O dia que fui crucificada: A migalha, o desserviço e a necessidade de maturidade política nos ativismos identitários

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

No ano passado, escrevi a matéria da capa da Revista Galileu de Novembro, sobre gênero. Aquela foi a primeira vez que uma pessoa trans havia escrito, para uma revista de circulação nacional, uma matéria de capa. E foi também uma das poucas matérias a abordar a questão da transexualidade fora do viés patológico, trazendo relatos e vivências e pensando nisso como uma questão identitária.

O texto saiu com inúmeros problemas: a revisão modificou meu texto, termos foram imensamente simplificados pra atender ao pública da revista ( que, imaginávamos, nunca havia tido contato com as teorias de gênero ou com o ativismo trans) – o resultado? Um texto útil, porém falho em muitos sentidos. Tudo bem. Recebi uma imensidão de críticas: enquanto eu era atacada por religiosos, por pastores, por todo tipo de gente que veio ao meu perfil me ofender, era, igualmente atacada por outras ativistas, algumas, que nem haviam lido o texto, atacaram a partir da narrativa de outras pessoas.

Aquela situação me deixou imensamente chateada. Eu realmente achei que havia feito um ” desserviço” pra ” causa trans”. Isso até que comecei a receber relatos de pessoas trans do país inteiro que tiveram contato com o a Revista. Professores que utilizaram o texto em sala de aula, e principalmente, o relato de um rapaz, do interior do Pará, que não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa trans e que não sabia como explicar a sua transgeneridade para seus pais: ele dialogou com pais e amigos a partir do texto da revista.

Naquele momento, percebi que, ainda que meu texto não fosse ” ideal”, que não estivesse conceitualmente perfeito, ele teve efeitos positivos, pôde ser usado como instrumento de conscientização e de luta. Houve que lesse e pensasse: ” Meu filho não é doente”. O texto não foi um desserviço. Eu falei em ” sexo biológico”, mas aquilo não foi um desserviço. Então, porque eu fui tão criticada? Porque meu texto foi chamado de “transfóbico” e de “um desserviço a causa trans”?

As razões que consigo pensar são as que enumero agora:

1) Profissionalismo linguístico: É a exigência de que tudo, absolutamente tudo, seja sempre narrado de uma única forma; é o detalhismo, o cuidado que nos impede de ser “simples”. O desprezo da eficácia do processo de comunicação e seu aprisionamento em moldes linguísticos inacessíveis pra muita gente. Um termo ” fora do lugar” e todo o texto perde valor.

2) Migalhismo: Chamo de ” migalhismo” nomear “migalha” todo e qualquer avanço que não tenha ocorrido como no plano ideal. É uma migalha de representação escrever um texto, mas ter de se adequar a exigências da norma. É uma migalha que a Universal fale das pessoas trans, mas use um ator cisgênero. O migalhismo recusa tudo. Desculpe, aos que consideram migalha qualquer avanço que não seja ideal, mas é uma postura bastante privilegiada optar pelo “nada”. As lutas sociais, a política, ocorrem sempre no plano da negociação, e a gente precisa aprender a ceder, assujeitar-se é também uma forma de resistência.

3) Ausência de estratégia política: Como assim? Criticar os problemas do texto não é uma atitude política? Certamente, porém criticar um avanço mínimo sem no entanto pensar o que podemos fazer com este avanço é um problema. Precisamos pensar a realidade a partir dos recursos de luta que ela nos oferece. Não adianta dizer: ” Só aceito se for do jeito que eu quero”, não é assim. Existem uma demanda do real que está alem de nós mesmos.

4) Imaturidade: As temáticas trans estão entrando na agenda agora. Os meios de comunicação, respondendo à nossa pressão, vão buscar formas de acomodar a presença trans nestes espaços. Essa acomodação exige maturação de pauta, de abordagem. Hoje traz-se o tema, amanhã avançamos na abordagem e, assim, incrementalmente, vamos construindo e acessando outros espaços. Infelizmente, a luta não se dá no plano ideal, como gostaríamos. Existe um tempo e uma ação no tempo: compreender o que fazer em cada momento para agir com mais vigor em seguida é fundamental. Numa escritura budista, creio que chamada Kaimoku Sho, diziam que “compreender o tempo é o primeiro passo”. Concordo em absoluto.

Eu sou ativista e absolutamente compromissada com a causa trans, mas isso não me faz absolutamente compromissada com esta ou aquela estratégia em específico.

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Um chapéu rosa e uma escova de princesa

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A verdade é que não era nem rosa, o chapéu. Ele apenas tinha uma fita rosa. Mas o menino abriu no choro quando a mãe tentou colocá-lo em sua cabeça. Não queria, aquele chapéu não, de jeito nenhum. A mãe foi tentar entender o que estava acontecendo e depois de muita conversa conseguiu uma resposta: o menino, tão pequenino ainda, tinha sido alvo de piadinhas dos colegas porque usava um apontador cor-de-rosa.

A outra história envolve outro menino: esse estava recebendo um amiguinho em casa, e ganhou do pai uma escova de dentes nova. O pai tinha prestado atenção ao tamanho da escova, e não atentou para o desenho no cabo: pois bem, de novo. O choro, a recusa enfática. De jeito nenhum, essa não. Escova de princesa. Ainda mais com o amigo em casa: uma vergonha dupla.

Ser menino: aprender, desde muito pequeno, que existe “a linha de demarcação”. Que certas roupas não pode, que certas brincadeiras não pode, que sentar assim não pode, falar daquele jeito, nem pensar, mexer a mão, balançar o quadril, dançar muito solto…. Não pode usar apontador rosa, chapéu com fita rosa, escova de princesa. Não pode. Não é de menino.

