Abrir o olhar

Les Demoiselles d’Avignon. Picasso. <3

Abrir o olhar, era disso que falávamos. E de que continuei falando. Abrir o olhar. Dar-se conta de que beleza, feiúra, são conceitos construídos. Dar-se conta é o primeiro passo. Livrar-se dos padrões que não são nossos, voltar àquela fase, bebê, em que a gente não sabia ainda que existiam padrões e se encantava diferente: com cores, com texturas — uma pele macia, um colo confortável e aconchegante, morninho, um sorriso aberto, uns brilhos –, com jeitos, se encantava diferente e verdadeiramente, se encantava do nosso jeito. Antes. Antes de ouvir dizer que tal ou qual é bonito, que tal ou qual é feio. Antes de entender isso, de acreditar talvez. De incorporar no olhar.

Nu Descendant L’Escalier. Duchamp

Tem uns sofrimentos que percebo virem daí. E agora não estou falando de aceitação de nosso próprio jeito, de nosso próprio corpo (embora sempre também): estou falando do outro. Da aceitação do outro. De fulano que gosta de sicrana, gosta mesmo (e eu não ponho isso nem um segundo em dúvida), mas tem vergonha de apresentá-la aos amigos e conhecidos: fulana é “fora do padrão”. Do padrão de quem? Não dele, claro, que dela gosta; do padrão dos outros, daquela camisa-de-força que impingem a todo mundo que é o que se considera “a beleza certa”, e seu anverso, a não-beleza. Já ouvi histórias assim, de um fulano que saía com sicrana, que trepava com sicrana  (trepava: o desejo fazia-se presente, não é mesmo? desejo, essa prova dos nove), mas não saía em público. E a dor envolvida. E a aceitação por parte de sicrana. Que também acolho, que também acredito que faz parte. Ela, com ele, sentia-se bem. E aceita. Embora quisesse mais, sentisse falta da exposição, da “saída do armário”. Ele digladiava-se com seus próprios preconceitos, com sua própria necessidade de aceitação por parte dos pares. Ela-espelho. Ela-consciência. Ele-dogmas. Ele-insegurança. Ele-dificuldade.

Mulher tuaregue.

Tenho vontade de botar os dois no colo. De dizer “pronto, passou” e soprar o dodói. O dodói que é dos dois, que veio na forma do xarope amargo e intenso das normas e regras da estética social. Essa mesma que gera aquilo que chamo de “corpo-troféu”. O conquistado, através de muitas dores e dificuldades (o que aumenta, inclusive, seu valor): e pode ser exibido em capa de revista. O corpo domado para entrar nos padrões. Tem aquelas pessoas que, por circunstâncias meio genéticas, meio de criação, enquadram-se sem nenhum esforço nesses padrões: será a vida fácil para essas? Esse texto da Adriana Torres fala disso com muita propriedade, acho. Nem assim.

As possibilidades de agora, do século XXI, tecnologia, abundância de informações e de acessos, poderiam ser usadas para isso: para, a partir da ampliação do olhar, quebrar preconceitos, eliminar pré-julgamentos, acabar com padrões estéticos. Olho pra dentro, e tento buscar alguma vantagem nesses padrões: não encontro nenhuma, sinceramente. Só desvantagens. Só aprisionamentos. Só dores construídas. Só desencontros e impossibilidades.

E no entanto, nosso sistema de padronização acachapante parece fazer justo o inverso: a partir de certos centros muito bem estruturados de poder, disseminam caixinhas estreitas e exigem que todo mundo nelas se esprema. Leitos de Procusto. Pra caber, há que se cortar pés, há que se esticar pernas. Há que se alisar cabelos, que se perder quilos, que se afinar narizes, apagar rugas, definir abdômen, pernas, glúteos. Duro leito de Procusto onde tão poucos cabem por obra e graça da natureza, que tem mais o que fazer do que cuidar de leitos alheios.

Abrir o olhar, dizia eu. Alargar. Mudar a postura. Não precisa mexer nada, não precisa nem sair do lugar. É uma mudança bem interna, uma decisão de não deixarem dizer, de fora, o que é feio, o que é belo.
A pergunta, acho, é: o que te emociona?
A resposta, suspeito, é algo como: ainda não sei, mas quem sabe…? ;-)

E isso é um convite.
(caso não tenha ficado claro.)

P.S.
Só depois de ter escrito o post é que vi essa história, uma história que fala tão bem disso de que tentei falar aqui. Veredas possíveis. Novos olhares.

 

 

Estamos em reforma

Há cerca de um ano e meio, talvez influenciada pela Elis que cantava a tal da casa no campo, me mudei dum quitinete naquela avenida movimentada do bairro universitário e embrenhei-me no verde.  Ao invés de viver a paz e o bucolismo prometidos musicalmente, foi desde então que passei a andar com uma placa de “estamos em reforma” pendurada no pescoço.

Pedreiros, tijolos, cimento, barulho, arrastar móveis, crises de stress, dor de coluna, tem sido uma constante, mas também as novidades e descobertas diárias desse “sentir-se em casa” diferente do antes.

Como tenho pouco dinheiro, o lugar que já foi um ateliê de tijolinho aparente e que nem banheiro tinha, tem se transformado num lar muito de pouquinho em pouquinho, com a ajuda quinzenal e nem sempre competente, mas confortadora e falante de Aldenir, o pedreiro.

Poético, né?

É.

Ou era.

Até dia desses, em que o inverno começou a dar o ar de sua graça e a chuva infiltrou-se em cascatas pela janela nova da cozinha e aranhas caranguejeiras e armadeiras passaram a me lembrar constantemente que eu “não estava mais no Texas, Totó”.

Doze palavrões, uma garrafa e meia de vinho, mil arrependimentos suspirados de saudade da “civilização” depois  foi quando intensifiquei o pensar acerca dum “habitar” biscate.  Será que “isso” existe?

Enfim, lembrei que independente de onde e quando gosto de decoração, curto organizar os detalhes e planejar confortos coloridos, mas diferente dos apartamentos impecáveis das revistas que tratam do tema, sei que meus espaços sempre estiveram longe da perfeição. Ainda bem. Ainda bem?

