Vazio

O vazio em cada um de nós. Não que seja ruim, simplesmente vazio. Vazio que permite conhecer, saber tal que se merece ou não preenchimento. Vazio, puro vazio. Tabula rasa? Não! Vazio não como ausência, mas vazio como escolha. Vazio como presença e como espera. Vazio do outro, mas profusão de si.

lugar

Rosa em Meditação – Dalí

Incoerente? Por certo, que sim ou que não. É vazio o que sinto quanto mais entendo, quanto mais me entendo. Não que recuse o cheio, mas no vazio completo, enquanto aguardo aquilo que preencha.

Aproveitar o vazio dos planaltos íntimos. Aquiescer na distinta condição de saber o querer. Manter um vazio fugaz ou pleno, insípido ou deleitoso, inerte ou fulgurante. Não manter.

Ter vazio, só para preencher. Ter vazio, só para entender. Ter vazio, só para não conter. Ter vazio, para deixar-se transbordar.

Vazio, para de seu exagero ocupar, no mesmo exagero. Vazio para completar como e com o que quiser, mesmo pela metade.

Vazios para aqueles que buscam o seu lugar…

Do muito

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Foi, sim, foi muito. Muito mais do que se podia prever, muito mais do que podíamos imaginar. Muito mais do que as palavras podem tecer. Tecido fino de cores invisíveis, manto que nos cobriu em um espaço inventado de tanta materialidade. Nosso, submerso, escondido. E tão declarado. Nada precisou ser, porque tudo era. Estava tudo ali, foi só abrir a porta, foi só entrar por aquela porta grande de luzes opacas, adentrar o espaço iluminado por velas inventadas e músicas de ouvir com a alma. Um espaço sem tempo, um tempo que se abriu em tempos passados e tempos futuros, que parou o relógio e nos contou segredos de permanência fluída, de existências tantas e possíveis, de reinvenções e possibilidades. Tempo contingência onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente.

A porta grande se abriu e a chave era nossa. Minha e sua. Era nossa e estava tudo lá, como se sempre tivesse existido a pele nua em contato uma com a outra, as falas mansas, os risos, as coincidências, as identidades, as diferenças, a força. Sim, a força. Desejo vulcão. Mansidão de mares profundos. Claridade de revelações. Sentidos aguçados para o que vem de dentro. Comunhão. Quente e frio. Doce, salgado, pimenta, açúcar, vinho nos lábios. Choros e risos. Nós duas ali, nuas e inteiras em nossos espelhos invertidos. Foi muito, e ainda mais.

A despedida se fez em silêncio duro, em uma morte brutal para quem acabou de nascer. E nascer assim, com tanta vida. Com tanta luz. Com tanta beleza. Com tanto presente florido e cheiro de mato. Com tanta vontade e espaço para crescer. E para ser qualquer coisa: vento, perfume, roupas coloridas, abrigo, casa, poeira, árvore com fruta madura, rio cheio. Só não podia ser assim: corpo morto. Não, não podia. Era muito.

Onde se guarda o desejo que não se vive? Em que porão a gente coloca a vontade que arde por dentro? Qual o baú que tem tampa grande o suficiente para abafar a intensidade de um encontro? Com que racionalidade se enterra o sentimento?

De novo calço as minhas botas e me nutro de coragem. Sim, a vida tem vida própria. E é preciso saber ouvi-la com a voz que vem de dentro. Porque essa vida pulsa e tem caminhos vastos. Tem escolhas e conformidades. Tem revoluções e resignações. Tem agigantamentos e pequenezas. Tem muito, e tanto. E tem a gente lá, no meio disso tudo, remando, se equilibrando na canoa, tentando controlar o fluxo das águas, tentando não afogar, achando meios de se nos mantermos vivos e despertos. Tentando vestir a coragem de poder, sim, ser feliz. Felicidade de inteirezas e de vontades saciadas. Poder ser feliz nas marolas e nos improváveis. Aprendendo que, por vezes, é preciso colocar o salva vidas primeiro na gente para poder salvar o outro. Aprendendo que, vez em quando, a gente afoga mas não perde o ar. E nem a vontade de ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas. E se cair em chuva, eu quero que me banhe. Eu quero lamber a chuva de pingos grossos.

