Sobre ” Bela, Recatada e do Lar” e a participação masculina

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

É apoio. Eu acredito em movimentos e campanhas capazes de mobilizar o maior número de agentes de luta. Não é o mesmo de ridicularizar e nem é o mesmo de se apropriar. Creio que possa haver um sentido político na participação de homens nesta campanha, que seja o do reconhecimento do seu papel na construção deste estereótipo, de um papel subalterno para a mulher, de um papel decorativo e passivo.

Bela, Recatada e do Lar é ironia de luta. Não estou minimamente preocupada em dizer quem deve ou não postar fotos, de verdade. Gostaria mesmo que percebessemos que alguns discursos constroem uma vilanização de Marcela ou de Dilma ( por comparação), como se houvesse nela qualquer responsabilidade pelos discursos que tentam enquadrá-la. Essa violência é muito mais importante de ser discutida.

Mulheres não estão deixando de postar fotos porque homens estão postando. A luta não está sendo enfraquecida porque homens estão postando. A visibilidade não deixa de ser feminina porque homens estão postando.

Eu acharia terrível a participação masculina, se ela minasse ou ofuscasse a participação feminina. Isso não está ocorrendo.

” Ah, mas o homem não lida com este estereótipo”, sim, todos sabem disso e ele postar uma foto com esta legenda não fará com que achemos que ele sofra.

” Não quero homens falando por mim”, gente… Postar foto não é falar por mim, mesmo. Querer falar por mim é dizer como eu devo agir, pensar e me posicionar.

Espero que os homens possam conhecer os mecanismos de produção destes estereótipos e que hajam no sentido de combatê-los, pra além disso, não me parece bom motivo pra briga, né não?

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Comunitariamente Cuidar

Sim, a gente tá bem ali no zóio do furacão da História. Dessa com H maiúsculo, que falaremos em breve nas escolas, que em breve ficará no passado, que em breve falaremos “naquele tempo, eu vivi naquele tempo!”. E daí? Me parece e posso estar bem enganada disso, que há por um lado uma necessidade de se falar sobre tudo, haja vista o imediatismo e a relação em tempo real que nos apresenta as redes sociais, por outro muitas vezes um discurso que reivindica a todo momento que tomemos posição. E aí muitas vezes agimos por impulso, por ausência de reflexão. Isso não é em si necessariamente ruim, mas permite que muitas vezes deixemos passar coisas e reproduzimos situações que precisam ser criticadas.

Recentemente uma foto circulou nas redes sociais expondo um casal, dois cachorros, uma babá que empurrava dois bebês  num carrinho indo para uma manifestação. Não entrarei nas críticas à marcha X, Y, Z e tals. Não é sobre isso. Também quero deixar que critico toda forma de exposição não consentida, havia ali uma mulher negra trabalhadora que foi chamada a falar publicamente, que se sentiu violada e exposta. Haviam ali crianças, cuja proteção é dever de toda sociedade. Se queremos criticar formas de vida, escolhas, privilégios, é perigoso que nos valhamos de recursos que expõem mulheres negras trabalhadoras e crianças. Se mulheres negras que realizam trabalho doméstico são exploradas no Brasil, muito em razão de uma herança escravocrata, cabe a nós lutar para que essas mulheres tenham trabalho digno, defender a regulamentação, formalização, garantia de direitos, e não reproduzirmos discursos paternalistas. Como se mulheres fossem incapaz de se organizar politicamente, como se domésticas fossem desprovidas de conteúdo político, como se fossem incapazes de lutar por vida digna. A PEC das Domésticas é resultado da militância de mulheres negras trabalhadoras domésticas organizadas, elas não precisam de nosso discurso paroquial, elas precisam que respeitemos sua luta, sua autonomia, e sua força. Isso não quer dizer que não reconheço que há desigualdade, abusos, violações relativas ao trabalho doméstico, mas apenas que não é pela via pater/maternalista que travaremos um enfrentamento à tudo isso.

Bom, dito isso, tomo o rumo do que quero escrever. Sim, to atrasadinha no debate, sou dessas. Voltando a foto, e apesar de lamentar a exposição, quer eu goste quer não, isso promoveu um debate, li e ouvi muitas pessoas criticando o casal sob o argumento de que “Se não quer cuidar nem no domingo porquê tiveram filhos?”. E acho esse argumento bem temerário, tão temerário quanto culpabilizar a mulher que aborta porque não se preveniu antes de engravidar.

