Exorcizando Fantasmas

I don’t care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul

I want you to notice
When I’m not around
You’re so fucking special
I wish I was special

But I’m a creep
I’m a weirdo
What the hell am I doing here?
I don’t belong here

– Creep, Radiohead

Passei anos da minha vida tentando me adaptar a um padrão, tentei ser inúmeras vezes alguém que não se encaixava no que eu realmente me identifico, tudo isso pra ser aceita por outras pessoas. Passei anos da minha vida tentando emagrecer, me encaixar num padrão de feminilidade e beleza que nunca combinou comigo. Era outra mulher, outra Sara, uma Sara infeliz, uma Sara azeda.

Relações abusivas criam essa necessidade, não, nunca parece que é exigência do parceiro, parece sempre que você faz porque deseja mudar, que é algo que vem da sua vontade, que é um agrado a quem você ama. E isso vai te consumindo aos poucos, te fazendo mal, minando sua auto estima, te mostrando que sua beleza não existe, afinal, você não se encaixa naquele padrão que agrada seu parceiro.

O processo de se adaptar a um padrão que não era meu começou antes desse relacionamento, mas foi com ele que esse processo minou minha auto estima por completo, como eu acreditava que ele me conheceu magra, de cabelos compridos, usando roupas “femininas” eu devia me manter assim, se não ele procuraria outra desse jeito. Várias vezes ele deixou isso claro nas entrelinhas, que não era mais a Sara que ele conheceu, que eu parecia não me amar e não me cuidar pois estava engordando, não me depilava, queria cortar meu cabelo curto. Quantas vezes vi seus olhos de decepção pra minhas mudanças, todas essas mudanças vinham de um incômodo meu natural, quando fico estagnada por muito tempo num visual eu preciso mudá-lo. Ele não entendia, ele queria de mim apenas o superficial.

Era um objeto que ele mostrava passeando nas ruas, nas baladas, nos bares, nas fotos do facebook, quando deixei de ser aquele objeto, ele parou de me mostrar, vergonha de se relacionar com uma mulher fora do padrão. Não era mais a “morena” do corpão malhado e cabelos cacheados compridos e vermelhos. Queria raspar a cabeça, queria colorir o cabelo de qualquer cor, queria comer e beber bem sem me preocupar em malhar na segunda pra queimar o que ganhei no fim de semana. Ele ainda descobriu que namorava uma preta, comecei a me afirmar na minha identidade, comecei a questionar eu ficar invisível nas conversas, ele me admirava e me achava inteligente no início, eu tinha muita cultura pra passar pra ele, com o tempo ele foi minando o meu discurso, ele foi se afastando da admiração, comecei a incomodá-lo.

Sim, agora, quase um ano após o término, consigo enxergar tudo de errado que vivi nesse namoro, não foi a “infidelidade” ou a “traição” com outras mulheres que me fez mal, não ligo pra monogamia, o que me fez mal foi a insegurança da corda bamba por anos. Medo de ser abandonada pelo, segundo ele, único homem que iria me querer gorda, feia, de cabelo curto, desleixada, sem me depilar, louca, maníaca de ciúmes. Precisamos dar nomes aos bois, o que vivi foi uma relação abusiva e violenta.

Mulheres, tenham cuidado, se alguém precisa te fazer se sentir menor pra ficar bem, essa pessoa não merece estar ao seu lado. Procure amigas, apoio na família, numx psicólogx ou onde preferir, tente trabalhar sua auto estima pra sair disso antes que seja devastador.

Dois anos

Ainda não falei sobre esses últimos dois anos sem postar no Biscate Social Club, essa semana o Facebook me lembrou de coisas importantes nesses últimos dois anos, mudanças que fizeram de mim quem sou agora, em dezembro de 2017.

#poledancenation #polelover

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Em 2015, em novembro, decidi ir fazer uma aula experimental de pole dance, me apaixonei, mesmo com todas as dificuldades que passei e passo pra vencer minha ansiedade em aprender os movimentos, pra vencer minhas fraquezas físicas e encurtamentos musculares devido a uma péssima relação com a musculação e com o padrão de corpo feminino, o Pole Dance me fez uma mulher mais empoderada, mais apaixonada pelo meu corpo, mais ativa, menos preocupada em emagrecer e me adaptar ao padrão de beleza que me é imposto desde a adolescência.