É também porque não adianta,é preciso preencher-se de si mesmo. É preciso aceitar as contradições, os acasos, os erros, os desacertos, as mudanças, o nosso parco controle. Ir deixando a bagagem pelo caminho, ir transformando o que temos em coisas novas e mais leves de carregar. Ir colocando dentro o que temos fora. Beber um mar fértil que alimenta. Menos, e mais. E sempre.

Extravasamentos

Extravasamentos, assim, como correntes quebradas. Eu fiquei buscando um modo de extravasar aquela intensidade, aquela intensidade que queimava desde a semana passada, aquela intensidade que surgiu de algum lugar da memória do corpo, eu busquei sem trégua e com algum pesar, eu busquei.

E nessa busca eu fui assim, devagarinho, acostumando-me com as minhas novas roupas, com aquele novo jeito que eu não sabia que tinha, com a velha nova face desconhecida, eu fui. Fui direta e profunda, sem medo de mergulhar, fui seguindo as pistas que aquela noite me deixara assim, sem mais, junto com a ausência vazia do dia corrido que se seguiu a tudo aquilo, eu fui.

Não era você, não era só você, era eu no meio de tudo aquilo, era eu assim despida depois de tanto tempo de dor, era eu assim enfrentando os novos tempos de estar à flor da pele sem escudos, era eu sem saber dosar mais nada, era eu no meio da correnteza de mim mesma. Sim, também teve você, a gente dançou junto, teve você mas não foi só isso, foi algum destempero de estar assim: latente, sem controle de racionalidade, pessoa de lembranças de outras pessoas cravadas no peito e sem porto de chegada, pessoa de anos de acúmulo, pessoa assim latejada.

Depois de tanto tempo construindo barreiras e muros intransponíveis, arquitetando proteções para conter as águas, as minhas águas sempre tão fartas de sentires, eu quebrei tudo, simplesmente, quebrei sem olhar para trás, joguei tudo fora, todo o amontoado de proteções, joguei tudo de uma vez só, e tudo se perdeu para nunca mais. E que frio percorria a espinha. Era muita vida, era muita água, e eu a nadar no meio da correnteza sem bóia nem nada, sem barco, sem esteio, sem uma mísera máscara, nada. Era eu e toda aquela vida.

Aí teve você, aquele encontro bom, teve você e eu no meio daquelas águas revoltas. Teve você e eu sem saber mais nada. Eu não soube mesmo, não soube dizer ou explicar, e eu não queria palavras concatenadas, eu só queria sentir. E eu senti. Senti a mim mesma, senti o feminino sem reservas, senti a veia pulsando por algo mais, senti seu corpo tão quente e tão branco junto ao meu, senti seu sorriso tímido e tão pulsante, senti tudo de uma só vez e eu não soube.

Eu estava mergulhada e assim eu fui quando a semana seguiu, assim eu te procurei quando nada fazia sentido, assim eu te escrevi só para extravasar o muito que queimava a pele. Queimou e eu segui, eu enfrentei o fogo, e foi tão bom. Foi bom andar tão cheia de vida, foi bom olhar para mim só e despida, foi bom.

Tudo vem acontecendo muito rápido nesses tempos de 2013, faz apenas uma semana e já faz tanto tempo. Foram tantos cigarros, tantos copos cheios e vazios, tanta gente que passou por mim e eu andei. Andei até chegar a meses, percorri até fazerem-se anos e eu ainda estou aqui de pé e tão viva. E tudo tão bom apesar do fogo que ainda arde, apesar de não saber o que fazer com tanta vida, é tudo tão livre e tão bom.

Alguns confetes coloridos me enfeitaram a face, e sucederam-se mais tantas coisas sem voz e sem quaisquer explicações que eu vou me acostumando a andar assim e não saber, apenas deixar-me guiar pelos sentidos que assolam a racionalidade. Agora eu já não me perco tanto, a minha velha nova face me é mais familiar, eu equilibro um pouco o destempero, eu estou firme.

O tempo brinca de ser grande quando corre tão pequeno pelos dias, e eu estou aqui tão repleta de gente e tão repleta de mim, tão fluída nesse meio do caminho embolado e intenso. Intensa assim eu sigo com mais coragem, com mais vontade, com mais vida e te falo que está tudo bem, está tudo cheio e ainda restam muitos cigarros com sabor de amor pelo desconhecido.

