Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

10417450_825523964138980_3424881975338520209_n

Luz acesa….

bisca_avatar

Olhar. Conversa. Riso. Provocações, lábio seco. Molhar os lábios, com a bebida. Olhar. Ah… o olhar…

Sei que não tem manual, que nunca é igual. Mas é assim, as vezes, apesar de ter sempre aquela cousinha diferente, que dá aquele chameguim uma cor e sabor original, diferente, único.

“Vamos embora daqui, agora?”.

“Vamos.”

Sim, vamos. E abraço, toque, retoque, beijo, lábio, chupadas no pescoço, no queixo, pornografias no ouvido e aquele calorão todo. E sobe e desce mão, procura aqui e ali e meu pau bate no teto.

Na sala, enfim. Parece guerra. E tira peça de roupa e beija aqui e ali e mão e não e sim e vai… vai…. esparrama, declama, pensa, molha, sobe, desce, aquece, aquiesce.

“Ah…  apaga a luz, vai?”

“Mas… por que?”

“Eu tô feia. Tô gorda.”

“Ah… eu tenho pau pequeno…”.

Ela ri. Ele ri. O pau sobe ainda mais.

“Apaga, vai… tenho vergonha…”.

“Mas ó… ele tá assim por causa do tudo….”. E, de fato, ele tá bonitão, todo orgulhoso em riste.

Novo riso. Cafuné, afago, dengo, molha, beijo, última peça no chão. E língua e mão e tudo. E encaaaaixa….. Assim, aceso e acesa.

Ar que acaba, morte em festa, gozo todo.

“Adoro tua bunda.”

E ele sai sorrindo, para pegar água. Era outra sede.

Pelados, peladas:  Completamente.

Luz apagada, quase dormindo. E começou tudo de novo…

abajurdivertido

Biscatear é como respirar

respirar

Ontem no twitter uma amiga queridíssima dizia em tom de lamento que está sem tempo para biscatear. Encafifei. Como assim, sem tempo para biscatear? Biscatear é algo que se faz naturalmente, sem pensar sobre, igual respirar, andar e… comer! :P

Argumentei com ela que biscatear não é namorar, não é manter um relacionamento com alguém — que aí demanda que o alguém não seja qualquer um. Biscatear pode ser só fantasia, inclusive. Aí, lembrei que até nos períodos de maior depressão em que vivi, nem neles deixei de biscatear.

Biscateio com o gari lindão muso da greve do Rio. Biscateio com Darín. Biscateio com um delegado que é baixinho e tals, mas um gigante pra admirar e objetificar. Biscateio com um professor barbudão candidato que mora do outro lado da ponte. Biscateio com o meu barbudão, em casa. Biscateio com o Drexler e o Gael. Biscateio até com amigos que sequer sonham (ou teriam pesadelo) que tenho alguma fantasia com eles[spoiler]. Biscateio com o Clint. Ah, o Clint… ♥

pedreiragem

pedreiragem

Biscatear é desejo, não tem a ver só com o concreto, com o realizável. Biscatear é a pedreiragem do dia a dia, a pedreiragem arte, a pedreiragem moleque… Biscatear é só biscatear. Não demanda tempo, esforço ou articulação. Biscatear é, de fato, como respirar.

E em tendo tempo e disposição, dá até para usar estratégia para biscatear;-)

Deixa eu te contar um segredo…

Olá!

Eu tava morrendo de saudades daqui e algum dia conto porque estive tão longe por tanto tempo. É muito bom voltar!
segredo_01

Mas, vamos lá: dentre as diversas vivências que tive enquanto não postava nada no BSC, uma delas foi me render e baixar o Secret (o tão polêmico app que chegou ao Brasil em maio deste ano e já deu bastante o que falar). E digo, sem medo de exagerar, que ele pode ser considerado uma verdadeira experiência antropológica por diversas razões que tentarei elucidar neste texto.

Não sei vocês, mas eu adoro um mistério. Isso vem desde a adolescência, quando eu gostava de escrever poemas e crônicas sem dizer quem eu era ou usando pseudônimos. Fiz muitos amigos assim. Meus autores favoritos também escrevem ou escreveram assim em algum momento de suas obras. E a minha sensação com o Secret foi mais ou menos essa, ainda mais quando eu via que o autor do segredo era algum amigo…

Basicamente, o app é conectado à sua conta do Facebook e assim como o Tinder, não posta nada no seu perfil. A diferença é que sua identidade não é revelada e apesar de muita gente duvidar desse “anonimato total” (eu inclusa), ainda não vi qualquer indício de como um usuário comum pode descobrir a identidade de quem posta algum segredo. E é aí que mora um perigo muito real para esses usuários, que podem ter sua intimidade exposta involuntariamente a qualquer momento.

