Meu lado

Próximo carnaval vamos fazer cosplay da obra do Magritte, Os amantes…

E você nem conhece meu lado mandar mensagens apaixonadas de bom dia. Meu lado te enlouquecer ouvindo a mesma música de Mayra Andrade umas cem vezes. Meu ladinho carente abraçar e grudar como se não houvesse amanhã, presente ou passado. Meu lado chegar entrando sem pedir licença na tua vida, assim, só porque tenho a descarada mania de fazer entradas triunfais em vidas alheias. Ou, por outro lado, ficar chateada porque você fez a barba, afinal, ela é minha, pertence a minha pele que reage imediatamente quando você vem roçar esses seus rebeldes pêlos em mim. Meu lado carcereira querer te acorrentar na minha cama e te fazer meu, eu metrópole e você colônia. Meu lado brigar porque alguém bagunceiro deixou a toalha molhada por aí (pensa que é casa da mãe Joana?) e acha que vai escapar de fininho da bronca (só que não). Então, te tirar do sério com as minhas pressões pra ver se você cresce, menino. Meu lado apoiar tuas transgressões (comigo). Dos meus lados briguenta e manhosa que você alimenta e depois finge não entender. Meu lado apaixonar pelo seu corpo eternamente suado e pelo seu sorriso, eternamente tímido. Meu ladinho sórdido pedir sempre mais até ver que você está cansado e exaurido. Meu lado querer caminhar ao seu lado e te empurrar com meu ombro (segura a pressão!). Dos lados arrogantes, falar como se tivesse muita experiência sobre você e me achar uma boba pretensiosa depois disso. E pegar firme na tua mão em momentos ruins e te olhar com olhos de desespero, de angústia, de tristeza, sem conseguir vislumbrar saídas pra esses persistentes problemas amargos da vida. Meu lado ausentar o destino e não querer olhar pra frente, esse nosso futuro ora opaco, ora promissor. Meu lado desejar ser uma pessoa melhor também por você, rapazinho que me ensina que o amor pode ser também um troço entre a calmaria e liberdade, tudo junto e depurado pelo filtro de um tempo novo (adeus modelos e padrões demodés). Meu lado ouvir você e te dizer, brotando espontaneidade, que ninguém escapa ileso da experiência de apaixonar-se e de se abrir pra esperanças outras. Meu lado, apenas ele.

O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

Intimidade, Casas de Swing e outras ferramentas de busca

Então fui para o Rio. Bom, bom, bom. Bom, nada! Deliça! Cremosa! Catupiry da coxinha! (Re)encontrei muitxs que amo. Tomei todas. Curti o que em proposta tinha feito ao moço:- vamos brincar de lua de mel? Santa Teresa. Ai, ai.

De lá trouxe comigo para essas paragens nordestinas e com sol de rachar o quengo, lembranças de risadas, alguma saudade apaziguada, intimidade renovada, esse homem moço que tenho amado em encontros e várias cidades e uma gripe inconveniente que me derrubou de forma retumbante.

Pois é. Ainda consegui trabalhar a manhã de sexta. Só. No meio do dia a gripe, única companhia que não solicitei me obrigou a buscar o telefone da farmácia. Imaginei congelar embaixo do endredon enquanto uma vergonha sem tamanho me invadia. Cadê glamour, Brasil?- Clamei em desespero enquanto me esvaia em fluidos corporais diversos, porque obviamente também menstruei assim que o avião pousou. Se dramaticidade pede sangue então o quadro estava completo.

sangue e neve

Só sei que foi assim…

Não, não é engraçado. Imagine imaginar idílios românticos e só conseguir tossir e tremer. Nada de tremidinhas das boas, quem dera, mas daquelas que vem acompanhadas de catarro e da sensação de ter sido atropelada por elefantes azuis do alto Himalaia montados por freiras cotós bordadeiras. Porque obviamente delirei um pouco. Também.

“Enfim sós” é o caralho. Meu nome é Zé Pequena!

- Me deixa morrer, porra!

Me deixa morrer, porra!

Daí. Culpa. Culpa. Culpa. De não me sentir sexy, de não sentir um tico de tesão enquanto penso que vou morrer (lembro da personagem de Capitães de Areia e resmungo Jorge, mesmo Amado), de não conseguir levá-lo para (re)conhecer a cidade. De não. Tosse. Febre. Culpa. Culpa. Tosse. Febre. Sinfonia dos infernos.

- No céu tem pau, mamãe? E morreu.

No céu tem pau, mamãe? E morreu.

Obviamente essa não sou eu. Aquela. Biscate. Biscatona de marré descer. Lembra?

Então.

Toalha molhada na testa. Afago. Café feito. Trilogia que começou com trenzinho assistida na cama. Conchinha. Delicadezas cotidianas. Melhoro um pouco. Feira. Xarope. Paciência. Enrosco. Essas coisas que recitadas juntas quase podem ser chamadas de intimidade.

De repente. Desejo. Tesão. Tesão. Tesão. Sexo de imaginar estrelinhas na voz dele. No sotaque dele. Ai, ai. Again.