Fui dormir bêbada, um pouco mais apaziguada e sonhei com uma promoção sensacional de telhas e madeiramento.

Acordei de ressaca, dei um “jeitinho” na janela com a cortina do box, fui trabalhar e na volta comprei flores para plantar no vaso terracota. Não consigo imaginar o que alguma outra biscate, depois de um stress qualquer, resolvesse fazer… se arrumar para alguma balada?

Mas sei que desejo a nós duas é que  tenhamos ambas “festas” sensacionais. Andando descalças no jardim ou circulando de salto alto em algum piso espelhado.

Pois é, o fato é que acredito que uma casa, assim como nossas vidas, nunca está pronta.  Mas podemos dar um tempo, curtir o que já foi feito e esperar que o temporal diminua. Também podemos arrumar as malas, visitar outras paisagens, transitar entre as possibilidades, com a certeza de que há um logo ali para onde voltar.

E que só para alguns isso é “bom”…  para mim pelo menos tem sido.

Domingando

“Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra”*.

 pina2

Então eu te olhei com os olhos livres de teorias. O dia em Brasília se punha com aquela onda vermelha que iluminava o céu, deixando seus últimos rastros de respirar luz. Era luz de quase noite, e o rosa avermelhado embalava nossas horas porvir. O entardecer em Brasília é sempre uma experiência. Daquelas que a gente só consegue explicar com os sentidos, esses mesmos que aguçamos em nossas conversas tão racionais quanto impossíveis.

Eu sorria sua fala demorada, e o papo seguia a rota inebriante dos nossos cigarros. De repente, já era noite. E a gente não sabia. Mansamente eu admirava seu jeito, suas perguntas, sua passionalidade em discursar sobre as incertezas da vida. Suas angústias que já foram tão minhas. E ainda são, vestidas com roupas mais frescas de ventilar a mente. De aceitar a não resposta como a resposta possível. De abraçar o não saber e o não precisar saber como um bálsamo que alivia e refresca a alma.

Não, nem a ciência, nem a religião, eu não tinha mais lastros explicativos. Deixei escorrer pelos dedos os tantos discursos que já foram meus. No momento, a escuta. O assombro. A pequeneza diante do mundo que você tentava laçar com perguntas perspicazes. As nossas mãos estendidas. E a certeza do instante em que seus olhos se voltavam para mim, e os meus para ti, e eu existia quente naquele espaço. A sua boca que eu desejo. O seu corpo vivo no meu. O vento. A vida que invadia a janela e corria para além de nós.

Eu te abracei forte e o existir compartilhado se fez grande, bonito, e eu me calei. Você dizia: “diga”, e eu não tinha palavras. Eu sentia, na exaustão das coisas que complexificamos e perdemos em levezas. Eu descansava no conforto do amor que era nosso chão naquela noite de domingo. Um amor de duas, tão despidas e tão inteiras em nossas faltas. Um amor plantado ali, no meio da sala, que floresce em coloridos que nos escapam. Nós, tão presentes e tão intangíveis, crescendo juntas sem saber para onde.

Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada”*.

*mortal loucura. música de Zé Miguel Wisnik.

música que o grupo corpo (abaixo) faz aterrar em todos os poros da nossa pele.

Bruxa!!!

bruxaMuitas pessoas chamam hoje a Antiga Religião de Wicca, mas no imaginário popular e para alguns que (assim como eu) a escolheram, Bruxaria é um nome que soa melhor. Porque assim o é para mim. Simplesmente por isso.

Sim, eu sou uma bruxa!

(Pausa para as reações de incredulidade, hilariedade (risos irônicos também valem), nojo, ou dificilmente (?) pelxs que “imagino” lerem esse site de medo e preconceito,ainda que disfarçado de superioridade intelectual ou religiosa).

Pois é, Bruxaria… Ah, a Bruxaria… O que dizer dela que já não esteja espalhado em milhares de sites disponíveis a distância de apenas um clique de mouse?

(Mais uma pausa para… para… suspiro…)

Seus praticantes podem se denominar (ou se calar, já que nem sempre foi “agradável” “assumir-se”) de diversas maneiras, mas existem e fazem parte de uma religião que se insere num grupo maior e entendem-se como pagãos ou neopagãos, estão espalhados pelo mundo e tradições distintas, assim como os galhos e folhas que surgem da mesma e antiqüíssima raiz.

Podem estar cozinhando sozinhos em casa ou se reunindo em grupos chamados de Covens, espécies de “famílias” com no máximo treze membros, frequentando feiras e palestras que tratem de temas esotéricos, cursos de Ciências da Religião nalguma universidade, lendo cartas de tarô, acendendo velas e incensos, começando ou cuidando de uma horta, abraçando árvores ou mergulhados em literatura especifica.

Também, quem sabe, em sincretismo e palavreado com sentido mágico, estejam benzendo com galhos de arruda em algum interior do Nordeste, vendendo ervas e “garrafadas” nos mercados públicos Brasil afora, depois de levar suas filhxs e netxs para conhecer uma florebenzedirasta na Itália ou de auxiliar partos domiciliares em algum outro e qualquer rincão desse mundão da Deusa.

Muitxs destxs provavelmente sequer se dirão. Mas também o sabem entre os seus. Comum à todxs é o fato de praticarem magia, que podem (também) chamar de Grande Arte, e modificando suas realidades pela força da vontade.

Circulam entre profissões, costumes, ideologias políticas e “filosofias” diversas até porque a “estrutura” da religião, que nada tem de dogmática ou piramidal, estimula a liberdade de pensamento e ação, uma vez que não acreditamos em pecado, julgamento, culpa.

É uma religião politeísta, mas honra basicamente uma Deusa Tríplice e um Deus Chifrudo (ui!), que circula em volta desta numa Dança que deu e dá origem a tudo que está. Esta Deusa e este Deus são interiores e independente do gênero dx praticante da Arte sabemos nos “habita”, nós Xs somos e Xs vivenciamos, mas também são exteriores e em tudo mais espalham-se. São apesar disso, Além de Tudo e Mistério.

A Deusa e o Deus podem ser chamados, invocados e suas características específicas “potencializadas” através de nomes diversos, dependendo do panteão que se escolha honrar ou sequer referidos por denominações, mas por “sensações”. Vez em quando, por exemplo, chamo a Deusa de Força. Ou de Amor. E o Deus de Tesão.

