Meio Dia

Por Xênia Melo, Biscate Convidado

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Muitas coisas me passam pela cabeça. Volta e meia durante o dia me pego refletindo, quando estou a fazer algo do cotidiano, sei lá, escovando os dentes ou respondendo um email, penso quem serão as pessoas a fazer sexo naquele momento? A contingência da vida nos leva a crer que os casais transam à noite. Antes de deitar, depois que os filhos dormem, depois da janta, quando os corpos já cansados da jornada diária resolvem se aproximar, o pé gelado que teima em não aquecer nesses dias de frio. Juntam os casais os corpos à noite. Qual idade tem esses corpos? Gosto de pensar sobre repartir o ordinário da vida, e isso inclui o sexo, inclusive aquele sem muito movimento e emoção, mas que encaixa, até quando a paixão já não é mais tão combustível e dá espaço aos lençóis que há um tempo não aquecem mais. Tem os casais as mais variadas idades, os que acabaram se de conhecer e aqueles que dividem décadas juntos. Quem serão as pessoas que trepam nesse exato momento em que escrevo, em que você lê, será hoje dia de semana?

Tenho pra mim que os amantes se encontram ao meio dia, não sei se li isso em algum lugar, ou se é habitado pela ideia de que os encontros acontecem nos intervalos possíveis do dia, sem mudar a rotina da vida própria. Quantos amantes haveriam hoje na cidade? Onde e como fazem pra se ver? Há quanto tempo desfrutam dessa relação? Me interessa o corpo das outras pessoas, me interessa o que fazem deles. Se estão a se permitir violar costumes, se apenas vivem platonicamente suas paixões, se empurram esse desejo para algo distante.

Era meio dia, e você me esperava fumando um cigarro, eu estava sem comer, mas minha fome era de você, eu sinto o gosto salgado do seu corpo já cansado na minha boca, era disso que tinha fome, de um corpo sem banho que já fez muita coisa pela manhã. Era assim que você aparecia, já sem graça, pedindo desculpas por estar suado. Eu queria na verdade era que você me comesse em público ali mesmo, havia perto uma praça. O dia estava lindo, fazia sol, sua jaqueta era suficiente a evitar que as formigas da grama nos atingissem, não era necessário tirar toda nossa roupa, abaixamos as calças, e você metia em mim sem esperar muito qualquer umidade dos nossos corpos, foi na pressa e seco, ardia, mas havia urgência e receio de que fossemos pegos, debaixo das árvores e do dia que insistia em brilhar. Você gozou, eu não, às vezes me assustava e me excitava a forma bruta que me tratava em alguns momentos. Rapidamente levantou e fechou as calças, me alcançou a mão para levantar. Eu ainda processava a rapidez daquela transa e o ardor do meu corpo. Mas não, isso tudo foi na minha cabeça enquanto esperava você terminar o cigarro e subirmos. Não estamos dispostos a arriscar e perder nossos segredos. De toda forma não tínhamos muito tempo, decidi abrir mão do almoço para que você me comesse, nossa fome era outra.

Na porta você já tirava a minha roupa, mal consegui trancá-la, sequer chegamos no quarto, eu nua, você ainda não, me coloca na mesa e metia ali mesmo, com urgência, sem um único beijo. Eu me assusto com sua pressa, sequer perguntou se eu estava bem, você tinha fome e desejo por mim. Isso me excitava. Minhas pernas doem e amortecem por conta da pressão contra a mesa. Peço para irmos para cama, você me carrega montada no seu pau, me aperta com força contra a parede e continua a meter em pé, profundamente. Me sinto pequena e impotente perto de você, parece contraditório mas eu gosto, gosto de estar à deriva,  gosto que você saiba que sou vulnerável quando estou contigo. Gosto que você decida sobre o sexo, que me surpreenda. Você não precisa de muito, sua presença é o suficiente para que me deixe molhada e excitada, ainda que eu consiga ter atenção a uma infinidade de coisas outras. Quando estamos perto o tesão é sempre presente, e isso é bom. A parede está gelada, e seu corpo ainda vestido é incapaz de me aquecer. Digo que tenho frio e você me carrega para o quarto, me joga na cama sem muito cuidado, e me chupa com a habilidade de quem há muito faz isso. Meu corpo já não mais sente frio, está consumido pelo tesão que de certa forma não sei traduzir. Você não parece nem um pouco interessado em tirar sua roupa, fico pensando se esconde alguma cicatriz, se será só pressa ou distração por estar tão concentrado no meu corpo. Volta a me comer e ergue minhas pernas contra meu peito, vai tão profundamente que sequer consigo gemer, você me ocupa de tal forma que mal consigo respirar. Olha pro seu pau entrando em mim, seu quadril se movimenta com tanta destreza que me chama atenção. Me pergunto como você me sente, se a mim você parece tão grande e delicioso, qual sentimento te ocorre? qual o desejo que minha vagina te provoca? E o meu corpo? Só agora você faz contato visual comigo, já muito suado, sinto seu rosto pingar sobre o meu, sorri, de certa forma envergonhado. Acho excitante isso, o quanto consegue ter consciência corporal mas ao mesmo tempo carregar uma timidez singular. Toca o despertador, parece que o tempo está a nos dar uma rasteira, há ainda muito desejo pra um tempo que já se exauriu. Você apenas fecha seu zíper, me beija o rosto, se despede. Pergunto se não me acompanha num cigarro, pega o que havia acabado de acender, dá um trago, diz que está atrasado para um compromisso. Me beija a boca, diz tchau e deseja uma boa tarde, eu sorrio.  Levanto, como a comida requentada da geladeira, tomo um banho, canto sozinha uma musica desafinada no chuveiro. Penso na cidade e nos amantes que habitam sobre ela.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

