Sempre ao Domingos

Ele surgiu nas nossas vidas antes, lá em Mothern e Força Tarefa, eu tava distraída e não reparei muito, mas foi impossível não ficar hipnotizada por ele em Cordel Encantado e assim, pra todo sempre pra gente, um grupo de amigas e amigos noveleiros ele ficou sendo Capitão Herculano ou, simplesmente, Capitão.

Nós somos (sim, não deixaremos de ser) as cangaceiras de seu bando, fãs da sua beleza e da sua interpretação. Porque mais que lindo, era o olhar sincero, doce, forte que encantava. Ele estava inteiro nos seus personagens.

E em poucos papéis: o Capitão,  Paulo Ventura, Zyah, Mundo, Miguel e Santo ele interpretou brilhantemente homens que tinham um pouco dele: idealismo, ética, amor, sinceridade, dúvidas, alegria. Um homem comum e simples e nos encantou pra sempre.

A vida quase nunca é como queremos e o levou muito mais cedo do que seria desejável, a gente vai sentir saudades pra sempre, mas nada que se compare a dor que os seus sentirão. Um pequeno consolo, talvez, é realmente pensar que virou protetor do rio. Outro: lembrar que o ator nunca morre, pois sua obra se eterniza nas imagens que deixa e ele deixou um legado até breve na tv, embora inesquecível, e um grande legado no teatro e arte de ser palhaço.

E esse texto é só pra dizer obrigado por tudo,  obrigado principalmente pelo Capitão, pelo Mundo e pelo Miguel, que amei tanto e você fez tão lindamente. Domingos Montagner, sua estrela vai brilhar pra sempre, um beijo das cangaceiras e das noveleiras e noveleiros.

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Voltando

Ô abre alas que eu quero passar, ô abre ala que eu quero passar. Voltamos. Estamos voltando. Arejando o club, abrindo portas e janelas, espanando os móveis, varrendo os cantos. Põe meia dúzia de brahma pra gelar, muda a roupa de cama, estamos voltando.

Voltamos outros, as vidas que vivemos nos aperta daqui, nos pede dali, revolve por dentro. Mas voltamos com a mesma vontade de biscatear. Ainda buscando a liberdade – emancipatória – através de diálogos, dicotomias e leveza. Estamos no mundo das redes sociais, mas da forma subversiva que nos apetece, não temos pressa nem respostas. Em um tempo/espaço em que a obrigação é militar (no sentido de militância, mas, inexorável constatar que no sentido bélico também) porque o mundo é muito cruel e as lutas são para ontem, reafirmamos o prazer como baliza, horizonte e caminho. O prazer da escrita, do acolhimento, do verso, do convívio e do contato.  O prazer do encontro.

Acreditamos no prazer. Acreditamos na putaria. Na liberdade. Acreditamos em escrever livre, viver livre, lutar livre, amar livre. Acreditamos na possibilidade do bom. Acreditamos no construir um mundo melhor de uma forma melhor. Com quem está. Com quem é. Acreditamos na insuficiência das pessoas. Na incompletude. Acreditamos na nossa humanidade como fraqueza, possibilidade e beleza. Acreditamos que é justamente nossa humanidade que possibilita sonhar e fazer um mundo outro. Melhor. Mas que só será melhor não pelo que miramos, mas pela forma como o fazemos.

Acreditamos na letra. E estamos dispostos a continuar escrevendo e convidando a escrever desse nosso jeito, evitando julgamentos, procurando a reflexão, a abertura (ui) para o outro. Temos incertezas, vacilos, dúvidas. A gente reconhece, como Vinícius, que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Fazemos o clube como queremos vir a ser. Reafirmamos nosso Editorial, ele é nosso mar, barco, porto e horizonte. É o que nos desafia, o que nos comporta, onde repousamos e pra onde seguimos.

Escolhemos o dia de hoje para voltar não por acaso. Esse é um dia de tantos e tão reveladores equívocos. Um dia em que as pessoas parabenizam as mulheres por serem mulheres, como se houvesse alguma essência merecedora de mérito. Um dia em que aprisionam mulheres em estereótipos de cuidadadora, mãe, paciente, esposa, resignada e outros afins que garantem a continuidade de uma referência de papel subserviente para a mulher. Um dia, também, em que pessoas erram pensando que estão acertando e a forma como lidamos com elas diz muito do quanto ainda somos impregnados dos mesmos equívocos – talvez não de conteúdo, mas de forma. Escolhemos esse dia pra voltar porque biscatear é justamente buscar um jeito único, próprio, desvinculado de estereótipos e de imposições essencialistas, sejam elas louvatórias ou não.