Descobrimentos

Não há dia certos para se descobrir nada. Mas como hoje é uma data simbólica, vale a pena falar sobre os descobrimentos…

Descobrir é uma surpresa (oh, descobri o Brasil!). Para o bem, para o mal, que não fede, nem cheira, ou que cheira um pouquinho e as vezes fede, ou que é boazinha, mas ruim também. Descobrir é um dos objetivos da vida. Algum poeta algum dia ainda dirá que infelizes aqueles que nunca descobriram. E outro contista, talvez, acrescentará: infelizes daqueles que descobriram e sequer perceberam…

Não se trata de ser fácil, difícil ou de ter um tutorial de como se fazer, pensar, ou perceber descobrimentos. Basta apenas prestar atenção, basta apenas estar aberto a sentir o novo, sem compromisso… (Hey, péra! Isso não é um tutorial?).

Voltando aos descobrimentos. Adoro descobrir sinais, sorrisos, olhares. Gosto de descobrir, num sentido um pouco mais profundo, a satisfação! Sim, porque descobrir não é só o perceber ou encontrar algo que ocorre, descobrir pode ser desnudar, o trazer à tona aquilo que não sabíamos em nós ou o que as pessoas não sabiam em si. Descobrir é revelar! Também…

Bisca descobridora - Chagall

Bisca descobridora – Chagall

O tão bom de se descobrir na gargalhada. O riso, desculpem-me os tristes, mas o riso nos revela, como um todo. Choro com qualquer um que o mereça, por tristeza, felicidade ou rotina, mas é de rir constantemente que quero morrer. É na revelação e cada gargalhada, contida ou indiscreta, pudica ou biscateira que quero encontrar tudo o que é, pelo simples fato de querer ser…

Porque descobrir é isso, é desnudar o que é… é deixar ser, simples e apenas pelo fato de ser. DESCUBRA!

Data de Validade

Filmes, livros e as vizinhas mais xeretas vivem nos dizendo: pra sempre. Os relacionamentos são – devem ser! – permanentes. Duradouros. Sem data de validade.  Eternidade. Se não era eterno não era amor. Pra sempre. E aprendemos assim, homens e mulheres, mas para nós, mulheres, a ênfase é mais acentuada e há a mensagem, nem sempre explícita, de que somos as responsáveis pelo sucesso da relação. O mundo privado é nossa esfera de competência (seja pelo argumento da rainha do lar, seja pela falácia da essência feminina mais suave, compreensiva, etc). O que você está fazendo aí parada que não está em busca do seu “final feliz”? Leia todas as revistas, faça todas as poses, aprenda todas as posições e estratégias de sedução pra manter seu relacionamento. Porque se não foi pra sempre, olha, deu errado e lá começam os “onde foi que eu errei” e todo mundo vira meio Paula Toller procurando a fórmula do amor. Cada relacionamento que acaba parece assinar um atestado de incompetência. E a gente passa um tempão pra descobrir que relacionamentos não são para dar certo

Eu nem lembro direito quando me chegou a descoberta oswaldiana: sempre não é todo dia. O primeiro dia que a gente acorda e vai dormir sem ter um pensamento sobre o moço (ou moça) por quem estamos apaixonados e com quem estamos envolvidos pode ser um rebuliço na alma. Porque vamos sendo educadas a pensar que quando a gente quer, a gente quer com constância e mais que qualquer outra coisa. Passar um dia inteiro desejando além da pessoa passa a ser motivo de culpa, arrependimento e questões sobre o relacionamento: será que cansei delx? será que elx é mesmo o amor da minha vida? E se de lá pra cá ocorre o mesmo (esquece de ligar, chega atrasadx e coisas assim) é um deusnosacuda de sentimentos de abandono e, às vezes, despudadoradas acusações: você-não-me-ama-mais-se-pensa-mais-no-seu-(complete aqui: time, trabalho, amigo, chulé)-que-em-mim. Porque aprendemos a andar com fita métrica e balança pro bem querer. E nessa tentativa de escalonar o desejo, o afeto, as relações, a gente vai perdendo e se perdendo. E aí, quando chega uma hora em que não se consegue e/ou quer e/ou pode mais se estar junto, o que resta é o sentimento de fracasso, de vazio, a ausência de nós mesmas porque, afinal, perdemos o que nós mesmas hierarquizamos como o “mais importante”.