O tchauzinho de Mariana

Por Stela Guedes Caputo, Biscate Convidada

Quem viu o debate na terça-feira (18), entre os candidatos à prefeitura do Rio, Freixo e Crivella, teve a oportunidade de presenciar um protesto brilhante. Bem no finzinho, a jornalista Mariana Godoy reage ao comentário do bispo com um simples gesto: fez um “tchau de miss”.

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O protesto de Mariana aconteceu quando, ao se despedir, a apresentadora disse que a transmissão ao vivo do debate era a mais vista no Facebook. “Eu quero agradecer a você, Mariana, Ana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, disse Crivella, refereindo-se às duas apresentadoras.

Por que o gesto, visível para milhões de pessoas na TV, nas redes sociais e multiplicado em memes, gifs e todo tipo de sátira é tão importante? Todas nós mulheres já vivemos essa situação. Preparamos uma aula, uma palestra, um texto, fizemos um cálculo, fabricamos um motor, desenvolvemos uma fórmula, varremos uma rua, lavamos e passamos, tocamos piano, falamos idiomas, publicamos livros, legislamos, ensinamos, aprendemos em aulas. Ao fim, somos vistas por nossos olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos. A depender de como os padrões dessa sociedade machista definem olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos, somos qualificadas e classificadas. Quantas vezes sufocamos diante de uma atitude machista (de todo tipo) quando gostaríamos de devolver a agressão? Quanto mais a relação de poder é apertada, mais sentimos a forca em nosso pescoço e bebemos internas lágrimas, silenciosos desesperos submetidas pelo assédio moral e sexual.

O gesto de Crivella foi bizarro, como foram e são bizarras as condições colonizadoras e patriarcais de nosso país. O colonizador primeiro escravizou mulheres, usando seus corpos, muitas vezes até a morte. O colonizador queria a buceta da mulher e seu útero. A primeira para o gozo sexual. O segundo para o gozo do capital já que era do útero da mulher negra que nascia mais mão de obra escrava para o colonizador branco crescer e multiplicar dinheiro e fúria. Em função desse mesmo patriarcado, as mulheres não podiam ser alfabetizadas, depois não podiam trabalhar, andar na rua sem estar acompanhada, votar, ocupar posições socialmente desenhadas para homens, receber salário igual. A luta para fazer o patriarcado colonial recuar foi imensa e custou a vida de muitas mulheres, sobretudo, a vida de mulheres negras.

Ao ironizar a fala machista de Crivella, Mariana, do seu modo, dentro de gigantescos limites, devolveu, com um gesto, o que todas nós, mulheres, devolvemos com luta na rua, com protestos, com internos prantos, com prantos expostos, com tapas, com processos judiciais, com ampliação de conquistas, direitos. E ainda mandou um “porra”, diante de milhões de pessoas. Sim, nós mulheres podemos dizer palavrões. Mariana rompeu um aprisionamento midiático. Com seu “tchauzinho de miss” mostrou que o projeto colonizador não conseguiu e não conseguirá domesticar nossos corpos. Mariana, do seu modo, se arriscou e, como dizem as novas linguagens facebookeanas: Mariana “mitou”.

Nos chamam feminazis toda vez que enfrentamos homens como Crivella. Não importa. Lutamos porque ainda estão de pé as estruturas patriarcais que sustentam o mundo em que vivemos. E até que essas estruturas sejam demolidas, continuaremos lutando, cada uma de nós a seu modo.

Crivella podia ter agradecido a inteligência e competência das duas apresentadoras. Não fez. Não faria. Um machista não vai além de si mesmo e de seu machismo. Nós, mulheres, vamos além das amarras, da submissão e da misoginia. Não se trata “apenas” de uma eleição municipal. Há MUITO em jogo. #ForaCrivella #ForaMachista#FreixoeLuciana50

14519817_1216963518376464_3496738441427865901_nStela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.

Uma Mensagem de Whatsapp

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Ao meu lado no metrô uma moça loura com blusa azul marinho estampada de gatinhos siameses. Ela segura o celular naquela hesitação típica. No whatsapp apenas um “Oi, tudo bem?” E o nome do homem reinando na parte superior da tela, denunciando o futuro receptor da mensagem.

