Sobre Ontem a Noite

noite

Oi, amiga…pode falar? Sim, eu sei que você sempre me escuta, mas é tão cedo. Não, eu não dormi ainda. Deixa eu te contar. Ontem fui àquele bar, aquele que toca blues direto e tem decoração com cinema dos anos 30 e 40. Pois é, também adoro aquele lugar. Tava, tava cheio. Eu fiquei de papo com o pessoal da sinuca, todo mundo elogiando meu corte de cabelo, nunca pensei que ia ser essa revolução. Se soubesse tinha feito isso antes, né. Hein? Sim, ela estava lá e perguntou por você. Affe, não sei porque vocês não se arrumaram ainda, tá na cara que ela também está a fim. Tá, deixa pra lá. Enfim, eu ia te contar é que  nessa hora aí ele chegou. Sim, aquele. Você sabe que basta olhar pra ele pra minha calcinha ficar molhada. Lembra que te contei quando a gente se conheceu? Foi naquela festa da barraca de praia. Foi quase. Só lembro da gente dançado quase sem música, naquele fim de festa, nem era mais dança, né, a gente só se roçava, aquela mão enorme e quente passeando nas minhas costas, agarrando meu rabo, a outra segurando minha nuca pra eu não desviar os olhos dos olhos dele, eu sentia os mamilos tão duros que chegavam a doer…ai, tá vendo, já estou ficando com tesão. Aí, depois, aquele moço sem sal veio dizer: ah, cê acha que ele é homem? nem pau ele tem. Dá dó. Amigo, se você acha que sua masculinidade tá no funcionamento do seu pênis que pequeno que é você. Alguém devia contar pra ele que tem sexo sem penetração, né? Mas, enfim, eu tava falando era do meu gostoso. Ele ontem chegou naquele jeito festeiro e zuado. Mas um zuado tão delícia. Lembra aquele dia que a gente se cruzou na entrada do cinema? um monte de gente passando aí ele veio se chegando, se chegando, conversando abobrinha, tocando e, quando vi, eu estava encostada na parede, ele com a perna bem entre as minhas, esfregando pra cima e pra baixo, brincando com a ponta do meu cabelo e me contando sei lá o quê. Quando ele foi embora eu era incapaz de reproduzir uma única palavra do que ele disse, mas poderia descrever minuciosamente, em um tratado de 200 páginas, o que significa desejo. Ai, amiga, eu só queria esse homem em cima de mim. Por horas. Dias? Aquelas mãos, aqueles dedos, aquela língua…Affe, até desconcentrei. Assim eu não termino de contar nunca. Então, ele chegou e foi falando com o pessoal, eu não desviava os olhos. Até que ele me viu e acenou com a cabeça. Puto. E ainda deu aquele sorrisinho de canto de boca que eu acho uma glória. É claro que todo mundo adora o safado e, daqui a pouco, já estavam chamando pra nossa rodinha. Vontade de correr. Pra cima, claro. Ele veio, bezadeus, que saúde. Foi cumprimentando as pessoas, dando beijinho nas mulheres, aí sabe o que o sacana fez comigo? Não beijou, nada disso, pegou aquele queixo maldito dele e ficou esfregando no meu rosto…no rosto todo, mulher! O queixo dele na minha face, na minha boca, nos meus olhos…eu só faltei gemer alto. E a mão dele “sem querer” esbarrando nos meus peitos. Sei, sem querer. Eu, pelo menos, queria mesmo. Inclinado pra mim, tudo que ele queria me dizer tinha que ser ao pé do ouvido, desde perguntar se eu queria mais cerveja até dizer que tinha gostado do meu cabelo curto porque minha nuca à mostra era sensual como seu eu estivesse nua. Eu, puta. E excitada. Ele tirando meu prumo com a voz tão rouca. Daí ele disse que tinha muito copo na mesa e passou a beber do meu copo. Foi sexy, sabe? Que boca aquele homem tem. Ms, né, nem fode nem sai de cima: não trabalhamos. Pensei eu, com meus botões – que, pelo meu gosto, já estariam todos desabotoados – que daquela dança eu sou professora, né. E em uma vibe Vandré, resolvi que quem sabe faz a hora. Para de rir, mulher, eu por acaso fico rindo quando você tá contando das suas moças apaixonantes? Tá, fico, mas deixa eu contar do meu moço delicinha. Então, estava lá aquele clima, roça daqui, roça dali, a gente bebendo no mesmo copo, aí eu me viro e sussurro: tenho uma coisa pra você. E vou pro meio da pista de dança, né, meia luz, muita gente. Sinto o olho dele pregado em mim. Vou dançando e descendo a calcinha. Foi, no meio do salão. Rá, sou louca, cê jura? Ah, não dava pra notar muito não, eu estava com aquelas saias longas, bem soltas, só se alguém estivesse prestando atenção. E ele estava né. Cara, foi bom. Só de pensar no que eu estava fazendo senti meu corpo quente e pulsando, todo pedindo toque, pedindo língua, pedindo…Com a calcinha morna em uma mão cheguei perto dele (sim, minha perna tremia, mas nem sei se de nervoso ou de tesão) e com a mão livre peguei o copo de cerveja e bebi assim, deixando molhar o lábio. Né. Lambi, naquela vibe vulgar sem ser sexy e deixei a calcinha no colo dele – não sem antes dar aquela passada de mão nas coxas. Cheguei mais perto e disse: estou precisando de carona, você vai ficar mais tempo ou quer ir lá em casa me foder? E dei uma fungada no cangote, porque, né, nordestinamos a biscatagi. Menina, juro pra você que ele gemeu nessa hora. Hein? Ah, você acha que eu não dormi ainda por quê? Veio, veio. Agora estou aqui, ouvindo Chico e pensando que não vou te tempo de escrever o post do blog hoje, cê pode me cobrir? Brigadinha, viu? Beijo, beijo.