E infelizmente, vi muita misoginia e machismo no aplicativo. Não foram poucas as fotos com meninas (muitas menores de idade) que tiveram a infelicidade de confiar em pessoas que não pensaram duas vezes antes de tornar este ato de intimidade um assunto público. Considerando que a maior parte de quem o utiliza é jovem, podemos notar o quanto nossa sociedade ainda corrobora para formar pessoas conservadoras, preconceituosas e violentas.

Toda vez que surge algo assim na minha “TL do Secret”, trato de denunciar e tive sucesso em várias das denúncias, o que demonstra que os desenvolvedores aparentemente têm se preocupado com tais questões, tratando de tirar do ar e banir quem exibe conteúdo de ódio ou inapropriado.

Ademais, o App tem sido muito divertido. Soube que tenho amigos que peidam e disfarçam em transportes públicos, que amam e não são correspondidos, que usam drogas, que querem ser ricos, que odeiam a faculdade, que queriam que a vida fosse um filme… Tudo sem imaginar de quem se trata.

É aí que está a graça.

Intervalo

intervalo

Essa noite. Essa noite eu vou. Essa noite vou aceitar convites, esquecer a hora, perder o rumo. Direi apenas sim e mais e quero. Essa noite eu vou sentar perto. Vou falar muito, gesticulando sempre e como se fosse pra ser, vou tocar teu braço. Uma vez. Outra. Até que seja isso: a fala vai no afago. Displicente, enquanto escuto com a cabeça inclinada e os olhos meio fechados, vou fazer da língua, brincante. Umedecer caminhos. Essa noite vou antecipar cumplicidades, inventar segredos, manter ditos inacabados. Vou encostar joelhos e esquecer o corpo no conforto de sentir outro corpo e deixar o quente de onde as peles se descobrem fazer fogueira. Essa noite vou usar superlativos, beber de outro copo, cruzar a linha, enfiar os pés pelas mãos.

Essa noite andarei bem perto, frequentarei esquinas e sombras, encostarei testa com testa e desfrutarei a mão na minha nuca, nos ombros, nas costas. Serei abraços. Essa noite ouvirei o rouco junto ao meu ouvido e me embalarei no som da ânsia, afastarei tecidos pra que minha pele seja percurso e facilitarei os atalhos. Essa noite encostarei no muro, levantarei a saia e, pra aproveitar melhor a brisa, vou entreabrir as coxas. Essa noite vou provar pele, morder lábios, beber saliva. Essa noite abrirei camisas, enrolarei meu mindinho em pelos ásperos e meu nariz deslizará em cócegas e minha língua o seguirá, curiosa. Essa noite vou assoprar olhos, mordiscar orelhas, lamber pescoços, murmurar desejos. Vou roçar o queixo em ombros e rir baixinho, vez ou outra, só pra confundir.

Essa noite vou ser em verbos: abrir, roçar, esfregar, molhar, morder, agarrar, mexer, mover, saborear. Descobrir. Essa noite serei em voz passiva: alisada, abraçada, sugada, tocada, beijada, perturbada, excitada.

Essa noite eu vou.

Ele só está interessado no seu corpo

Por Nkyad Sobakovitch*, Biscate Convidado

Sim, eu só te quero pelo seu corpo. Noites em seu corpo e mais nada. Noites inteiras sem dormir, navegando em seu corpo, naufragando em seu corpo. Noites espaçadas, sim. Intercaladas pelo tempo exausto de dormir, pelo tempo faminto de comer, pelo tempo miserável de trabalhar longe do seu corpo. Que é só pelo que eu te quero.

Sim, só quero seu corpo. Mas nas manhãs também. Para depois das noites do seu corpo, despertar com seu corpo, sob seu corpo, dentro do seu corpo. Manhãs que terão café e torradas e suco e bananas, que alimentem seu corpo para que ele seja meu de novo. Café e torradas e suco e bananas levados na cama, para que você sequer pense em ir e levar seu corpo para longe de mim. Pois o que eu quero é só seu corpo.

Sim, levarei seu corpo ao cinema, para ter seu corpo depois. E ao teatro e a festas e ao shopping e à praia. Levarei seu corpo ao médico, ao dentista, ao hospital se ele precisar. Levarei teu corpo a todos os lugares que ele queira ir, a alguns lugares que ele não queira ir mas precise, levarei seu corpo comigo. Pois é só seu corpo que me interessa.

 Sim, só quero seu corpo, e ficarei em silêncio obsequioso quando você quiser ir trabalhar, ver seus amigos, visitar sua família. Ou irei junto para ter seu corpo perto do meu enquanto você satisfaz essas estranhas vontades de outras gentes. E serei polido, divertido, educado e solícito com essas outras gentes, para que você fique feliz e eu continue tendo o seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, só quero você pelo seu corpo, mas entenderei se você às vezes quiser outro corpo que não é o meu. Esse seu corpo que eu quero, afinal, é seu, e eu esperarei que a cada dia ele volte para mim, tendo feito o que quer que seu corpo faça quando não está comigo. Pois se eu só quero seu corpo, entendo que às vezes você queira outro corpo que não o meu. Claro que vou brigar, emburrar, chorar e me lamentar pelos cantos enquanto seu corpo não estiver aqui, mas entenderei. Porque só quero seu corpo, e quando ele voltar imediatamente esquecerei que ele se foi um dia.