Mas continuemos… Bruxs celebram essa referida Dança que é criadora, mas também destruidora (num sentido de “destrutiva” como facilitadora dum posterior renascimento), através do ciclo anual das estações, no período de um ano solar, comemorado em oito festas anuais chamadas de Sabbats e nas primeiras noites de cada lua cheia, denominados de Esbats. É através do tempo externo, ou de que chamamos de Roda do Ano, que vivenciamos as mudanças internas e passamos a entendê-las como cíclicas e espirais.

É uma religião que se vive através de “mitos” poéticos, pois só o Amor que habita a Criação pode tentar sussurrar o Incontável. Tenho a opinião, pelo tanto de Tempo que a tenho vivenciado, que é até por poetizar essa “impossibilidade” dicotômica, que bruxas e bruxos não acreditam ou concebem nenhuma entidade que seja “portadora” dum mal absoluto, portanto não acreditamos em demônios que “contrapõem-se” a divindades. A própria lógica ecológica que permeia xs adeptxs parece que não “dá trela” pressas coisas.

bruxa 2A nudez é estimulada dentro dessas comemorações, e é vivenciada e protegida pelo que chamarei de espiral energética criada por quem delas participa, mas não é obrigatória, tampouco tem caráter de fetiche, e sim de compromisso com a verdade individual, que habita para além das roupas, símbolos de “poder” e máscaras sociais. Alguns, por exemplo, contam o estar nu num ritual de estar vestido de Céu.

Obviamente (e posso “chocar” alguns companheirxs de crença ao dizer isso (que minhas benções recaiam sobre elxs)) pode haver sexo consensual nessas comemorações, assim como em qualquer “boa” festa que se preze. Para a Bruxaria, a sexualidade e todas as suas instâncias são vistas e vividas como dádivas e presentes dxs deusxs. Todo ato “criador” é sagrado, mas não estimula-se ou impõe-se sua “sacralização”. A possibilidade de acontecer alguma “suruba” demoníaca, pois, como é lugar comum imaginar quando menciona-se algum “Sabá de Feiticeiras” é inexistente. Não acreditamos em demônios, com já frisei. Então, se seu intuito é participar de orgias e afins, recomenda-se procurar uma casa de swing, não a Religião Antiga.

pentagrama

Existe muito pouco de “impositivo” na bruxaria, até por considerar-se que todo ato que gere dor e-ou sofrimento a outrem esbarra na única Lei e/ou “Regra” que norteia nossas práticas: tudo que fizeres voltará três vezes para ti. Simples e objetivo, não? Nem por isso deixamos de desejar algo e sim, de fazer feitiços para diversos fins específicos e considerados “egoístas”, inclusive se você considerar se proteger assim.

Mas enfim, tudo que escrevi aqui não pretende nada além do “educativo”, já que por ser a bruxaria uma religião iniciática, pede um período de estudo prévio, que hoje é considerado adequado ser em um torno de ano e um dia após o que alguns entendem e nomeiam como o “chamado” da Deusa até a iniciação propriamente dita. Depois dela, bom… tem mais estudo e “obrigações” ainda, exigindo, portanto, um comprometimento que poucxs querem ter, liberdade de pensamento e não oferecendo redenções ou “facilidades”.

Também não existem nenhum “cargo de liderança” que traga compensações materiais à espera, o poder dentro de um Coven (que dificilmente são encontrados em anúncios nas páginas amarelas) é considerado “ideal” quando vivenciado de forma cíclica por todxs, uma Alta Sacerdotisa ou Alto Sacedorte de um Coven (se escolherem serem chamadxs assim) sabem-se canal de manifestação da Deusa e do Deus, e portanto, que tentar manter-se nesse “patamar”, para isso impedindo o crescimento das potencialidades dos seus outrxs membros é fatalmente abrir mão do Poder.

HowgartsE antes que você, leitor e leitorx de Harry Potter como eu, me peça o telefone de Howgarts,  já  aviso que sou o que conhecemos na Religião como Bruxa Solitárix, sendo assim, por escolha e característica, não faço parte de nenhum coven. Bem como não “inicio” ninguém.

Sendo ainda mais clara, não interessa a um bruxo ou a uma bruxa, nenhuma espécie de “conversão”, já que “dizem alguns mitos” que ninguém deixa de ser quem é ao se tornar… quem se é. Eu mesma continuo nada adepta da dieta composta por asa de morcego e pata de lagartixa, por exemplo, por mais que me digam que é ótimo para emagrecer, ficar eternamente jovem e tal e coisa e coisa e tal.

Também não seqüestro crianças e as mato. Acusação da qual Fabiane, chamada de bruxa, foi “setenciada” por uma horda de pessoas que revestiram-se de um Poder que crê em espancar alguém até a morte. Que a Deusa me livre do encargo de julgar e amaldiçoar essas pessoas é o que peço enquanto escrevo esse texto, porque ainda não sei como mensurar o horror que senti diante do acontecido…

FabianeFabiane Maria de Jesus não era Bruxa. Sei porque ela estava indo buscar o livro sagrado da cristandade ao ser assassinada. Esse argumento é até óbvio, mas cheguei a ler em algum lugar que tal Bíblia poderia ser “usada” nas mesmas tais “missas” (oi?) de magia negra que essa mulher, que levava no seu nome os da Mãe e do Filho dos Cristãos, supostamente praticava. Para quem escreveu isso, assim como para qualquer seguidor de outras sendas espirituais eu afirmo: bruxa alguma precisa negar ou ritualizar o que não crê. Simples assim.

Fabiane Maria de Jesus não era bruxa, repito!

Mas e se fosse?…..

 P.S:  Se você quiser entender ou saber mais sobre Bruxaria existem diversos sites, livros e palestras sobre o tema pululando na Internet e nas livrarias e bibliotecas.

Que seja eterno, enquanto duro

Toda vez que. Penso na gente. Penso em pernas, coxas, bundas, pelos, cheiros, suores. Na verdade nunca imaginei a gente juntos, felizes para sempre, cinemascope, velhinhos de mãos dadas passeando no parque, café da manhã levado na cama. Mas já imaginei, sim, você e eu trepando, fodendo, metendo, barulhando, molhando. E aí não tem idade não. Acho que essa coisa vai ser sempre assim, os dois fisicamente mais gastos, sexualmente não.