Metida Com Mel

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada.

Aí vem minha amiga e diz que estava conhecendo um mocinho pela intenetz. Aquelas coisas de mensagens de sacanagem durante o dia, fotos eróticas, vídeos pornôs por whats, enfim, o trivial. Belo dia, ele mandou pra ela um vídeo de uma mulher se masturbando com um aparato que minha amiga, mesmo por dentro dos paranuê de vibradores, nunca tinha visto antes. Era uma espécie de bomba de vácuo, com um consolo bate-estaca no meio que a moça, sabe-se lá como (porque isso minha amiga realmente não entendeu), tentava controlar.

O aparato parecia uma bazuca transparente. Ela me explicava e eu só visualizava “A geração de Proteu”. Entendendores entenderão.

Ela ficou meio assim com aquele vídeo – tinha uma vibe violenta que, mesmo numa masturbação, lhe bateu meio creepy – e nem respondeu na hora, só no dia seguinte quando mandou um “medo”, acompanhado de “rysos”, pra quebrar o clima. Porque, né, tampouco queria parecer moralista ou bedel do tesão alheio. Ela não se excitou, mas se a mocinha do filme estava feliz, amém! E ele respondeu com um “rsrs” junto com “imagina num anal”.

Minha amiga pensou um pouco e, aproveitando a deixa, disse que adorava anal, mas, especialmente no anal, não transava muito aquele fuc-fuc incessante. Preferia mais carinho e menos performance.

E aí, senhoras e senhores, o bofe começou a mostrar a que veio e mandou essa cintilante pérola sexista: “A maioria das  mulheres geralmente é assim mesmo. Gosta mais de carinho que da metida. Homens, não. Preferem mandar ver logo e sentir prazer. Se não tiver carinho, mas a metida completa, é o que vale.”

Ai, a conversa sobre mulheres gostam disso, homens daquilZZZzzzzz. Minha amiga, brochadérrima e prontinha pra correr pras montanhas, até tentou dar uma aulinha de feminismo 101: “nossa, acho muito sexista e ultrapassado isso que você está falando porque…:

Obviamente, foi interrompida pela mãozinha nervosa do sujeito que continuou, enviando uma classicona passivo-agressiva: “você não é boa de leitura? Não é toda inteligente? Leia de novo o que escrevi: eu disse a maioria, não disse todas”. Como vocês podem imaginar, sangue subiu muito na hora, já que o sexismo e a babaquice ganharam contornos mais nojentos com aquele mimimi reiterativo, recalcado e defensivo típico de quem medra na conversa.

Mas, você se engana se pensa que ele parou por aí: “gata, gata, você está perdendo tempo. Acabei de chegar de uma transa. E ontem também transei. E na 6a tive uma super transa. Tudo isso porque não tô preocupado com carinho. Não perca tempo com isso.  Curta a vida. Quem gosta de amor é motel. Pensa nisso.”

Que. Preguiça.

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Não precisamos de fiscal do fiofó (imagem da performance Macaquinhos)

Primeiro, pelo ~ provérbio ~ sem charme. Depois, claro, porque  além de se deparar com um homem adulto se vangloriando das supostas trepadas do fim de semana, ainda ser brindada com a culminância do sexismo, do machismo e da ignorância quando ele pressupõe que, por ser mulher e falar que, pra ela, é importante delicadeza num anal, minha amiga buscava mesmo era “um amorzinho gostoso”.  E nem vou dizer da arrogância e da estupidez de sequer sacar o #ficaadica.

Sabiamente, ela acabou nem respondendo à última mensagem. Aliás, minto, devolveu uma curta: “tempo eu tô perdendo agora, falando com uma britadeira. Fui.”

E foi mesmo.

Disclaimer: não deveria ter que repetir, mas vamos lá. Mulher gosta de sexo, (oral, anal etc e tal), e pode adorar pornografia, chats de putaria, filme pornô no whatsapp e até de foto de pau (sobretudo se consentidos e/ou solicitados), de vibradores, de meteção, de sexo baunilha, de BDSM, de linguada e beijo no cu e de dar o cu num bate-estaca ou devagarzinho… E homens podem perfeitamente gostar dessas coisas todas aê e também de dormir de conchinha.

Ah, e não umedecer com determinada proposta não é régua pra medir libido.

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*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada no Facebook e e Twitter (@vanerodrigues).

 

Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

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Luz acesa….

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Olhar. Conversa. Riso. Provocações, lábio seco. Molhar os lábios, com a bebida. Olhar. Ah… o olhar…

Sei que não tem manual, que nunca é igual. Mas é assim, as vezes, apesar de ter sempre aquela cousinha diferente, que dá aquele chameguim uma cor e sabor original, diferente, único.

“Vamos embora daqui, agora?”.

“Vamos.”

Sim, vamos. E abraço, toque, retoque, beijo, lábio, chupadas no pescoço, no queixo, pornografias no ouvido e aquele calorão todo. E sobe e desce mão, procura aqui e ali e meu pau bate no teto.