Vejam bem: contrariando o senso comum, menina até que pode. Um dia não pôde: hoje pode. Pode usar calça, pode brincar de carrinho, pode jogar bola. Tudo por conquista das meninas, das mulheres que um dia foram meninas. Nada foi dado, é certo: precisou de muita briga e ainda há muito caminho a ser feito. Mas a força do oprimido é saber que é oprimido. E quanto aos meninos? Aí a gente entra em terreno delicado, porque, justamente, aos meninos cabe ocupar o lugar de opressores. Há, nas entrelinhas, a insinuação de que ser menino é, de alguma forma, “melhor”. Se é supostamente melhor, como reclamar de tantos “não pode”? Os “não pode”, dizem as vozes que não dizem, mas insinuam, são necessários para obter a titulação do seleto grupo, o dos vencedores, dos bacanas: o grupo dos homens hétero. Dos homens-que-são-homens. Ser mulher seria “meio menos”. E gostar de fazer “coisa de mulher” é querer ser meio menos: quase um pecado, pois. Não pode. O que significa que, no fim das contas, sob o pretexto de que é para “ser mais”, ser “melhor”, sacrifica-se, sem dó nem piedade, o que se é e o que se pode ser.

É desde muito pequenos que eles aprendem isso. Aprendem por que se lhes ensina. Tem sempre alguém dizendo, repetindo, mostrando: o pai, a mãe, os avós, os professores, os colegas. Sempre alguém afirmando que aquele menino não está sendo menino do jeito certo.

E tantas dores. E tantas repressões. E tanto choro contido, porque afinal, “menino não chora”. E tantas vontades deixadas de lado, porque isso não é coisa de menino. A linha de demarcação é violenta e é o tempo todo. Nas grandes como nas pequenas coisas.

Um parêntesis necessário: não é de orientação sexual que a gente está falando ainda, não é mesmo? Apenas da possibilidade de ser como se é ou como se quer. Porque afinal nada impede que alguém sinta tesão por meninas e vontade de usar um boá violeta. O que uma coisa teria a ver com a outra? Não consigo nem começar a perceber.

Ah, mas se gosta de “coisa de menina” deve gostar de fazer sexo com meninos, não é mesmo? E tome violência vinda do preconceito. Em cima de meninos que, no mais das vezes, nem pensaram nisso ainda. Sexo? Pegar na mão e dar beijinho, correr junto e abraçar, abrir um sorrisão quando vê o outro, sentir o coração bater… assim é o mundo sentimental dos meninos. E pode ser com meninos. Com meninas. Assim é também o mundo sentimental das meninas. Mas menina acaba podendo, né? Pegar na mão, deitar no colo, fazer carinho no cabelo, dormir na mesma cama… tomar banho juntas, andar de braço dado. Menina pode. Não deixa de ser menina. Afinal, ser menina é a base, o ponto mais baixo da escala: aquele lugar em que quem não está lá não deveria querer estar. Os outros, os que estão em cima, é que precisam se cuidar, sob o risco de… se aproximarem do jeito de ser das meninas. Que horror. Como alguém que recebe ao nascer a graça e a glória de nascer menino poderia desejar tamanha queda no abismo.

Então, desde muito pequeno, veste-se a criança com a armadura fechada, restrita ao espaço estreito concedido ao “ser menino”. Não vá ele passar dos limites, pintar fora do pontilhado, dançar fora de esquadro, virar a mão, rebolar, puxar as vogais, inclinar a cabeça…. Alguns pequeninos espaços já foram conquistados, deve-se dizer. Já que um dia, não podia brinco. Um dia, não podia cabelo comprido. Isso já pode, embora não em qualquer canto: mas na cidade grande, na classe média descolada, já pode usar brinco e cabelo comprido sem que haja perguntas, sem que isso seja reprimido. Aos homens héteros, no ano da graça de 2016, já é permitido usar cabelo comprido e brinco.

Mas é tão pouquinho. Uma migalha, diante de todo o universo de engessamento. Diante das possibilidades. Se vestir como quiser. Afrouxar, se soltar. O corpo. O jeito. Sem precisar se perguntar. Ser doce, ser delicado, brincar de boneca, pular corda. Abraçar, beijar. Ter medo e chorar e pedir arrego. Se permitir ser frágil. Sem ter sua sexualidade questionada. Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?

Vou encerrar esse começo de conversa, que não pretende ser mais do que um começo, com uma terceira historinha que deixo aqui, pra gente continuar a pensar.  Esta não está mencionada no título e  envolve uma calça de malha lilás. Me foi contada por um homem já adulto, que explicava – a sério – o motivo de ter  desistido de fazer ioga na juventude. Tinha entrado na academia para pedir informações e a moça detalhara: para a turma de iniciantes, a roupa era lilás. Pronto. Ali se encerrou a carreira de iogue do meu amigo. Aí não, dizia ele. Eu com vinte anos, vestindo roupa lilás? Como é que eu ia explicar pro pessoal lá do bairro?

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Nota de Apoio a Monique Prada e às Trabalhadoras Sexuais

Publicado originalmente no
Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros

Nós, que abaixo assinamos, manifestamos nosso apoio a Monique Prada, militante feminista, trabalhadora sexual e presidenta da Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS). Monique tem sido atacada por grupos que se posicionam contra a garantia de direitos trabalhistas para profissionais do sexo.