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8 de março é o Dia Internacional da Mulher e voltamos hoje pra nos somar às vozes que falam de igualdade para as mulheres, que clamam pelo fim da violência de gênero, que apontam as desigualdades, o machismo, a misoginia. Voltamos, também, nesse dia, pra lembrar a diversidade – dessas mulheres e das vozes. Todos os dias quando dizemos: “as mulheres” estamos encobrindo a diversidade de relações e experiências. Porque há mulheres negras, mulheres índias, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres em situação de rua, (entre outros grupos marginalizados) e cada uma nestes grupos sofre de forma estruturalmente mais violenta todos os preconceitos. Mulheres que por sua etnia, orientação sexual, poder aquisitivo ou por se inserirem de forma contestatória à lógica machista são invisibilizadas e têm minimizadas ou mesmo negadas sua condição humana e de identidade. Diversidade de mulheres, diversidade de vozes. Nossas vozes marcadas pelo riso, pelo gozo, pelas perdas, pelo engolir em seco, pelo engolir o sapo, pelo grito de protesto… Nós somos sujeitos, fazemos escolhas, pensamos e decidimos, mesmo limitadas pela conjuntura, cultura e história. Nós temos vontades: seja de consumir, de amar, de trepar, de pertencer. Temos desejos: de ser feliz, amadas, livres, o que for. Temos possibilidade de autonomia, mesmo quando reconhecemos os obstáculos estruturais.(um fragmento de memória, daqui) É esse o som que produzimos com nossas vozes biscates: gritos, gargalhadas, gemidos, palavras de ordem e de afeto e que aqui, blogando, fazemos letra e sonho.

Voltamos. Acenda o refletor, apure o tamborim…

2015: ano de luta, resiliência e visibilidade

Minha retrospectiva poderia começar na semana passada, quando uma mulher virou motivo de chacota e agressão de todo tipo, moral e física, ao ser vista e filmada pelo marido entrando no motel com outro homem. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais e, inclusive, na imprensa.

Fabíola, a mulher pecadora. A mulher que “precisa ser perdoada”. A mulher traidora. A mulher que merece apanhar. A mulher puta. Tudo no mesmo pacote  do moralismo e machismo destilados no ato do marido, do amigo que filmou, dos comentaristas de portal, daqueles que viralizaram um vídeo que deveria muito mais horrorizar pela violência que promover riso.

E nisso reiteramos nossa percepção desalentadora: violência doméstica parece não ser da conta de ninguém. Mas, a sexualidade alheia, especialmente a de mulheres, ah, esta, sim. Esta é da alçada de todo o mundo.

A única compensação é que o marido vai ter que pagar indenização à mulher e será acionado pela justiça pelos crimes de injúria, violação de intimidade e dano ao patrimônio privado. O cinegrafista do episódio também responderá criminalmente pelas agressões físicas e verbais.

Mas, minha retrospectiva poderia ir pra trás mais um tiquinho e falar dos diversos crimes de feminicídio, estupro, violência doméstica e transfobia que tenho acompanhado pra atualizar a comunidade do Não foi ciúme. Com alguns crimes claramente premeditados, como aquele do marido que estava cavando uma cova embaixo da cama pra enterrar a mulher depois de matá-la. Foi o filho do casal que descobriu o buraco e fez a denúncia.

Vou nem colar o link. Porque, olha.

E tem ainda o Mapa da Violência 2015, que revela que 50% dos homicídios cometidos contra mulheres são por familiares. E, mais ainda, que entre 2003 e 2013 o assassinato de mulheres negras aumentou 54%, ao passo que o de mulheres brancas diminuiu quase 10%.

No entanto, minha retrospectiva também tem Marcela Nogueira dos Reis que, do alto dos seus 18 anos, foi uma das protagonistas dos protestos contra o fechamento das escolas paulistas, que seriam “reorganizadas” pelo governador Geraldo Alckmin. “Minha única arma é a caneta”, ela diz. E me encho de fé e esperança.

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Minha retrospectiva também tem Nathalia Santos. Negra, pobre, moradora de periferia e cega, Nathalia é encantadora. Mesmo após viver um episódio cruel na PUC de violência capacitista, racista, misógina e classista, a moça busca se manter inteira e emociona pelo tanto que é lúcida, didática e empoderada.

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E minha retrospectiva tem Elza Soares, eleita pela BBC como a cantora do milênio. Estive no fantástico show “A mulher do fim do mundo”. E me derreti de amor e de gratidão! Se a vida fosse apenas beleza, prazer, emoção, resiliência e luta, seria Elza Soares.

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Se minha retrospectiva fosse encarnada numa pessoa, sem dúvida alguma – e não poderia ser diferente -, seria numa mulher negra.

Ou em todas.

