Manda Nudes

Texto construído em conversas
com a deliciosa e sabida Patrícia Guedes

Como eu já disse por aqui, gosto muito de ficar nua. Acredito que somos nosso corpo e nosso corpo nos é. Estamos. Assim, conhecer, tocar, percorrer, gozar do próprio corpo me parece caminho interessante a ser percorrido no processo de minha diferenciação, autonomia e prazer de viver. Enfim, pele, suor, saliva, contornos, buracos, texturas, tudo isso me interessa. Não é apenas sobre me sentir ou não bonita, desejável, atraente, whatever, mas sobre sentir-me bem, sentir prazer no corpo, sentir a potência e os limites do meu corpo, ou seja, meus limites e minha potência (o que também inclui sentir-me bonita, desejável, atraente, porque não? Só não se reduz a isso).

Ser gente, hoje, em tempos de capitalismo flexível, é lidar diariamente com estruturas, cultura e discursos de controle do corpo. De forma agravada, quando se é mulher – o bonde do capitalismo segrega e machuca quando agrega machismo (e racismo, homofobia, bifobia, transfobia, capacitismo, gordofobia, etc).  O corpo de uma mulher (concreta, real) está sempre errado frente a uma mitificação do ideal de mulher (abstração branca, magra, cisgênero, sem deficiência, de classe média, etc). São corpos à margem.

Os corpos das mulheres trans*, permanentemente vigiados, condenados ao se ajustarem de forma insuficiente ao ideal feminino, rotulados como “falsos” ou condenados por se ajustarem demasiado e colaborarem para sustentar esse padrão. Os corpos das mulheres negras, reduzidos ao seu grau de exotismo. Os corpos das mulheres que, aparentemente seguindo o “correto”, como malhar, o exacerbam a seu gosto e fogem do esperado. Ah, mas esses corpos nem parecem de mulher. Ué, se o corpo é dela e ela é mulher, logo seu corpo é “de mulher”. (Fragmento de Mulheres: Corpos Sempre Disponíveis, publicado no Blogueiras Feministas)

O corpo de uma mulher é território sobre o qual terceiros pretendem poder legislar, avaliar, rotular, categorizar e dispor. Não por acaso temos os altos índices de violência obstétrica, temos uma legislação punitivista e moralista sobre interrupção da gravidez, temos “argumentos e considerações” sobre o comportamento e roupas de mulheres vítimas de assédio e violência sexual, temos a mitificação da maternidade e o silêncio sobre a ausência de ações coletivas que resulta em culpabilização das mulheres no que se refere ao cuidado de crianças, temos o silêncio cúmplice e indiferente aos altos índices de violência doméstica, temos o assustador número de assassinatos ignorados de travestis e transsexuais. Poderia aumentar – e muito – essa lista, com elementos aparentemente díspares mas que se reúnem sob o selo de um poder externo sobre o corpo das mulheres.

Nesse sentido, uma relação íntima e prazerosa com o corpo me parece vital, provocadora, até revolucionária. Não em uma perspectiva individualista e essencializada, mas uma relação íntima e prazerosa com um corpo concreto, um corpo com contexto, um corpo localizável na geografia, um corpo com gênero, classe social e raça. Não uma relação onde se afirme um corpo e uma leitura do corpo próxima do aceitável, mas justamente uma relação “errante”, que se constitui no gozo de ir onde o corpo vai e não levar o corpo a algum lugar pré-determinado. De outro modo, uma relação íntima e prazerosa com o irrepetível do corpo, com a particularidade do nosso desejo, com o que escapa. Não é negar o que nos falta, mas acolher a ruptura, a ausência, festejar a diversidade, a alteridade de cada corpo (e, assim, de cada sujeito). Alteridade que só faz sentido, justamente, na localização além desse corpo único, na classe, raça, local, gênero que o compreende.

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Esse preâmbulo todo é pra falar de nudes. Esses dias uma revista dessas famosas e tal convidou as mulheres a mandarem nudes sem identificação (sem rosto, mais exatamente) para serem publicados na próxima edição. Não se trata de julgar os nudes que serão feitos e enviados. As ações individuais das mulheres não serão, por mim, rotuladas, questionadas ou qualquer coisa nesse sentido. Mas isso não implica abdicar de tentar compreender e discutir como a convocação da revista é operada, a partir de que lugar discursivo e com que implicações. Euzinha considero essa convocação completamente irresponsável. Dependendo do momento, utilizo até adjetivos mais fortes. Sob o discurso de um suposto empoderamento, rasteja a mais completa falta de noção ou uma escrotidão quase indefinível. É inconsequente, para dizer o mínimo. Ficando só no óbvio, como a revista vai proteger mulheres de terem suas fotos nuas, feitas em momentos de intimidade e sem esse propósito, enviadas por terceiros? Como assegurar que apenas mulheres maiores de idade enviarão os registros fotográficos? Que critérios serão usados para selecionar as fotos? Os corpos “não-convencionais”, usualmente cosiderados abjetos, ignorados e silenciados, os corpos das mulheres gordas, negras, trans, esses corpos serão igualmente acolhidos?

