uma escola contra alunos, contra pessoas que não são criminosas?’ Eles sempre ouviram ‘vão pra escola!’ Agora, estão ouvindo ‘saíam da escola que a polícia vai entrar’. Isso é uma vergonha! Uma vergonha pro país. Uma vergonha pra qualquer educador. Quem devia estar negociando com eles não é a polícia!”

Saí da porta da Fernão ao redor das 21:00. E, ainda na estação do metrô, recebi mensagem de uma amiga que também estava lá contando que a liminar de reintegração tinha sido suspensa e que os estudantes estavam em festa. Fui pra casa um pouco mais aliviada, acreditando que, ao menos naquela noite, as coisas ficariam relativamente tranquilas. No caminho, comecei a pensar mais intensamente nas outras escolas. Naquelas que, ao contrário da Fernão, estão longe das zonas mais nobres.

A EE Fernão Dias se localiza próxima de uma estação de metrô, num bairro de classe média alta de São Paulo. Além de ter sido uma das primeiras a ser ocupada, não se pode negar que sua localização contribui para que seus alunos chamem mais atenção da mídia e causem tanta comoção. Além disso, qualquer atitude mais truculenta contra adolescentes desarmados, muitos deles brancos e de classe média, poderia gerar uma profusão de imagens que, certamente, iria circular bastante. O desgaste que isso poderia causar ao próprio governo, mesmo um tão blindado como o de Alckmin, cobraria um preço, presumo.

Mas, e as outras escolas? As da periferia? Aquelas que, longe dos holofotes e de parte do apoio presencial popular (e nisso me incluo), estão muito mais vulneráveis à violência do estado? O que aconteceria com elas? Obviamente, o que aconteceu.

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página "Não fechem minha escola"

PMs invadindo a escola José Lins Rego. Publicada originalmente na página “Não fechem minha escola”

Segundo relatos das páginas que estão acompanhando as ocupações, na EE Ana Rosa, no Butantã (zona Oeste), com a justificativa de verificar a integridade do espaço físico, a polícia entrou junto com a diretoria. Sem violência, felizmente. Entraram e saíram, e os alunos permaneceram.

Foi numa escola do Jardim Ângela, na zona sul, que o meu temor se confirmou. De acordo as mesmas páginas, no domingo (15), a PM invadiu e tentou retirar à força estudantes e apoiadores da ocupação da escola estadual José Lins Rego. Como tem sido lugar comum na gestão de Alckmin, educadores foram brutalmente agredidos. Um professor foi espancado e está com o rosto coberto de hematomas. Em vídeo, uma professora conta aos Jornalistas Livres como foi agredida por PMs.

“Eles abriram minha boca e jogaram spray de pimenta dentro da minha boca.”

O potente é que, mesmo com tudo isso, a escola continua ocupada

Os estudantes resistem e temos notícias de que estão precisando de alimentos de fácil consumo, lanches, água, etc. Entendo que para aqueles que moram em outras regiões da cidade não seja tão fácil se dirigir a essas escolas. Mas, quem puder apoiar, estar lá, levar mantimentos, levar sua presença, acho imprescindível. E que compartilhemos conteúdos, que as visibilizemos. Recomendo as páginas O mal educado e Não fechem minha escola, no Facebook, e o perfil @Ocupaescola, no twitter, que também tem uma hashtag.

Penso que uma unidade de ensino capitalizando tanta visibilidade e amplificando o protesto e os desmandos do governo do estado, como a Fernão pode fazer, é muito importante pra todo o processo de ocupação. Mas, que não deixemos de olhar, de proteger e de apoiar aquelas mais distantes do centro expandido. Que as lideranças e associações de defesa dos direitos humanos também estejam lá. Que a mídia mainstream e alternativa também cubram o que acontece lá. Que nós estejamos lá.

Que a truculência do estado não alcance mais ainda esses adolescentes enquanto a sociedade cochila.

Vamos Biscatear

Estou desde ontem tentando escrever esse post. O post de hoje. Da biscatagi. Ia falar de beijar na boca. Porque é bom. Porque beijei. Porque é caminho bom de biscatear. Sei lá que mais, eu ia trazer beijos e línguas pra humedecer as letras.