A maternidade, ainda que seja uma escolha nem sempre é simples de se sustentar. Existe um ideal de maternidade, e existe a maternidade que se apresenta na sua vida, muitas vezes diametralmente oposta daquilo que se idealizou. A maternidade ainda que uma escolha nem sempre é feita com liberdade e autonomia, existe um sem fim de mecanismos discursivos de controle sobre o corpo da mulher que operam o desejo, são um sem fim de familiares perguntando quando vem o bebê, é um circulo de amizades de baby boom, é o companheiro, é a ginecologista, amigos e amigas, vizinhos. A maternidade compulsória é algo presente e sistemático na nossa sociedade. Ai me parece perverso colocar a questão nesses termos “se não quer cuidar porque teve”. Conheço muitas mulheres que ingressaram em profunda depressão tão logo foram mães, e cuidar muitas vezes exige energia da qual não dispomos, ainda que essa maternidade tenha sido desejada, e habite amor nela. Eu mesma tenho uma dificuldade imensa em cuidar, acolho essa dificuldade, ela diz muito de mim, reconheço essa minha limitação. É nesse exercício que consigo elaborar o cuidado.

Cuidar requer abertura, requer estar à merce, requer diálogo, requer um olhar para o outro que diz muito de nós, e muitas vezes não queremos saber sobre esse dizer. Muitas vezes cuidar é um processo dolorido. Cuidar é comunicação, não à toa encaminhamos ofícios, cartas, encomendas, etc., aos cuidados de Fulano. Cuidar também é pensamento “Ela cuidou do que iria dizer”. Cuidar é de uma grande complexidade, e é para além do trocar fralda, dar banho, ver lição de casa e realizar a manutenção da vida. Reduzir o debate ao “se não quer cuidar porque teve” é uma grande falha.

Muitos pais e mães ricos e pais e mães pobres não dão conta de cuidar de seus filhos, o que nem sempre é indiferença e rejeição. Aos ricos há a possibilidade de ter uma babá, a criança é amparada de alguma forma, ainda que boa parte das babás deixem seus filhos muitas vezes desamparados. Aos pobres o caminho é mais perverso, basta pesquisar acerca dos abrigos e a quantidade de crianças inadotáveis abandonadas. E isso não quer dizer que todo mundo que tem babá não cuida, rejeita e é indiferente, muito menos que o casal da foto abandonou os filhos.

Porque eu falei tudo isso, porque o fenômeno de não suportar a insustentável leveza do cuidado não é algo do casal x ou y, coxinha ou esquerda, marchante ou não marchante, do Pinheiros ou Pinheirinho, é algo presente em todas as classes, ideologias, religiões. Abandonamos crianças a todo momento, escolas particulares de renome estão abarrotadas delas, abrigos também, nas casas, em todos os lugares.  Acredito que a possibilidade de mudança e a responsabilidade pelas crianças precisa caminhar para relações comunitárias de cuidado, esvaziar o conteúdo dos papeis de pai e mãe, esvaziar a idealização e a cristalização desses papéis. Não olhar os filhos dos outros nem aos seus como propriedade, para que a responsabilidade não se limite e se reduza aos pais, e seja sobretudo de todos nós. Para que todas as crianças sejam acolhidas e amadas, independente de quem as gerou, de quem as pariu. Eu gosto muito de uma estrofe de uma poesia que se chama Amor do Maiacoviski:

Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.”

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*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Diversidade, Visibilidade e Tolerância

Admitir que o preconceito está na gente. Exatamente isso, falar em diversidade e tolerância é admitir que o preconceito está em nós. Nós mesmo, frutos de processos de socialização e educativo, que recebemos por anos uma chuva de padrões de comportamento, pensamento e atitude, somo a primeira barreira para a promoção da diversidade. Então, primeiro passo na promoção da tolerância é descer do pedestal.

Não é possível começar um debate sobre diversidade, visibilidade e tolerância, se quem fala sobre isso não admite que praticar a diversidade e a tolerância é, antes de tudo, um processo individual de consciência, seguido de uma prática discursiva, de edução e auto-educação e prática social efetiva. Sim, porque é fundamental se livrar da demagogia do discurso (do midiático e o das redes sociais) e partir para ação as afirmativas e as negativas (sim, as negativas, aquela que se resume em não exaltar como “folclore” atos de visibilidade).

