O sexo para uma gorda Não-Binária

photogrid_1472221102186Claro que esse texto pode causar muito estranhamento porque, na nossa sociedade, uma mulher não pode apenas gostar de sexo. “Mulheres fazem amor, homens trepam”. Deixa eu te contar dois detalhes: [1] mulheres gostam trepar tanto quanto homens e não, não precisam de um sentimento para fazê-lo, assim como homens não trepam só por tesão, ou seja, vai da pessoa galera, NÃO do gênero. E [2] eu não sou mulher. Mais ainda, esse texto é um relato de como é a vida de uma pessoa que parece ter três “problemas”, no sentido estritamente social do termo, de aceitação/exclusão social. Para mim, nenhuma das três coisas são problemas em si mesmos.

Pois bem, pra começar a conversa, eu sou uma vadia.. O segundo lance é que eu sou gorda (“ai não, você não é”, sou sim, galerê, 105 kg está bom para vocês ou esse termo só é aceito se eu tiver obesidade mórbida?). A última questão  talvez cause um estranhamento de primeira, mas eu sou uma pessoa TRANS NÃO BINÁRIA, mas especificamente AGÊNERA. Que isso? (cara assustada de quem nunca ouviu esse termo) Olha, é simples: não me identifico nem como mulher nem como homem, tenho a configuração corpórea do que é considerado mulher e me visto mesclando a expressão dos gêneros, ou seja, minha expressão é fluida. Eu ainda prefiro ser tratada no feminino, mas se fizerem o oposto eu não ligo não. Complicadinho né? Imagina para mim! Assim, esse relato é sobre como é para uma gorda não binária ser uma vadia e todos as confusões/consequências que isso traz.

Vou partir de princípio que aqui ninguém vai se ofender caso eu use um linguajar chulo (ou vulgar, se preferirem) e que ninguém vai me julgar pela minha identidade de gênero (espero mesmo que isso não aconteça). Entendido isso, acho que agora é bom começar falando o porquê de eu me entender uma vadia.

O sexo (eu não gosto muito de usar essa palavra não) está presente na minha vida antes mesmo de praticá-lo. Até porque eu sou uma dessas pessoas atrasadas que só foi trepar aos 20 e eu nem completei 21 ainda (na verdade, é semana que vem). Lembro de procurar pornografia desde os 12 anos, mas só fui “agir”, digamos, anos depois e entender a “ação” muitos outros a frente. Só sabia que o que eu fazia era considerado errado, parte por ser de família católica e ser ensinada que Deus estava vendo tudo e, de outro lado, por uma das minhas irmãs olhar o histórico do computador e tentar a todo custo descobrir quem estava vendo/fazendo essas “coisas nojentas” (ela nunca teria descoberto que era eu se eu não tivesse contato isso durante uma briga). Isso me bloqueou e eu não conseguia mais nem me tocar por achar errado, imagina deixar outro me tocar.

Aí quando eu estava perto de completar os vinte, eu olhei para mim mesma e disse “você tem que superar isso, libera logo”, mas não, eu não achava ninguém para isso. “É só falta de oportunidade”, dizia, “quando alguém quiser me comer, eu vou dar, sem importar a pessoa”. Rolaram umas duas oportunidades depois disso, a primeira era com um cara que trabalhava num bar  que eu costumava frequentar, mas ele queria me comer no banheiro de lá e claro que eu ia deixar, mas o universo conspirou e eu fui impedida (alguns meses depois eu descobri que isso foi ótimo, pense num cara nojento e grotesco na “cama”); a segunda foi com um menino mais novo que queria muito perder a virgindade também, então ele me chamou para ir na casa dele quando os pais dele viajaram, ou seja, “é tetra, é tetra” e lá se foi meu hímen. Como qualquer uma fiquei deslumbrada (e um pouco confusa, pois já tinha uma parcela de não identificação e jurava que o sexo ia ser a saída, “você só não se entende como mulher, porque ainda não é uma!”, não foi e só piorou), mas ele não quis nada comigo depois e não demorou em me chutar. A partir daí transei, mas transei com todos os caras que queriam antes e também fiz um esquema de ter um cara diferente por mês (e às vezes eram dois caras diferentes), infantil eu sei, mas quando se é atrasada todo modo de recuperar o tempo perdido é valido. ‘Perdi’ quatro meses desse esquema, pois comecei a namorar (trepei muito também e com alguém que me amava, algo que eu nunca tinha sentido até o momento). Não vingou, eu não conseguia me acostumar com único pênis, queria conhecer “de todos tipos, cores e tamanhos” como diria uma tia minha.

Além disso tudo, eu adoro ver sair, em meio a um sorriso malicioso, um “em você só quero dar uns tapas” da boca do cara ou ver os olhos (azuis, nesse caso específico) sendo cobertos pela pálpebra enquanto eu beijo o ‘belo pau delicia’ (como eu chamo o membro, dos caras que eu trepo) do cara e ouvir um “ninguém o tratou tão bem até hoje”. Isso me dá um prazer gigantesco-

Então esse é um resumão, mas é por isso que sei que eu seria considerada vadia e assumo o termo, não me importo em falar o que quero, como gosto, de fazer o que tenho vontade e dar independentemente da situação, local (dentro da lei) e da pessoa.

Parece, assim, que eu dei para c***lho e que sempre foi maravilhoso, mas eu tive muitas situações ruins e agravadas pelo peso e pela identidade. Falando no sentido do “peso”, primeiramente queria contar que eu amo meu corpo e que não, não tenho nenhum problema de saúde decorrente dele, então ele não é realmente um problema para mim. Mas quando se trata de homens e de sexo, aí sim existe, não para mim, para eles. Se de um lado existem caras que não saem comigo pelo meu peso, existem outros que saem por causa dele. Mas aí temos três tipos de homens: os primeiros que gostam do meu peso pelo volume a mais que ele dá na minha bunda e esses geralmente não ligam, realmente, para como ele é, eles gostam; a segunda parcela gosta se não ver de jeito nenhum ele inteiramente descoberto (sim, existem caras babacas que brocham se veem barrigas e estrias), eles gostam de trepar comigo, mas sem ver meu corpo (eu não saio mais com esses caras); e os últimos são os fetichistas, são homens que vem a obesidade como algo excitante, mas sempre precisam reafirmar a sua gordura e usam você somente como um objeto sexual, independentemente de ser você ou outra, sendo gorda está valendo. Eu prefiro os primeiros, que não se importam mesmo com meu corpo e se excitam comigo, sem ser causada ou desfeita por causa do excesso de peso. Mas não se tem muito como saber qual deles o cara que você está é, somente na hora mesmo e aí é tarde demais (“cilada, Bino”).

