A Outra Pessoa

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Hoje, por uma triste coincidência do destino, uma amiga me procurou no inbox do facebook para pedir ajuda. Não, ela não queria saber sobre movimentos políticos nem tão pouco entender de direitos humanos. Ela queria ajuda para montar um plano de vingança contra a “vadia” que está com o ex dela. =(

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A primeira coisa que me passou na minha cabeça foi que essa amiga não lê quase nada do que posto. Eu, que fui durante três longos anos uma das articuladoras da Marcha das Vadias BH. Eu, que sou bisca convidada de quando em vez nesse cantinho delícia aqui. Eu, que falo quase que diariamente sobre o não julgamento da mulher e do direito ao próprio corpo. Eu, que sou uma vadia-bisca-militante com muito orgulho, com muito amor!

(pausa para um suspiro de tristeza)

Agora senta aí, pega o café que lá vem história.

Quando eu tinha 14 anos (óia a foto abaixo pra verem como eu era fofa), me apaixonei platonicamente por um cantor de uma banda de MPB que tocava em um bar perto da minha casa (eu e provavelmente 90% das meninas nessa idade fazem algo parecido). Nunca cheguei perto dele, bastava sentar em frente ao palco e imaginar que a música que ele tocava era pra mim: ”Menina do anel de lua e estrela….” <3

eu14anos

Um belo dia o vejo abraçado com uma mulher. E, de boca aberta, finalmente noto a aliança no dedo direito. Foi um choque de realidade que, claro, para uma sentimental como eu, me deixou chorando uma semana. Nunca mais quis voltar naquele bar. Mas nunca esqueci seu nome. Seu rosto. E a nova mania de olhar para a mão de todos aqueles prováveis candidatos a serem meu primeiro amor.

Depois disso, sabe-se lá a razão, passei anos na minha vida encontrando apenas homens comprometidos. Namorados, noivos, casados, enrolados. Fugia de todos, afinal, mulher direita não faz isso, né?

Com dezoito anos de idade, ainda sem ter tido um namorado fixo na minha vida que passasse dos dois meses de convivência, conheci meu primeiro amor. Pelo menos o primeiro não platônico! \o/

Cantor também. Dessa vez, música sertaneja e não MPB (me julguem). No dia que nos conhecemos estava na casa de shows com mãe, tia, irmã e todas torcendo pela nova paixonite. Nos conhecemos, dançamos, beijamos… e ele me convidou para voltar na próxima semana.

“É o amooooor!” (Su, aká o brega na vida real!)

Na próxima semana lá estava eu, CLARO. E, quando atrevidamente perguntei se ele queria namorar comigo (já estava impaciente com essa história de que ele que tinha que pedir, coisas de Adriana), ele disse que gostaria muito, mas não poderia, pois era casado.

Mais uma semana chorando. Mais uma semana pensando em como a vida era cruel comigo. Mas, dessa vez, resolvi ligar um foda-se bem dado pra o meu próprio moralismo e seguir em frente com aquela história maluca.

Não vou dar detalhes dessa página da minha vida, mas só dizer que foi com ele que transei pela primeira vez. Foi pra ele que falei eu te amo pela primeira vez, mesmo sem ter a certeza se amava realmente. E foi com ele que me senti pela primeira vez namorando. Como nos contos de fada (bem, um pouco mais apimentado que nos contos de fada, mais para alguma história de Júlia ou Sabrina). E teimava solenemente em ignorar que ele tinha outra história, outra vida, outro caminho.

Terminou um ano depois. Com uma separação, uma ameaça de suicídio por parte da mulher, uma família inteira se metendo no meio e eu – a vadia, a puta, a destruidora de lares, com apenas 19 anos de idade catei meus caquinhos e saí (não tão) de fininho dessa confusão.

eu19anos

Foram anos e anos para esquecer. Mas anos divertidos, onde me envolvi com homens  casados, solteiros, viúvos, enrolados, até com dúvidas sobre seu próprio gênero… muitos casos, muitas gargalhadas, muitas bocas pra beijar e para fugir, algumas decepções. Faz parte.

