Mergulho*

“Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. (…) E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo”. (Clarice Lispector)

mergulho

É esse o convite, acho. Pra um mergulho. Pra se permitir. O que? Qualquer coisa que apeteça. Sentir, talvez. Esquecer o destino, aproveitar a estrada. Estar. Aceitar a dança. O risco. O riso. Apostar no bom. Em movimento: dos barcos, dos quadris. Como andar: desequilíbrio e coragem. Matéria. Ser o corpo. Ouvir a carne.

Dar a mão. Oferecer o ombro. Ser abrigo. Acolher abraços. Olhares. Expor-se. Deixar o querer chegar manso. Distrair-se. Rir alto. Sussurrar. Tocar. Tocar-se. Acreditar que é possível isso de gostar. Apenas por. Assim: um, outro, um espanto.

Desfrutar. Vento no rosto, ponta da língua, tatear. Encantar-se. Rasgar as listas. As exigências. Esquecer o branco, o preto. Viver a cores. Pintar o sete. Como se fosse brincadeira de roda, rodopio, entontecer. Farejar.

Ouvir, ir além, perguntar. Querer saber. Querer percorrer. Querer. Dilatar-se em aceitações. Venha. Toque. Saiba. Diga. Deixar o dia ser noite e a noite se fazer dia em conversas de pouco dizer. Intervalos. Olhos. Contato. Desprezar amanhãs, o futuro é o agora do depois.

Ser encontrada. Vista. Desejada. Encontrar, ver, desejar. Deslizar. Roçar. Encostar. Perto. Abrir portas e janelas. Ainda mais: prescindir das paredes. Desistir da hora certa, do lugar certo, da pessoa certa. Abandonar a régua e o singular.

Umedecer-se. Aceitar-se molinha, flexível, aberta. Mergulhar. Brincar. Bater na água. Fazer borbulhas. Tomar caldo. Deixar o sal se fazer gosto na pele. Salgar-se. Resgatar-se. Querer apenas o querer. Um dia. Outro dia. Lembrar: é divertido. Um avaro pelo avesso: viver os dias como quem desenterra tesouros. Sem certezas. Deixar as âncoras no barco, deixar a bússola na gaveta, experimentar. Vai doer? Vai doer. Isso sentido, seguir.

 Como disse Clarice, saber que fez um perigo: viver.

 

*Post síntese de sensações/conversas biscates com a querida Renata Lins.

Não me Arrependo

amor de índio

Amor, eu não me arrependo de você. Não me arrependo do tempo que esteve na minha vida, não me arrependo de ter dado oi naquele aplicativo de pegação, não me arrependo do seu seu cheiro, não me arrependo do seu beijo, do seu corpo suado junto do meu. Não me arrependo da sua mão que subia pela minha perna, entrava na minha bermuda e pegava no meu pau no fundo do ônibus. Não me arrependo do sorriso safado. Não me arrependo da pouca grana, de ter me doado. Não me arrependo de te convidar pra morar comigo sem te conhecer direito. Não me arrependo das brigas, das mancadas dos desentendimentos.

Sim, eu não me arrependo. É, claro, ás vezes me pego pensando “e se eu tivesse agido daquele jeito e não daquele”? Se eu tivesse ligado? Seu tivesse mandado mensagem?  Será que ainda estaríamos juntos? Eu sei, amor, é apenas um exercício de imaginação. Não dá pra saber o que teria sido, sabemos apenas o que fizemos. E, sim, ás vezes acho que foi culpa sua, ás vezes acho que foi minha, mas daí lembro que não há culpa, nem desculpa, fizemos da nossa vida juntos  o que foi possível.

Outro dia aqui em casa entrei no quarto que era nosso e foi como se uma onda de memória me tomasse. Lembrei de quando chegava em casa cansado , entrava no quarto e te via dormindo. Era como no clichê  dos apaixonados porque parecia que o mundo parava naqueles segundos em que eu te olhava. E eu só saía desse estado de apaixonamento pra te beijar. Você nem se mexia. Foi assim durante meses.

Mas acabou. Assim como esse texto.