Ela, polegares para o alto, só senta o dedo para fazer tentativas desajeitadas e para apagar tudo depois. Eu tô com tanta pena, afinal eu já estive ali naquele lugar. Tantas vezes. Essa sensação de tudo ou nada, como se uma mensagem de whatsapp fosse sugar a distância fundamental que existe entre duas pessoas.

Você tem medo da mensagem, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses. Seu cabelo está molhado na nuca, esse ar condicionado vai te piorar a garganta, o mundo está tão triste, o Rio de Janeiro começou a sua descida inevitável ao inferno, mas você usa palavras como “ontem” “eu & você”, “amor”, “importante”, “minha” de forma séria, real e urgente, como se não existissem gatos siameses, garganta inflamada, mundo ou Rio de Janeiro.

Mas talvez a romântica seja eu e a mensagem seja apenas um prêmio de consolação, um fora, uma gentileza ou uma administração. E do outro lado o homem com nome no topo da tela sorria ao receber o fio que irá puxar até trazer a moça loura para si. O fio que deve ser puxado com a medida certa. Se puxarmos com muita delicadeza não se desfazem os nós. E com muita força se destroi a trama construída até aqui. Há de se aprender essa habilidade antes que.

Eu só queria dizer, moça, antes que você desça na Cinelândia, que a paixão só tem lugar para um. Certifique-se moça, tenha certeza, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses, que será você a sentar nesse trono.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

PEC 241: O buraco é mais fundo

Por Luiz Antonio Simas*, Biscate Convidado

O buraco é mais fundo e exige análises não apenas conjunturais (essas são importantes, mas aqui vou me ater a outros aspectos). Baterei de novo numa tecla que me parece uma das chaves do problema brasileiro: a exclusão social no Brasil é um projeto de estado inscrito na nossa História como o mais consistente. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É assim que o racismo opera no campo simbólico.

O problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador e civilizatório das elites do Brasil, continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

Nós somos um país que não conseguiu, como contraponto a isso, universalizar os direitos à educação e saúde públicas como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

O que a PEC 241 faz não é apenas desmontar o estado social brasileiro (ele mal foi montado, afinal). O que ela faz é consolidar o projeto que identifiquei no primeiro parágrafo deste texto e inviabilizar o Brasil como uma possibilidade de país que não seja o fundamentado na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual nunca saímos de fato.

O Brasil não tem exatamente deputados: tem, com exceções que confirmam a regra, senhores de engenho, bandeirantes apresadores, capatazes e capitães do mato que nunca saíram do século XVI e acabam de dizer o que seremos no século XXI.

fotosimas*Luiz Antonio Simas é historiador de formação, macumbeiro por vocação e contador de causos por ofício.

 

Diferenças Irreconciliáveis

Por Tâmara Freire*, Biscate Convidada

Eu fui casada por três anos.

E me separei pelas tais diferenças irreconciliáveis, ou qualquer nome que a gente dá para quando não houve nada além da vida, encaminhando um dos dois, ou ambos pra uma direção diferente.

E hoje voltando do trabalho eu estava cantarolando essa música e lembrando de quando eu fui morar com o Bruno.

A gente alugou uma casa toda engraçada, que não tinha sala (!), não tinha nada. Era um puxadinho, por um preço módico, numa localização nem tão razoável e que vivia uma zona, porque nenhum de nós era muito afeito a trabalhos domésticos.

Os móveis eram simplérrimos, comprados numa loja generalista, passavam longe de qualquer acepção de design. Tínhamos quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres… E um único objeto de decoração: três baianinhas que a gente trouxe de uma viagem à Salvador.

Nessa casa ficamos seis meses. Nessa casa, eu enfrentei as crises de terror noturno de uma criança de um ano e meio. Nessa casa, eu flagrei um flerte na internet e dela saí prometendo nunca voltar. Nessa casa, Miguel firmou seu andar. Nessa casa, eu mudei de emprego, acordava cinco e meia, viajava duas horas pra ir, duas pra voltar, e só voltava nove da noite. Nessa casa, eu me deitava todas as noites dividindo as agruras com um outro alguém. Nessa casa, a gente também brigava, é claro.

E dessa casa, eu saía todos os dias pro trabalho, com essa música tocando a todo volume no carro, “pra energizar”, porque os dias eram sempre foda.

Faz dois anos que eu não sou mais casada e eu não me arrependo nem um minuto por ter tido essa casa, e as outras duas que tivemos, e todas as outras coisas, incluindo a separação.

A vida é feita de ciclos. Só mesmo quem nunca foi casado pra acreditar nessa visão catastrófica de que o fim de um casamento é a decretação de seu fracasso.