Há aquela maldita pressão institucional de que uma trepada sensacional é capaz de mover montanhas e por causa disso todos os amores impossíveis se tornam possibilidades de redenção. Sei que não. Você não vota em quem eu voto, você não crê nos mesmos deuses que eu, você não gosta de futebol, nem de quindim. Teu trabalho acho chato, insuportável. O que deixa boa parte de nossas conversas uma monotonia sem classe, metódica. Mas tua língua, não. Nunca me foi áspera. Só quando necessária, para a fricção.

happy end

Você se casou, é? Não? Não casou? Não quero saber, sabia. De verdade. É um pouco de egoísmo talvez. Mas quem sabe tanto de minhas vielas, percursos, axilas, pés, pintas, cores de calcinha ou cueca, precisa saber mais do quê? Se tenho medo da solidão? Talvez. Mas com você eu tenho medo é de não mais poder tocar, sussurrar, gritar, morder. Só me avise se não puder atender. Eu não te pergunto nada. Nada. Mas talvez, quem sabe, não me pergunte também.

Não posso prometer isso. Porque não sei. Sabemos que sim, teu gosto tá aqui a fazer prova disso. E que prova… Mas não posso prometer que será sempre assim. Nem é poesia, nem é drama, nem é roteiro de novela. É só o que deve e deveria ser. Tem medo de se machucar? Então nunca ande de bicicleta. De clichê, só os desesperados, urgentes e finitos. E romance barato é gostoso, é foda de gostoso. O chato e inconveniente é o acreditar no romance que só pode ser dos outros…

Vem cá, me beija.

 

Carta resposta para um amor biscate

Por Luiz Welber*, Biscate Convidado

Qualquer lugar do mundo, hoje ou qualquer outro dia.

Querida amada biscate,

Uma carta feita de saudades. Sinto saudades. Saudades de você. De andar contigo. De procurar caminhos, metrôs, endereços, praças, esquinas, pontos de ônibus, bares, bistrôs, botecos, terreiros, praias, encontros. Comer acarajé na feira, pedir Heineken (porque a Brahma custava o mesmo naquele bar). Saudades de procurar tua mão para segurar no meio daquela muvuca de todos os lugares em que estivemos, daquelas multidões de tanta gente sem rosto, sem voz, sem graça, sem meu interesse, sem meu querer, sem minhas saudades.

Saudade das minhas mãos em tua cintura, das caminhadas em passos trocados e fora de ritmo, de você com a mão no bolso sobre a minha bunda ao andar pela calçada larga de grandes avenidas tão movimentadas. De ligar para seus amigos em cada cidade pelas quais passamos e, melhor ainda, encontrá-los e me sentir parte.

artabiscate

Before Sunrise (Antes do Amanhecer)

De contar a saudade no pé do teu ouvido, nos vendo loucos para, logo, encontrarmos um lugar para ficarmos apenas você e eu.

Saudades de tê-la a escolher as músicas do karaokê daqueles botecos “copo sujo” na tentativa de evitar que outros estragassem o momento de nosso beijo com trilhas sonoras que não queríamos nestas memórias de nossos encontros. De compartilhar, ao vivo (ou não), das músicas que agora são parte de nossas conversas. Muitas delas.

E o tempo, esse que passa, transforma, refaz, permite novos encontros, epifanias e…

De manhã, pó de café, água fervente. Passa a água pelo filtro de papel, aquele que guardo após o uso, para que você dê um fim mais digno do que a lixeira. Café, com açúcar, café, com adoçante, mais café.

Música, mais música, ao vento, aquele vento com repelente, num espaço sem mosquitos, com abraços e coisas mais.

Água, muita água, brisa litorânea, lá fora um coqueiro generoso, cheio de cachos. Cai um coco, caem dois, escada, sobe, mais coco, água… doçura líquida.

Caminhar, caminhar, acender os cigarros e conversar, contar de outros carnavais, saber de ti, de si, de mim, de lá, de cá, de quando, de quem nem sempre. Mas é de nós mesmos, sempre. Conhecer, reconhecer, caminhar mais ainda numa trilha que só vê quem conta os contos sobre ela, e o outro imagina, dificilmente vê a mesma que se conta, talvez nunca. Pensar, imaginar, sorrir, rir-se, olhar sério, sentir mundos entre alegrias, humores, graças, ciúmes, acertos, desacertos, acordos.

O gelo e o limão caem, a coca-cola ensopa o tecido que, horas depois, rasga. Rasgam dores, rasgam reações desmedidas e tolas, rasga a crítica e a autocrítica, costuramos de novo, isso que já é novo e, paradoxalmente, velho.

Sono, descanso, pensamentos, acorda, presente de doçura.

Doçura.

Bom dia, amor!

welber *Luiz Welber é mineiro. Se diz historiador e nas horas vagas navega de maria-fumaça. Biscate que viaja por trilhos e trilha narrativas, em contato com o passado sem sair do presente. Viciado em café e em cervejas. Não foge das mesas de bar e aprendeu a fazer macarronada.

Sem palavras

 

Mulher vento ventania vendaval

 

Sem palavras, para recordar. Porque hoje me deu saudades, saudades dela: Kiara Terra, minha amiga, minha irmã, minha querida que voa comigo pelas tantas incógnitas e sentimentos que nos assolam. Com quem partilho perguntas, belezas, poesias, dores, e os mais diversos percursos de dentro e fora de mim. Com quem tento arrumar o inarrumável. Com quem não sei de nada, com quem rio de mim mesma horas a fio, com quem reinvento-me despida de certezas. E com quem, vez em quando, escrevo palavras e desenho silêncios para abraçar o pensamento e dançar a vida.

Então, deixo aqui algumas de nossas danças. Daquelas que a gente se solta, e rebola, e busca  mais caminhos para o amor e para dar vazão ao pulso que vem de dentro.