Quando, com 35 anos, joguei fora a última regra que eu ainda insistia em manter – não me relacionar com homens mais novos (não me pergunte de onde surgiu essa regra, eu era a Adriana cheia de regras e nem saberei dizer a origem de cada uma) e comecei a namorar um rapaz 13 anos mais novo do que eu, me libertei completamente das crenças que permeavam a minha adolescência de como deveria ser uma relação ideal, com o homem ideal.

E foi tão difícil quanto, ao ponto de uma tia, que sempre me dizia que rezava para eu encontrar um “homem cristão” (nunca questionei pra ela o que seria afinal um homem cristão, preguiça) passou a dizer que estava rezando para eu encontrar um com mais de quarenta e mais nada. o.O

Quando comecei a sair com meu atual marido, ele tinha acabado de se separar e isso para mim nada significava. Mas significou para a ex dele, que passou a acusá-lo de tê-la traído comigo e claro, me tornei a vadia mor (como se tivesse deixado de ser em algum momento da minha vida) e o que é pior, isso contaminou a relação dele e minha com as filhas, que até hoje não admitem frequentar nossa casa por me verem como aquela que destruiu a família deles.

Eu não me importo com o que pensam, acredito que larguei isso lá atrás, aos dezenove anos, quando escutei pela primeira vez esse apelido – destruidora de lares. Me importa sim, ver o relacionamento pai e filhas, irmão e irmãs, abalado por uma inverdade,  um machismo ululante que ainda permeia o pensamento de muitas e muitos.

Um relacionamento não acaba porque outra pessoa surgiu no caminho. Um relacionamento acaba por falta de amor. Por falta de tesão. Por falta de cumplicidade e de vontade de continuar junto.

O fim não é o sexo com x outrx. O fim é o não querer mais nada com x atual!

Relacionamentos monogâmicos são um acordo entre as partes envolvidas, não com o mundo ao redor.  Se amanhã meu atual companheiro resolver procurar outra pessoa, em que pese termos acordado que a nossa relação seria monogâmica, jamais julgarei a outra. E, principalmente, não posso e não quero definir o caráter dela por sua vida sexual.

Meu acordo era com ele. E, se ele quebrou o pacto, digamos assim, é porque algo ENTRE NÓS já não está dando tão certo. Ou porque ele fez um acordo que não queria/podia cumprir – e aí teremos a chance de rever se é isso mesmo que queremos, sem falsos moralismos e hipocrisia, repensando essa história da posse incentivada pelo sistema patriarcal, ou então mergulharmos em nós mesmos para vermos se o fim aconteceu e não nos demos conta.

Não vou aqui me adentrar nas diversas pesquisas de “o que levam pessoas a trair”, nos estudos científicos sobre os “genes da traição” ou mesmo na questão das relações abertas.

Também não vim para roubar, para matar, vim aqui só pra dizer que pactos de fidelidade são quebrados diariamente e não existem vítimas ou culpados. Existem responsabilidades. Existe desejo, algumas vezes frustração, algumas vezes só curiosidade, outras vezes um bocado de tédio no dia a dia; mas em todas as vezes existe uma outra pessoa, à procura de sexo, de amor, de um pouco de alegria ou apenas para passar o tempo. E que não tem nada a ver com a sua história.

A outra pessoa é apenas a outra pessoa.

Fim.

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Depois a gente vê

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Pediram-lhe palavras. Há algum tempo já, ela só tem usado as roubadas, de poemas e canções. Debruça-se sobre as palavras alheias, que a traduzem tão bem que ela se comove de se ver ali, desnuda e descrita. Sempre achou que empunhava as palavras tão magistralmente e hoje elas lhe faltam. Ou sobram. Nunca na medida. Como o que ela sente, também tão desmedido. Tão desafiador, desestruturador de tudo o que ela sempre pensou ser, que viveu até aqui, que acreditou.

 Ele faz doerem nela dores que ela nem sabia que existiam. E a faz gozar prazeres de que  tampouco desconfiava. Perfurantes. Ele confronta suas teorias sobre amor e liberdade, testa seus limites, grava no seu corpo e na sua memória as sensações mais extasiantes, enquanto crava nela o ferrão da dúvida, os dentes do ciúme, as unhas da inquietação. Fugidio, esquivo, tantalizante. Ela? Experimenta, permite-se, tenta, testa. Alonga. Paga pra ver.