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Tâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Pelo direito ao aborto sem drama

O colunista americano Dan Savage é famoso por falar sobre sexo e relacionamentos sem papas na língua. Ele também fala de taras, de política, de humor, de direitos LGBT, de tevê. Gosto demais dele.

Outro dia ele recebeu a carta de uma leitora contando que tinha ficado noiva do cara com quem se relacionava há três anos. Ficou noiva em maio, marcou o casamento pra setembro, decidiram ter um bebê e ela ficou grávida rápido. Só que, papo vai, papo vem, o noivo em julho decide que não quer mais ficar com ela, prefere esperar pra encontrar alguém melhor (oi?) e que ela tem que fazer um aborto. Ela escreve ao Dan e pergunta: isso é normal?

Ele responde que puta-que-o-pariu, não é normal, normal é ter medinho de casar e conversar sobre isso ANTES de engravidar. E segue dizendo que, apesar de ela não ter perguntado a ele sobre o aborto, e apesar de ele não ter um útero e nem um namorado filho da puta, acha que ela deve interromper a gravidez. Porque, mesmo que isso signifique dar ao cara o que ele pediu, ela pelo menos não vai ter que se relacionar com o cara pelos próximos 18 anos.

Aí uns dias depois alguém escreve pra dizer um troço que me chamou a atenção:

Pode dizer a ela que, se ela está na dúvida, a narrativa negativa ganha um peso desmedido. Eu estava com um parceiro que amava e com quem pensei que queria filhos, mas ficar grávida acidentalmente colocou as coisas em perspectiva sobre aquele relacionamento e eu soube que precisava sair, fazer um corte definitivo. Minha preocupação era se, mesmo sabendo que era a coisa certa pra mim, eu seria atacada com “e-se” para o resto da vida. Faz cinco anos e meu aborto foi sem dúvida nenhuma a melhor escolha que eu fiz para a minha vida e eu nunca me arrependi—só sinto alegria e orgulho de ter cuidado de mim quando eu não sabia como aquilo ia funcionar. Eu gostaria que o aborto não fosse tão politizado neste país a ponto de fazer com que seja quase impossível compartilhar uma perspectiva positiva da experiência.

Cara, é tão, tão isso. Claro que tem o sofrer. Tem o estupro, tem as histórias de terror, tem as impossibilidades afetivas e financeiras, tem as ausências masculinas, tem fatalidades biológicas (zika, alguém?). Mas também tem o sim-mas-não-agora, o já-tenho-dois, o quero-viajar, o putz-meu-mestrado, o me-deu-na-telha. Porque as mulheres são pessoas que deveriam poder decidir se e quando devem ter filhos, sem penitência, sem ter que obrigatoriamente contar uma história muito triste para aplacar a culpa judaico-cristã.

A carta dessa segunda leitora tocou tão fundo em mim que me vi compelida a escrever para o Dan Savage contando a minha história. Eu estava em uma terra muito muito distante, em um relacionamento longo e estável mas que obedecia a várias dessas listinhas que se distribuem agora sobre abuso psicológico e verbal, e engravidei sem querer – demos bobeira, com a pílula (eu) e com o coito interrompido (ele). Nesse reino distante o aborto é legal. Fui lá, paguei um preço não-exorbitante numa clínica limpa, com apoio psicológico e todos os exames e medicamentos. Me separei uma semana depois. Faz uma década. No dia mesmo eu pensava: isso é a decisão mais acertada que já tomei na vida. Ele? Chorou, se descabelou, tirou todo o dinheiro da nossa conta, me chantageou dizendo que ia contar tudo aos meus pais, me stalkeou pela cidade onde morávamos e nunca assinou os papeis de que eu precisava. Quando leio no jornal sobre disputas internacionais de guarda, até me arrepio pensando que poderia estar hoje enviando um ser humano de cá pra lá, como uma encomenda, para uma pessoa assim.
 
Vamos prestar atenção ao discurso para não glorificar o sofrimento. Tenhamos a malícia e a esperteza de não validar o discurso de quem quer fazer um bicho de sete cabeças  disso: há um potencial bebê, não um bebê; é um potencial filho, não filho; homens não “abortam”, homens abandonam mulheres. Separar de uma vez por todas o que é luta por direitos, o que é estatística, o que é pressão social e todos os valores religiosos que povoam a conversa. Vamos não ter vergonha de falar que um aborto pode resultar, sim, em felicidade e alívio, e ser vivido como uma experiência relativamente tranquila – dadas as condições ideais para tal. 
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Vento

Por Liliane Gusmão*, Biscate Convidada

No fim de um dia cinza, quente e abafado de inesperados mormaços recifenses, ele surgiu sutil e silencioso como surge o desejo. Derramando-se em carícias atrás das orelhas, em lambidas na nuca que arrepiam a pele, atiçam os bicos dos peitos arrebitados sedentos de outros carinhos.

Desejo que invade, e se aloja naquele canto obscuro no baixo ventre. Começa lá como uma pontada, um peso, uma angustia discreta que se expande, se espalha em ondas descendo por entre as pernas umedecendo languidamente a espera dolorida da incompletude.