E as casas de swing do título? Nem te conto!

A primeira casa de swing a gente nunca esquece

casa

Eu já sabia que havia uma casa de swing na rua de casa. Na.Rua.De.Casa. Walking distance.

Estava casada há quatro anos, mas se nem filme pornô dava para assistir juntos, e transar se tornou o aprimoramento da repetição de 4 etapas apenas, na mesma ordem, com a mesma intensidade… (se já tivessem mostrado a ele o episódio de Friends com os 7 passos para a felicidade…), o que dirá sugerir a ida a uma casa de swing. Jamais, jamais…

Eis que veio a separação, por uma lista de motivos que mal justificam o casamento, ok, mas ela veio com tudo e abriu espaço, pelo menos no começo, para muita liberdade e para que tudo o que não havia acontecido acontecesse, de alguma forma.

Clichê dos clichês, o advogado que cuidaria do divórcio vai em casa para discutir alguns detalhes. E depois que você chora dez minutos no ombro dele, percebe que o perfume é ótimo e que sempre rolou um clima e… depois de quatro anos e pouco, uma transa decente. E uma conversa deliciosa. E “ah sim, vamos combinar algo”…

E uma semana depois, por telefone – há uma casa de swing aí próximo da sua casa, conhece? E eu – não, ainda… (ele) – Vamos? Na quinta? (eu) – E por que não?

Fantasia por fantasia, casa de swing para mim era uma coisa meio norte americana, e eu não conseguiria imaginar o que veria. O que vi. (E o que ainda não saiu das minhas alegres memórias).

Melhor lingerie, vestido sensual, casaco porque fazia um friozinho. Salto alto. Perfume. O advogado chegou a sugerir de deixarmos para lá, mas não… fomos caminhando, copos de plástico com whisky na mão, rindo alto até chegar na portaria. O porteiro, todo simpático, pergunta se queremos uma introdução à casa, que eu descubro ter 4 pavimentos… Apresenta uma antessala em que você, com a chavinha recebida na recepção, deixa sua roupa no armário e fica de roupão. Camisinha grátis. O advogado ficou com 7, eu nem quis porque, afinal, tinha ido só para apreciar. Importante lembrar que a casa tinha todo um calendário – um dia certo para casais e homens sozinhos, outros para casais e mulheres sozinhas, outro somente casais, e outros eventos especiais, tematizados. Outra coisa curiosíssima – os casais pagavam um preço muito pequeno enquanto os sozinhos pagavam quatro vezes esse valor… compreensível, para manter a oferta equilibrada…

No térreo, ficava o bar, com a melhor batata frita da região, segundo relatos coletados no local. Um palco para live performances de sexo explícito a noite toda. Música para fazer um fundinho, e uma turma conversando muito numa boa, uma parte já em seus roupões, e outra ainda em suas roupas. Ah sim, um pouco mais para o fundo, a entrada para uma área com sauna e duchas. .

No subsolo, um labirinto interessantíssimo. Luz negra e paredes com buracos estrategicamente localizados. Um código de conduta facílimo de entender e a possibilidade de amassos desconhecidos e intensos, sem maiores contatos (ou não … ). Devo dizer que é extremamente excitante para uma primeira abordagem… aparência, dimensões e outros critérios pré-estabelecidos desaparecem. Puro prazer e muita, muita fantasia. Mãos, outras mãos, diversas mãos, uma ou outra língua inesperada…

No segundo piso, algo parecido com um “esquenta”. Sofás largos para um pouco de carinhos e chamegos, banheiros (limpos a cada 10, 15 minutos, impecáveis devo relatar) e alguns boxes acolchoados, alguns com poltronas, outros apenas escuros, e uma cortinazinha convidativa para os olhares curiosos. Lembre-se, para privacidade mesmo, só pagando a parte alguns dos poucos quartinhos do local. Mas não é, definitivamente, o caso.

No terceiro piso, uma sala onde rolava a maior suruba que eu já testemunhei. (A única, até o momento). Duas camas que deveriam ter, tranquilamente, 3×3 m. E em cada uma, uns seis casais se pegando. E uma moçada em volta olhando, se inspirando, se divertindo, se masturbando. Era isso que eu buscava. O olhar sem culpa de algo que estava ali, totalmente despido de preconceito (ou não, ainda não tenho certeza), e pura luxúria e desejo no ar. Os casais se alternavam, e o clima era por demais envolvente para quem queria apenas olhar.

Eu me segurei muito, mesmo. Até que de repente cruzei olhares com o negro de sorriso mais lindo desse universo, e cujo pinto era de ator pornô. Sério. Não precisei falar absolutamente nada, e em minutos já era eu no meio daquela cama. Com ele por cima, depois com ele e outro cara. (E sim, eu ainda permanecia com a minha roupa, do jeito que entrei, alguma pequena alteração momentânea…) Pouco depois já havia um terceiro, todo cuidadoso, que me tirou do meio da galera para uma outra cama ali mesmo, menos tumultuada. Fez, em quinze minutos, o que o ex não fez em uma vida.