Sim, eu só quero seu corpo e quero ele morando junto ao meu. Para facilitar as noites, favorecer as tardes, aproveitar as manhãs dentro dele. E teremos alguma casa onde seu corpo caiba, com móveis que seu corpo goste, janelas por onde o sol buscará seu corpo e um jardim com flores para enfeitar seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, quero seu corpo e continuarei querendo seu corpo depois dos inevitáveis filhos, que criarei a contragosto para ter seu corpo, das inevitáveis tragédias, que enfrentarei para depois me consolar no seu corpo, dos inevitáveis anos que envelhecerão nossos corpos. Que serão mais velhos, mais gordos, mais fracos. Mas ainda serão nossos corpos e o seu corpo ainda será só o que eu quero.

Sim, eu ouvirei seus medos, dividirei nossas alegrias e tristezas, verei filmes românticos, assistirei peças experimentais, escutarei música francesa, irei a Paris, ao Cairo e a Roma, me farei amado por seus pais, criarei seus filhos e serei amigo dos seus irmãos ou vice-versa. Serei forte, fraco, gentil, brutal, carinhoso e distante, serei o que você quiser que eu seja, farei o que precisar fazer para ter o seu corpo, todo o seu corpo, o tempo todo.

Porque, você sabe, eu nunca menti, eu só te quero pelo seu corpo.

***********************************************

Um das críticas mais superestimadas (em geral só) ao moço da outra (e nunca à moça do outro – com essa o mundo é mais cruel), “ele só está interessado no seu corpo”. Porque, né, ele precisa estar interessado no seu intelecto, nas suas emoções profundas, nos seus planos de vida, no seu gato, na sua réplica de Matisse na saleta de chá, na sua coleção de encadernada de Vogue dos anos 50, nos seus livros de filosofia, psicologia, engenharia e culinária.

Senão ele não vale a pena, pois vai apenas te usar para sexo e te abandonar na beira da estrada deserta dos one-night-stands. Ou pior, Deus me perdoe, você vai usá-lo para sexo e depois abandoná-lo na esquina escura dos casos rápidos.

Como se sexo casual não fosse sexo, ainda que casual, se alguém ainda acredita no acaso. E como se a Terceira Lei do Newton Biscate não se aplicasse sempre: “A toda trepada corresponde uma trepada de igual intensidade no corpo contrário”.

E além disso, como ele vai conhecer seu Matisse avec Earl Grey, saber de seu plano de visitar Cimmeria, adivinhar que Wittgenstein seu gato é um rematado canalha, entender do seu medo de cair da cama em trens, ler sua tese de doutorado, se agora é seu corpo que ele quer, e é o corpo dele que você quer, e esses corpos não se encontrarem porque “não tem futuro”?

Deixa eu te dizer, nada tem futuro. Porque tem aquela curiosa propriedade do futuro, sua inexistência. Aliás, existe lá um futuro, mas ele tem só um ou dois tons de cinza: decadência e entropia, entropia e decadência.

Esse futuro do qual a gente fala é só uma construção mental que tem lá umas serventias. Serve para a gente não atravessar a rua quando vem um carro, porque no futuro, daqui uns 7 segundos, ele vai estar justamente onde a gente quer passar. Serve para a gente não gastar todo o nosso dinheiro em livros, porque sabemos que no futuro, semana que vem, temos que pagar as contas de luz, água, telefone. Serve para a gente ir fazer faculdade disso ou daquilo, porque achamos que no futuro, daqui uns anos, seremos felizes fazendo isso ou aquilo. Mas nada garante que o carro não vai nos atropelar na calçada, que aqueles livros não teriam sido essenciais para a gente conseguir entrar naquela faculdade, que daqui a dez anos não seremos os cirurgiões plásticos ou CEOs mais infelizes da face da Terra.

E o futuro dos corpos nunca é assim fácil de ver. O que parece só corpo pode ser só corpo mesmo e se o sexo foi bom, para que reclamar? Pior, porque não ir, gozar e voltar? E quem sabe para onde vão esses corpos, quem pode dizer?

Porque além do Newton Biscate tem também a Mecânica Quântica Biscate: o resultado da colisão de dois corpos é sempre imprevisível. Ou devia ser – se você sabe tudo do outro, entende tudo do outro, prevê tudo do outro, pode acreditar, alguma coisa você não sabe, não entende, não está vendo e não vai prever. Porque os corpos são coisas vivas, quentes, úmidas e muito, muito pouco confiáveis. Dificilmente você sabe para onde vai o corpo do outro. Admita, você mal sabe para onde vai o seu corpo.