Desejo que se fortalece, transborda e se despeja em arrepios pelo corpo em busca de consolo, de satisfação, de gozo. E seja em mãos hábeis, bocas quentes com línguas atrevidas, em brinquedos deliciosos ou na delícia quente de outros corpos. O desejo nos transforma de maré mansa em mar bravio, em maré cheia, em ressacas estrondosas, em ondas explodindo com penachos de água e espuma rasgando o ar ao chocar-se com as pedras do litoral.

E ontem ele chegou assim, de doce brisa quente embalando as folhas nos galhos das árvores transformou-se em trovão e tempestade e caiu sobre nós para aplacar os calores febris de excitação do verão. Caiu em chuva gelada e barulhenta na calha do telhado. Amanheceu em rajadas violentas assobiando sobre as copas das árvores que se dobram, mas teimosas resistem suas ferozes investidas. Afrontam-no como os peitos empinados e mamilos rijos que crescem mais e mais a cada toque.

O vento hoje trouxe com ele a antecipação, como o desejo doce. Trouxe a lembrança e o vislumbre do que vem por aí, e que já está ali dobrando a esquina. Lembrou-me de promessas de delícias envoltas em sombras, texturas cores e cheiros.

Lembrou-me que frente a ele, como ao desejo, podemos nos encolher com medo e esperar que passe, ou podemos impetuosamente desafiá-lo e nos entregar de braços abertos na busca do nosso gozo, nos deixar envolver pelo seu turbulento e poderoso abraço.

Hoje vi se desenhando um presságio deliciosamente dolorido, como o pulsante desejo no ventre. Hoje, escutando as rajadas do vento refrescante e implacável, vi em suas asas a silhueta das sombras e do frescor colorido do outono.

Hoje, sentindo o vento no rosto enquanto olhava as nuvens de chumbo passando apressadas senti a pontada daquela dor feliz e escutei nos sussurros das folhas o canto que não sei se ousarei dizer… Não sei se digo, mas, sinto meus olhos brilhando com a felicidade do reconhecimento, não sei se ousarei dizer essas palavras que jamais imaginei ser capaz de proferir e de reconhecer que, sim, outono querido você vem e está quase aqui, e, sim, senti tanto a sua falta e que, sim, estou com tantas saudades de você!

Liliane*Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 44 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna.

O sonho que não te contarei

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

Cara.

Sonhei com você. Fazia muito tempo que não acontecia. Eu podia mandar um inbox, mas não vou. Não quero meter um “oi sumido” nessa história e a gente acabar contando como nossos filhinhos são fofos e como sim, estamos trabalhando bastante e sim, que-difícil-a-situação-do-País-que-vontade-de-mudar-pro-uruguai-viu? Vi.

Ao invés disso eu vou ser cafona e contar como foi foda, fodimais ter que fazer duzentos e cinquenta e sete reuniões de trabalho com você antes de tomarmos o primeiro café sozinhos, antes de nos tornarmos unhicarne, antes de você vai então também vou, antes do pessoal começar a comentar, antes de parecer bem errado ficarmos tão bem juntos e nós estávamos mesmo tão bem juntos que era impossível não reparar.

Lembra daquela vez em uma festa na Lapa que você só de sacanagem colocou aquele vinil do Al Green, que você sabia que eu amava Al Green mas não contava para ninguém? E a gente já tinha tomado todas as drogas da festa, e eu tive que fingir que estava passando mal pro meu namorado me levar embora, senão, sabe-se lá o que ia acontecer? Pois é. Foi naquele dia que eu decidi que não ia mesmo nada acontecer e que essa era a maneira mais fácil que eu conhecia de para sempre e se fosse para sempre para mim tava bom demais.

Na última vez que nos vimos, duas garotinhas nos viram conversando no banco da praça e vieram perguntar se. Respondemos que não. “Vocês são amigos?” Sim. “E como vocês se conheceram?” (Nossa, como eu não suporto esses projetos escolares alternativos-hipsters que acabam por interferir na vida dos adultos melancólicos). Não sei se é por que as crianças berram, os balanços rangem, os vendedores de pipoca passam, os joelhos sangram, as bundas deslizam nos escorregas, as gangorras revelam as relações de poder mas enquanto você contava dos cafés, do job, de nós dois eu só ouvia que você não deveria ter soltado a minha mão por baixo daquela mesa que eu deveria não ter te deixado em casa depois daquele karaoquê, que você não deveria ser tão bro do meu ex, que a gente deveria ter obedecido Al Green pois o Al Green minha gente, sempre tem razão.

E, né, você deve querer saber do sonho. E sinto te informar que nem no sonho a gente conseguiu trepar, no sonho a gente só parava de fazer política & piada, sendo política & piada o nosso modus operandi e sendo tão fácil nesses tempos falar política & piada para se safar de qualquer situação verdadeira e potencialmente perigosa para umas pessoas como eu e você.