Um dos caras da cama volta e nisso, o advogado que foi comigo ressurge de algum lugar, e vamos em quatro para um daqueles acolchoados. Transar com outra mulher não me seduziu tanto quanto poder finalmente ter dois caras na minha mao, na minha boca. Foi sensacional.

Parei um pouco; se eu fumasse, teria sido para fumar. Mas não. Foi para pegar uma água e olhar, lá no térreo, o show erótico… não houve nada mais redentor do que essa noite. Uma lista de fantasias realizadas e um contato com um lado meu que não havia. O desejo e a curiosidade deram espaço para o olhar para o outro que ali estava, e confesso, não foi nada convencional. Ou melhor, foi convencional demais. Os casais são na verdade homens e mulheres como eu e o advogado, que se organizam para ir realizar as fantasias. Quando são, de fato, casais, você vê que ou falta muita na intimidade deles, ou já se chegou a um ponto de tamanha cumplicidade que essa troca de parceiros não incomoda.

casa

Não vi ali ninguém do tipo ‘moderno’. Vi muita gente que está um pouco fora dos padrões de beleza, muita mulher inspirando Botero, acima do peso como eu. Muitos caras para quem você sequer olharia na rua. Baixinhos, esquisitos, nerds. Gente de verdade, disposta a te acompanhar em descobertas interessantes.

Não vi, nem ouvi, e muito menos senti, qualquer tipo de agressão ou insinuação. Terminei a água, pensando em ir para casa, mas aí o sorriso bem dotado da noite ressurgiu e fez com que não sobrasse nenhuma lembrança do que eu tinha sido até a hora de entrar ali.

Leia também: Tudo que você sempre quis saber sobre casas de swing…e nunca teve coragem de perguntar!

Coletivo de biscate é amor!

Niara e Luciana

Niara e Luciana

Sim, biscate já pressupõe um coletivo, e um coletivo de amor. Porque nós gostamos mesmo é de nos misturarmos uns nos outros. Da possibilidade de encher os olhos e o peito de amor e de transbordar sem medo, sem receio, sem pudor. E a gente transborda.

Luciana e Silvia

Luciana e Silvia

Luciana e Renata Lima

Luciana e Renata Lima

Biscate se junta para espalhar amor. Para somar. Para se divertir na mesa cheia do bar, por entre os olhares curiosos para o coletivo esparramado de risadas e cumplicidades. Biscate tem as mãos cheias, a disposição farta, o riso solto, grande, abrindo os braços para a vida. Para o que vem, e quem vem.

Não nos interessa o pouco. O contido. O padrão. O padrão nosso a gente mesmo desconstrói, sambando em melodias rasgadas e fora do compasso. Samba de biscate é samba de liberdade, que não obedece à cadência da bateria nem ao passo da comissão de frente. É samba vasto de cantar abraçado e sentir o corpo do outro, e o seu próprio, no ritmo do pulso que vem de dentro.

Renata Lins e Augusto

Renata Lins e Augusto

Renata Lins e Luciana

Renata Lins e Luciana

Augusto e Jeane

Augusto e Jeane

E o que importa se formos alvo do apontar de dedos? Biscate não precisa de compreensão, porque biscatear já é nadar contra a corrente dos julgamentos sociais. E trazer em si, para semear aos ventos, o espírito livre do amor, o lirismo dos bêbados, a lucidez dos loucos, a incoerência dos filósofos, a falta de senso comum, a individualidade acolhida, o remelexo nos quadris, a possibilidade de ser o que se quiser ser.

Augusto e Niara

Augusto e Niara

 

Augusto e Silvia

Augusto e Silvia

 

Luciana e Raquel

Luciana e Raquel

 E assim a gente vai se acolhendo nesse amor indefinido e vasto, nessa família que se expande pelo Brasil afora, que se quer junto, que suporta o peso das injustiças sociais e políticas com cheiro de perfume, buscando a revolução que se faça pelo amor e pela liberdade. Pela voz das minorias travestidas em respeito e igualdade. Pelo direito de dispormos sobre os nossos corpos como bem quisermos, com quem quisermos e seja lá como inventarmos. Pela luta contra o machismo e a opressão sexual. Contra a homofobia, a transfobia, a gordofobia, e  quaisquer padrões engessados impostos aos nossos corpos.

E assim segue a nossa luta para que todos tenham liberdade sexual e afetiva garantida  pelo Estado e respeitada pela sociedade. E a nossa luta é assim, cheia de amor e tesão, porque de outro jeito a gente não sabe.

Jeane e Luciana

Jeane e Luciana

Silvia e Renata

Silvia e Renata

Vem junto pra caravana biscate!

 

Ideologia…

A Denise Arcoverde publicou o link para o texto do Xico Sá, de hoje, na minha TL do Facebook: Você deixa de transar por gramática ou ideologia?.

Pergunta o Xico: “Você ficaria –não estamos falando em casamento!- com quem defende a tese do “bandido bom é bandido morto” e aplaude o neopelourinho escroto que anda rolando por ai?”.