Na sala, enfim. Parece guerra. E tira peça de roupa e beija aqui e ali e mão e não e sim e vai… vai…. esparrama, declama, pensa, molha, sobe, desce, aquece, aquiesce.

“Ah…  apaga a luz, vai?”

“Mas… por que?”

“Eu tô feia. Tô gorda.”

“Ah… eu tenho pau pequeno…”.

Ela ri. Ele ri. O pau sobe ainda mais.

“Apaga, vai… tenho vergonha…”.

“Mas ó… ele tá assim por causa do tudo….”. E, de fato, ele tá bonitão, todo orgulhoso em riste.

Novo riso. Cafuné, afago, dengo, molha, beijo, última peça no chão. E língua e mão e tudo. E encaaaaixa….. Assim, aceso e acesa.

Ar que acaba, morte em festa, gozo todo.

“Adoro tua bunda.”

E ele sai sorrindo, para pegar água. Era outra sede.

Pelados, peladas:  Completamente.

Luz apagada, quase dormindo. E começou tudo de novo…

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Biscatear é como respirar

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Ontem no twitter uma amiga queridíssima dizia em tom de lamento que está sem tempo para biscatear. Encafifei. Como assim, sem tempo para biscatear? Biscatear é algo que se faz naturalmente, sem pensar sobre, igual respirar, andar e… comer! :P

Argumentei com ela que biscatear não é namorar, não é manter um relacionamento com alguém — que aí demanda que o alguém não seja qualquer um. Biscatear pode ser só fantasia, inclusive. Aí, lembrei que até nos períodos de maior depressão em que vivi, nem neles deixei de biscatear.

Biscateio com o gari lindão muso da greve do Rio. Biscateio com Darín. Biscateio com um delegado que é baixinho e tals, mas um gigante pra admirar e objetificar. Biscateio com um professor barbudão candidato que mora do outro lado da ponte. Biscateio com o meu barbudão, em casa. Biscateio com o Drexler e o Gael. Biscateio até com amigos que sequer sonham (ou teriam pesadelo) que tenho alguma fantasia com eles[spoiler]. Biscateio com o Clint. Ah, o Clint… ♥

pedreiragem

pedreiragem

Biscatear é desejo, não tem a ver só com o concreto, com o realizável. Biscatear é a pedreiragem do dia a dia, a pedreiragem arte, a pedreiragem moleque… Biscatear é só biscatear. Não demanda tempo, esforço ou articulação. Biscatear é, de fato, como respirar.

E em tendo tempo e disposição, dá até para usar estratégia para biscatear;-)

Deixa eu te contar um segredo…

Olá!

Eu tava morrendo de saudades daqui e algum dia conto porque estive tão longe por tanto tempo. É muito bom voltar!
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Mas, vamos lá: dentre as diversas vivências que tive enquanto não postava nada no BSC, uma delas foi me render e baixar o Secret (o tão polêmico app que chegou ao Brasil em maio deste ano e já deu bastante o que falar). E digo, sem medo de exagerar, que ele pode ser considerado uma verdadeira experiência antropológica por diversas razões que tentarei elucidar neste texto.

Não sei vocês, mas eu adoro um mistério. Isso vem desde a adolescência, quando eu gostava de escrever poemas e crônicas sem dizer quem eu era ou usando pseudônimos. Fiz muitos amigos assim. Meus autores favoritos também escrevem ou escreveram assim em algum momento de suas obras. E a minha sensação com o Secret foi mais ou menos essa, ainda mais quando eu via que o autor do segredo era algum amigo…

Basicamente, o app é conectado à sua conta do Facebook e assim como o Tinder, não posta nada no seu perfil. A diferença é que sua identidade não é revelada e apesar de muita gente duvidar desse “anonimato total” (eu inclusa), ainda não vi qualquer indício de como um usuário comum pode descobrir a identidade de quem posta algum segredo. E é aí que mora um perigo muito real para esses usuários, que podem ter sua intimidade exposta involuntariamente a qualquer momento.

E infelizmente, vi muita misoginia e machismo no aplicativo. Não foram poucas as fotos com meninas (muitas menores de idade) que tiveram a infelicidade de confiar em pessoas que não pensaram duas vezes antes de tornar este ato de intimidade um assunto público. Considerando que a maior parte de quem o utiliza é jovem, podemos notar o quanto nossa sociedade ainda corrobora para formar pessoas conservadoras, preconceituosas e violentas.

Toda vez que surge algo assim na minha “TL do Secret”, trato de denunciar e tive sucesso em várias das denúncias, o que demonstra que os desenvolvedores aparentemente têm se preocupado com tais questões, tratando de tirar do ar e banir quem exibe conteúdo de ódio ou inapropriado.

Ademais, o App tem sido muito divertido. Soube que tenho amigos que peidam e disfarçam em transportes públicos, que amam e não são correspondidos, que usam drogas, que querem ser ricos, que odeiam a faculdade, que queriam que a vida fosse um filme… Tudo sem imaginar de quem se trata.

É aí que está a graça.

Intervalo

intervalo

Essa noite. Essa noite eu vou. Essa noite vou aceitar convites, esquecer a hora, perder o rumo. Direi apenas sim e mais e quero. Essa noite eu vou sentar perto. Vou falar muito, gesticulando sempre e como se fosse pra ser, vou tocar teu braço. Uma vez. Outra. Até que seja isso: a fala vai no afago. Displicente, enquanto escuto com a cabeça inclinada e os olhos meio fechados, vou fazer da língua, brincante. Umedecer caminhos. Essa noite vou antecipar cumplicidades, inventar segredos, manter ditos inacabados. Vou encostar joelhos e esquecer o corpo no conforto de sentir outro corpo e deixar o quente de onde as peles se descobrem fazer fogueira. Essa noite vou usar superlativos, beber de outro copo, cruzar a linha, enfiar os pés pelas mãos.