Era assim: a gente via “Made in USA” num cinema na Praça Saens Peña. Por mais Urca que eu use pra me curar, permaneço tijucana, pois tem coisas para as quais não existe remédio mesmo. E toda vez que Paula Nelson era interrompida ao dizer o nome do marido desaparecido era o seu nome que eu esquecia. O mais angustiante e delicioso era saber do seu desprezo solene por Gordard e sua firmeza de propósito de estar ali.

Mas como diria Marianne Faithful “as tears go by” e hoje é o dia em que eu não te contarei tudo isso, hoje será esse dia de fechar essa tampa, riscar o calendário, fazer feira, um almoço gostoso, rir com umas amigas e quem sabe chamar aquele alemãozinho-repórter-das-olimpíadas para tomar umas afinal não sou de ferro e tirando você eu gosto mesmo é de gente fácil.

Eu gosto é de gente fácil e tudo tão difícil durante tanto tempo é um troço que realmente não combina. A gente achou que deixar assim tava bom, que tudo que não acontece tem esse jeitinho de tudo ainda pode acontecer.

Pela minha experiência prévia você vai reaparecer mágico, glorioso, lindo, com tantos dentes enfileirados ofuscando a porra do sol, e eu direi sim para qualquer programa ingênuo e diurno. E falaríamos todos os subtextos do Brasil para confessarmos, sem usar as palavras, o quanto nos amamos e não entendemos que porra deu errado.

Mas dessa vez direi não, mesmo sabendo que pelas condições climáticas de tesão, temperatura, mau hábito, pressão, saudade infernal e direção do vento, seria um dia perfeito para dar de comer aos patos do Parque Guinle.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Por Tâmara, Biscate Convidada

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Amadas. Eu sei que vocês querem se sentir empoderadas quando dizem uma coisa dessas. Querem sentir que têm todo o controle sobre a própria vida e o próprio corpo. Querem pensar que a violência é uma realidade distante. Querem se comprazer com a ilusão de que são diferentes e por isso estão protegidas.

Mas vocês já pararam pra pensar em qual o oposto dessa frase?

Quando eu, com 19 anos, ouvi um namorado dizer que ia dar um tiro na minha cabeça foi porque eu não deixei claro que eu não era uma mulher ameaçavel? E todas as mulheres da minha família, mães dedicadas e esposas abnegadas, que apanharam? Elas deixaram?

Eu sei que é aterrador mas nenhuma de nós está segura em definitivo, não importa quem somos ou o que a gente faça. Isso só vai acontecer quando a cultura da violência misógina for solapada.

Porque você pode apanhar de um homem que era um príncipe até ontem. Ser ameaçada por um ex que foi um ótimo marido. Ser violentada psicologicamente pelo maravilhoso pai dos seus filhos. Ser morta por um estranho que você rejeitou justamente porque pressentiu o perigo.

O pouco de conforto reside no apoio mútuo e na superação. É pra se sentir igual, não pra se diferenciar.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Mortas vivas

Foto da linda série "Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

Foto da linda série “Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

E eu não me permito morrer em vida.

Achando que ser igual é normal.

Ser chata é a regra.

Ser medíocre é opção.

E ser diferente é loucura.

Estou velha, mas viva. Diva. Viva vovó !

O que querem é que a gente vire poste sem luz. Que sirva pro xixi dos cachorros que precisam continuar a demarcar território, mas deixe de satisfazer qualquer  outra função. Deixe de subir no palco da vida e brilhar. Pare de aprender. Chega de procurar !

Como se já não bastasse  o antigamente atrelar a menopausa ao final de vida.

A morte.

Secou.

E portanto está proibida de qualquer outra manifestação sexual e corporal que não seja a depressão, os calores e as mudanças de humor. Ficar velha e decrépita. No way. Acabou. Mudou mesmo.

Claro está  que o ser humano busca sempre a procriação e biologicamente a mulher após a menopausa perde essa capacidade através de seu momento hormonal. Graças!! Delicia!

Prazer não tem nada a ver com fisiologicamente a manutenção da espécie.

Velha não está morta num caixão. Como suas células te dizem, o seu prazer começa na cabeça, que está pouco se lixando pros seus números. Depende de como você a alimenta. Acrescentando dados, cores, vontades, curiosidades.

Não encontrei nenhuma relação com essa subserviência determinada culturalmente ao meu corpo e a minha idade.

Na hora do êxtase, foda-se o número  que você carrega. Você é só uma fêmea. Selvagem. Afinal o corpo é burro e te vê com 30 anos quando você já tem o dobro.

Não tenho tatuagem de data de validade no meu corpo.

Então, vale o  fuk fuk. E gritar no auge. E sentir o calor subindo quando uma boca te chupa com eficiência. E se saber totalmente preenchida pelas sensações que o seu corpo não deixou de sentir.