#poledance #tbt #coreografia #dançasensual

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Conhecer o Pole Dance, o Chair Dance e toda a sensualidade desses estilos me mostraram que beleza e sensualidade existe em qualquer pessoa, não há padrão pra isso! E não, não estou interessada nas acrobacias, eu curto mesmo é dançar, sensualizar, desconstruir esse padrão de que belo no pole é fazer movimentos, bonito é se sentir sensual, gostosa, arrasante, não pra agradar alguém, apenas pra se agradar e se amar. Sem nenhuma pressão, apenas por amor próprio. Viver dentro de um estúdio de Pole me fez amar meu corpo e pensar em tentar ser modelo.

Muito amor próprio envolvido! #modeloeatriz #plussize #amorpróprio #tolinda

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Foi o próximo passo! O passo certo, existe um nicho (meio controverso e que eu critico muito quando noto certos preconceitos) no mundo da moda em que me encaixo, o Plus Size, me vi descoberta por uma agência, fiz alguns desfiles, fiquei em segundo lugar em um concurso Plus Size, acompanhei um processo lindo de uma coleção de roupa de praia feita apenas pra mulheres gordas e baseada nas Pinups, uma imagem muito pouco compreendida por muitas mulheres. A sensualidade das Pinups, a beleza nas dobrinhas, nas gordurinhas, as lingeries e a liberdade sexual delas se encaixa muito bem com minha nova fase… Pole Dance, assumir e amar meu próprio corpo, me conhecer além do que me dizem que devo ser.

De sábado #poledancer #polelover

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Fechei o ano de 2016 com um desfile onde usei dois modelos dessa coleção, no meio daquele ano fiz uma sessão de fotos com um dos primeiros modelos da coleção, tenho dois modelos até hoje, um deles usei numa coreografia de pole dance no final do ano de 2016. Me encontrei e comecei 2017 fazendo fotos sensuais, foram três sessões com duas fotógrafas diferentes e várias selfies minhas, me amando, amando meu corpo, amando a minha imagem, enfrentando o fato de que não ser padrão não me faz feia, que o que nos dizem é mentira. Somos todas lindas, cada uma com suas características!

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Também foi no início de 2017 que dei início ao fim de uma relação que me prendia, me segurava, me sufocava, um relacionamento conturbado e traumatizante, eu responsabilizo toda essa mudança na minha auto imagem e na minha auto estima, se não fosse tudo isso, talvez ainda fosse parte daquele relacionamento, que ouvi de tantas pessoas que era abusivo, que me fazia mal, que me machucava e me tirava todo o amor próprio. Em abril de 2018, faz um ano que saí por completo dessa relação. Agora estou aprendendo a me amar, a ser feliz, a me conhecer novamente, a me ver sem depender de uma muleta de um relacionamento falido.

#gordaegstosa #plussize #loveyoursalf #photoshoot

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Esse mês de dezembro veio com várias alegrias, me encontrar novamente em ativismos, militâncias, ser atuante em tudo que acredito, o ano de 2017 me fez ser eu, ser ativa, ter voz, ter fala, protagonizar minha própria vida, mas foi um processo de 2 anos de muitas mudanças. Espero ansiosamente pelo ano de 2018 e tudo de novo e incrível que ele possa me trazer.

#selflove #bald #plussize

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Tirando o Atraso

São tempos difíceis, Brasil. Verás que uma filha biscate não foge à luta. Combatemos com risos, riscos, tesão, lascívia, luxúria. Levamos para a rua nossa coragem de tentar ser quem queremos ser. De abrir estradas com mais perguntas que certezas. De não saber exatamente aonde chegaremos, mas seguindo em boa companhia.

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Estivemos longe. Fizemos poesia, bebemos cerveja, marchamos em passeatas, dormimos (ocasionalmente sozinhas), vadiamos, gestamos, amamos, lamentamos, bradamos. Fizemos e acontecemos.