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Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

Quatro

O Biscate fez aniversário. Quatro anos. Faz festa em um tempo difícil, resistimos com riso e tesão. Difícil em contexto, são temos sombrios, de moralismo,  backlash, genocídio, políticas públicas autoritárias e desvinculadas das demandas das minorias, repressão. Difícil no grão em grão, muitos biscas escreventes passando por situações complexas, ocupados, atarefados, cansados. E isso aparece nas linhas e entrelinhas. Difícil mas nos esmeramos na busca da gargalhada, da trepada, do desejo pra fazer frente. Pra ir em frente.

Uma vez escrevi, nesse nosso mesmo clube: somos o que fazemos, sabemos. E fazemos o que somos. O Biscate somos todos que o fazemos, que o lemos, divulgamos, comentamos. Somos todos que o escrevemos. O Biscate sou eu, parodiando o Rei Sol. E o Biscate me é. Tento, todo dia, ser mais e mais a biscate que esse clube me inspira a ser: liberdade, aceitação, prazer, entrega. Encontros.

O que eu faço no clube e o clube faz em mim é abrir. Portas, alma, peito, ideias, pernas. Um convite insistente de vida. Um convite insistente de luta. Um convite insistente de gozo. É pouquinho e é imenso, em um mundo onde as mulheres não podem usar a roupa que querem, sair e andar por onde querem, na hora que querem, ainda não podem decidir sobre quando e com quem trepar, se querem ou não ter filhos, um mundo em que nossos corpos são vistoriados, pesados e rotulados, nosso desejo é escamoteado e negado, nossa vida é menos. Menos importante. Menos gente.

Então, o Biscate resiste. Insiste. Faz aniversário, acende o neon, aumenta o decote, coloca o brega na vitrola, pega a taça maior e vai pra pista. Vamos pra pista. E aproveito o embalo pra fazer as declarações de amor. Porque sim. Porque sempre. O Biscate é quem o faz, repito.

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Augusto, um Biscate, meu Biscate, em frestas, picadas, trilhas. Um Biscate que caminha em risco e riso, a beira do abismo como companhia e incentivo. Um Biscate que desvela, que rasga o véu, que escracha. Que gargalha. Que aponta o plural do possível. Amar-te no Biscate é confiança, cumplicidade e conforto. Amar-te é amar em liberdade. Amar-te é amar a liberdade.

Bianca Cardoso, um biscate que chega, que dá, que (se) oferece. Um biscate de  letras precisas e leves. Amar-te no Biscate é um amor a mais, um amor de gratidão e aprendizado.

Fernando, um Biscate em rima. Poesia do corpo. Um biscate escrito em suor, saliva, semen. Um Biscate que vem da rua, meio tonto, meio vinho, meio vida. Esquinas. O avesso do avesso do avesso até ser o que ele mais é: idenfinível. Amar-te é te saber em mim, justinho no canto que deveria estar, como falta. Amar-te no Biscate é aceitação, descoberta, sufixo que faz de mim nova palavra.

Iara Ávila, um Biscate de humor acentuado, olhar crítico mas generoso. Um Biscate pop, antenado, televisivo. Um Biscate de luta e de afetos. Amar-te no Biscate é um amor de encontro, de distância diminuída com afeto, de acolhimento e cumplicidade.

Jeane Melo, um Biscate nordestino, de um nordeste colorido, quente, afetuoso. Um Biscate que é sobrevivência e noites de lua, o morno na pele, a vida afirmada nos encontros. Amar-te no Biscate é como um fetejo de São João, há ritmo, sabor, corpo e promessas de um sempre.

Klaus, um Biscate que é transformação. Que é busca, inquietação e sonho. Uma escrita que se reinventa, uma pessoa que se redescobre, um clube que não se limita. Amar-te no Biscate é deslumbre, abraço, horizonte. Amar-te é processo e belezas.

Lis Lemos, um Biscate que é tesão. A letra mais nua, mais quente, mais sexy. A coragem de escrever entre lençóis, de mergulhar de olhos abertos, de cozinhar em fogo alto. Amar-te é em saudades, em espera, em tempos e suspiros. Amar-te é uma alegria.

Raquel, um Biscate que era antes de ser. Um Biscate de letras intensas, de perguntas, de conversas, de convites. Uma escrita tão pessoal e única que nos recebe a todos, que indica anseios que nem suspeitávamos em nosso peito. Amar-te é reencontro, beira de praia, cerveja gelada, conversa solta, vento levantando as saias. Amar-te é.

Renata Lima, um Biscate em intervalos. Aquele que diz só e justamente o que tem pra dizer. Um Biscate de histórias. De vivências. De certeza que é possível ir sem deixar de estar. Amar-te no Biscate é sentir sua falta toda semana e celebrar cada encontro, cada vez que fomos, que seremos.

Renata Lins, um Biscate em delicadeza. Cada texto, porto, viagem e oceano. A escrita que é lâmina em seda enrolada, como a cantiga. Uma escrita que é, ao mesmo tempo, pra mim, reconhecimento e surpresa. Um Biscate que é afirmação dos caminhos. Amar-te no Biscate foi. Amar-te no Biscate é. E além.