 Já partiu, já voltou, chora muito, ri outro tanto, pensa demais. Tudo demais. Cores, dores, luzes, faltas, explosões, desejos. Esperas. Essa coisa de pensar sobre o tempo. Muito cedo, tarde demais, intervalos, ocasiões, agora, nunca, sempre, velocidade, duração, logo, quando, tempos paralelos, tempos comprimidos, tempo. E espaços. Frestas. Onde. Como.

 …..

Os olhos escuros que ficam quase cor de âmbar no amor.  Ela poderia ir morar naqueles olhos para sempre. Reduzida à carne sob as unhas, escondida nos sulcos da pele, no meio dos pelos, entranhada no suor dele, no sêmen, no gosto doce e úmido da boca.

 …..

Uma coisa é saber da falta e da angústia, mas viver todo o tempo diante da face crua dessa falta, na ausência de ar e no espanto desse buraco que nos constitui, também pode ser sintoma. Por isso, a gente cria uns véus, lança umas rendas diáfanas diante da realidade, usa uns filtros no enquadramento, para adoçar arestas, permitir caminhos.

 Entretanto. O caminho que ela percorre é escuro, instável. A cada passo, a incerteza. Cair no vazio ou criar, no próprio ato do passo, outro pedaço da estrada? Estrada que ela nem sabe se existe, ou onde vai dar. Claro que não existe. Nenhuma estrada existe a priori. Mas a gente às vezes inventa, projeta, imagina – lança os tais véus – e isso é muito reconfortante. Fazer planos, sonhar, construir futuros. Ainda que só de brincadeira, ainda que sabendo da ilusão. Adora um amor inventado.

Por um tempo viveu um amor assim, que prometia ser absoluto, completo. Foi tão bom acreditar. E tão sufocante manter. Hoje, experimenta a exacerbação da transitoriedade. De um lado, a ilusão de completude, da entrega que cobra, impiedosa, o preço da liberdade; de outro, o desconforto da impermanência, permanentemente desfraldada diante de si como um desamparo. No meio, ela. Um tanto atordoada. Que já não sabe o que deseja. Ou sabe só o que deseja, sem lógica ou juízo. O corpo dele no seu, as mãos, a boca, as pernas, os olhos. Os olhos dele nos seus, o fogo, o riso, a dor, a promessa muda e incompleta. Só hoje, só mais um dia, só até o próximo encontro. Depois a gente vê o que faz.

 

As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Dia desses eu casei…

Pois é, dia desses eu casei.

Pelo menos é o que quase agora, quando olhei meu perfil antes de começar a escrever esse texto, ainda me confirmava o facebook.

Não teve festa, e portanto também não teve aviso ou convite aos familiares e amigxs de ambos acerca de nossas intenções em contrair núpcias (desculpem, mas pelo bem da zoeira, eu tive que escrever isso).

Também nem sei se posso dizer que tenha havido algo que possa chamar de intenção. Antes de. Apenas mudei o meu “status social” durante uma “discussão” inbox acerca de relacionamentos e suas nomenclaturas e de como as pessoas, incluindo nós, reagem a esse ou aquele termo.

E daí o moço, com o qual eu vinha mantendo um tal de “relacionamento sério”, leitor assíduo desse site e que também já escreveu por essas bandas como convidado, mudou o “status” dele em resposta. Acho que porque seria bem indelicado não aceitar pedido tão singelo duma pessoa legal como eu (né, bubuio?).

Enfim, sei que acordei no dia seguinte e me passou pela cabeça que assim como nas “redes sociais” também é na tal da “vida real”. Relacionamentos começam e acabam com um simples gesto. Um toque. Um detalhe. Que não existe garantia nenhuma. Mas que talvez tivesse sido muito irresponsável da minha parte aumentar o âmbito das cobranças de determinados papéis para pessoas como eu. Ou como ele.

