Vale o Escrito, com Fal Azevedo

Fal Vitiello Azevedo é escritora, tradutora, preparadora de originais, blogueira, autora dos livros “Crônicas de Quase Amor”, “O Nome da Cousa” e “Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite”. Fal também é professora e está promovendo uma nova edição da oficina de escrita criativa “Vale o Escrito”, em que tratará de técnicas de escrita, literatura, blogs, sangue, suor e lágrimas na organização de textos.  A gente já fez e recomenda demais.

Fal escreve desde 2002 o Drops da Fal e, atualmente, tem uma coluna no Oba Gastronomia. De escrita cativante, sem reserva, dada, danada e, esperamos, das que se agrada de andar seminua, convidamos para um papo com o Biscate.

1655360_10203295263890965_1343090165_o

Luciana e Renata, tirando uma casquinha da Fal

1. Como o “escrever” aconteceu na sua vida? E como se tornou sua atividade profissional? Atualmente você separa escrita amadora e profissional na sua produção?

Venho de uma família que lida muito bem com a palavra e muito mal com emoção. Somos assim, todos nós. E, de forma geral, sempre foi também uma forma de ordenar meus pensamentos. Além disso, e acima de tudo isso, aprendi a escrever para ser amada. Aprendi bem cedo que muito pouco ou quase nada do que eu fazia rendia elogios e abraços. Lá em casa, digo. E minhas redações geravam abraços e tapinhas na cabeça. Escrevo, basicamente, para você gostar de mim. Acho que nunca nos livramos da casa do pai.

Em 1998, reuni meia dúzia de crônicas num livro cuja publicação meu pai bancou. Como não poderia deixar de ser, foi um encalhe monumental. Algum tempo depois, descobri os blogs. Fiz um. E descobri que tem leitor para todo mundo, é só procurar, trabalhar bastante e não ser chato. A parte do “não ser chato” ainda estou tentando. Achei meus leitores, continuei a escrever. Parei. Voltei. Parei. Voltei.

Não tenho escrita profissional e amadora, não, só tenho a minha escrita e toda ela é uma coisa só.

O que aprendi é que texto é vaca. Escrita é boi. Tudo, mas tudo mesmo, se aproveita.

Aquela lista que você escreveu em 1983, vira uma coluna, vinte anos depois. E-mails viram contos. Aquela historieta que você começou a bolar sem saber para onde ia, vira livro. Outra coisiquita, post no blog. Tudo se recicla, tudo se aproveita.

Quando você tem paixonite antiga por algum escritor, como eu tenho pelo [Luis Fernando] Verissimo e pela [Erma] Bombeck, esse processo fica mais claro: é só xeretar na obra deles que você vê. O velho reescreve a mesma crônica um monte de vezes. Rouba de si mesmo o mote, o tema, as expressões, uma ou outra situação. A Bombeck a mesma coisa. Então, tudo se aproveita.

Não separo nada, escrevo muito, escrevo tudo, escrevo, escrevo, reescrevo, digito só para imprimir e rabiscar de novo, e sigo nesse processo, garimpando aqui e ali, refazendo, cortando, explicando, refazendo, refazendo.

2. Quais as fronteiras entre ficção e não-ficção na literatura, pra você?

Não existem. Caiu no papel é ficção. O Verissimo diz “não existe a verdade, existe a versão que colou”. Tudo é versão, todo o contar é subjetivo. Suas influencias, seus gostares, seus preconceitos, sua leitura do mundo, permeiam tudo o que você diz, conta, vê, come, escreve, entende, deseja. Você mesmo é todinho uma versão, uma invenção, uma montagem completa e irreversivelmente subjetiva.

Precisamos lidar com essa falta de limite da ficção com a realidade da melhor maneira possível, porque ela sempre vai existir.

3. O que você acha importante dizer pra alguém que está começando a escrever?

Que escrever é trabalho pesado. Diário. Duro. Não existe texto pronto, não existe “eu estava ali e pá, o texto saiu pronto” e mesmo inspiração, se é que existe, é coisa rara e difícil. Uma obra não se constrói na base da inspiração. Você precisa de horas de voo, muitas, muitas mesmo.

Depois: há que se estabelecer um método. Tem quem ria de mim e das minhas listas, mas vou dizer: se organização não for tudo, é quase.

Método, rotina, uma ordem a ser seguida, trabalho, trabalho. Fechar rede social, e-mail, parar com essa palhaçada de ficar no Facebook falando coisas imbecis do tipo “enquanto me preparo para começar o capítulo 1 da minha obra, observo e o luar e…”. Mano, vai se catar. Para com isso. Vai trabalhar. A Palestina, os índios, o Congresso, a eleição, todas causas meritórias e tal, parabéns, mas nada, nada, nada disso vai botar seu livro em pé, desculpe. Vai trabalhar. O Freixo não vai escrever seu livro por você.

O cara que escreve precisa, quer e deve ser lido. Sim, sim. Quem escreve “para expressar seu rico mundo exterior e não para ser lido pelo outros” é favor fazer isso no caderninho de capa florida que fica escondido debaixo do colchão.