Sara, um Biscate feito de coragem e superações. Um clube que é a cada dia, a cada texto, a cada tempo. O mesmo. Outro. Descobrindo percursos. Descobrindo-se no percurso. Amar-te no Biscate é certeza de futuros. De encontros. De abraços.

Sílvia, um Biscate feito de intensidade.  Os textos sem pele. A escrita e o viver com entrega, com beleza, com fé, com amor. Um clube que está. Como cristal, bate a luz e a beleza quase ofusca. Cores. Matizes. E aquela firmeza de pedra, núcleo, sustentação. Preciosa. Amar-te no Biscate é alento. É respiro. Suspiro e lembrança de que sim, em algum momento, o bom é.

Vanessa, um Biscate que é luta, gozo, transformação, riso, leveza, história. Um Biscate que é gente. A fala da gente. A vida da gente. Um Biscate que é diário. Que é concreto. Que tem cheiro, gosto, que se toca e que se sente. Amar-te no Biscate é espelho. Mais, é casa de espelhos, onde somos muitos, possíveis, outros e mesmos.

O Biscate que eu amo é cada um e é tanto amor que eu nem sei escrever. Que bom o tempo que passamos aqui. Que bom um tempo em que somos, juntos.

PS. O Biscate faz aniversário. Festejamos. Comemoramos. Escrevemos. Convidamos. Vem Biscatear, vem fazer, vem ser Biscate com a gente. Se quiser escrever um post convidado, manda no nosso mail biscatesocialclub@gmail.com

PS2. Que difícil resistir às piadinhas com ficar de quatro.

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Não quero. Me falta saco, me falta vontade, me falta empenho, me faltam forças. Não quero. Aliás, sim, quero. Quero a possibilidade de exercitar o meu amplo e total direito à recusa, a dizer não.

Desde quando se criou a convenção de que nós devemos viver para dizer o sim? Na minha cabeça isso sempre pareceu o padrão. Não transgredir, ser um corpo manso, simpático, apático, detentor da única possibilidade de dizer a plenos pulmões: SIM. Pois não quero.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Também não sei que eu quero. Tampouco sei se preciso descobrir. Só sei que o dizer não me excita! Me causa um estremecimento, me aquece, me dá vontades. Me revela que dizer NÃO não destrói o mundo, como se meu não fosse um bomba atômica.

Dizer não transgride, em primeiro lugar, com o meu castelo de certezas e com meu mar de dúvidas. Depois o mundo, sé é que o mundo se importa com o meu não. Sé é que o mundo vai sobreviver com o meu não. Que aceitemos, o mundo e eu, é um NÃO!

Não sei onde isso vai dar, o quanto o não querer importa, afeta, afasta ou aproxima. Mas é não, ao menos por enquanto. É não para derrubar minhas muralhas, nem que seja para construir novas, mas primeiro eu preciso ver o que há além das velhas. Ou, como diria a Lispector, é perder a terceira perna, par então buscar novos pontos de sustentação.

 É um não querer para tirar-se da normalidade, nem sei se para uma anormalidade, ou para-normalidade, mas definitivamente para transgredir-se. Pra por fim, ou dar uma pausa, ao excesso de sins… e é tão engraçado como o plural de SIM se traduz em “pecados” em outra língua. É hora dos NÃOS

Pelo tempo de envelhecer

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Envelhecer é um processo. Bonito. Uma travessia grande de dias e vivências que ficam marcadas na pele. No coração. Nas levezas que vamos acumulando por dentro. Envelhecer nos traz a sabedoria tão importante de que o tempo passa. E que o corpo passa com ele. Que por dentro a gente ganha cores, amores, que a gente se expande na medida em que as rugas aparecem e a gente não tem mais o tempo novo de pele lisa e vida sem marcas.

E que bom. Que bom estar nesse rio que não para de correr pro mar. Esse rio que banha todos nós, todas nós, a todo momento. Mesmo quando não percebemos. Mesmo quando temos medo. Mesmo quando fugimos. O movimento da vida é a sua ordem. Imperativa e generosa, que nos dá o presente da impermanência. A nossa única boia escorregadia de navegar no rio.

Novembro me traz sempre essa reflexão pré-aniversário. De que o tempo. Ele vem. Ele nos cobre como uma onda fresca de mortalidade. E do quanto tentamos esconder o tempo de envelhecer. Esse nosso tempo de voltar para o casulo e ter mais calma para apreciar a vida que corre. Um tempo de mais riso. De mais sabedoria para entender que tudo passa, e que a vida não é assim para ser levada tão à sério. Um tempo de saborear amores sem tanta urgência. Um tempo de ver o pôr-do-sol e se deixar quedar com ele. Um tempo de nos reconhecermos mortais e de nos cobrarmos menos pelas aparências.

