Sala de aula, maternidade e tanta vida pra viver

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

Uma das notícias mais compartilhadas nas redes sociais durante a primeira semana de março foi a do professor da UFRN que censurou a aluna por levar sua filha pequena para a sala de aula. Não vou escrever sobre o que eu acho da sala de aula, se é ou não lugar pra criança: esse não é o tema aqui. Como professora de universidade, já recebi algumas vezes alunas com seus filhos em minhas aulas e nunca tive problemas com isso. Não me recordo nem de ter ficado inquieta com o assunto, embora ache que a creche pública é das coisas mais fundamentais que qualquer sociedade deve prover aos seus cidadãos. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Fiquei foi pensando nessa vida que temos: parir e criar filhos, trabalhar, estudar, e todo o resto. Fiz meu doutorado grávida. Juca nasceu no primeiro ano do curso. Engravidei por escolha própria e sabia que estava topando a tarefa árdua de criar um menino, fazer uma tese e trabalhar (só tive licença parcial do meu trabalho). Tinha condições de financeiras de bancar uma creche, tinha uma trabalhadora doméstica que fazia todo o serviço da casa, minha mãe vinha algumas vezes me dar um help; a boa e velha rede feminina. Eu e o pai do Juca nos separamos quando ele ainda era pequeno, mas o período de guarda compartilhada também contribuiu para desafogar a agenda da semana. Enfim, dadas as condições objetivas, deu pra fazer tese, trabalhar e me dedicar ao filho. Fiquei cansada? Fiquei. Me arrependo? Não. Bem, mas essa sou eu, e eu não sou parâmetro pra nada. Aliás, ninguém é, embora nesse mundo das redes sociais as pessoas tendam a achar que suas vidas privadas são a régua universal.

Nem todo mundo engravida de forma planejada, como advoga a cartilha da maternidade competente. E não é porque as mulheres são desmioladas, há uma série de motivos que podem levar a uma gravidez em um momento da vida que não é considerado ideal. Não pretendo me estender sobre isso aqui. Uma vez mãe, com seu bebê no colo, a vida segue: tem trabalho, tem vida social, tem estudo, tem a pessoa além da mãe. Esse talvez seja o nó da questão. Tem uma pessoa que é mais do que “a mãe de”, está para além da “mãe de”, e vivemos em um mundo onde essa ideia da individualidade da mulher é um obstáculo tremendo. A negação da condição de sujeito da mulher é, no fundo, a raiz do incômodo com as crianças circulando no espaço público. Para ter seu filho consigo em sala de aula, a aluna tem que fazer referência à sua falta de condições para pagar creche ou à ausência de vagas em creche pública, tem que dizer que está sozinha ou que o pai da criança também tem suas obrigações (e ele é, obviamente, considerado um indivíduo pleno, enquanto ela não é), tem que afirmar todas as suas faltas e carências para poder viver para além da maternidade. É um paradoxo, como já dizia Joan Scott, ao lembrar que o feminismo assenta sua história na exigência de afirmação da diferença pra poder conquistar a igualdade.

Nós, mulheres, vamos assim: vivendo nossas vidas paradoxais, testando os limites do que é ser indivíduo no mundo. Precisando marcar a diferença, na luta para sermos vistas como iguais.

  AndreaMoraesNova*Andrea Moraes é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Um bombom no 8 de Março

Por Mary W, Biscate Convidada

Sempre há uma confusão no Dia Internacional da Mulher. Porque, nós, feministas, reclamamos das rosas, bombons, parabéns. E isso parece antipático. E as pessoas não entendem mesmo (ou fingem nao entender).

Não queremos mimos porque não é o caso. Mais do que isso, reforça que nós, mulheres, temos que ser mimadas e cuidadas. E essa visão é machista e hipócrita.

O mundo não “cuida” da gente. Antes, nos exclui de tomada de decisões importantes. A luta pela autonomia econômica e psicológica da mulher é fundamental para que ela não se sinta dependente e inútil quando o casamento acaba, por exemplo.

São inúmeros os casos de mulheres que ficam completamente perdidas na meia-idade com o fim do casamento.

Não gosto também das mensagens publicitárias. Que nos chamam de “guerreiras”. Não quero ser guerreira. Quero viver minha vida com igualdade de direitos. A “guerreira” é aquela que tem dois empregos porque cria os filhos sozinha. Cadê o pai? Tá devendo pensão alimentícia, muito provavelmente. Maternidade como sacrifício é algo a ser combatido. A “guerreira” só existe porque o mundo é desigual.