E aí a xará responde: “pois então. eu não respondi à pergunta, pq essa do pelourinho não vale, né? É só retórica. Mas e um mezzo-reaça? Um liberal que acredita no esforço pessoal etc.?
Aí fica mais difícil dizer que não de cara. Eu pensaria.”

Pois é.

Eu pensaria. Mas possivelmente, não ficaria. Ou sim?

As questões que a questão levanta são maiores que permite essa vã filosofia.

Alguém pode ter o discurso lindo, perfeito, que combina com o seu. E os dois se completam e completam as frases um do outro, mas na convivência diária, na hora de colocar o lixo para fora e a comida na panela, os opostos se revelam, as divergências se tornam arestas intransponíveis, abismos. E não há respeito, não .

E alguém pode ter o discurso todo errado, seja na gramática ou na ideologia (errado de não bater com o seu, não sejamos arrogantes de nos achar sempre certos, isso também é brochante -ou broxante?), mas no dia a dia, comendo um quilo de sal, trocando os botijões de gás, provando do dormir e acordar, é aquele alguém que nos equilibra. Não completa, não a armadilha da alma gêmea, mas a certeza de que se é amor, vale a pena esforçar para “dar certo”. Não a todo custo, não para ser para sempre, mas enquanto durar.

E nesses dias, quando as redes sociais andam esgarçadas e ao mesmo tempo agastadas, fica mais fácil ou mais difícil separar o mezzo reaça, na linha do que a Renata Lins definiu, do feminista progressista fake.

Hora de dar uma pausa, respirar, e ver o que realmente você quer, naquele momento.

E no resto de sua vida.

Sem dicotomia entre o discurso e a atitude, sabendo que o discurso permeia a atitude, mas lembrando que a atitude, bem, ela confirma ou desmente o discurso…

Ideologia… Cazuza

 

 

O contratempo da dança

O Contratempo da dança.
Cena do filme de Win Wenders sobre a bailarina Pina Bausch

 

O contratempo da dança. Um contratempo de saudade escrito a quatro mãos com a amiga-poeta-contadora de histórias e dançarina do inimaginável, Kiara Terra.

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A saudade é minha. A saudade é uma prece.

A saudade é minha. Um vazio de muitas vozes. Canto silencioso. Um lamento divino sem palavras. Um côncavo onde mora o impulso da dança. A saudade é o contratempo da dança, o segundo estático antes do movimento. Que pode durar muitos dias, que pode durar um tempo sem tempo. A dança é de dois e a saudade é só. Uma saudade inteira de estar partilhada, e tão cheia de si.

Às vezes eu queria vedar, aplacar, deixar de sentir. O vento corta a pele branca, arranha os poros abertos. Conta segredos de dor e traz nas mãos a falta gelada. Às vezes sinto que não posso mais. Preciso descansar embalada em um colo quente. Eu sou pequena ainda. Mas é certo que eu não estaria viva com tudo fechado. A dança não acontece sem ar. Diante da musica não há nada o que se possa fazer, e então eu danço. A dança também sou eu.

E depois de tudo aplacado, o que vem? Ninguém mais mora ali na terra sem vento. As janelas não esperam mais pela brisa morna. Não anoitece ali. Os olhos esperam exaustos por sono nenhum. Não há sono possível. E eu deixo escorrer pelos dedos o que não me cabe mais.

Só há então seguir o pulso, ir de encontro à saudade: a mais bela e friorenta jornada. A mais verdadeira dança, marcada pelo corpo que se move pelo que vem de dentro. Um corpo nu habitado de seu próprio desejo, correndo no vento dos dias de ser. Só ser em silencio imenso e fundo de si mesmo. Encontro que revigora a força motriz. Que me importa se não sei o que vira? Que me importa não saber? Que seja. Que seja o voo improvável. Eu desejo. Estou livre.

E o sangue corre na falta. Quente escarlate que aquece a pele fria. No desequilíbrio o salto se forma e é leve, improviso que compõe a estética estranha de ser o que se é. Na saudade muda do desejo, a mágica floresce. Enlace harmônico em segredo.

O segredo da utopia palpável, ainda viva na memória do corpo. A utopia de caber no teu amor guardado, sem força nem esforço, respirando a alegria de estar ali. O movimento conjunto que desliza no improviso, que voa e aterriza suave, que cabe exato no ajuste do espaço da partilha. A utopia de uma proximidade de encaixe perfeito. A utopia da delicadeza possível. De se entender sem falar. Da escuta plena, de caber no que há de sublime dentro de nós. E de lá sair para caber no sublime do tempo que você me deu. A utopia de diante do medo, sorrir em segredo de presença partilhada. Onde toda força não assusta. Onde o movimento é um sim que floresce em terra boa.

Fecho os olhos e de todas as possibilidades desejo o mais bonito, o indizível. Desejo deixar ser, deixar vir. Desejo espaço para vir a sua força. Não reluto: entrego, digo e calo. Aceito. Desejo ausência por que nela há vento, e o vento alimenta. O alimento do vento é perfume. Acolho a saudades, e agradeço a ausência que me deixa habitada de desejo. Na falta que me habita sou uma, sou muitas, e ali estou incandescente. Minha falta também sou eu.