E eu fiquei especialmente matutando o lance dos nudes serem solicitados “sem cabeça”. Na primeira leitura pode parecer que é para proteger a privacidade da mulher – e em parte opera assim, mas não garante, o cenário pode ser igualmente revelador, mas divago. Porém me parece que há algo que age para além da garantia de privacidade. Fiquei com perguntas. Se o objetivo alegado é o tal empoderamento, como acontece se a pessoa se apaga, se desindividualiza, se esconde? Não seria o caso de posar com nome, sobrenome e riso solto? Reconheço que minha reflexão parte de um lugar de privilégio, de poder mostrar o corpo se e quando eu quero sem (muitas) represálias. Mas não seria o caso de agir no sentido de construir uma sociedade em que esse privilégio não fosse o que é e não apagar o problema, descartando os rostos e identidades?

Não sou contra nudes (nem precisaria dizer, mas, né, só pra garantir). Não acho que fazer nudes é uma burrice inconsequente que só serve pros homens se excitarem – como vi repetido por algumas pessoas (o que, aliás, revela um pensamento bem heteronormativo, afinal apaga que há mulheres que se excitam com outras mulheres). Considero que o nude pode ser uma ferramenta útil nesse processo de construir uma relação íntima e prazerosa com nosso corpo. Assim como a masturbação, andar nua pela casa, olhar-se no espelho na hora do banho, ir a uma praia de nudismo, experiências várias que permitam uma aproximação da gente com a gente mesma. Mas como qualquer instrumento, o nude se localiza não no vácuo, mas em um processo sócio-cultural multideterminado. Como qualquer instrumento ou ferramenta, ele não é em si mesmo, mas opera ao ser operado.

Em uma conversa no FB, ainda hoje, aprendi um bocado sobre como o nude pode ser valioso para pessoas, para mulheres, que tem seu corpo vistos como abjetos, não-desejáveis nem desejantes. O nude permite, para além dos outros exemplos que dei, um certo controle do sujeito sobre o próprio corpo, um controle originado não do exterior como a maior parte dos controles a que nossos corpos são submetidos, mas uma determinação sobre como se vai ser visto. O que o sujeito deseja re-velar (mostrar para esconder, esse jogo de sombras e ausências que nos permite ser) é o que a fotografia oferece.  O nude convida o olhar do outro, entrega-se supostamente ao crivo alheio, mas, concomitantemente, seleciona o que vai ser visto, dando uma certa margem de conforto. Mesmo que o nude seja para ser visto pela própria pessoa (um self-nude?) o olhar que temos sobre nosso próprio corpo nu é um olhar Outro, mediato, um olhar no só-depois.  Afinal, o corpo registrado no nude não é mais o corpo, mas uma representação não só do corpo, mas de um discurso que o registro incorpora. Para as pessoas que tem seu corpo diariamente avaliado para além do seu desejo e controle, esse poder é, repito, valioso.

René Magritte La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe) (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929 Oil on canvas 23 3/4 x 31 15/16 x 1 in. (60.33 x 81.12 x 2.54 cm) Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, California, U.S.A. © Charly Herscovici -– ADAGP - ARS, 2013 Photograph: Digital Image © 2013 Museum Associates/LACMA,Licensed by Art Resource, NY

René Magritte – La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe)                                                         (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929

Então, eu podia terminar esse texto falando que existe um nude certo, um nude de raiz, um nude arte, um nude moleque. Mas não vou. Não vou dizer que o nude convocado pela revista será, necessariamente, alienante. Ué, para alguém (ou alguéns) pode ser um montão de coisa, divertido, empolgante, excitante e, até, elemento de autonomia e responsabilização pelo desejo. Não tem norma, não tem forma. O sentido da experiência quem vai dar é o próprio sujeito, cada mulher que enviar – ou não – sua fotografia. Cada qual no seu desnudar-se, cada corpo no seu revelar-se, cada desejante responsável pelo seu desejo. Mas o significado (beijos, Vigotsky) da convocação da revista e da publicação das fotos, esse tendo a considerar como mais do mesmo no que tange a corpos femininos anonimizados, descaso pelas implicações na vida das mulheres e tendência a uma certa mercantilização e domesticação dos corpos revertida em capital.