A não binaridade é uma descoberta recente (lembra da confusão da virgindade, então, ela culminou nisso), mas o que ela me custou após isso foram, até agora, duas coisas: perda de interesse sexual dos meninos para quem contei e o meu brochar diante de homens que me chamam de mulher durante o ato (o que faz com que ele todo seja, em conclusão, ruim). Isso fez com que eu diminuísse um pouco as trepadas e também que não contasse a homens que eu não sou mulher, caso eu soubesse que era “lance de uma noite”.

O não contar é muito problemático e eu entendo isso, mas o contar, cara, é complicado. Primeiro vem o mal entendido comum entre Identidade de gênero e Orientação sexual, ou seja, acham que eu sou lésbica. Depois vem o difícil, conseguir explicar que eu não sou um homem trans, pois a transgeneridade é “aceita” mais facilmente (explicando que as aspas estão ali para lembrar que primeiro ninguém precisa da aceitação de outrem e segundo que eles ainda são excluídos, renegados, marginalizados e que a condição ainda é tratada como patologia) quando está dentro da lógica da binaridade (um homem e uma mulher, independente do corpo de origem).

Mas claro, espero algum dia estar totalmente segura para contar ao mundo e não me importar com que os caras pensam, mas hoje ainda não é esse dia, eu gosto muito de dar e infelizmente só consigo se fizer cisplay (um cosplay de cisgenera). Viver não é bolinho, não tem resposta certa nem saída fácil, eu ainda mascaro problemas e não saí totalmente da lógica normativa. Quem sabe outro dia volto ao clube pra contar mais das experiências sexuais e como venho lidando com esse emaranhado que é ser quem se é ao viver a sexualidade. Pra terminar, foda-se quem cobra sobre seu corpo, foda-se quem cobra sua identidade, não há necessidade de se afirmar para ninguém e se alguém te cobra isso dê um pé, mas bem dado, na bunda dx infeliz. A única pessoa que tem que te aceitar é você e é muito mais prazeroso quando a gente o faz (eu estou em processo ainda, mas disso eu sei).

O “homem que é homem” e uma comemoração

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David Bowie


Ando com dificuldade de compartilhar certas coisas, muito por conta de certos termos generalizantes.Não quero dizer “todos os homens”, porque não são. Não quero dizer “epidemia” de violência contra a mulher, porque não é doença, não é vírus que se pega no ar.

Tenho certo pé atrás com essa questão de que é “cultura”, porque a gente vê dia sim outro também o funk, por exemplo, ser criminalizado por conta dessa questão, e não acho que seja por aí.

Lembro também que a nossa sociedade em que os horrores contra a mulher são comuns é violentíssima também com os homens, justamente no processo de tornarem-se homens. O famigerado “homem que é homem”. Por isso gostei muito de um comentário de amigo, que dizia “temos é que acabar com os homens”. Acredito que seja meio por aí. Não é inerente, não é intrínseco, não é natural: ninguém nasce “homem que é homem”. Torna-se, à base de porrada.

Vi recentemente um documentário muito interessante que se chama “The Mask You Live In” – “A Máscara Em Que Você Vive” – , sobre exatamente isso: a construção do homem a partir da infância. Muito à base da porrada, mas não só. Também à base da desqualificação, da chacota, das ironias, de tudo o que você descobre que é “coisa de mulherzinha”. Cores, gostos, jeitos, trejeitos. Nada disso pode, se você for ser um “homem que é homem”. Se quiser ter o respeito do seu pai, e tantas vezes da sua mãe também.

Dor, sofrimento, caixinhas.

E uma longa estrada a percorrer se a gente quiser desmontar isso, feita de muitos passos. A cada dia. Golpe a golpe, verso a verso, como dizia o poeta.

“Se a gente quiser” não: a gente há de querer. Porque é preciso, é inevitável, é premente. Não dá pra viver com essa máscara mais. Não dá pra aceitar o “homem que é homem”, esse aí a quem ensinam a não chorar, a não ser frágil, a não mostrar medo, insegurança, tristeza.

Coitado do “homem que é homem”.

Longo, longo trajeto. Ainda mais numa sociedade tão entranhadamente machista como é a nossa, em que dizer “coisa de viado” ainda faz tanto parte do dia-a-dia.

Então, há que se aplaudir cada um dos pequenos passos. E por isso aproveito para  comemorar aqui a iniciativa do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, abolindo os uniformes definidos por gênero. Um passo pequeno? Uma festa. Meninos, meninas: calças, saias. Do jeito que quiserem. Usar saia não te faz mais ou menos menino, como usar calça não te faz mais ou menos menina. O que é ser menino? O que é ser menina? O que te define?

Um pequeno passo. Uma fresta. Um espaço aberto. Viva.

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A galera do Pedro II, antes de ser permitido.

Liberdade sexual e Consentimento

Por Raíssa Éris Grimm*, Biscate Convidada

Então, gente…
Liberdade sexual não é sinônimo de compulsoriedade sexual.

Liberdade sexual pode ser sobre você transar com 10 caras se você quiser (se com cada uma dessas pessoas você tiver condições de consentir). Pode ser sobre você não transar com ninguém, se você quiser. Ou com uma pessoa só (se em cada transa com essa pessoa você tiver condições de consentir)

Mas é também sobre entender que a mina que transa com 10 não é pior nem melhor que a mina que não transa com nenhum. E que a mina que transa com 1 só não é melhor, nem pior do que as outras duas.

É entender que o exercício da sexualidade ou o não exercício dela não muda a pessoa que somos. “Santas”, “rodadas”, “certinhas”, “biscates”, “putas”: somos todas mulheres, e simplesmente isso.

É sobre a gente entender que sexualidade (o exercício ou o não exercício dela) não é algo que “suja” ou que “mancha” as mulheres, que não define uma verdade a nosso respeito, ao mesmo tempo que não é uma tarefa “funcional” que devemos cumprir diante da sociedade. Que qualquer exercício ou não exercício da sexualidade deve se pautar no consentimento e NUNCA, nunquinha, deveria ser parâmetro pra qualquer tipo de violência ou punição sobre como queremos viver.