Ou algo assim. Hoje acho apenas que eu estava bêbada e quis uma coisa meio Las Vegas-contemporânea-virtual, sei lá… cada um que conte a sua história e faça suas considerações sobre o acontecido… nesse texto, por hora, eu posso e quero contar essa versão. Que podia ser completamente diferente. Também poderia sequer mencionar o assunto.

Por pensar desse jeito foi que fiquei realmente surpresa quando recebi os parabéns dalgumas colegas de trabalho. Mais surpresa ainda quando uma delas, mulher que intitula-se como “senhora casada, séria e respeitável” (rogai por mim, Kátia, a cega) me afirmou que se eu precisasse de “conselhos” sobre a “vida de casada” (isso morde?) podia contar com ela. Fiz uma pergunta acerca da posição sexual conhecida pelos biscates escreventes nesse club como haraquiri baiano e ela desconversou…

Bom, ela continuava chata. Eu também.

O que me tranquilizou bastante sobre questões acerca de manutenção de identidade e essas coisas que podem (e são) questionadas vez em quando por gente sem noção diante de alguns… digamos… acontecimentos. Como se deixássemos de ser quem somos individualmente, de um dia para o outro, porque, bom, porque fazemos qualquer coisa considerada como “normatizada” socialmente.

Porque né? Cadê manual de instruções pra viver? E ainda mais especificamente, cadê “normas” para pessoas que são mães, filhas, pais, namorantes, casadas, putas, amigantes, solteiras, amancebadas, tico-tico no fubá, viúvas, separadas, divorciadas, celibatárias (insira aqui qualquer termo que descreva um tipo de convívio que se mantêm em relação a outrem)? Alguém tem? E se for uma coisa e não outra? E se for tudo ao mesmo tempo agora? Cê num sabe de nada, John Snow…

Também tenho me tranquilizado quando acordo e lembro que apesar dessas pessoas, que escolho não conviver além do necessário (já disse que sou chata, oras), já faz algum tempo que comecei a viver (e a vezes contar) uma história bem legal com esse cara que agora se diz (e eu confirmo) meu marido. E ainda assim fico curiosa em como (e se) vou querer continuar fazendo isso. Também porque gosto da resposta que tenho me dado quando o vejo ao meu lado na mesma cama (de casal, de solteiro, no colchão dxs amigxs, no jardim). Quando rimos juntos. Conversamos, conversamos muito. Dividimos o silêncio. Brigamos e fazemos as pazes. Ou apenas quando ligo e escuto sua voz.

Foi para esse cara que há dois dias pedi opinião, para realmente levá-la em consideração, sobre com qual cor pintar a geladeira. Fiquei desconcertada com o amarelo da resposta. Como assim amarelo? Azul não é mais legal, não? Esse tom de amarelo mesmo? Mesmo mesmo? Tem certeza?

Pois é, agora tô eu aqui escrevendo e olhando a geladeira que antecipei à sua chegada e comecei a pintar sozinha, talvez para tentar ver como “lhedar” com a vinda de outras e fortes cores, durante um período de tempo (que me disseram ser maior apenas pelo uso de um termo) nesse meu solitário espaço, construído e decorado nos últimos anos em tons de azuis tranquilizantes e taurinos marrons.

É, casamos, mas ainda não estamos morando na mesma casa.

Ele está em outro Estado, outra cidade e outra casa. Mas espero e desejo que ele chegue logo, porque esses tem sido dias muito chatos desde que nos despedimos há longas e enfadonhas duas semanas. Que chegue de mochila pesada de livros, com o coração leve ou de qualquer outro jeito que possa nos trazer alegrias. Juntos ou separados. Seria perfeito se fosse no primeiro dia do mês que vem, tal qual combinamos. Mas ainda se ele ainda mantiver a coragem danada que tem de viver. Sem desrespeitar a minha.

Porque vai que é como disse uma grande amiga (e eu nunca esqueci)… amar é mesmo isso.

Coragem.

Quem diria, né? Teremos uma geladeira amarela, marido. Ou não.