 

maycon

 

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prado*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

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* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Flor de Inverno

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Teus medos passeiam pelos percursos do meu corpo

Deslizam suaves através dos pelos que me vestem

Fazem eco nos poros, sussurro aos ouvidos

Gemido, gozo, flor de inverno

 

Amor despido

No ombro onde deitas

No peito que repousas

Na coragem que te brilha quando choras

E quando no escuro te procuro

E nossos olhos mergulham em mar aberto

 

Calmaria, revolução,

Silêncio branco de nuvens que desenham o céu

Galopes tremidos no chão onde repousa o futuro

No porvir onde deitamos,

Sentimos

A embriaguez dos nossos passos largos

A delicadeza do possível

O tempo manso que nos acaricia o cabelo

 

Aqui, presente

Verbo que se faz vivo

Extravasado da vida partilhada que brota vermelha

Colorindo a terra rachada do cerrado

Entre ossos e saliva

Desejo bruto

Trampolim

Nós.

Amar é Dar

Tem a Tulipa. E aquela música que todo mundo gosta, inclusive eu. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Tão tentador, não é, poder acreditar que o amor é esse moldador de peças de quebra-cabeça que nos faz achar um encaixe perfeito, que o amor garante exclusividade, que o amor é sintonia. Só que. Pelo menos não do lado de cá do abismo. Daqui, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Tem o amante, ouiés. O amante é aquele que sente que algo lhe falta. Não sabemos o que é, mas é claro, olha só, deve estar nessx moçx faceirx de olhos cor de âmbar (ou complete aqui conforme seu desejo). E amamos. Amamos isso que supomos estar no outro e que preencheria o que nos falta. A tampa da panela. A metade da laranja. O parceiro perfeito da dança. Daí, tem o amado. Opa, me escolheram, essx daí deve saber o que eu tenho pra dar. Eu não sei o que é, mas que importa, se elx me quer, elx viu em mim isso. Belezinha, né? Só que o amado também é ser de falta. Também ele espera a tal completude. O que ele tem a dar ao amante é: nada. Ou ainda: sua própria falta. Seu buraco. Seu oco. O amor preserva, justamente, o lugar da falta. O amante precisa que o amado seja também amante. Amar é querer ser amado. É além: é querer ser amado do jeito que queremos que o amor seja.

"o sono compartilhado é o corpo de delito do amor"

“o sono compartilhado é o corpo de delito do amor”

E aí eu lembrei uma outra dança. Da Teresa com o amigo do Tomas (n’ A Insustentável Leveza do Ser). Tomas a quem ela ama com essa fome que a devasta (e não há metáfora melhor para o amor, acho eu, porque a fome só finda definitivamente quando finda o sujeito. No por enquanto, a saciamos transitoriamente. Amar é bem assim, de vez em quando parece que. Mas, a seguir, queremos mais). Dizia eu, Teresa dança com o amigo de Tomas. Porque, repare bem, ele, Tomas, não gostava de dançar. E aí Tomas fica ali, mastigando ciúme, observando como eles – Teresa e seu amigo inominado (e não ter um nome não deve ser por acaso, né, Kundera, seu lindo) – dançam bem juntos. “Ele estava estupefato de ver com que precisão e docilidade ela se adiantava uma fração de segundo à vontade de seu parceiro. Essa dança parecia proclamar que sua dedicação, esse ardente desejo de satisfazer o que lia nos olhos de Tomas, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas, mas que estava pronta a responder ao apelo de qualquer que fosse o homem que encontrasse em seu lugar”. É claro que o ciúme de Tomas inibe que ele reconheça que não é qualquer homem em seu lugar, mas ele ou qualquer homem que ocupassem esse lugar: de alguém que tem algo que ela supõe que a complete. Que a faria feliz. Plena. Futuro do pretérito. Ou ainda. Pretérito mais que perfeito, se não ligarmos à gramática.  Tomas desconhece que o amar não é acaso, é repetição. Tem aquele traço único que buscamos e que supomos em quem amamos. É esse traço, que desconhecemos mas reconhecemos, que faz a amarração. Ponto de estofo. Teresa ama Tomas, um tanto, porque supõe que ele sabe alguma coisa sobre ela que ela mesma desconhece. O amor é uma pergunta. Um desassossego. Amando, buscamos o apaziguamento da hiância*, mas, rá, só podemos fazê-lo reconhecendo que ela existe: a distância. O vazio. O desamparo. Quando enunciamos eu te amo como se fosse eu preciso. Eu preciso que você precise. É aí, na vulnerabilidade – e na aceitação da vulnerabilidade do outro – que o desencontro – marca das relações humanas – nos permite ser – na falta de palavra melhor – felizes (e o pra sempre, sempre acaba).