O escritor dá a cara a tapa, precisa estar preparado para o tapa. Que virá. Ele vai ser avaliado, vai ser julgado. Nesse país que ninguém lê porra nenhuma, todo mundo é crítico literário, é impressionante.

O olhar dos outros é importante, é para recebê-lo que você escreve. Então, há que se buscar o equilíbrio entre valorizar o olhar alheio e não deixar que ele domine a sua vida. O dia que você diz “não posso escrever isso porque a minha cunhada vai achar que é pra ela”, “porque a minha mãe vai ficar sentida”, amigo, larga tudo.

Escrever é aprender a se dividir entre se importar com a aprovação alheia e andar todo mundo pro diabo. Você tem de querer o olhar do outro e, ao mesmo tempo, não permitir que ele determine seus passos.

4. Você acha que ser tradutora ajuda ou atrapalha seu ofício de escritora?

Ajuda, sempre. Traduzir constantemente cria uma intimidade com as palavras que só aumenta, e isso é maravilhoso. Libertador. Eu adoro ser tradutora.

5. O que é que você acha mais difícil na hora de escrever?

Estabelecer o tema, encontrar o narrador. Encontrar o narrador ocupa meus dias. Narrador, esse cara fugidio, difícil, malvado, inconstante.

6. Como surgiu a ideia da oficina? Quem é o público-alvo? Qual a contribuição que você supõe para quem não tem a escrita como profissão?

Faço isso há muitos anos. Botar o cara escrevendo, digo. Comecei na década de 1990, ajudando os alunos de um curso de pós em Sexualidade Humana a montarem seus textos, a organizarem os pensares.

O público alvo da oficina é quem quer escrever. Quem deseja pensar melhor e de forma mais organizada. Expressar-se melhor.

Todo mundo precisa escrever melhor. Trabalhando com advogados e engenheiros, afirmo: todo mundo. Organizar o discurso, passar o recado, fazer um registro decente não são habilidades necessárias só para quem tem a escrita como profissão.

É humano registrar e anotar e analisar e entender. O que chamamos de História só começou quando inventamos a escrita. Todo mundo precisa escrever bem.

Ao contrário do que reza o senso comum, acho um baita elitismo relegar a boa escrita aos “profissionais”. A técnica tem de alcançar todo mundo. As pessoas têm o direito de saber que existe uma técnica, de se apropriarem dela. É isso que tento trabalhar nas oficinas.

7. “Madame Bovary sou eu”, disse Flaubert. O que você comentaria sobre estilo? Você acha que tem um? De onde vem o estilo, em sua opinião?

Estilo é prática. Estilo não se inventa: aparece quando você, todo santo dia, senta na frente do computador, do caderno, do bloquinho e escreve. E reescreve. E tenta outro narrador. E faz exercícios escrevendo o mesmo trecho com sem adjetivos, com e sem verbos no infinitivo, com diversos narradores. Estilo é o que se sobressai, depois de muita, muita prática.

Faço isso há muito tempo. Ler e escrever. Tenho um estilo. Que vai mudando, sendo alterado, perdendo e ganhando características, mas que está lá. E isso acontece com todo mundo que se dedica.

E importante, o estilo vem, também, da leitura. Acho que nunca vou falar isso o suficiente, você precisa ler. Todo dia. Sempre. Ler, ler.

Leitura e prática diária, atenta, dedicada: o estilo virá daí. Não cai do céu.

8. O imaginário do senso comum geralmente relaciona escrever com inspiração. As pessoas da área geralmente ressaltam a transpiração envolvida. Como acontece na sua produção? Escrever é um trabalho com que especificidades, na sua vivência?

Geralmente frustro quem me procura para obter dicas sobre escrita, porque acho o seguinte: não existe inspiração. Se existe, é uma centelha. É um tico-tico de um segundo, é um brilho no olho. O resto é só trabalho, frustração, leitura em voz alta, chiliques variados, livro de consulta pra todo lado, dicionários. Escrever é eito. Não é bonito. Não é um processo suave, você ali, de cabelo assentado, bebendo coquetéis e fazendo charme.

Esse negócio de “eu tive uma ideia” é lindo, mas uma história não se constrói assim.

Quem fala de transpiração está coberto de razão – e de suor. É isso, e quase que só isso. Zero glamour. Zero gracinha. Zero vibe “poeta maldito”. Zero pose na rede social. Só trabalho. E café.

As particularidades são muitas.

Você precisa de organização, de descobrir como você produz melhor. Precisa descobrir quantas horas por dia ou por semana terá para dedicar ao projeto. Pensar sobre o que você vai escrever, se tem prazo, se tem normas, se você precisa de ajuda com a pesquisa, se seu equipamento é suficiente, se você precisa de ajuda com transcrição ou com tradução.

Desenvolver o trabalho sempre atento ao método, à constância, à qualidade da produção.

E depois do trabalho pronto, especialmente se for um livro: você precisa de uma leitura crítica. Você precisa de preparação de original. E você precisa de revisão. E nenhuma dessas coisas pode ser feita por você. E todas, todas elas precisam de tempo. E de profissionais fazendo, PARA de encher o saco dos seus amigos, cara. Para. Sabe aquele “Dá uma lidinha e me diz…”? Não faz isso com seus amigos. Seus amigos não amam o que você escreve, eles amam você. Seu irmão não dá a mínima pro seu livro e ainda perdeu a cópia com dedicatória amorosa que você deu pra ele. Ninguém da sua família dá a mínima pro que você escreve e seus amigos, juro, têm mais o que fazer. Para de ser chato. Contrata profissionais pra lerem você. Ou faz escambo com seus amigos revisores e preparadores. Nós adoramos escambo.