Da maternidade vêm também as mensagens que contribuem para demonizar nosso direito ao próprio corpo. A gravidez da mulher é assunto coletivo. E o direito ao aborto nosso maior tabu. Essas mensagens visam manter a gente nesse sacrossanto lugar. Da mãe que abre mão de si mesma.

A gente não precisa mesmo de rosa e bombom. Eu compro meus bombons (ou ganho da minha namorada). Não preciso de mimo num dia que é de luta.

Eu quero que chefes parem de me assediar ou de alisar meu ombro em eventos profissionais. Quero poder andar na rua sozinha sem medo de homem. Quero que minha orientação sexual seja respeitada. Quero interromper uma gravidez indesejada. Quero ganhar um salário equivalente aos homens. Quero que as profissões femininas sejam respeitadas. Quero deixar de confundir abuso e ciume com amor.

Quero tudo isso. O bombom pode comer você. Já almocei.

28870551_10156096082799259_6061432163104980992_nMary W é feminista e se isso não é tudo, é tanto. Um jeito de ver, dizer e sentir o mundo. E mudá-lo. Dá pra ler o que ela pensa, no seu blog: link aqui. E pode-se ansiar por uma conversa no bar – é sucesso.

O dia 8 de março e uma certa conivência

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

No dia 8 de março eu gostaria de falar sobre uma palavrinha sobre a qual eu tenho refletido muito: conivência.

O machismo que destrói mulheres e impacta nas vidas delas não é apenas o machismo ativo, do homem que bate, silencia, interrompe, viola, assedia. É também o machismo da conivência.

Os homens tem um privilégio que é muito sutil, que é o privilégio de não se importar com essas violências que impactam as mulheres.

Eles não mandam a piadinha grosseira no whatsapp, mas não reclamam.

Eles vêem o amigo no trabalho roubando ideias, ganhando mais, e não falam nada.

Eles vêem o projeto massa da mulher e não divulgam, porque afinal, aquilo ali não tem a ver com eles.

Eles não entram no grupo de whatsapp da escola do filho para participar da vida escolar, e tudo bem só as mulheres estarem por ali, com toda a carga mental.

Eles sabem do vizinho que agride a companheira, mas “isso é coisa de marido e mulher” e não têm cu de ligar no 190.

Na rodinha do pós-futebol ouvem em silêncio todos os relatos de assédio que os colegas fazem, mas como eles próprios não fazem… pra que se estressar?

Não se posicionam quando rola um debate sobre estupro, assédio e aborto, afinal não é no seu corpo que isso rola.

Tudo que um machista precisa é de um ambiente seguro para se manifestar e que suas crenças sejam reforçadas.

Tá com medinho de perder os amigos? Medinho de ser tachado de mala? A vida das mulheres tem muito de ajustar seus círculos de convívio e afeto para não passar mais por violências.

Nós mulheres não temos a opção de ficar caladinhas. A opção de passar incólumes. Quando a gente silencia é por medo de agressão e sanção social e engole esse sapo emocional que nos corrói. Ou então a gente fala, correndo o risco de ser agredidas, violadas, demitidas, rebaixadas, ridicularizadas, tachadas de chatas, intolerantes, inconvenientes.

Se você, homem, puder fazer alguma coisa para contribuir para a igualdade de gênero, a coisa é essa: não seja conivente com o machismo que você percebe ao seu redor. Mude o clima do ambiente. Divida essa tarefa e essa carga mental, física, espiritual, emocional com as mulheres. Se posicione também. Quem cala consente, sabe? É cúmplice também. Não seja esse cara, para que nós possamos ser as mulheres que podemos e queremos ser.

 renata-corrc3aaa1Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

I, Tonya e o círculo de violência

 Gilson Rosa*, Biscate Convidado

Eu sou uma pessoa dura. Gente mole e sentimental me levam à loucura. Acho que não existe nada que me irrite mais do que pessoas choronas e chorosas. REAGE, CARALHO. Eu nem sempre fui assim. Eu me tornei assim pra sobreviver. Não existia outro caminho. Só esse: trincar os dentes e seguir. A qualquer custo.