Essa noite andarei bem perto, frequentarei esquinas e sombras, encostarei testa com testa e desfrutarei a mão na minha nuca, nos ombros, nas costas. Serei abraços. Essa noite ouvirei o rouco junto ao meu ouvido e me embalarei no som da ânsia, afastarei tecidos pra que minha pele seja percurso e facilitarei os atalhos. Essa noite encostarei no muro, levantarei a saia e, pra aproveitar melhor a brisa, vou entreabrir as coxas. Essa noite vou provar pele, morder lábios, beber saliva. Essa noite abrirei camisas, enrolarei meu mindinho em pelos ásperos e meu nariz deslizará em cócegas e minha língua o seguirá, curiosa. Essa noite vou assoprar olhos, mordiscar orelhas, lamber pescoços, murmurar desejos. Vou roçar o queixo em ombros e rir baixinho, vez ou outra, só pra confundir.

Essa noite vou ser em verbos: abrir, roçar, esfregar, molhar, morder, agarrar, mexer, mover, saborear. Descobrir. Essa noite serei em voz passiva: alisada, abraçada, sugada, tocada, beijada, perturbada, excitada.

Essa noite eu vou.

Ele só está interessado no seu corpo

Por Nkyad Sobakovitch*, Biscate Convidado

Sim, eu só te quero pelo seu corpo. Noites em seu corpo e mais nada. Noites inteiras sem dormir, navegando em seu corpo, naufragando em seu corpo. Noites espaçadas, sim. Intercaladas pelo tempo exausto de dormir, pelo tempo faminto de comer, pelo tempo miserável de trabalhar longe do seu corpo. Que é só pelo que eu te quero.

Sim, só quero seu corpo. Mas nas manhãs também. Para depois das noites do seu corpo, despertar com seu corpo, sob seu corpo, dentro do seu corpo. Manhãs que terão café e torradas e suco e bananas, que alimentem seu corpo para que ele seja meu de novo. Café e torradas e suco e bananas levados na cama, para que você sequer pense em ir e levar seu corpo para longe de mim. Pois o que eu quero é só seu corpo.

Sim, levarei seu corpo ao cinema, para ter seu corpo depois. E ao teatro e a festas e ao shopping e à praia. Levarei seu corpo ao médico, ao dentista, ao hospital se ele precisar. Levarei teu corpo a todos os lugares que ele queira ir, a alguns lugares que ele não queira ir mas precise, levarei seu corpo comigo. Pois é só seu corpo que me interessa.

 Sim, só quero seu corpo, e ficarei em silêncio obsequioso quando você quiser ir trabalhar, ver seus amigos, visitar sua família. Ou irei junto para ter seu corpo perto do meu enquanto você satisfaz essas estranhas vontades de outras gentes. E serei polido, divertido, educado e solícito com essas outras gentes, para que você fique feliz e eu continue tendo o seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, só quero você pelo seu corpo, mas entenderei se você às vezes quiser outro corpo que não é o meu. Esse seu corpo que eu quero, afinal, é seu, e eu esperarei que a cada dia ele volte para mim, tendo feito o que quer que seu corpo faça quando não está comigo. Pois se eu só quero seu corpo, entendo que às vezes você queira outro corpo que não o meu. Claro que vou brigar, emburrar, chorar e me lamentar pelos cantos enquanto seu corpo não estiver aqui, mas entenderei. Porque só quero seu corpo, e quando ele voltar imediatamente esquecerei que ele se foi um dia.

Sim, eu só quero seu corpo e quero ele morando junto ao meu. Para facilitar as noites, favorecer as tardes, aproveitar as manhãs dentro dele. E teremos alguma casa onde seu corpo caiba, com móveis que seu corpo goste, janelas por onde o sol buscará seu corpo e um jardim com flores para enfeitar seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, quero seu corpo e continuarei querendo seu corpo depois dos inevitáveis filhos, que criarei a contragosto para ter seu corpo, das inevitáveis tragédias, que enfrentarei para depois me consolar no seu corpo, dos inevitáveis anos que envelhecerão nossos corpos. Que serão mais velhos, mais gordos, mais fracos. Mas ainda serão nossos corpos e o seu corpo ainda será só o que eu quero.

Sim, eu ouvirei seus medos, dividirei nossas alegrias e tristezas, verei filmes românticos, assistirei peças experimentais, escutarei música francesa, irei a Paris, ao Cairo e a Roma, me farei amado por seus pais, criarei seus filhos e serei amigo dos seus irmãos ou vice-versa. Serei forte, fraco, gentil, brutal, carinhoso e distante, serei o que você quiser que eu seja, farei o que precisar fazer para ter o seu corpo, todo o seu corpo, o tempo todo.

Porque, você sabe, eu nunca menti, eu só te quero pelo seu corpo.

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Um das críticas mais superestimadas (em geral só) ao moço da outra (e nunca à moça do outro – com essa o mundo é mais cruel), “ele só está interessado no seu corpo”. Porque, né, ele precisa estar interessado no seu intelecto, nas suas emoções profundas, nos seus planos de vida, no seu gato, na sua réplica de Matisse na saleta de chá, na sua coleção de encadernada de Vogue dos anos 50, nos seus livros de filosofia, psicologia, engenharia e culinária.