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Paula Rego – Branca de Neve engole a maçã envenenada

E a visibilidade, né… Vamos combinar, visibilidade é um ato de quem é diverso! Se você não é diverso, não tente tirar quem é do armário simplesmente pelo fato de que você quer praticar o seu discurso sobre diversidade. É muito bonita a empatia, a fraternidade com as pessoas diversas queridas, mas expô-las como, para o seu bel prazer egóico, não é legal.

E lembre-se que ao convidar um amigo pra uma festa sua, não inclua o adendo: “vai ter um monte de gente legal, gays, lésbicas, trans*, o pessoal do candomblé que vai fazer um batuque, um colega do mestrado que é refugiado sírio e uns ativistas do poliamor”, convide só para a festa… deixe ele descobri que não há nada de diferente em encontrar essas pessoas em uma festa ou em ir a um evento do cerimonial do Itamaraty… NÃO OBJETIFIQUE QUEM É DIVERSO. Quer dizer quem vai, diga os nomes das pessoas, de onde você as conhece, mas não a característica diversa delas.

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Paula Rego – Passos do Coelho

Promover a diversidade por meio da tolerância é romper com o processo de silenciamento, naturalizando a visibilidade de quem quer ser visível, porque tem gente que não quer, ou não quer 24h, ou não quer em certos ambientes, aceite isso. Quer discutir, excelente! Estamos aqui para isso e precisamos disso! Então, dê voz às experiências das pessoas diversas, replique a voz dessas pessoas, difunda os atos públicos dessas pessoas, mas não pense que promover a diversidade é expor a vida privada dessas pessoas, porque não é.

E é isso, promover diversidade é ensinar a tolerar os processos de visibilidade, é naturalizar esse processo, é permitir que a diversidade sexual, de gênero, racial, religiosa, de corpo, de deficiência e quaisquer outras sejam parte do dia a dia. É ensinar que os preconceitos aos diversos são resultados de processos sociais que devem ser rompidos e que depende de nós preconceituosos rompê-los! O mais difícil é sai do discurso para a prática, mas a gente pode começar a qualquer minuto.

Que Horas ela Volta? pelo olhar da classe média nas redes sociais

Segunda-feira, o programa Tela Quente que tradicionalmente exibe algum blockbuster do cinema norteamericano com muito tempo de atraso ou no máximo uma comédia brasileira, passou o recém lançado e premiado “Que Horas Ela Volta?”, filme brasileiro de Anna Muylaert, com Regina Casé e Camila Márdila nos papeis principais. Não vou me demorar explicando do que se trata, porque a essa altura vocês já devem saber. Por via das dúvidas, pros desavisados, vejam mais aqui .

Quando o filme chegou aos cinemas provocou uma enxurrada de textões, textinhos e bastante dissenso, aqui no blog também teve texto. ( aqui e aqui)  A luta de classes estava passando também nas nossa redes sociais. Cada um fazia sua leitura. É inegável que o filme toca num pilar não muito analisado e bem pouco admitido da nossa sociedade: a exploração do trabalho doméstico, quase sempre exercido por mulheres, em geral de baixa escolaridade, quase todas negras, muitas delas nordestina. Uma herança escravagista.

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Na exibição da Globo, na segunda-feira, dia 11,  o ibope foi excelente e o filme bombou nas redes sociais, como se fosse estreia, e mexeu com estruturas, de novo. Para mim, foi um experimento e tanto assistir o filme (no meu caso pela quarta vez), dessa vez com os comentários do twitter. Por óbvio que minha TL é minha bolha particular.  Ali estava gente de classe média como eu: ou éramos Fabinhos ou Bárbaras ou José Carlos ou todos eles ou no mínimo os convidados da festa de aniversário da Bárbara, que nem se dignaram a olhar para Val enquanto ela lhes servia.

Sim, estou colocando eu e vocês no mesmo patamar daquela família por vezes odienta, por vezes desprezível, mas tão como nós, porque a gente explora nossa empregadas, pede pra pegar uma água ao invés de levantar e ir lá buscar,  elas deixam de cuidar de seus filhos pra cuidar dos nossos, e no final o máximo que a gente faz é olhar pra elas e a vida delas com uma certa condescendência, porque a gente diz que é da família mas elas nunca partilharão da herança.