pra sempre

Aí vem a segunda faceta do “pra sempre”, aquela que a gente cantarolou mas não acreditou na Cássia Eller: o pra sempre, sempre acaba. Não são as relações que acabam ou os vínculos (necessariamente), mas a percepção da continuidade, da repetição, do mesmo. Acaba porque um dos envolvidos morre, pra ficar no exemplo mais simples e definitivo. Acaba porque mudamos de emprego, de cidade, porque se adota um filho, porque se leu um livro que mexeu com a cabeça, porque se viu um filme que fez repensar escolhas, acaba o pra sempre porque somos outros e o outro se torna um outro além da alteridade que era. Tudo que está além do “e foram felizes para a sempre” é a materialização do final do pra sempre e é, também, o que a gente pode chamar de vida adulta.

pra sempre 2

E nem mesmo nas entrelinhas do “pra sempre” as doutrinas da felicidade amorosa mencionam aquele relacionamento que, tal como os outros, traz em si o seu fim, mas não apenas de uma forma potencial, e sim como uma certeza. Como ter um relacionamento com data de validade se o que valida os vínculos é a ideia subjacente de permanência, de que “é esse” e que “agora sim” posso me aquietar? Como escolher sem ter certeza? Ninguém nos diz que se pode (e como) amar sem um depois de amanhã. Não tem ninguém pra contar pra gente como viver sem planos. Não digo nem a ideia da aposentadoria conjunta, cadeira de balanço e netos no colo, mas o simples e trivial: o que vamos fazer na próxima semana. Porque não há a certeza de que a semana que está próxima está próxima o bastante pra que se chegue, juntos, nela. Amar sem calendário é um desafio. É abrir mão do “pra sempre”.

Já não me importa que o você não seja o enfim. Eu não quero escrever histórias, quero fazer viagens. Quero pegar estrada tendo o desejo como roteiro. Perder-me. Quero quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero cama, pele e música. Quero seu gosto de agora. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero acordar com aquela perna pesando na minha, a barba reescrevendo vontades no meu ombro, uma voz fazendo lembrar a saudade que ainda nem comecei a sentir. E descobrir que saudade pode não ser solidão e sim encontro, o meu encontro com essa eu que ama você.

 

Do desejo

Eu não desejo nem preciso de navio. Depois de navegar com embarcação pesada, âncoras firmes e trajetos de bússola reta, eu não preciso mais. Navio pesado de muita carga enfrenta o mar com escudo. Adentra o desconhecido com certezas enraizadas, olhos vendados para o horizonte do acaso. Navio pesado quer ser terra no meio do mar. Quer levar para o mar bagagem densa de construção inabalável. Coitado do navio, ele também afunda. Diante do mar navio também é pequeno, porque o mar engole. O mar é desejo. Imensidão de ondas improváveis e arrebatadoras. O mar é susto. Impermanências e desafios de não saber onde se pisa o chão novamente. Beber o mar alimenta.

Fotografia de Simone Elias

Ir no navio de guarda-chuva, bússolas e máquinas de controle do tempo? Não, eu não quero o navio. Lá fora tem o mar, e diante do mar não tem controle. Diante do mar tem mergulho e desaviso. Tem imensidão disforme e vento de liberdade. Tem a gente refletido onde não se enxerga com os olhos. Eu quero o mar. Sentir inebriada o cheiro de maresia fértil de vida. A nuvem que se ergue sem aviso e faz sombra e voo cego. O escuro azul que só se toca com os sentidos. Onde se guarda o desejo que não se vive?

Sim, eu quero o mar. Uma canoa com direito a mergulhar em mar aberto é bonito. Uma canoa leve com remendos e a vastidão de poder ser. O acolhimento de depois é o vento. O vento quente, o mar e a pequenina embarcação consideram a precariedade bonita do amor. O espaço vazio. E nele tem dança. Danças de ondas e improváveis. Ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas.

Às vezes a gente afoga, mas não perde o ar. Quando a canoa vira a gente reinventa a travessia. Acha ar dentro d´água. No navio tem pouco ar. Oxigênio em lata. Como viver sem o ar puro e livre do desejo? Na canoa tem fome mas tem peixe fresco. Peixe que a gente pesca com as mãos. Não precisa de abridor de lata porque a gente pode colher fruta das gotas salgadas. E o horizonte, sim, o horizonte. Na canoa tem horizonte rosa que se toca com a pele. Tem frio gelado que pede uma toalha seca que não tem. Tem lábio rachado sem protetor solar. Tem dor de escamas. E tem a gente inteiro, ali, inteiro em contradições, dores, desacertos e humanidades. Em feio e bonito. Em tudo que é. Poder desejar e ser brisa de mar. Poder parar em qualquer lugar. Na canoa a gente pode acolher o próprio desejo.