Mas no lugar de saliva achei as lágrimas. São elas que tem dado a cara dos dias. Lágrimas de tristeza. De raiva. De impotência. De pesar. De empatia. De mais raiva. De angústia.

Então o que trago hoje é um convite. Da gente usar esse cantinho como trampolim e se informar de tanta coisa dolorida, potente, desesperadora, inspiradora, combativa, transformadora que tem acontecido.

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Eu deixo três motes:

– o crime ambiental que aconteceu/está acontecendo em Minas e a cobertura jornalística desprezível.

– a ocupação das escolas públicas em São Paulo e a repressão belicoso, perigosa e criminosa feita pela PM.

– o #MulheresContraCunha que tem tomado as ruas de variadas cidades.

Não, não vou colocar nenhum link. Só dessa vez vou chamar assim: Vem. Vai. Vamos biscatear. Procura. Pergunta. Mexe. Remexe. Indaga. Espalha. Divulga. Perturba. Esse corpo que queremos livre, coloca na rua, na pauta, na luta.

Alguns dos dias lindos da luta

E num ano que andava tão ruim que eu acordava e vi as notícias e pensava: “Céus, só queria estar morta!”, tivemos dias lindos, da mais louca alegria, dias cor de rosa, púrpura, arco-íris de lindos. As mulheres voltaram às ruas contra aquele PL pavoroso do Cunha. O triste assédio sexual sofrido por uma garota de 12 na TV  mas que resultou numa explosão de 100 mil compartilhamentos de histórias tão ou mais escabrosas sobre assédio na infância e adolescência (não que isso seja bom, mas precisamos mesmo falar sobre isso para que tenha fim, nada que é velado acaba) com a tag #primeiroassédio.

E ainda tivemos o apelidado “Enem Feminista”, com citação de Simone de Beauvoir, tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, poesia sobre resistência negra e feminista queer mexicana Gloria Evangelina Anzaldúa. Para finalizar, a imprensa escrita tradicional publicando matérias sobre grupos feministas comandados por garotas adolescentes dentro de suas escola, tanto na periferia quanto nas escolas particulares (sobre isso tem um texto fantástico da Vanessa Rodrigues) .

Tá, eu sei que não tá tudo perfeito, sei que a luta é árdua e longa, sei que várias partes do feminismo interseccional a gente ainda mal alcança (feminismo negro, feminismo trans, feminismo na periferia, e tem gente tentando, sério), mas eu chego a chorar escrevendo isso porque me lembro que até uns 5 anos atrás a palavra feminista mal era ouvida por aí, ainda mais na boca de adolescentes ou era ouvida mal mesmo. As pessoas achavam o feminismo um horror, tendo idéias bem absurdas sobre o que ele significa (tal como supremacia da mulher, sendo pois, o exato oposto do machismo, o que sabemos não ser verdade, feminismo é luta por igualdade de direitos).

E, sim, tem o mainstream se apoderando da palavra pra vender, como faz com tudo no mundo. Mas, sabe, isso não é ruim de todo, pois foi pelo mainstream que eu conheci o feminismo nos anos 80, pirralha, com uns 10 anos, vendo TV Mulher e Malu Mulher, principalmente Malu Mulher. E olha que a palavra mal era usada, nem sei mesmo se era, mas ali aprendi a ser livre e independente, aprendi sobre igualdade de direitos. Óbvio que depois busquei mais, achei a Beauvoir e Rose Marie Muraro lá pelos 15 e 18 anos. Mas tudo começou ali, na TV, na Globo, pasmem.

Essas garotas jovens lutando por nós todas, mulheres, com tanta força e tanta consciência, fazendo o feminismo retornar às pautas e às ruas me dá esperança que um dia a gente seja a Finlândia e façamos nossas greve geral. Que gente como o Cunha e asseclas não permaneçam pra sempre na política.

Vamos nos unir e ir à luta com essa juventude linda que tá pintando aí. A gente tem tanto pra aprender com elas  quanto elas conosco, porque se a gente ficar buscando um purismo que não existe, se concentrando nas mil pequenas dissidências ( não estou falando de passar por cima do que é importante), toda iniciativa que seja bacana vai parecer em vão. O mundo não é perfeito. A militância, consequentemente, também não é.  Criticar é preciso, debater também mas precisa mais. Precisa achar um ponto de união e comemorar as vitórias, mesmo as pequenas.