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Mergulho*

“Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. (…) E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo”. (Clarice Lispector)

mergulho

É esse o convite, acho. Pra um mergulho. Pra se permitir. O que? Qualquer coisa que apeteça. Sentir, talvez. Esquecer o destino, aproveitar a estrada. Estar. Aceitar a dança. O risco. O riso. Apostar no bom. Em movimento: dos barcos, dos quadris. Como andar: desequilíbrio e coragem. Matéria. Ser o corpo. Ouvir a carne.

Dar a mão. Oferecer o ombro. Ser abrigo. Acolher abraços. Olhares. Expor-se. Deixar o querer chegar manso. Distrair-se. Rir alto. Sussurrar. Tocar. Tocar-se. Acreditar que é possível isso de gostar. Apenas por. Assim: um, outro, um espanto.

Desfrutar. Vento no rosto, ponta da língua, tatear. Encantar-se. Rasgar as listas. As exigências. Esquecer o branco, o preto. Viver a cores. Pintar o sete. Como se fosse brincadeira de roda, rodopio, entontecer. Farejar.

Ouvir, ir além, perguntar. Querer saber. Querer percorrer. Querer. Dilatar-se em aceitações. Venha. Toque. Saiba. Diga. Deixar o dia ser noite e a noite se fazer dia em conversas de pouco dizer. Intervalos. Olhos. Contato. Desprezar amanhãs, o futuro é o agora do depois.

Ser encontrada. Vista. Desejada. Encontrar, ver, desejar. Deslizar. Roçar. Encostar. Perto. Abrir portas e janelas. Ainda mais: prescindir das paredes. Desistir da hora certa, do lugar certo, da pessoa certa. Abandonar a régua e o singular.

Umedecer-se. Aceitar-se molinha, flexível, aberta. Mergulhar. Brincar. Bater na água. Fazer borbulhas. Tomar caldo. Deixar o sal se fazer gosto na pele. Salgar-se. Resgatar-se. Querer apenas o querer. Um dia. Outro dia. Lembrar: é divertido. Um avaro pelo avesso: viver os dias como quem desenterra tesouros. Sem certezas. Deixar as âncoras no barco, deixar a bússola na gaveta, experimentar. Vai doer? Vai doer. Isso sentido, seguir.

 Como disse Clarice, saber que fez um perigo: viver.

 

*Post síntese de sensações/conversas biscates com a querida Renata Lins.

Não me Arrependo

amor de índio

Amor, eu não me arrependo de você. Não me arrependo do tempo que esteve na minha vida, não me arrependo de ter dado oi naquele aplicativo de pegação, não me arrependo do seu seu cheiro, não me arrependo do seu beijo, do seu corpo suado junto do meu. Não me arrependo da sua mão que subia pela minha perna, entrava na minha bermuda e pegava no meu pau no fundo do ônibus. Não me arrependo do sorriso safado. Não me arrependo da pouca grana, de ter me doado. Não me arrependo de te convidar pra morar comigo sem te conhecer direito. Não me arrependo das brigas, das mancadas dos desentendimentos.

Sim, eu não me arrependo. É, claro, ás vezes me pego pensando “e se eu tivesse agido daquele jeito e não daquele”? Se eu tivesse ligado? Seu tivesse mandado mensagem?  Será que ainda estaríamos juntos? Eu sei, amor, é apenas um exercício de imaginação. Não dá pra saber o que teria sido, sabemos apenas o que fizemos. E, sim, ás vezes acho que foi culpa sua, ás vezes acho que foi minha, mas daí lembro que não há culpa, nem desculpa, fizemos da nossa vida juntos  o que foi possível.

Outro dia aqui em casa entrei no quarto que era nosso e foi como se uma onda de memória me tomasse. Lembrei de quando chegava em casa cansado , entrava no quarto e te via dormindo. Era como no clichê  dos apaixonados porque parecia que o mundo parava naqueles segundos em que eu te olhava. E eu só saía desse estado de apaixonamento pra te beijar. Você nem se mexia. Foi assim durante meses.

Mas acabou. Assim como esse texto.