Como Monique Prada, inúmeras outras trabalhadoras sexuais e militantes feministas que a elas se aliam nessa luta vêm sendo frequentemente expostas por grupos defensores de políticas de erradicação da prostituição que não só se mostraram ineficazes ao longo da história, como também refletem os projetos políticos dos setores mais conservadores da sociedade. Basta dizer que, no caso brasileiro, o argumento de que prostituição e exploração sexual são indissociáveis já foi publicamente defendido pelo deputado Wilton Acosta (PRB/MS), pastor da Igreja Sara Nossa Terra; e que o relator que propôs a rejeição do projeto de regulamentação das atividades de profissionais do sexo, submetido pelo deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ), foi o deputado pastor Eurico (PHS/PE), da Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

Reiteramos que a regulamentação das atividades de profissionais do sexo representaria um avanço significativo no combate à cultura do estupro, uma vez que asseguraria melhores condições de trabalho e segurança para trabalhadoras e trabalhadores sexuais, fortalecendo também a luta contra a exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes.

Assinam esta Nota:

Degenera – Núcleo de Pesquisa e Desconstrução de Gêneros / Uerj

Anis – Instituto de Bioética

Biscate Social Club

Blogueiras Feministas

Centro de Referência em Direitos Humanos, Relações de Gênero, Diversidade Sexual e Raça (CRDH/Nupsex)

Coletivo Davida

Coletivo Não Me Kahlo

Edis – Núcleo de Estudos em Diversidades / UFAL

Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas

Geni – Grupo de Estudos de Gênero, Sexualidade e/m Interseccionalidades / Uerj

Grupo Identidade, Campinas

LADIH – Laboratório de Direitos Humanos / UFRJ

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Mulheres Guerreiras

Nudes – Núcleo de Estudos em Discursos e Sociedade / Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada / UFRJ

Nupsex – Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero

Observatório da Prostituição / Laboratório de Etnografia Metropolitana-LeMetro – IFCS / UFRJ

Nusex – Núcleo de Estudos em Corpos, Gênero e Sexualidade do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ

Roda Feminista / Uerj

Transgride – Núcleo Transdisciplinar de Estudos em Gêneros, Sexualidades, Cultura e Relações Étnico-Raciais, FND / UFRJ

TransRevolução
Amara Moira, travesti, putafeminista

Aricelina Gomes,  APROSPI – Associação das Profissionais do Sexo do Piauí

Aurilene Soares, AMUPS – Associação de Mulheres Profissionais do Sexo, Queimados/PB

Carmem Costa, Grupo Liberdade/PR

Cida Vieira, APROSMIG – Associação de Profissionais do Sexo de Minas Gerais

David Soares, Doutores da Prevenção – Campina Grande/PB

Diana Soares, ASPRORN – Associação de Profissionais do Sexo do Rio Grande do Norte

Eliane de Castro Melo, coordenadora do CIPMAC – Centro Informativo de Prevenção, Mobilização aos Profissionais do Sexo

Elizabeth Pereira, APROCE –  Associação de Prostitutas do Ceará

Fátima Medeiros, APROSBA – Associação de Profissionais do Sexo da Bahia

Georgina Orellano, AMMAR – Asociación de Mujeres Meretrices de la Argentina

Indianara Alves Siqueira, TransRevolução

Ivanete Bezerra, DASSC – Dignidade, Ação, Saúde, Sexualidade e Cidadania- Corumbá/MS

Irene dos Santos, Articuladora das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe

Jacqueline Brasil, ATREVIDA – Associação de Travestis Reencontrando a Vida/RN

Juma Santos, Tulipas do Cerrado, DF

Leonisia Santo, APROSEP- Associação de Profissionais do Sexo de Picos/PI

Roberta Torres, Movimento TransLegau, Nova Floresta-PB

Sebastiana dos Santos, APAM – Associação das Prostitutas do Amazonas

 

Adriane Pereira, estudante de psicologia, RJ

Alline de Souza Pedrotti, tradutora, RJ

Amana Mattos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenadora do Degenera/Uerj

Amanda Rastelli, psicóloga e pesquisadora do Gepesp (Iav/Uerj)

Barbara Gomes Pires, doutoranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Carolina Bertol, doutoranda em psicologia social (PUC-SP)

Carolina Maia de Aguiar, mestranda do PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Caroline Cavassa, jornalista, Roma, Itália

Caroline G., publicitária e ativista, RJ

Clarissa Godoy, educadora, RJ

Claudielle Pavão, professora de história do município do Rio de Janeiro

Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Erika Natasha Cardoso, doutoranda em História (PPGH/UFF), pesquisadora-bolsista na FBN (PNAP), com ênfase em estudo sobre o sexo e suas representações

Fátima Lima, Nudes/PP

Gabrielle Sales Ferreira, estudante, RJ

Geisa Ferreira do Nascimento, pedagoga, RJ

Giovana Xavier, professora de Ensino de História, UFRJ

Heloisa Melino, advogada ativista, feminista interseccional, doutoranda em Direitos Humanos, Sociedade e Arte (PPGD/UFRJ)

Henrique Marques Samyn, professor da Uerj e colaborador do MundoInvisivel.org

Iasmin Rocha da Luz Araruna de Oliveira, historiadora, RJ

Isabella de Mendonça Nunes, RJ

Izabel L. Ramos Moreno, publicitária, RJ

Jacqueline Ribeiro, historiadora, Degenera/Uerj

Joyce Costa Barbosa, analista socioambiental, RJ

Kathleen Feitosa, militante feminista e antiproibicionista, RJ

Laila Queiroz de Souza, pós-graduanda em Violência Doméstica (PUC-RJ)

Leticia Calhau Freitas, educadora social, RJ

Leticia Naves, associada da Anis – Instituto de Bioética

Liliane Gusmão, arquiteta, ativista, QC, Canadá

Lina Arao, pós-doutoranda, UFRJ

Luciana Holanda Nepomuceno, Professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, RN

Luisa Dantas Soler, advogada, especialista em gênero e sexualidade, graduanda em ciências sociais IFCS/UFRJ