Sentimos falta. Falta de sermos biscates aqui, juntas, com vocês. Estivemos longe, voltamos. Aqui, escrevemos. Partilhamos sonhos, desejos, planos, memórias, constatações, anseios, esperanças. Convites.

Sintam-se em casa, cheguem mais e fiquem à vontade! Vai aqui um aceno para retornar ao nosso clube, (re)conhecer a gente. Pois somos e não somos as mesmas biscas de antes, somos em mudança, belas biscates, únicas no hoje, no ontem e no amanhã (nosso clube tem homens também e, também eles, belas, únicas e poderosas biscates).

Permanecemos biscates em linhas, entrelinhas, intervalos, recomeços. Nosso blog é de pouca vergonha. Na verdade, de vergonha nenhuma. Gostamos de palavras que deslizam na língua: esbórnia. Que rodopiam no salão: gandaia. Que colorem manhãs: encontros. Que alegram o corpo: gozo. Que inquietam, que perturbam, que fazem pensar: madrugadas.

Apetecem-nos sabores ácidos, frissons, arrepios. Reviravoltas, piruetas, rodopios. O caminho reto nem sempre é o mais prazeroso. Nas curvas encontram-se anseios, suspiros, tentações.

Então, é isso, estamos aqui com água na boca, com coceirinha nos dedos, com frivião no corpo, na vontade de tirar o atraso. Voltamos. Estamos. Somos: Biscate Social Club.

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PS. Somos espalhadas, audaciosas e espaçosas, temos página no FB e um tumblr delicioso, com as mais irreverentes e gostosas postagens. Você também pode nos seguir no twitter: @BiscateSC. Aproveite.

Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

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Voltando

Ô abre alas que eu quero passar, ô abre ala que eu quero passar. Voltamos. Estamos voltando. Arejando o club, abrindo portas e janelas, espanando os móveis, varrendo os cantos. Põe meia dúzia de brahma pra gelar, muda a roupa de cama, estamos voltando.

Voltamos outros, as vidas que vivemos nos aperta daqui, nos pede dali, revolve por dentro. Mas voltamos com a mesma vontade de biscatear. Ainda buscando a liberdade – emancipatória – através de diálogos, dicotomias e leveza. Estamos no mundo das redes sociais, mas da forma subversiva que nos apetece, não temos pressa nem respostas. Em um tempo/espaço em que a obrigação é militar (no sentido de militância, mas, inexorável constatar que no sentido bélico também) porque o mundo é muito cruel e as lutas são para ontem, reafirmamos o prazer como baliza, horizonte e caminho. O prazer da escrita, do acolhimento, do verso, do convívio e do contato.  O prazer do encontro.

Acreditamos no prazer. Acreditamos na putaria. Na liberdade. Acreditamos em escrever livre, viver livre, lutar livre, amar livre. Acreditamos na possibilidade do bom. Acreditamos no construir um mundo melhor de uma forma melhor. Com quem está. Com quem é. Acreditamos na insuficiência das pessoas. Na incompletude. Acreditamos na nossa humanidade como fraqueza, possibilidade e beleza. Acreditamos que é justamente nossa humanidade que possibilita sonhar e fazer um mundo outro. Melhor. Mas que só será melhor não pelo que miramos, mas pela forma como o fazemos.

Acreditamos na letra. E estamos dispostos a continuar escrevendo e convidando a escrever desse nosso jeito, evitando julgamentos, procurando a reflexão, a abertura (ui) para o outro. Temos incertezas, vacilos, dúvidas. A gente reconhece, como Vinícius, que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Fazemos o clube como queremos vir a ser. Reafirmamos nosso Editorial, ele é nosso mar, barco, porto e horizonte. É o que nos desafia, o que nos comporta, onde repousamos e pra onde seguimos.

Escolhemos o dia de hoje para voltar não por acaso. Esse é um dia de tantos e tão reveladores equívocos. Um dia em que as pessoas parabenizam as mulheres por serem mulheres, como se houvesse alguma essência merecedora de mérito. Um dia em que aprisionam mulheres em estereótipos de cuidadadora, mãe, paciente, esposa, resignada e outros afins que garantem a continuidade de uma referência de papel subserviente para a mulher. Um dia, também, em que pessoas erram pensando que estão acertando e a forma como lidamos com elas diz muito do quanto ainda somos impregnados dos mesmos equívocos – talvez não de conteúdo, mas de forma. Escolhemos esse dia pra voltar porque biscatear é justamente buscar um jeito único, próprio, desvinculado de estereótipos e de imposições essencialistas, sejam elas louvatórias ou não.