Sempre acho triste o quanto tentamos esconder a velhice. Principalmente das mulheres. Escrevi sobre isso aqui, e continuo acreditando que liberdade e beleza não tem idade. Ainda mais. Hoje, às vésperas dos quarenta, sinto-me cada dia mais livre para mostrar que o tempo vem. E que somos todas e todos filhos do tempo. Não escondo as rugas. Não escondo os cabelos brancos que pulam incontidos. Não maqueio a idade, mas abuso daquele batom vermelho que eu gosto e das unhas sempre coloridas. Vou gozando meus anos desimpedida da exigência de uma juventude que não se retém. Gozo meus quarenta, brindando a vida que chega à maturidade de ser colhida, como um fruto pronto para ser saboreado, vivo, suculento, farto. Tiro os sapatos e sento no pé da mangueira. Sinto o fruto escorrer um líquido doce pelos meus lábios. É hora da colheita.

Sorrio para a sociedade que nos esconde com suas belezas de photoshop, sempre ilusórias de juventude. A juventude passa. As mulheres envelhecem. E é tão bonito que não me machuco ao ver que as nossas belezas envelhecidas não cabem no padrão. Porque não tem padrão capaz de encapsular a beleza da vida. Os nossos olhos cheios de vivências, nossos quadris malemolentes de quem já viu e quer mais, de quem já está ali chegando no tutano e ainda tem apetite para saborear um tanto de vida. Não hesito em dizer que me sinto melhor hoje, aos quase 40, do que aos 20. Que os 20 foram fundamentais e muito divertidos, que os 30 foram de muito trabalho e reconstrução, e que os 40 são de mais liberdade.

Nada contra as plásticas, as tinturas, os botox, não. Como cada uma vai envelhecer é uma escolha pessoal. O problema essa fuga constante da morte, esse medo excessivo de ver as marcas do tempo, esse ocultamento da velhice, esse desvio do processo de envelhecer em busca de uma eterna juventude que nos machuca a medida que nos aproximamos dela. Ela, que nunca mais será a mesma. E que bom. Eu pretendo gozar esse envelhecimento olhando de frente pra ele, entendendo as transformações como parte desse rio que me banha por dentro. E eu quero toda essa vida. A de antes, a de hoje e a de depois. Com a beleza livre para poder envelhecer sem máscaras e sem medo de olhar para o tempo que não se retém. Porque a pele envelhece, mas a beleza é livre para crescer com o tempo. E como já disse a poeta, eu só quero saúde para gozar no final.

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Tempestade de Sol

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Rir-se. Rirmos. Nosso riso. Essas nossas risadas que sempre tomaram conta do quarto nas noites mais simples de meio de semana. Naquela quarta-feira qualquer. Mesmo sem cerveja, mesmo sem graça. Era bom. Rirmos. Risos de doer a barriga e soluçar de amor. Esse seu riso fácil que tomava conta dos meus olhos pequenos. Que me embalava o sono do seu colo grande, sempre cansada de tanto. Eu sempre tanto. Você sempre suavidade. Sempre esteio para meus pulos sem chão. Toda riso farto de braços abertos. Toda para me receber tanto.

Eu tive que acostumar com as suas lágrimas, que vieram de repente. Uma a uma, rio de espanto. A vida é de repente. E é de repente que. Aprendi a lamber o seu sal na ponta dos dedos. A enxugar a ponta de seus lábios com a minha língua. A dar colo para a sua dor. A ficarmos mudas de mãos dadas diante do espanto. Aprendi, enfim, que o amor também é triste. E que no riso tem um bocado de coisas não ditas que cheiram a lágrimas. E que é bom mesmo assim.

Aprendo. Com o tempo que não vem ligeiro para nos contar que é tudo mentira. Com a reinvenção desse riso mudo de dor. Com a impermanência de nossos respiros. Com uma serenidade estranha diante do que não se controla. A vida é sempre. E é nunca mais. Os dias passam e descolorem a memória de quem ainda somos. E a cada pincelada a nossa eternidade que não se apaga.

Na maquiagem borrada de nossos espelhos invertidos, reinventamo-nos. Amamo-nos. Adormecemos na brisa mansa de um riso que ainda vem. Como naquela noite em que você ria sozinha, sem saber porque. Aquele riso solto, tão nosso, tão sem motivo. Riso dos nossos desejos. Da nossa intimidade musical traçada nos pés sobre as cobertas. “Vai doer mas depois vai passar”, eu canto. Você sorri generosa, tecendo futuros nos meus cabelos afagados. E a gente floresce, na tempestade de sol desses dias de outubro. Um outubro qualquer a se perder no tempo das belezas, dessas que as retinas não filtram.