Tanto a mina “rodada”, quanto a mina “certinha” sofrem estigmas na nossa sociedade. O fato é que não importa com quantos você transa, ou se você não transa: nossa sociedade se incomoda com todas as mulheres cuja sexualidade não se submete ao consumo masculino

Situações em que a gente não tem condição pra dizer “não” não são situações de liberdade de modo que a liberdade pra dizer sim PRESSUPÕE a liberdade pra dizer não.

“Mas nessa sociedade as mulheres não são livres”, pois é, verdade, por isso mesmo existe ativismo por isso mesmo existe luta pra TRANSFORMAR essa sociedade.

Se essa liberdade já estivesse dada, a gente não precisaria lutar por ela. Mas a gente vive numa sociedade em que mulheres são violentadas por não quererem transar ao mesmo tempo que violenta mulheres por gostarem de transar fora dos parâmetros que o patriarcado recomenda.

O que nossa sociedade não quer é mulheres donas dos seus corpos.

Então parem com essa de hierarquizar as discussões. A liberdade da mulher que quer transar muito importa tanto quanto a liberdade da mulher que não quer transar. A liberdade da mulher que não quer transar importa tanto quanto a liberdade da mulher que quer transar muito.

Redundante, eu sei. Mas simples assim.

13406813_198429917223746_4983157974029228924_n*Raíssa Éris Grimm massagista, anarcotransfeminista, organizadora da Marcha das Vadias de Florianópolis de 2012 a 2014.

O debate de gênero nas escolas é necessário

Por Matheus Rodrigues*, Biscate Convidado

Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, estudava num colégio católico tradicional aqui de Niterói, me chamaram de gay na sala de aula. A professora, que ouviu, foi mais rápida que eu para esboçar uma reação e disparou em alto e bom tom: e se ele for? o que que tem?

Num primeiro momento não só estranhei, como não gostei da resposta dela. Afinal, como a maioria dos adolescentes gays, eu próprio reprimia a minha sexualidade. Era algo ruim, algo de que eu deveria me envergonhar. Foi assim que aprendi. Hoje essa professora, Mônica Mançur, é uma das pessoas a quem mais sou grato, por ter me ajudado a perceber que eu não tenho que ter vergonha nenhuma de quem eu sou, que quem tem que ter vergonha são aqueles que destilam ódio.

No dia 8 de junho aconteceu a primeira audiência pública na Câmara de Niterói sobre o Plano Municipal de Educação (PME). Se eu disser que foi um show de horrores, vou estar usando um eufemismo muito fraco. Ódio atrás de ódio por parte dos defensores da exclusão, do PME, das metas referentes ao debate de gênero, identidade de gênero e orientação sexual nas escolas.

E por que uso a palavra “ódio”? Porque o PME não vai ensinar as crianças a serem gays. Não vai estimulá-las a mudar de sexo. Não vai ensinar uma criança a chupar o pau de outra, como certo vereador afirmou uma vez. Não vai destruir as famílias. Não vai induzir as crianças à promiscuidade nem acabar com sua inocência. Ao insistirem nessas mentiras, os defensores do combate à tal da “ideologia de gênero” (que sequer existe, o termo nunca foi usado em nenhum documento oficial) deixam bem claro que não é racional a sua objeção à discussão de gênero, diversidade sexual e identidade de gênero nas escolas. Deixam claro que é ódio. Puro e simples. Ódio ao diferente, ao que ousam fugir do padrão do que eles interpretam da leitura de livros de milhares de anos.

O que o PME propõe, e qualquer um que pegar o projeto pra ler vai constatar, é que as escolas comecem a ensinar que não é certo xingar ou bater em uma pessoa só porque ela é diferente. Que todos são iguais em dignidade e direitos. Que as mulheres não são menos capazes que os homens, e muito menos objetos deles. Que não se deve excluir ou ofender alguém só porque essa pessoa é uma mulher que gosta de mulheres ou um homem que gosta de um homem, ou uma mulher que gosta de homens e mulheres, ou um homem que gosta de homens e mulheres, ou ainda uma pessoa que simplesmente não se identifica com o seu sexo biológico. Que o mais importante é o respeito à diversidade, às diferenças. O PME quer que mais professores e professoras façam o que a Mônica fez comigo anos atrás. Nada mais que isso. Tá lá escrito, é só ler.

Mas se mesmo assim vocês continuam a ser contra a discussão de gênero, de diversidade sexual e de identidade de gênero nas escolas, se mesmo assim vocês acham que isso tudo não passa de “doutrinação”, eu gostaria de fazer um pedido: sendo parente, “amigo” ou o que for, me excluam. Não só do Facebook, mas de qualquer relação social ou pessoal que porventura tenhamos.

Vocês também atiraram as pedras que mataram Alexandre João Batista Santiago aos 32 anos em Santa Catarina. Também participaram do estupro coletivo da garota de 16 anos na Praça Seca. Vocês têm nas mãos o sangue do Alexandre Ivo, torturado até a morte aos 14 anos em São Gonçalo por ser gay. Vocês têm nas mãos o sangue do Alex André, espancado até a morte aos 8 anos pelo próprio pai no Rio para aprender a “andar como homem”. Da Amanda Araújo, travesti de 17 anos morta a facadas no Maranhão. Da Elivane Santos de Almeida, morta aos 32 anos pelo marido na frente da filha no Mato Grosso. Do Luís Antônio Martinez Corrêa, morto com nada menos que 107 facadas em 1987. E, se continuar assim, vão ter também o meu. Eu quero é distância de vocês, da sua intolerância, do seu ódio. O que me traz alento é a certeza de que vocês não passarão.

MatheusRodrMatheus Rodrigues é gay, ateu e comunista: só não foi para o inferno ainda porque não acredita no tinhoso. Avesso a todo tipo de grades e muros, acredita que com força e com vontade a felicidade há de se espalhar com toda intensidade.

Aparências

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A gente passa metade do tempo militante lutando para ninguém julgar ninguém pela aparência. E a outra metade julgando e disparando mágoa e animosidade nas pessoas que tem uma determinada aparência.