27752051_10208752252323393_6224489715683060362_n

Lavona Harding, assim como eu, é uma pessoa dura. Implacável. Ela é o que foi feito dela: Uma sobrevivente. Que sequer apaga o cigarro ao ver o marido e pai de sua filha entrar no carro e dar no pé,  deixando-a sozinha. Lavona nem se lembra mais como chorar ou se lamentar. Ela só trinca os dentes e segue. Lavona é o monstro que vai moldar, formar e ao mesmo tempo destruir e arruinar a grande patinadora Tonya Harding. Lavona tempera a pequena Tonya no fogo e no aço da pobreza, da privação e dos sonhos frustrados onde ela própria foi criada: Não existe lugar pra fracos. Lavona enxerga em Tonya um talento que a pode levar onde ela mesma nunca foi. E tenta por todas as maneiras possíveis torná-la vencedora. Sem se dar conta que essas maneiras implacáveis vão aprisionar a pequena Tonya no mesmo perpétuo círculo de violência e relações abusivas do qual nunca conseguiu se livrar.

27747485_10208752252163389_5947968302806914703_o

Tonya, como boa discípula de Lavona, abre o seu caminho a cotoveladas e pontapés. Na interpretação superlativa e visceral de Margot Robbie, Tonya é um dínamo movido a fúria, raiva, frustração e competitividade prestes a explodir a qualquer momento. Chega a ser irônico que um filme movido a esse tipo de combustão chegue a uma temporada de prêmios marcada pelo protesto das atrizes de Hollywood contra o assédio masculino. Pra Tonya e Lavona o mundo é esse onde elas duelam, se agridem e se machucam tentando fugir do circulo de pobreza, privações, pancadas e abandono dos homens as cercam. Nesse mundo, as roupas pretas do Globo de Ouro não significam nada.

14906864_10205828692916235_6183778969703579956_n* Choro de puta, deus não escuta

Filho pré-adolescente e a hora “daquela” conversa

Semana passada a série Grey’s Anatomy tratou de vários temas relevantes como violência contra a mulher e racismo. Um dos momentos que mais chamou a atenção foi o diálogo de Miranda Bailey e seu marido (médicos, de classe média alta) com seu filho, sobre como se comportar durante uma abordagem policial.

Esta cena motivou a conversa abaixo, entre nossa bisca Vanessa e o biscate-sempre-convidado Maycon:

Vanessa: Uma das características mais marcantes do Mateus, meu filho de 16 anos, além da beleza (hohoho), é a altivez. Ele tem uma desenvoltura pro mundo, uma segurança do seu lugar no mundo, que me emociona de ver. Ele resolve coisas, fala com as pessoas, é seguro, é afetuoso. E anda sempre olhando pra frente. Daí eu vejo o vídeo de Grey’s  (temporada 14, episódio 10)  e fico pensando na contradição que vivemos diariamente, de estimular a auto estima de nossos filhos negros, criando pessoas que não se vergam, com o medo diuturno de que essa altivez os coloque em situações de risco. Porque quanto mais um negro é potente, mais forte é a necessidade de quebrá-lo ao meio, né? É um temor constante que essa mesma segurança que ele demonstra seja não só o que o fortalece, mas também um fator de risco.

Maycon: Oi, eu sou como seu filho. Eu sou essa pessoa segura e afetuosa aí e graças as orixás fui poucas vezes abordado pela polícia e quando fui foi tranquilo até porque eu mantive e calma, falei devagar, não questionei , etc, mas eu tenho sorte, muita sorte e sei disso. Até hoje sinto o incômodo alheio quando chego numa loja ou numa banca pra comprar alguma coisa. Daí eu respiro, fico calmo, falo normalmente. Sou um homem negro, de 1, 85 de altura e como minha mãe diz com ar meio “maloqueiro” , puxei meu pai segundo minha irmã, ando sem camisa na rua, de chinelo, camisa no ombro, etc… Eu sinto um olhar, aquele olhar que não tem como explicar,uma mistura de “será que ele vai me assaltar” com “o que esse cara quer?” e um pouco de “ele é perigoso”. E, de novo, eu respiro, fico calmo, e faço o que tenho que fazer. Em outros espaços, como na universidade, na escola, a minha inteligência me “protegeu” até certo ponto porque sempre fui estudioso, sempre tirei notas, era um dos melhores alunos, mas isso não impede aquela sensação de que você não pertence aquele lugar, algo que só entendi melhor agora – e claro não te protege do bullying que eu sofri durante um bom tempo e que escondi da minha família porque não queria que eles soubessem, porque tinha vergonha e na escola ninguém fez nada. E essas coisas meio que fui descobrindo sozinho, na intuição, dando murro em ponto de faca, porque quando entrei na universidade pela primeira vez foi 12 anos atrás, fui o primeiro da família, não se discutia racismo como se discute hoje e minha família não tinha repertório pra me ajudar a passar pelo o que passei – nunca um racismo implícito, sempre mais sutil – , mas o amor da minha família, o carinho deles é o que me manteve e me mantém firme e forte. É daí que tiro minha segurança. O que quero dizer é ame teu menino, fale mesmo “eu te amo, você é lindo, inteligente” e faça ele se sentir amado e querido porque isso vai ficar nele pelo resto da vida e é daí que ele vai tirar força pra ficar firme e forte porque ele vai encarar um mundo bem cruel e pergunte se está tudo bem na escola ou onde ele for. Deixe claro que ele pode sempre pedir ajuda e que não tem nada errado com ele. Espero que ele, assim como eu, consiga escapar de uma situação mais perigosa com a polícia, que ele não tenha que lidar com os olhares que deixam claro que não é bem-vindo ali e que seja feliz, muito feliz e livre pra ser quem ele queira ser.