Enfim, são pequenas coisas que a gente já fez sem querer ou perceber ou já viu fazerem e se acostumou, simplesmente porque é assim. E em parte é isso que o filme é: um grande tapa na cara. Porque a gente precisa se reconhecer nas nossa falhas, nos nossos privilégios para poder melhorar. Ficar varrendo isso para debaixo do tapete e se achando muito legal só porque é de esquerda não resolve nada, não muda nada. A mudança começa dentro da sua casa mesmo. Tratando as pessoas com dignidade, respeito e profissionalismo.

E aí tem a Jéssica. Nossa, como amo a Jéssica! não é a toa que a frase que mais adoro no filme é da Jéssica: “Eu não me acho melhor do que ninguém. Eu só não me acho pior.” A Jéssica é essa nova geração que está aí no Movimento Passe Livre, na Ocupação das Escolas ou que passou na UNB – Universidade de Brasília-  sendo aluna de colégio público. E a classe média não perdoa isso. Olha com preconceito, desdém e .. raiva.

Óbvio que também teve muita gente que refletiu com o filme, analisou as relações de mães e filhos estabelecidas nele, mas a enxurrada de reclamações , principalmente sobre a Jéssica, não pude deixar de notar. Quantos tuítes eu vi reclamando da folga da Jéssica porque abriu a geladeira, porque tomou sorvete, afinal era visita?! Ué, mas não disseram pra ela se sentir em casa? Ao menos aqui em casa quando vem visita eu deixo à vontade. Mas é que Jéssica não era visita, né? Era a filha da empregada, e aí não merece ser tratada como “visita de verdade”. Não merece o quarto de visitas, merece um colchão novo, olha que bondade, no chão. Já tá até demais, né?

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E assim é. Sempre que se debate sobre o filme, ele toma essa proporção imensa, desse fosso social gigantesco que temos, dessa exploração e divisão de classes no Brasil que nunca é falada com clareza e, assim como o racismo, varrida para debaixo do tapete. O brasileiro é avesso a determinados conflitos, aos que mexem com as estruturas que lhe favorecem.  Mas é preciso, sim, falar disso, cada vez mais e esse é o maior mérito do filme. 

Uma sociedade mais igualitária passa pelo reconhecimento de privilégios e pelo abandono desses para uma diminuição do fosso social, sem isso não há como ter um país melhor em futuro algum. 

Palhaçando de lugares

Tem um filme muito lindo do Tim Burton que fala sobre natal. É um desenho. A personagem principal é o Jack, uma simpática caveira que assusta as pessoas no dia das bruxas mas que resolve sair do script e ocupar o papel do Papai Noel na noite de natal… Obviamente o trem descarrilha solto… A dica é ver o filme e – incrivelmente, a versão dublada é excelente, as músicas funcionam excelentemente em português – depois contar aqui.

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Mas a questão toda não é o filme. Este texto aqui, de véspera de véspera de natal, quer dar a ideia mágica da gente se permitir um pouco ser o Jack. Sair da casinha, despirocar, descabelar o palhaço que mora na nossa alma. E faço este convite com uma única e expressiva vontade – ou desejo, palavrinha lúbrica parente de algum grau da vontade – que é o de possibilitar gozar em outras frentes, reconhecer outros espelhos, calçar sapato na cabeça, calcinha no peru, cueca na prexa. Sair como o Jack numa noite de natal.

Tá… fica com cara de auto ajuda este palavrório todo. Eu sei, sabemos. Mas juro que não é esta a intenção deste texto pré natalino. Esses dias de dois mil e quinze tem pesado demais. O ar tá carregado de intolerâncias, de panelas com bile, de sabedorias definitivas, de papai noel de vermelho mesmo que faça um calor da porra lá fora. Não importa aqui quais as concepções, posições, preservativos que se use, abuse ou cante.

O desejo é outro, é se permitir estar em outro papel. Buscar nesta transitoriedade fugaz alguma empatia, algum elemento novo para caraminholas, uma nova camisola para as ideias, um samba canção para vestir argumentos.

No filme do Tim Burton, apesar das cousas aparentemente não darem certo, dão: e muito…

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

marcha

Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

os não quereres

Não quero. Me falta saco, me falta vontade, me falta empenho, me faltam forças. Não quero. Aliás, sim, quero. Quero a possibilidade de exercitar o meu amplo e total direito à recusa, a dizer não.