Não é a existência da pessoa dita bonita que sustenta o padrão de beleza excludente. Não é a existência de alguém que sustenta uma situação estrutural. Ela, no máximo, reproduz. No caso da aparência física, isso nem mesmo é uma opção.

A sustentação da exclusão e marginalização se dá via mecanismos materiais alinhados a um discurso naturalizador. Cobrar posturas individuais, culpa e autoflagelação não muda a estrutura. Nem faz cócegas nela. No máximo satisfaz parcialmente nossa fome de um sofrimento alheio que se equipare ao nosso.

Quando eu era criança, meus pais (?) me ensinaram a prestar atenção quando estou apontando o dedo. É um pra lá, um meio confuso e três pra mim. Bobo, né? E, no entanto. Poucas coisas mais verdadeiras (diferente do “nem escuto a zoada da mutuca”, que é mais a enunciação de uma intenção que de um fato, mas divago).

Eu acho que cheguei estragada para a militância feroz. E para a militância sentida, magoada. E, mais que tudo, para a militância que não se pergunta sobre ela mesma. Coloco (contente) na conta de dois barbudinhos, Freud e Horkheimmer. Eu já escrevi umas mil vezes (mas aprendi também que tem um gozo na repetição) que o caminho é tão importante quanto o local de chegada. Que ele determina o local de chegada. Que temos que nos inquirir sobre nossos processos, nossas motivações, nossas chaves e nossas falhas e nunca, nunquinha, supor os processos, motivações, chaves e falhas internas alheias.

Acho que a gente acabou entendendo errado o negócio do privilégio. Ou fui eu que entendi na contramão, forçando o conceito pra meu horizonte de referências. Eu sempre entendi que privilégio era algo pra gente ir dando conta dos nossos em relação a. Tem duas coisas embutidas aí: o privilégio dos outros não é da minha conta, não sou eu quem tem que apontar, identificar, qualificar, analisar, questionar, whatever, isso porque (aí vem o loutro lance, mais importante) o privilégio (o meu e o de qualquer outro) não é absoluto nem cristalizado. Privilégios são em relação. São forças, dinâmicas. Não rótulos estanques. Ninguém (acho eu) deveria ser “acusado” de um determinado privilégio. Mas, claro, reconheço que eu posso ter forçado o conceito pra poder compartilhar dele. Se não for isso, se rpivilégio é alguma coisa que a pessoa tem, absoluta, definível, identificável a priori e sem contexto, estou desde agora parando de usar e deixando de achar útil na militância.

Sair da modo-culpa-de-funcionamento, seja nossa, seja demandando a alheia, penso que seria um passo importante para uma dinâmica de relacionamentos interpessoais bem mais, na mais superficial das hipóteses, divertida.

Vivemos numa sociedade excludente. Sim. Um dos aspectos em que isso se evidencia é na questão da aparência física. Sim. Nesse quesito unem-se preconceitos vários como racismo, gordofobia, transfobia, preconceito contra deficientes físicos, etc. Sim. Isso fica material na hora de sentar na cadeira do avião, de tirar foto pra documento, de ler uma vaga de emprego que fala em boa aparência? Sim. Isso também aparece na hora que você vai pra balada e sua amiga magra, loira e malhada parece ter mais olhares desejosos do que você, baixinha, gorda e meio índia? Sim. Mas. Enquanto dá pra gente discutir novos tamanhos de cadeira no avião, demandar novos softwares de leitura de imagem e fiscalizar a equidade nos processos seletivos, não tem ação externa que dê conta do desejo (e nem é pra ter mesmo).

O desejo, os afetos, os amores, os relacionamentos, são atravessados por construções sociais? Não. Eles mesmos são construções sociais. Nem por isso são voluntários, domesticáveis, moldáveis conforme a disposição política e militante.

A dinâmica de transformação da realidade social é dialética, vamos mudando o dentro e lutando no fora e ao mudar o fora vamos redimensionando o dentro. Demora? Sim. Vai continuar doendo ir pra balada e não pegar as pessoas todas que a gente nem queria pegar mas queria que quisessem nos pegar? Sim (ou não, vai que a gente aprende também a não ficar olhando o que não tem e aproveitar melhor o beijo na boca disponível). Mas a transformação do quem e como se deseja nunca será por imposição ou vontade consciente.

A única coisa que pode resultar da fiscalização do tesão e dos relacionamentos alheios é moralismo. Imposição. Doutrinação. Culpa. Pecado. Ou seja.

O que a gente pode ir construindo é um território onde os desejos e relacionamentos que não são no “padrão” não sejam ridicularizados, escanteados ou causem temor e vergonha. Isso é um passo. O que a gente pode tentar é desenvolver comportamentos e discursos com menos foco na aparência física. Isso é um passo. O que a gente pode ir fazendo é lutar por representatividade. Outro passo. O que a gente pode ir incentivando é mais generosidade com nossas nomeadas imperfeições, sem esquecer que o lugar de onde essa limitação vem não tem relação com o corpo em si, com o que ele faz e oferece, mas com uma dinâmica que busca criar a insatisfação. Mais um passo. O que a gente pode ir fazendo é lembrar que o mundo que a gente tem de horizonte ainda vai ter esta gente toda que habita neste (a não ser que, mas então nem estamos do mesmo lado da trincheira), eles sendo do jeito que a gente quer ou não. E que a gente não deveria achar que tem o direito de determinar que alguém seja de algum jeito (mas sim que a sociedade funcione de determinada forma).

O que a gente pode ir fazendo é gozar. E deixar gozar. Abrir mão da culpa. Nossa. Do outro. É parar de exigir enquadramento, seja ele qual for. Vamos gozar. O prazer é subversivo.

Além do que se pode ver

Nós temos cinco sentidos. Aprendi na escola, cantando uma musiquinha com coreografia sobre nariz, boca, etc. Claro que não lembro mais da musiquinha e muito menos da coreografia. Sei dos sentidos. Cinco. Mas vivemos em uma era da imagem e, a reboque, o domínio da visão. Uma vez passei uns meses sem nenhum espelho (nem no banheiro, nem na bolsa, nenhunzinho mesmo) e as pessoas ficavam muito impressionadas. Como eu conseguia viver sem me ver?

Ser visto faz parte da construção de nossa subjetividade. É importante. Estrutura. Conseguir se ver também é mais que uma metáfora poderosa. Mas ficar limitado ao que pode ser visto costuma imobilizar. Essa situação se agrava, a meu ver, para as mulheres, a quem se imputa o lugar de enfeite, a demanda de beleza e perfeição estética.