Meu desejo é que esse território explorado, que é o corpo feminino, se insurja cada vez mais. Em nudez, em riso, em gozo. Que opere a contradição e que subvertamos a ordem. Que os corpos errados não se tornem certos, mas que reconheçamos a beleza do inesperado. Que novos significados possam ser construídos, a partir de sentidos outros, diversos, indomáveis. Que a materialidade dos corpos, suas fomes, suores, fluidos, fragilidades e potência entrem na dança e na luta, corpos que existem, que demandam, que sofrem e sentem e gozam. Bora nessa, sem precisar de validação de revista, um dois, três: todo mundo nu! YAY!

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Amor pra que (m)?

Por Vinícius Abdala*, Biscate Convidado

Eu não me lembro quando foi a primeira vez que percebi no olhar dos meus pais, sobretudo o da minha mãe, que eu jamais seria tudo aquilo que eles esperavam que eu fosse por ter sido identificado como menino ainda durante a gestação. Me lembro, contudo, das vezes que meus comportamentos foram motivos de castigos físicos, minhas vontades e desejos motivos de chacota e meus sonhos motivos de deboche. Tudo em nome de uma masculinidade e ao tocante sobre “o que é ser homem” numa sociedade machista e patriarcal.

Na época, claro, não percebia que configurações de famílias serviam – e servem até hoje – para vigiar e punir comportamentos não normativos e, para além disso, disseminar essa (des)educação para frente. Com a pouca idade somada à educação nada transgressora nos ensinos formais de educação, o tempo era meu pior inimigo; quanto mais se passava, mais culpado me sentia. Espero que um dia minha irmã mais nova me perdoe e entenda que todas as reproduções de preconceitos e opressões que dirigi a ela foram, talvez, as válvulas de escape que usei para lidar com todas estas situações.

Lembro-me das vezes que envergonhei meus pais por dançar É O Tchan (sendo a Carla Perez, óbvio) aos sete anos de idade durante a ceia de Natal, das vezes que cantava mais fino para parecer com a voz da Sandy, das coreografias da Britney Spears aprendidas vendo seus DVDs incansáveis vezes ou simplesmente pelo vocabulário um pouco mais rebuscado que fazia questão de usar para que nunca me associassem aos homens héteros que repetiam sempre gírias como “qualé”, “coé”, “mano”, “véi”, “zuêra” entre outros.

Foi gradativo o entendimento de que amor não é inerente ao ser humano, mesmo quando a gente cresce sendo forçado a acreditar que amor de família – principalmente materno – é o único amor verdadeiro que você sempre vai ter. Aos poucos, fui entendendo que amor é construído e tem que ser conquistado, e quando o mundo prefere te silenciar e negar a sua existência, o amor se torna privilégio. É preciso constantemente provar que, ainda que todos em volta façam de você uma piada constante, você é um ser humano e tem as mesmas necessidades básicas que todos os outros.

Amor não é oferecido de graça. Pelo menos pra mim não foi. Fui ridicularizado por muitos que diziam me amar. Já chorei escondido em banheiro de bar porque amigos resolveram rir da minha sobrancelha mais “feminina”. Já fui impedido de sair de casa usando tal roupa porque não queriam ser vistos em minha companhia vestido “daquele jeito”. Já fui patologizado pela ciência, demonificado pela religião e ainda sou rejeitado pela sociedade. Eu já nasci sem o direito de resposta.

Das vezes que meu pai me levou forçado ao barbeiro para cortar o cabelo bem curto (sempre quis ter cabelo grande) ou das vezes que repreendido por “desmunhecar” demais, nunca uma mão fora estendida para que amenizar as constantes agressões que sofria a todo o tempo, em todos os ambientes que passei.

Eu já rezei o terço de joelhos de portas trancadas pedindo a Deus para ter câncer e morrer logo, pensei em suicídio inúmeras vezes por saber que não ia dar conta dessa cruel realidade construída em cima de interesses e discriminações ao qual nós, minorias sociais, vivemos 24 horas por dia. Passei, inclusive, todas estas noites chorando abafado no travesseiro, afinal, “homem não chora”.

A máscara da imunidade começa a aparecer e a falsa ideia de que você é auto-suficiente precisa prevalecer. A vida de humilhação e desprezo cansa. Estar sempre nivelado abaixo do resto do mundo não soa somente injusto, é desumano. Agir com os outros como agem constantemente com você não parece ser tão errado assim a certo nível.