Luisa Lorena Neto de Oliveira, assistente de DP, RJ

Maíra Rocha, arquiteta, RJ

Maria Clara Drummond, RJ

María Elvira Díaz Benítez – PPGAS/Museu Nacional/UFRJ

Maria Luiza Rovaris Cidade, psicóloga, RJ

Mariana dos Reis Santos, professora do Instituto Benjamin Constant e doutoranda em Educação, RJ

Mayra Okamura, estudante de psicologia, Uerj

Raisa Ramos, comunicadora da Anis – Instituto de Bioética

Sinara Gumieri, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética

Valéria de A. M. Forti, psicóloga e professora aposentada, RJ

Vanessa Dios, diretora-executiva da Anis – Instituto de Bioética

Vanessa Oliveira Batista Berner, professora associada da Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ), coordenadora do LADIH/UFRJ

Vanessa Fonseca, doutoranda em psicologia pela UFF, Degenera

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Sobre ” Bela, Recatada e do Lar” e a participação masculina

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

É apoio. Eu acredito em movimentos e campanhas capazes de mobilizar o maior número de agentes de luta. Não é o mesmo de ridicularizar e nem é o mesmo de se apropriar. Creio que possa haver um sentido político na participação de homens nesta campanha, que seja o do reconhecimento do seu papel na construção deste estereótipo, de um papel subalterno para a mulher, de um papel decorativo e passivo.

Bela, Recatada e do Lar é ironia de luta. Não estou minimamente preocupada em dizer quem deve ou não postar fotos, de verdade. Gostaria mesmo que percebessemos que alguns discursos constroem uma vilanização de Marcela ou de Dilma ( por comparação), como se houvesse nela qualquer responsabilidade pelos discursos que tentam enquadrá-la. Essa violência é muito mais importante de ser discutida.

Mulheres não estão deixando de postar fotos porque homens estão postando. A luta não está sendo enfraquecida porque homens estão postando. A visibilidade não deixa de ser feminina porque homens estão postando.

Eu acharia terrível a participação masculina, se ela minasse ou ofuscasse a participação feminina. Isso não está ocorrendo.

” Ah, mas o homem não lida com este estereótipo”, sim, todos sabem disso e ele postar uma foto com esta legenda não fará com que achemos que ele sofra.

” Não quero homens falando por mim”, gente… Postar foto não é falar por mim, mesmo. Querer falar por mim é dizer como eu devo agir, pensar e me posicionar.

Espero que os homens possam conhecer os mecanismos de produção destes estereótipos e que hajam no sentido de combatê-los, pra além disso, não me parece bom motivo pra briga, né não?

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Comunitariamente Cuidar

Sim, a gente tá bem ali no zóio do furacão da História. Dessa com H maiúsculo, que falaremos em breve nas escolas, que em breve ficará no passado, que em breve falaremos “naquele tempo, eu vivi naquele tempo!”. E daí? Me parece e posso estar bem enganada disso, que há por um lado uma necessidade de se falar sobre tudo, haja vista o imediatismo e a relação em tempo real que nos apresenta as redes sociais, por outro muitas vezes um discurso que reivindica a todo momento que tomemos posição. E aí muitas vezes agimos por impulso, por ausência de reflexão. Isso não é em si necessariamente ruim, mas permite que muitas vezes deixemos passar coisas e reproduzimos situações que precisam ser criticadas.

Recentemente uma foto circulou nas redes sociais expondo um casal, dois cachorros, uma babá que empurrava dois bebês  num carrinho indo para uma manifestação. Não entrarei nas críticas à marcha X, Y, Z e tals. Não é sobre isso. Também quero deixar que critico toda forma de exposição não consentida, havia ali uma mulher negra trabalhadora que foi chamada a falar publicamente, que se sentiu violada e exposta. Haviam ali crianças, cuja proteção é dever de toda sociedade. Se queremos criticar formas de vida, escolhas, privilégios, é perigoso que nos valhamos de recursos que expõem mulheres negras trabalhadoras e crianças. Se mulheres negras que realizam trabalho doméstico são exploradas no Brasil, muito em razão de uma herança escravocrata, cabe a nós lutar para que essas mulheres tenham trabalho digno, defender a regulamentação, formalização, garantia de direitos, e não reproduzirmos discursos paternalistas. Como se mulheres fossem incapaz de se organizar politicamente, como se domésticas fossem desprovidas de conteúdo político, como se fossem incapazes de lutar por vida digna. A PEC das Domésticas é resultado da militância de mulheres negras trabalhadoras domésticas organizadas, elas não precisam de nosso discurso paroquial, elas precisam que respeitemos sua luta, sua autonomia, e sua força. Isso não quer dizer que não reconheço que há desigualdade, abusos, violações relativas ao trabalho doméstico, mas apenas que não é pela via pater/maternalista que travaremos um enfrentamento à tudo isso.

Bom, dito isso, tomo o rumo do que quero escrever. Sim, to atrasadinha no debate, sou dessas. Voltando a foto, e apesar de lamentar a exposição, quer eu goste quer não, isso promoveu um debate, li e ouvi muitas pessoas criticando o casal sob o argumento de que “Se não quer cuidar nem no domingo porquê tiveram filhos?”. E acho esse argumento bem temerário, tão temerário quanto culpabilizar a mulher que aborta porque não se preveniu antes de engravidar.