Revisão, especialmente, é um negócio que precisa de dois, três meses, porque, num mundo ideal, o revisor precisa ler, anotar, refazer, deixar o livro descansar um mês e daí voltar a ele. Na organização que sustenta o mercado editorial brasileiro é impossível, espera-se revisão feita em uma semana. Mas enfim, no seu livro lindo, do seu coração, que não obedece a nenhum prazo arbitrário e sem noção, por favor, reserve meses para que alguma alma dedicada e fofa possa revisar seu trabalho como ele merece. Compensa demais, demais, demais.

Além disso tudo, que é muito importante, tem o seguinte: apesar do trabalho insano e da falta de sono e da frustração e da busca inglória pela palavra exata, escrever precisa ser um movimento no sentido do prazer. Da alegria. Eu me recuso a aceitar esse negócio do “o processo é horrendo, eu gosto é do resultado”. O processo tem que ser delicioso. Cada passo, cada capítulo, cada noite em claro têm de fazer você feliz.

Desejo que você se sinta feliz escrevendo seu livro, sua tese, seu doutorado, sua poesia. Por isso, também, não compro esse papo furado de poeta maldito. Sabe esses caras que dizem que não buscam felicidade, que felicidade não existe, e blablablá? Fuja desses picaretas e vá ser feliz com sua escrita, seu processo, sua narração, suas personagens, com o café frio, as noites em claro, o computador que ferve. Ainda que lá no meio doa e tal, o processo não pode ser baseado em dores d’alma, estilo século XIX. Se não for para ser feliz no meio dessa confusão, melhor jogar paciência. Ou fazer pose na rede social. Dá um ibope danado fazer pose na rede social, aliás. Mas se for pra escrever, mete a cara.

Informações

Vale o Escrito no Rio de Janeiro: Casa Clássica – 26 de novembro de 2016, 13h-18h (inscrições no link)

Vale o Escrito em Sorocaba: Granja Olga – 03 de dezembro de 2016, 14h-18h (inscrições no link)

Sugestões para um agosto mais Biscate

Texto com dicas também de
Renata Lins, Lis Lemos e Raquel Stanick

Um beijo no meio da rua. Papear com a cadeira na calçada. Conversar virando madrugada. Roça-roça no pé do muro. Sexo matinal. Banho de mar sem roupa. Dormir sem roupa. Praticamente qualquer coisa sem roupa. Mandar beijo pra lua cheia. Morder, voraz, uma manga suculenta. Sexo oral. Servir ou sorver uma bebida gelada. Aos golinhos. Lamber sorvete que derrete escorrendo na casquinha. Rir junto. Rir muito. Rir alto. Gargalhar. Postar gif de putaria. Beijar de língua na balada. Enviar nudes desejados. Rapidinha. Entabular conversa despudorada, dada, danada na fila do banco. Dizer sim. Escrever mensagens eróticas. Deixar em guardanapos. Com marquinha de batom. Ver um filme. De preferência, no escurinho do cinema.  Ou no colo de alguém. Masturbação. Masturbação a dois. Passar um café. Fazer um pão. Ou um bolo. Ou uma careta. Suspirar. Tomar banho de chuva. Girar, braços abertos, olhos fechados. Dançar sem música. Mandar mensagem pra os amigos. Aproveitar aquele óleo meio esquecido e fazer uma massagem no seu próprio pé. Ou em qualquer outra parte sua (ou alheia) que rolar. Acolher o inesperado. Divulgar os posts do tumblr do biscatesc. Cantar no chuveiro. Na rua. No pé do ouvido de alguém. Ler O Amante. Ou Hilda Hilst. Fazer um strip tease pra alguém. Que pode ser você mesma. Olhar de lado. Flertar no ônibus. Andar descalça na areia da praia. Ou na grama. Ou no cimento frio. Molhar os pés. Deixar as ondas lamberem a pele. Soltar o cabelo. As asas. A franga. Pintar as unhas, Ou o sete. Fazer uma listinha de música com cara de trepada. Enroscar pés – com meias, caso faça frio. Derrubar forninhos. Fazer uma coisa nova. Fazer o mesmo de sempre que apetece. Provar. Experimentar. Repetir. Dar.

como viver

E as suas sugestões? Coloca aí nos comentários, vai…

Já que o mar não tá pra peixe….

Hoje é dia de falar de centauros, de ninfas, de cavalos alados, de pessoas com os pés virados para trás que protegem a floresta, de meninos de uma perna só de gorro vermelho que fazem travessuras por aí…. é dia de falar de deuses ciumentos, de deuses amorosos, de deuses que cuidam das suas próprias vidas, de deuses que não querem nem saber da gente ou que nos assistem se divertindo como se fôssemos sua novela.