Você testemunha a minha falta, você me testemunha à distância. Esse eu tão cheio de pequenas grandezas, de forças e fraquezas perdidas no espaço. Ali onde não estamos, também estamos por completo. Grandes, sólidos, inventados. Na falta que pode ser leve, que também pode voar. E que voa. A gente brinca e pode rir dela, espalhada e disforme em nós mesmos. Ela também é amor. Amor dividido de olhos fechados. Ou quando no escuro te procuro e teus olhos mergulham em mar aberto.

Você vem, me toma, e no momento seguinte me devolve para mim. E essa é a coisa mais triste e linda que seu amor me dá de presente. Amor de generosidades. Que nada retém, tudo é pertencimento. Que me penetra e me devolve inteira para eu ser eu mesma.

E então sobra um sorriso besta no canto da boca, um sol na nuca que me aquece os ombros. A coluna acesa pelo toque sutil do seu dorso. Sobra a presença silenciosa dos teus olhos negros, a utopia de caber no seu abraço e de sentir tudo aquecido por dentro.

Sim, a saudade é minha.

Pina Bausch

Pina Bausch

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Pois parece que, na nossa sociedade marcada por consumismos vazios e padrões de beleza engessados, existe um limite, uma validade imposta à mulher pelos anos que correm no calendário. A beleza plastificada é quase um imperativo para as mulheres mais velhas, uma máscara para esconder o tempo e vedar as rugas e marcas da idade. Nada contra as plásticas, cada um decide como quer envelhecer. Mas é o padrão, e o julgamento, que me incomodam. E o quanto são normativos, e condicionam comportamentos. A beleza rotulada em peles lisas, em falsas perfeições, em estampas de revistas cheias de photoshop. Padrões inalcançáveis, a pirâmide sempre intangível do consumo. E o olhar social, esse perverso, que tolhe as mulheres tanto pela sua condição feminina, quanto pela idade.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei a seguinte frase: “nossa, sério que você tem 37 anos? Não parece, está tão bem, bonita, para a sua idade”. Ou ainda: “Nossa, você tem tanta energia, gosta tanto de festa na sua idade né?”. Eu apenas sorrio, distante, e penso nos tantos equívocos que estas frases contém. Como se a mulher fosse chegando aos 40, beirando os 50, 50 e tantos, anos adentro, e não pudesse mais ser considerada bonita, desejável, ter um corpo gostoso, ter vontade de sexo, vontade de vida. Como se a mulher tivesse um prazo de validade para estar no mundo, solta em seus pensamentos e em suas construções de liberdade.

 Se, em qualquer idade, a mulher é tolhida pelos julgamentos morais que afrontam sua liberdade, alongam a sua saia, sobem seu decote, e enquadram as que fogem dessas normas em categorias como “vadia” e “biscate”, a mulher mais velha sofre um fardo maior, por estar fora do “tempo” de ousar qualquer coisa. Uma mulher que não segue convenções sociais machistas, que descasou ou não casou nunca, que trepa com quem quer, como quer e a hora que quer, que sai como quer sair, que dança, que bebe, que descabela os outros e a si própria, não pode –  nem é concebível nessa hipocrisia social que vivemos – que ela tenha mais de 40. Tá certo, não é concebível nunca, mas as mulheres até os 30 ainda podem ser “perdoadas”, ou minimamente compreendidas por algumas almas menos conservadoras, por estarem experimentando. “Ah, a juventude”, dizem por aí. Ela vai se “regenerar”, arrumar um marido, ainda vai ter filhos e se comportar, afinal, a maturidade traz essas coisas.

Mas eis que você não se enquadra. A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida. Isso tudo com o corpo marcado pelo tempo, com o rosto banhado por aquelas rugas que já viram tanto, os cabelos coloridos ou brancos enfeitados de flores. E eles que estão bonitos de dar gosto, e cheios de tesão pela frente.

Essa beleza não normativa, esse comportamento não padronizado por uma mulher de quem espera-se, no mínimo, exemplo e disciplina, incomodam ainda mais o apontar de dedos. Ela está, duplamente, afrontando a nossa sociedade conservadora por ser quem é. Porque envelhecer deve ser conformar-se, ainda mais, aos padrões vigentes.

Aí, bom, chegam os 60, 70, 80, quem sabe, e uma mulher, nessa fase da vida, deve se conter ao quadrado da “terceira idade”, onde só se espera que ela vá fazer tricô e cuidar dos netos, esperando vagarosa a morte que ninguém quer ver. Ou dançando em bailes da terceira idade, onde podem ensaiar passos e, quem sabe, dar as mãos e um selinho tímido em alguém do mesmo quadrado. Mas eis que a vó faz sexo, e quer é mais. Eis que a avó é desejada e é gostosa e quer é trepar noite adentro. Pode, não pode? Mas é claro que pode. É só tirar as lentes da mediocridade moralista que tolhe as mulheres e corta suas possibilidades de sentir prazer.