Despedir-se é sempre

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Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

Ciranda

Há um mês perdi uma tia muito querida, de maneira inesperada. Embora até já tenha adquirido um pouco de casca, essa morte me pegou de um jeito muito profundo, me deixando essa tristeza que ainda não consegui elaborar. Aí, me lembrei deste texto, que escrevi um ano atrás e que ainda não tinha publicado. Publico hoje, porque quero deixar registrado o quanto cresci cercada de mulheres incríveis! <3

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Minha família materna é enorme. Entre dois casamentos, meu avô teve 30 filhos! E, desse total, mulheres, muitas, muitas mulheres. Lindas, valentes, amorosas, debochadas, desbocadas, contraditórias (ô), gentis e com muito senso de humor. Mais que tudo, humanas.

Sob muitos aspectos, mulheres muito inspiradoras para todas nós, filhas e sobrinhas. Ainda que a figura do meu avô-que-mais-parece-personagem-de-livro seja mitificada entre a gente, sempre penso na minha como uma família na qual as protagonistas são elas e, mesmo em suas próprias famílias, elas parecem ser o centro no qual todo o mundo orbita.

Nos fins de semanas, essas irmãs costumavam se juntar para um lanche, hábito que ainda persiste, embora já com alguns desfalques (mortes e mudanças…) e, agora, pode ser em qualquer dia. E na prosa iam coando café e cosendo comidas, confissões, bolos, queixas, beiju, mágoas, cuscuz, conquistas, belezas e um levar-não-levar muito a sério a vida toda. Das gostosuras, só podíamos lamber o cheiro, com permissão pra comer depois, no rescaldo do fim da tarde.

Aquele era o momento delas. Quando muito, um prato nos era passado pelo buraco da fechadura. Ficávamos pelo quintal, brincando e espichando a orelha, porque nossa fome mesmo era do confessado. A minha, pelo menos, que sempre fui criança de curiar conversa de adulto.

Não me aguentava de vontade de me esgueirar pela fresta da porta, mas só me cabia mesmo imaginar o que elas tanto falavam naquelas confabulações vespertinas. O que me era impossível, obviamente. O que eu sabia da vida naquele então pra imaginar algo mais além que os dramas de “Pollyana”?

O “lanche das tias” era misterioso e meio intangível…

Um dia sai de lá e o evento virou um folclore delicado em mim. Até que, anos depois, numas férias na casa da minha mãe, elas apareceram, se enfiaram na cozinha, me convidaram e fecharam a porta. E, entre um causo e outro, em algum momento me distanciei da situação.

Foi quando me veio aquela compreensão quase das veias.

As minhas tias e a minha mãe me estavam dando a credencial para o mundo delas! O mundo das mulheres adultas da família. Naquele instante, naquele lanche, virei uma delas. Claro que em minha lógica de mulher sabida e estudada, que se outorga emancipada e senhora de si, eu já me tinha feito há bem mais tempo. Mas, estar no “lanche das tias”, falando de assuntos de tantas de nós, sendo acolhida por elas como uma igual, me emocionou um bocado. Agigantou-me.

Foi um encontro com aquela parte de mim torneada pelas histórias de vida daquelas mulheres tão formidáveis. Seus anseios, frustrações, dúvidas, desejos, renúncias, conquistas, crenças também diziam respeito a mim. Porque de mim dizem.

Numa metáfora bem obvia e super clichê, mas tão precisa, foi como se elas estivessem me entregando um retalhinho pra que eu também fosse aumentando o quadrado da colcha que sempre as manteve unidas e fortalecidas ao largo das dificuldades, agruras, quebrantos e bem-aventuranças. Foi um momento de muita alegria!

Lá estava eu, naquela espécie de maçonaria às avessas, na qual somente mulheres são bem vindas, sem grandes segredos seculares para esconder, mas ao mesmo tempo, sim. Algo só delas. Algo só nosso.

História de vó

Quando eu era criança, tinha tanto medo de que ela morresse que, todas as noites, antes de dormir, pedia pra ir antes, porque do contrário eu não ia aguentar. Minha avó Maria sempre foi uma das pessoas que mais amei na vida. Doce, divertida, carinhosa, tímida. E, ao mesmo tempo, firme, debochada, capaz de bons ardis pra conseguir o que queria.

Das histórias que adoro, uma das preferidas é a de seu voto escondido no PT do final dos anos 80, ainda que meu avô, fundador do Arena (!!!)  em Pirapora, minha cidade natal, estivesse crente que podia escolher por ela. Não podia. Ela sorria e aquiescia, mas na urna, sozinha, foi soberana e autônoma em sua escolha.