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8 de março é o Dia Internacional da Mulher e voltamos hoje pra nos somar às vozes que falam de igualdade para as mulheres, que clamam pelo fim da violência de gênero, que apontam as desigualdades, o machismo, a misoginia. Voltamos, também, nesse dia, pra lembrar a diversidade – dessas mulheres e das vozes. Todos os dias quando dizemos: “as mulheres” estamos encobrindo a diversidade de relações e experiências. Porque há mulheres negras, mulheres índias, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres em situação de rua, (entre outros grupos marginalizados) e cada uma nestes grupos sofre de forma estruturalmente mais violenta todos os preconceitos. Mulheres que por sua etnia, orientação sexual, poder aquisitivo ou por se inserirem de forma contestatória à lógica machista são invisibilizadas e têm minimizadas ou mesmo negadas sua condição humana e de identidade. Diversidade de mulheres, diversidade de vozes. Nossas vozes marcadas pelo riso, pelo gozo, pelas perdas, pelo engolir em seco, pelo engolir o sapo, pelo grito de protesto… Nós somos sujeitos, fazemos escolhas, pensamos e decidimos, mesmo limitadas pela conjuntura, cultura e história. Nós temos vontades: seja de consumir, de amar, de trepar, de pertencer. Temos desejos: de ser feliz, amadas, livres, o que for. Temos possibilidade de autonomia, mesmo quando reconhecemos os obstáculos estruturais.(um fragmento de memória, daqui) É esse o som que produzimos com nossas vozes biscates: gritos, gargalhadas, gemidos, palavras de ordem e de afeto e que aqui, blogando, fazemos letra e sonho.

Voltamos. Acenda o refletor, apure o tamborim…

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

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Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Quatro

O Biscate fez aniversário. Quatro anos. Faz festa em um tempo difícil, resistimos com riso e tesão. Difícil em contexto, são temos sombrios, de moralismo,  backlash, genocídio, políticas públicas autoritárias e desvinculadas das demandas das minorias, repressão. Difícil no grão em grão, muitos biscas escreventes passando por situações complexas, ocupados, atarefados, cansados. E isso aparece nas linhas e entrelinhas. Difícil mas nos esmeramos na busca da gargalhada, da trepada, do desejo pra fazer frente. Pra ir em frente.

Uma vez escrevi, nesse nosso mesmo clube: somos o que fazemos, sabemos. E fazemos o que somos. O Biscate somos todos que o fazemos, que o lemos, divulgamos, comentamos. Somos todos que o escrevemos. O Biscate sou eu, parodiando o Rei Sol. E o Biscate me é. Tento, todo dia, ser mais e mais a biscate que esse clube me inspira a ser: liberdade, aceitação, prazer, entrega. Encontros.

O que eu faço no clube e o clube faz em mim é abrir. Portas, alma, peito, ideias, pernas. Um convite insistente de vida. Um convite insistente de luta. Um convite insistente de gozo. É pouquinho e é imenso, em um mundo onde as mulheres não podem usar a roupa que querem, sair e andar por onde querem, na hora que querem, ainda não podem decidir sobre quando e com quem trepar, se querem ou não ter filhos, um mundo em que nossos corpos são vistoriados, pesados e rotulados, nosso desejo é escamoteado e negado, nossa vida é menos. Menos importante. Menos gente.

Então, o Biscate resiste. Insiste. Faz aniversário, acende o neon, aumenta o decote, coloca o brega na vitrola, pega a taça maior e vai pra pista. Vamos pra pista. E aproveito o embalo pra fazer as declarações de amor. Porque sim. Porque sempre. O Biscate é quem o faz, repito.