Porque a direita sempre joga fora divergências e se une por dinheiro e poder, facinho, facinho. E em geral leva o caneco para casa, enquanto a gente fica se debatendo anos pra uma vitória sequer e desdenha depois, porque a vitória não tá boa, ideologicamente pura o suficiente. Vamos aproveitar a alegria desses dias, como bem disse a Bia Cardoso nesse texto lindo e vamos permanecer na luta, nas ruas.

Fora Cunha.

Fora Machistas.

Não Passarão.

 

amigas

Como nota triste a toda alegria provocada por tudo que aconteceu e foi relatado nesse texto, infelizmente vem a revanche e o backlash , e a vítima da vez foi a Lola Aronovich, feminista batalhadora e conhecida que muito acrescenta à nossa luta e que vem sofrendo uma série de ataques, inclusive de celebridades. Manifesto meu apoio a Lola. Machistas, seu medo e sua inveja bate na nossa pomba e gira. Tamo junta, Lola.

 

 

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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Assédio não pode ser normal, mas é

É assim: assédio não pode ser normal. Mas é. E a gente tem visto isso nesses últimos dias: as denúncias todas geradas pela hashtag #primeiroassédio. O volume. Dá a sensação de que aconteceu com todo mundo que a gente conhece.  Então a gente tem que entender. Não adianta, de novo, dizer que eles são todos pedófilos. Não são. Não são doentes, não são bandidos. São gente como a gente. Os homens que assediam são gente como a gente. criados para serem homens nessa sociedade maluca aí. E é disso que a gente tem que falar. Da porra da sociedade. Do que é chamado de homem nessa porra dessa sociedade. É nisso que a gente tem que mexer. Na cultura, nos hábitos. no “homem não chora”. No “isso é que é coisa de macho”. Ou, e talvez até mais importante, “isso não é”. É dessa porra dessa sociedade que a gente tem que falar.

Não adianta dizer que é “sordidez”, que são “canalhas”. Você não nota, mas quando diz isso está reduzindo o problema. Está desconhecendo que o problema é da sociedade: logo, é de todo mundo.

Acho bem mais inquietante pensar que são pessoas comuns que se sentem no direito de fazer isso. De pegar nas meninas, nas mulheres, de não escutar, de agarrar. Homens que agarram mulheres. E a grave questão é “se sentem no direito de”. Não porque são malucos: porque assim a sociedade lhes ensinou. A cada propaganda de mulher pelada vendendo cerveja ou carro, a cada “prenda suas cabras que meu bode está solto”, a cada “ele tá fazendo isso porque gosta de você”, a sociedade ensina que é assim. Sempre que se espera que as mulheres cuidem da casa, das crianças, e ainda estejam lindas e cheirosas para seu homem, é isso que se ensina. Toda vez que se trata uma mulher como menos, como menor, como sem espaço, toda vez que são os homens que ocupam a sala e relegam as mulheres para a cozinha, toda vez que os assuntos “de mulher” não têm vez na conversa, toda vez que elas não falam… toda vez que se acha que “direitos da mulher” não dizem respeito aos homens. Que, afinal, não abortam. Que, afinal, não engravidam.

Toda vez que se diz que “homem que é homem é que”…. toda vez. Quando às mulheres não se ensina que elas têm querer e voz: também. Quando se lhes pede calma, delicadeza, voz suave, não contrariar, “deixa, ele é assim mesmo”, “é só o jeito dele”….. toda vez que se diz às meninas que elas é que não devem usar saia curta, decote, que são elas que têm que se proteger, que se cuidar, em vez de dizer aos meninos que não, que não pode, que não é pra fazer. 