Não era especialmente quituteira. Não era dessas. Mas, sempre fez o melhor pão de queijo de todos! E um pavê de abacaxi maravilhoso, para ocasiões especiais. E nas vezes que não tinha nada em casa pra oferecer pras visitas, aparecia com uma jarra de limonada e bolacha de água e sal.

Uma vez, tentou me ensinar a fazer crochê. Tadinha. Tarefa insana e inútil. Nunca aprendi. Que nem ela era boa na função. Minha avó não era exatamente uma mulher prendada. Mas, me ensinou outras coisas. Coisas da vida. Reflexões atávicas sobre o racismo que sofreu, de tantas maneiras perversas, e que muitas vezes ela nem sabia bem o que era, embora soubesse que machucava. Que humilhava. Disso, ela nunca teve dúvida.

Lembro de histórias soltas, frases cruéis, que não repito porque não consigo. Lembro de algumas coisas…

E me lembro também de quando ela se juntava com seu irmão, meu tio Gino, e contava casos e cantava canções de antepassados que viveram em senzalas. Histórias que ela ouvia da própria avó, que foi quem a criou e a seus irmãos. E eu, tão criança, nem sabia direito o quão solene era aquele momento. O quão fundamental seria para a escrita da minha própria história.

Dizia-me “intiligente” e me mandava ler em voz alta os livrinhos das edições Paulinas, que ela assinava desde sempre. Achava bonitinho me ver pequena “lendo tudo certinho”. Não me catequizou. Mas, certamente, ajudou muito em minha oratória.

E me levava para o asilo público da cidade toda semana pra conversar com as velhinhas. Dando-me, do jeito dela, uma aula de generosidade, gentileza, entrega e um pouco de porvir. Tinha uma que colecionava bonecas. E aquilo me assustava. E me fascinava. Ficava pensando naquela senhorinha brincando com elas, e parecia não combinar. Realmente, eu não sabia de nada.

Minha avó também me deixava comer uva verde da parreira do quintal. Com sal. E depois me dava uma colher de ruibarbo, pros vermes. Era tão ruim, que chegava a ser bom. No final, virou um ritual nosso, só amargo no sabor na colherada. Remédio pros vermes também era carinho.

Uma vez, comentei que gostava de doce de figo. Coisa que só descobri grande, porque figo não era fruta comum em Pirapora na minha infância. E ela passou a me esperar com uma compota quando eu ia de férias. Às vezes, uma compota pequenininha, que cabia numa xícara, porque ela nem encontrava tanto figo assim. Mas, estava lá. Me esperando.

Com ela aprendi a palavra “malinar”. Dizia “menina malina!”, sem saber que ralhando fazia poesia.

Se estivesse viva, teria feito 93 anos no dia 9 de maio. Morreu tem quase 1 ano. Já eu, fico aqui, lembrando dos últimos anos, quando ela foi deixando a memória de lado, mas permitindo aflorar aquela rebeldia incubada, de quem sublimou tanto, por tantos anos. Os palavrões. Ah.

Acabei de voltar de Minas. A primeira vez, depois que a enterramos. E também a primeira vez que estive lá e não fui em sua casa, vê-la. Porque. E nessa vontade constante de contar historias de mulheres, quis falar um pouco sobre a minha avó.

 A música é porque ela adorava!!!

Mulher, de histórias e existências

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

De repente me perdi e me achei no site do Museu da Pessoa, que criou um especial somente com historias de mulheres. Segundo o próprio site, “Mulheres guerreiras que com amor, fé, esperança, determinação e muita luta triunfaram sobre os mais diversos obstáculos impostos pela vida.” Puro encantamento, saberes tradicionais, conhecimento ancestral, orgulho, altivez, picardia, liderança, charme e sabedoria.

Acabei passando horas ouvindo os relatos dessas mulheres e lendo as informações mais detalhadas publicadas na própria página, num link logo abaixo. Como a historia de dona Raiumunda Nascimento, rezadeira, curandeira, descendente dos povos Tremembé, mas também reconhecida como uma liderança do povo Tapeba. “Não tenho vergonha da minha historia.” Também me perdi e me achei com a de Valdenice Santos, lavadeira, que embalava sua lida entoando cantigas que aprendeu dos mais velhos e, hoje, integra o grupo “As lavadeiras de Almenara”.

Pra mim, esse coral é uma escola e cantar no palco, no meio dos colegas, é como uma formatura. Hoje em dia eu dou valor a tudo o que eu fiz. Porque o que eu fiz não é nada perdido: trabalhar na roça, ser cozinheira, bom, graças a deus. Voltar a passar a ser lavadeira (…). Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique.

Ou mesmo a de Maria José Carvalho, liderança que se destacou na ocupação de terrenos vazios no bairro onde mora, de Vila Maria, em São Paulo. Ela narra o processo de organização das ocupações e de negociação do movimento. “Não há cidadania sem luta”.