 

maycon

 

*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prado*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

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* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Flor de Inverno

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Teus medos passeiam pelos percursos do meu corpo

Deslizam suaves através dos pelos que me vestem

Fazem eco nos poros, sussurro aos ouvidos

Gemido, gozo, flor de inverno

 

Amor despido

No ombro onde deitas

No peito que repousas

Na coragem que te brilha quando choras

E quando no escuro te procuro

E nossos olhos mergulham em mar aberto

 

Calmaria, revolução,

Silêncio branco de nuvens que desenham o céu

Galopes tremidos no chão onde repousa o futuro

No porvir onde deitamos,

Sentimos

A embriaguez dos nossos passos largos

A delicadeza do possível

O tempo manso que nos acaricia o cabelo

 

Aqui, presente

Verbo que se faz vivo

Extravasado da vida partilhada que brota vermelha

Colorindo a terra rachada do cerrado

Entre ossos e saliva

Desejo bruto

Trampolim

Nós.

Amar é Dar

Tem a Tulipa. E aquela música que todo mundo gosta, inclusive eu. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Tão tentador, não é, poder acreditar que o amor é esse moldador de peças de quebra-cabeça que nos faz achar um encaixe perfeito, que o amor garante exclusividade, que o amor é sintonia. Só que. Pelo menos não do lado de cá do abismo. Daqui, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Tem o amante, ouiés. O amante é aquele que sente que algo lhe falta. Não sabemos o que é, mas é claro, olha só, deve estar nessx moçx faceirx de olhos cor de âmbar (ou complete aqui conforme seu desejo). E amamos. Amamos isso que supomos estar no outro e que preencheria o que nos falta. A tampa da panela. A metade da laranja. O parceiro perfeito da dança. Daí, tem o amado. Opa, me escolheram, essx daí deve saber o que eu tenho pra dar. Eu não sei o que é, mas que importa, se elx me quer, elx viu em mim isso. Belezinha, né? Só que o amado também é ser de falta. Também ele espera a tal completude. O que ele tem a dar ao amante é: nada. Ou ainda: sua própria falta. Seu buraco. Seu oco. O amor preserva, justamente, o lugar da falta. O amante precisa que o amado seja também amante. Amar é querer ser amado. É além: é querer ser amado do jeito que queremos que o amor seja.

"o sono compartilhado é o corpo de delito do amor"

“o sono compartilhado é o corpo de delito do amor”

E aí eu lembrei uma outra dança. Da Teresa com o amigo do Tomas (n’ A Insustentável Leveza do Ser). Tomas a quem ela ama com essa fome que a devasta (e não há metáfora melhor para o amor, acho eu, porque a fome só finda definitivamente quando finda o sujeito. No por enquanto, a saciamos transitoriamente. Amar é bem assim, de vez em quando parece que. Mas, a seguir, queremos mais). Dizia eu, Teresa dança com o amigo de Tomas. Porque, repare bem, ele, Tomas, não gostava de dançar. E aí Tomas fica ali, mastigando ciúme, observando como eles – Teresa e seu amigo inominado (e não ter um nome não deve ser por acaso, né, Kundera, seu lindo) – dançam bem juntos. “Ele estava estupefato de ver com que precisão e docilidade ela se adiantava uma fração de segundo à vontade de seu parceiro. Essa dança parecia proclamar que sua dedicação, esse ardente desejo de satisfazer o que lia nos olhos de Tomas, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas, mas que estava pronta a responder ao apelo de qualquer que fosse o homem que encontrasse em seu lugar”. É claro que o ciúme de Tomas inibe que ele reconheça que não é qualquer homem em seu lugar, mas ele ou qualquer homem que ocupassem esse lugar: de alguém que tem algo que ela supõe que a complete. Que a faria feliz. Plena. Futuro do pretérito. Ou ainda. Pretérito mais que perfeito, se não ligarmos à gramática.  Tomas desconhece que o amar não é acaso, é repetição. Tem aquele traço único que buscamos e que supomos em quem amamos. É esse traço, que desconhecemos mas reconhecemos, que faz a amarração. Ponto de estofo. Teresa ama Tomas, um tanto, porque supõe que ele sabe alguma coisa sobre ela que ela mesma desconhece. O amor é uma pergunta. Um desassossego. Amando, buscamos o apaziguamento da hiância*, mas, rá, só podemos fazê-lo reconhecendo que ela existe: a distância. O vazio. O desamparo. Quando enunciamos eu te amo como se fosse eu preciso. Eu preciso que você precise. É aí, na vulnerabilidade – e na aceitação da vulnerabilidade do outro – que o desencontro – marca das relações humanas – nos permite ser – na falta de palavra melhor – felizes (e o pra sempre, sempre acaba).