Desde quando se criou a convenção de que nós devemos viver para dizer o sim? Na minha cabeça isso sempre pareceu o padrão. Não transgredir, ser um corpo manso, simpático, apático, detentor da única possibilidade de dizer a plenos pulmões: SIM. Pois não quero.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Também não sei que eu quero. Tampouco sei se preciso descobrir. Só sei que o dizer não me excita! Me causa um estremecimento, me aquece, me dá vontades. Me revela que dizer NÃO não destrói o mundo, como se meu não fosse um bomba atômica.

Dizer não transgride, em primeiro lugar, com o meu castelo de certezas e com meu mar de dúvidas. Depois o mundo, sé é que o mundo se importa com o meu não. Sé é que o mundo vai sobreviver com o meu não. Que aceitemos, o mundo e eu, é um NÃO!

Não sei onde isso vai dar, o quanto o não querer importa, afeta, afasta ou aproxima. Mas é não, ao menos por enquanto. É não para derrubar minhas muralhas, nem que seja para construir novas, mas primeiro eu preciso ver o que há além das velhas. Ou, como diria a Lispector, é perder a terceira perna, par então buscar novos pontos de sustentação.

 É um não querer para tirar-se da normalidade, nem sei se para uma anormalidade, ou para-normalidade, mas definitivamente para transgredir-se. Pra por fim, ou dar uma pausa, ao excesso de sins… e é tão engraçado como o plural de SIM se traduz em “pecados” em outra língua. É hora dos NÃOS

Nem mesmo Shonda Rhimes escapa da desnecessária pressão para se casar

Texto de Sesali B. Publicado originalmente com o título: ‘Not even Shonda Rhimes can escape de unwanted pressure to get married’, em 11/11/2015 no site Feministing. Tradução de Bia Cardoso.

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Shonda Rhimes. Foto de Joe Pugliese/August Images.

Shonda Rhimes, uma das mais bem sucedidas produtoras e escritoras negras da televisão americana, tem conquistado algumas coisas. Ela foi nomeada para três prêmios Emmys. Ela é a produtora e principal roteirista de quatro programas de grande sucesso da rede ABC. Ela tem um doutorado honorário. Qual destas realizações lhe renderam a maioria dos elogios em sua vida? Nenhuma delas.

Em vez disso, Shonda contou a NPR, que as pessoas lhe fizeram mais elogios quando ela tinha um homem elegível-para-o-casamento em seu braço:

Eu nunca recebi tanta aprovação, elogios, carinhos e felicitações como quando tinha um cara no meu braço, com quem as pessoas achavam que eu ia me casar. Foi incrível. Quero dizer, ninguém me parabenizou tão fortemente quando eu tive meus três filhos. Ninguém me felicitou tão fortemente quando eu ganhei um Globo de Ouro, ou um Peabody, ou meus 14 Prémios NAACP Image Awards. Mas quando eu tinha um cara em meu braço e as pessoas achavam que eu ia casar, as pessoas perderam suas mentes como se Oprah estivesse dando carros. Foi inacreditável. … Eu era fascinada por isso, porque eu pensava: como eu não sou Dr. Frankenstein, eu não fiz esse cara — ele apenas está lá. Todo o resto tinha relação com algo que eu tive que fazer.

O Feministing já abordou os mitos sobre as mulheres solteiras — sempre chamadas de solitárias e desesperadas por um casamento. Nós também falamos sobre de que modo aplicativos de namoro como o Tinder estão chamando a atenção para o fato de que as mulheres estão interessadas em — * suspiro * — sexo ocasional (algumas vezes queer), também. Mas relatos como o de Shonda nos lembram que ainda há uma narrativa predominante de que se você é uma mulher solteira, independente de suas outras realizações e contribuições para o mundo, o seu principal objetivo na vida deve ser o casamento. Em última análise, o seu potencial marital é a verdadeira medida da feminilidade.

E, eu seria negligente ao não mencionar o significado desta expectativa quando aplicada a Shonda Rhimes. Mais do que uma diferença entre ter um triunfo desejável ou ser a “senhora louca dos gatos”, ser uma mulher solteira que também é negra significa estar envolta em estigmas e patologia. Começando pelas interesseiras que só querem dinheiro, passando pelas negras raivosas até as mães inapropriadas, as mensagens referentes as mulheres negras são quase sempre negativas e problemáticas. Algumas vezes, os sucessos nas carreiras de mulheres negras solteiras apenas exacerbam esses aspectos, porque, aparentemente, ainda temos dificuldade para entender a complexidade de mulheres que precisam ao mesmo tempo trabalhar e ter famílias. As pessoas ainda estão à procura de um “felizes para sempre” heteronormativo para validar o sucesso profissional, educacional e financeiro das mulheres negras.