Dia de chapeleiros loucos, de frascos com líquidos que fazem crescer, que fazem diminuir, de gente que se afoga nas próprias lágrimas, de lagartas azuis com narguilés, de coelhos apressados, de rainhas de copas, de rosas brancas pintadas de vermelho.

De rainha das neves, de monstrinhos que quebram espelho de ver distorcido, de pássaros falantes, da menina ladra que ajuda outra menina em busca do seu melhor amigo raptado pela rainha das neves. É dia de trenós e de lapões.

De princesas da ervilha, de ratinhos falantes, de abóboras que viram carruagens, de cavalos que viram cocheiros, de sapatinhos de camurça que passam a ser de cristal por conta de um revisor distraído, de quixotes contra moinhos de vento, de sanchos e suas panças, de tabernas, de odres de vinho, de estalajadeiros, de Aldonza que era Dulcinéia.

De fantasminhas que tinham medo de gente, da menina Maribel com os olhos cor do céu e os cabelos cor de mel, do tio Gerúndio, de pastéis de vento, de rios derramados pelos olhos, de piratas da perna de pau.

De tia Nastácia e seus bolinhos, da Emília que ela fez, do Visconde que ela fez também, das histórias contadas por Dona Benta, de Narizinho, Pedrinho, de viagem ao céu, de viagem à Grécia antiga, de viagens.

É dia de fuga pra fantasia, é dia de morar na fantasia, é dia de criar uma nova realidade inventada, de se mudar de mala e cuia pra essa nova realidade, de fazer ninho, de dormir na nuvem como um cobertor, de escorregar nos anéis de saturno, de fazer guirlandas de estrelas e dançar como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se só houvesse a dança, as guirlandas, as estrelas.

Hoje é sexta-feira, dia de respiro, de Oxalá e de cabelo ao vento e a semana que vem a gente não sabe o que trará. Vamos fugir desse lugar, beibe. Uma banda de maçã, outra banda de reggae. Os desenhos da Mariana Massarani que nos acolhem.

Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, seu rei mandou dizer que contasse mais quatro.

ilustração daqui.

Trilha Sonora Para…

musica-sexoMúsica pro vuco-vuco, pro rala e rola, pra vem minha nega, pra pode vir quente que eu estou fervendo, quem tem? Essa foi a pergunta que fizemos pras leitoras e leitores do nosso clubinho e que rendeu uma lista incrível.

Tem aquelas músicas que só de ouvir dá aquele comichão por dentro, né? Trilha sonora pro roça-coxa, pro esfrega-sfrega, pro roça-roça, pra chamegar. Música que ajuda no arrepio da pele, no umedecer e esquentar das partes.

Algumas vezes é uma canção que lembra um alguém ou um encontro específico. Outras invocam a imaginação, provocam os desejos adormecidos e aí… ah, não tem jeito. Tem música que lembra sexo, simula sexo, dá vontade de fazer sexo.

A gente pensa em striptease, devagarzinho tirar a roupa e chutar os pudores? Pois tem Joe Cocker pra apimentar a brincadeira….

 

Ah, o lance é o comecinho, acender o fogo, preliminar divertida, sexy, sensual? Toca Rihanna:

 

Prefere algo menos pop, AC/DC cai como uma luva:

E nós não fugimos do clichê, nós abraçamos o clichê, colocamos o clchê na roda e o celebramos. Ainda mais essas que parecem perfeitas na composição de qualquer cenário… Mesmo quem não sabe francês, já imagina o que Serge Gainsbourg e Jane Birkin estavam fazendo aqui:

 

E pra mostrar como o clichê pode ser uma delícia, chega mais com Bruce Springsteen

 

E a música brasileira também dá (opa) sua contribuição para engrossar o caldo das musiquinhas que pedem pele na pele, língua na pele, língua na língua e volúpias mil. Como não pensar em Cavalgada, de Roberto Carlos, na voz maravilhosa da rainha Bethânia?

 

Ainda com Bethânia, é só tocar que acende tudo, que deixa tudo morno e pronto, hein:

E se alguém está pensando que só tem coisa antiga nessa vibe, olha aí, somos um clube antenado com as novidades musicais e coroamos essa playlist biscate com essa delícia chamada Johnny Hooker:

 

Não vai tirar a roupa hoje a noite, não tem namorado, flerte, encontro inesperado, tinder dando sopa? Faz mal não, pense numa sanfona, pense em Gonzaga, pense em forró, pense em Alceu. Só o clipe já vai provocando uma quentura bem biscate..

 

Convite: ‘Ocupa!’ com show de ‘Isso e as Biscates’

Em sua primeira edição, ‘Ocupa!’ vai além do arco-íris para homenagear essas pessoas que estão determinados a viver de maneira autêntica mesmo que isso signifique viver à margem da sociedade. No Sábado, 28/05/2016, véspera da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (a maior do Brasil e uma das maiores do mundo), receberemos diversos artistas que tem muito a dizer sobre as questões de identidade de gênero, orientação sexual e cidadania LGBT além de contarmos com a presença do CRD – Centro de Referência da Diversidade, uma instituição que trabalha para dar acolhimento e encaminhamento social à população LGBT que está à margem da sociedade normativa e também da sociedade LGBT como um todo (parte da arrecadação será doada ao CRD para que ele possa seguir com esse trabalho de vital importância não apenas para a comunidade LGBT mas para a sociedade em geral)”.