Senão ele não vale a pena, pois vai apenas te usar para sexo e te abandonar na beira da estrada deserta dos one-night-stands. Ou pior, Deus me perdoe, você vai usá-lo para sexo e depois abandoná-lo na esquina escura dos casos rápidos.

Como se sexo casual não fosse sexo, ainda que casual, se alguém ainda acredita no acaso. E como se a Terceira Lei do Newton Biscate não se aplicasse sempre: “A toda trepada corresponde uma trepada de igual intensidade no corpo contrário”.

E além disso, como ele vai conhecer seu Matisse avec Earl Grey, saber de seu plano de visitar Cimmeria, adivinhar que Wittgenstein seu gato é um rematado canalha, entender do seu medo de cair da cama em trens, ler sua tese de doutorado, se agora é seu corpo que ele quer, e é o corpo dele que você quer, e esses corpos não se encontrarem porque “não tem futuro”?

Deixa eu te dizer, nada tem futuro. Porque tem aquela curiosa propriedade do futuro, sua inexistência. Aliás, existe lá um futuro, mas ele tem só um ou dois tons de cinza: decadência e entropia, entropia e decadência.

Esse futuro do qual a gente fala é só uma construção mental que tem lá umas serventias. Serve para a gente não atravessar a rua quando vem um carro, porque no futuro, daqui uns 7 segundos, ele vai estar justamente onde a gente quer passar. Serve para a gente não gastar todo o nosso dinheiro em livros, porque sabemos que no futuro, semana que vem, temos que pagar as contas de luz, água, telefone. Serve para a gente ir fazer faculdade disso ou daquilo, porque achamos que no futuro, daqui uns anos, seremos felizes fazendo isso ou aquilo. Mas nada garante que o carro não vai nos atropelar na calçada, que aqueles livros não teriam sido essenciais para a gente conseguir entrar naquela faculdade, que daqui a dez anos não seremos os cirurgiões plásticos ou CEOs mais infelizes da face da Terra.

E o futuro dos corpos nunca é assim fácil de ver. O que parece só corpo pode ser só corpo mesmo e se o sexo foi bom, para que reclamar? Pior, porque não ir, gozar e voltar? E quem sabe para onde vão esses corpos, quem pode dizer?

Porque além do Newton Biscate tem também a Mecânica Quântica Biscate: o resultado da colisão de dois corpos é sempre imprevisível. Ou devia ser – se você sabe tudo do outro, entende tudo do outro, prevê tudo do outro, pode acreditar, alguma coisa você não sabe, não entende, não está vendo e não vai prever. Porque os corpos são coisas vivas, quentes, úmidas e muito, muito pouco confiáveis. Dificilmente você sabe para onde vai o corpo do outro. Admita, você mal sabe para onde vai o seu corpo.

E o desejo de um corpo posto no outro, e o desejo do outro posto no um, causam entrelaçamentos complexos, impossíveis de medir à distância. Podem durar dez minutos, dez horas, dez dias ou dez anos, esses enlaces. Mas você só vai saber a duração se for lá medir e aí vai ser tarde demais para saber a velocidade da colisão, e mais tarde demais ainda para evitar o impacto.

E é assim que que as pessoas acabam atropeladas por uma paixão que nem viram da onde vinha, estiradas nuas numa cama estranha, exaustas, perdidas, quebradas, extasiadas, confusas, em pânico. Porque era só um beijo…

corpo

*Nkyad Sobakovitch, poeta russo exilado em São Paulo, amante fiel da vodka com ou sem suco de laranja, amante infiel das mulheres com ou sem vodka. Seu poema épico “São Paulo é a Sibéria da Alma” foi recebido pela crítica paulistana com a mesma indiferença gélida que acolhe toda poesia naquela cidade sem amor.

Desejos, deseja.

O certo é que o máximo seria um “bom dia”. Com alguma sorte conversaríamos sobre o tempo, o sol, a chuva, o inverno. Mas o fato, ah, o fato, era que bastava isso para me molhar, para me fazer sacolejar pernas, sorrir, pensar em luxúrias múltiplas, em pé, deitados, na cama, no chão, no chão da sala, no chão de terra, no lavabo de alguma festa, no escuro de alguma rua, lua, possibilidade, motel barato de quem vai a pé.

 desejos

O que ninguém tem o direito de tentar normatizar é isso. Isso, o desejo. Ele é meio que febre, ela é rouca, também, porque grita alto. É ele e é ela. E como diriam Paula e Bebeto, qualquer forma vale. A maior conquista política da humanidade será está, a de deixarem de normatizarem, regulamentarem, esquadrinharem desejos. Essencialmente os de carne. E osso. Um rebolado mais forte, uma raiz de cabelo preta num cabelo louro, um umbigo a mostra, uma tatuagem de tornozelo, um seio vesgo, uma saudade, uma barba por fazer, uma barba feita, uma vagina depilada, outra peluda, muito, muito peluda. Um pau torto, uma pinta na bunda, uma declaração de amor evidentemente suspeita, uma forma de beijar, um doce e, quem sabe, só aquele jeito de beber água mesmo.

Os muito românticos, mesmo o que se dizem libertários, gostam de afirmar que o sexo é a melhor cousa do mundo. E aí inventam redenções, romances de final feliz, trepadas de cinema.  A melhor cousa do mundo é o desejo. Porque é nele que temos o cheiro, o perfume, o gosto, a forma, o conteúdo todo que nos faz gozar melecas. O desejo, este sim, é o que precede e nele, nele não há parques sem árvores. Se pode morrer de desejos, mas não se pode viver sem eles. Simples e simples assim.