 * Hiância é tipo um não-lugar. É como o vazio que tem entre os parênteses ou aquele símbolo do vazio na matemática. É um nada margeado, relativizado, definido por ser bordeado, porque é um nada que só (in)existe a partir de um alguma coisa que existe. Porque como somos seres de linguagem o vazio absoluto é impossível de dizer (como, ademais, qualquer coisa do real), quando nomeamos: nada, aí existe algo, a nomeação pelo menos, né. Ou resumindo: o que é fendido, lacuna.

Ou leiam esse texto sensacional que a Renata Lins já tinha sugerido, Verbete: Amor

Bissexuais

Por J. Oliveira, Biscate Convidada

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Entre beijos, abraços, apertos, carinhos e gozos nunca fui boa em escolher. Paixões se fizeram assim sem pedir licença, quando me dei por conta já tinha acontecido. Desejava e amava mulheres… também. E sem esperar vieram também os rótulos e os preconceitos embutidos.

Sapatão. Hétero. Indecisa. Vive em cima do muro. Mentirosa. Promíscua. Tá no armário. Mas você tem mais opções. Você precisa avisar antes. Nojo. Eu devo ter medo de você? São os bi que transmitiram a aids para os héteros. Quer pegar todo mundo né? Mas ninguém como você quer um relacionamento sério, certo? Mas qual você prefere? Como posso confiar em você? Sua vida á mais fácil, você pode ser hétero. É só uma fase. Vocês são mais evoluídos. Só vou se o lugar for 100% gay. Claro que você é não-monogamica, todas vocês são. Que tal você me apresentar um amiga sua pra transar com a gente? Mas já estamos falando de lésbicas, não é o suficiente?

não. Não. NÃO. E NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Podia dizer apenas que gosto de pessoas e cair no clichê. Mas é mais do que isso. Ninguém controla por quem se apaixona, ou sente desejo, ou ama, sabe? Ninguém controla a própria felicidade e satisfação em um relacionamento. Esses limites se fazem sozinhos. E por um acaso não é o gênero que delimita isso tudo pra mim. E isso vale para todes nós bissexuais e pansexuais.

E não é nenhuma escala kinsey que vai determinar isso. Até porque essa tabela é binária e eu preciso dizer: os gêneros não são.

Desejos também não são, amor também não é. E dai que cada um de nós encara essa afetividade e sexualidade de uma forma. A gente se sente diferente, se atrai diferente, se relaciona diferente. Não me encaixo na sua caixinha? Te decepciono? É a vida. Não queria ter também que lidar com essa discriminação toda, mas não espero aceitação de ninguém pra eu ser eu mesma.

É triste ter de viver pedindo desculpas por algo que a gente não tem controle, por algo que faz parte da nossa essência. E que define a forma que a gente se relaciona com o mundo.

Não escutem essas merdas todas. Não aceitem nada menos do que respeito. Se juntem. Se fortaleçam. Resistam. E continuem amando, trepando, beijando e abraçando sem culpa. Sem deixar que os outros rotulem o que é válido pra vocês ou não.

Vocês não estão sozinhes.

jussaraJ. Oliveira se sabe, se diz: contradição em pessoa. Aventureira inconstante e amante suicida. Pequena. Mas faço estrago.