O evento contará com a participação da banda Isso e as Biscates, que aposta na experimentação sonora com repertório selecionado de musicas autorais, releituras de sucessos nacionais e internacionais passando por diversos gêneros e quase sempre fazendo uma mistura “Pout-Porri” inusitada de clássicos do universo Pop. Estão em seus repertório desde Nina Simone a Valeska Popozuda, criando assim questionamentos sobre ideias e comportamentos normativos também no meio musical, além da sociedade. O vocalista Robson usa de seu corpo político para energizar as apresentações com muito humor de protesto e um performance dançante e andrógena caracterizada pela mescla de vestuários “femininos” e “masculinos” e criando uma estética provocadora. O show da banda está previsto para as 16h.

13288863_560993950741350_447027782_n

Mais informações sobre o evento, aqui: https://www.facebook.com/events/1711740639107529/

Curta a página do Isso e as Biscates: https://www.facebook.com/issoeasbiscates/?fref=ts

O test drive do coelhinho do prazer

Já que tão fudendo a gente todo dia, já que a cada dia a gente acorda e tem um 7 x1 diferente pela frente, que tal fuder da forma gostosa de verdade? Que tal fazer um 5 x 1? (desculpem, piada horrível, num resisti) .

Mas como fazer isso se: tô cansada, solteira, o bofe ou a gata mora longe, estou com a mão engessada, a cara metade tá fazendo doutorado? (sei lá, mil questões)  Seus problemas se acabaram-se! (ao fundo toca a musiquinha das organizações da tabajara)

Amiga-companheira-feminista que curte um sexozinho ilícito, se jogue no maravilhoso mundo dos sex toys. Ah, mas eu tenho vergonha, ah mas se eu comprar pela internet o porteiro vai ver, ah mas o marido/parceiro/boy/gata/peguete/etc não vai gostar, vai achar que estou substituindo ele/ela, mais outros trocentos argumentos baseados no desconhecimento, medo, vergonha e temperados no preconceito.

Amadas amigas-amantes-biscates, em primeiro lugar a gente tem menos orgasmos e menos prazer quanto menos se conhece. Para isso a gente deve explorar nossos pontos, nosso ritmo e nossas imaginação. Dedos, mãos e sim, por que não, brinquedinhos. Claro, dedos e mãos são imprescindíveis. Acho incrível como se fala pouco de masturbação feminina quando é sabido que nosso orgasmo é muito mais clitoriano que vaginal (sobre isso indico esse post ótimo) . E para isso além, óbvio dos dedos, a gente pode usar os deliciosos vibradores clitorianos.

Em segundo lugar as sex shops podem parecer lugares amedrontadores com umas parafernálias esquisitas. Então chame uma amiga ou um grupo ou vá ou ainda compre on line. Eu já comprei, mais de uma vez, juro que o porteiro não vai saber o que está chegando, a embalagem é comum, de entrega e não há logomarca de identificação etc. Ademais, se o problema é vergonha, sozinha em casa na internet a gente pode fuçar mais, né?

Em terceiro lugar: sex toy não é substituto pra nada, é só um outro tipo de sexo. Tem tantos… Ah e não, não vicia, não faz mal, não dá doenças e tal. É delícia. Mas, e então?

Antes, parêntesis: vou esclarecer que esse blog não é um blog patrocinado e eu não sou a Pugliesi do sexo. Mas, sim, vou indicar algumas coisas. E, bom, pra indicar a gente faz test drive, né? Se o pessoal faz test drive de carro por que não fazer de sex toy?

O fantástico mundo dos sex toys vai bem além dos dildos (ou pênis, prefiro dildos, já que pênis é só o de verdade e só conheço alguém que tinha um na caixa:  Perpétua da novela Tieta  e óleos. Atualmente os materiais são bem mais duráveis, mais fáceis de limpar, alguns têm bateria recarregável (adeus pilhas, o bolso agradece, a natureza também #sexosustentável #marinasilvaaprova) e tem design e cores que são um charme.

Sua mãe, a faxineira (a minha perguntou se era brinquedinho dos gatos <3), a vizinha frutriqueira, a cunhada até vão ver na sua mesinha de cabeceira e pensar que, sei lá, é um despertador, um timer e você aderiu à técnica pomodoro. Tudo bem diferente de quando comecei a frequentar sex shops (uns 18 anos atrás), quando os dildos eram de um plástico horroroso.

coelho 2

Daí que como o orgasmo mais delícia é o clitoriano e adoro um design resolvi fazer um test drive com o produto queridinho do https://fluidlab.com.br/ – o laboratório do prazer – e assim chegou aqui em casa o  coelhinho estimulador (olha que coisa fofa, gente!).

coelho1.1

O fluidlab é uma loja on line com um blog com uma proposta muito diferente dos demais sex shops, a gente percebe de cara no visual mais clean, bonito. É de uma amiga também feminista. O site tem informações sobre sexo, saúde da mulher e uso e conservação do seu brinquedinho. Vale a pena ler os posts, muita informação bacana. Inclusive um ótimo post sobre masturbação .