O que eu quero quando quero você?

Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Arcano VI do Tarô - Os Amantes. “É preciso saber escolher”

Arcano VI do Tarô – Os Amantes.
“É preciso saber escolher”

Faz alguns anos que um processo se dá em mim quando me apaixono. Não importa mais tanto o que sinto, mas o que eu quero a partir do momento que tomo conhecimento de que sinto por alguém. Pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas para mim é recente. Sempre fui da turma dos passionais. Se me apaixonava não estava nem aí, queria viver loucamente o que estava sentindo e dane-se o resto. Não que isso tenho se alterado, estruturalmente ainda sou assim, mas depois dos desencontros, dos tropeços, de reflexões e de aprendizados mudanças ocorreram. A paixão tem se mostrado cada vez mais como um espelho que reflete sempre uma questão: “O que você quer? ”. E essa questão é sempre o que deixa aquela pulga atrás da orelha, que tira o sono algumas noites. “O que eu quero” talvez seja umas das perguntas mais difíceis de ser respondida porque o desejo ele não é uma verdade já posta, ele também leva tempo.

—————————————————————————————————-

Hoje eu estou apaixonado e estava pensando no rapaz que gosto enquanto ia ao mercado. Estamos em cidades separadas por conta das férias e ás vezes falamos pelo whatsapp, mas  já estava pensando em quando voltar fazer um jantar para esse moço, para nós dois: macarrão, queijo, vinho (duas garrafas), uma barra de chocolate. E daí lembrei, lembrei dele, um ex , um ex com o qual eu aprendi muito das artes do amor. Ele é descendente de italiano, cozinha super bem, tem uma boca gostosa, um olhar safado e um sorriso descarado. Lembrei dele, justamente, porque queria perguntar “como é mesmo que você faz aquele macarrão? ” “Qual o queijo que você usava? ” “ Que hora que é para pôr a salsinha? ” Ou será que era cebolinha? Lembrei disso e ri. Ri e agradeci. Agradeci porque fui amado, desejado, cuidado, seduzido e, claro, machucado, porém pude viver tudo isso. Aprendi sobre as delicadezas do amor, os detalhes do amor, os cheiros, os alimentos, os prazeres e desprazeres. Aprendi que “Maycon, quando você fica bravo parece uma mulher brava”. Aprendi que quando estava tão deprimido, sem saber para onde ir e o que fazer tive alguém que deitou do meu lado e me abraçou, me acolheu, foi meu chão sem hesitar quando tinha perdido completamente as coordenadas de quem eu era ou o que queria. O amor é uma aprendizagem e se conseguimos elaborar os ressentimentos, as dores, as frustrações ficam em nós os gestos de amor que partilhamos. Como uma espécie de receita especial que alguém mais velho da família faz e ensina a alguém mais novo e partir daí vai passando de geração em geração mantendo-se viva. Eu sei amar hoje porque fui amado ontem e quem eu amo hoje amará amanhã. E seguimos amando, machucando, ensinando, aprendendo.

27157542_10215386645726336_1081854125_n

Lembro de uma professora de psicologia que tive que dizia “quando vocês não souberem algo, perguntem a vocês mesmos, em voz alta: o que eu quero? ”. Achava ela ótima, meio louca, mas ótima. Anos depois me pego usando esse conselho porque muitas vezes eu não sei o que quero: Não sei o que eu quero quando quero você. Mas ainda que seja angustiante não saber o que se quer tem um ponto crucial aí nesse não saber e o nome é liberdade. Quando você não sabe, quando o seu desejo não é automaticamente capturado pelas normas, pelo que deve ser, pelos caminhos que deve seguir, pelo modelo que você deve corresponder o único caminho possível é a liberdade. É experimentar, é testar, é tatear. A mesma professora que citei dizia “vão vendo por onde vocês estão caminhando, não botem logo de cara os dois pés. Coloquem primeiro os dedos, sente se dá pé, se está firme, se não der volte, dê um tempo, depois vá de novo ou mude a direção”. Não há a melhor escolha, a mais correta, o que há é a escolha que você tem condições de fazer naquele momento. Tem uma frase bem conhecida entre o pessoal que estuda tarô que é “ A tendência da vida é dar certo”. Se jogue e diga para a pessoa amada: me chame pelo seu nome.