Toque e Retorquir…

Poucas vezes o calor foi tão infernal. O da alma, evidentemente. Nas cobertas, já desfeitas, já descobertas, já jogadas, os restos de suor. Do calor. Do inevitável calor. E como acordar sem antes rememorar? O relógio insiste em tocar, um galo moderno com som irritante. Mas os olhos cerrados fazem companhia para o corpo. Quente, aquecido, saudável. Úmido.

masturbacao-destacada-620-3Não há como distinguir o sonho da vontade. A vontade do calor. O calor, dos corpos. Ainda que sozinha, ela está ali, entre pensamentos que passam entre pernas, coxas e inevitáveis toques, maliciosos, quase todos. O calor no quarto vem da janela, entreaberta. O sol da manhã. O calor do quarto, na verdade, é o do corpo. E ela quase que sorri, ainda presa aos sonhos. Ao calor. À vontade.

Ela se deixa tocar. Já sabe e se reconhece acordada. Aquele calor no quarto. E na alma. No primeiro toque reconhece a vontade, a vontade dela. A cadência dos toques reconhece movimentos que ela já experimentara durante a noite quente. Um toque impreciso, mas preciso, direto e ela quer. Quer para saciar, para ter, para abraçar. O calor. E o relógio dizendo sete da manhã. A janela, o sol. O calor. Ela já sabe que não poderá fugir daquele calor. Da alma. Do corpo. Dela. Só dela. E ela se toca, toques que ela quer de outros dedos, de outro corpo, de outro olhar. Quente, aquecido. Saudável. Bela, se sente bem. E sorri.

As cobertas e agora, as roupas de dormir. No canto da cama. Testemunhas que pelo calor reconhecem a razão de estarem molhadas. E jogadas. O relógio desistiu de incomodar. Não importam mais horas, minutos ou segundos. Era ela e com ela, dela. A manhã quente no quarto tomava conta de tudo, quase tudo. O corpo. O calor. A vontade. O calor, sempre este calor. Da alma. E num instante ela fecha os olhos, sente o corpo, sente os pelos pularem de arrepio e sente tudo o que queria. O desejo. A vontade. Olhos cerrados, boca entreaberta. E como um beijo, um sonho, um toque. Como o sexo. Como os corpos que falam. Bela, se sente bem. E acorda.

A cama, as cobertas, as roupas de dormir. O resto do suor. O cheiro de corpos. O gosto de tudo. O relógio. Enquanto a água do chuveiro escorria, ela pensava no resto do dia. Sabia o que era aquele calor da manhã. Desperta, viva. Deliciosamente quente. Outro dia começara e ela já estava bela. E pronta. “Bom dia”.

Sobre tempos e maresias

sobre tempos e maresias.

para minha mãe. e meu filho. 

arquivo pessoal

arquivo pessoal

O dia estava cheio como cabia na minha memória. A praia, a mesma praia de tantos dias que formaram meus anos até meados dos vinte.

A vó e o neto adentram o mar de mãos dadas. Adentram as ondas mansas rumo ao horizonte dos navios e do desconhecido da minha infância. A mesma praia que me lavou os cabelos e me embalou pelos anos. Praia de ventos mornos e areia escura. O tempo lavado pelo mar, e pelo salgado que me lambeu as feridas.

Sorrio emocionada por entre os vendedores que anunciam pipas, milhos, mates e tantas alegorias de verão. A multidão de sol me faz zunido aos ouvidos, junto com o embalo bom do mar. A música me penetra e alcança as incógnitas vivas naquele resto de natureza. O vento incansável do tempo me convida a dançar. E eu danço, ensaiando perguntas que me escapam. Dançar as perguntas é mergulhar no mar, esse mesmo mar que me corre por dentro.

O menino pula e a avó sorri, inebriados de maresia. Eles que me formam, eles que me tocam com as ondas que beijam meus pés. Eles que me marcam ciclos, e me brindam com amores que não explico. Um amor casa, e um amor trapézio. Amores estranhos que se misturam nos ossos, que fazem parte da carne que envelhece e se regenera com o correr da vida.