Vamos ao que interessa né?  Para que comprar vibradores se eu posso fazer isso com a minha mão? Olha, você pode e deve fazer isso com suas mãos e dedos, você tem que conhecer seu ritmo, seu tempo e gozar é uma delícia, mas garanto que, assim como as sensações com cada pessoa que transamos são diferentes, o gozo com um estimulador também é diferente. É outro tipo de delícia, bem como de um estimulador para outro também há diferenças ( como na vida as pirocas são diferentes né, gente,  pode mudar por causa da velocidade do aparelho a maciez do material etc.

Eu tenho 2 vibradores/ dildos que tem estimulador clitorianos acoplados e já os usei sem penetração também. Qual a diferença que achei pro coelhinho? Bom, em primeiro lugar: design. É lindo! Muito fofo e discreto, guardo na gaveta da cômoda. Ademais ele não precisa de pilhas, é recarregável, a bateria dura 2 horas (testei e durou pra eu gozar umas 3 vezes  e não acabou ulalá). O material é de altíssima qualidade. Ele tem 3 velocidades que a gente controla apertando o controle que são os olhinhos do coelho. Mas, olha, de todos os que tenho, achei a velocidade, digamos, mais potente e gostosa. Tenho usado muito para relaxar e dormir. Indico muito, principalmente se a sua cota diária e 10 homens pra sexo ilícito não estiver chegando ao destino (aka sua cama).

Mas vibrador clitoriano é pra usar somente sozinha? Então… resolvi fazer mais um test drive, dessa vez acompanhada ( ui), aproveitando uma viagem curtinha no feriado e… pois bem, o coelhinho foi bem útil. A gente não tem medo dele ser visto no raio-x da bagagem de mão do aeroporto, né? Parece um brinquedinho qualquer. Mas olha, como foi útil o bixim… De bruços e ele embaixo encaixadinho no clitóris foi ótimo! E depois descobrimos novas funções pras orelhas do coelho, pode entrar em alguns lugares e tal, até porque o material dele é fácil de limpar e bastante higiênico.  Ah, enquanto isso… a bateria lá, firme e forte. Duas horas sem sair de cima, ou de baixo, ou de dentro….enfim…  Sim, claro, sex toy não tem limite de uso, cada um faz com o seu o que quiser, a imaginação não tem limites.

Espero ter em breve grana para comprar mais uns sex toys novos. Por enquanto, de olho em bolinhas porque pompoar é tudo de bom ( fica a dica).

 

Uma Dose de Transgressão

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

Não é por que você é puta que precisa se vestir como puta, agir como puta, falar como puta.”

219

De pleno acordo. No entanto, não é por que você é puta que não pode agir como uma, vestir-se como uma, falar como uma, em busca de performar uma respeitabilidade burguesa que em verdade não é conveniente a mulher alguma, menos ainda às putas. O esforço por performar essa respeitabilidade é, no fim das contas, um esforço para manutenção do sistema, um modo de reforçar o estigma.

Eu não preciso usar terninho e sapatos baixos pra provar que sou inteligente, articulada e competente. Não preciso esconder minhas fotos ousadas pra te dizer: no meu corpo só toca quem eu quiser, quando eu quiser. Não preciso esconder que sou uma trabalhadora sexual em lugares ditos respeitáveis por que também eu sou uma pessoa respeitável e conheço os comportamentos adequados para cada espaço.

Dizer que o comprimento das minhas saias é inadequado para a minha idade nada mais é que reforçar o viés machista e etarista de nossa sociedade patriarcal, para a qual mulheres só servem se estão em idade reprodutiva, e só podem exercer sua sensualidade até ali. Etarismo é uma face do machismo seguidamente usado para atacar Cristina Kirchner ( http://www.midiamax.com.br/…/844926-presidente-do-uruguai-d… ) e outras mulheres que ocupam o poder, e nada mais é que um meio de dizer-nos qual é o “nosso lugar”. Mas nós, mulheres, já dizemos há tempos: lugar de mulher é onde ela quiser. E nós, putas, que há tempos já ocupamos mais do que esquinas, reforçamos: o lugar da puta é, sim, onde ela quiser.

Por uma dose de transgressão na vida.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

Por Maíra Nunes*, Biscate Convidada

12417661_1114057758613205_8966112169762748677_n

Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (um pouco de esclarecimento aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.

923276_592588400760146_965108052_n*Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

Vênus em Via Combusta

Não, esse não é um post pra falar de astrologia… tem muito mais gente competente pra isso do que eu… mas é pra pegar o mote de Vênus estar passando pertinho dO SOOOOOOL (você imitou a Alcione mentalmente) com perigo de se queimar.

Paula Rego

Esse post é sobre se queimar! No bom sentido… é sobre aproveitar essa via combusta (ui) e deixar o desejo (Vênus) exposto à irradiação… Sim… esse post é sobre superar medos. Medo de se expor, medo de sentir, medo de ser correspondido no sentir.

Pode parecer até ingênuo, mas o fato de se expor é o mais difícil para se atingir o desejo. A não ser que você seja facinho (e é uma delícia ser facinho), a biscatagi é um convite a ser mais facinho com o próprio desejo. E, principalmente, não ter medo de exercer esse desejo!