Grande parte das mulheres cresce e vive insatisfeita com seu próprio corpo. Não porque ele lhe prive de alguma experiência específica, mas porque ele nunca parece bom e belo o bastante.  Aprende-se a espreitar com lupa as supostas imperfeições: olha lá a celulite; menina, engravidei agora o peito vai ficar cheio de estrias; gente e essa barriga? essa papada?; não posso mais acenar que balança tudo; olha só estou com cara de velha; alguém sabe um creme pra esconder olheiras? Eu poderia continuar indefinidamente, o corpo feminino parece inesgotável na sua capacidade de estar errado, isso porque nem cheguei em coisas como cor das axilas e plástica na vagina.

E é cada vez mais acessível a fixação desses supostos erros. Bem à mão estão cada vez mais máquinas que nos permitem captar e reproduzir imagens e espaços para cristalizar essas imagens. Filmadoras, máquinas fotográficas, câmeras nos celulares, televisão, youtube, outdoor, favorecendo o escrutínio público e a insatisfação particular.

Como resposta a esse desassossego sobre como nosso corpo (a)parece o que surge é a possibilidade de escamoteamento: sutiãs com enchimento, bundas complementares, cremes que disfarçam, cirurgias plásticas, photoshop. Dicas para tirar fotografias: deixa o braço longe do corpo pra afinar, tira foto de cima pra baixo (ou é de baixo pra cima?) pra não evidenciar o queixo, inclina o tronco não sei pra onde, estica a perna sei lá em que direção.

Eu não estou imune a isso e não é com superioridade que escrevo esse texto. Mas por uma série de fatores que nem vale a pena tentar re-conhecer, eu aprendi algumas coisas sobre meu corpo e a relação com ele que me fazem  bem e decidi partilhar.

Meu convite é pra gente de vez em quando fechar os olhos. Literalmente. Não é um convite do tipo “seja seu próprio padrão de beleza” ou “ame seu corpo” nem nada assim. Sei bem demais que viver é relacional. Que a estrutura garante que quem não se enquadra fique à margem. Que não haja roupa nas lojas, cadeiras nos aviões ou catracas que não constranjam. Que os empregos, os romances, os passeios, tudo pareça um pouquinho mais distante e difícil quando o que vêem de nós é algo que não se submete nem se limita ao que foi definido como aceitável.

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Meu convite é um pequeno convite à subversão. Tomar um banho se ensaboando lentamente, longe do espelho, deixando as mãos descobrirem curvas, veredas, permitindo-se sentir o prazer do toque. Cheirar o próprio pulso, o sovaco, a calcinha. Lamber os dedos. Sentir o gosto do próprio suor. Deitar nua na cama e rolar pra lá e pra cá. Sussurrar seu próprio nome muitas e muitas vezes e usufruir da sua própria voz. Gemer. Gente, gemer é ótimo. Massagear o pé. Comprar um daqueles ganchinhos e coçar suas costas. Passar o dia sem calcinha nem sutiã. Dançar pelada, deixar tudo balançar. Usar os outros sentidos e aprender sobre nós mesmos além do que aparentamos.

Meu convite é que a gente se permita ser conhecida também em braile. Que a gente se permita ser ouvida, lambida, tocada, esfregada, cheirada. Que com esse corpo que é sentido, não só visto, só então, com esse corpo fresco, redescoberto pelos outros sentidos, encostar no outro, esfregar-se no outro, entregar-se pro outro, pros sentidos do outro. E aí, quando estivermos em espelhos, vitrines, fotografias, possamos perceber o corpo não apenas no que ele falha, mas no que ele oferece e proporciona. Em todos os sentidos.

O Herói Homossexual

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Existe uma ideia equivocada quanto às pessoas pertencentes a alguns grupos minoritários no que se adentra à resiliência (principalmente) em sua forma mais complexa.

Não há estudos que comprovem nenhuma característica ligada ao DNA de pessoas homossexuais que define, por exemplo, alguns traços do que, mais tardar, formarão sua personalidade – modelada pelos meios sociais, claro – como paciência, compreensão, resiliência, frieza, racionalidade, didática e empatia. As leis da física quântica se aplicam aqui em sua forma mais simples e, neste caso, desonesta: pra toda ação, existe uma reação. E, desde cedo, somos colocados a teste.

Uma vez que me assumo como homossexual publicamente, pago pelo preço por tal. Pago o preço de um valor incontável e subjetivo [a cada um]. A sensação de que devo é constante: tenho que pagar pelas consequências (negativas) da escolha pela vivência da minha homossexualidade. Devo e sempre deverei explicações de quem sou, do por quê sou (e do por quê não sou). Pago, também, nas humilhações diárias, nos silenciamentos, nas violências, nos direitos negados, nos acessos restritos, na humanidade irreconhecida.

Quando se faz parte de grupos discriminados (e nesse caso, falando somente dos gays), a justificativa do ser e de ser não se corrobora à lógica cartesiana de pensamento claro e de distinção – uma evidência ingênua da epistemologia tradicional. Nesta análise, eu não posso somente ser. Eu vou ser por que (insira aqui qualquer merda). Razão. Qual razão?

Desde que minha homossexualidade se tornou pública a algumas pessoas próximas da família, o discurso vem sempre em um tom que atravessa, entre linhas, a ideia de causa-consequência: “mas você precisa entender o lado dele também”; “você precisa dar tempo a ele”; “você tem que ser paciente, uma hora tudo vai se ajeitar”; “você vai aguentar isso tudo, você é forte”. E isso não se resume as instituições familiares. E quem entende o meu lado?

Eu sou culpado por ser como sou e devo, agora, assumir as responsabilidades por ser quem sou. Neste nível, mais uma vez, as atenções se voltam ao agressor e, como se não bastasse a empatia do mundo para aquele que “lida” com a homossexualidade de um ente (ou qualquer outro tipo de relação), cabe a nós, também, exercitar nossa empatia para com o próximo que nos agride. Não sabemos, quase que diariamente, o que é sofrer violências? Empatia está no nosso sangue, em algum par de cromossomos. Risos irônicos.