Moldada pela lama de onde venho sigo a travessia, rumo as novas rotas de espuma branca. O menino se cobre de lama, enraizado a beira mar. Mãos que cavam e constroem castelos sempre inacabados, rodeados pelo buraco que será, em pouco tempo, maré cheia. Olho o horizonte de onde parti. E parto, a cada dia. Para até onde correr o mar que nunca começa. E nunca termina.

arquivo pessoal

arquivo pessoal

Doce no salgado

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Então…

Outro dia mesmo dancei, bebi, percebi. Que a vida da gente é repleta de contradições infinitas. Do amor ao fim do túnel. Da luz que pode ser locomotiva no sentido contrário ao chamego. E do xaxado também. Sabia que tinha gente se gostando ali. Que ali tinha gente que gostava de mim. Sabia travesseiros e uma só coberta, ideias de morar junto, alqueires, uma pequena horta. Manjericão, que cheiro bom. Reconhecia o tato, os perfumes, o prato de manga com sal e que não gostava de experimentar roupas. E assim, cresci assim, com a gente. Beijo, sexo, saudade, cartão de crédito, conta corrente: conjunta.

coracao

Mas aí me vem esse lado biscate, de fogo, de querer bem, o mundo, os outros. De achar que esse tal compromisso é a antítese, rendição, fim. E minhas caraminholas todas se põe a sambar como loucas e doidivanas, em avenidas em transe. Mais um pouco os pascácios iam dizer que eram os hormônios. Eu os mando catar coquinhos, todos os coquinhos, e enfiar esses argumentos corriqueiros nas fossas nasais, pelo fundo do nariz, para afundar goela abaixo. Mas…. na verdade é que tenho medo de estar assumindo algo que não sou por causa dos outros ou, pior, não assumindo porque os outros acham que contradições tem limites. Pode gostar de doce no salgado?

Mas aí tem aquele copo de cerveja juntos, final ou começo de expediente. Aquele primeiro gole, quando a cerveja desce parecendo néctar, nirvana, amém. E nós lá, fazendo dengo, cafuné, falando do meu ronco, da calcinha pendurada no registro. E vejo aquela calça e já imagino a bunda, o sexo e tudo e quero mais é arrancar. E das minhas contradições, a gente volta a se atracar na sala, janela aberta, escancarada, como meu coração, minha vulva, meu pinto, minhas válvulas.

E sabe que eu não acho nada demais querer que seja assim? Hoje é assim. E quero que amanhã seja também. Mas sei que pode não ser, que pode ser, que também pode ser outra cousa. E sei que terei desejos, que molharei ambições e lábios por outros e farei, a cada uma dessas vezes, algumas inspiradas canções de amor, poemas. Ou mesmo me entregarei a pequenos devaneios. Mas hoje quero poder viver assim, agarrados, abraçados, transando na varanda mas pensando se é dia fértil. Sei lá.

Um coração biscate ama. O resto… aaaaah…o resto…. se tem muita regra não me serve. E se não tem também, regra nenhuma, então sou eu que defino. No máximo, nós.

Abrir o olhar

Les Demoiselles d’Avignon. Picasso. <3

Abrir o olhar, era disso que falávamos. E de que continuei falando. Abrir o olhar. Dar-se conta de que beleza, feiúra, são conceitos construídos. Dar-se conta é o primeiro passo. Livrar-se dos padrões que não são nossos, voltar àquela fase, bebê, em que a gente não sabia ainda que existiam padrões e se encantava diferente: com cores, com texturas — uma pele macia, um colo confortável e aconchegante, morninho, um sorriso aberto, uns brilhos –, com jeitos, se encantava diferente e verdadeiramente, se encantava do nosso jeito. Antes. Antes de ouvir dizer que tal ou qual é bonito, que tal ou qual é feio. Antes de entender isso, de acreditar talvez. De incorporar no olhar.