E o desejo de um corpo posto no outro, e o desejo do outro posto no um, causam entrelaçamentos complexos, impossíveis de medir à distância. Podem durar dez minutos, dez horas, dez dias ou dez anos, esses enlaces. Mas você só vai saber a duração se for lá medir e aí vai ser tarde demais para saber a velocidade da colisão, e mais tarde demais ainda para evitar o impacto.

E é assim que que as pessoas acabam atropeladas por uma paixão que nem viram da onde vinha, estiradas nuas numa cama estranha, exaustas, perdidas, quebradas, extasiadas, confusas, em pânico. Porque era só um beijo…

corpo

*Nkyad Sobakovitch, poeta russo exilado em São Paulo, amante fiel da vodka com ou sem suco de laranja, amante infiel das mulheres com ou sem vodka. Seu poema épico “São Paulo é a Sibéria da Alma” foi recebido pela crítica paulistana com a mesma indiferença gélida que acolhe toda poesia naquela cidade sem amor.

Desejos, deseja.

O certo é que o máximo seria um “bom dia”. Com alguma sorte conversaríamos sobre o tempo, o sol, a chuva, o inverno. Mas o fato, ah, o fato, era que bastava isso para me molhar, para me fazer sacolejar pernas, sorrir, pensar em luxúrias múltiplas, em pé, deitados, na cama, no chão, no chão da sala, no chão de terra, no lavabo de alguma festa, no escuro de alguma rua, lua, possibilidade, motel barato de quem vai a pé.

 desejos

O que ninguém tem o direito de tentar normatizar é isso. Isso, o desejo. Ele é meio que febre, ela é rouca, também, porque grita alto. É ele e é ela. E como diriam Paula e Bebeto, qualquer forma vale. A maior conquista política da humanidade será está, a de deixarem de normatizarem, regulamentarem, esquadrinharem desejos. Essencialmente os de carne. E osso. Um rebolado mais forte, uma raiz de cabelo preta num cabelo louro, um umbigo a mostra, uma tatuagem de tornozelo, um seio vesgo, uma saudade, uma barba por fazer, uma barba feita, uma vagina depilada, outra peluda, muito, muito peluda. Um pau torto, uma pinta na bunda, uma declaração de amor evidentemente suspeita, uma forma de beijar, um doce e, quem sabe, só aquele jeito de beber água mesmo.

Os muito românticos, mesmo o que se dizem libertários, gostam de afirmar que o sexo é a melhor cousa do mundo. E aí inventam redenções, romances de final feliz, trepadas de cinema.  A melhor cousa do mundo é o desejo. Porque é nele que temos o cheiro, o perfume, o gosto, a forma, o conteúdo todo que nos faz gozar melecas. O desejo, este sim, é o que precede e nele, nele não há parques sem árvores. Se pode morrer de desejos, mas não se pode viver sem eles. Simples e simples assim.

E quem sabe desejos, masturbando ideias, desenhando quadros, construindo roteiros: um pornô com história! Lá vamos nós imaginar as cenas que serão vividas em algum lugar nosso mesmo. Quem sabe até entre aquelas curvas todas, daquele corpo todo. Me arranha. Só mais uma vez.

“Bom dia.”

Da inconveniência de se fazer ouvir

Costumo dizer que nasci comunista, me tornei feminista e me formei jornalista. E o meu jornalismo está a serviço da minha sobrevivência — é preciso — e está a serviço principalmente da comunicação contra-hegemônica e da luta por um mundo melhor. Não tenho nenhuma ilusão de que esse mundo possa ser reformado, será necessário botar esse abaixo e refazê-lo estruturado em outras bases e parâmetros. Tenho em mim indignação suficiente para isso, principalmente para essa primeira tarefa. A construção de um mundo outro, novo, eu sonho seja coletiva, todos aprendendo juntos, com amor e respeito. Ah, as utopias…que me acompanham há muito tempo.

ni_1995

eu, em 1995

Era primavera de 1995, se não me falha a memória. Eu ainda estava no PT, e tínhamos formado em Pelotas o Coletivo Socialista — que só não era um racha da Democracia Socialista porque essa tinha se desarticulado na cidade, mas todos (com uma ou duas exceções) já tínhamos ‘sido’ DS em algum momento. Esse coletivo, tendência municipal, era radical, excelente e daquele tempo guardo lembranças lindas da militância. Nossas reuniões eram como deveria ser toda reunião de um organismo de esquerda: aprovada a pauta, análise de conjuntura e os demais temas na segunda parte da reunião. Muitas dessas reuniões terminavam em jantares divertidíssimos — sim, troskos se divertem juntos. Mas, nem tudo estava bem. No coletivo, tinha apenas três mulheres que iam em todas as reuniões, pelo menos no início. Eu, Andrea e Sônia. Intervínhamos pouco, e feminismo e questões de gênero nunca eram pauta. E isso começou a me incomodar.