A esperança depositada em nós quanto à resiliência também é angustiante. Diariamente, eu preciso ser forte sem que haja sequelas desse enfrentamento e nem uso de outros dispositivos que me mantenham de pé. Faz parte do processo de desconstrução do outro e, com a dignidade já manchada, é dever nosso se manter intacto. Mas e quanto a mim, mesmo? Se eu fraquejar, perco a razão.

A didática no que diz respeito à educação e desconstrução ao que toca nossas vidas também é esperada com ansiedade: temos que explicar, quantas vezes for necessário, a quem quer que seja, que – veja bem – eu também sou gente. Também amo, odeio, fico triste, feliz, tenho dias bons e ruins, como e durmo (e que nada disso se manifesta em função da minha sexualidade), ainda que para os mais tradicionais eu seja um cu a ser preenchido pela maior quantidade de pinto que ali couber.

A minha humanidade, neste ponto já pouco lembrada, é colocada de lado de vez quando, este sujeito estratégico, equipado com características em níveis destoantes do resto mundo, tem que tomar o lugar de quem sou de verdade. Realidade constante.

Acontece que eu já não aguento mais.

Dos sorrisos amarelos que enfeitam o meu rosto e divide seu público entre aqueles que nada têm a ver com meu sofrimento psíquico e psicológico – dado as circunstâncias atuais -, e aqueles que, mesmo ao meu lado, não fazem ideia da dimensão do que a minha realidade significa tão e somente pra mim, me entristeço ao saber que internalizei, depois de anos vividos na prática, a responsabilidade individual pela minha sanidade. “Para de drama, Abdala!”, é o que dizem.

Não demonstro fraqueza, não porque não acredito que não possa ser fraco, mas porque fraqueza se materializou por mais de uma vez durante minha jornada e ninguém se importou. Não quero demonstrar tristeza, não porque não me permito (eu diria que muito pelo contrário, inclusive), mas porque tristeza pontual se trata com ações pontuais, o que não é o meu caso. Não quero me fragilizar mais porque fragilizado eu já estou. Não atravessem a barreira da auto-suficiência e auto-proteção que construí ao longo dos anos; por lá, quero estar só.

Entre perder um pai (simbolicamente), uma casa, uma ceia de Natal e até um sobrenome em nome daquilo que deveria ser somente mais uma característica que me torna um sujeito como qualquer outro, a maior dor fica por conta daquilo que já não consigo mais transformar: a mim mesmo. E com as seqüelas de uma infância conturbada, de um mundo às avessas e uma mente inquieta, internalizei também algo pior: a responsabilidade de fazer o outro ver em mim aquilo que só eu posso enxergar. Paradoxal, portanto, contraditório, eu sei. Mas a este nível, a lógica já nem se faz mais tão necessária.

Eu estou doente. Eu já não consigo lidar, de maneira harmoniosa, com o que a vida tem colocado de obstáculos a serem superados que se corroboram a homofobia destroçada diariamente. Tenho perdido, com o tempo, a capacidade básica de convivência; tornando-me cada vez menos tolerante aos que reproduzem discursos vazios e preconceituosos contra mim ou os iguais a mim, ao passo que também afasto de mim, de certa forma inconscientemente, aqueles que demonstram algum nível maior de simpatia e afeto afinal, enquanto puro processo de construção para um fim, como qualquer outra obra, eu posso ser abruptamente interrompido.

Ergo-me dolorosamente, dia após dia, na certeza de que, para além da materialidade melancólica que minha existência consigo traz, sigo sem o direito à subjetividade, tão importante no meu processo identitário; sobretudo humano.

Termino fazendo das palavras da Daniela Andrade as minhas: “Viver, neste sentido, é preparar-se para estarmos sós, é despedir-se, a cada etapa, de quem muito admirávamos e os quais não poderão permanecer, ou de quem muito pensávamos que admirávamos e se demonstraram independentes da personagem que lhes criamos. […] Vivo no automático, até que por automático saibamos que também é preciso dizer adeus às pessoas com quem cruzamos, com quem convivemos, aos nossos erros e aos erros dos demais. Dizer adeus, inclusive, a nós mesmos, nos permitindo nascer e renascer em uma nova etapa, em uma nova vida, ou quem sabe, para o grande finale. O dia em que, finalmente, saímos de cena”.

Sintomático que isso recaia, em grande parte das vezes, sobre nós.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Toca Sebastiana!

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Na semana passada li um artigo publicado na BBC Brasil sobre masturbação feminina e no quanto isso ainda é tabu na sociedade. Na Suécia até lançaram, em junho, uma campanha para inventar um novo nome para a “autoestimulação genital feminina” (ufa!). O escolhido foi “Klittra”, fusão das palavras “clitóris” e “glitter”, escolhido entre 200 sugestões recebidas pela Associação Sueca para a Educação Sexual.

A ideia da campanha é estimular a igualdade de gêneros. “Segundo um relatório da educadora sexual americana Debby Herbenick, 44% dos homens se masturbavam duas ou três vezes por semana. Entre as mulheres, essa proporção era de apenas 13%. Já um estudo espanhol, realizado em 2009, indicou que era muito maior a parcela dos homens que dizia ter se masturbado no mês anterior à pesquisa do que a de mulheres (46,9% deles contra 4% delas).”

O texto ainda destaca a influência da religião na busca do prazer feminino: “Nascemos com o corpo organizado para sentir, há funções específicas que são ativadas no momento de receber um estímulo agradável (…), mas as normas culturais e religiosas não permitem que as mulheres desfrutem de sua sexualidade na plenitude.”

A matéria não fala especificamente do Brasil, mas sabemos que não é muito diferente. Com a diferença que lá estão lançando campanha. Aqui, a gente continua sem nem falar muito sobre o assunto. Mesmo em grupos de discussão e rodas de conversa, masturbação feminina não costuma ser tema dos mais corriqueiros. Falamos pouco disso, inclusive com nossas melhores amigas.

Pois dialoguemos aqui. E minha maneira de falar sobre o assunto é começando por revelar que, sim, minha gente, eu me masturbo! Antes, preciso dizer que glitter na xoxota não é exatamente meu ideal de estimulação genital. Embora, sei lá, seja até bonitinho. Mas, tô mais é pruma licka licka, mesmo.