É de um olhar desassombrado para dentro dessa sociedade que é a nossa que a gente precisa: não de um repúdio horrorizado, como se não tivesse nada a ver com a gente. É da mudança no tratar desde pequenino, desde bebê praticamente: como se tratam os meninos, como se tratam as meninas. O que é ensinado a cada um deles. Isso é que tem que mudar, isso é que cria uma sociedade em que cada menina, cada mulher tem uma história de assédio pra contar. Em que, por trás de cada assédio, há um homem criado “para ser homem”. Desse jeito aí. Achando que pode.

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A redação do ENEM e a neutralidade ‘nkali’

Um vídeo que sempre me inspira é o da apresentação para o TEDx da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, sobre múltiplas histórias. Ali, pelo minuto 9′:42″, ela diz o seguinte:

“É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo. E a palavra é Nkali. É um substantivo que livremente traduzido é ‘ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômicos e políticos, historias também são definidas pelo principio do nkali. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

E aí, fiquei pensando na grita relacionada ao tema proposto na redação do ENEM deste ano – sobre as razões da persistência da violência contra mulher – e o questionamento se essa revisão não acabaria calcada num viés ideológico. Realmente, fiquei mesmo intrigada sobre a cobrança dessa suposta ~ neutralidade ~ na correção. De que neutralidade estamos falando, afinal? Da neutralidade hegemônica, à qual estamos submetidos, inclusive e especialmente, na educação e nos processos de aprendizagem formal de história, geografia, língua etc.? Em que lugar de fala esta neutralidade mora?

Não imagino como essa redação poderia ser escrita sem pautar-se em alguma perspectiva ideológica, uma vez que desde o seu cabeçalho já se anunciava que textos que ferissem os direitos humanos não seriam considerados. O que nos ensinam nos livros didáticos passa pelo apagamento da mulher na história; a maneira como aprendemos sobre a nossa colonização; sobre o tráfico de pessoas escravizadas; sobre os indígenas; até a língua… tudo isso não está submetido a um viés ideológico? Não são as pessoas que narram os eventos? E quem detem o poder não tem a primazia na narrativa?

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Ora, nós também queremos ser ouvidas!

A narrativa tradicional de nossa sociedade é normatizada pelo viés patriarcal, branco, cisgênero e heternormativo, no qual o espaço para a participação mais efetiva de minorias, e nesse grupo nos encontramos, ainda é limitado. Neste sentido, a prova do ENEM tem minimamente o mérito de obrigar os estudantes a pensarem sobre o tema da violência contra a mulher. Sem duvida que virão muitas respostas fora do contexto ou até ofensivas. Mas o fato é que pela primeira vez um conjunto tão grande de estudantes teve de se debruçar sobre um tema que não tem sido objeto profundo de discussões em sala de aula e, provavelmente, em suas casas.

Para reagir a redação, muitas pessoas, homens em sua maioria, passaram a compartilhar um meme que traz dados mostrando que eles são as maiores vitimas de violência, relativizando, assim, aquela vivida pelas mulheres e tentando retirar a importância dessa reflexão. O subtexto é que as mulheres deveriam até meio que estar felizes por não sofrerem na mesma medida que os homens. A desonestidade intelectual deste argumento salta aos olhos na medida em que geralmente a violência contra a mulher atende a um machismo tão profundamente arraigado na sociedade, que nos impede de ver o óbvio.

Não podemos perder de vista que as mulheres fazem parte de uma minoria que sofre violência e opressão justamente por serem mulheres. Ainda que encontremos depoimentos de assédio e estupro de homens, são as mulheres as maiores vítimas desse tipo de violência, por exemplo.

Será interessante ver os resultados de correção da redação. Especialmente para entender a visão das mulheres em comparação com a perspectiva masculina sobre o tema. Possivelmente, veremos muitos relatos pessoais, seja sobre violência sofrida pelas próprias estudantes seja por familiares. De certa forma, a redação da ENEM pode transformar-se num grande estudo sobre a percepção dos jovens, maioria esmagadora no exame, em um assunto tão urgente. Só isso já justificaria o tema da redação.

Depois dessa redação e do incômodo (pra dizer o mínimo) causado pela questão sobre a filósofa feminista Simone de Beauvoir e algumas outras perguntas que nos entusiasmaram bastante, para os próximos anos esperamos temas igualmente fundamentais, como o genocídio da juventude negra ou das comunidades originais (indígenas, quilombolas), por exemplo.