A maternidade, ainda que seja uma escolha nem sempre é simples de se sustentar. Existe um ideal de maternidade, e existe a maternidade que se apresenta na sua vida, muitas vezes diametralmente oposta daquilo que se idealizou. A maternidade ainda que uma escolha nem sempre é feita com liberdade e autonomia, existe um sem fim de mecanismos discursivos de controle sobre o corpo da mulher que operam o desejo, são um sem fim de familiares perguntando quando vem o bebê, é um circulo de amizades de baby boom, é o companheiro, é a ginecologista, amigos e amigas, vizinhos. A maternidade compulsória é algo presente e sistemático na nossa sociedade. Ai me parece perverso colocar a questão nesses termos “se não quer cuidar porque teve”. Conheço muitas mulheres que ingressaram em profunda depressão tão logo foram mães, e cuidar muitas vezes exige energia da qual não dispomos, ainda que essa maternidade tenha sido desejada, e habite amor nela. Eu mesma tenho uma dificuldade imensa em cuidar, acolho essa dificuldade, ela diz muito de mim, reconheço essa minha limitação. É nesse exercício que consigo elaborar o cuidado.

Cuidar requer abertura, requer estar à merce, requer diálogo, requer um olhar para o outro que diz muito de nós, e muitas vezes não queremos saber sobre esse dizer. Muitas vezes cuidar é um processo dolorido. Cuidar é comunicação, não à toa encaminhamos ofícios, cartas, encomendas, etc., aos cuidados de Fulano. Cuidar também é pensamento “Ela cuidou do que iria dizer”. Cuidar é de uma grande complexidade, e é para além do trocar fralda, dar banho, ver lição de casa e realizar a manutenção da vida. Reduzir o debate ao “se não quer cuidar porque teve” é uma grande falha.

Muitos pais e mães ricos e pais e mães pobres não dão conta de cuidar de seus filhos, o que nem sempre é indiferença e rejeição. Aos ricos há a possibilidade de ter uma babá, a criança é amparada de alguma forma, ainda que boa parte das babás deixem seus filhos muitas vezes desamparados. Aos pobres o caminho é mais perverso, basta pesquisar acerca dos abrigos e a quantidade de crianças inadotáveis abandonadas. E isso não quer dizer que todo mundo que tem babá não cuida, rejeita e é indiferente, muito menos que o casal da foto abandonou os filhos.

Porque eu falei tudo isso, porque o fenômeno de não suportar a insustentável leveza do cuidado não é algo do casal x ou y, coxinha ou esquerda, marchante ou não marchante, do Pinheiros ou Pinheirinho, é algo presente em todas as classes, ideologias, religiões. Abandonamos crianças a todo momento, escolas particulares de renome estão abarrotadas delas, abrigos também, nas casas, em todos os lugares.  Acredito que a possibilidade de mudança e a responsabilidade pelas crianças precisa caminhar para relações comunitárias de cuidado, esvaziar o conteúdo dos papeis de pai e mãe, esvaziar a idealização e a cristalização desses papéis. Não olhar os filhos dos outros nem aos seus como propriedade, para que a responsabilidade não se limite e se reduza aos pais, e seja sobretudo de todos nós. Para que todas as crianças sejam acolhidas e amadas, independente de quem as gerou, de quem as pariu. Eu gosto muito de uma estrofe de uma poesia que se chama Amor do Maiacoviski:

Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.”

xênia

 

*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Diversidade, Visibilidade e Tolerância

Admitir que o preconceito está na gente. Exatamente isso, falar em diversidade e tolerância é admitir que o preconceito está em nós. Nós mesmo, frutos de processos de socialização e educativo, que recebemos por anos uma chuva de padrões de comportamento, pensamento e atitude, somo a primeira barreira para a promoção da diversidade. Então, primeiro passo na promoção da tolerância é descer do pedestal.

Não é possível começar um debate sobre diversidade, visibilidade e tolerância, se quem fala sobre isso não admite que praticar a diversidade e a tolerância é, antes de tudo, um processo individual de consciência, seguido de uma prática discursiva, de edução e auto-educação e prática social efetiva. Sim, porque é fundamental se livrar da demagogia do discurso (do midiático e o das redes sociais) e partir para ação as afirmativas e as negativas (sim, as negativas, aquela que se resume em não exaltar como “folclore” atos de visibilidade).

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Paula Rego – Branca de Neve engole a maçã envenenada

E a visibilidade, né… Vamos combinar, visibilidade é um ato de quem é diverso! Se você não é diverso, não tente tirar quem é do armário simplesmente pelo fato de que você quer praticar o seu discurso sobre diversidade. É muito bonita a empatia, a fraternidade com as pessoas diversas queridas, mas expô-las como, para o seu bel prazer egóico, não é legal.

E lembre-se que ao convidar um amigo pra uma festa sua, não inclua o adendo: “vai ter um monte de gente legal, gays, lésbicas, trans*, o pessoal do candomblé que vai fazer um batuque, um colega do mestrado que é refugiado sírio e uns ativistas do poliamor”, convide só para a festa… deixe ele descobri que não há nada de diferente em encontrar essas pessoas em uma festa ou em ir a um evento do cerimonial do Itamaraty… NÃO OBJETIFIQUE QUEM É DIVERSO. Quer dizer quem vai, diga os nomes das pessoas, de onde você as conhece, mas não a característica diversa delas.

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Paula Rego – Passos do Coelho

Promover a diversidade por meio da tolerância é romper com o processo de silenciamento, naturalizando a visibilidade de quem quer ser visível, porque tem gente que não quer, ou não quer 24h, ou não quer em certos ambientes, aceite isso. Quer discutir, excelente! Estamos aqui para isso e precisamos disso! Então, dê voz às experiências das pessoas diversas, replique a voz dessas pessoas, difunda os atos públicos dessas pessoas, mas não pense que promover a diversidade é expor a vida privada dessas pessoas, porque não é.