Para reiterar o ponto de Shonda Rhimes, qualquer cara potencial que ela tenha significa que “ele apenas está lá”. Eu sou grata por ter uma comunidade que me apoiaria se me apaixonar e quiser estar com alguém que me faz feliz, e tenho certeza que com Shonda também seria assim. Mas nossos parceiros não nos definem. Eles não aumentam ou diminuem o nosso sucesso ou valor. E eles certamente não são algo maior do que a criação de um império de mídia como ShondaLand!

Autora

Sesali B. escreve no site Feministing e também em seu blog: Bad Fat Black Girl. Twitter: @BadFatBlackGirl.

Bia Cardoso é autora convidada, feminista e lambateira tropical.

“ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

Há alguns breves dias, vi em vários espaços na internet o meme “Já acabou Jéssica?” e não entendia de onde havia saído a frase, muito menos, o contexto dela. Também não dei muita importância, e, particularmente, não tenho muito apreço por memes, uma vez que muitos são produzidos com o intuito de rir da dor do outro.

E com esse, o da Jéssica, não foi diferente.

Eis que uma aluna minha me mostrou o afamado vídeo. Em pouco mais que dez segundos, uma briga de duas adolescentes é filmada, na saída de uma escola. Uma delas está no chão e é socada e chutada fortemente. Jovens fazem um círculo pra apreciar melhor o “espetáculo” que ali se desenrola na frente deles. Elas, as meninas, brigam em público, se machucam, se expõem; a cena é de uma tristeza e violência só. As pessoas à volta gritam animadamente e se mostram excitadas diante da ocorrência da agressão. Ninguém separa. Ninguém ampara. Ninguém as acolhe. Apenas filmam, observam de um jeito mórbido e, mais à frente, compartilham o vídeo de quinze segundos com o que consideram uma briga “engraçada e cotidiana” de duas adolescentes.

Daí em diante já conhecemos bem o script: o vídeo viraliza em poucos dias, se torna o assunto mais comentado da internet e a fala de uma das garotas se torna um bordão, executado a torto e a direito com o único objetivo: ridicularizar e rir da dor de outra pessoa.

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Não, pra mim não dá. Não consigo achar que se possa fazer humor diante da desgraça alheia, da violência, de algo que deveríamos firmemente repudiar e combater. Fiquei consternada quando vi o vídeo. Por tantos motivos, porque sou mulher, porque já fui supervisora escolar e já apartei brigas (de meninos e meninas), porque sei o quanto é triste estar no meio do escracho público, porque sei o quanto isso violenta a dignidade de um ser humano.

A adolescente que apanha, tentando ainda mostrar que não foi vencida, querendo não se sentir tão humilhada e violentada por uma plateia sedenta, diz pra se defender: “já acabou?”. Puro mecanismo de defesa da adolescente pra tentar se proteger e resguardar ainda alguma dignidade. E é justamente esse dolorido ato final do qual milhares de pessoas riem. Ninguém se solidariza. Mais importante do que se preocupar com a menina que apanhou, é promover o riso cúmplice.

E isso diz muito sobre nós. De como nossas formas de convívio são pautadas pela violência já banalizada e introjetada como um patrimônio imaterial no DNA brasileiro. De como nos portamos (mal) diante da dor dos outros. De como na iminência de ajudar, socorrer, dar apoio, preferimos com frieza lançar o aparelho de celular e filmar. De como optamos compartilhar e espalhar às expensas o riso obtido do infortúnio alheio.

Impressiona também que a cobertura sobre o caso não tenha desencadeado nenhum tipo de reflexão sobre a cultura violenta a qual vivemos. Ao procurar saber mais da briga das duas adolescentes, li que houve a atuação do Conselho Tutelar e que ambas já “fizeram as pazes”. De acordo com a matéria, a briga foi motivada por ciúmes de um rapaz, namorado de uma das meninas (e sabemos muito bem que somos culturalmente educadas pra odiarmos umas às outras, pra nos vermos como rivais que disputam homens, beleza e juventude). Ao que consta na reportagem, a mãe da adolescente que apanhou não está nada bem devido a forma como a filha foi superexposta e ridicularizada perante, apenas de… todo o mundo cibernético.