Com o tempo, muito em função de uma pessoa em especial e a Psicologia, percebi, contudo, que amor é oferecido de maneiras distintas e, mais do que isso, ele pode não vir da forma como esperamos que ele venha. Ele não deixa de ser privilégio; continuamos a ter que provar nossa condição humana dia após dia, já que muitos insistam em esquecer.

Passei uma vida não me sentindo suficiente para ninguém, sempre estranho, feio e sempre menos e/ou menor do que qualquer pessoa que se propunha a estar comigo. Continuo, até hoje por exemplo, sem entender o que as pessoas veem em mim. A insegurança, timidez (para alguns pontos) e solidão sempre caminharam de mãos dadas comigo ao longo do meu percurso. A baixa auto-estima, oriunda de uma história de vida cheia de momentos onde fui negado em público, rejeitado ou mesmo “trocado” por pessoas que atendem a um padrão pré-estabelecido de comportamento e forma, sempre esteve presente. Inclusive, essa nova imposição do que se diz “amor livre” não me soa nada novo. Trabalhar o ciúmes como mera questão de posse e não algo que deve ser superado num processo de autorreconhecimento e emancipação me soa, de novo, como mais do mesmo.

Percebo, enfim, que não importa aonde eu chegue, que diferença eu faço ou que tipo de ser humano tenho me tornado, vou sempre carregar o fardo comigo de que nunca supri ou suprirei expectativas sendo o único homem numa casa de três irmãos.

Ainda assim, mesmo que depois de muitos altos e baixos, me sinto empoderado para ser quem sou sem a permissão de ninguém, ainda que isso tenha me condenado à solidão. Tenho tentado agora direcionar meu amor a mim mesmo, sem alterar absolutamente nada do que sou ou quero ser em função dos outros. É a tarefa mais importante e difícil que vivo atualmente.

Pra quem chegou até aqui, quero direcionar tudo isso àqueles que, como eu, passam e/ou passaram pelo que vivi e se viram sem chão. Quero poder fazer a diferença na vida de um ou um milhão no que diz respeito a auto-valorização, ao auto-respeito, e, acima de tudo, ao amor próprio. Quero justificar esse relato aos que me questionam sobre meus posicionamentos radicais quanto ao “poliamor” e, não menos, mostrar ao mundo que eu existo e resisto, mesmo num mundo que insiste em dizer que eu não deveria estar aqui sendo quem sou, da forma que sou.

Por fim, quero um dia poder fazer um relato, do mesmo tamanho e na mesma intensidade dos dias que me fizeram sorrir até cansar. Nunca pediram para que eu nascesse, mas também nunca pedi para estar aqui. Que não seja em vão, portanto.

Ps: a nível de curiosidade, eu amo meus pais, hoje em dia convivemos melhor e se cabe a mim perdoá-los por alguma coisa, o perdão está dado.

11944848_10207979992277025_1711212466_n*Vinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé.

O tesão platônico

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

O popularesco colunista reaça que escreve em blogs com bic duas cores criticou uma recente charge da deliciosa Laerte Coutinho. Mas aqui vale a máxima: Laerte é nossa diva e nada nos faltará. E assim foi feito. Laerte declarou publicamente seu tesão platônico em relação ao colunista reaça. E quem aí nunca teve tesão platônico, né minha gente? Quem aí não guarda nos átomos do corpo aquele desejo de desnudar quem deveríamos desprezar, não é mesmo?

Sobre o Reinaldo Azevedo.
Acho que eu não devia dizer o que vou dizer, mas minha advogada opinou que não vai gerar ação na justiça. E minha analista deu força, pra botar pra fora senão somatiza e piora a situação das varizes.
Então lá vai – esse cara me dá um tesão desgraçado.
Não sei o que é – tá, ele não é um ogro -; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei!
Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais.
Vou acabar tendo que depilar a mão com cera espanhola.
Acho que eu tenho síndrome de Estocolmo platônica.

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Tesão é desejo. E muitas vezes inexplicável. Aquela sensação de simplesmente encontrar alguém capaz de acender algo diferente, gostoso, um requeijão cremoso a mais na vida. As vezes não dura muito, as vezes dura a vida toda, especialmente quando se é platônico, alimentado com carinho e pão de mel.