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Augusto, um Biscate, meu Biscate, em frestas, picadas, trilhas. Um Biscate que caminha em risco e riso, a beira do abismo como companhia e incentivo. Um Biscate que desvela, que rasga o véu, que escracha. Que gargalha. Que aponta o plural do possível. Amar-te no Biscate é confiança, cumplicidade e conforto. Amar-te é amar em liberdade. Amar-te é amar a liberdade.

Bianca Cardoso, um biscate que chega, que dá, que (se) oferece. Um biscate de  letras precisas e leves. Amar-te no Biscate é um amor a mais, um amor de gratidão e aprendizado.

Fernando, um Biscate em rima. Poesia do corpo. Um biscate escrito em suor, saliva, semen. Um Biscate que vem da rua, meio tonto, meio vinho, meio vida. Esquinas. O avesso do avesso do avesso até ser o que ele mais é: idenfinível. Amar-te é te saber em mim, justinho no canto que deveria estar, como falta. Amar-te no Biscate é aceitação, descoberta, sufixo que faz de mim nova palavra.

Iara Ávila, um Biscate de humor acentuado, olhar crítico mas generoso. Um Biscate pop, antenado, televisivo. Um Biscate de luta e de afetos. Amar-te no Biscate é um amor de encontro, de distância diminuída com afeto, de acolhimento e cumplicidade.

Jeane Melo, um Biscate nordestino, de um nordeste colorido, quente, afetuoso. Um Biscate que é sobrevivência e noites de lua, o morno na pele, a vida afirmada nos encontros. Amar-te no Biscate é como um fetejo de São João, há ritmo, sabor, corpo e promessas de um sempre.

Klaus, um Biscate que é transformação. Que é busca, inquietação e sonho. Uma escrita que se reinventa, uma pessoa que se redescobre, um clube que não se limita. Amar-te no Biscate é deslumbre, abraço, horizonte. Amar-te é processo e belezas.

Lis Lemos, um Biscate que é tesão. A letra mais nua, mais quente, mais sexy. A coragem de escrever entre lençóis, de mergulhar de olhos abertos, de cozinhar em fogo alto. Amar-te é em saudades, em espera, em tempos e suspiros. Amar-te é uma alegria.

Raquel, um Biscate que era antes de ser. Um Biscate de letras intensas, de perguntas, de conversas, de convites. Uma escrita tão pessoal e única que nos recebe a todos, que indica anseios que nem suspeitávamos em nosso peito. Amar-te é reencontro, beira de praia, cerveja gelada, conversa solta, vento levantando as saias. Amar-te é.

Renata Lima, um Biscate em intervalos. Aquele que diz só e justamente o que tem pra dizer. Um Biscate de histórias. De vivências. De certeza que é possível ir sem deixar de estar. Amar-te no Biscate é sentir sua falta toda semana e celebrar cada encontro, cada vez que fomos, que seremos.

Renata Lins, um Biscate em delicadeza. Cada texto, porto, viagem e oceano. A escrita que é lâmina em seda enrolada, como a cantiga. Uma escrita que é, ao mesmo tempo, pra mim, reconhecimento e surpresa. Um Biscate que é afirmação dos caminhos. Amar-te no Biscate foi. Amar-te no Biscate é. E além.

Sara, um Biscate feito de coragem e superações. Um clube que é a cada dia, a cada texto, a cada tempo. O mesmo. Outro. Descobrindo percursos. Descobrindo-se no percurso. Amar-te no Biscate é certeza de futuros. De encontros. De abraços.

Sílvia, um Biscate feito de intensidade.  Os textos sem pele. A escrita e o viver com entrega, com beleza, com fé, com amor. Um clube que está. Como cristal, bate a luz e a beleza quase ofusca. Cores. Matizes. E aquela firmeza de pedra, núcleo, sustentação. Preciosa. Amar-te no Biscate é alento. É respiro. Suspiro e lembrança de que sim, em algum momento, o bom é.

Vanessa, um Biscate que é luta, gozo, transformação, riso, leveza, história. Um Biscate que é gente. A fala da gente. A vida da gente. Um Biscate que é diário. Que é concreto. Que tem cheiro, gosto, que se toca e que se sente. Amar-te no Biscate é espelho. Mais, é casa de espelhos, onde somos muitos, possíveis, outros e mesmos.