E quem sabe desejos, masturbando ideias, desenhando quadros, construindo roteiros: um pornô com história! Lá vamos nós imaginar as cenas que serão vividas em algum lugar nosso mesmo. Quem sabe até entre aquelas curvas todas, daquele corpo todo. Me arranha. Só mais uma vez.

“Bom dia.”

Da inconveniência de se fazer ouvir

Costumo dizer que nasci comunista, me tornei feminista e me formei jornalista. E o meu jornalismo está a serviço da minha sobrevivência — é preciso — e está a serviço principalmente da comunicação contra-hegemônica e da luta por um mundo melhor. Não tenho nenhuma ilusão de que esse mundo possa ser reformado, será necessário botar esse abaixo e refazê-lo estruturado em outras bases e parâmetros. Tenho em mim indignação suficiente para isso, principalmente para essa primeira tarefa. A construção de um mundo outro, novo, eu sonho seja coletiva, todos aprendendo juntos, com amor e respeito. Ah, as utopias…que me acompanham há muito tempo.

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eu, em 1995

Era primavera de 1995, se não me falha a memória. Eu ainda estava no PT, e tínhamos formado em Pelotas o Coletivo Socialista — que só não era um racha da Democracia Socialista porque essa tinha se desarticulado na cidade, mas todos (com uma ou duas exceções) já tínhamos ‘sido’ DS em algum momento. Esse coletivo, tendência municipal, era radical, excelente e daquele tempo guardo lembranças lindas da militância. Nossas reuniões eram como deveria ser toda reunião de um organismo de esquerda: aprovada a pauta, análise de conjuntura e os demais temas na segunda parte da reunião. Muitas dessas reuniões terminavam em jantares divertidíssimos — sim, troskos se divertem juntos. Mas, nem tudo estava bem. No coletivo, tinha apenas três mulheres que iam em todas as reuniões, pelo menos no início. Eu, Andrea e Sônia. Intervínhamos pouco, e feminismo e questões de gênero nunca eram pauta. E isso começou a me incomodar.

Um dia, conversei com a Andrea e nos articulamos para dizer isso pro CS, para expor que estávamos nos sentindo oprimidas pelo espaço, pela lógica da reunião e por nossa opressão específica nunca estar pautada. Porque espaços com mais homens que mulheres na esquerda inibem/reprimem “naturalmente” as mulheres de falarem, de se exporem. Quem já militou na esquerda sabe como é isso. Escrevemos um texto, fizemos cópia e distribuímos quando pedimos a palavra. Falei. Constrangida. Tremia. Eu, que já tinha feito comício, comandado assembleias de estudantes aos 16 anos, estava insegura de falar diante de pessoas que conhecia e com quem convivia há anos… Como é difícil falar da própria opressão diante do opressor, do ser que ali detém os privilégios e o protagonismo da cena! Foi difícil, mas disse. Dissemos. Abriu a rodada de intervenções sobre o tema e a primeira fala foi de um companheiro (hoje ex, felizmente) com quem militava desde os tempos de movimento secundarista, e que já tinha sido candidato a vereador e falado linda e encantadoramente das demandas das mulheres jovens. Ele pega o nosso texto impresso com um notável desprezo e diz em resumo que estávamos “carregando nas tintas” — nunca vou esquecer — e deu a entender que estávamos perdendo tempo com bobagens enquanto tinha uma luta maior e mais séria a ser enfrentada. Me senti violentada. E, mulher, descompensada e louca, desabei em lágrimas. E eu, que me sentia fraca, frágil quando chorava em público, passei a partir desse dia a respeitar mais minhas lágrimas.

Há uma naturalidade em desconsiderar a opinião e a fala de uma mulher. E os artifícios do discurso da esquerda para desestabilizar, desconstruir, desacreditar, desqualificar uma fala, principalmente quando é uma crítica, são sórdidos, mas eficazes. A gente mesma passa a duvidar do que está dizendo ou da importância de dizer aquilo naquele momento. “Será que era mesmo tão importante?”

Na madrugada de sábado revendo A Troca, um filme excelente do Clint Eastwood (qual não é?), me deparei e choquei de novo com a cena da personagem da Angelina Jolie com outra paciente no hospício em que falavam sobre a credibilidade da mulher ante um policial. Assistam:

Carol Dexter (Amy Ryan), 2:41:
“Todo mundo sabe que as mulheres são frágeis. Quero dizer, elas são instáveis emocionalmente, não são lógicas, (…). Sendo loucas, ninguém terá que nos ouvir. Quero dizer, em quem vão acreditar, numa mulher louca tentando destruir a integridade da corporação, ou num policial?” (tradução livre, minha)

Nesse final de semana, entre algumas conversas e essa cena do filme, me veio a dor daquela reunião do Coletivo Socialista lá de 1995, direto do túnel do tempo para o amargo na minha boca, só para me lembrar que nenhuma das bandeiras do feminismo foram superadas. Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai teriam ainda mais trabalho com essa esquerda muÓderna de agora.

PRESTENÇÃO, PESSOAS! Quando uma mulher (ou outra minoria) falar de si num espaço político ela não está apenas falando, ela está rasgando o papel que lhe foi designado, está rompendo com suas amarras e com o status quo. Mais respeito, porque esse é um movimento político da maior importância: é um oprimido enfrentando sua opressão.