Sim, porque se engana quem acha que o desejo é um sentir… O desejo é um exercer… é um fazer circular gestos, intenções, palavras, atrações… O desejo só vale na medida em que ele executa, senão o nome é diferente, é frustração.

Por isso, é bom aproveitar a desculpa de vênus em via combustão par se queimar um pouquinho… Pra soltar o desejo, mesmo que ele seja pego pelo rabo… vai que quem pega no rabo dele, pega bem…

Desvãos e Espaços Baldios

Nossas cidades são cheias de desvãos, de espaços baldios, de territórios públicos para onde são empurrados milhares de pessoas sem rosto e sem nome diante do mundo.  Quem entra naquele espaço torna-se tão invisível quanto um porteiro, um ascensorista, uma doméstica. É o mundo dos sem-teto, dos sacoleiros, das pessoas que dormem em rodoviárias ou salas de espera de hospitais, que lavam e secam a roupa nas fontes das praças. (…) Podem ter desaparecido como a Luísa Porto de Drummond,  como a Anastasia da família do czar, ou simplesmente como alguém que quis deixar para trás um nome sujo na praça, um rosto desprezado por alguém, uma vida que chegou a um beco-sem-saída e o jeito foi pular o Muro.


Esse trecho de um texto do Braulio Tavares sobre pessoas desaparecidas me trouxe à mente um filme de que gosto tanto, tanto. O filme, do Stephen Frears, chama-se “Coisas Belas e Sujas”. Um filme de várias camadas: escolha a sua. A minha, e a que tem a ver com o trecho acima, são os personagens. Personagens de desvãos, invisíveis na cosmopolita Londres e no pequeno hotel onde se passa boa parte da ação do filme.

coisasbelas

Okwe (Chiwetel Ejiofor), um nigeriano ilegal que de dia é motorista de táxi e à noite é recepcionista do hotel, era médico em seu país natal, mas teve que fugir após ser acusado de matar a mulher. Okwe aguenta a jornada dupla à base de estimulantes, e ajuda gente em situação similar à dele a se tratar de doenças inconfessáveis.

Senay (Audrey Tatou) é uma moça turca, muçulmana, que trabalha como camareira no hotel, embora tenha um visto que não lhe permite trabalhar. Ela deixa que Okwe durma em sua casa quando não está, já que não pode ficar sozinha com um homem que não seja seu parente, por motivos religiosos.

Não vou contar a história do filme aqui. O que me interessa é atardar um pouco o olhar sobre esses dois “invisíveis”: Okwe, Senay, que em Londres não têm nada. Não têm legalidade, não têm história, não têm memória. E no entanto têm. Como tanta gente. Tanta gente que vai embora da sua terra natal sem olhar para trás: largando a vida, a história, a pessoa que se é pra tentar sobreviver em outro lugar. Transparente. À margem. À beira. A cada dia.

Ao lado e no limiar da cidade que brilha e reluz, que se agita e palpita, desliza, latejante, a cidade dos invisíveis. Submundos. Túneis. Frestas. Ocos. Esquinas. Corredores de sombra. Tumores. Vulcões.

Stephen Frears, com delicadeza, entreabre esse espaço e, enquanto desenrola sua historia, restitui a Okwe, a Senay, a dignidade perdida por quem não é cidadão de lugar nenhum. Párias desse mundo que exclui tanta gente todo dia. Através de quem os apressados passam, como se não tivessem materialidade. Direito de ser. História, memória. Desiguais. Não-pertencentes. Na ponta dos pés, do coração batendo. Na beira dos lábios, do sotaque estrangeiro. Do olhar de viés. Desacolhidos. Despossuídos. Em carne viva. 

Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

800x455_16

Sextas de Nova: Especial Xô Crise!

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Olá Amiga-Mulher-Enlouquecedora-De-Homens, já estamos há algum tempo sem nos ver, não é mesmo?

As notícias não são boas, nossa amada Revista Nova mudou de nome e agora é Cosmopolitan, enquanto eu e você continuamos na catuaba, lutando pelo macho bezuntado com inhame de todo dia. Porém, nada de tristeza, pois como diz o comercial de produto de limpeza: estamos aqui pra brilhar! Agora juntaram várias revistas com dicas imperdíveis no Portal M de Mulher e podemos dançar na velocidade cinco da sedução.

Oi? Tô aqui super gata, me querendo muito e enlouquecendo meu homem com essa peruca gigante que virou um casaqueto em dias de frio.

Oi? Tô aqui super gata, me querendo muito e enlouquecendo meu homem com essa peruca de carnaval gigante que virou um casaqueto em dias de frio.

Você podia estar assistindo novela turca. Você podia estar cantarolando alguma música de Wesley Safadão. Você podia estar pesquisando a cura para a volta da calça pantalona curta. Porém, sabemos que tudo que você quer é enlouquecer um homem. O problema é que a crise está aí, afetando também o mercado de relacionamentos, fazendo seu PIB sair pela calcinha, inflacionando suas metas fiscais sexuais. Para resolvermos isso, agarro sua mão e indico 5 matérias que vão fazer seus juros subirem pelas paredes:

– 25 verdades que não contamos sobre relacionamentos longos.