 

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Esperando o avião

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Enquanto espero o avião que me conduzirá à tempestuosa São Paulo, ouço Air Supply cantando breguices maravilhosas e testemunho, mesmerizado, a paquera entre duas moças.

Uma delas tem tranças de índia cherokee e olhar de fingida inocência. Ela não percebe, mas lambe os lábios quando olha na direção da outra moça.

A outra é tão branca que reluz. Como alguém consegue vir a Salvador e retornar tão profundamente branco? Uma prova de que os filtros solares são, de fato, eficientes. Nota mental: pesquisar os lançamentos do mercado. A branquelinha parece não crer que está sendo paquerada. Já olhou pra trás duas vezes, tentando verificar se porventura está entre Pocahontas e seu verdadeiro alvo.

Air Supply canta bem alto, mas só eu consigo ouvir, porque sou educado e uso fones de ouvido:

You know you can’t fool me
I’ve been loving you too long
It started so easy
You want to carry on
CARRY OOON…

O alto falante diz algo que eu não sei o que é, mesmerizado que estou com a cafonice maravilhosa que define meu gosto musical. Pocahontas corre na direção da porta 5, onde se lê

CONGONHAS

Então ela para, parece pensar um pouco, corre de volta para a cafeteria, morde o labio enquanto escreve algo em um papel, corre na direção de uma pasma Branca de Neve, entrega um papel para ela e desaparece na fila de anônimos que vão para

CONGONHAS

Branca de Neve tem a boca aberta, como a de quem acabou de testemunhar um fenômeno. Deve estar se subestimando. Só de olhar pra ela, eu acho perfeitamente compreensivel que alguém queira paquera-la. Ela tem uma cara de pasma constante, e isso é muitíssimo charmoso.

Ela retira o celular da bolsa e ri, enquanto digita algo. Quase certo que está contando o ocorrido para alguém.

Air Supply muda a cantoria, e agora grita

I’m all out of love, I’m so lost without you
I know you were right believing for so long
I’m all out of love, what am I without you
I can’t be too late to say that I was so wrong

Há quem ache feia essa minha mania de ficar prestando atenção em desconhecidos, mas sou desses. Não consigo controlar. Branca de Neve mora em Brasília, vejam só. Voo 3268, PROCEED TO GATE 6. Lá vai ela.

Eu gosto de pensar que elas vão se ver de novo, e por isso fiz um vodu cyberxamanico usando o Google Maps.

Eu de fato acho que há mais amor do que ódio no mundo.

Eu sempre vejo isso em aeroportos. Talvez porque o amor seja uma viagem? Gosto de pensar que sim.

I want you to come back and carry me home
Away from this long lonely nights
I’m reaching for you, are you feeling it too
Does the feeling seem oh so right
And what would you say if I called on you now
And said that I can’t hold on
There’s no easy way, it gets harder each day
Please love me or I’ll be gone, I’ll be gone

 

10429277_10153033445359913_2025333463143611136_nAlexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

O último Rembrandt #3

O Biscate segue com o folhetim que está sendo publicado aos domingos. Aproveitem!

O último Rembrandt

por Maurin Smith (tradução de Isadora Leal)

3. Ser adulto e responsável é uma droga 

Fal2

Nova Iorque, 22 de abril de 2017 – no leilão

17h56

O homem sentado à sua frente no leilão tinha, sem favor algum, em torno de dois metros de altura. Carla jamais entendeu a fascinação que os homens altos exercem na maioria das mulheres. Deus do céu, quem é que consegue manejar um homem desse tamanho na cama? Ela sorriu pensando na tarde que passara ao lado do homem de… o quê? Um metro e sessenta e oito? Um pouco menos? Do alto de seu metro de setenta e nove, Carla achava deliciosos os homens mais baixos do que ela. E aquele cara era… Bom, delicioso nem começava a descrevê-lo.