Um dia, conversei com a Andrea e nos articulamos para dizer isso pro CS, para expor que estávamos nos sentindo oprimidas pelo espaço, pela lógica da reunião e por nossa opressão específica nunca estar pautada. Porque espaços com mais homens que mulheres na esquerda inibem/reprimem “naturalmente” as mulheres de falarem, de se exporem. Quem já militou na esquerda sabe como é isso. Escrevemos um texto, fizemos cópia e distribuímos quando pedimos a palavra. Falei. Constrangida. Tremia. Eu, que já tinha feito comício, comandado assembleias de estudantes aos 16 anos, estava insegura de falar diante de pessoas que conhecia e com quem convivia há anos… Como é difícil falar da própria opressão diante do opressor, do ser que ali detém os privilégios e o protagonismo da cena! Foi difícil, mas disse. Dissemos. Abriu a rodada de intervenções sobre o tema e a primeira fala foi de um companheiro (hoje ex, felizmente) com quem militava desde os tempos de movimento secundarista, e que já tinha sido candidato a vereador e falado linda e encantadoramente das demandas das mulheres jovens. Ele pega o nosso texto impresso com um notável desprezo e diz em resumo que estávamos “carregando nas tintas” — nunca vou esquecer — e deu a entender que estávamos perdendo tempo com bobagens enquanto tinha uma luta maior e mais séria a ser enfrentada. Me senti violentada. E, mulher, descompensada e louca, desabei em lágrimas. E eu, que me sentia fraca, frágil quando chorava em público, passei a partir desse dia a respeitar mais minhas lágrimas.

Há uma naturalidade em desconsiderar a opinião e a fala de uma mulher. E os artifícios do discurso da esquerda para desestabilizar, desconstruir, desacreditar, desqualificar uma fala, principalmente quando é uma crítica, são sórdidos, mas eficazes. A gente mesma passa a duvidar do que está dizendo ou da importância de dizer aquilo naquele momento. “Será que era mesmo tão importante?”

Na madrugada de sábado revendo A Troca, um filme excelente do Clint Eastwood (qual não é?), me deparei e choquei de novo com a cena da personagem da Angelina Jolie com outra paciente no hospício em que falavam sobre a credibilidade da mulher ante um policial. Assistam:

Carol Dexter (Amy Ryan), 2:41:
“Todo mundo sabe que as mulheres são frágeis. Quero dizer, elas são instáveis emocionalmente, não são lógicas, (…). Sendo loucas, ninguém terá que nos ouvir. Quero dizer, em quem vão acreditar, numa mulher louca tentando destruir a integridade da corporação, ou num policial?” (tradução livre, minha)

Nesse final de semana, entre algumas conversas e essa cena do filme, me veio a dor daquela reunião do Coletivo Socialista lá de 1995, direto do túnel do tempo para o amargo na minha boca, só para me lembrar que nenhuma das bandeiras do feminismo foram superadas. Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai teriam ainda mais trabalho com essa esquerda muÓderna de agora.

PRESTENÇÃO, PESSOAS! Quando uma mulher (ou outra minoria) falar de si num espaço político ela não está apenas falando, ela está rasgando o papel que lhe foi designado, está rompendo com suas amarras e com o status quo. Mais respeito, porque esse é um movimento político da maior importância: é um oprimido enfrentando sua opressão.

E da minha libertação me encarrego eu.

159654

A Outra Pessoa

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Hoje, por uma triste coincidência do destino, uma amiga me procurou no inbox do facebook para pedir ajuda. Não, ela não queria saber sobre movimentos políticos nem tão pouco entender de direitos humanos. Ela queria ajuda para montar um plano de vingança contra a “vadia” que está com o ex dela. =(

vadiasoueu

A primeira coisa que me passou na minha cabeça foi que essa amiga não lê quase nada do que posto. Eu, que fui durante três longos anos uma das articuladoras da Marcha das Vadias BH. Eu, que sou bisca convidada de quando em vez nesse cantinho delícia aqui. Eu, que falo quase que diariamente sobre o não julgamento da mulher e do direito ao próprio corpo. Eu, que sou uma vadia-bisca-militante com muito orgulho, com muito amor!

(pausa para um suspiro de tristeza)

Agora senta aí, pega o café que lá vem história.

Quando eu tinha 14 anos (óia a foto abaixo pra verem como eu era fofa), me apaixonei platonicamente por um cantor de uma banda de MPB que tocava em um bar perto da minha casa (eu e provavelmente 90% das meninas nessa idade fazem algo parecido). Nunca cheguei perto dele, bastava sentar em frente ao palco e imaginar que a música que ele tocava era pra mim: ”Menina do anel de lua e estrela….” <3

eu14anos

Um belo dia o vejo abraçado com uma mulher. E, de boca aberta, finalmente noto a aliança no dedo direito. Foi um choque de realidade que, claro, para uma sentimental como eu, me deixou chorando uma semana. Nunca mais quis voltar naquele bar. Mas nunca esqueci seu nome. Seu rosto. E a nova mania de olhar para a mão de todos aqueles prováveis candidatos a serem meu primeiro amor.