Nu Descendant L’Escalier. Duchamp

Tem uns sofrimentos que percebo virem daí. E agora não estou falando de aceitação de nosso próprio jeito, de nosso próprio corpo (embora sempre também): estou falando do outro. Da aceitação do outro. De fulano que gosta de sicrana, gosta mesmo (e eu não ponho isso nem um segundo em dúvida), mas tem vergonha de apresentá-la aos amigos e conhecidos: fulana é “fora do padrão”. Do padrão de quem? Não dele, claro, que dela gosta; do padrão dos outros, daquela camisa-de-força que impingem a todo mundo que é o que se considera “a beleza certa”, e seu anverso, a não-beleza. Já ouvi histórias assim, de um fulano que saía com sicrana, que trepava com sicrana  (trepava: o desejo fazia-se presente, não é mesmo? desejo, essa prova dos nove), mas não saía em público. E a dor envolvida. E a aceitação por parte de sicrana. Que também acolho, que também acredito que faz parte. Ela, com ele, sentia-se bem. E aceita. Embora quisesse mais, sentisse falta da exposição, da “saída do armário”. Ele digladiava-se com seus próprios preconceitos, com sua própria necessidade de aceitação por parte dos pares. Ela-espelho. Ela-consciência. Ele-dogmas. Ele-insegurança. Ele-dificuldade.

Mulher tuaregue.

Tenho vontade de botar os dois no colo. De dizer “pronto, passou” e soprar o dodói. O dodói que é dos dois, que veio na forma do xarope amargo e intenso das normas e regras da estética social. Essa mesma que gera aquilo que chamo de “corpo-troféu”. O conquistado, através de muitas dores e dificuldades (o que aumenta, inclusive, seu valor): e pode ser exibido em capa de revista. O corpo domado para entrar nos padrões. Tem aquelas pessoas que, por circunstâncias meio genéticas, meio de criação, enquadram-se sem nenhum esforço nesses padrões: será a vida fácil para essas? Esse texto da Adriana Torres fala disso com muita propriedade, acho. Nem assim.

As possibilidades de agora, do século XXI, tecnologia, abundância de informações e de acessos, poderiam ser usadas para isso: para, a partir da ampliação do olhar, quebrar preconceitos, eliminar pré-julgamentos, acabar com padrões estéticos. Olho pra dentro, e tento buscar alguma vantagem nesses padrões: não encontro nenhuma, sinceramente. Só desvantagens. Só aprisionamentos. Só dores construídas. Só desencontros e impossibilidades.

E no entanto, nosso sistema de padronização acachapante parece fazer justo o inverso: a partir de certos centros muito bem estruturados de poder, disseminam caixinhas estreitas e exigem que todo mundo nelas se esprema. Leitos de Procusto. Pra caber, há que se cortar pés, há que se esticar pernas. Há que se alisar cabelos, que se perder quilos, que se afinar narizes, apagar rugas, definir abdômen, pernas, glúteos. Duro leito de Procusto onde tão poucos cabem por obra e graça da natureza, que tem mais o que fazer do que cuidar de leitos alheios.

Abrir o olhar, dizia eu. Alargar. Mudar a postura. Não precisa mexer nada, não precisa nem sair do lugar. É uma mudança bem interna, uma decisão de não deixarem dizer, de fora, o que é feio, o que é belo.
A pergunta, acho, é: o que te emociona?
A resposta, suspeito, é algo como: ainda não sei, mas quem sabe…? ;-)

E isso é um convite.
(caso não tenha ficado claro.)

P.S.
Só depois de ter escrito o post é que vi essa história, uma história que fala tão bem disso de que tentei falar aqui. Veredas possíveis. Novos olhares.

 

 

Estamos em reforma

Há cerca de um ano e meio, talvez influenciada pela Elis que cantava a tal da casa no campo, me mudei dum quitinete naquela avenida movimentada do bairro universitário e embrenhei-me no verde.  Ao invés de viver a paz e o bucolismo prometidos musicalmente, foi desde então que passei a andar com uma placa de “estamos em reforma” pendurada no pescoço.

Pedreiros, tijolos, cimento, barulho, arrastar móveis, crises de stress, dor de coluna, tem sido uma constante, mas também as novidades e descobertas diárias desse “sentir-se em casa” diferente do antes.

Como tenho pouco dinheiro, o lugar que já foi um ateliê de tijolinho aparente e que nem banheiro tinha, tem se transformado num lar muito de pouquinho em pouquinho, com a ajuda quinzenal e nem sempre competente, mas confortadora e falante de Aldenir, o pedreiro.