 * Hiância é tipo um não-lugar. É como o vazio que tem entre os parênteses ou aquele símbolo do vazio na matemática. É um nada margeado, relativizado, definido por ser bordeado, porque é um nada que só (in)existe a partir de um alguma coisa que existe. Porque como somos seres de linguagem o vazio absoluto é impossível de dizer (como, ademais, qualquer coisa do real), quando nomeamos: nada, aí existe algo, a nomeação pelo menos, né. Ou resumindo: o que é fendido, lacuna.

Ou leiam esse texto sensacional que a Renata Lins já tinha sugerido, Verbete: Amor

Bissexuais

Por J. Oliveira, Biscate Convidada

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Entre beijos, abraços, apertos, carinhos e gozos nunca fui boa em escolher. Paixões se fizeram assim sem pedir licença, quando me dei por conta já tinha acontecido. Desejava e amava mulheres… também. E sem esperar vieram também os rótulos e os preconceitos embutidos.

Sapatão. Hétero. Indecisa. Vive em cima do muro. Mentirosa. Promíscua. Tá no armário. Mas você tem mais opções. Você precisa avisar antes. Nojo. Eu devo ter medo de você? São os bi que transmitiram a aids para os héteros. Quer pegar todo mundo né? Mas ninguém como você quer um relacionamento sério, certo? Mas qual você prefere? Como posso confiar em você? Sua vida á mais fácil, você pode ser hétero. É só uma fase. Vocês são mais evoluídos. Só vou se o lugar for 100% gay. Claro que você é não-monogamica, todas vocês são. Que tal você me apresentar um amiga sua pra transar com a gente? Mas já estamos falando de lésbicas, não é o suficiente?

não. Não. NÃO. E NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Podia dizer apenas que gosto de pessoas e cair no clichê. Mas é mais do que isso. Ninguém controla por quem se apaixona, ou sente desejo, ou ama, sabe? Ninguém controla a própria felicidade e satisfação em um relacionamento. Esses limites se fazem sozinhos. E por um acaso não é o gênero que delimita isso tudo pra mim. E isso vale para todes nós bissexuais e pansexuais.

E não é nenhuma escala kinsey que vai determinar isso. Até porque essa tabela é binária e eu preciso dizer: os gêneros não são.

Desejos também não são, amor também não é. E dai que cada um de nós encara essa afetividade e sexualidade de uma forma. A gente se sente diferente, se atrai diferente, se relaciona diferente. Não me encaixo na sua caixinha? Te decepciono? É a vida. Não queria ter também que lidar com essa discriminação toda, mas não espero aceitação de ninguém pra eu ser eu mesma.

É triste ter de viver pedindo desculpas por algo que a gente não tem controle, por algo que faz parte da nossa essência. E que define a forma que a gente se relaciona com o mundo.

Não escutem essas merdas todas. Não aceitem nada menos do que respeito. Se juntem. Se fortaleçam. Resistam. E continuem amando, trepando, beijando e abraçando sem culpa. Sem deixar que os outros rotulem o que é válido pra vocês ou não.

Vocês não estão sozinhes.

jussaraJ. Oliveira se sabe, se diz: contradição em pessoa. Aventureira inconstante e amante suicida. Pequena. Mas faço estrago.