Voltando ao presente, Carla fez uma careta para a nuca do homem que bloqueava sua visão. Ela não tinha se incomodado com a distância do palco onde o quadro seria exibido. De forma alguma. Estar no mesmo cômodo que aquela obra de arte era o suficiente. E, ainda que de longe, ela a veria. Muito antes e de maneira muito melhor do que poderia apreciá-la depois que fosse comprada. Caso fosse adquirida por algum museu, quem poderia dizer para que canto do globo seria levada? E quando, exatamente, seria exibida? Em dois anos? Cinco? Dez?

Fora que, Deus a ajudasse, se a tela fosse comprada por um colecionador particular, o público poderia passar décadas sem colocar os olhos nela. Bem, talvez nunca o fizesse.

Tudo o que Carla e a humanidade poderiam ter seriam reproduções de maior ou menor qualidade.

Não, não.

O melhor a fazer era vê-la ali. Usando a identidade de sua ex-colega de quarto da faculdade – Safira Khoury, a brilhante filha mais velha de uma próspera família libanesa estabelecida nos Estados Unidos há mais de cinquenta anos e, desde o começo do século XXI, diretora de um modesto museu ao norte do estado de Nova Iorque – Carla tinha conseguido entrar na casa de leilões sem dificuldades. Apesar de muito restrito, o evento não tinha um esquema de segurança que se poderia chamar de rigoroso: eram poucos, bem poucos, os que sabiam o que estava acontecendo no lugar naquela noite.

Depois de garantida a compra, os advogados do espólio que detinham a propriedade provisória do quadro fariam um anúncio em conjunto com a casa de leilões e o novo dono da obra anunciando a incrível descoberta, em meio a outros objetos empoeirados, mas valorosos, resgatados do sótão de uma viúva recém-falecida, a herdeira da dinastia Orange, um dos braços da realeza holandesa.

O plano de Carla era descer do avião, registrar-se no hotel, passar a tarde flanando no Metropolitan matando a saudade e depois correr para o leilão.

Em vez disso, tinha descido do avião, se registrado no hotel e caído nos lençóis do hóspede da suíte 1616 para ser acariciada, chupada e comida como uma garota de faculdade de férias. Sem preocupações, sem ver o tempo passar, sem olhar para o relógio até se dar conta de que tinha menos de uma hora para chegar ao seu compromisso. O 1616 sequer protestara quando ela finalmente deixou a cama, apanhou suas roupas espalhadas pelo quarto e correu para o chuveiro no frenesi de alguém que sai do coma e descobre que está em um ninho de vampiros.

Quando Carla saiu do banheiro vestida e precariamente maquiada, com o cabelo molhado preso em um coque, 1616 estava sentado na cama, fumando. Jesus, aquele era um quarto de fumantes? Se não fosse, o FBI invadiria o lugar a qualquer instante, os americanos eram uns fanáticos.

– Preciso mesmo ir embora. Estou atrasada.

– Coloquei meu cartão no bolso do seu casaco. Mas você sabe onde me encontrar.

Ele sorria. Deus, ele sorria.

Carla balbuciou uma despedida desajeitada e deu as costas para a cama, para enfiar a bolsinha de maquiagem de volta em sua bolsa e apanhar o casaco que jogara horas antes sobre uma das poltronas do quarto. Quando se virou, 1616 estava a poucos centímetros dela. Tomou-a nos braços e a bolsa e o casaco foram para o chão, enquanto ele beijava seu rosto, pescoço e colo, enquanto a língua dele acariciava seus lábios, enquanto ela era tomada pelo mesmo desejo de algumas horas atrás, de se deitar ao lado dele, de morder seu peito e se esquecer do mundo enquanto trepavam mais uma vez.

Estremecendo e se agarrando a um breve instante de lucidez, Carla se soltou dos braços dele, apanhou suas coisas e foi na direção da porta. Ao olhar para trás por um instante, viu 1616 parado no meio do quarto, nu e sorrindo.

(continua no próximo domingo)

Perdeu os primeiros capítulos? Vem com a gente:

O último Rembrandt #1

O último Rembrandt #2

Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do teu prazer!

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Quem me fez soube me fazer eu sou feita do fogo e do azeite de dendê
ponto de pomba-gira

Escrevo esse texto para dizer apenas uma coisa: adoro ser desejado. É isso. A mensagem é essa. Todo o restante do que irei escrever é um retorno a essa afirmação primeira. Gosto quando demonstram tesão por mim, quando querem me pegar, quando me olham com cara de safado, quando ando sem camisa na rua e me olham com aquele cara de quem quer me ver sem a bermuda.