Poético, né?

É.

Ou era.

Até dia desses, em que o inverno começou a dar o ar de sua graça e a chuva infiltrou-se em cascatas pela janela nova da cozinha e aranhas caranguejeiras e armadeiras passaram a me lembrar constantemente que eu “não estava mais no Texas, Totó”.

Doze palavrões, uma garrafa e meia de vinho, mil arrependimentos suspirados de saudade da “civilização” depois  foi quando intensifiquei o pensar acerca dum “habitar” biscate.  Será que “isso” existe?

Enfim, lembrei que independente de onde e quando gosto de decoração, curto organizar os detalhes e planejar confortos coloridos, mas diferente dos apartamentos impecáveis das revistas que tratam do tema, sei que meus espaços sempre estiveram longe da perfeição. Ainda bem. Ainda bem?

Fui dormir bêbada, um pouco mais apaziguada e sonhei com uma promoção sensacional de telhas e madeiramento.

Acordei de ressaca, dei um “jeitinho” na janela com a cortina do box, fui trabalhar e na volta comprei flores para plantar no vaso terracota. Não consigo imaginar o que alguma outra biscate, depois de um stress qualquer, resolvesse fazer… se arrumar para alguma balada?

Mas sei que desejo a nós duas é que  tenhamos ambas “festas” sensacionais. Andando descalças no jardim ou circulando de salto alto em algum piso espelhado.

Pois é, o fato é que acredito que uma casa, assim como nossas vidas, nunca está pronta.  Mas podemos dar um tempo, curtir o que já foi feito e esperar que o temporal diminua. Também podemos arrumar as malas, visitar outras paisagens, transitar entre as possibilidades, com a certeza de que há um logo ali para onde voltar.

E que só para alguns isso é “bom”…  para mim pelo menos tem sido.

Domingando

“Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra”*.

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Então eu te olhei com os olhos livres de teorias. O dia em Brasília se punha com aquela onda vermelha que iluminava o céu, deixando seus últimos rastros de respirar luz. Era luz de quase noite, e o rosa avermelhado embalava nossas horas porvir. O entardecer em Brasília é sempre uma experiência. Daquelas que a gente só consegue explicar com os sentidos, esses mesmos que aguçamos em nossas conversas tão racionais quanto impossíveis.

Eu sorria sua fala demorada, e o papo seguia a rota inebriante dos nossos cigarros. De repente, já era noite. E a gente não sabia. Mansamente eu admirava seu jeito, suas perguntas, sua passionalidade em discursar sobre as incertezas da vida. Suas angústias que já foram tão minhas. E ainda são, vestidas com roupas mais frescas de ventilar a mente. De aceitar a não resposta como a resposta possível. De abraçar o não saber e o não precisar saber como um bálsamo que alivia e refresca a alma.

Não, nem a ciência, nem a religião, eu não tinha mais lastros explicativos. Deixei escorrer pelos dedos os tantos discursos que já foram meus. No momento, a escuta. O assombro. A pequeneza diante do mundo que você tentava laçar com perguntas perspicazes. As nossas mãos estendidas. E a certeza do instante em que seus olhos se voltavam para mim, e os meus para ti, e eu existia quente naquele espaço. A sua boca que eu desejo. O seu corpo vivo no meu. O vento. A vida que invadia a janela e corria para além de nós.

Eu te abracei forte e o existir compartilhado se fez grande, bonito, e eu me calei. Você dizia: “diga”, e eu não tinha palavras. Eu sentia, na exaustão das coisas que complexificamos e perdemos em levezas. Eu descansava no conforto do amor que era nosso chão naquela noite de domingo. Um amor de duas, tão despidas e tão inteiras em nossas faltas. Um amor plantado ali, no meio da sala, que floresce em coloridos que nos escapam. Nós, tão presentes e tão intangíveis, crescendo juntas sem saber para onde.

Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada”*.

*mortal loucura. música de Zé Miguel Wisnik.

música que o grupo corpo (abaixo) faz aterrar em todos os poros da nossa pele.

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