Porém, quando falamos de alguém que age e pensa de forma contrária ao que acreditamos, ao que temos como ideal e buscamos ser, surge sempre a dúvida: biscate com princípios ou não? Relevamos em favor do tesão? Esquecemos em favor da revolução? Aquecemos com mãos solitárias no calor do colchão? Infelizmente não há resposta fácil quando o assunto é desejo, tesão ou direito tributário. Todos temos nossas prioridades, sentimentos e taxas pra colocar na mesa. A melhor parte pode ser reconhecê-las. Assim como fez Laerte, também quero botar pra fora o que alimenta meus pensamentos mais proibidos…

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

Das réguas de que não preciso

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Em um clínico geral do SUS…

Residente – Só exame de rotina mesmo?
Eu: – É, eu faço uma vez por ano, tudo, pode pedir tudo de sangue, os de praxe ginecológicos, etc. Quero um oftalmogista também, faz uns sete anos que não vou em um.
Residente: – Hum, estou vendo aqui na sua ficha que você é vegetariana, você tomava B12, não é?
Eu – Sim, continuo tomando e eu ainda sou vegana Emoticon smile
Residente: – Sente ali, por favor

Após medir pressão, sentir o estetoscópio nas costas, língua para fora, luz nos olhos e etc.

Residente:- Sua pressão está doze por oito
Eu:- É…eu não sei o que isso significa
Residente: – Está normal, aparentemente está tudo normal.
Eu: – Ah, que bom.

Médico, entra na sala: – E está tudo bem?
Residente: – Está tudo bem.
Médico: – Já fez pesagem? Seria interessante
Residente: – Ah, não, tire o sapato por favor. Ali, incline a cabeça e…88 quilos, um metro e sessenta e oito.
Médico: – O IMC, faz o cálculo do IMC
Residente:…Então, você está no nível da obesidade, precisa perder uns dez quilos

Eu: – ¯\_(ツ)_/¯
Residente: – Você tem que continuar sua dieta e…
Eu: – Eu sou vegetariana há oito anos, eu já era gordinha antes, eu continuo gorda depois. Ouço isso, que eu tenho que perder dez quilos desde que eu tinha sete anos. Eu subo escada, eu estou vivendo bem, minha alimentação é ótima, meus exames estão sempre tudo bem, eu estou bem.

Depois que saí do consultório, os panfletários da Herbalife ofereceram seus “santinhos”. Diacho! Não é a toa que as mulheres ao meu redor estão todas tentando emagrecer. Nunca estive tão gorda e tão feliz com o espelho… mano, até mais bonita me sinto. Ao mesmo tempo é esquisito ter de endurecer com isso, ter que me impor com isso. Pelos meus cálculos, faz 22 anos que ouço esse discursinho, que eu estou gorda, que eu preciso perder peso, que eu devo diminuir as porções, fazer mais exercício. Só que 1) Gosto mesmo de comer, repetir até, se der vontade, faço por onde e que mal há nisso, cacete? Mulheres que comem por prazer são ~pecadoras~, mais uma vez, aos homens toda a pulsão e para as mulheres, todo o freio nesse raio de mundo 2) Não tenho projeto de ser atleta, mas assim que sobrar um dinheirinho, vou me inscrever em um curso de dança porque adoro dançar.

Eu poderia ter respondido os médicos: * Dançado Anaconda * Dançado Bootylicious *Mostrado um nude.

Mas preferi fazer a gorda orgulhosa e sair do consultório sendo educada sem pedir desculpas, sem me chamar de preguiçosa ou sem-vergonha (já acompanhei mulheres que dizem isso para médicos, eu mesma já disse, quando mais nova). Migas, tá foda, é foda, não tem um único dia que eu não ligo a TV, convivo com outras mulheres, vejo vitrines, ou bancas de jornal que o tal emagrecimento não seja gritado aos sete ventos. Até nas prateleiras de livros da minha casa as dietas estão lá de soslaio (os livros não são meus). Todas as mulheres da minha família são grandes e ou gordas, faz parte do que eu sou, eu ocupo espaço, chamo atenção, só que agora estou aproveitando isso, usando uns colarzão mesmo, uns dourados, pintando o cabelo de vermelho, só que né, eu fico chateada pelo discurso médico não avançar nesse sentido desde meu tempo de criança. De imaginar que ninguém consegue se safar dessa pressão chatíssima de patrulhamento dos corpos. Mesmo o corpo estando lindão, completamente dentro do que precisamos dele.

Mais uma régua em que não caibo, talvez uma das mais antigas da minha coleção.