                              ——————————————————————

Lembro da primeira vez que eu fiquei com um cara que eu estava de olho fazia já um tempo, quando fiquei pelado ele me olhou e disse “nossa” e adorei.  Outro dia no aplicativo um cara escreveu “Perola negra. Nossa! Que rei!” e ri e fiquei todo aceso. Adoro quando sentem desejo por mim. Gosto quando chupo um cara e ele se contorce inteiro, quando geme puxando os lençóis louco de tesão. Quando pede mais: mais beijo, mais chupada, mais pau.  Me achar um gostoso, um negão de tirar o chapéu não me ofende, não me diminui. Sabe aquela frase do Paul Valéry “o mais profundo é a pele”? Então, para mim é bem isso. O que vem primeiro é a pele, o olhar, o cheiro, o corpo. Se vai ser só uma noite ou se vai dar  em namoro descubro mais tarde, depois. Primeiro vem o tesão, o prazer, o desejo. Vivo dizendo paras pessoas que sexo é diversão, é prazer, é encontro, é vida. Se não for, pode ser qualquer coisa, menos sexo.

Mais do que um narcisismo descarado o que quero dizer é que gosto de sexo, que ele não me ofende, que se aproximar de mim querendo só sexo – como se fosse necessariamente ruim – não me diminui, não me agride. Essa fala poderia cair facilmente na armadilha racista do negro hipersexualizado, mas não se trata disso. Essa questão não está comigo, está com o outro. Se o outro acha que eu sirvo apenas para sexo, ou pior, se o entendimento do outro é de que sexo é só “isso”, se me vê apenas como um fetiche vazio, se ele olha para o mundo e vê negros como seres que servem unicamente para esse sexo tão limitado, como algo descartável, é um problema sexual dele, não meu. É uma pena que por conta do racismo alguém encare as coisas dessa forma. É ele que reduz as possibilidades da vida. A moral sexual racista define que negros e negras servem apenas para sexo. Apenas para isso. E aí é que está o pulo do gato: essa moral reduz o sexo. Tira dele toda a potência, toda a força, toda a alegria, toda a proximidade, toda a abertura para a vida que o encontro sexual pode possibilitar. E aí sim, quando achatamos a vida, quando fechamos qualquer contato com a diferença, quando limitamos o que as pessoas podem criar, inventar, viver, aí é que elas são objetificadas, limitadas, separadas do que elas nem sabem que podem. E isso eu não quero, não aceito. Eu quero mais. Eu quero é mel.

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

 

Carta para Alice

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Alice,

Você não lerá esta carta, mas os outros a lerão por você. Faz sentido, veja só: a partir de hoje, seu pequeno corpo se espalha pelo mundo, e viaja mais do que eu jamais viajei. Deste modo, apesar de a carta ser dirigida ao seu nome, os outros a lerão. No momento em que a escrevo, o processo de devolução de seu corpo ao mundo já começou, e a matéria que lhe compõe gradualmente volta a ser parte de todas as coisas, então faz sentido que os outros leiam o que é seu. Tem gente que não gosta disso, a gente cresce e é treinado a não gostar, mas é um lance muito mágico: a devolução começa pela terra, espalha-se pelo ar, até que um pouco de você estará nas coisas mais insólitas. De um jeito que a gente olha e pensa: será que tem uma molécula sua naquela planta? Átomos espalhados por um monte de pássaros?

Ninguém jamais saberá onde, e isso não tem a menor importância.

A vida é um sequestro temporário, Alice. A gente sequestra o carbono, o nitrogênio, o hidrogênio, o oxigênio, o fósforo, o enxofre e traços de outras coisas. Nossa constituição não é muito diferente da de um cometa, inclusive mais ou menos na mesma proporção, sabia? A diferença é que nós somos mais ricos: temos o fósforo. Será que é isso que acende a chama da vida? Eu não faço ideia, na verdade ninguém faz, mas a gente gosta de fantasiar que sabe tudo.

[…e escrevemos enciclopédias, criamos religiões, fazemos até guerras por causa disso. A gente é muito criativo – para o bem e para o mal.]

Daí que, um dia, todo mundo tem que se espalhar por aí de novo. E o que a gente era vira um sendo, o presente do indicativo se converte em gerúndio, e – olha só a mágica – a vida se refaz em novas formas. Só sofre quem não consegue enxergar a beleza da mutação. Mas, com o tempo, a maioria de nós aprende a ver.