Depois disso, sabe-se lá a razão, passei anos na minha vida encontrando apenas homens comprometidos. Namorados, noivos, casados, enrolados. Fugia de todos, afinal, mulher direita não faz isso, né?

Com dezoito anos de idade, ainda sem ter tido um namorado fixo na minha vida que passasse dos dois meses de convivência, conheci meu primeiro amor. Pelo menos o primeiro não platônico! \o/

Cantor também. Dessa vez, música sertaneja e não MPB (me julguem). No dia que nos conhecemos estava na casa de shows com mãe, tia, irmã e todas torcendo pela nova paixonite. Nos conhecemos, dançamos, beijamos… e ele me convidou para voltar na próxima semana.

“É o amooooor!” (Su, aká o brega na vida real!)

Na próxima semana lá estava eu, CLARO. E, quando atrevidamente perguntei se ele queria namorar comigo (já estava impaciente com essa história de que ele que tinha que pedir, coisas de Adriana), ele disse que gostaria muito, mas não poderia, pois era casado.

Mais uma semana chorando. Mais uma semana pensando em como a vida era cruel comigo. Mas, dessa vez, resolvi ligar um foda-se bem dado pra o meu próprio moralismo e seguir em frente com aquela história maluca.

Não vou dar detalhes dessa página da minha vida, mas só dizer que foi com ele que transei pela primeira vez. Foi pra ele que falei eu te amo pela primeira vez, mesmo sem ter a certeza se amava realmente. E foi com ele que me senti pela primeira vez namorando. Como nos contos de fada (bem, um pouco mais apimentado que nos contos de fada, mais para alguma história de Júlia ou Sabrina). E teimava solenemente em ignorar que ele tinha outra história, outra vida, outro caminho.

Terminou um ano depois. Com uma separação, uma ameaça de suicídio por parte da mulher, uma família inteira se metendo no meio e eu – a vadia, a puta, a destruidora de lares, com apenas 19 anos de idade catei meus caquinhos e saí (não tão) de fininho dessa confusão.

eu19anos

Foram anos e anos para esquecer. Mas anos divertidos, onde me envolvi com homens  casados, solteiros, viúvos, enrolados, até com dúvidas sobre seu próprio gênero… muitos casos, muitas gargalhadas, muitas bocas pra beijar e para fugir, algumas decepções. Faz parte.

Quando, com 35 anos, joguei fora a última regra que eu ainda insistia em manter – não me relacionar com homens mais novos (não me pergunte de onde surgiu essa regra, eu era a Adriana cheia de regras e nem saberei dizer a origem de cada uma) e comecei a namorar um rapaz 13 anos mais novo do que eu, me libertei completamente das crenças que permeavam a minha adolescência de como deveria ser uma relação ideal, com o homem ideal.

E foi tão difícil quanto, ao ponto de uma tia, que sempre me dizia que rezava para eu encontrar um “homem cristão” (nunca questionei pra ela o que seria afinal um homem cristão, preguiça) passou a dizer que estava rezando para eu encontrar um com mais de quarenta e mais nada. o.O

Quando comecei a sair com meu atual marido, ele tinha acabado de se separar e isso para mim nada significava. Mas significou para a ex dele, que passou a acusá-lo de tê-la traído comigo e claro, me tornei a vadia mor (como se tivesse deixado de ser em algum momento da minha vida) e o que é pior, isso contaminou a relação dele e minha com as filhas, que até hoje não admitem frequentar nossa casa por me verem como aquela que destruiu a família deles.

Eu não me importo com o que pensam, acredito que larguei isso lá atrás, aos dezenove anos, quando escutei pela primeira vez esse apelido – destruidora de lares. Me importa sim, ver o relacionamento pai e filhas, irmão e irmãs, abalado por uma inverdade,  um machismo ululante que ainda permeia o pensamento de muitas e muitos.

Um relacionamento não acaba porque outra pessoa surgiu no caminho. Um relacionamento acaba por falta de amor. Por falta de tesão. Por falta de cumplicidade e de vontade de continuar junto.

O fim não é o sexo com x outrx. O fim é o não querer mais nada com x atual!

Relacionamentos monogâmicos são um acordo entre as partes envolvidas, não com o mundo ao redor.  Se amanhã meu atual companheiro resolver procurar outra pessoa, em que pese termos acordado que a nossa relação seria monogâmica, jamais julgarei a outra. E, principalmente, não posso e não quero definir o caráter dela por sua vida sexual.

Meu acordo era com ele. E, se ele quebrou o pacto, digamos assim, é porque algo ENTRE NÓS já não está dando tão certo. Ou porque ele fez um acordo que não queria/podia cumprir – e aí teremos a chance de rever se é isso mesmo que queremos, sem falsos moralismos e hipocrisia, repensando essa história da posse incentivada pelo sistema patriarcal, ou então mergulharmos em nós mesmos para vermos se o fim aconteceu e não nos demos conta.