———–

Se a vida toda coubesse em palavras eu escreveria. Sem preguiça cada letra. Frases inteiras, sentenças feitas, espaços vazios preservados. Nelas o intervalo entre nossos olhos. Se coubesse, se fosse o suficiente, eu teria feito. Mas não. A vida escapou-me do controle. A dança enlaçou-me a cintura, fluindo em seu ritmo intenso, requebrando e levando-me para além de mim.
Um sol bonito ensurdeceu meus ouvidos, e encharcou minhas mãos. Tomou pra si minha boca e meu pensamento e, ao invés de escrever, eu vivi. Sem vírgula, cada momento. Vida enchente, vida humana do aqui-e-agora. Vida corredeira, que me surpreende a cada passo em que não penso, e não escrevo. Em que simplesmente sinto, com todos os sentidos despertos para o que corre em sangue e vísceras, em realidades que me escapam às palavras. A vida me ocupa de viver.
Aconteceu e não me lembro quando. Um arrebate sem tempo. Um vento que me levou sem que eu pudesse entender o que me levava. Foi então que eu senti, com o peito aquecido pela luz: sem tocar o chão não há como escrever. Sem pisar a terra não há como fazer poesia tangível. No voo palavra é vento transpassando a pele. No chão palavra é vida possível. Vento sem frio. Mergulho acolhido e quente.
Amor não pode rimar com guerra, pois amor é sorte. Amor não pode ser reticência em espera sem solo. Depois de tocar a pele presente do outro, não há retrocesso possível. Depois de acessar o caminho secreto, viver é flor que desabrocha sem tempo. É perfume que adoça a alma e aumenta a fome. E eu tenho fome de vermelho. Vivo e vivido em desejos de ondas de mar.
Eu rio a brincadeira bonita. Rio da sorte de querer viver. Secretamente antes, agora num declarar de janelas. Agora em vida de correr descalço, sentindo cada folha verde. O tempo das esperas havia terminado. Agora é deslize de apenas ser, nua, sem subterfúgios poéticos de algum dia. Joguei fora minhas réguas que nunca soube usar direito. Sempre foram pequenas para os meus desmedidos.
Estiquei palavra pra cobrir javali. Dobrei lavei e quarei ao sol, e nenhuma frase podia salvar-me de mim. Era nado em direção à correnteza mais forte de estar viva. Estava diante do salto. Cachoeira colossal. Saltei. Corpo na correnteza. O tempo lavou meus cadernos, molhou cada folha, desperdiçou os dias ainda não vividos e li: vá correr  sem medo.
Você nasceu agora, aqui de dentro de mim, e diante disso tudo tem música e sol.
Kiara Terra e Silvia Badim

Kiara Terra e Silvia Badim

 

Escrever nunca foi tão triste

Tentei escrever,
colocar os sentimentos em palavras.
Pensei em você,
os versos, em gotas, molharam o papel.

(Alves Rosa)

 

Ontem, olhei as nossas fotos. E todas as lembranças se transformaram num filme que assisti sozinha…

Quando te conheci, juro, não esperava nada. Eu realmente acreditei que você seria escreverapenas mais um entre tantos que poderiam estar comigo. E confesso que gostava dessa fase de incertezas. Porque parecia que quanto menos pistas nós tínhamos do futuro, mais a vontade de estarmos juntos aumentava. As descobertas eram o alimento dela.

Agora, estou tentando entender onde foi que nos perdemos um do outro…

Dói. Dói ouvir você dizer que é impossível não gostar de mim, mas que não se sente feliz ao meu lado. Ou quando você me pede para pensar nos momentos bons que tivemos. É torturante essa dor. É duro cultivar memórias que não irão se repetir. E chego a pensar que sua indiferença talvez doesse menos em mim do que a sua oferta de ombro amigo.

Ser amigos. Esta foi uma das muitas promessas que fizemos um ao outro ao longo da nossa trajetória como casal. “Casal perfeito”, nas palavras de nossos amigos e familiares. E mesmo passando a vida inteira desconfiada de “perfeições inabaláveis”, acreditei genuinamente na nossa. Achei que realmente nada iria nos abalar…

E por mais difícil que seja o meu momento atual e te dizer isso, vá. Não quero ninguém ao meu lado por pena ou por consideração. E quando você realmente souber o que procura, seja feliz! De verdade.

Quem sabe um dia, a gente não consiga cumprir aquela promessa, não é mesmo? É que as feridas não cicatrizam imediatamente após o impacto.,,

tumblr_lcyv5867q91qakmqso1_500E feridas de amor demandam muito cuidado. Porque só ama novamente um coração verdadeiramente curado. E enquanto não ama, sente mil coisas inexplicáveis. Às vezes, vai do bem querer à raiva em questão de minutos. Mas até isso passa. E ensina.

Muitas foram as páginas em branco que preenchi. Ora com cores, ora com dores materializadas em palavras. Mas escrever, para mim, nunca foi tão triste como agora.

 

Uma História de Sexo

Sexo, pra mim, é das coisas mais divertidas que a gente pode fazer nessa vida. Simples assim! Sem muita filosofia, sem drama. Nunca fui dessas pessoas que “se guardam”, “se preservam” ou sei lá mais o que. Nunca entendi essa linguagem. Claro que tem aí alguns cuidados básicos que todo mundo tem que tomar pra não se estrepar e isso faz parte da socialização sexual: camisinha e consentimento, pra mim, o par inevitável. Embora eu admita que já deixei a primeira de lado algumas vezes, imprudente que fui.

AUTORE

Uma das vantagens de se ter uma vida sexual divertida é ter histórias pra contar. Acumulei algumas boas ao longo do tempo. Uma vez me envolvi com um sujeito casado, história sofrida. Apaixonei-me por ele num piscar de olhos (coisa que não é assim muito sábia, mas acontece nas melhores famílias) O cara nem sempre podia estar comigo o que era ocasião para intermináveis discussões e muita, muita frustração. Já sem saber o que fazer diante disso e covarde demais para terminar tudo, um dia disse num rompante: “Então, tá. Você não vem me ver? Então manda alguém no seu lugar porque eu quero transar hoje.” Qual não foi minha surpresa, quando o gajo, de fato, escalou um amigo para substituí-lo. Mandou-me mensagem no celular: “tenho um amigo disponível pra me substituir. Topa?”