E dona Maria da Paz da Silva, que saiu de um relacionamento abusivo e se apaixonou outra vez? “Pretendo viver o resto da minha vida com ele.”

Coisa linda pra mim é mulher contando sua própria historia. Mulher se reconhecendo também como protgonista de suas conquistas e perdas e dores e afetos. Pra mim, toda historia é formidável e toda vida é uma biblioteca inteira de sentimentos, de amor, de terror, de frases transcendentes, de finais felizes ou inquietantes, de vários epílogos que se misturam, viram prólogos e ressignificam narrativas.

Foi bem nessa toada que me lembrei do MAMU – Mapa de coletivos de mulheres. Criado por Maria Carolina Machado, é um projeto de mapeamento de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos brasileiros que têm como foco as mulheres, o feminino, o feminismo, nossos ciclos, ritmos, reivindicações e lugares na sociedade.

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Em seis meses de existência, o MAMU tem cerca de 190 pontos mapeados. “É fundamental perceber que ele nunca estará completo, não é a sua função”, me conta Carol. “A ideia é que o mapa seja dinâmico, aberto e vivo, pronto para incluir cada coletivo e projeto formado e encontrado.”

O foco é a mulher e suas demandas, seja a de um coletivo, um movimento social, um projeto, um espaço ou uma iniciativa individual. Carol recebe vários pedidos de inclusão, no entanto, como ainda executa e desenvolve o MAMU sozinha, reconhece que pode ser um processo lento. “O desejo é que, num futuro próximo, esse mapeamento seja participativo e, com apoio e incentivo, possamos contar também com uma equipe para que esse processo de pesquisa, mapeamento e inclusão seja mais rápido e acessível.”

A expectativa é que o MAMU não seja apenas uma plataforma de visualização de pontos. “Queremos que esses grupos, ao se reconhecerem espacialmente, percebam suas afinidades, diversidade e façam conexões entre si.” Por isso, ela prevê a criação de campanhas de sensibilização, articulação, encontros e cursos que fomentem discussões, redes de troca de serviços, escambos e desenvolvimento de projetos.

“Desejo também que seja inspirador e motivador para o encontro de mais e mais mulheres, e a formação de mais e mais grupos.”

Se você conhece e quer indicar algum coletivo, movimento etc, é só ir no Cadastro do site e preencher os dados. Eles servirão de base para o mapeamento.

Chuá de saudades, Inezita

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher
inezita

Uma mulher não precisa ser feminista de carteirinha ou sem carteirinha para ser uma grande mulher. Basta ser apenas uma grande mulher. E no dia 8 de março, o dia em que se comemora e tal o tal dia, perdemos uma grande mulher, uma das maiores brasileiras que tivemos: Inezita Barroso.

E este post curtinho é só uma homenagem minha a ela, e uma homenagem indireta a outar grande mulher: minha mãe, Teresa, que me ensinou a gostar de música, de arte, de cultura e em especial de cultura brasileira. Me ensinou a amar o Brasil.

Ë engraçado como as músicas que embalam a nossa infância nunca são esquecidas, posso cantar as modas de viola todas de cor até hoje e elas me soam mais doces e mais lindas que todas as outras músicas que conheço.

Inezita era mais que a grande dama da música caipira, era uma grande dama da cultura de raiz brasileira. Apresentou por 35 anos o “Viola Minha Viola”  na TV Cultura aos domingos, som que sempre embalou a casa dos meus pais e dos meus avós. Além de cantora ela foi instrumentista, arranjadora, folclorista e professora.  E como toda mulher forte e admirável, a moça de família tradicional, Ignez Magdalena Aranha de Lima, teve de brigar e desgostar a família para seguir carreira artística, tendo se formado primeiramente em Biblioteconomia, na USp. Pelo seu trabalho como folclorista, e por ser uma enciclopédia viva da música caipira e do folclore nacional, recebeu o título de doutora Honoris Causa em Folclore pela Universidade de Lisboa.

Mas o certo é que, durante esses 35 anos, Inezita manteve acesa  a chama da cultura popular caipira brasileira. Uma grande mulher que fará muita falta em nosso cenário cultural e humano, pois era queridíssima de todos que a conheceram.  Em nome de tantas mulheres que fazem muito pelo país e jamais levantam a bandeira feminista é também o dia 8 de março, pois a luta às vezes também é feita de pequenos atos, como seguir em frente pela carreira que se ama, pela cultura que se ama. Esse post é também uma homenagem a tanta mulheres que sacolejam em ônibus lotados pelo pão nosso de cada dia. Talvez elas escutem pérolas do nosso cancioneiro popular nas poucas horas de folga e cantem sem saber que quem manteve vivas essas músicas foi Inezita. Tomara que novas Inezitas surjam dessa músicas que a gente canta.

 

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