Não vou aqui me adentrar nas diversas pesquisas de “o que levam pessoas a trair”, nos estudos científicos sobre os “genes da traição” ou mesmo na questão das relações abertas.

Também não vim para roubar, para matar, vim aqui só pra dizer que pactos de fidelidade são quebrados diariamente e não existem vítimas ou culpados. Existem responsabilidades. Existe desejo, algumas vezes frustração, algumas vezes só curiosidade, outras vezes um bocado de tédio no dia a dia; mas em todas as vezes existe uma outra pessoa, à procura de sexo, de amor, de um pouco de alegria ou apenas para passar o tempo. E que não tem nada a ver com a sua história.

A outra pessoa é apenas a outra pessoa.

Fim.

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Depois a gente vê

0ce4a5de857f9059d988dc3ab3c0dc1a988345c9

Pediram-lhe palavras. Há algum tempo já, ela só tem usado as roubadas, de poemas e canções. Debruça-se sobre as palavras alheias, que a traduzem tão bem que ela se comove de se ver ali, desnuda e descrita. Sempre achou que empunhava as palavras tão magistralmente e hoje elas lhe faltam. Ou sobram. Nunca na medida. Como o que ela sente, também tão desmedido. Tão desafiador, desestruturador de tudo o que ela sempre pensou ser, que viveu até aqui, que acreditou.

 Ele faz doerem nela dores que ela nem sabia que existiam. E a faz gozar prazeres de que  tampouco desconfiava. Perfurantes. Ele confronta suas teorias sobre amor e liberdade, testa seus limites, grava no seu corpo e na sua memória as sensações mais extasiantes, enquanto crava nela o ferrão da dúvida, os dentes do ciúme, as unhas da inquietação. Fugidio, esquivo, tantalizante. Ela? Experimenta, permite-se, tenta, testa. Alonga. Paga pra ver.

 Já partiu, já voltou, chora muito, ri outro tanto, pensa demais. Tudo demais. Cores, dores, luzes, faltas, explosões, desejos. Esperas. Essa coisa de pensar sobre o tempo. Muito cedo, tarde demais, intervalos, ocasiões, agora, nunca, sempre, velocidade, duração, logo, quando, tempos paralelos, tempos comprimidos, tempo. E espaços. Frestas. Onde. Como.

 …..

Os olhos escuros que ficam quase cor de âmbar no amor.  Ela poderia ir morar naqueles olhos para sempre. Reduzida à carne sob as unhas, escondida nos sulcos da pele, no meio dos pelos, entranhada no suor dele, no sêmen, no gosto doce e úmido da boca.

 …..

Uma coisa é saber da falta e da angústia, mas viver todo o tempo diante da face crua dessa falta, na ausência de ar e no espanto desse buraco que nos constitui, também pode ser sintoma. Por isso, a gente cria uns véus, lança umas rendas diáfanas diante da realidade, usa uns filtros no enquadramento, para adoçar arestas, permitir caminhos.

 Entretanto. O caminho que ela percorre é escuro, instável. A cada passo, a incerteza. Cair no vazio ou criar, no próprio ato do passo, outro pedaço da estrada? Estrada que ela nem sabe se existe, ou onde vai dar. Claro que não existe. Nenhuma estrada existe a priori. Mas a gente às vezes inventa, projeta, imagina – lança os tais véus – e isso é muito reconfortante. Fazer planos, sonhar, construir futuros. Ainda que só de brincadeira, ainda que sabendo da ilusão. Adora um amor inventado.

Por um tempo viveu um amor assim, que prometia ser absoluto, completo. Foi tão bom acreditar. E tão sufocante manter. Hoje, experimenta a exacerbação da transitoriedade. De um lado, a ilusão de completude, da entrega que cobra, impiedosa, o preço da liberdade; de outro, o desconforto da impermanência, permanentemente desfraldada diante de si como um desamparo. No meio, ela. Um tanto atordoada. Que já não sabe o que deseja. Ou sabe só o que deseja, sem lógica ou juízo. O corpo dele no seu, as mãos, a boca, as pernas, os olhos. Os olhos dele nos seus, o fogo, o riso, a dor, a promessa muda e incompleta. Só hoje, só mais um dia, só até o próximo encontro. Depois a gente vê o que faz.

 

As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Dia desses eu casei…

Pois é, dia desses eu casei.

Pelo menos é o que quase agora, quando olhei meu perfil antes de começar a escrever esse texto, ainda me confirmava o facebook.

Não teve festa, e portanto também não teve aviso ou convite aos familiares e amigxs de ambos acerca de nossas intenções em contrair núpcias (desculpem, mas pelo bem da zoeira, eu tive que escrever isso).