Crocheteio, tricoteio e cozinho com prazer mas adoro comer um belo espécime também . Fantasiar é o meu carteado. E, no chá das 5, falar do que eu descubro é muito mais prazeroso que falar da atriz de novela garotona e durinha que “consegue” pegar todos !

Até eu, Onofre!

Quero ver ter toda essa bagagem que a minha casca carrega e se jogar na pista.

Bem fazemos os que deixamos o corpo saciado, cansado, suado e a adrenalina a mil.

E ainda damos motivo pras conversas dos mortos vivos em todos os velórios.

Captura de Tela 2016-08-15 às 14.06.36Isabel Dias é uma administradora de 50 e tantos anos que vivia numa cidade do interior até descobrir que seu marido, com quem era casada há 32 anos, tinha outros relacionamentos. Divorciou-se, mudou-se para São Paulo e começou uma jornada de auto-descoberta, narrando num blog (trintaedois.com) sua redescoberta sexual. Os textos foram editados no livro “32 – Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você”. Após a publicação, ela segue dando palestras e se comunicando com mulheres de todas as idades que passam por situações semelhantes.

Sobre morder a língua

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Meninas e meninos, moças e moços, amigas e amigos: mordi a língua. Esse texto vai pras minhas vocês sabem quem. Aquelas que me ouviram madrugadas adentro desfilar o meu banquete de certezinhas entre um e outro gole de chope. Vai para aqueles e aquelas que sabem o quão crítica eu sou nesta vida. Vai pra vocês que já perderam horas a fio me ouvindo reclamar em altíssimo e bom som – apesar da voz cada vez mais rouca – do modus operandis dos casamentos e relações caretas que assolam o planeta. Vocês que já me ouviram questionar zil vezes o fato de tudo neste mundo evoluir, mudar , acabar e ser recriado menos o sistema educacional e as relações estáveis. Enfim, repito pra não pairar nenhuma dúvida, eu mordi a língua.

E pra começar a explicar o inexplicável, reproduzo aqui um parágrafo-desabafo escrito num rascunho qualquer em 07 de Junho de 2016, apenas um mês e pouco antes de encontrar aquele que me faria morder a língua várias vezes em algumas semanas. Segue o parágrafo sem filtro e sem edição.

“Daí eu olho pros casais e volta. E na maioria dos casos, com honrosas exceções, não gosto muito do que vejo. Difícil esse troço de generalizar, mas é tão comum ver por aí umas duplas que nem fazem mais sentido. Ou que fazem sentido de uma forma meio automática de ser.  Que não deixam o outro ser, sei lá, o que ele quiser. Tem o inominável ciúme. Tem a vontade de ver tv enquanto o outro quer ir pra rua. Tem as crias, o quem faz o quê. Tem as famílias de um e de outro. Tem uma sensação pairante de uma certa amarração que dá uma agonia profunda…”

Pois bem, foi em meio a essa agonia, a esse tom professoral, distante e crítico, em meio à quase certeza de que eu não queria mais ser um casal que eu esbarrei nele. Não foi amor à primeira vista, nem à segunda, nem à terceira. Na verdade eu nem lembro a primeira vez que a gente se viu na vida, a gente já se conhecia há um tempão. E agora é tão estranho lembrar de todos esses anos em que eu nem imaginava o tamanho dessa alguma coisa que a gente ia inventar junto. Eu casada com outra pessoa. Ele casado com outra pessoa. Depois, mais adiante, eu separada e ele ainda casado. Recentemente, os dois solteiros, mas até bem pouco tempo sem fazer nenhuma ideia disso tudo.

Pois bem, como diria Chicó, só sei que foi assim. Um dia eu olhei com curiosidade pela primeira vez. E logo ele olhou de volta. Aí mantive o olhar. E ele também manteve acoplado a um sorriso. Pensei, assim como o criador de Chicó já disse certa vez: “Essa alminha quer reza…”. Alguns segundos, nenhuma palavra, frio na barriga mode on. Daí pra isso tudo aqui foi um pulo. Jump cut.

E agora, José? O que a pessoa que nunca mais queria ser um casal na vida faz com as certezas elaboradas e repetidas por anos a fio na hora que vira um casal? Como encarar as amigas parças, confidentes e cúmplices? Como reaprender esse negócio de ser com o outro? Cursinho rápido online alguém?

Das coisas que achei que não eram mais possíveis de ser vividas estão:

  • Vontade de ver todo dia.
  • Falar no tel à la anos 80, por horas a fio (sem a parte do fio) e fazer vozinha (!!!!!!) como bem reparou a amiga fono.
  • Vontade incontrolável de contar pro mundo que isso tudo está acontecendo (o que, vejam bem, estou fazendo agora usando esse texto como desculpa).

Pronto. Só essas três coisinhas já abalam certezas estruturais tais como:

  • Um saco essa obrigação de se ver todo dia.
  • Odeio falar no telefone.
  • Prefiro mil vezes não contar do que contar.