E da minha libertação me encarrego eu.

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A Outra Pessoa

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Hoje, por uma triste coincidência do destino, uma amiga me procurou no inbox do facebook para pedir ajuda. Não, ela não queria saber sobre movimentos políticos nem tão pouco entender de direitos humanos. Ela queria ajuda para montar um plano de vingança contra a “vadia” que está com o ex dela. =(

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A primeira coisa que me passou na minha cabeça foi que essa amiga não lê quase nada do que posto. Eu, que fui durante três longos anos uma das articuladoras da Marcha das Vadias BH. Eu, que sou bisca convidada de quando em vez nesse cantinho delícia aqui. Eu, que falo quase que diariamente sobre o não julgamento da mulher e do direito ao próprio corpo. Eu, que sou uma vadia-bisca-militante com muito orgulho, com muito amor!

(pausa para um suspiro de tristeza)

Agora senta aí, pega o café que lá vem história.

Quando eu tinha 14 anos (óia a foto abaixo pra verem como eu era fofa), me apaixonei platonicamente por um cantor de uma banda de MPB que tocava em um bar perto da minha casa (eu e provavelmente 90% das meninas nessa idade fazem algo parecido). Nunca cheguei perto dele, bastava sentar em frente ao palco e imaginar que a música que ele tocava era pra mim: ”Menina do anel de lua e estrela….” <3

eu14anos

Um belo dia o vejo abraçado com uma mulher. E, de boca aberta, finalmente noto a aliança no dedo direito. Foi um choque de realidade que, claro, para uma sentimental como eu, me deixou chorando uma semana. Nunca mais quis voltar naquele bar. Mas nunca esqueci seu nome. Seu rosto. E a nova mania de olhar para a mão de todos aqueles prováveis candidatos a serem meu primeiro amor.

Depois disso, sabe-se lá a razão, passei anos na minha vida encontrando apenas homens comprometidos. Namorados, noivos, casados, enrolados. Fugia de todos, afinal, mulher direita não faz isso, né?

Com dezoito anos de idade, ainda sem ter tido um namorado fixo na minha vida que passasse dos dois meses de convivência, conheci meu primeiro amor. Pelo menos o primeiro não platônico! \o/

Cantor também. Dessa vez, música sertaneja e não MPB (me julguem). No dia que nos conhecemos estava na casa de shows com mãe, tia, irmã e todas torcendo pela nova paixonite. Nos conhecemos, dançamos, beijamos… e ele me convidou para voltar na próxima semana.

“É o amooooor!” (Su, aká o brega na vida real!)

Na próxima semana lá estava eu, CLARO. E, quando atrevidamente perguntei se ele queria namorar comigo (já estava impaciente com essa história de que ele que tinha que pedir, coisas de Adriana), ele disse que gostaria muito, mas não poderia, pois era casado.

Mais uma semana chorando. Mais uma semana pensando em como a vida era cruel comigo. Mas, dessa vez, resolvi ligar um foda-se bem dado pra o meu próprio moralismo e seguir em frente com aquela história maluca.

Não vou dar detalhes dessa página da minha vida, mas só dizer que foi com ele que transei pela primeira vez. Foi pra ele que falei eu te amo pela primeira vez, mesmo sem ter a certeza se amava realmente. E foi com ele que me senti pela primeira vez namorando. Como nos contos de fada (bem, um pouco mais apimentado que nos contos de fada, mais para alguma história de Júlia ou Sabrina). E teimava solenemente em ignorar que ele tinha outra história, outra vida, outro caminho.

Terminou um ano depois. Com uma separação, uma ameaça de suicídio por parte da mulher, uma família inteira se metendo no meio e eu – a vadia, a puta, a destruidora de lares, com apenas 19 anos de idade catei meus caquinhos e saí (não tão) de fininho dessa confusão.

eu19anos

Foram anos e anos para esquecer. Mas anos divertidos, onde me envolvi com homens  casados, solteiros, viúvos, enrolados, até com dúvidas sobre seu próprio gênero… muitos casos, muitas gargalhadas, muitas bocas pra beijar e para fugir, algumas decepções. Faz parte.

Quando, com 35 anos, joguei fora a última regra que eu ainda insistia em manter – não me relacionar com homens mais novos (não me pergunte de onde surgiu essa regra, eu era a Adriana cheia de regras e nem saberei dizer a origem de cada uma) e comecei a namorar um rapaz 13 anos mais novo do que eu, me libertei completamente das crenças que permeavam a minha adolescência de como deveria ser uma relação ideal, com o homem ideal.

E foi tão difícil quanto, ao ponto de uma tia, que sempre me dizia que rezava para eu encontrar um “homem cristão” (nunca questionei pra ela o que seria afinal um homem cristão, preguiça) passou a dizer que estava rezando para eu encontrar um com mais de quarenta e mais nada. o.O

Quando comecei a sair com meu atual marido, ele tinha acabado de se separar e isso para mim nada significava. Mas significou para a ex dele, que passou a acusá-lo de tê-la traído comigo e claro, me tornei a vadia mor (como se tivesse deixado de ser em algum momento da minha vida) e o que é pior, isso contaminou a relação dele e minha com as filhas, que até hoje não admitem frequentar nossa casa por me verem como aquela que destruiu a família deles.