  * com carinho especial para as minhas irmãs de travessia na canoa: Kiara Terra, que me ajudou com algumas letrinhas aqui, Suzana Siqueira, Raquel Stanick, Karoline Alves, Sandra Cordeiro Molina e Luciana Baptista. Vocês me inspiram, sempre e mais, a ter coragem para a vida. Admiração de ondas.

Meu cu não é troféu

Dia desses um escritor pulicou em sua coluna semanal por aí que o sexo anal é uma dádiva, que era um presente, que, salvo com as mocinhas mais perversas (e acho que ele inclui as biscates aqui) era algo que acontecia só de vez em quando. O texto, até cheio de boas intenções tal como o inferno, esqueceu um detalhe: o prazer. As mulheres fazem sexo anal, dão o cu, liberam a porta de trás porque sentem prazer, não porque querem premiar o namorado/amante/marido/rolo/amizade colorida/sexo casual.

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Tati Quebra-barraco já tinha dado (ops) o recado há muito tempo: dar o cu é bom. Simples assim. Sexo anal é uma prática sexual como qualquer outra. Salvo o tabu que existe em torno do tal buraco. Sexo é um assunto dos mais tabus nessa sociedade de tradição judaico-cristã em que viemos parar, imagine só falar por aí que dar o cu é gostoso, prazeroso. Pobre Sandy quando declarou que “é possível ter prazer anal”.

É talvez esse tabu que impeça que as mulheres explorem seus corpos e se permitam sentir prazer. (E nem pretendo entrar na pauta do quanto é tabu para homens heterossexuais falar sobre seus cus). Sexo anal dói? Claro que dói. Dói quando a mulher não quer e o parceiro insiste, pressiona, chantageia, força e ela acaba cedendo. Dói porque ela não queria. Dói porque não havia desejo ali. E quando não há tesão nem 20 litros de KY resolve. Quando se quer, um cuspezinho resolve qualquer problema.

Foto: Spencer Tunick

Foto: Spencer Tunick

Sexo anal não é prêmio porque meu cu não está para ser conquistado. Se já ousamos gritar que “a porra da buceta é minha”, que tenhamos o prazer de gritar que o cu é nosso também. Que damos, ou não, ele a quem bem entendermos, quando e quantas vezes quisermos. Que não somos “mocinhas perversas” porque gostamos de ser penetradas pelo cu vezes seguidas numa daquelas trepadas ocasionais. Por cus mais livres e menos policiados.

Casulos

Riso fácil, vivacidade, liberdade. Ser/estar/descobrir-se bisca é bem legal, né povo?

Maria_Sibylla_Merian-728x993É, eu também acho. Fantástica essa ruptura das amarras que uma galera chatona aí insiste em nos colocar. Ser o que se é, sem pudores, desconfortos ou medos. Sentimentos normais, mas que podem nos fazer sofrer  -  na maioria dos casos – mais pelos outros do que por nós mesmxs.  E a gente deixa.

As mesmas amarras que tentam nos impedir de mostrar a nossa verdadeira essência, são as que tentam nos obrigar a acreditar que a felicidade (desde que seja comedida e sem escândalos. Bem coxinha mesmo, tipo comercial de margarina) é  estado normal  e intrínseco a todas as pessoas e pelos mesmos motivos. Parece até que ficar triste ou precisar muito de uns momentos de reflexão quanto à própria vida é crime…

Sei lá. Acho que nós, humanxs, precisamos tanto de casulos (no nosso caso, “casulos sentimentais”) quanto as lagartas. Um tempinho para nos fecharmos e ficarmos quietinhxs até que a metamorfose aconteça. Até que melhoremos. Até que surjam novas cores e que possamos criar asas para voarmos, biscatemente livres. Como as borboletas.

sybillaClaudinha está lagarta. Meio feinha, perdidinha e esfomeada. Preparando um casulo quentinho, bom para aquecer meu coração e renovar meus pensamentos. Quando eu finalmente for uma borboleta, só espero uma coisa: que minhas asas sejam grandes. Para que eu voe mais longe. Para que eu possa ver e mostrar como sou leve e bonita.  Para que eu repense meus caminhos. Para que eu sinta que mudar é bom. Mudar… Mudemos.