A cultura do ranking escolar, cada vez mais questionada, pode pelo menos prestar este serviço à sociedade. Afinal, mesmo o ENEM, com todas as suas críticas e idiossincrasias, também é um espaço de disputa. Quem sabe, assim, vamos ampliando mais ainda nosso repertório de múltiplas histórias, em todos os cantos onde isso seja possível.

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Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

mutarelli

Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Bolhas

Às vezes me dá um pouco de cansaço. De não entender porque as pessoas não entendem. Que seria tão melhor – acho – que ninguém regulasse a vida do outro pelo seu umbigo. Que não, não interessa o seu pecado, a sua crença, a sua teoria, o seu deus, o seu medo, o seu desejo, pra o outro tomar as decisões dele. Que a diferença do outro não é liberação pra ser morto de fome, de dor, de procedimentos mal feitos, espancado, de solidão, queimado na rua, baleado por engano, esfaqueado por ciúme. De desesperança ou desilusão. Às vezes me dá um pouco de cansaço. A insensibilidade pesa. A do outro, que não se acanha de verbalizar seu ódio, sua crueldade e se ofende se a gente apenas diz: mas isso é tão cruel. A minha insensibilidade pesa, porque estou aqui, ocultando status pra não saber se gente que eu quero bem é capaz dessa falta de sensibilidade aí. Às vezes me dá um pouco de cansaço de estar sempre vasculhando as entrelinhas, de perguntar de onde vem o riso, de me inquietar com as concordâncias imediatas. De tentar ser quem eu espero ser. De percorrer as distâncias. Eu disse cansaço? Devia dizer tristeza.

Esses dias em que existir tem sido difícil. Tanto desprezo, tanto ódio, tanta crueldade em relação às mulheres. A forma como nossos poucos direitos vão sendo dissipados, nossos corpos violentados e nossos desejos ignorados. Vamos garantindo que as mulheres que não são boas o suficiente (e nunca somos), morram, por dentro e de fato, algumas vezes. A gente não pode trepar. Fecha as perninhas. Se comporte. Se oriente. Só com a bênção do papa da vez, seja qual for sua doutrina, que seja decente. Incluindo aí, sua militância. Uma militância de perninha fechada. Sem riso e sem gozo. Sem gosto. A não ser por um pouquinho de sangue.

Dói e eu quase. Quase me fecho ali, na bolha confortável que é a ilusão que meus privilégios me protegerão. Aí recebo seu inbox, amigo, me falando do que aprendemos juntos. Aí tem o Blogueiras Feministas e a resistência. Aí tem a conversa livre com a amiga, que escuta, fala, pondera e permite. Aí tem o convite pra falar de feminismo – eu, biscate. E tem esse clube. Essas pessoas que fazem esse clube. Essas ideias e anseios e risos e trocas e gozos, liga que nos une, que mantém o blog no ar, que mantém a esperança no ar, que sustenta minha luta. Uso a ponta afiada da dor e estouro a bolha. O único modo de seguir que conheço é esse.

bolha

PL 5069 e a nova ameaça à saúde das mulheres

E foi aprovado hoje na CCJ- Comissão de Constituição e Justiça – da Câmara dos Deputados o absurdo e acintoso PL 5069 de autoria do capeta, não pera, de Jesus.com, não pera, do probo e ético Presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Na prática, o PL impede que mulheres vítimas de abuso sexual e estupro acessem o atendimento emergencial via SUS, já que para isso seria necessário um exame no IML. O projeto, ainda, torna crime induzir ou auxiliar uma gestante a abortar sob a justificativa de “dotar o sistema jurídico pátrio de mecanismos mais efetivos para refrear a prática do aborto, que vem sendo perpetrada sob os auspícios de artimanhas jurídicas, em desrespeito da vontade amplamente majoritária do povo brasileiro.”

O exame no IML é mais um constrangimento para a mulher que foi abusada. Ademais, em vários estados, a estrutura do IML é lenta e ineficiente para realizar exames de corpo de delito, em virtude da escassez de profissionais e recursos. O que o nobre deputado visa, assim, em sua cabeça oca e maluca, é impedir que as mulheres que procuram o auxílio médico após violência sexual abortem, se sintam constrangidas e deixem de tomar a pílula do dia seguinte. Lembro que o aborto em caso de estupro é permitido em nossa legislação.