Eu não me importo com o que pensam, acredito que larguei isso lá atrás, aos dezenove anos, quando escutei pela primeira vez esse apelido – destruidora de lares. Me importa sim, ver o relacionamento pai e filhas, irmão e irmãs, abalado por uma inverdade,  um machismo ululante que ainda permeia o pensamento de muitas e muitos.

Um relacionamento não acaba porque outra pessoa surgiu no caminho. Um relacionamento acaba por falta de amor. Por falta de tesão. Por falta de cumplicidade e de vontade de continuar junto.

O fim não é o sexo com x outrx. O fim é o não querer mais nada com x atual!

Relacionamentos monogâmicos são um acordo entre as partes envolvidas, não com o mundo ao redor.  Se amanhã meu atual companheiro resolver procurar outra pessoa, em que pese termos acordado que a nossa relação seria monogâmica, jamais julgarei a outra. E, principalmente, não posso e não quero definir o caráter dela por sua vida sexual.

Meu acordo era com ele. E, se ele quebrou o pacto, digamos assim, é porque algo ENTRE NÓS já não está dando tão certo. Ou porque ele fez um acordo que não queria/podia cumprir – e aí teremos a chance de rever se é isso mesmo que queremos, sem falsos moralismos e hipocrisia, repensando essa história da posse incentivada pelo sistema patriarcal, ou então mergulharmos em nós mesmos para vermos se o fim aconteceu e não nos demos conta.

Não vou aqui me adentrar nas diversas pesquisas de “o que levam pessoas a trair”, nos estudos científicos sobre os “genes da traição” ou mesmo na questão das relações abertas.

Também não vim para roubar, para matar, vim aqui só pra dizer que pactos de fidelidade são quebrados diariamente e não existem vítimas ou culpados. Existem responsabilidades. Existe desejo, algumas vezes frustração, algumas vezes só curiosidade, outras vezes um bocado de tédio no dia a dia; mas em todas as vezes existe uma outra pessoa, à procura de sexo, de amor, de um pouco de alegria ou apenas para passar o tempo. E que não tem nada a ver com a sua história.

A outra pessoa é apenas a outra pessoa.

Fim.

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Depois a gente vê

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Pediram-lhe palavras. Há algum tempo já, ela só tem usado as roubadas, de poemas e canções. Debruça-se sobre as palavras alheias, que a traduzem tão bem que ela se comove de se ver ali, desnuda e descrita. Sempre achou que empunhava as palavras tão magistralmente e hoje elas lhe faltam. Ou sobram. Nunca na medida. Como o que ela sente, também tão desmedido. Tão desafiador, desestruturador de tudo o que ela sempre pensou ser, que viveu até aqui, que acreditou.

 Ele faz doerem nela dores que ela nem sabia que existiam. E a faz gozar prazeres de que  tampouco desconfiava. Perfurantes. Ele confronta suas teorias sobre amor e liberdade, testa seus limites, grava no seu corpo e na sua memória as sensações mais extasiantes, enquanto crava nela o ferrão da dúvida, os dentes do ciúme, as unhas da inquietação. Fugidio, esquivo, tantalizante. Ela? Experimenta, permite-se, tenta, testa. Alonga. Paga pra ver.

 Já partiu, já voltou, chora muito, ri outro tanto, pensa demais. Tudo demais. Cores, dores, luzes, faltas, explosões, desejos. Esperas. Essa coisa de pensar sobre o tempo. Muito cedo, tarde demais, intervalos, ocasiões, agora, nunca, sempre, velocidade, duração, logo, quando, tempos paralelos, tempos comprimidos, tempo. E espaços. Frestas. Onde. Como.

 …..

Os olhos escuros que ficam quase cor de âmbar no amor.  Ela poderia ir morar naqueles olhos para sempre. Reduzida à carne sob as unhas, escondida nos sulcos da pele, no meio dos pelos, entranhada no suor dele, no sêmen, no gosto doce e úmido da boca.

 …..

Uma coisa é saber da falta e da angústia, mas viver todo o tempo diante da face crua dessa falta, na ausência de ar e no espanto desse buraco que nos constitui, também pode ser sintoma. Por isso, a gente cria uns véus, lança umas rendas diáfanas diante da realidade, usa uns filtros no enquadramento, para adoçar arestas, permitir caminhos.

 Entretanto. O caminho que ela percorre é escuro, instável. A cada passo, a incerteza. Cair no vazio ou criar, no próprio ato do passo, outro pedaço da estrada? Estrada que ela nem sabe se existe, ou onde vai dar. Claro que não existe. Nenhuma estrada existe a priori. Mas a gente às vezes inventa, projeta, imagina – lança os tais véus – e isso é muito reconfortante. Fazer planos, sonhar, construir futuros. Ainda que só de brincadeira, ainda que sabendo da ilusão. Adora um amor inventado.

Por um tempo viveu um amor assim, que prometia ser absoluto, completo. Foi tão bom acreditar. E tão sufocante manter. Hoje, experimenta a exacerbação da transitoriedade. De um lado, a ilusão de completude, da entrega que cobra, impiedosa, o preço da liberdade; de outro, o desconforto da impermanência, permanentemente desfraldada diante de si como um desamparo. No meio, ela. Um tanto atordoada. Que já não sabe o que deseja. Ou sabe só o que deseja, sem lógica ou juízo. O corpo dele no seu, as mãos, a boca, as pernas, os olhos. Os olhos dele nos seus, o fogo, o riso, a dor, a promessa muda e incompleta. Só hoje, só mais um dia, só até o próximo encontro. Depois a gente vê o que faz.

 

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