Ilustração de "Garota Sirirca"

Ilustração de “Garota Siririca”

E isso não tem nada a ver com insatisfação sexual. Tem a ver comigo e comigo mesma. E não sou muito dos brinquedinhos, não. Me regalo mesmo é com minhas mãos. E com os meus dedos. Principalmente de manhã.

Estímulos eróticos, como contos, me excitam bastante. Em geral, basta um tiquinho de putaria na web pra me deixar ligada. E, não, não tenho 15 anos. Tenho bem mais. Mas, é isso. Continuo facinha, facinha pra me excitar com bobagem sacana da internet. Ai, se meu google falasse! Estamos aí, tocando campainha desde a mais tenra idade. Poderia dizer que me masturbar me acalma, e é verdade. Me desestressa. Também é. Mas, faço é porque é gostoso mesmo. E dá-lhe tocar sanfona de manhã!

Aliás, concordemos que os suecos pensando que inventaram um neologismo com essa “Klittra” e a gente nem precisou de campanha pra criar a siririca! Até fui atrás da origem do nome. Vasculhei por aí e descobri no primeiro blog recomendado que “siririca” poderia ser, na verdade, “um termo técnico usado inicialmente por médicos pesquisadores do assunto, no qual siririca é sigla para Sistema Individual de Recreação Íntima ao Rostir o Indicador no Clitóris e Adjacências.”

Curioso. Mas, né. Rostir. Sei nem como conjugar na primeira pessoa.

Segundo esse mesmo blog, outra explicação é que siririca seria uma onomatopeia, já que o clitóris é conhecido por alguns como “grilo ou grilinho”. “Algumas pessoas acreditam que o som que o grilo (inseto) faz é resultado de um esfregar de patas. Logo, a siririca seria então uma onomatopéia ao som do grilo esfregando.”

Vai ver é por isso que curto tanto. Vivo atrás do cri-cri-cri da roçadinha!

Me dei por satisfeita com essas explicações e nem segui com a busca. Preferi fazer outras coisas com a inspiração. E dá-lhe lapidar a safira! Só discordo do blog quando fala que a palavra siririca é vulgar prum ato que não é. Mas, gente. Não acho uma coisa nem outra. Antes pelo contrário. É até fofa. E, puxa. Que mal tem se a siririca é vulgar? Será que aqui também teremos que criar um neologismo chique pra boa e velha masturbação?

Tem mesmo que chipar duas palavras pras pessoas se livrarem de seus tabus? Qual seria, no caso, usando a sugestão dos suecos? Glitóris?

:-/

Até a siririca precisa ser sexy?! Pois defendo a ideia de deixá-la o mais natural possível. Isso posto, que não seja extraordinária. Que seja mesmo ordinária. Cotidiana. Feliz. Livre.

Porque aqui, nesse blog, a siririca é a verdadeira sororidade!

Conheça mais de Garota Siririca

Pelo tempo de envelhecer

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Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

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Da exigência de respeito à monogamia alheia

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De maneira recorrente vejo apelos para que mulheres não fiquem com homens comprometidos porque isso ia trazer sofrimento para outra mulher. Esse apelo feito em nome do feminismo, sororidade e quetais. Acho que há muita, muita coisa complicada nesse tipo de discurso, mas vou falar só de duas (por exemplo, vou passar ao largo da questão: mulher com mulher a fidelidade é automaticamente garantida? Porque não tem um apelo pra mulheres não ficarem com mulheres comprometidas? A homossexualidade feminina e a bissexualidade foram esquecidas ou mulheres são automaticamente fiéis se estão juntas?).

Mas, dizia eu, vou ficar só em dois pontos. O primeiro deles se refere a uma certa noção do desejo como voluntário. Sim, a forma como o desejo é constituído pode e deve ser problematizada. Os discursos mainstream sobre beleza e atratividade, a estrutura machista que supervaloriza a ação como masculina e implica em uma passividade dita feminina, a cultura que legitima que coisas como crime contra a honra ainda existam no imaginário das pessoas, tudo isso pode e deve ser questionado. Mas isso não significa que o desejo constituído possa (ou deva) ser normatizado. O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações.

O segundo é o próprio horizonte de relações presente nas entrelinhas: a ideia de que a monogamia é um modelo desejável de relacionamento. Ou, pelo menos, de que é um modelo de relacionamento a ser preservado. Parte-se da ideia, nesse apelo, de que todos compactuam dessa visão e desejo (por exemplo, sempre que ficamos com um homem comprometido ferimos nossa própria vontade e sonho de um relacionamento saudável., sim, eu li algo assim). Sem reparar (espero) lança-se o apelo a partir de uma suposição de moralidade comum. Mas e se a gente não tem o anseio por um “relacionamento saudável” ou não deseja que os “relacionamentos sejam saudáveis”? Ou se, mais longe, a gente não tem modelo e cada relacionamento pode ser do jeito que for? Se a gente levar às últimas consequências a ideia de que ninguém pode nem deve definir como alguém exerce sua afetividade e sua sexualidade, nem Igreja, nem Estado nem os parceiros? E se a gente não compactuar com o direito de posse intrínseco à idéia de monogamia?

Eu não. Não à culpa. Não a religiosidade dogmática do discurso pode ou não pode, fode ou não fode. Não às identificações fraternas e suas implicações. Não à conversão. E não, não, não, uma negativa sistemática à noção de que eu ou alguém saibamos o que é melhor pros outros e outras no que se refere ao usufruto do seu próprio corpo.

PS1, Minha questão não é que não existem pessoas que são comprometidas, ficam com outras pessoas E são escrotas. Minha questão é que elas não são escrotas ou sacanas PORQUE ficam com outras pessoas, não é uma relação causal e sim de concomitância (idem para quem é o “terceiro”, não significa que esse terceiro não possa ser um sacana, mas não é sacana porque é o terceiro).

PS2. Não foi intenção desmerecer os sentimentos pessoais. Somos quem podemos ser. A sociedade nos educou pra entender que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque fomos insuficientes de alguma forma. E isso dói. Caso não compremos o discurso da insuficiência tem também a idéia de que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque ela não presta, e isso dói também, como assim escolhemos errado? Então entendo e acolho quem vive como pode viver, se respeitando e ao seu ciúme e tal. Mas entendendo que isso é um jeito próprio e possível de viver bem, não uma bandeira. E que existe a possibilidade de uma vida em sociedade menos dolorida, possível se baseada na separação entre respeito e exclusividade.