Também nem sei se posso dizer que tenha havido algo que possa chamar de intenção. Antes de. Apenas mudei o meu “status social” durante uma “discussão” inbox acerca de relacionamentos e suas nomenclaturas e de como as pessoas, incluindo nós, reagem a esse ou aquele termo.

E daí o moço, com o qual eu vinha mantendo um tal de “relacionamento sério”, leitor assíduo desse site e que também já escreveu por essas bandas como convidado, mudou o “status” dele em resposta. Acho que porque seria bem indelicado não aceitar pedido tão singelo duma pessoa legal como eu (né, bubuio?).

Enfim, sei que acordei no dia seguinte e me passou pela cabeça que assim como nas “redes sociais” também é na tal da “vida real”. Relacionamentos começam e acabam com um simples gesto. Um toque. Um detalhe. Que não existe garantia nenhuma. Mas que talvez tivesse sido muito irresponsável da minha parte aumentar o âmbito das cobranças de determinados papéis para pessoas como eu. Ou como ele.

Ou algo assim. Hoje acho apenas que eu estava bêbada e quis uma coisa meio Las Vegas-contemporânea-virtual, sei lá… cada um que conte a sua história e faça suas considerações sobre o acontecido… nesse texto, por hora, eu posso e quero contar essa versão. Que podia ser completamente diferente. Também poderia sequer mencionar o assunto.

Por pensar desse jeito foi que fiquei realmente surpresa quando recebi os parabéns dalgumas colegas de trabalho. Mais surpresa ainda quando uma delas, mulher que intitula-se como “senhora casada, séria e respeitável” (rogai por mim, Kátia, a cega) me afirmou que se eu precisasse de “conselhos” sobre a “vida de casada” (isso morde?) podia contar com ela. Fiz uma pergunta acerca da posição sexual conhecida pelos biscates escreventes nesse club como haraquiri baiano e ela desconversou…

Bom, ela continuava chata. Eu também.

O que me tranquilizou bastante sobre questões acerca de manutenção de identidade e essas coisas que podem (e são) questionadas vez em quando por gente sem noção diante de alguns… digamos… acontecimentos. Como se deixássemos de ser quem somos individualmente, de um dia para o outro, porque, bom, porque fazemos qualquer coisa considerada como “normatizada” socialmente.

Porque né? Cadê manual de instruções pra viver? E ainda mais especificamente, cadê “normas” para pessoas que são mães, filhas, pais, namorantes, casadas, putas, amigantes, solteiras, amancebadas, tico-tico no fubá, viúvas, separadas, divorciadas, celibatárias (insira aqui qualquer termo que descreva um tipo de convívio que se mantêm em relação a outrem)? Alguém tem? E se for uma coisa e não outra? E se for tudo ao mesmo tempo agora? Cê num sabe de nada, John Snow…

Também tenho me tranquilizado quando acordo e lembro que apesar dessas pessoas, que escolho não conviver além do necessário (já disse que sou chata, oras), já faz algum tempo que comecei a viver (e a vezes contar) uma história bem legal com esse cara que agora se diz (e eu confirmo) meu marido. E ainda assim fico curiosa em como (e se) vou querer continuar fazendo isso. Também porque gosto da resposta que tenho me dado quando o vejo ao meu lado na mesma cama (de casal, de solteiro, no colchão dxs amigxs, no jardim). Quando rimos juntos. Conversamos, conversamos muito. Dividimos o silêncio. Brigamos e fazemos as pazes. Ou apenas quando ligo e escuto sua voz.

Foi para esse cara que há dois dias pedi opinião, para realmente levá-la em consideração, sobre com qual cor pintar a geladeira. Fiquei desconcertada com o amarelo da resposta. Como assim amarelo? Azul não é mais legal, não? Esse tom de amarelo mesmo? Mesmo mesmo? Tem certeza?

Pois é, agora tô eu aqui escrevendo e olhando a geladeira que antecipei à sua chegada e comecei a pintar sozinha, talvez para tentar ver como “lhedar” com a vinda de outras e fortes cores, durante um período de tempo (que me disseram ser maior apenas pelo uso de um termo) nesse meu solitário espaço, construído e decorado nos últimos anos em tons de azuis tranquilizantes e taurinos marrons.

É, casamos, mas ainda não estamos morando na mesma casa.

Ele está em outro Estado, outra cidade e outra casa. Mas espero e desejo que ele chegue logo, porque esses tem sido dias muito chatos desde que nos despedimos há longas e enfadonhas duas semanas. Que chegue de mochila pesada de livros, com o coração leve ou de qualquer outro jeito que possa nos trazer alegrias. Juntos ou separados. Seria perfeito se fosse no primeiro dia do mês que vem, tal qual combinamos. Mas ainda se ele ainda mantiver a coragem danada que tem de viver. Sem desrespeitar a minha.

Porque vai que é como disse uma grande amiga (e eu nunca esqueci)… amar é mesmo isso.

Coragem.

Quem diria, né? Teremos uma geladeira amarela, marido. Ou não.

geladeira 1

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...