E é isso, promover diversidade é ensinar a tolerar os processos de visibilidade, é naturalizar esse processo, é permitir que a diversidade sexual, de gênero, racial, religiosa, de corpo, de deficiência e quaisquer outras sejam parte do dia a dia. É ensinar que os preconceitos aos diversos são resultados de processos sociais que devem ser rompidos e que depende de nós preconceituosos rompê-los! O mais difícil é sai do discurso para a prática, mas a gente pode começar a qualquer minuto.

Que Horas ela Volta? pelo olhar da classe média nas redes sociais

Segunda-feira, o programa Tela Quente que tradicionalmente exibe algum blockbuster do cinema norteamericano com muito tempo de atraso ou no máximo uma comédia brasileira, passou o recém lançado e premiado “Que Horas Ela Volta?”, filme brasileiro de Anna Muylaert, com Regina Casé e Camila Márdila nos papeis principais. Não vou me demorar explicando do que se trata, porque a essa altura vocês já devem saber. Por via das dúvidas, pros desavisados, vejam mais aqui .

Quando o filme chegou aos cinemas provocou uma enxurrada de textões, textinhos e bastante dissenso, aqui no blog também teve texto. ( aqui e aqui)  A luta de classes estava passando também nas nossa redes sociais. Cada um fazia sua leitura. É inegável que o filme toca num pilar não muito analisado e bem pouco admitido da nossa sociedade: a exploração do trabalho doméstico, quase sempre exercido por mulheres, em geral de baixa escolaridade, quase todas negras, muitas delas nordestina. Uma herança escravagista.

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Na exibição da Globo, na segunda-feira, dia 11,  o ibope foi excelente e o filme bombou nas redes sociais, como se fosse estreia, e mexeu com estruturas, de novo. Para mim, foi um experimento e tanto assistir o filme (no meu caso pela quarta vez), dessa vez com os comentários do twitter. Por óbvio que minha TL é minha bolha particular.  Ali estava gente de classe média como eu: ou éramos Fabinhos ou Bárbaras ou José Carlos ou todos eles ou no mínimo os convidados da festa de aniversário da Bárbara, que nem se dignaram a olhar para Val enquanto ela lhes servia.

Sim, estou colocando eu e vocês no mesmo patamar daquela família por vezes odienta, por vezes desprezível, mas tão como nós, porque a gente explora nossa empregadas, pede pra pegar uma água ao invés de levantar e ir lá buscar,  elas deixam de cuidar de seus filhos pra cuidar dos nossos, e no final o máximo que a gente faz é olhar pra elas e a vida delas com uma certa condescendência, porque a gente diz que é da família mas elas nunca partilharão da herança.

Enfim, são pequenas coisas que a gente já fez sem querer ou perceber ou já viu fazerem e se acostumou, simplesmente porque é assim. E em parte é isso que o filme é: um grande tapa na cara. Porque a gente precisa se reconhecer nas nossa falhas, nos nossos privilégios para poder melhorar. Ficar varrendo isso para debaixo do tapete e se achando muito legal só porque é de esquerda não resolve nada, não muda nada. A mudança começa dentro da sua casa mesmo. Tratando as pessoas com dignidade, respeito e profissionalismo.

E aí tem a Jéssica. Nossa, como amo a Jéssica! não é a toa que a frase que mais adoro no filme é da Jéssica: “Eu não me acho melhor do que ninguém. Eu só não me acho pior.” A Jéssica é essa nova geração que está aí no Movimento Passe Livre, na Ocupação das Escolas ou que passou na UNB – Universidade de Brasília-  sendo aluna de colégio público. E a classe média não perdoa isso. Olha com preconceito, desdém e .. raiva.

Óbvio que também teve muita gente que refletiu com o filme, analisou as relações de mães e filhos estabelecidas nele, mas a enxurrada de reclamações , principalmente sobre a Jéssica, não pude deixar de notar. Quantos tuítes eu vi reclamando da folga da Jéssica porque abriu a geladeira, porque tomou sorvete, afinal era visita?! Ué, mas não disseram pra ela se sentir em casa? Ao menos aqui em casa quando vem visita eu deixo à vontade. Mas é que Jéssica não era visita, né? Era a filha da empregada, e aí não merece ser tratada como “visita de verdade”. Não merece o quarto de visitas, merece um colchão novo, olha que bondade, no chão. Já tá até demais, né?

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E assim é. Sempre que se debate sobre o filme, ele toma essa proporção imensa, desse fosso social gigantesco que temos, dessa exploração e divisão de classes no Brasil que nunca é falada com clareza e, assim como o racismo, varrida para debaixo do tapete. O brasileiro é avesso a determinados conflitos, aos que mexem com as estruturas que lhe favorecem.  Mas é preciso, sim, falar disso, cada vez mais e esse é o maior mérito do filme. 

Uma sociedade mais igualitária passa pelo reconhecimento de privilégios e pelo abandono desses para uma diminuição do fosso social, sem isso não há como ter um país melhor em futuro algum. 

Palhaçando de lugares

Tem um filme muito lindo do Tim Burton que fala sobre natal. É um desenho. A personagem principal é o Jack, uma simpática caveira que assusta as pessoas no dia das bruxas mas que resolve sair do script e ocupar o papel do Papai Noel na noite de natal… Obviamente o trem descarrilha solto… A dica é ver o filme e – incrivelmente, a versão dublada é excelente, as músicas funcionam excelentemente em português – depois contar aqui.

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Mas a questão toda não é o filme. Este texto aqui, de véspera de véspera de natal, quer dar a ideia mágica da gente se permitir um pouco ser o Jack. Sair da casinha, despirocar, descabelar o palhaço que mora na nossa alma. E faço este convite com uma única e expressiva vontade – ou desejo, palavrinha lúbrica parente de algum grau da vontade – que é o de possibilitar gozar em outras frentes, reconhecer outros espelhos, calçar sapato na cabeça, calcinha no peru, cueca na prexa. Sair como o Jack numa noite de natal.