Eu entendo a dor dessa mãe, sabe? O que não compreendo e não aceito, é essa falta de alteridade e empatia que se apossa de espectadores sedentos por grandes e pequenas tragédias da vida real. Uma sociedade que se ouriça e que se excita em consumir e compartilhar violência em seu estado puro, é uma sociedade que me deixa desesperançosa por dias melhores.

Daí que ninguém reflete sobre a responsabilidade da pessoa que espalhou o vídeo. Ou das pessoas que compartilharam e estão ainda, bovinamente compartilhando o dito cujo. Ninguém pensa que poderá ter contribuído pra arruinar uma vida com essa atitude, prenhe de violência simbólica.

Afinal de contas, não sou eu que estou no meio daquela briga, não é mesmo? Pra que ter empatia e alteridade? O que significa isso? Não se sabe.

E com a pontinha de otimismo que ainda me resta, espero que um dia nós tenhamos mais pessoas que apartam brigas, pacificam conflitos, resolvam pendências na base do diálogo do que pessoas que saiam por aí dando porradas a esmo e outras filmando, debochando e compartilhando agressões com a insensibilidade e a banalidade de quem ao mesmo tempo come pipoca e consome a dor alheia.

Desvãos e Espaços Baldios

Nossas cidades são cheias de desvãos, de espaços baldios, de territórios públicos para onde são empurrados milhares de pessoas sem rosto e sem nome diante do mundo.  Quem entra naquele espaço torna-se tão invisível quanto um porteiro, um ascensorista, uma doméstica. É o mundo dos sem-teto, dos sacoleiros, das pessoas que dormem em rodoviárias ou salas de espera de hospitais, que lavam e secam a roupa nas fontes das praças. (…) Podem ter desaparecido como a Luísa Porto de Drummond,  como a Anastasia da família do czar, ou simplesmente como alguém que quis deixar para trás um nome sujo na praça, um rosto desprezado por alguém, uma vida que chegou a um beco-sem-saída e o jeito foi pular o Muro.


Esse trecho de um texto do Braulio Tavares sobre pessoas desaparecidas me trouxe à mente um filme de que gosto tanto, tanto. O filme, do Stephen Frears, chama-se “Coisas Belas e Sujas”. Um filme de várias camadas: escolha a sua. A minha, e a que tem a ver com o trecho acima, são os personagens. Personagens de desvãos, invisíveis na cosmopolita Londres e no pequeno hotel onde se passa boa parte da ação do filme.

coisasbelas

Okwe (Chiwetel Ejiofor), um nigeriano ilegal que de dia é motorista de táxi e à noite é recepcionista do hotel, era médico em seu país natal, mas teve que fugir após ser acusado de matar a mulher. Okwe aguenta a jornada dupla à base de estimulantes, e ajuda gente em situação similar à dele a se tratar de doenças inconfessáveis.

Senay (Audrey Tatou) é uma moça turca, muçulmana, que trabalha como camareira no hotel, embora tenha um visto que não lhe permite trabalhar. Ela deixa que Okwe durma em sua casa quando não está, já que não pode ficar sozinha com um homem que não seja seu parente, por motivos religiosos.

Não vou contar a história do filme aqui. O que me interessa é atardar um pouco o olhar sobre esses dois “invisíveis”: Okwe, Senay, que em Londres não têm nada. Não têm legalidade, não têm história, não têm memória. E no entanto têm. Como tanta gente. Tanta gente que vai embora da sua terra natal sem olhar para trás: largando a vida, a história, a pessoa que se é pra tentar sobreviver em outro lugar. Transparente. À margem. À beira. A cada dia.

Ao lado e no limiar da cidade que brilha e reluz, que se agita e palpita, desliza, latejante, a cidade dos invisíveis. Submundos. Túneis. Frestas. Ocos. Esquinas. Corredores de sombra. Tumores. Vulcões.

Stephen Frears, com delicadeza, entreabre esse espaço e, enquanto desenrola sua historia, restitui a Okwe, a Senay, a dignidade perdida por quem não é cidadão de lugar nenhum. Párias desse mundo que exclui tanta gente todo dia. Através de quem os apressados passam, como se não tivessem materialidade. Direito de ser. História, memória. Desiguais. Não-pertencentes. Na ponta dos pés, do coração batendo. Na beira dos lábios, do sotaque estrangeiro. Do olhar de viés. Desacolhidos. Despossuídos. Em carne viva. 

Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

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Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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