Outro

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Conheço esta pessoa faz, pelo menos, 15 anos da minha vida. Parte da minha infância e adolescência foi ao lado de sua família. Frequentei a sua casa, me tornei amigo de sua mãe, vi o irmão mais novo nascer. Cheguei a visitá-lo no hospital quando ele se acidentou andando de bicicleta, na rua onde morava, anos atrás.

Ser LGBT, no senso comum, é inegavelmente ser promiscuo. Carregamos conosco o estigma da libertinagem e perdemos nossa humanidade para dar espaço a corpos abjetos preparados para servir sexualmente ao outro sem que haja a necessidade de envolvimento. Somos seres desalmados que carregam orifícios que precisam ser preenchidos; penetrados. Mais do que isso, que querem ser penetrados, principalmente por um “homem de verdade”.

Homens héteros que procuram por homens gays para sexo casual não são gays encubados. O sexo aqui perde a sua característica enquanto uma relação de mútuo prazer e passa a ser visto como forma de favor e punição.

Na cabeça da grande maioria heterossexual, o público gay carrega consigo o fetichismo e o desejo pelo proibido do homem hétero pela nossa vontade incensante de se relacionar com um “homem de verdade”. Afinal, são eles quem trazem consigo não somente os estereótipos carregados no tocante à virilidade – um dos signos reconhecidos socialmente da masculinidade, mas também são os únicos legítimos para performá-los. Como se todos os homens gays buscassem por homens viris. Como se a virilidade fosse via de regra para a masculinidade e ao tocante sobre o que é ser homem. E, uma vez que gays procuram por homens, logo, eles serão objetos de nosso desejo e só nos realizaremos completamente quando, enfim, nos relacionarmos com eles.

As demonstrações de interesse sexual pela parte dominadora soam como um favor, uma vez que, ao se rebaixarem, eles reafirmam suas posições de privilégio e se colocam nivelados acima. Quando um homem hétero se vê como objeto de desejo de um homem gay, ele reforça sua posição de superioridade e hierarquização social – que aqui se correlaciona diretamente a uma heteronormatividade dentro de seus vários aspectos. É como se estivessem prestando uma gentileza a nós quando se dispõem a se relacionar com a gente.

A punição, por sua vez, vem no que diz respeito a nossa subversão à masculinidade compulsoriamente imposta pelo gênero identificado: ser homem e “ser submisso sexualmente a outro homem” (sic) é papel da mulher. Ferir o orgulho masculino se submetendo a práticas “performadas pelo gênero feminino” (sic) merece castigo.

O sexo punitivo geralmente acontece numa mão única: desde o prazer até os limites da relação terão somente um sujeito na ordem das regras, e sabemos quem é. Não há preocupação com o bem estar do outro, com os limites do outro, com prazer do outro, tudo vai girar em torno do um pinto. “Não era isso que você queria? Não é de pau que você gosta?”, eles dizem.

Eu já perdi a conta de quantas vezes fui abordado por homens casados e que não são gays, mas héteros que procuram em seres “inferiores” a possibilidade de realização dos seus desejos e fetiches sexuais sem que haja o mínimo de respeito no envolvimento. Outro bloqueado pra lista.

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11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Transgeneridade e Subjetividade

Por Bia Pagliarini Bagagli*, Biscate Convidada

Vamos lá: sobre algumas coisas básicas sobre transgeneridade e subjetividade. Ser trans não é sobre ser inequivocamente alguma coisa tal como: ser normativo, “odiar o seu corpo”, e seguir determinadas narrativas rígidas sobre o que se convencionou em certo imaginário social ou senso comum sobre o que é ser trans de “verdade”. Você não “tem que” ser alguma coisa de forma pré definida para ser trans. Você “não tem que” odiar o seu corpo para “ser trans”. Você “não tem que” alguma coisa para “ser trans de ~verdade~”. Você não tem que “se odiar” para ser trans. Ódio a si mesmo em nenhum momento pode servir como base ontológica para “ser trans”. Não compreendemos a questão do “ser trans” através de certos pré requisitos para serem cumpridos. Não existe uma única forma de ser trans. As narrativas são plurais e falhas; falhas em relação a elas mesmas.

Nós pessoas trans tampouco somos meras criações dos discursos normativos sobre o gênero. Nós pessoas trans não nos “resumimos” a um algum tipo de projeto social de gênero que “deu errado” a partir do momento em que você pressupõe algum outro destino moralmente superior ou correto. A existência de pessoas trans não é moeda de troca pra você teorizar acercas de formas subjetivas supostamente mais livres de violência de gênero. Nossas vidas não se reduzem a “algo que deu errado” no sentido deste errado como algo moralmente indesejado ou inequivocamente “sofrido”. Nossas vidas não são moedas de trocas, como se você pudesse , em nome de alguma teoria de libertação, como uma teoria “feminista radical”, colocar a nossa existência como essencialmente indesejada; como se você pudesse desejar o fim de um grupo social em nome da própria libertação e do fim de um suposto sofrimento que nos constituiria. Nós pessoas trans denunciamos este tipo de abuso que tenta camuflar o seu exercício de poder sob um discurso da “verdadeira militância” que supostamente iria às raízes.

Algo deu errado e nós resistimos. A vida de pessoas trans e nossas subjetividades não se resumem à dor. A subjetividade trans não se resume a um ódio a si mesmo que seria condicionado pelas narrativas normativas, pelo exercício do poder como mera negatividade. A norma funciona pela falha, e vivemos a partir desta brecha: as relações de poder são tensionáveis. O nosso erro foi ter a audácia de resistir, de procurar viver no presente, com a total radicalidade que isso implica. A vida de pessoas trans é também potência de vida a partir da resistência. Transgeneridade é também afirmação da vida. A transgeneridade não é produto nem reprodutora de dor e sofrimento a partir de um funcionamento tautológico de uma relação de poder fechada sobre si mesma. As relações de poder são abertas às contradições que as constituem. Por isso, pense duas vezes antes de falar sobre como pessoas trans reproduzem estereótipos de gênero e de como o mundo supostamente seria “melhor” se pessoas trans não existissem. Nossas vidas extrapolam a teoria cisgênera de compreensão do mundo.

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*Beatriz Pagliarini Bagagli é estudante de letras e transfeminista. Acredita que o mundo pode ser mudado pelo transfeminismo

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