Tá… fica com cara de auto ajuda este palavrório todo. Eu sei, sabemos. Mas juro que não é esta a intenção deste texto pré natalino. Esses dias de dois mil e quinze tem pesado demais. O ar tá carregado de intolerâncias, de panelas com bile, de sabedorias definitivas, de papai noel de vermelho mesmo que faça um calor da porra lá fora. Não importa aqui quais as concepções, posições, preservativos que se use, abuse ou cante.

O desejo é outro, é se permitir estar em outro papel. Buscar nesta transitoriedade fugaz alguma empatia, algum elemento novo para caraminholas, uma nova camisola para as ideias, um samba canção para vestir argumentos.

No filme do Tim Burton, apesar das cousas aparentemente não darem certo, dão: e muito…

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

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Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

os não quereres

Não quero. Me falta saco, me falta vontade, me falta empenho, me faltam forças. Não quero. Aliás, sim, quero. Quero a possibilidade de exercitar o meu amplo e total direito à recusa, a dizer não.

Desde quando se criou a convenção de que nós devemos viver para dizer o sim? Na minha cabeça isso sempre pareceu o padrão. Não transgredir, ser um corpo manso, simpático, apático, detentor da única possibilidade de dizer a plenos pulmões: SIM. Pois não quero.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Também não sei que eu quero. Tampouco sei se preciso descobrir. Só sei que o dizer não me excita! Me causa um estremecimento, me aquece, me dá vontades. Me revela que dizer NÃO não destrói o mundo, como se meu não fosse um bomba atômica.

Dizer não transgride, em primeiro lugar, com o meu castelo de certezas e com meu mar de dúvidas. Depois o mundo, sé é que o mundo se importa com o meu não. Sé é que o mundo vai sobreviver com o meu não. Que aceitemos, o mundo e eu, é um NÃO!

Não sei onde isso vai dar, o quanto o não querer importa, afeta, afasta ou aproxima. Mas é não, ao menos por enquanto. É não para derrubar minhas muralhas, nem que seja para construir novas, mas primeiro eu preciso ver o que há além das velhas. Ou, como diria a Lispector, é perder a terceira perna, par então buscar novos pontos de sustentação.

 É um não querer para tirar-se da normalidade, nem sei se para uma anormalidade, ou para-normalidade, mas definitivamente para transgredir-se. Pra por fim, ou dar uma pausa, ao excesso de sins… e é tão engraçado como o plural de SIM se traduz em “pecados” em outra língua. É hora dos NÃOS

Nem mesmo Shonda Rhimes escapa da desnecessária pressão para se casar

Texto de Sesali B. Publicado originalmente com o título: ‘Not even Shonda Rhimes can escape de unwanted pressure to get married’, em 11/11/2015 no site Feministing. Tradução de Bia Cardoso.

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Shonda Rhimes. Foto de Joe Pugliese/August Images.

Shonda Rhimes, uma das mais bem sucedidas produtoras e escritoras negras da televisão americana, tem conquistado algumas coisas. Ela foi nomeada para três prêmios Emmys. Ela é a produtora e principal roteirista de quatro programas de grande sucesso da rede ABC. Ela tem um doutorado honorário. Qual destas realizações lhe renderam a maioria dos elogios em sua vida? Nenhuma delas.

Em vez disso, Shonda contou a NPR, que as pessoas lhe fizeram mais elogios quando ela tinha um homem elegível-para-o-casamento em seu braço:

Eu nunca recebi tanta aprovação, elogios, carinhos e felicitações como quando tinha um cara no meu braço, com quem as pessoas achavam que eu ia me casar. Foi incrível. Quero dizer, ninguém me parabenizou tão fortemente quando eu tive meus três filhos. Ninguém me felicitou tão fortemente quando eu ganhei um Globo de Ouro, ou um Peabody, ou meus 14 Prémios NAACP Image Awards. Mas quando eu tinha um cara em meu braço e as pessoas achavam que eu ia casar, as pessoas perderam suas mentes como se Oprah estivesse dando carros. Foi inacreditável. … Eu era fascinada por isso, porque eu pensava: como eu não sou Dr. Frankenstein, eu não fiz esse cara — ele apenas está lá. Todo o resto tinha relação com algo que eu tive que fazer.

O Feministing já abordou os mitos sobre as mulheres solteiras — sempre chamadas de solitárias e desesperadas por um casamento. Nós também falamos sobre de que modo aplicativos de namoro como o Tinder estão chamando a atenção para o fato de que as mulheres estão interessadas em — * suspiro * — sexo ocasional (algumas vezes queer), também. Mas relatos como o de Shonda nos lembram que ainda há uma narrativa predominante de que se você é uma mulher solteira, independente de suas outras realizações e contribuições para o mundo, o seu principal objetivo na vida deve ser o casamento. Em última análise, o seu potencial marital é a verdadeira medida da feminilidade.

E, eu seria negligente ao não mencionar o significado desta expectativa quando aplicada a Shonda Rhimes. Mais do que uma diferença entre ter um triunfo desejável ou ser a “senhora louca dos gatos”, ser uma mulher solteira que também é negra significa estar envolta em estigmas e patologia. Começando pelas interesseiras que só querem dinheiro, passando pelas negras raivosas até as mães inapropriadas, as mensagens referentes as mulheres negras são quase sempre negativas e problemáticas. Algumas vezes, os sucessos nas carreiras de mulheres negras solteiras apenas exacerbam esses aspectos, porque, aparentemente, ainda temos dificuldade para entender a complexidade de mulheres que precisam ao mesmo tempo trabalhar e ter famílias. As pessoas ainda estão à procura de um “felizes para sempre” heteronormativo para validar o sucesso profissional, educacional e financeiro das mulheres negras.