O Biscate que eu amo é cada um e é tanto amor que eu nem sei escrever. Que bom o tempo que passamos aqui. Que bom um tempo em que somos, juntos.

PS. O Biscate faz aniversário. Festejamos. Comemoramos. Escrevemos. Convidamos. Vem Biscatear, vem fazer, vem ser Biscate com a gente. Se quiser escrever um post convidado, manda no nosso mail biscatesocialclub@gmail.com

PS2. Que difícil resistir às piadinhas com ficar de quatro.

os não quereres

Não quero. Me falta saco, me falta vontade, me falta empenho, me faltam forças. Não quero. Aliás, sim, quero. Quero a possibilidade de exercitar o meu amplo e total direito à recusa, a dizer não.

Desde quando se criou a convenção de que nós devemos viver para dizer o sim? Na minha cabeça isso sempre pareceu o padrão. Não transgredir, ser um corpo manso, simpático, apático, detentor da única possibilidade de dizer a plenos pulmões: SIM. Pois não quero.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Também não sei que eu quero. Tampouco sei se preciso descobrir. Só sei que o dizer não me excita! Me causa um estremecimento, me aquece, me dá vontades. Me revela que dizer NÃO não destrói o mundo, como se meu não fosse um bomba atômica.

Dizer não transgride, em primeiro lugar, com o meu castelo de certezas e com meu mar de dúvidas. Depois o mundo, sé é que o mundo se importa com o meu não. Sé é que o mundo vai sobreviver com o meu não. Que aceitemos, o mundo e eu, é um NÃO!

Não sei onde isso vai dar, o quanto o não querer importa, afeta, afasta ou aproxima. Mas é não, ao menos por enquanto. É não para derrubar minhas muralhas, nem que seja para construir novas, mas primeiro eu preciso ver o que há além das velhas. Ou, como diria a Lispector, é perder a terceira perna, par então buscar novos pontos de sustentação.

 É um não querer para tirar-se da normalidade, nem sei se para uma anormalidade, ou para-normalidade, mas definitivamente para transgredir-se. Pra por fim, ou dar uma pausa, ao excesso de sins… e é tão engraçado como o plural de SIM se traduz em “pecados” em outra língua. É hora dos NÃOS

Pelo tempo de envelhecer

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Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

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Tempestade de Sol

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Rir-se. Rirmos. Nosso riso. Essas nossas risadas que sempre tomaram conta do quarto nas noites mais simples de meio de semana. Naquela quarta-feira qualquer. Mesmo sem cerveja, mesmo sem graça. Era bom. Rirmos. Risos de doer a barriga e soluçar de amor. Esse seu riso fácil que tomava conta dos meus olhos pequenos. Que me embalava o sono do seu colo grande, sempre cansada de tanto. Eu sempre tanto. Você sempre suavidade. Sempre esteio para meus pulos sem chão. Toda riso farto de braços abertos. Toda para me receber tanto.

Eu tive que acostumar com as suas lágrimas, que vieram de repente. Uma a uma, rio de espanto. A vida é de repente. E é de repente que. Aprendi a lamber o seu sal na ponta dos dedos. A enxugar a ponta de seus lábios com a minha língua. A dar colo para a sua dor. A ficarmos mudas de mãos dadas diante do espanto. Aprendi, enfim, que o amor também é triste. E que no riso tem um bocado de coisas não ditas que cheiram a lágrimas. E que é bom mesmo assim.

Aprendo. Com o tempo que não vem ligeiro para nos contar que é tudo mentira. Com a reinvenção desse riso mudo de dor. Com a impermanência de nossos respiros. Com uma serenidade estranha diante do que não se controla. A vida é sempre. E é nunca mais. Os dias passam e descolorem a memória de quem ainda somos. E a cada pincelada a nossa eternidade que não se apaga.

Na maquiagem borrada de nossos espelhos invertidos, reinventamo-nos. Amamo-nos. Adormecemos na brisa mansa de um riso que ainda vem. Como naquela noite em que você ria sozinha, sem saber porque. Aquele riso solto, tão nosso, tão sem motivo. Riso dos nossos desejos. Da nossa intimidade musical traçada nos pés sobre as cobertas. “Vai doer mas depois vai passar”, eu canto. Você sorri generosa, tecendo futuros nos meus cabelos afagados. E a gente floresce, na tempestade de sol desses dias de outubro. Um outubro qualquer a se perder no tempo das belezas, dessas que as retinas não filtram.