Como diz a famosa pensadora contemporânea, Patricia Guedes: “A linguiça tem que ser muito boa para aguentar o porco inteiro”. Após tanto tempo num longo relacionamento é normal ter crises, mas esses são também momentos de oportunidades para pensar no bacon nosso de todo dia. Portanto, vale lembrar que segundo a matéria, calcinha de algodão e camiseta rasgada só depois de uns aninhos de relacionamento. Vai rolar preguiça de transar porque ninguém tá afim de constituir família. Seu humor e seus problemas emocionais infelizmente não serão passíveis de viver eternamente na gaveta da cozinha. Porém, a dica imperdível para manter a chama do amor acesa está bem no começo: 4. Soltar pum de propósito achando que é engraçado…

– 20 verdades que as mulheres casadas escondem das amigas solteiras.

Imagina uma revista feminina que não promova o eterno embate: casadas x solteiras? Mas nem no sonho maluco do Gugu veremos algo do tipo. Tal qual time de futebol, precisamos dessa divisão para expressar toda inveja que temos umas das outras, não é mesmo? Portanto, pegue seu celular e divida todos os seus contatos entre quem colocou o bambolê no dedo ou não, e siga as dicas para levar sua amiga solteira a mais uma comédia romântica que seu gato terá vergonha de ver.

Entre todas as dicas para ser uma amiga muito chata, do tipo que ganhará mute em todas as redes sociais logo que isso for possível, a melhor é: 3. Aproveitamos quando vocês rompem com seus namorados para sentirmos alívio porque, por pior que o casamento às vezes possa ser, pelo menos não estamos mais procurando alguém com quem sair. Um brinde de cosmopolitam às mulheres que preferem ver as outras na pior para se sentir bem. Tim Tim!

15 dicas para apimentar o ato sexual.

Até que enfim chegamos no momento empreendedorismo com Kama Sutra no Sebrae. Pule o papinho de que o segredo do orgasmo feminino é focar na mente ou que um bom desempenho sexual requer autoconhecimento, vá para o final da apostila e foque nessas duas dicas bem descritivas: 9. Esprema o pênis dele com as paredes da vagina por longos períodos. É infalível para intensificar o prazer masculino. E o feminino também. 12. O sexo oral precisa de técnica para ser executado. Segure o pênis de modo firme. Depois morda delicadamente as laterais. Beije, dê lambidas, faça movimentos de sobe e desce e simule que o engole. Esses são os segredos da perfeição. Realize os movimentos devagar e observe as reações dele. Depois é só jogar tudo na panela com óleo de coco, ferver por meia hora e servir com um purê de mandioquinha. Se você fazia sexo oral com outra receita antes, sinto informar que essa talvez não leve leite.

25 Dicas para fazer qualquer homem delirar na cama.

QUALQUER HOMEM! Eu disse: qualquer homem! A gerente ficou maluca: QUALQUER HOMEM! Se seu homem ainda não está delirando, provavelmente você não está jogando o remedinho certo no café dele. Mas agora tudo dará certo. Depois de estudar a Zona P e de esfregar o suvaco nos lábios do bonitão, decore e salve no celular as dicas mais importantes dessa autoescola sexual: 9. Passe a língua de um lado do pênis e os dedos molhados do outro. O gato terá a sensação de que está sendo beijado por duas mulheres. 10. Envolva a base do equipamento dele com a língua e estimule a cabeça com os dedos, bem de leve. 12. Forme um anel com o polegar e o dedo indicador. Envolva a cabeça do pênis com o anel da mão direita e a base com o da esquerda. Faça os movimentos em direções opostas. Com essas três dicas tenho certeza que você se sentirá numa suruba dentro de um fusca, realizando mais uma fantasia automobilística vintage.

5 dicas para ter um orgasmo mais poderoso.

Vamos continuar com nossas apostilas em mãos nesse maravilhoso Pronatec Sexual. Nesse momento você precisará de uma trena, uma chave de boca, uma lixa, um medidor de pressão e um clipe de papel. As regras básicas são: preparar, provocar, excitar e torturar. Porque se você achou que o orgasmo era pra você, se enganou, Gatuxinha! Estamos aqui para sovar essa massa masculina chamada homem.

O início é moleza: lingerie, caras e bocas no espelho, sensualidade com a escova de dente. No segundo passo, tem que rolar umas beliscadas e ele tem que ficar ofegante de tesão, talvez seja necessário providenciar um oxigênio.

A terceira parte é que parece difícil, mas basta seguir as instruções: A essa altura, seu parceiro já estará implorando por carícias no pênis. Seja firme! (Prenda o buzungão dele com a chave de boca). Peça para ele virar (180 graus) e esfregue seus mamilos nas costas dele, massageando-o. Agora arranhe o bumbum do gato (até ele gritar: Miau!) e pressione as nádegas com a ponta dos dedos (fazendo pressão no local para não ficar roxo). As duas dobras logo abaixo do bumbum, entre o tronco e as pernas (alinhadas 90 graus com a linha do Equador), são muito erógenas para os homens. Pressione os polegares delicadamente em cada uma delas, deslizando no sentido horizontal. Depois desça seus três primeiros dedos em direção ao pênis (Apenas os três primeiros!). Ele está desesperado? Ótimo!

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...