Ademais, as mulheres mais velhas expõem o que a gente não gostaria de ver: que somos perecíveis. Que não somos imortais em nossas belezas padronizadas. Que o padrão é falho. Que a vida é breve. E que a idade vem, com ou sem plástica, com ou sem maquiagem. E, nesse momento, nossa inserção social como mulheres desejáveis e sexualmente ativas, está destinada a mornidão dos sonhos, à fantasia de um dia, ao olhar triste para o que se foi.

Mas, calma! Não, não é por aí. O sexo não tem idade, não tem limite, e a beleza é mutável como a vida. Não tem prazo de validade, só termina quando formos de vez dessa existência, para quem sabe onde. Ou para lugar algum. Sempre é tempo de viver e se deliciar em possibilidades de prazer e desfrute da vida. E nóis, aqui da biscatagi, continuaremos gritando e biscateando idade adentro, sambando na cara da hipocrisia, e nos assumindo livres para sermos o que quisermos ser.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Das curiosidade ou O que seria de mim sem o feminismo?

Por Mabel Dias, Biscate Convidada*

feminismo-ideia-radical

Conheci-o na faculdade. Queria namorá-lo. Lembro vagamente das vezes que conversávamos nos corredores do departamento de comunicação. Lembro de sua risada gostosa, de seu jeito alegre e atencioso comigo. Fiquei afim. Era o cara que eu queria.

Mas não foi comigo que ele escolheu ficar. Foi com outra colega de turma. Bom, fiquei triste sim, mais um fora. Superado. O tempo passou, fomos cada um para um lado. Acho que nem a amizade ficou. Não tivemos, desde então, contato algum.

Eis que de repente, passamos a fazer parte do facebook um do outro. Mas nada de diálogos. Ele agora está casado, com filho e tudo. E aquele desejo que havia em mim em relação a ele já havia passado.

Em um determinado dia, passa a me enviar mensagens privadas, dizendo que tinha uma admiração por mim desde a época da faculdade. Surpresa total! Nunca tinha ouvido isto dele antes. Fiquei assustada, tentando entender onde aquele papo via facebook queria chegar.

- Você instiga curiosidade – disse ele.

Questionei com meus botões: o que significa esta curiosidade? Se tinha “curiosidade” em relação a mim desde a época da faculdade, porque não disse ou porque não namoramos? Suspeitei que esta “curiosidade” queria dizer: “quero saber como você é na cama, já que é uma maluca?” (era desta forma que a maioria das pessoas da faculdade me viam, devido as tatuagens, o corte de cabelo, as roupas e as opiniões em sala de aula). Senso comum burro.

Fui juntando as pecinhas do quebra cabeça e percebi que estava diante de mais um homem que vê as mulheres libertárias como “diversão”, aquelas que não são para casar, mas servem, estão disponíveis, para quebrar a rotina do casamento. Senti raiva!

Me lembrei da cantora Anita. Escuto sobre ela os comentários mais absurdos: de que é uma “putinha”, “vagabunda”, por causa de sua dança sensual, suas roupas curtas, e para completar, fez uma propaganda sobre camisinhas. No comercial, ela aparece de sutiã, deitada em uma cama. Pronto, não vale nada, é periguete!

E assim é com todas nós. Em pleno século XXI, muitas pessoas ainda dividem as mulheres pra casar e as para diversão. Ou podemos usar outra classificação, nas palavras desse homem em particular: as que instigam curiosidade, como eu.

Vejam bem, a questão não é ele ser casado. A monogamia dos outros não é assunto meu e acredito que o desejo e o discernimento alheio sirvam de bússola para saberem que relacionamentos querem, não é tópico de minha alçada nem matéria para meu julgamento. Mas me incomoda que ele, no nosso caso específico, tenha me colocado em um lugar estanque, que ele tenha me rotulado – a partir de preconceitos – como uma aventura, como alguém que só serve para um tipo de vínculo, O que me incomoda é que ele não se pergunte e não me pergunte sobre o meu desejo.

Nós mulheres queremos poder transar com quem quisermos, se quisermos, onde e quando quisermos  e quantas vezes forem. As mulheres de saia e cabelos longos, gestos delicados e fãs de música clássica também podem gostar de sexo casual.  Nós mulheres com tatuagens, cabelos moicanos, roupas curtas, também podemos querer um companheiro. Todas nós, biscates. Porque não?

Então, na minha caixinha de mensagens, fica o silêncio que diz, em alto som: é, tu é um Mané, e esta tua conversa fiada só alimenta ainda mais meu feminismo e a certeza de que a luta contra o machismo é diária.

mabela*Mabel Dias, é jornalista, deu uma força na realização da Marcha das Vadias de João Pessoa e faz parte do Coletivo de Comunicação Intervozes. É uma mulher que luta por um mundo melhor para todas!

Visitando colônias em Marte, longe do casal blindado

Eu devia estar em Marte, possivelmente. Visitando as novas colônias. Só isso pode explicar o fato de que apenas ontem eu tenha sido apresentada ao casal que dá conselhos para “blindar o casamento”.

Ainda não me recuperei de todo.