Despedir-se é sempre

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Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

Ciranda

Há um mês perdi uma tia muito querida, de maneira inesperada. Embora até já tenha adquirido um pouco de casca, essa morte me pegou de um jeito muito profundo, me deixando essa tristeza que ainda não consegui elaborar. Aí, me lembrei deste texto, que escrevi um ano atrás e que ainda não tinha publicado. Publico hoje, porque quero deixar registrado o quanto cresci cercada de mulheres incríveis! <3

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Minha família materna é enorme. Entre dois casamentos, meu avô teve 30 filhos! E, desse total, mulheres, muitas, muitas mulheres. Lindas, valentes, amorosas, debochadas, desbocadas, contraditórias (ô), gentis e com muito senso de humor. Mais que tudo, humanas.

Sob muitos aspectos, mulheres muito inspiradoras para todas nós, filhas e sobrinhas. Ainda que a figura do meu avô-que-mais-parece-personagem-de-livro seja mitificada entre a gente, sempre penso na minha como uma família na qual as protagonistas são elas e, mesmo em suas próprias famílias, elas parecem ser o centro no qual todo o mundo orbita.

Nos fins de semanas, essas irmãs costumavam se juntar para um lanche, hábito que ainda persiste, embora já com alguns desfalques (mortes e mudanças…) e, agora, pode ser em qualquer dia. E na prosa iam coando café e cosendo comidas, confissões, bolos, queixas, beiju, mágoas, cuscuz, conquistas, belezas e um levar-não-levar muito a sério a vida toda. Das gostosuras, só podíamos lamber o cheiro, com permissão pra comer depois, no rescaldo do fim da tarde.

Aquele era o momento delas. Quando muito, um prato nos era passado pelo buraco da fechadura. Ficávamos pelo quintal, brincando e espichando a orelha, porque nossa fome mesmo era do confessado. A minha, pelo menos, que sempre fui criança de curiar conversa de adulto.

Não me aguentava de vontade de me esgueirar pela fresta da porta, mas só me cabia mesmo imaginar o que elas tanto falavam naquelas confabulações vespertinas. O que me era impossível, obviamente. O que eu sabia da vida naquele então pra imaginar algo mais além que os dramas de “Pollyana”?

O “lanche das tias” era misterioso e meio intangível…

Um dia sai de lá e o evento virou um folclore delicado em mim. Até que, anos depois, numas férias na casa da minha mãe, elas apareceram, se enfiaram na cozinha, me convidaram e fecharam a porta. E, entre um causo e outro, em algum momento me distanciei da situação.

Foi quando me veio aquela compreensão quase das veias.

As minhas tias e a minha mãe me estavam dando a credencial para o mundo delas! O mundo das mulheres adultas da família. Naquele instante, naquele lanche, virei uma delas. Claro que em minha lógica de mulher sabida e estudada, que se outorga emancipada e senhora de si, eu já me tinha feito há bem mais tempo. Mas, estar no “lanche das tias”, falando de assuntos de tantas de nós, sendo acolhida por elas como uma igual, me emocionou um bocado. Agigantou-me.

Foi um encontro com aquela parte de mim torneada pelas histórias de vida daquelas mulheres tão formidáveis. Seus anseios, frustrações, dúvidas, desejos, renúncias, conquistas, crenças também diziam respeito a mim. Porque de mim dizem.

Numa metáfora bem obvia e super clichê, mas tão precisa, foi como se elas estivessem me entregando um retalhinho pra que eu também fosse aumentando o quadrado da colcha que sempre as manteve unidas e fortalecidas ao largo das dificuldades, agruras, quebrantos e bem-aventuranças. Foi um momento de muita alegria!

Lá estava eu, naquela espécie de maçonaria às avessas, na qual somente mulheres são bem vindas, sem grandes segredos seculares para esconder, mas ao mesmo tempo, sim. Algo só delas. Algo só nosso.

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