Para reiterar o ponto de Shonda Rhimes, qualquer cara potencial que ela tenha significa que “ele apenas está lá”. Eu sou grata por ter uma comunidade que me apoiaria se me apaixonar e quiser estar com alguém que me faz feliz, e tenho certeza que com Shonda também seria assim. Mas nossos parceiros não nos definem. Eles não aumentam ou diminuem o nosso sucesso ou valor. E eles certamente não são algo maior do que a criação de um império de mídia como ShondaLand!

Autora

Sesali B. escreve no site Feministing e também em seu blog: Bad Fat Black Girl. Twitter: @BadFatBlackGirl.

Bia Cardoso é autora convidada, feminista e lambateira tropical.

“ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

Há alguns breves dias, vi em vários espaços na internet o meme “Já acabou Jéssica?” e não entendia de onde havia saído a frase, muito menos, o contexto dela. Também não dei muita importância, e, particularmente, não tenho muito apreço por memes, uma vez que muitos são produzidos com o intuito de rir da dor do outro.

E com esse, o da Jéssica, não foi diferente.

Eis que uma aluna minha me mostrou o afamado vídeo. Em pouco mais que dez segundos, uma briga de duas adolescentes é filmada, na saída de uma escola. Uma delas está no chão e é socada e chutada fortemente. Jovens fazem um círculo pra apreciar melhor o “espetáculo” que ali se desenrola na frente deles. Elas, as meninas, brigam em público, se machucam, se expõem; a cena é de uma tristeza e violência só. As pessoas à volta gritam animadamente e se mostram excitadas diante da ocorrência da agressão. Ninguém separa. Ninguém ampara. Ninguém as acolhe. Apenas filmam, observam de um jeito mórbido e, mais à frente, compartilham o vídeo de quinze segundos com o que consideram uma briga “engraçada e cotidiana” de duas adolescentes.

Daí em diante já conhecemos bem o script: o vídeo viraliza em poucos dias, se torna o assunto mais comentado da internet e a fala de uma das garotas se torna um bordão, executado a torto e a direito com o único objetivo: ridicularizar e rir da dor de outra pessoa.

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Não, pra mim não dá. Não consigo achar que se possa fazer humor diante da desgraça alheia, da violência, de algo que deveríamos firmemente repudiar e combater. Fiquei consternada quando vi o vídeo. Por tantos motivos, porque sou mulher, porque já fui supervisora escolar e já apartei brigas (de meninos e meninas), porque sei o quanto é triste estar no meio do escracho público, porque sei o quanto isso violenta a dignidade de um ser humano.

A adolescente que apanha, tentando ainda mostrar que não foi vencida, querendo não se sentir tão humilhada e violentada por uma plateia sedenta, diz pra se defender: “já acabou?”. Puro mecanismo de defesa da adolescente pra tentar se proteger e resguardar ainda alguma dignidade. E é justamente esse dolorido ato final do qual milhares de pessoas riem. Ninguém se solidariza. Mais importante do que se preocupar com a menina que apanhou, é promover o riso cúmplice.

E isso diz muito sobre nós. De como nossas formas de convívio são pautadas pela violência já banalizada e introjetada como um patrimônio imaterial no DNA brasileiro. De como nos portamos (mal) diante da dor dos outros. De como na iminência de ajudar, socorrer, dar apoio, preferimos com frieza lançar o aparelho de celular e filmar. De como optamos compartilhar e espalhar às expensas o riso obtido do infortúnio alheio.

Impressiona também que a cobertura sobre o caso não tenha desencadeado nenhum tipo de reflexão sobre a cultura violenta a qual vivemos. Ao procurar saber mais da briga das duas adolescentes, li que houve a atuação do Conselho Tutelar e que ambas já “fizeram as pazes”. De acordo com a matéria, a briga foi motivada por ciúmes de um rapaz, namorado de uma das meninas (e sabemos muito bem que somos culturalmente educadas pra odiarmos umas às outras, pra nos vermos como rivais que disputam homens, beleza e juventude). Ao que consta na reportagem, a mãe da adolescente que apanhou não está nada bem devido a forma como a filha foi superexposta e ridicularizada perante, apenas de… todo o mundo cibernético.

Eu entendo a dor dessa mãe, sabe? O que não compreendo e não aceito, é essa falta de alteridade e empatia que se apossa de espectadores sedentos por grandes e pequenas tragédias da vida real. Uma sociedade que se ouriça e que se excita em consumir e compartilhar violência em seu estado puro, é uma sociedade que me deixa desesperançosa por dias melhores.

Daí que ninguém reflete sobre a responsabilidade da pessoa que espalhou o vídeo. Ou das pessoas que compartilharam e estão ainda, bovinamente compartilhando o dito cujo. Ninguém pensa que poderá ter contribuído pra arruinar uma vida com essa atitude, prenhe de violência simbólica.

Afinal de contas, não sou eu que estou no meio daquela briga, não é mesmo? Pra que ter empatia e alteridade? O que significa isso? Não se sabe.

E com a pontinha de otimismo que ainda me resta, espero que um dia nós tenhamos mais pessoas que apartam brigas, pacificam conflitos, resolvam pendências na base do diálogo do que pessoas que saiam por aí dando porradas a esmo e outras filmando, debochando e compartilhando agressões com a insensibilidade e a banalidade de quem ao mesmo tempo come pipoca e consome a dor alheia.

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