Soube, depois, que o Casal Blindado é conhecido, que já virou (no singular, né, porque é “o casal”) celebridade, que tem um programa na TV.
Gente. Gente. Gente. Não só eles dizem essas coisas aí que eles dizem, mas tem pessoas pagando a eles para dizerem. O livro, parece, é um sucesso. Gente.

O Casal Blindado recomenda compartilhar o feicebúqui, excluir todos os ex, dar a senha para a “outra metade da laranja” – com o perdão da má palavra. Assegura que o ideal é que todos os amigos sejam amigos em comum. Vai o trecho, melhor do que qualquer paráfrase: “Obviamente, não é preciso abrir mão da liberdade, e todo casal que vive bem tem amigos — o ideal, porém, é que não sejam amigos exclusivos, mas sim amigos em comum, a fim de não gerar desconfianças.”

 A primeira observação, evidente, é que esse povo deve ter uma noção de liberdade no mínimo esdrúxula. Mais do que isso: a palavra “liberdade” entra aí como Pilatos no Credo. (aproveitando pra usar a expressão, que acho divertida. fecha parêntesis). Pega mal dizer que as pessoas têm que abrir mão da liberdade: mas é exatamente isso que os blindados tão dizendo, não é não? Num nível assustador de tão fusional? Dar senhas, compartilhar página em rede social, não ter amigos próprios? E quem decide quais são os amigos que permanecem? Quer dizer, quando você conhece alguém, se apaixona e tal, você já tem lá seu lote de amigos, não é verdade? A outra pessoa também. Aí o que é que faz? Cada um fica amigo de todos os amigos do outro (e quem disse que eles vão querer, não é mesmo)? Um dos dois joga seu lote de amigos no lixo? Os dois abandonam os “amigos prévios” e adquirem, a preço módico, um novo lote de amigos talhadinhos para serem amigos do casal? Só perguntando.

E o motivo? “A fim de não gerar desconfianças”. Acuma? Quer dizer que se você tem amigos próprios, se você não quer compartilhar suas senhas ou sua página em rede social, isso é motivo para desconfianças? Desconfiança de que? Ah, sim. Claro. Ela. Ela, a famigerada. Aquela-que-não-deve-ser-nomeada. Já escrevi sobre ela aqui, neste biscablog mesmo. Ali, eu, ingenuamente, dizia que “Amigo a gente compartilha, a gente apresenta aos outros amigos e torce pra que eles também fiquem amigos: entre amigos a gente confraterniza, se abraça, se agarra, se beija ladeira abaixo. Dança junto, bebe junto. Nas dores dos amigos, a gente chora junto. Amigos a gente ama. Ama, de verdade.” Foi mal, galera. Eu ainda não era possuidora da sabedoria blindada: achava que amigo a gente podia ter. Mas parece que não. Risco de desconfiança. Ah, tá.

E aí, vem a pergunta: depois de tudo isso, o que fica? Você foi lá, seguiu todas as regras, se desfez dos seus amigos exclusivos, compartilha redes e senhas, e o que sobrou? O que sobrou, não sei: sei o que não sobrou. Você. Você pessoa. Você com gostos, com vontades, com quereres só seus. Com dores, com história, com vida vivida. Com anseios, com dúvidas, com zonas cinzentas. Você, por quem a outra pessoa se apaixonou lá no começo da história. Se você seguir todas as dicas do casal blindado, uma coisa, acredito, é segura: você vai se perder de você. E não quero vaticinar nada, mas é possível que um dia você olhe para a outra pessoa e também não reconheça a pessoa por quem você se apaixonou. Que era uma. Que era única. Que era ela. Lindamente ela. Com todos os seus riscos e desafios. Com todo seu encanto de não ser você.

O que o casal blindado propõe, na sua distopia fusional, é a morte do eu e do você, nada menos do que isso. Só que não nota que essa morte acarreta, necessariamente, outra morte: a da paixão, do amor que é, necessariamente, amor ao diferente. Ao não-eu. Imprevisto, fugidio, doloroso às vezes. Aventura. E, sobre isso, sigo a sugestão da Fernanda M., que lembrou do preciso texto da Flávia Cera no Sopro n°94:

“Ama-se de corpo inteiro, mas esse corpo inteiro nunca é acessível porque é justamente no inapreensível do ser que está o amor. O amor nunca é completude e plenitude, a “sorte do amor tranqüilo” nunca chega. Ele não preenche, ao contrário, é a forma mais intensa de descobrir o vazio que nos estrutura. Amar não assegura nada, amando perde-se toda a consistência. Longe de toda posse e de qualquer idéia de fusão, o amor pode ser compreendido na soma e nunca na subtração ou na supressão das singularidades. Amar é projetar-se ao mundo, e não no outro. A tentativa de identificação máxima para justificar um encontro, que é sempre inesperado, é o que pode fazer desse amor uma burocracia tediosa. Quando se diz: “somos um só”, anula-se toda a diferença que sustenta o amor.”