* As imagens que ornamentam este post são de autoria de Maria Sibylla Merian, naturalista e ilustradora científica alemã. Pioneira, num tempo em que as Ciências Naturais eram “coisa de homem”. Conheci os trabalhos dela no ano passado e coincidentemente, hoje seria seu 366º aniversário e o Google fez um doodle lindo em sua homenagem. Veio a calhar com o texto de hoje: Sibylla dedicou sua vida a registrar por meio de sua arte as metamorfoses dos insetos, principalmente das borboletas. Que danada, né? Em pleno século XVII, justo uma mulher se destacar por fazer essas coisas!  

;)

Corpo

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Meu corpo. Todos os seus buracos, ausências, cheiros, sabores. Com todos os seus detalhes, que algumas pessoas tão bobas chamam de defeitos ou abrigo para a maldade para em revistas e religiões insistirem em ensinar a modificar, odiar, estranhar, machucar, transcender.

Meu corpo mergulhando nas noites marulhosas, em rituais cercados de sensações e afagos com gosto de sal. Liberto das convenções sociais, dos espartilhos patriarcais, de falsas obrigações inventadas para tentar dominá-lo.

Meu corpo para um outro. Orgulhoso, entregue, feliz, satisfeito, exausto. Sem medo.

corpo 2Tantas possibilidades apre(e)ndidas em abraços e alegrias. Meu corpo conhecendo em toques e delicadezas. Em ânsias e desespero. Com pressa. Devagar. Aqui. Ali. Acolá.

Corpo com seus gozos e calafrios. Temperaturas, calores, febres e suores.

Porque tanto escândalo?

É apenas um corpo de mulher. Livre.

Paixonites esquizofrênicas

Ou, o amor nos tempos da bipolaridade.

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

paixonite

Eu desperto e o seu cheiro ainda está em mim. Não me incomodam os seus pêlos que em carícias sorrateiras vêm parar na minha boca.  Esses me engasgam, eu cuspo e rio depois. O que me incomoda é a sua ausência. É passar o dia todo com você em mim. Quem sabe não furo uma veia, abro ainda mais um poro, invento algum outro orifício pra ver se você me ausenta sem dor. Ou racho a minha cabeça pra ver se escoam essas lembranças inúteis. Não sei pra quê as guardo. Da mesma forma como ainda não sei porquê eu nunca te disse eu te amo. Talvez puro receio disto não ser recíproco. E certamente não será. Mas estou com vontade de dizer. E aí, você aguenta? Esquenta, meu bem, pois o cobertor, é curto, bem curtinho, então vem logo. Sabe por que? Amanhã eu mudo de idéia. E te odiarei, teu time, teus pêlos, teu jeito desastrado.  Só posso ser feita de matéria abjeta e suja, porque até hoje não ouvi de você, espontaneamente, nem um mísero e vago “eu te adoro”. Eu, justamente eu, que me arranhei, me sangrei, aprendi a cozinhar na panela de pressão, a entender o que era um impedimento, a ver o jogador Fred para além da sua beleza e prestar atenção para um voleio (!). Você, verme miserável, que sai plácido e cinicamente da minha cama quase todas as manhãs não merece mais do que meu mortal desprezo. Nunca mais vou tencionar dizer eu te amo. Te odeio e tenho fome de ti. A louca de sentimentos imprevisíveis, que à distância se reconhece bipolar, só quer um abrigo no espaço de teus braços. Um carinho, somente. A palavra dita na hora certa. A coisa feita na hora certa. E não pense que estou falando das vezes que você me convidou pra comer sushi e eu aceitava com os olhos brilhando. Não, não me vendo por comida. Ok, só algumas vezes. Mas naquele dia foi sacanagem, vinho argentino e salmão com molho de maracujá, porque você precisava ser tão baixo??? Era só ter trazido mais uns cinco sashimis que eu te declararia amor eterno. E você, em contrapartida, o que você sabe do meu mundo? Sabe o que eu pesquiso? Sabe que eu choro ao ler Neruda? Que fico paralisada e arrasada depois de ver um filme de Bergman? Que meu sonho é viajar pro Chile e pra Cuba? Que meu desejo mais íntimo é ser só mais uma na multidão, confundida com toda essa gente? Mas você só sabe falar mal dos meus vestidos compridos. Esses mesmos vestidos que são elogiados no meio acadêmico e de trabalho, esses vestidos que você condena porque não são curtos, coladinhos e chamativos, como você queria. É querido, você namora com um bicho-grilo (que não vai mudar o seu visual). E eu, com um caretão tardio que quer tão somente uma menina transadinha e na moda, maquiada e escovada, toda trabalhada no previsível gênero inteligível (só Butler pra me salvar!). Juro que vou ficar apenas pra ver quem ganha essa queda de braço, eu, a sua outsider preferida.