* 11351327_1457045754607564_5642394097373800822_nDeborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

Templo

Por Maíra A., Biscate Convidada

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Primeiro, os olhos se arregalam com o choque tantos corpos de mulheres que circulavam completamente nus e à vontade. 15, 20 mulheres muçulmanas deitadas e sendo ensaboadas por outras mulheres. Depois, a diversão de me juntar a elas e me deitar numa pedra morninha, que imediatamente aliviou as costas e quase me fez adormecer. Os olhos fechados aguardavam o desconhecido do próximo momento. De repente, duas mãos fortes e vigorosas começam a esfoliar o corpo espumante e quentinho. Depois, os cabelos são ensaboados, os olhos meio cegos são direcionados a uma bica e a água quente é fartamente jogada na cabeça. Enxáguo o restante do corpo e os olhos, atentos e relaxados, aguardam numa sala de espera. E então, um momento de redenção: uma mulher espalha um óleo natural de laranja no corpo completamente entregue. Os olhos se rendem fechados, enquanto cada recanto do corpo é massageado e os ouvidos são embalados por canções em turco, cantadas quase que num sussurro agudo e afinado. O tempo cartesiano se perde completamente: 30, 60, 90 minutos? Só é possível perceber-me em transe, quase que como num ritual religioso. O corpo é templo num tempo perdido. A lógica é suplantada por momentos tão introspectivos e profundos do corpo, que a mente se revigora na atenção em suspensão, proporcionada pela ausência da palavra. Onde a palavra falha, o corpo se manifesta e é acolhido generosamente em atitudes de afeto gratuito, vindo de pessoas que não falam a minha língua, mas massageiam e embalam a minha alma. O hamam suspende as burcas, o fluxo do pensamento e me faz reavaliar a minha suposta liberdade ocidental. Simplesmente não consigo pensar em lugares coletivos em que o corpo seja não apenas exposto, mas acolhido e cuidado por pessoas desconhecidas, com quem estabeleço laços de de gratidão. Logo depois, brindo a oportunidade de ter experienciado este momento lindo, olhando pra vocês e muitas emoções sentindo. Obrigada, mulheres! Ou melhor: Teşekkürler, kızlar!

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Façamos as pazes

Olá, lindeza!

Depois de ANOS, tomando coragem de mostrar a minha própria barriga. Barriga que não precisa ser chapada ou "negativa" para ser linda.

Depois de ANOS, tomando coragem de mostrar a minha própria barriga. Barriga que não precisa ser chapada ou “negativa” para ser linda.

Faz um tempão que não paro uns minutinhos pra te dar atenção. E justo você, que me carrega pra lá e pra cá todos os dias, sem reclamar.

Ultimamente, tenho pensado bastante em quantas coisas boas você me proporciona. É com você que sinto novos sabores e vejo a grandeza ~ou a pequeneza~ de tudo que existe. É graças a você que sinto o frescor de uma tarde de outono através do vento tocando a minha pele. Com você me movimento e chego onde quero pelos meus próprios pés. Com você tenho prazer. E vem de você o que me mantém viva e forte

São tantas essas coisas boas que me dá, que não entendo por que comecei a ser hostil contigo. Por que por tanto tempo te odiei. Por que quis tanto que você fosse outro, muitas vezes irreal.
Não deixarei que Hollywood, que as capas de revista, que o instagram de fulanx, cicranx ou beltranx  digam que você é errado ou que você não é belo. Nunca mais vou permitir que o apontar de dedos e que as réguas alheias determinem o quanto você é digno de bem estar e de estar à mostra.

Que cada dobra, estria, celulite e pelo que você carrega sejam contemplados por mim como uma parte linda do que sou. Que eu possa te enfeitar como quero. Que eu deixe a minha criatividade para indumentárias fluir (porque pra mim, roupa binária e pré-determinada/determinante é uma coisa muito chata). Que eu te movimente, te sinta, te toque e te deixe ser tocado onde você pedir…

Não vai ser mais assim, corpo meu. Façamos as pazes. Porque hoje te vejo com o carinho e respeito que você(nós) merece(mos).

Me desculpa?

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Os Outros

Acho que sou recorrente e repetitivo. Uma das repetições a que me presto é falar do “outro”, ou dos “outros”. Não como fofoca, mas da importância e presença deles em nosso convívio. Sim, prefiro usar CONVÍVIO a VIDA, pois não é qualquer “outro” que faz parte das nossas vidas: muitos são mera passagem, alguns poucos passagens marcadas, poucos são permanentes. O que os reúne, de uma forma geral, é que são “outros”.

A idéia não é fazer um post de blablablá anti-individualista, pró-gregário e sociologiquês. A idéia é pensar no “outro” de um jeito biscate. Mas como pensar nos “outros” de um jeito biscate? Poderia ser um pensar igual, um pensar livre, um pensar fraterno, um pensar sexual… Ou poderia ser só um pensar…

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Mães e Filhas – by Paula Rego

Acho que é uma tecla em que eu sempre bato. Nós (eu estou incluidíssimo) estamos acostumados a pensar o “outro” do nosso viés. Às vezes, também nos preocupamos em pensá-los de seu próprio viés (aquela coisa lá de calçar o sapato do outro, etc…).  O que é raro, mas que dá pra tentar fazer, é pensar o outro sem o compromisso consigo mesmo ou com ele, simplesmente pensar, pra procurar entender as nuances e, em princípio, não julgar.