Toque e Retorquir…

Poucas vezes o calor foi tão infernal. O da alma, evidentemente. Nas cobertas, já desfeitas, já descobertas, já jogadas, os restos de suor. Do calor. Do inevitável calor. E como acordar sem antes rememorar? O relógio insiste em tocar, um galo moderno com som irritante. Mas os olhos cerrados fazem companhia para o corpo. Quente, aquecido, saudável. Úmido.

masturbacao-destacada-620-3Não há como distinguir o sonho da vontade. A vontade do calor. O calor, dos corpos. Ainda que sozinha, ela está ali, entre pensamentos que passam entre pernas, coxas e inevitáveis toques, maliciosos, quase todos. O calor no quarto vem da janela, entreaberta. O sol da manhã. O calor do quarto, na verdade, é o do corpo. E ela quase que sorri, ainda presa aos sonhos. Ao calor. À vontade.

Ela se deixa tocar. Já sabe e se reconhece acordada. Aquele calor no quarto. E na alma. No primeiro toque reconhece a vontade, a vontade dela. A cadência dos toques reconhece movimentos que ela já experimentara durante a noite quente. Um toque impreciso, mas preciso, direto e ela quer. Quer para saciar, para ter, para abraçar. O calor. E o relógio dizendo sete da manhã. A janela, o sol. O calor. Ela já sabe que não poderá fugir daquele calor. Da alma. Do corpo. Dela. Só dela. E ela se toca, toques que ela quer de outros dedos, de outro corpo, de outro olhar. Quente, aquecido. Saudável. Bela, se sente bem. E sorri.

As cobertas e agora, as roupas de dormir. No canto da cama. Testemunhas que pelo calor reconhecem a razão de estarem molhadas. E jogadas. O relógio desistiu de incomodar. Não importam mais horas, minutos ou segundos. Era ela e com ela, dela. A manhã quente no quarto tomava conta de tudo, quase tudo. O corpo. O calor. A vontade. O calor, sempre este calor. Da alma. E num instante ela fecha os olhos, sente o corpo, sente os pelos pularem de arrepio e sente tudo o que queria. O desejo. A vontade. Olhos cerrados, boca entreaberta. E como um beijo, um sonho, um toque. Como o sexo. Como os corpos que falam. Bela, se sente bem. E acorda.

A cama, as cobertas, as roupas de dormir. O resto do suor. O cheiro de corpos. O gosto de tudo. O relógio. Enquanto a água do chuveiro escorria, ela pensava no resto do dia. Sabia o que era aquele calor da manhã. Desperta, viva. Deliciosamente quente. Outro dia começara e ela já estava bela. E pronta. “Bom dia”.

Sobre tempos e maresias

sobre tempos e maresias.

para minha mãe. e meu filho. 

arquivo pessoal

arquivo pessoal

O dia estava cheio como cabia na minha memória. A praia, a mesma praia de tantos dias que formaram meus anos até meados dos vinte.

A vó e o neto adentram o mar de mãos dadas. Adentram as ondas mansas rumo ao horizonte dos navios e do desconhecido da minha infância. A mesma praia que me lavou os cabelos e me embalou pelos anos. Praia de ventos mornos e areia escura. O tempo lavado pelo mar, e pelo salgado que me lambeu as feridas.

Sorrio emocionada por entre os vendedores que anunciam pipas, milhos, mates e tantas alegorias de verão. A multidão de sol me faz zunido aos ouvidos, junto com o embalo bom do mar. A música me penetra e alcança as incógnitas vivas naquele resto de natureza. O vento incansável do tempo me convida a dançar. E eu danço, ensaiando perguntas que me escapam. Dançar as perguntas é mergulhar no mar, esse mesmo mar que me corre por dentro.

O menino pula e a avó sorri, inebriados de maresia. Eles que me formam, eles que me tocam com as ondas que beijam meus pés. Eles que me marcam ciclos, e me brindam com amores que não explico. Um amor casa, e um amor trapézio. Amores estranhos que se misturam nos ossos, que fazem parte da carne que envelhece e se regenera com o correr da vida.

Moldada pela lama de onde venho sigo a travessia, rumo as novas rotas de espuma branca. O menino se cobre de lama, enraizado a beira mar. Mãos que cavam e constroem castelos sempre inacabados, rodeados pelo buraco que será, em pouco tempo, maré cheia. Olho o horizonte de onde parti. E parto, a cada dia. Para até onde correr o mar que nunca começa. E nunca termina.

arquivo pessoal

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