O fato de tornar crime o auxílio ao aborto visa impedir que profissionais da saúde auxiliem uma vítima de abuso ou até uma mulher que esteja abortando, impedindo que se preserve a vida e saúde da mulher, o que é uma óbvia violação aos direitos humanos.

Acontece que, segundo dados do IPEA, em pesquisa sobre o estupro, “no  mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia.” A Nota Técnica é assinada pelo diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia, Daniel Cerqueira, que fez a apresentação, e pelo técnico de Planejamento e Pesquisa Danilo Santa Cruz Coelho.

Os registros do Sinana demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “Ou seja, os dados de estupro já são fortemente subnotificados porque as mulheres têm medo, vergonha e se culpam ( de algo em que a culpa é só do estuprador, nunca delas, não importa onde estejam ou o que vistam). Imagina se for necessário um exame do IML para receber tratamento médico adequado e gratuito ( como manda nossa Constituição).

Esquece o probo Deputado que nesse atendimento médico, além da possibilidade de administração sim, da pílula do dia seguinte, é ministrado o coquetel Anti-AIDS e de outras doenças venéreas. Deixa a descoberto, de novo, a saúde das mulheres, não digo nem a mental que, por óbvio, já está negligenciada ao tratá-la como culpada e não vítima, mas a saúde física mesmo, pondo em risco inclusive sua vida.

E para completar o erro que significa esse PL, a pílula do dia seguinte nem é considerada abortiva pela comunidade médica:

“O Ministério da Saúde, desde 2013, facilita o acesso à pílula do dia seguinte. Os postos de saúde não exigem mais receita médica para distribuir, gratuitamente, o medicamento desde essa data.”

Porém, o medo de que as mulheres façam uso indevido ou excessivo do medicamento, a proibição pela Igreja Católica e protestante, por considerá-la abortiva, e os tabus que envolvem o sexo dificultam o acesso a informações sobre seu uso correto e disponibilidade.

Os médicos são taxativos ao afirmar que a pílula do dia seguinte não é abortiva. Ela evita ou adia a ovulação, caso ainda não tenha ocorrido, e não deixa formar o endométrio gravídico, a camada que recobre o útero para receber o óvulo fecundado. Assim, a gravidez não ocorre.

Deve ser tomada imediatamente após a relação sexual desprotegida ou até 72 horas depois. Quanto mais depressa a mulher tomar a pílula, mais eficaz ela será.

Segunda pesquisadora Bruna Suruagy, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a missão da bancada evangélica no Congresso “é de preservação, não de criação. Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas, eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manutenção de uma ordem do que de transformação. É uma ação mais combativa, defender uma ordem social hegemônica. Os projetos que estão surgindo são pra fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo, com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização da homofobia – criminalização da heterofobia. São projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer tipo de discriminação de gênero, sexual. (…)

(…) Toda moral é um sistema de controle. A sexualidade é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então, você tem um sistema normativo de controle. É genuíno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína de posições morais que eles querem transferir para a realidade social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não é legítimo é trazer esse discurso para a esfera pública de um Estado laico. “

Sendo assim, nada me impede de pensar que mais uma vez o direito das mulheres, a saúde da mulher, foram usada para fazer cortina de fumaça. Num momento em que o Presidente da Câmara está enfraquecido por denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ligado a Lava-Jato, ele acaba se colocando, de novo, no posto de defensor da moral e dos bons costumes, pros que acreditam nisso e votaram nele.

O caminho a seguir por nós, mulheres, agora , é nos unirmos e botar a boca no trombone, posts, atos nas ruas, petições o que for necessário. No campo jurídico o PL é visto como inconstitucional, pois fere direitos individuais e pode ser objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade, mas melhor não esperar esse último recurso e tentar barrar o PL que ainda vai passar pelo plenário da Câmara e pelo Senado.

silvia

Silvia Badim, nossa musa biscate nos representando nessa luta junto com outras mulheres corajosas.

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