Aí você pára e pensa nesse momento:

a)      Vou mandar esse cara se fuder;

b)      Ah, é? Tá achando que eu vou desistir?

Provavelmente tem várias alternativas a esse dilema, mas eu só pensei nessas duas. Eu fiquei meio espumando de ódio e meio curiosa pra saber quem seria esse amigo substituto misterioso. Afinal de contas, eu sou biscate, paciência, fazer o que? Topei pra ver até onde ia esse troço.

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A única coisa que me importava saber era se o amigo também concordava com essa situação. Afinal, já estava eu pensando no meu combo camisinha + consentimento, não saia de casa sem ele. E ele me garantiu que sim. Combinamos então que o amigo me telefonaria.

Meu caso queria acompanhar todo o desenlace da trama, queria participar dos detalhes do encontro. Aí veio o segundo tempo da negociação toda. Eu digo: “Só vai rolar o que eu quiser”. Nem pense que vai ficar controlando meu encontro que nem videogame, isso aqui não é playstation, meu filho. Não vai ter filmagem, não vai ter foto, não vai participar. No máximo, no máximo, te ligo no celular na hora que a coisa esquentar pra você poder ouvir o geme, geme (eu sou boa em sound effects) E assim aconteceu: o amigo substituto era uma graça, pessoa adorável, bom de cama. O sexo foi incrível e acabou rolando mais de uma vez, várias vezes depois. Claro que o tesão do outro só aumentou depois disso. Aliás, a bem da verdade, nós três ficamos bastante excitados com essa história toda. Um dia cheguei a encontrar os dois, um depois no outro, no mesmo motel. (eu já estava popular na recepção do estabelecimento)Não sei o que significou pra eles dois ou pra amizade deles, pouco me importava. Às vezes imagino que entre eles possa ter havido sexo também, nem que fosse só pela fantasia de imaginar como seria o amigo na cama com aquela mulher, eu. Mas, isso eram os meus devaneios. Eles nunca me perguntavam nada, nem me pediam pra comparar. O que teria sido meio ridículo, cá entre nós.

Pra mim, era uma aventura, alguma transgressão minimamente controlada e negociada. E eu me sentia jogando o jogo junto com eles e no controle da situação porque não acontecia absolutamente nada que eu não topasse e mais, eu sentia liberdade pra propor o que eu tivesse vontade. Nunca tivemos um ménage, ninguém nunca chegou a propor isso abertamente. Mas, éramos os três e durou algum tempo. Pra gente mais atirada do que eu, essa história pode até parecer inocente, mas eu estava me sentindo a própria Anais Nin.

O caso acabou tempos depois, o amigo substituto também desapareceu, como tantos outros mais que vieram depois. Essa não é uma história de amor, é uma história de foda. Tem sentimento, claro, porque a vida não tem graça sem esse colorido do afeto, mas não tem happy ending, só end e ponto final. Também não serve como guia pra auto-estima feminina, tem nada a ver com isso. Não me senti “poderosa”, “sedutora”, ou coisa parecida. Era uma brincadeira, e só.  Três adultos que fizeram um acordo e se divertiram até onde deu.

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Quando o Amor Acabar

Eu ainda sinto a sua falta e aqui, onde dói em perguntas, eu reviso letra a letra imaginando como construí o abismo. Sei, claro que sei, que não foi nada que fiz ou disse, apenas a vida que afasta barcas que navegam entre portos distintos. Mas saber que a vida é maior que eu não conforta. E eu demoro no nunca mais. Nunca mais não saber o que te responder. Nunca mais a conversa instigante. Nunca mais me saber no seu olho. Nunca mais querer acertar. Nunca mais rir tão fácil. Nunca mais comparar expressões. Nunca mais um novo velho filme. Um velho novo livro. Nunca mais Minnie. Nunca mais cangaceira. Nunca mais ir longe demais e voltar, assim, segurando firme outra mão. Nunca mais aquele abraço em que sabia tudo tão certo. Nunca mais querer. Sinto falta disso, daquele vazio que era vontade de te saber em mim. Ninguém puxava meu tapete como você… Eu sei que você tem essa dor. Esse medo. Sei que o seu corpo se curva e sua testa se enruga nessa angústia tão mais material que a minha. E entender isso me dói tão mais. Porque já não sou eu que aliso essa ruga. Mais, porque já não quero ser. Porque não queremos. Porque sentimos falta, eu sinto falta, de quem éramos, de quem eu era com você. Mas já não quero ser aquela.  Apenas sinto saudades: de nós, de você, dela.

Em seu disco Almanaque, Chico perguntava, meio terno, meio ácido, pra onde vai o meu amor, quando o amor acabar? E ele não é o único, garanto. Tem uns, que nem o Leminski, que acham que nem acaba, se transforma. Uma outra coisa qualquer: alívio, raiva, aprendizado. Vira raiva – ou rima. É difícil saber quando o amor passa a ter outro nome em nós. Quando somos capazes de falar da pessoa amada sem que borboletas façam festa no estômago? Quando aprendemos a usar o passado imperfeito? Quando é outro o nome que pensamos em sobressalto? Saber quando acaba um relacionamento é um pouco mais fácil, mas nem por isso. Alguns acabam o relacionamento em um golpe seco. Outros arrastam alguns ensaios. Algumas vezes, ainda, o relacionamento acaba antes pra um dos parceiros e o outro demora a entender. Quando o relacionamento acaba há sinais externos, quase sempre. Já não fazemos as coisas que fazíamos, já não temos os compromissos que tínhamos, às vezes é preciso mudar de casa, de trajeto, de bar. Mas o amor? Como sinalizar seu fim? Como simbolizar o “nunca mais”? Quando acaba o amor, pra onde vai?

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Hoje já se tem resposta possível.  Quando o amor acaba pode ir pro Museum of Broken Relationships. Isso mesmo, um Museu de Relacionamentos Terminados/Acabados/Finitos/Findados, de Vínculos Rompidos, de Corações Partidos. Legados de um amor que já não é. Você, que teve seu amor e suas manifestações concretas e que, não tendo mais o primeiro não consegue conviver com as segundas, agora é só enviar pra Croácia! Nada mais de tocar fogo nos bilhetes, rasgar fotos, deletar emails, rebolar no lixo os mimos. Vai diretinho pra outra canção do Chico, ora… vai para as vitrines.