Veja que coisa, menina: meses atrás, eu entrei em uma loja em Salvador, e comprei o vestido mais bonito que eu vi [eu tenho um gosto meio clássico para vestidos, não repare], pensando que você o usaria em seu aniversário de um ano. Você nunca vai fazer um ano, mas hoje seu pai me disse que você o usará no dia do seu espalhamento. Gostei disso. Nunca que sobrinha minha vai entrar desarrumada no grande salão de festas da Terra, que é o coração de todas as coisas.

E eu imagino você linda 🙂

Um beijo. Espalhe-se. Arrase.

10429277_10153033445359913_2025333463143611136_n

Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

E os namoradinhos?

Por Henrique Marques Samyn, Biscate Convidado

Havendo uma reunião familiar, e havendo nela uma mulher solteira, é provável que surja a pergunta: e os namorados? O motivo da reunião é o menos importante, festejos natalinos, aniversários, bodas de qualquer coisa; fato é que, estando presente alguma mulher que possa ser submetida ao inquérito, em algum momento emergirá a indagação – “e os namorados?” (ou alguma de suas variantes) –, seguida de uma série de outras perguntas, com o propósito de perscrutar a vida íntima da interrogada.  De tão comum, parece normalizado. Questionemos, todavia, o que subjaz à perquirição: por que insistimos em submeter as mulheres solteiras a esse constrangimento?

namoradinhos

Porque a gente insiste que a mulher só pode estar realmente bem se tem um homem ao seu lado. Que mulher poderia ser feliz errando pelo mundo, solitária, sem um homem pra chamar de seu? Mulher – apenas por ser mulher – precisaria de um “dono”: aquele que cuidará dela, a figura protetora responsável por dar um sentido à sua vida (mulher respeitável é a “mulher de”). Na infância e na adolescência, incentiva-se a busca pelo “príncipe encantado”; se esse não aparecer, que haja um plebeu qualquer que possa ocupar o posto – o fundamental é que o homem exista para que a mulher possa ao menos exibir para a sociedade sua vitória na luta para evitar o risco do “encalhe”: nesta lógica, é impossível ser feliz sozinha(ou em algum outro arranjo afetivo-sexual).

Porque a gente insiste que a mulher precisa dar satisfação de sua vida pessoal pra todo mundo: todos parece ter o direito de saber (e o direito de opinar) sobre sua afetividade. É bom que a mulher esteja com alguém – e, se ela está com alguém (alvíssaras!), quem é esse? Como se chama, como a trata, que idade tem, em que trabalha? Fique desde logo estabelecido que, para qualquer dessas questões, não há uma resposta certa: tudo o que disser a mulher poderá ensejar julgamentos e críticas da parte daqueles que, afinal, só querem o seu bem (ainda que suas crenças e princípios possam nada ter a ver com os valores daquela que está sendo interrogada). De todo modo, a vida afetiva da mulher está sempre assim, aberta a escrutínio. Se não há esse alguém, surge outro problema: como se pressupõe que toda mulher está sempre em busca do “príncipe encantado” (ou do plebeu que possa chamar de seu), isso pode sugerir que ela está empenhada nessa busca – e, se de fato o faz, o que está fazendo de seu corpo?

Porque a gente insiste que a vida sexual da mulher não é um assunto que diz respeito somente a ela: ela precisa saber que está sendo vigiada o tempo todo (e que, portanto, qualquer desvio terá consequências). Mulher que é mulher, por esse padrão, tem que se dar ao respeito: nada de “galinhar”, nada de “piranhar”, nada de “biscatear”; seu corpo e sua sexualidade são assuntos coletivos, como sabemos, e portanto todos – especialmente aqueles que, lembremos, querem apenas o seu bem – devem ter pleno conhecimento sobre sua rotina sexual: importa saber com quem ela transa, quanto ela transa e quando ela transa, a fim de que se possa aferir a quantas anda sua respeitabilidade. Que pode esperar da vida uma mulher “rodada”, que ousa desfrutar de sua sexualidade com aquela liberdade que está reservada exclusivamente aos homens? Com certeza vai perdendo pontos na corrida pelo “parceiro da vida inteira”.

Porque a gente insiste que a mulher não pode ter autonomia, nem pleno direito sobre si mesma. O julgamento e a vigilância constante sobre as mulheres são mantidos conforme parâmetros patriarcais perpetuados geração após geração e eventualmente punindo aquelas que têm a audácia de desafiá-los. Não podemos negar: há, sim, as que têm essa coragem. E ainda bem que as há.

henriqueHenrique Marques Samyn: Preto, professor, pró-feminista. Empenhado em fazer do mundo um lugar cada vez pior para o “cidadão de bem”

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...