Beijos, te cuida…

Peraí, vc sabe o que é uma outsider?

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jeane melo*Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

O amor comeu meu silêncio

Eu quero. Ele quer. Queremos. Pronto, encontro.

Eu não gosto. Ele adora. Conflito.

Possível solução? Sair correndo pelada arrancando os cabelos e deixar tudo para trás. As rusgas, as irritações, a convivência. Ah, alívio. Mas deixar também o amor, as conversas, os risos e as lágrimas. O doce de leite no café da manhã. O passeio na beira do rio. Tornar memória aquilo que é tão corpóreo. Não, isso não.

amor

Resolver as diferenças. Lembrar das aulas de artes e física e achar o tal ponto de equilíbrio. Doer, chatear, cansar. Diálogo. Respeito. Pontos de vista frente a frente. Encontrar no meio do caminho às vezes pedra, às vezes flor. Fazer as pazes. Matar saudade de um dia. Gozar no meio da tarde enquanto todos trabalham. Poder amar sendo biscate. Amada porque se é biscate.

Saber que não é fácil, se fosse era miojo. Mas miojo é fácil e nem sempre é bom. Galinha à cabidela demora, é difícil, mas é tudo delícia no fim.

Ser dois. Novidade. Ansiedade e paixão. Aprendizado e amor. Querer acertar e errar. Reconhecer que errou e se redimir. Aceitar as desculpas, admitir o perdão. Achar uma flor pequenina que faz sorrir o dia todo. A pedrinha miudinha no caminho não é mais motivo para querer sair dele.

Território

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

O mais antigo mapa de Portugal

Amor. Esse território em construção. Sem rosa dos ventos pra nos orientar. Território feito da colisão de dois mundos. Com suas tempestades, com seus desertos, seus oceanos. Toda uma geografia que se esbarra, que é reconfigurada. O território novo que nasce desse encontro é assustador, é encantador, é sedutor. Até porque cada mundo traz em sua geografia as marcas e matérias que trouxeram de outros encontros. Há cavernas não exploradas, tesouros escondidos, regiões que não se deve entrar. não por falta de permissão, mas por ainda não dispormos do material necessário pra exploração. Material que só vai ser forjado em conjunto. E que dependendo da relação nem chega a ser forjado. Tudo bem, relações não são inventários sobre o que o outro viveu. Nem tudo se fala e se compartilha numa relação.

Entretanto, esse território – como qualquer território – tem uma duração. É feito de matéria viva e como toda matéria se desgasta, se desfaz, se desmonta. É na relação do tempo –  que possibilita a efetuação do território –  e a paisagem pintada, que se revela uma espécie de maldição: Todo território é efêmero.  E sabemos disso. E dói. O desmonte de um território dói. A paisagem que construímos juntos e todos os elementos que faziam parte dela desaparecem. Na verdade, não desaparecem, tornam-se memória. Memória viva. É o registro no corpo da intensidade do encontro. intensidade marcando a pele. Memória viva em cheiros, em gestos, em olhares, em palavras. Os corpos que habitaram aquele lugar carregam em si a memória. Carregam na pele os nomes, os rostos inventados, os odores, as palavras…

Entre encontros e desencontros seguimos. Construindo territórios dos mais diversos tipos. Marcando as peles alheias e tendo as nossas próprias peles marcadas. Registrando no corpo a memória viva dessas colisões com outros mundos. Não há como escapar. Podemos, algumas vezes, cansados parar de participar dos encontros, mas a questão é que não há linha de chegada. Não há ninguém no final do nosso percurso com um caderninho pra julgar e dar um veredicto sobre esses encontros. Se fomos maus, se fomos bons. O valor desses encontros,  o que houve de bom, o que houve de ruim está marcado a ferro e fogo feito tatuagem em nossas peles. E que apenas a cada um de nós avaliar a qualidades dessas marcas. Registros do nosso percurso neste mundo caótico e das vidas que nós encontramos ao habitá-lo.


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maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

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