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Queria visitar, deve ser um tanto melancólico, é verdade. O vestido do primeiro encontro, o LP do aniversário de casamento, pelúcias, livros, a coleção de sutiãs. Objetos triviais, em si mesmo quase insignificantes, que encarnam o sentir e são, eles mesmos, narrativas condensadas. Tanta coisa por dizer, tanto futuro supostamente perdido, alguns arrependimentos, umas saudades. Alguma alegria recordada, espero. Objetos que dizem de vidas que já não são. Queria visitar, deve ser inspirador. Todos esses objetos que ocuparam tanto espaço, depois de doados, deixam o vazio pra que a vida possa ser.

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Fico pensando nas pessoas que doaram os objetos para o Museu. No que sentiam. Em como reordenaram o sentir com esse gesto. Aquele momento em que a gente deixa pra trás (fica mais bonito em inglês: let it go). Porque mandaram pra lá seus objetos? Uma forma de lidar com a dor? A compreensão de que a coisa já não comporta tudo que existiu? A ideia de que longe dos olhos longe do coração? A vontade de dar um sentido maior à sua perda pessoal?

E eu fiquei pensando nos meus findos amores. Guardo tudo, sabe. Poesia escrita em guardanapo, telegrama, foto, cartão, colagem, cartas, blusas. Eu não me desfaço de mim mesma. Tenho grande carinho por tudo que vivi. E gosto de reencontrar-me nos olhares outros que me disseram tanto. Lembrei de um episódio de How I Meet Your Mother em que a namorada atual do moço exige que ele se desfaça de tudo que ele ganhou ou comprou junto com os relacionamentos passados. Que ele abrisse mão de todos os objetos que contassem alguma história de amor que não fosse a deles. E, quando ela voltou a entrar no apartamento dele, não tinha mais quase nada. Uma certeza: somos quem somos, um tanto pelas pessoas que amamos, pelos relacionamentos que tivemos. Quando amo alguém que é, agora, mesmo desconhecendo o que foi e quem amou, amo também sua história. Há coisas que nem costumo lembrar que foram de um amor passado ai, num repente, a lembrança. O momento. A pessoa. Meu sorriso. Gosto de ter a vida que vivi por perto. Em mim. Como escrevi um dia desses: Estão em mim, os meus amores, no meu jeito de sorrir, nas histórias que repito, na ruga no canto do olho. Estão na pele, na curva do corpo, no balanço das mãos. Estão em mim. Eu sou todos esses amores. Enquanto eu for, eles são. Somos. Todo amor é eterno enquanto eu dure. Também estão nas coisas que apinho nas gavetas #SouDessas.

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Mas se fosse montar uma exposição temporária lá no Museum of Broken Relationships com as minhas despedidas: uma blusa azul. O LP Drama 3o Ato. Três cigarros. Sorvete de Flocos. Um bilhete de avião. Uma coleção de telegramas. Um ursinho. Um óculos com as lentes embaçadas. Um CD do Fito Paez. Um molinete. Uma foto na praia. Não, uma porção de fotos na praia. O que iria na sua mostra?

Museum of Broken Relationships anda por aí. Agora mesmo está na Cidade do México (link aqui). A exposição ficará lá até dia 08 de junho.

Semana, opa, Santa

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Quinta ou Lava-Pés

Ela revisita lembranças. Sabe todos os amores. Inclina-se, saudade e bacia nas mãos, em uma disciplinada procissão. Dedica-se a expurgar o sofrer. Cantarola, mas podia ser uma prece: afasta de mim esse cale-se. Não pode negar o que já disse, não pode repetir. Aprisiona-se em cada grande amor. Resgata os momentos como se os pudesse sentir. Não sabe que autopsiar o amor é reconhecer sua finitude.  A saudade é corpo de delito. Cada um, ela lembra, seria pra sempre. Deixa os olhos perderem-se nos olhos dos fantasmas. Mergulha, prestimosa, as mãos entre as vísceras dos relacionamentos findos. Nem repara o rubro que tinge a água. Seu coração gangrenado.

 Sexta da Paixão

Eu nunca acreditei no amor eterno, na alma gêmea, na metade da laranja. Não esperei sinos, votos de felicidade, flores de laranjeiras. Os homens, ah, os homens em minha cama sempre foram riso. Prazer. Eu nunca quis mais do que o que tinha pra dar. E, ainda assim, em silente resignação, sei que você me tornou imprestável, senão para o amor, para os relacionamentos. Não sirvo ou eles não me servem. Foi você. Escavou abismos ao meu redor. E eu já não sei voar. Eles, os outros, nunca farão o sexo que você não fez e é sempre à luz deste vazio – onde tudo cabe – que eu os julgo sempre. Eles, os outros, nunca farão as letras que você fez e é sempre à luz desta presença que eu os condeno. Não me deixaste oca, esclareço, se assim fosse eu poderia acolher alguém em meus espaços. Ao partir, foi plena que me deixaste. Repleta de tudo que não pôde ser, com sua imagem enorme em todas as minhas esquinas. Compreendo, enfim, que é preciso que saias. Em sangue. Com a ponta mais afiada escrevo saudade na pele e abro veias. Em vermelho me deixas. Envolvo-me com branco lençol em arremedos de abraço e deixo inscritos os dias de solidão. Só é possível seguir se fico a morrer.

 Sábado de Aleluia

Todos os dias como uma prece: não querer. Destemida, percorro os dias tão cheios de você. Como uma pontada: você nunca esteve aqui. Nunca esteve no café cedo da manhã, eu encolhida no sofá, todo os riso do dia já no acordar. Nunca esteve no percurso do trabalho, as impressões do trânsito, do sol, do tempo. Nunca esteve no almoço corrido, nas tardes lentas, nos domingos chuvosos. Você nunca esteve na cerveja na varanda, nas intrigas amorosas, no chafurdar nos livros. Nunca esteve no ocre de Canoa, no azul do mar tão dentro de mim. Nunca, nunca, na estrada, nas perguntas, nas fronteiras, nas conversas noturnas que se tornam sol. Nunca esteve no sertão que construí pra você, letra a letra, terra e calor. Todos os dias, como uma prece: não pensar. Escrevo uma bula com meu método secreto para voltar a sorrir: o luto. Pra esquecer, procurar lembrar-se. Porque há um dia em que você não se lembra de lembrar. Só aí você esqueceu.