Qualquer um que me conheça um pouco sabe dessas certezas. Só que agora aquelas 3 coisinhas bem clichês lá de cima já destroem a moral de uma alma com tantas convicções. Já viram a vida de cabeça pra baixo. Já remexem de um jeito o avesso da gente que a gente nem sabe mais ser aquela pessoa que moldou e cultivou por anos de sozinhez.

O jeito é reconhecer que não se tem mais certezas. O jeito é rir. E gozar. E tentar aprender. Tentar fazer diferente do que já se fez. Errar erros melhores, como diz o meme. Tentar ser um par sem deixar de ser dois single, únicos, inteiros (ô coisa difícil). Prestar atenção no outro e em si mesma. E, apesar da vontade de se atirar de olhos fechados, tentar ir se segurando, olhando o caminho, pisando devagarinho, ensaiando se misturar sem se perder no meio disso tudo. O jeito é descobrir como encaixar a pessoa, a relação e esse tanto de sentimento que brotou aqui dentro no resto da vida. Ou o resto da vida dentro disso tudo. E saber que a língua será mordida mil vezes mais.

O jeito é escrever uma história nova com trilha sonora original. Simbora.

Morde-se a língua sozinho. E mordisca-se junto.

P.S. Esse texto foi levemente inspirado no incrível Enquanto, da bisca-diva Luciana Nepomuceno. E a foto é uma copiagem descarada mesmo.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Ligações Invisíveis

Por Angela Scott Bueno*, Biscate Convidada

Existem ligações invisíveis entre pessoas que uma vez construídas não se desfazem, sempre lembraremos delas num momento importante, num turning point. Nem sempre tem a ver com laços de parentesco ou amizade, pode até ser que a pessoa que mudou seu rumo, você sequer conheça, oficialmente. Pode ser que sejam pessoas que se encontrem uma única vez, num acontecimento fortuito. Alguém que pediu um cigarro na rua e houve uma troca de olhares – você tem um cigarro? Eu não fumo. E entre estas duas frases, houve uma revelação. Alguém que sentou no mesmo banco de praia que você. Você e aquela pessoa desconhecida, ficaram um tempo olhando o mar, cada uma a seu modo e então ela abriu a bolsa e tirou um livro e era o mesmo livro que mudou sua vida, tempos atrás. Você vê o livro e lembra de ter decidido como queria viver. Ver o livro deu a dimensão do quão distante você foi parar desse desejo. E então, decide voltar. Alguém que olhou para a lua na mesma hora que você. Traçou o mesmo movimento no espaço e no tempo: olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava você. Que olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava o outro. Ali se construiu uma ponte entre lua e humanos e entre humanos e suas existências. Sua vida e a vida daquela pessoa foram transformadas por uma sutil sincronia. Um segundo e a vida te deu a dimensão exata do lugar que ocupa nela. Você afinal é essa pessoa e apenas o que é belo para você – e não importa mais se alguém entenderá, aceitará ou reconhecerá -, é que vai guiar a sua vida. Você não pode mais escapar da sua beleza, da sua lua no céu. Tenho essa fantasia de ter certeza – essa é a fantasia, a certeza, de que nós nunca saberemos quem é que realmente muda o nosso destino. Aparentemente pode ser um grande amor ou a maldade de uma mãe, uma viagem ou a doença de um filho mas aposto mais nesses momentos aonde um humano olha para outro humano, sem defesas, sem resistência, sem expectativas. Seremos apenas corpos de afetos, pegos desprevenidos, vivendo um momento grandioso, numa situação banal. A pessoa que me pediu um cigarro, ao nos olharmos, por imponderável, fez com que eu tivesse contato e afirmasse tudo o que é meu. Um livro MFK Fisher, a forma de ver o mundo de Wyslawa, a voz de Miles, os quadros de Ortner, o vento e as nuvens, não uma árvore mas as pedras, o licor e não o vinho, os pássaros, as baleias, os sonhos de madrepérola, a medida exata do meu desejo. Tudo isso me pertence e eu pertenço a eles e, ao virar à direita na esquina e não à esquerda e encontrar o homem que me pediu o cigarro, de quem eu jamais saberei dos afetos, tive os meus devolvidos quando, sem aviso, nós dois humanos nos reconhecemos claramente. A grande ilusão é achar que nós nos criamos sozinhos e somos independentes: a gente só se revela e só se conhece através do outro. E na mágica desse caldo de acasos que é a existência.

13618214_10206437356320753_420784083_n*Angela Scott Bueno é Floralista e de vez em quando gosta de descrever o que acontece com ela ou o que ela vê na vida, no mundo e nas coisas. Pisciana de raiz, o que a salva é o ascendente em Leão, senão já tinha virado geleia. Não curte discurso excludente, mas curte medicina, dança, música, comida e fotografia e sempre se sente mais em casa com quem é Biscate na vida.

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