Não se trata da demagogia de “entender a plenitude do outro”, muito menos de buscar a “verdade do outro”, “a realidade do outro”. A ideia é buscar um novo viés, ou um anti-viés, ver o outro em conjunto, amalgamar as ideias próprias, com a dele e, se possível, com a de quem mais. Ou seja: dialogar o “outro”.

Claro que não é fácil: se fosse fácil chamava pipoca e não diálogo. Fazer a palavra circular é a dificuldade. Na impossibilidade de ser como os “outros”, na dificuldade de entendê-los pura e simplesmente da própria perspectiva e na inglória tentativa de se colocar no lugar do “outro”, a forma que sobra é interagir. Romper a barreira do isolamento, ser fácil para que o “outro” facilmente se aproxime.

Não tem método, não tem forma, só há experiência. Vale pro sexo, pro pré-conceito e pro preconceito, para a amizade, pra família, para as paixões e para o amor. Mas só vale se for junto. Não se trata sequer de unir, de amálgamas: trata-se de circular a palavras, de “sins”, “nãos”, “talvezes”, “comos”, “de quais formas/ maneira/ modos”. Trata-se de entender. E é isso, entender o outro sem compromissos e ver no que isso vai dar.

Frida Kahlo e a intensidade do sentir

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Hoje é aniversário de Frida Kahlo. Nascida em 06 de julho de 1907 no México, Frida sempre foi para mim aquela pessoa que gostaria imensamente de ser amiga. O fillme “Frida” (2002) só reforçou essa imagem de que ela era uma mulher única e incrível, uma biscate com a qual todos gostaríamos de flertar.

Com uma vida marcada por doenças, acidentes e limitações físicas, a intensidade com a qual vivia e produzia é o que mais me chama atenção em sua trajetória. Sendo considerada uma mulher feia socialmente, subverte essas questões fazendo de sua imagem a representação mais forte de seu trabalho. Ao mesmo tempo, sua intensidade transborda em cada foto que vemos dela, trazendo consigo uma sensualidade e atração. Frida nos convida com o olhar e nos provoca a conhecê-la.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Bissexual, revolucionária e autêntica. Se vivesse nos dias atuais, provavelmente Frida Kahlo seria questionada até mesmo entre as feministas. Por que usar vestidos que remetem a uma cultura indígena que enxerga a mulher tão feminina? Por que o desejo de ser mãe e agradar o marido é tão importante? Por que manter por tantos anos uma relação tão conturbada com Diego Rivera?

Em meus devaneios, penso que Frida responderia apenas que estava vivendo. Sentindo e absorvendo cada ação, tempo e espaço que lhe cabia no mundo. Preenchendo o vazio com o existencial complexo e dialético do amor. Misturando às suas tintas a falta de respostas óbvias que há quando perguntamos para nós mesmas: o que quero?

O querer de Frida passa pelo desejo de autonomia, de ação, de construção, de provocação. Seja por meio da arte, da política ou da própria existência. Sua imagem nos remete a força e autenticidade, mas sua obra e seus escritos retratam fragilidade, medos e inseguranças. Como pode uma mulher tão livre cair em ciúmes por um marido infiel a quem parece implorar o amor? Como vemos nesse trecho de uma carta escrita por Frida a Diego Rivera em 23/07/1935:

[…] uma certa carta que descobri por acaso num certo paletó de um certo cavalheiro e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”… me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta… Por que sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras… de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram  e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo modo, você me ama um pouquinho… não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta. Ama-me um pouquinho. Eu te adoro. (1 – pg. 115).

Será tão fácil explicar Frida Kahlo? Será que essa intensidade não é justamente o seu dínamo pessoal para produzir uma obra tão instigante, expressiva e questionadora? Talvez sim, talvez não. Talvez o melhor de Frida esteja justamente na maneira como suas dualidades e ambiguidades evidenciam nossas imperfeições e fraquezas. Não há respostas simples para os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos. Não há cartilhas feministas que deem conta das complexidades internas e externas das mulheres, de seus desejos e atitudes. Por isso, mais do que determinar o que é certo ou errado nos comportamentos humanos, podemos aprender com Frida Kahlo a ampliar os horizontes de possibilidades, sem tantos julgamentos, mas rindo ou chorando juntas e apoiando quando for necessário.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Referência

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

Quer mais de Frida?