 Enfim, Domingo

Domingo eu não quero acordar cedo. Não quero acordar sozinha. Não quero calçar sandálias nem vestir roupa que aperte. Quero deitar no chão frio e pela janela espiar o azul. Quero café preto adoçado com felicidade. Domingo eu não quero ler jornal nem fazer compras no supermercado. Não quero névoa nos olhos nem vazios no peito. Quero cheiro de mar. Quero ignorar os relógios e contar o tempo em abraços. Quero seguir o corpo, comer quando sentir fome, dormir quando sentir sono e o resto do tempo deixar meu corpo saber outro corpo. Domingo eu quero ouvir sambas e ver futebol na televisão. Não quero falar baixo, andar rápido nem fazer a coisa certa. Domingo eu quero ler quadrinhos, tomar banho de mangueira e andar nua pela casa. Não quero cortar cebolas nem descascar abacaxis. Não quero usar talheres nem pôr a mesa, quero desenhar gaivotas em guardanapos. Domingo eu não quero segundas.

Aos quase 50, continue a nadar

arte: André Vallias

André Vallias

Pois é. Quase 50.
Impacta, né?
A mim impactou, nesse começo de ano. Vou fazer 48 em maio. E 48 é “quase 50″. Né.

Eu nunca liguei pra idade. Achava graça no ditado da Freira – que eu não conhecia ainda, só conheci agora na formatura da minha mãe : “Depois que eu trintei, nunca mais contei”. Achava graça e me irritava um pouco: como assim? Ainda mais que era ela, minha mãe, que retomava o ditado, quando lhe perguntavam a idade. Eu ficava magoada: se tirassem a idade da minha mãe, lhe tirariam a história, e com a história… eu. Era como se minha mãe estivesse querendo me “apagar” da vida dela.

Já disse em outro lugar:
não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte – que eu choro à beça, pra caralho ou mais – e… como diria o Neruda, de saudosa memória, “confesso que vivi”. E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho.  

Quando eu disse, foi há três anos: eu tinha 45 então, e era “bem no meio”. Esse ano, desde o começo do ano, tenho, na minha cabeça, quase 50. E, por um momento, me assustei. Aí fui ali cuidar de coisa e outra, tomar um café, encontrar a galera no Cardosão, dar uma olhada no mar, ler um pouco de Simone que anda me pautando por esses tempos (vá saber). Senti o vento no rosto. E me alegrei. Essa idade, 48, na astrologia, é fechamento de um ciclo – o quarto ciclo de Júpiter. Júpiter, planeta do crescimento, dos “vôos de águia” que ajudam a dar contexto e a sair do olhar míope da proximidade; o planeta dos estudos superiores, das longas viagens. Júpiter, o “grande benéfico” dos antigos, o planeta da boa fortuna, regente de Sagitário, “ao infinito e além”.

Júpiter tem um ciclo de doze anos: doze, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito. O quarto ciclo de Júpiter. Fechando, e começando um novo. Cada um desses fechamentos corresponde a um momento extremamente importante da minha vida. E a um novo começo. Vou contar só do primeiro, meu leitmotiv, recorrente de tanto que me explica. Aos doze, eu estava voltando de uma longa viagem. Eu-forasteira. Em carne viva, chegando ao Rio de Janeiro sem entender nada. As gírias. As roupas. Os modos. Os jeitos. Uma dor e um alumbramento. O primeiro ciclo de Júpiter a gente nunca esquece.

Esse ano, tô me sentindo próxima dessa menina aí, a dos doze anos, de olhos assustados, de jeito de bicho do mato. Essa aí que dizia que tinha frio de gente, e que tinham pisado com botas pesadas no seu jardim. A “desgarrada das gentes”. Próxima, porque por baixo de todas as camadas, essa aí ainda sou eu. Próxima, pelo afeto com que olho pra ela, ela-eu, e me alegro de tanto caminho percorrido. Te tanto pau, de tanta pedra, de tanto fim do caminho. Do fundo do poço. Do pouco sozinho.

Depois disso tudo, olho pra ela-eu hoje, e penso que andei. Que hoje não tenho mais medo de dançar em festa, embora a menina de doze anos apareça de vez em quando na hora de dançar de rosto colado. Que não gaguejo mais e que falo pra platéias grandes e pequenas, falo em plenárias, falo até em rádio, olha só. Me alegro que escrevo no Biscate, que vagueio no Chopinho, que faço mapas e falo de economia e traduzo de um pro outro, que é a minha verdadeira vocação.

Olho pra menina-eu de hoje, ao final do quarto ciclo de Júpiter, e vejo-a tão boba, tão palhaça, tão de riso solto como sempre. Ou talvez mais. Mais livre, mais tranquila, mais segura, certamente. Tão inquieta, tão curiosa, tão gulosa de vida e de comida mesmo como sempre. Com algumas cicatrizes a mais, como não. E outras histórias pra contar.

Vai ter festa esse ano. Festa de dança, pra celebrar o quarto ciclo de Júpiter. Como se deve. Provavelmente uma festa conjunta, com outros aniversariantes de maio. Gente querida. Tanta gente querida. E meu coração já fica quentinho só de pensar.

Caminho andado, caminho por andar: tá sendo gostoso esse caminho, viu. Não “fácil”. Nem sempre tranquilo. Mas bom de andar. Com seus perrengues, com seus percalços. Mesmo que de vez em quando fique tudo escuro e não pareça. Bom de andar, sim.

Esse texto de hoje é pra todo mundo que tá chegando lá comigo: tamos começando outro, galera. Ainda tem muito chão pela frente. A chuva ainda não chegou. Borandar. Dançar. Chorar. Gostar.

Continue a nadar, diz a Dory.

Olho pra frente, pra quem já andou mais do que eu, e vejo caminhos a percorrer. Olho pra trás, e cuido das lembranças que me fazem quem sou hoje. Agradeço, todo dia, sempre. Continuo a nadar.

Renata by João

Renata by João

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