Uma burocracia tediosa, diz a Flávia. E essa parece ser, sem tirar nem por, a proposta vendida a peso de ouro pelo casal blindado. Em palestras. Em livros. Em textos. Por cima, uma fina camada de chocolate-sabor-amor-verdadeiro: mas não se enganem. À primeira mordida, o miolo se revela. Em toda a plenitude do seu bolor. Que isso possa ser apresentado como sonho a ser conquistado, como meta de felicidade, me deixa sem palavras (ou quase, como se vê).  E, já que este post acaba sendo uma continuação, na ciranda, do anterior, fecho com o convite final daquele, que também serve para este aqui:

“Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.”

A saudade, o calor, a falta de grana e o preconceito

Ou… Estou me guardando pra quando o outono chegar

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Tempos bicudos, esses. Muito distante do meu habitat natural, tenho sérias, seríssimas dificuldades em me achar nesse espaço de agora. A dificuldade em me achar não me é estranha, mas não me saber nesse lugar incomoda demais. Faltam as pessoas conhecidas para encontrar por acaso na rua, e os “quanto tempo!”, “como vai a tua mãe?”, “ainda moras no mesmo lugar?” acabaram se tornando tão importantes quanto os rostos, ruas, casarões, esquinas e — óbvio — bares familiares.

Nesse calor do Ridijanêro pouco sobra de energia para qualquer coisa após o trabalho, cuidados da casa, filho. Dia desses lendo a Lu falar que são os sonhos pequenos que a fazem feliz (não era bem isso, mas foi assim que entendi), fiquei a me perguntar onde andariam os meus sonhos, grandes ou pequenos… Onde estão os meus sonhos? Nesse calor, querides, se perdem facinho. O cérebro amolece junto com o corpo e tudo se esvai. Cá estou eu, no subúrbio aguardando a tão desejada chuva em mais um final de dia… Esclareço: chuva não é sonho ou delírio. É necessidade, concreta, para suportar o dia a dia nesse pedaço “privilegiado” do inferno, abandonado até mesmo pelo diabo (dizem que foi passar férias em praias mais frescas do Caribe). E ainda tem os outros calores que estão fazendo um carnaval com meus hormônios… Sim, acho que estou entrando na menopausa. (spoiler!)

Se eu tivesse um ar condicionado, mais ventiladores, pudesse morar numa rua mais arborizada… O subúrbio do Rio é devastado, e nas lajes que tentam aliviar o sufoco das moradias precárias e ampliar um pouquinho o conforto só o que cresce é cimento, nenhuma árvore é plantada, nem mesmo em vasinhos. Falta de grana está diretamente ligada à precária qualidade de vida na “cidade maravilhosa”. Mais que uma cidade partida é uma cidade desumana para seus moradores — o Freixo tinha razão.

Além de rebaixar a qualidade de vida, a falta de grana te expõe mais aos preconceitos. E aqui me reservo e preservo o direito de não relatar pormenores. Porque dói se expor tanto, embora a necessidade de desabafo seja premente.

A saudade e a sensação de não pertencimento, o calor e a impossibilidade de sonhar com ele, combinados com a falta de grana e essas pressões e opressões cotidianas colocaram minha biscatice em xeque… Sou biscate, mas não estou biscate. Chuif.

Quem sabe quando chover e arrefecer um pouco, tudo o mais fique menos pesado… Quando é mesmo que começa o outono?

De ventos e partidas

De ventos e partidas

De ventos e partidas

Ela não sabia muito bem como havia se dado o partir. De repente, como num susto, ela já havia ido.

Não conseguia explicar em que momento partira-se, esparramando seus pequenos pedaços pelos tantos anos impregnados nas paredes que descascavam tinta branca. Num gesto brusco, arrancava com as unhas o branco que já fora inteiro. Não havia sobrado nada de pé, em que pudesse se firmar para o seguir dos dias. Ela estava ida, com os rastros da sua presença rarefeita a habitar a velha casa. Sua velha casa. Esvaziada, com as molduras preenchidas pelo vazio dos tempos futuros.

Ela partira assim, sem aviso, como um vaso adornado que se quebra em cacos disformes, empurrado da estante pelo sopro dos ventos. A janela, pelo desgaste dos fechos, estava aberta. E o acaso pode varrer as certezas que ela não sabia mais se tinha.

Despida de certezas e em pedaços que não mais se juntavam, ela se foi. Ainda confusa com o sentir-se tão só e tão povoada de si. Ainda com o gelado que lhe tomou o corpo, atônita por não saber mais onde era o chão. O vento-furação veio sem pedir licença. Ou talvez tivesse pedido, baixinho, em língua estranha, suplicando-lhe o movimento. Ela também era filha dos ventos.

Gostava de sentir o vento bater no seu rosto, e de saber-se portadora de asas inventadas capazes de levá-la a céus imensos. Fazia tempo que não ventava. Ela havido se encolhido, no conforto quente das janelas fechadas. Ali, carangueja, na concha emprestada, guardada dos arroubos de suas asas.

E então chegou o tempo, perspicaz, arrancando-lhe as raízes que não mais se fincavam no solo. O vento inundou a janela – a grande janela da sala da qual via o jardim vivo. Ventou, e ela se abriu para receber os ventos. Sua saia voava, e ela espalhava-se pelo ar leve do dia de sol.

Rodopio, vento-arrepio. Ela também estava viva.

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