Também tem texto meu nas Blogueiras Feministas: Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo. Aqui no Biscate tem Frida, romance e receita no: E a Biscate Mexicana Enfeitiçou Trotsky.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Siririqueira de mão cheia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esses dias, a cantora Pitty reclamou em seu perfil no Twitter sobre uma declaração sua que saiu deturpada em matéria do jornal O Globo. O caso já foi resolvido. Pitty havia comentado sobre masturbação: “Meu corpo me basta! Cheguei a pensar, inclusive, em incluir um momento de masturbação, reforçando o quanto estou me amando sozinha”. Após a repercussão, ela logo recebeu inúmeras mensagens ofensivas na internet, muitas delas dizendo: “Siririqueira”, “Toca uma pra nós” e “Mal amada”.

Ora pois: eu, como boa siririqueira, preciso levantar a mão, chupar os dedos e me manifestar. Quem pratica e mantém o hábito de siriricar sabe que sozinha sim, mal amada nunca! Um ato tão prazeroso que pode começar nas roçadinhas básicas do braço do sofá, passando pelo tão idolatrado chuveirinho íntimo do banheiro, até chegar nas atléticas habilidades em cima da máquina de lavar. A siririca é essencialmente uma prática do cotidiano, da qual podem participar inúmeros objetos presentes ao nosso redor, que pode ser realizada em momento solitário ou em conjunto, em ritmo lento ou rápido dentro do molejo que o dia apetecer.

Entre nós do Biscate há um dito interno que diz: a siririca é a verdadeira sororidade. Porque é por meio da siririca que damos as primeiras mãos em direção a conhecer nosso corpo, nossa fluidez, nossos desejos, nossa intimidade. É a espuma do banho que um dia faz uma cócega diferente. É o líquido que apareceu depois de um beijo na novela. É o frisson de ter cruzado com alguém que soltou faísca. É também, no meu caso, a certeza de que eu e Keanu Reeves fomos feitos um para o outro desde a minha adolescência. Assim como hoje tenho certeza que eu e Chay Suede também deveríamos nos conhecer melhor.

Siririca eu, siriricas tu, siririca ela, siriricaremos nós todas. Siririca é a resistência da buceta, da vagina, do clitóris, dos grandes e pequenos lábios. Desse corpo cheio de terminações nervosas e desejos. Desse corpo que sabe exatamente como gosta de ser tocado por aquela pessoa que mais o ama. Se toque! Toque para os outros! Faça como Pitty e fale sobre masturbação. É bom para o gozo, a alma e o coração.

Cena do clipe 'Adore' da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

Cena do clipe ‘Adore’ da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Beleza é subjetivo?

Semana passada, me senti muito mal com um comentário que me contaram sobre mim. Me contaram sobre um papo que rolou sobre mim, que eu tinha o rosto feio, que a única parte bonita do meu corpo é a minha bunda. Me senti um lixo, ouvi muito isso na adolescência, que era feia de rosto e tinha a bunda bonita. Adolescentes sofrem muito com a opinião dxs outrxs, eu me lembrei muito daquele momento quando ouvi o comentário.

Machucou demais, mas parei pra enxergar o que aquele comentário queria dizer. Padrões de beleza racistas e gordofóbicos, que dizem que negras são feias, gordas são feias, se for as duas coisas, mais feias ainda. Dizem que beleza é subjetivo, mas é, na verdade, uma construção social, você se interessa pelo que sempre lhe foi mostrado como belo. Através da história das artes visuais, notamos o quanto essa “subjetividade” se adapta aos padrões da sociedade e seus preconceitos.

E, sim, o tesão também é uma construção social, então, se excitar com mulheres loiras, brancas e magras vem sim de como você foi criadx em uma sociedade racista e gordofóbica, você aprendeu a desejar a loira magra e enxergar a negra e gorda como uma mulher “com qualidades, mas não tão bonita” ou “com um rosto tão lindo, mas não se cuida” ou ainda assim “tão bonita, mas o cabelo não combina com ela”.

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Eu me desconstruo todos os dias pra me enxergar bonita e desejável aos meus próprios olhos, pois também sou fruto da sociedade, é difícil, luto contra tudo que absorvi por 30 anos vivendo em contato com o mundo. É esquecer o preconceito, o bullying e tudo que já ouvi de preconceituoso e seguir adiante, me transformando e transformando quem passa por mim. Afetando as pessoas e fazendo–as compreender que a beleza precisa ser desconstruída, no dia a dia. Calma e pacientemente.

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